A educação para o empreendedorismo como facilitador da inclusão social: um caso
no ensino superior
1. Enquadramento contextual do problema
Na era da informação, das novas tecnologias e da globalização têm vindo a
ocorrer um conjunto de mudanças com impactos no mercado de trabalho, e cujas
consequências resultam num aumento do desemprego e na diminuição dos salários
em alguns países. No caso da União Europeia (UE) um dos principais problemas
está relacionado com o aumento do desemprego. Neste sentido, a Estratégia de
Lisboa visa a aposta numa economia do conhecimento competitiva, capaz de um
crescimento económico sustentável que promova o emprego e a coesão social.
Apesar das políticas adoptadas, na sequência da Estratégia de Lisboa, o
desemprego na UE continuou a crescer ou a manter-se em níveis elevados em
vários Estados-Membros.
Nos últimos anos o Conselho Europeu não tem escondido a preocupação relativa
aos resultados da execução da Estratégia de Lisboa no que respeita à criação
de emprego. Assim a redefinição da Estratégia de Lisboa para 2020 prevê uma
focalização nas seguintes prioridades: (1) criação de valor baseado no
crescimento do conhecimento suportado na inovação; (2) desenvolvimento das
pessoas e sua inclusão na sociedade através da aquisição de novas competências,
desenvolvendo o empreendedorismo e promovendo a flexibilidade do mercado de
trabalho; (3) criação de uma economia competitiva, em rede e ambientalmente
responsável, aumentando a produtividade e gastando menos recursos.
Parece-nos que esta redefinição da Estratégia de Lisboa é crucial no momento
actual de crise económica onde muitos postos de trabalho se extinguem e não
foram substituidos por outros. Números recentes publicados pelo Instituto
Nacional de Estatística (INE) revelam, em virtude da crise, uma quebra no
número de trabalhadores por conta de outrém, assim como, nos trabalhadores por
conta própria. Os últimos dados do INE demonstram que no final do terceiro
trimestre de 2010 havia menos 40 mil pessoas a trabalhar por conta própria
comparativamente com o mês homólogo de 2009, representando uma baixa de 40 mil
casos. No que concerne ao nível de escolaridade do total de 1079 milhares de
trabalhadores por conta própria (trabalhadores isolados e empregadores), cerca
de 54% tem apenas o 1.º ciclo do ensino básico (449,8 mil) ou nenhum grau de
instrução (128,9 mil). Esta quebra verifica-se em todos os níveis de
escolaridade à excepção dos trabalhadores por conta prórpia que possuem curso
superior, onde se denota um saldo positivo de 600 novos trabalhadores por conta
própria, comparativamente ao ano anterior.
Neste contexto, a educação para o empreendedorismo torna-se premente como
instrumento potenciador da criação de emprego, e, por sua vez da inclusão
social.
1.1 Pobreza e exclusão social
A definição do problema em estudo exige uma abordagem conceptual sobre pobreza
e exclusão social. De acordo com a EUROSTAT (2010) a pobreza pode ser definida
de diferentes formas, sendo um fenómeno multidimensional, poderá ser
categorizada como pobreza relativa ou pobreza absoluta ou extrema. De acordo
com as Nações Unidas(1995) a pobreza absoluta ou extrema é caracterizada pela
privação severa das necessidades básicas humanas, onde se incluem, alimentação,
acesso a água potável, saneamento básico, saúde e segurança, educação e
informação, ou seja, o acesso a um conjunto de bens e serviços. De acordo com a
mesma fonte, enquanto a pobreza extrema afecta apenas grupos especificos na UE,
a pobreza relativa afecta um maior número de cidadãos europeus. Este tipo de
pobreza pode variar entre género, etnia, idade, tipo de familia, etc.
O relatório do INE (2010) refere que a conceptualização de pobreza como
violação de direitos humanos permite aperfeiçoar o conceito estatístico de
pobreza monetária, complementando-o com a noção de privação em relação a
necessidades humanas fundamentais, tais como, a alimentação, a habitação, a
educação, a saúde, a segurança, a participação na vida económica e cívica e
alargando o domínio de observação a toda a população residente, vivendo ou não
em agregados familiares.
O conceito de exclusão social de acordo com o EUROSTAT (2010) está relacionado
com a impossibilidade de participação em diversos domínios da cidadania. Este
conceito é complexo, multidimensional, multifacetado e dinâmico e pode ser
definido como o processo através do qual certos indivíduos são marginalizados
da sociedade e excluídos da participação social plena, em virtude da pobreza,
falta de competências básicas, falta de oportunidades ao longo da vida em
resultado da discriminação social. Em virtude deste processo, estes indivíduos
estão afastados do mercado de trabalho, de fontes de riqueza, de oportunidades
de educação e da comunidade. A exclusão social pode ser entendida como a fase
extrema do processo de marginalização, entendido este como um percurso
descendente, ao longo do qual se verificam sucessivas rupturas na relação do
indivíduo com a sociedade (Costa, 2001, p.10).
1.2 Educação para o empreendedorismo e inclusão social
No âmbito da UE a promoção do desenvolvimento das pessoas e sua inclusão na
sociedade através da aquisição de novas competências, desenvolvendo o
empreendedorismo e promovendo a flexibilidade do mercado de trabalho são
considerados factores estratégicos para o desenvolvimento sustentável.
As opções estratégicas da UE para a promoção de um novo modelo de
competitividade da economia europeia assente na criação de novas oportunidades
(ligadas ao ambiente, novas tecnologias, etc.) que podem gerar novos postos de
trabalho e reduzir o desemprego. A transição para o novo modelo obriga a uma
preocupação com as pessoas de modo a evitar situações de inadaptação que por
sua vez podem originar exclusão social. As próprias alterações no mercado de
trabalho levam a que o percurso linear seja menos comum (educação, período de
vida activa e reforma) passando a haver diversas entradas e saídas do mercado
de trabalho. Este novo modelo exige novas competências e aprendizagem ao longo
da vida, no sentido de garantir a flexi-segurança, e, em simultâneo, a inclusão
social. As instituições de ensino superior deverão estar preparadas para este
desafio oferecendo formação, através de programas curriculares e ou extra-
curriculares e de cursos breves destinados a estes novos públicos,
salvaguardando o seu papel para o apoio à criação do próprio emprego.
É ponto assente que o emprego é a melhor salvaguarda contra a pobreza e
exclusão social, face à crise, a criação de emprego não origina postos de
trabalho para todos, justificando-se uma intervenção directa ao nível das
políticas de promoção da criação do próprio emprego. Neste âmbito, as
instituições de ensino podem desempenhar um papel relevante na educação para o
empreendedorismo promovendo o desenvolvimento de competências e de metodologias
que permitam que os estudantes se tornem mais empreendedores, ao mesmo tempo
que se inculca uma cultura mais empreendedora a nível organizacional.
A educação para o empreendedorismo segundo Hansemark (1998) pode ser definida
como a educação com o objectivo de criar um novo produto ou serviço, com valor
económico, particularmente dirigido a pequenas empresas, ao auto-emprego e ao
desenvolvimento de novas competências. De acordo com Aiub (2002) a educação
para o empreendedorismo promove a criação de ambientes que estimulam
comportamentos sociais voltados para o desenvolvimento da capacidade de geração
de auto-emprego.
Jamieson (1984) sugere três categorias para o ensino e formação em
empreendedorismo: i) Educação sobre a empresa, onde o principal objectivo é
aumentar a consciência sobre a criação da nova empresa; ii) Educação para a
empresa, onde a aprendizagem é centrada nas atitudes e associadas à criação e
gestão de novos empresas, principalmente aqueles relacionados com as questões
de gestão e de criação de um novo negócio; e iii) Educação na empresa, sendo o
alvo estabelecido por empresários. O objectivo principal é melhorar a gestão
das competências individuais para promover a sustentabilidade dos negócios.
A Comissão Europeia (2003) defende que não basta apenas promover a aquisição de
conhecimentos técnicos e formação profissional, é também necessário estimular o
espírito empresarial e a ambição de se tornar um empreendedor. Experiências
desenvolvidas na Europa apresentadas por Hytti e Gorman (2004) permitiram
identificar algumas dimensões básicas no ensino do empreendedorismo: (i)
educação para atitudes e competências empreendedoras; (ii) a formação de como
criar um negócio; e (iii) a sensibilização para o empreendedorismo como uma
opção de carreira. Os módulos de formação para desenvolvimento dessas
categorias centram-se essencialmente no desenvolvimento das competências de
gestão, incluíndo o financiamento, contabilidade, tecnologias de informação e
comunicação, marketing, recursos humanos ou de outras áreas funcionais. Além
disso, o desenvolvimento de competências associadas às atitudes favoráveis ao
empreendedorismo incluem, entre outras, a assunção de riscos, a liderança, a
auto-confiança, a criatividade e a resolução de problemas.
A análise de alguns cursos de instituições de ensino superior, permitiu
verificar que na grande maioria dos casos a formação está concentrada no
desenvolvimento de competências funcionais e no plano de negócios (Ribeiro et
al, 2005). Outro tipo de cursos, programas e cursos de formação em toda a
Europa (Henry et al, 2003; Ribeiro et al, 2005), oferecem um tipo mais
difundido de módulo de formação combinando competências pessoais e funcionais,
mas em todos eles o objectivo é desenvolver um plano de negócios.
Segundo McMullan e Gillin (2001) a educação para o empreendedorismo pode ser
uma proxy para um indicador de sucesso da economia baseada em: i) O número de
pós-graduados para começar um negócio; ii) Indicadores sobre o tamanho do
negócio em termos de emprego, vendas e talvez até mesmo o tipo de indústrias e
iii) Indicadores de crescimento. Outro indicador relevante poderia ser o
sucesso individual, que pode ser medido em termos de salário, mais-valias e
benefícios não tangíveis, tais como, a satisfação de mudar de emprego depois do
programa de formação (McMullan & Gillin, 2001).
Nos últimos anos em diversos países surgiram modelos e experiências que relatam
a aplicação de programas promotores do empreendedorismo. Partindo-se do
pressuposto de que o empreendedorismo e as competências a ele inerentes não são
algo exclusivamente intrínseco ao ser humano, mas que podem ser aprendidas e
influenciadas pelo ambiente e estímulos externos, que vão desde os círculos
mais restritos da família e amigos até às instituições onde os indivíduos se
inserem, e mesmo ao contexto nacional e regional do campo de actuação de cada
um, este estudo apresenta ainda um modelo conceptual, denominado, ecossistema
empreendedor, o qual explicita a criação de um contexto favorável ao
empreendedorismo no ensino superior.
2. Um caso no ensino superior
Em Portugal, à semelhança dos restantes países da União Europeia, a taxa de
desemprego registou aumentos ao longo do ano de 2010. De acordo com os últimos
dados estatísticos do Banco de Portugal (2010) esta taxa atingiu em Outubro de
2010 o valor de 11%. O desemprego atinge de forma diferenciada alguns grupos,
nomeadamente os jovens à procura do primeiro emprego e as mulheres.
Considerando a taxa de escolaridade entre o 2º trimestre de 2010 e o 3º
trimestre de 2010, o número de desempregados com o ensino básico diminuiu de
427,2 mil para 418,6 mil (-2%), enquanto o número de desempregados com o ensino
secundário aumentou de 106,2 mil para 122,3 mil (+15,2%) e os com ensino
superior subiu de 56,4 mil para 68,9 mil (+21,7%).
No que concerne ao distrito de Setúbal, os dados divulgados pelo Instituto do
Emprego e Formação Profissional de Setúbal (2010) relativamente a Abril de
2010, apontam para um total de 51.478 desempregados inscritos nos centros de
emprego do distrito de Setúbal, na sua grande maioria à procura de um novo
emprego. No concelho de Setúbal, dos 7.331 desempregados, 5231 estão nesta
situação há menos de um ano e 766 procuram um novo local de trabalho sendo, da
totalidade, somente 265 que estão em busca do seu primeiro emprego. O cenário é
semelhante nos restantes concelhos do distrito. No que respeita à idade dos
desempregados, verifica-se que o grupo etário entre os 35 e os 54 anos é o mais
atingido, seguindo-se a faixa etária entre os 25 e os 34 anos.
Face a este cenário, onde a taxa de desemprego atinge particularmente os jovens
à procura do primeiro emprego e aos números registados no distrito de Setúbal
onde se localiza o Instituto Politécnico de Setúbal (IPS), torna-se premente
encontrar soluções e apostar na formação dos jovens de modo a que estes
obtenham conhecimentos e competências necessárias à criação do seu próprio
emprego. Considerando-se a atractividade do IPS na oferta formativa no distrito
e o risco associado ao desemprego dos jovens, impõe-se a oferta de programas e
infraestruturas que permitam auxiliar este público a ultrapassar eventuais
situações de dificuldade na inserção no mercado de trabalho, e, por
conseguinte, o risco de exclusão social.
Face ao exposto, o IPS apostou na disponibilização de um conjunto de recursos
cujo objectivo é a promoção da criação de um ambiente favorável ao
desenvolvimento de competências empreendedoras junto dos estudantes através da
oferta concertada de formação e recursos num modelo que se poderá nomear como
um ecossistema empreendedor. De acordo com Carvalho, Costa e Dominguinhos
(2010), a criação deste ecossistema favorece a aquisição de competências
empreendedoras no ensino superior, ou seja, a educação para o empreendedorismo
deverá ter um carácter transversal que vai para além da inclusão de unidades
curriculares nos cursos, abrangendo diversos programas e iniciativas
curriculares e extracurriculares que envolvem alunos, docentes e meio
envolvente. Neste sentido, o IPS oferece um conjunto de valências, que vão
desde as infraestruturas físicas (Oficina de Transferência de Inovação e de
Conhecimento ' OTIC), a programas de ensino (Unidades Curriculares de
Empreendedorismo em licenciaturas, pós-graduações, cursos de especialização pós
licenciatura e aulas abertas) a programas extracurriculares (Poliempreende;
Junior Achievement, conferências, seminários e workshops) até parcerias e
programas internacionais (Business Week Entrepreneurship).
Segue-se a apresentação dos recursos físicos de apoio ao empreendedorismo, e os
programas curriculares e extracurriculares de promoção do empreendedorismo.
2.1 Recursos físicos de apoio ao empreendedorismo
O IPS desenvolveu algumas infra-estruturas físicas de apoio ao
empreendedorismo. A OTIC-IPS - Oficina de Transferência de Tecnologia e
Conhecimento do IPS é um serviço de interface que tem como principais
objectivos a criação de relações de cooperação entre o tecido empresarial e o
IPS, assim como estimular a promoção do empreendedorismo e da criação de
empresas.
Esta infra-estrutura desenvolve e promove a transferência de ideias e conceitos
inovadores para o tecido empresarial, procurando auscultar as necessidades
empresariais e propor soluções com base nas competências existentes no IPS.
As principais linhas de acção da OTIC-IPS consistem em (1) divulgar a oferta
tecnológica e científica do IPS e das suas unidades orgânicas; (2) prestar
apoio técnico-científico às pequenas e médias empresas sedeadas na região de
Setúbal; (3) desenvolver projectos I&D e de actividades de transferência de
tecnologia em parceria com as empresas; (4) organizar ciclos de eventos
dedicados ao empreendedorismo, à transferência de tecnologia e à cooperação
internacional (seminários, congressos, reuniões); (5) apoiar a promoção do
empreendedorismo, cujo principal instrumento é o Poliempreende.
As várias (mais de duas dezenas) de OTIC's ligadas a Universidades e Institutos
Politécnicos em Portugal constituem entre si uma rede de informação apoiando-se
mutuamente na busca das melhores respostas aos problemas que vão surgindo no
desenvolvimento das suas actividades. Esta rede tem, simultaneamente acesso a
redes internacionais onde a troca e partilha de informação constituem uma mais-
valia de interesse mútuo. A OTIC oferece apoios:
• infra-estruturas;
• serviços de secretariado;
•serviços de consultoria;
• apoio para a procura de parceiro para o desenvolvimento dos projectos.
• Em 2008 foi criado o Activlab ' Laboratório Activador de Empresas. Este
espaço foi criado com o objectivo de dar apoio, quer a estudantes quer a
docentes do IPS que desejem testar uma ideia de negócio ou criar a sua empresa.
O ActivLab disponibiliza aos seus utilizadores e empreendedores espaço físico,
infra-estruturas e serviços, proporcionando-lhes a inserção num ambiente
empresarial, estimulador da interacção e aprendizagem, consideradas como
indispensáveis para o êxito de um projecto. Adicionalmente, é facilitado o
acesso a profissionais especializados nas variadas valências técnicas e de
gestão dos quadros de pessoal do IPS, promovendo a transferência de
conhecimento, tecnologia e inovação.
O ActivLab trabalha em estreita cooperação com a OTIC, e os empreendedores
podem também beneficiar da rede de contactos formais e informais desta infra-
estrutura.
2.2 Programas de educação para o empreendedorismo
O IPS foi criado em 1979 e tem como missão a valorização e desenvolvimento da
sociedade em geral e da região de Setúbal, em particular, através de
actividades de formação terciária, de investigação e de prestação de serviços,
que concorram para a criação, desenvolvimento, difusão e transferência de
conhecimento e para a promoção da ciência e da cultura. Actualmente é
constituído por 5 Escolas Superiores (Tecnologia de Setúbal, Educação, Ciências
Empresariais, Tecnologia do Barreiro e Saúde), pelos Serviços de Acção Social e
pelos Serviços Centrais.
O IPS, no ano lectivo de 2007-2008 tinha 6371 estudantes, 505 docentes e
oferecia, 32 licenciaturas e 19 mestrados. O empreendedorismo constitui-se como
um dos vectores estratégicos do IPS. A Escola Superior de Ciências Empresarias,
pela sua área de actuação foi a primeira a oferecer a unidade curricular de
empreendedorismo inserida com carácter obrigatório ou opcional (consoante os
cursos nas 5 licenciaturas e no módulo internacional dedicado a estudantes
Erasmus desde 2008). Actualmente esta unidade curricular é também oferecida em
algumas licenciaturas em outras escolas, nomeadamente na Escola Superior de
Tecnologia do Barreiro (2006), na Escola Superior de Tecnologia de Setúbal
(2010) e na Escola Superior de Educação de Setúbal (2008) e nos cursos de
especialização pós licenciatura em enfermagem da Escola Superior de Saúde
(2010) e ainda na pós-graduação em Empreendedorismo e Inovação oferecida pela
Escola Superior de Ciências Empresariais em parceria com a Universidade de
Évora (desde 2009).
O ensino do empreendedorismo, particularmente nos cursos de licenciatura é
suportado numa abordagem aprender-fazendo, em particular nas aulas práticas.
Nas aulas teóricas adopta uma abordagem mais expositiva combinada com aulas
abertas e participação em seminários. Destacam-se ainda a organização de
eventos, nomeadamente:
1. as conversas de final de tarde com empreendedores, cujo objectivo consiste
na promoção da partilha de experiências entre empreendedores e estudantes que
possam ser fonte de aprendizagem e facilitem o contacto com o mundo real;
2. a actividade denominada por Empreendedor por um dia, cujo desafio é a
criação de um mini-negócio e onde os lucros da actividade revertem a favor de
Instituições Particulares de Solidariedade Social do distrito de Setúbal.
A metodologia aprender-fazendo permite aos estudantes a aquisição de
competências empreendedoras através do desenvolvimento de dinâmicas de grupo
(quadro 1).
Quadro 1. Competências e actividades desenvolvidas
Adicionalmente à oferta curricular em empreendedorismo, existe um conjunto de
ofertas extracurriculares onde os estudantes podem participar de forma
voluntária. Dois dos programas de empreendedorismo de participação voluntária
com maior adesão no IPS são: a) European Graduate Program da Junior Achievement
(JA Portugal ' Associação Aprender a Empreender), e; b) Poliempreende, Concurso
Nacional de Planos de Negócio dos Institutos Politécnicos.
A Associação Aprender a Empreender ' Junior Achievement Portugal(JA Portugal) é
uma organização sem fins lucrativos, fundada em Setembro de 2005. Esta
associação desenvolve e promove o empreendedorismo, a assunção do risco, a
criatividade e a inovação.
A Aprender a Empreender é financiada pelos seus associados que acreditam que
a educação é uma importante fonte de riqueza e que investem e promovem a
formação, o espírito empresarial e empreendedor nos jovens, concedendo-lhes a
oportunidade única de se desenvolverem. O principal objectivo desta associação
é pois, consciencializar os jovens para a importância de Aprender a
Empreender. Pretende esta associação, fomentar uma atitude enriquecedora e
potenciar a capacidade de se reinventar, através do erro e da aprendizagem,
estimulando auto-confiança para enfrentar novas situações cada vez mais
importantes e difíceis, em várias dimensões/áreas como a cidadania, consciência
activa, ética, literacia financeira e desenvolvimento da vida profissional.
Esta associação é a congénere portuguesa da Junior Achievement (JA), criada em
1919, nos E.U.A, a maior e mais antiga organização mundial educativa, sem fins
lucrativos. Presente em 124 países, a Junior Achievement contribui para o
desenvolvimento da educação empreendedora nos jovens de todo o mundo.
O Graduate Program, é apoiado e orientado por professores do IPS e por tutores
voluntários do Banco Millenium BCP e visa fornecer uma formação empreendedora a
estudantes do ensino superior. Através da criação, gestão e operacionalização
de uma empresa fictícia, os estudantes têm a oportunidade de aprender sobre a
estrutura do sistema empresarial. Todos os estudantes do Graduate Program têm a
oportunidade de desenvolver aptidões relacionadas com a comunicação, tomada de
decisão, organização, negociação e gestão de tempo.
As equipas, constituídas por alunos do ensino universitário e politécnico
(ISCTE, UNL, ISEG, UP, IPS-ESCE), são avaliadas por um sumário executivo e por
uma apresentação em palco de 4 minutos. Os critérios de avaliação mais
relevantes são a aplicabilidade, a inovação, o potencial de mercado e a
sustentabilidade da Mini-Empresa.
O segundo projecto extra curricular, é o programa Poliempreende, com forte
orientação para a comunidade académica dos Institutos Politécnicos, favorece a
participação de estudantes, docentes e diplomados que concorrem com ideias e
planos de negócio transversais a um conjunto de áreas de saber, valorizando o
desenvolvimento pessoal dos participantes através de experiências, práticas e
resultados, nomeadamente através do estímulo à constituição de equipas
multidisciplinares. A dinâmica do PoliEmpreende é aberta e interage com as
regiões onde se inserem os Politécnicos, facilitando a transferência de
tecnologia.
Pretende este projecto promover o empreendedorismo e a cooperação e partilhar
objectivos, estratégias, recursos e resultados entre instituições. Assim,
especificamente, o Poliempreende incentiva:
• mudança de atitudes dos actores académicos: sensibilizando alunos, docentes e
diplomados; aprofundando competências pessoais e empresariais;
• estimulo à criação de empresas de base tecnológica: explorando,
economicamente, conhecimentos, competências e resultados de investigação;
fixando quadros qualificados nas regiões;
• desenvolvimento e aproveitamento dos recursos endógenos de cada região onde
os politécnicos actuam: explorando oportunidades que os territórios possuem;
desenvolvendo a economia local.
O Poliempreende inclui dois ciclos formativos, Oficina E e Oficina E2. Estes
ciclos desenrolam-se ao longo do ano lectivo e encerram, respectivamente, com o
concurso de ideias de negócios e com o concurso de planos de negócios.
A Oficina E (Empreendedorismo) com uma orientação prática (hands-on) fomenta o
desenvolvimento pessoal (mudança de atitude, iniciativa, tomada de decisões,
lidar com a incerteza e o risco, criatividade e inovação, persuasão e
negociação, comunicação oral e escrita) e oferece uma primeira abordagem em
torno do empreendedorismo, alertando os participantes para a relevância da
envolvente, detecção de oportunidades e inovação competitiva.
A Oficina E² promove igualmente o desenvolvimento de competências que permitem
o desenvolvimento pessoal, como liderança, comunicação, valorização do trabalho
de equipa, ética, deontologia e cultura organizacional mas, nesta fase,
orientadas para a estruturação, desenvolvimento e consolidação do projecto de
negócio, com o objectivo dos participantes elaborarem um plano de negócios.
A avaliação dos planos de negócio, cuja parte financeira segue o modelo do
IAPMEI, decorre em duas fases. Na primeira fase, fase regional, um júri, em
cada Instituto Politécnico, avalia os respectivos projectos e atribui os
prémios regionais. Na segunda fase, o júri nacional avalia o melhor projecto de
cada IP e atribui os prémios nacionais.
Este projecto é um caso de sucesso que possibilitou a participação de todas as
instituições dum mesmo subsistema do ensino superior público num projecto
comum.
Para além dos programas curriculares e extracurriculares oferecidos o IPS leva
a cabo um conjunto de iniciativas em parceria com outras entidades públicas e
privadas. Dentro dessas iniciativas podem-se elencar:
• Feira do Empreendedorismo e do Emprego do Barreiro em organização conjunta
entre a Escola Superior de Tecnologia do Barreiro, a Escola de Ciências
Empresariais e a Câmara Municipal do Barreiro. Este evento teve lugar nas
instalações da Escola Superior de Tecnologia do Barreiro. Esta iniciativa
pretendia criar uma bolsa de emprego e oferecer formação complementar em
empreendedorismo aos estudantes do IPS e comunidade envolvente, bem como,
oferecer um conjunto de seminários sobre empreendedorismo abertos à comunidade
e com forte participação das escolas do ensino secundário da região;
• EmpreendESCE é promovido pela Escola Superior de Ciências Empresariais em
parceria com a empresa Sfori e trata-se de uma competição de empreendedorismo
destinada a trazer ao espaço do IPS alunos do ensino secundário do distrito de
Setúbal;
• RoadShow do Emprego e Empreendedorismo promovido pelo Instituto Português da
Juventude, cujo objectivo consiste em facultar e divulgar, aos jovens entre os
18 e os 35 anos com potencial empreendedor, informação de diferentes organismos
públicos, gestores de programas e iniciativas na área do empreendedorismo
jovem, tais como, os programas e iniciativas dedicados ao tema do emprego e do
empreendedorismo, aconselhando os interessadas a candidatar-se ao Programa
FINICIA 1Jovem/ou outros Programas de apoio ao empreendedorismo jovem.
2.3 Um ecossistema empreendedor
Conforme referido anteriormente, o ensino do empreendedorismo deverá assumir um
carácter transversal nas instituições do ensino superior e incluir para além
das infra-estruturas físicas de apoio, um conjunto de programas curriculares e
extracurriculares que favoreçam a criação de um ambiente envolvente propício.
Falamos assim, de um verdadeiro ecossistema empreendedor2(Carvalho, Costa e
Dominguinhos, 2010), que favoreça o desenvolvimento e adaptação de
competências, a disseminação do conhecimento e tecnologia contribuindo para o
desenvolvimento da região ou do país (consoante o nível de disseminação que foz
capaz de criar). O conceito de ecossistema aplicado às ciências sociais inclui
um conjunto de recursos tangíveis e intangíveis que se caracterizam pela sua
interdependência e pela criação de sinergias.
Nesse sentido, ele será tão mais intenso e complexo conforme a capacidade de
criação de ligações. Na figura seguinte, apresenta-se o ecossistema
empreendedor do IPS.
Figura 2. Ecossistema Empreendedor no IPS
O ecossistema IPS permite mobilizar um conjunto de recursos de suporte aos
projectos empreendedores possibilitando dessa forma uma utilização eficiente
dos recursos internos e disponibilizando um conjunto de competências mais
alargado. Desta forma, o ecossistema empreendedor funciona como um sistema
mobilizador de capital social que através da sua rede potencia a possibilidade
de sucesso dos projectos apoiados.
3. Conclusões e recomendações finais
Os novos tempos oferecem novas realidades ao ensino, e, consequentemente, novos
desafios na integração dos jovens no mercado de trabalho. Estas mudanças exigem
novos esforços por parte das instituições de ensino no sentido de facilitar a
inserção no mercado de trabalho e colmatar o risco de exclusão social
decorrente do desemprego e falta de acesso a rendimentos.
Este artigo permite apresentar um enquadramento do sistema económico e social
actual no contexto da União Europeia, considerando os conceitos de pobreza e
exclusão social, relacionando-os com educação para o empreendedorismo e
apontando a importância do ensino para o combate do risco social de desemprego.
Para demonstrar o papel do ensino superior na promoção do empreendedorismo ao
serviço da inclusão social, este estudo apresenta um caso de criação de um
ecossistema empreendedor, facilitador da inserção social e profissional dos
diplomados.
Este trabalho permite apontar algumas conclusões que consideramos relevantes e
que podem constituir exemplo de boas práticas passíveis de disseminação noutras
instituições de ensino superior. Este trabalho possibilita concluir que existe
uma relação de interdependência entre o incentivo do empreendedorismo e a
disponibilidade de infra-estruturas e o desenvolvimento e oferta de programas
curriculares e extra-curriculares, assim como de outras boas práticas
impulsionadoras do empreendedorismo.
A reflexão relativa ao processo de encorajamento do empreendedorismo no IPS
revelou a complexidade deste processo e a sua permanente necessidade de
manutenção, obrigando a uma constante dedicação ao seu estímulo, o que envolve
um grande empenho e espírito de voluntariado quer por parte dos alunos quer por
parte dos professores.
Finalmente, considerando-se que as instituições de ensino superior podem
continuar a desempenhar um papel importante, mesmo após a conclusão do ciclo de
estudos, parece-nos que o acompanhamento dos percursos profissionais, a
prestação de apoio especializado, de serviços de consultoria, de infra-
estruturas, de espaço e de rede de contactos constituem passos importantes para
a promoção do empreendedorismo no sentido inclusivo, isto é, fomentando a
possibilidade de criação do próprio emprego e de inclusão social.
Como recomendações finais, propõe-se que as instituições de ensino superior
possam criar redes com ligações nacionais e internacionais e fomentar a
utilização de recursos partilhados, de modo a garantir ganhos de eficiência e
uma maior especialização na prestação de serviços e uso de recursos de suporte
ao processo empreendedor.
Considera-se ainda fundamental que o ecossistema empreendedor mantenha fortes
laços com a comunidade para que a relação seja biunívoca e possa ser gerado
valor social, quer através de projectos voltados para a satisfação de
necessidades sociais da comunidade, quer através da criação de auto-empregos
reduzindo-se dessa forma riscos sociais e promovendo a inclusão e coesão
social.