A função inalienável das Artes Visuais. Reflexão a duas vozes
Este texto constitui um debate sobre a função da arte, entre dois professores
com diferente formação de base (Maria Constança Vasconcelos com formação
específica em Artes Visuais e José B. Duarte em Ciências da Educação). Ambos
evocam o apoio que diversas obras de arte lhes proporcionaram em diferentes
momentos da vida. E por ambos é sublinhado como a história da expressão
criativa está ligada à história da luta pela liberdade e pela democracia, uma
luta que se insere numa visão da arte como fundamental recurso ao serviço da
aspiração a um mundo mais feliz e fraterno. Os autores fazem ainda uma reflexão
em torno da integração das artes e dos outros saberes, pois, se o objectivo
final da educação é a ativação do potencial cognitivo do aluno, terá de haver
maneiras de integração que evitem as perspectivas compartimentalizadas
existentes. Por isso, no plano epistemológico, o artigo pretende constituir uma
tentativa de interdisciplinaridade, algo julgado por todos como fundamental
numa universidade, mas pouco posto em prática. No final, os autores desafiam o
leitor para uma pedagogia crítica como orientação de outros saberes e também
das artes.
The arts construct representations of the world, which may be about
the world that is really there or about the imagined worlds that are
not present, but that might inspire human beings to create an
alternative future for themselves. Efland (2002, p. 171)
Arte como inspiração para um futuro diferente
J.B.Duarte:
O ensino das artes visuais (e das outras artes…) tem sido remetido para um
plano de secundaridade nas nossas escolas. Importa refletir sobre as
potencialidades das artes visuais numa outra possível integração no currículo.
A proposta de Efland, em epígrafe, traz à minha consciência o efeito que alguns
quadros tiveram na visão-do-mundo da minha geração. Por exemplo o quadro
Guernica de Picasso. Nos anos sessenta, em tempos de greves académicas, em que
pequenos jornais clandestinos passavam de mão em mão com reflexões sobre
questões académicas e políticas, aquele quadro, em reproduções amplas nos
nossos quartos de estudante ou em pequenas reproduções guardadas em livros, era
um expoente fundamental da nossa reflexão sobre a vida.
Esse quadro era um expoente da nossa contestação, pois sentíamos na pele o
grave e preocupante problema da guerra colonial - que iria roubar a alguns de
nós quatro anos de vida - e víamos colegas voltarem com pernas amputadas ou
sabíamos da morte de amigos em terras africanas. Naquele quadro, por sobre
figuras humanas destroçadas, olhávamos a metáfora do touro como símbolo dos
poderes ditatoriais da época e sentíamos que resistir-lhe de todas as maneiras
era imperativo de consciência. Esses sentimentos, expressos nos olhares e nas
meias palavras, eram depois verbalmente clarificados pelas canções de Adriano:
"Há sempre alguém que resiste! Há sempre alguém que diz não". Em
suma, se as palavras da canção eram claras, aquele quadro era também uma
referência fundamental da nossa representação da realidade. Um outro pintor
profusamente reproduzido nos nossos ambientes era Dali, cujo surrealismo era
sentido de modo existencial, como se os relógios com ponteiros distorcidos
fossem um apelo à nossa fuga à "normalização" imposta pelo poder. E,
menos numerosas, havia também reproduções de obras de Chagal, com pares
amorosos a voltejarem no espaço, a lembrar-nos que, como diz Efland, era
possível uma alternativa…
M.C.Vasconcelos:
A história da expressão criativa está ligada à história pela liberdade, pois há
uma ligação entre o estado da expressão artística e o estado de democracia
(Pujol, E. 2009). Os ditadores sempre odiaram as artes, não só porque as artes
apresentam múltiplas interpretações ou soluções para um mesmo tema ou problema,
uma vez que projectam sempre uma visão individual e única do mundo, como também
pelo fato de não apresentarem apenas o que existe, mas o que poderia ser ou que
gostaríamos que fosse. Este quebrar as barreiras da realidade, proporcionando
"aventuras de significado", ajuda-nos a compreender os mistérios da
vida que a ciência não chega para explicar e tem muitas vezes um carácter
revelatório, mostrando-nos novas dimensões. Ao fomentar a imaginação e a
criatividade as artes permitem aceitar desafios que podem melhorar as nossas
vidas. A frase de Ricoeur em Dickinson (2005) é abrangente e sintética:
"The arts offer us models for the redescription of the world. They attach
us to others, to our history, and to ourselves by providing a tapestry rich
with threads of time, place character and even advice on what we might do with
our lives.
Limitar, portanto, a educação ao desenvolvimento de capacidades verbais e
matemáticas é extremamente redutor do potencial humano, pois as artes permitem
desenvolver diferentes tipos de cognição como a teoria de Gardner das
inteligências múltiplas defende. Sendo as artes um fenómeno social e cultural
de carácter universal, um subsistema da cultura e sendo as escolas, meios
privilegiados de cultura, o lugar das artes na educação, é, como se diz no
título, inalienável, embora tantas vezes menosprezado por incompreensão da sua
importância no desenvolvimento humano. Fowler (2001, pp. 9-13) resume muito bem
o papel das artes: ensinam apensar receptivamente, desenvolvendo a
sensibilidade e consciência; pensar esteticamente sendo que a consciência
estética como modo de nos relacionarmos com o mundo permite a referência da
arte para outros aspectos da vida; ensinam a pensar criativamente, pois a
ambiguidade das formas de expressão simbólica requer um pensamento de ordem
superior; e a pensar comunicativamente, pois sendo todas as formas de arte,
meios de comunicação, dão acesso ao ser expressivo e comunicativo e à
participação na criação do seu próprio mundo. Sendo linguagens da civilização
através das quais contamos as nossas vidas, são também formas de comunicação
que nos dão acesso à sabedoria armazenada dos tempos; assim ensinam a pensar
culturalmente, pois estabelecem uma relação básica entre o indivíduo, a herança
cultural e a família humana. As fundações para a paz entre pessoas dependem da
interconexão cultural, partilhar criações artísticas entre culturas é partilhar
os nossos valores mais profundos.
Por outro lado, a importância da "visualidade" no mundo contemporâneo
é avassaladora. Fala-se do incremento de analfabetos visuais, apelando para a
reestruturação da escola e das universidades de modo a ensinar uma
"gramática visual" (Hernandez, 2005). Esta questão tem produzido um
dos debates mais criativos dos últimos tempos como diz Hernandez (2005, p. 89):
Un debate que ha dado lugar a programas de investigación en la teoria
crítica contemporánea, la filosofía postmoderna, la teoria estética,
la deconstrucción y los estudios culturales, en torno de la
´visualidad´, haciendo de él uno de los temas centrales en el
pensamiento crítico contemporáneo.
Currículo: um caminho de pensamento e acção
J.B.Duarte:
Das condições para fazer o melhor possível o percurso escolar sempre se ocupou
a pedagogia ou a educação, com conceitos como metodologia de ensino, estratégia
de ensino, e outros. Aliás, na literatura pedagógica francesa o termo currículo
é pouco frequente. E é curioso lembrar que "currículo" foi adoptado
entre nós através da literatura pedagógica de língua inglesa, mas é de origem
latina (de currus, carro e currículum ou curriculus, ou seja, o percurso que um
cavaleiro com seus cavalos e carro fazem no hipódromo). Mas é de reconhecer que
a "literatura curricular" trouxe preocupações que enriqueceram a
reflexão pedagógica. Por exemplo, a questão de saber quais as
"fontes" ou perspectivas a ter em conta ao construir um currículo (o
saber, o aluno, a sociedade) ou de discutir se o currículo pode ser neutro,
como pretende Kelly (1980), ou se existe uma relação do currículo com o(s)
poder(es), como propõe Apple (1997).
Organização e Desenvolvimento Curricular se chamava ou chama uma disciplina
leccionada nalgumas instituições de ensino superior. Sempre senti, quando
leccionei essa disciplina, que o termo de "concretização" seria
preferível ao de "desenvolvimento", tradução do inglês development.
Pensando nessa perspetiva operativa, propus para uma unidade de mestrado a
designação de Currículo, metodologia de ensino e de avaliação. E não surpreende
que Roldão, reconhecida estudiosa desta problemática, conclua que currículo é
"uma passagem vitalizadora e útil, compreendendo o processo de aprender
como um caminho esforçado, mas estimulante de pensamento e acção" (2004,
p.14).
M.C.Vasconcelos:
Vem no sentido do que Eisner (2002, 2005) defende, o currículo como um
instrumento de alteração das mentes, feito para melhorar o modo como se pensa.
Quando os políticos e os teóricos da educação definem um currículo para o
ensino, a escola ou a disciplina, estão a propor formas de pensar, estão a
estabelecer uma agenda para o desenvolvimento da mente em que os professores
são os principais agentes de mediação. Aqui reside a diferença entre aquilo a
que se costuma chamar currículoin vitro e currículoin vivo, ou seja, o
desenvolvimento das actividades na prática. É sempre o professor que desenha e
organiza as situações reais que promovem as experiências de aprendizagem,
dependendo do contexto escolar, das características dos alunos, das suas
próprias convicções etc., mediando permanentemente interacções.
Penso que a problemática que refere é muito importante porque a escola como
principal meio de socialização e o seu inerente currículo escolar têm de
acompanhar as mudanças que ocorrem nas sociedades dum modo reflexivo e crítico
e cada vez mais, dadas as condições de incerteza, mudança rápida e radical em
que vivemos hoje. Se como Hernandez (2005, p. 93) diz, pela primeira vez na
história, nos confrontamos com um ciclo de renovação do conhecimento mais curto
do que o ciclo de vida do indivíduo, é preciso pensar e incorporar esses temas
na prática no sentido, sobretudo, de formar cidadãos capazes de participar
criativa e criticamente na sociedade global cada vez mais formatada pela
tecnologia e os media. As tentativas de compreensão das mudanças socioculturais
e epistemólogicas que ocorrem hoje são fundamentais na situação educativa.
Rodriguez (2005, p.47) refere que esta situação é especialmente evidente na
área da Educação Artística porque ela se ocupa das presentações e
representações artísticas, visuais e materiais dos mundos reais, dos mundos
possíveis, dos mundos imaginários e dos olhares e interpretações.
Arte e ciência
J.B.Duarte:
Para Popper um processo comum a todas as ciências é o da falsificabilidade,
segundo o qual as ciências se devem submeter a observações ou experiências o
mais difíceis possível de modo a pôr à prova a sua validade, só resistindo
assim algumas teorias, todavia provisórias pois sempre ameaçadas por possíveis
novas experiências ou novas teorias. A crítica entre os cientistas é algo de
fundamental em Popper no desenvolvimento da ciência ou, por outras palavras, há
um "debate" através dos tempos entre cientistas e as suas teorias que
dá ao conhecimento científico um caráter de "aproximação à verdade",
verdade sempre mais complexa que as teorias (1999).
Atualmente alguns autores ligados ao chamado pos-modernismo estabelecem uma
equivalência entre todas as formas de conhecimento, chegando a equiparar
astronomia com astrologia, religião e arte. Poderíamos argumentar que é errado
reivindicar um estatuto científico para a astrologia à semelhança da
astronomia. Mas, por outro lado, é interessante como Popper assinala na ciência
momentos criativos em analogia com a criação artística e com a própria vivência
comum:
Há um Mozart, há um Beethoven, há um Einstein, há um Boltzmann.
Portanto nós somos criativos. Há pessoas que descobriram algo de novo
que com certeza não ocorreu apenas por mera reunião de actos
singulares. E que também não era simplesmente inato, mas que foi
realmente produzido por essas pessoas. Ora eu digo que todos nós
somos criativos e originais. Todas as nossas reacções são criativas e
originais e de entre muitas criações novas é depois, por meio da
selecção, escolhida a melhor (Popper, 1991. p.51).
Popper propõe, aliás, a criatividade como algo que está na base da evolução do
universo e da vida mas dá um lugar fundamental à criação artística: "A
vida é, o mundo é, antes de haver vida, criativo. Mas a prova só vem através da
vida e a prova absolutamente decisiva só vem através de Mozart (p.59).
M.C.Vasconcelos:
As artes são domínios criativos por excelência o que não quer dizer que a
criatividade não exista nas ciências ou em qualquer outra área; a criatividade
faz parte da condição humana. Uma diferença importante entre as artes e as
ciências é que exatamente a regra nas artes é a celebração da diversidade, da
individualidade e da surpresa enquanto nas ciências domina a fatualização,
linearidade, correcção, ajudando-se os alunos a obter certezas, regras e
generalizações (Eisner, 2002). No entanto, a verbalização e a quantificação são
apenas algumas das formas de literacia, de modos de se configurar a compreensão
humana do mundo. São outras as formas de literacia em artes no sentido em que
descrevem qualidades dum mundo que não se pode explicar discursivamente, mas
experienciar apelando à nossa sensibilidade e contribuindo de um modo distinto
para o conhecimento e aprendizagem.
Ao contrário das ciências, nas artes o artista não precisa, de contar as coisas
como elas são, usa os materiais para criar formas que estejam de acordo apenas
com os seus propósitos, sem ser acusado de distorcer a realidade (Efland,
2002). A imaginação tem licença para voar (Eisner, 2002). Para além disso, como
refere Gisbert (2005), o artista move-se não só entre exigências de
expressãocomunicação como de inovação-criação, entre o uso convencional do
código e a sua inovação, pois a utilização criativa da forma de representação
plástica supõe o uso dos elementos integrantes do código, de modo pessoal e
inovador subvertendo-o e indo mais além do já conseguido.
As artes são domínios mal estruturados "ill structured domains", como
Spiro et al. (1987) definiram. São domínios de grande complexidade onde o
conhecimento é caracterizado pela flexibilidade, em que se juntam fragmentos de
conhecimento para responder às necessidades de um determinado contexto. Os
domínios do conhecimento são confusos, inconsistentes no sentido em que falta a
regularidade de limites e categorias claras (Efland, 2002). Como refere este
autor, não há generalizações amplas que se apliquem à maioria dos casos como p
ex. acontece com a lei da gravidade da física, mas aprende-se juntando o
conhecimento de casos individuais. A aprendizagem de novo conhecimento é
dificultada pela falta de grandes generalizações. A expressão de Dewey do
propósito flexível, "flexibly purposeful", que Eisner (2002) retoma,
refere-se ao lado de improvisação da inteligência que é usada nas artes.
Inteligência que é a capacidade de mudar de direção, redefinir objetivos quando
opções melhores emergem no decurso de um trabalho.
Este propósito flexível que as artes promovem pode desenvolver formas de
pensamento e atitudes para com os problemas que emergem noutros campos.
Acompanhar a surpresa exige a capacidade de correr riscos, pois prossegui-la é
uma escolha, e é sempre um caminho incerto onde os esquemas familiares e as
técnicas habituais podem provar ser pouco efetivas. Uma das tarefas mais
desafiadoras das artes é a tendência para reverter rotinas e quando a arte é
bem ensinada estes propósitos flexíveis são encorajados (Eisner, 2002).
Convidar os alunos a usar a sua imaginação para ver coisas novas é um processo
comum às ciências e às artes, perceber o que lá está, mas imaginar o que poderá
ser e então usar o conhecimento e competências técnicas, bem como a
sensibilidade para prosseguir o que se imaginou (Eisner, 2002). Oddleifson
(1996) argumenta que o processo das artes é similar ao processo científico de
descoberta, representando as artes uma medida igualmente poderosa de explorar
as relações do homem com a natureza, usando símbolos próprios enquanto as
ciências usam números e palavras. Mas ambas despertam o que apelida de
"craving to comprehend" com as suas contínuas revelações e
interpelações. Este "craving to comprehend" é a força motriz da
aprendizagem. Trabalha-se hoje em dia cada vez mais em paradigmas e novos
modelos para ligar processos de descoberta nas ciências e nas artes.
Um debate intemporal nas ciências e nas artes
J.B.Duarte:
Concordo com Popper sobre o debate realizado através dos tempos entre os
cientistas, que opôs o heliocentrismo de Copérnico e Galileu ao geocentrismo de
Ptolomeu, levou Kepler e Newton a corrigir as propostas de Galileu, aliás
iniciadoras da ciência tal como a concebemos hoje, e levou Eisntein a dizer que
a massa é energia e a alargar o princípio de Newton sobre a atração dos corpos.
Mas esse debate intemporal também acontece nas artes visuais. Pois se Platão
propôs a imitação da natureza ou mimesis como fundamento da arte, com
Baumgarten no séc. XVIII apareceu o debate sobre a alteração pela arte daquilo
que é observado. Isto é, importará à arte procurar ver para lá da superfície
das coisas, procurando o sentido mais profundo que as coisas e o mundo têm para
os seres humanos.
Essa procura do sentido mais profundo passou de uma procura de harmonia e
equilíbrio por parte dos artistas inspirados pelo classicismo, às formas mais
"sonhadas" do romantismo, à análise das contradições sociais no
realismo, ao retomar da pesquisa da visão pessoal pelo impressionismo e
expressionismo ou outras. O que opõe Monet a Corot ou a Courbet, o que opõe Van
Gogh a Cézanne, o que opõe Picasso cubista ao Picasso rosa é esse debate
implícito, menos de palavras e sobretudo concretizado pela produção artística,
entre os diferentes artistas e por vezes no mesmo homem, sobre a visão profunda
do mundo e da vida, para lá da observação comum e superficial do mundo.
Assim, "quando Cézanne desrespeita a realidade, o seu objetivo é trazer à
tona o que é permanente e está para além do que é acidental e de
superfície" (Janson, 1989, p.641). "Profundamente insatisfeito com os
valores da sociedade industral", Van Gogh foi "pregador laico junto
de mineiros de carvão" (Janson, 1989, p.644) e "este mesmo sentimento
profundo pelos pobres domina os quadros do período pré-impressionista, 1880-
1885" (ou seja de metade dos dez anos da sua vida de pintor). E o mesmo
Van Gogh declara em carta ao seu irmão o seu desejo de "exagerar o
essencial e deixar o óbvio no vago" (p.645). Janson conclui que em Van
Gogh os quadros pintados no sul de França (como o quadro Seara de Trigo com
Ciprestes) mostram uma "fé numa força criadora a animar todas as formas de
vida".
No quadro sobre o poeta Blaise Cendras, o pintor Marc Chagal "manifesta já
as suas primeiras tentativas numa procura de ultrapassar a geometrização do
objeto tal como a concebiam os cubistas", escrevem Walther e Metzger
(2008, p.22). Os mesmos autores comentam assim o quadro Concerto de 1957:
"uma barca que leva a bordo um par amoroso avança num rio, enquadrado à
direita por uma cidade e à esquerda por um grupo de músicos (…). O conjunto
assume um movimento ascendente da direita para a esquerda (…) a um mundo
superior, povoado de músicos celestes" (p.80). Pares amorosos, músicos e
animais preenchem o espaço da pintura de Chagal, personagens em posições
diversas e até invertidas espacialmente, mostrando uma "outra visão das
coisas" e exprimindo, em tempo de guerra mundial e de perseguições,
"a esperança numa humanidade fraterna e num mundo de paz" (p.89).
Em suma, a discussão crítica das soluções para os problemas e das teorias que
ditam essas experiências, proposta por Popper, como vimos, parece-me algo de
comum à ciência e à arte, embora sejam diferentes os problemas que a ciência e
arte enfrentam, mais de ordem física na ciência e mais de ordem existencial na
arte. Por outro lado, o debate entre artistas é concretizado mais pela sua
produção artística e menos pelas suas palavras, que em todo caso exempliquei
com a oposição expressa de Chagal ao cubismo ou por Van Gogh ao impressionismo.
Mas poderemos dizer que todos os pintores e artistas exprimem verbalmente ou
pela sua produção uma visão do mundo diferente da de outros, já que a
originalidade é, entre eles, uma aspiração comum. Por outro lado o caráter de
provisoriedade e de "aproximação à verdade" que a epistemologia de
Popper propõe retira à ciência a áurea de rigidez ainda divulgada por muitos
autores e aproxima-a de outras formas de conhecimento, incluindo o conhecimento
artístico.
M.C.Vasconcelos:
Encontrei esta frase de Campbell citado por Oddleifson (1996, p. ?) que traduz
bem o caso das ciências na linha de pensamento de Popper:
For the really great and essential fact about scientific revelation
- the most wonderful and challenging fact - is that Science
does not and cannot pretend to be true in any absolute sense. It does
not pretend to be final. It is the tentative organization of 'mere
working hypothesis' that for the present appear to take into account
all the relevant facts now known.
É também um ponto comum entre a ciência e a arte tentar ver para além do que se
nos apresenta pelos sentidos. Usando a imaginação e a criatividade, tanto
artistas como cientistas buscam através dos respectivos meios, muito diversos,
perceber não só o que é, mas também prosseguir para o que imaginaram.
Na criação artística plástica é possível usar, de acordo com Eisner (2002),
três formas de representação que podem actuar conjuntamente numa obra: a
mimesis que já referiu e que pode ter um grau de similitude total ou
aproximativa, como no uso de sinais gráficos (sinalização) que se tornam
familiares pela sua simplificação e acessíveis a todos, comunicando o que é
fundamental; a criação da forma expressiva em que se representa não o que se
vê, mas o que se sente através dos elementos estruturais da linguagem plástica
e a que o público reage diferentemente, dependendo do seu background, pois
todas as formas possuem propriedades fisiognomónicas, qualidades que expressam
ou evocam sentimentos ou emoções; e uma terceira forma de representação através
de signos convencionais que são socialmente aceites e se referem a ideias,
objetos etc.. e por isso existe a iconologia e a iconografia das artes para
estudar os símbolos que têm significados iconográficos para além do que
aparentam.
Como exemplos duma excepcional representação destes três modos conjuntamente,
Eisner (2005, pp. 80-81) convoca Jasper Johns, Chagall, Joseph Cornell, Jack
Levine, Rauschenberg e Warhol. Mas deixe-me prosseguir a sua resenha pela
história da arte que ficou por Chagall. Acompanhando Pujol (2009) a
industrialização despoletou o fim do artesão e dividiu fazedores de pensadores;
a fotografia aliviou a pintura e escultura do fardo de documentação da
realidade. O modernismo permitiu décadas de arte com autocontemplação
psicológica, definindo universalismo puramente através da forma que acabou por
se tornar repetitiva e decorativa. A condenação de Duchamp da "arte
retiniana" da arte perceptiva em geral, com a elevação das ideias ao
estado de meio primordial levaram à desmaterialização conceptual da arte
(Storr, 2005, p. 61).
A arte conceptual, nascida nos anos sessenta, trouxe as ideias tangíveis ou
intangíveis para o trabalho artístico que tomaram a precedência sobre o produto
final - "an idea is a machine to make art" e "banal ideais
cannot be rescued by beautiful execution", de Sol LeWitt, foram conceitos
marcantes. Apesar do peso desta última afirmação, Sol LeWitt não acreditava que
o trabalho pudesse existir apenas como ideia pois a banalidade pode existir na
incapacidade do artista para agir dentro das qualidades do meio escolhido
(Storr, 2005, p. 63).
A arte contemporânea pede a justificação da arte para além do subjectivo,
interroga com propósito. Assiste-se à quebra dos limites tradicionais entre
Belas Artes e Arte Popular, a um alargamento do território das artes e
assistimos ao uso pelos artistas plásticos de estratégias dos media e vemos os
publicitários a usar as chamadas Belas Artes para vender os seus produtos.
Tanto o que se apresenta como obra de arte como o papel social dos artistas na
sociedade contemporânea é de grande diversidade e ecletismo. A
"metanarrativa" da modernidade deu origem a uma pulverização de
"micronarrativas". Há uma hibridização de meios e propostas, nas
produções culturais (filmes, fotografia, vídeos, imagens digitais, anúncios,
net-art etc.). A introdução da chamada cultura visual no ensino artístico como
evocam os seus promotores principais Efland, Freedman e Stuhr (2003),
configura-se indispensável, embora dê os primeiros passos, acusada ainda de
indefinição didática.
Aprendizagem em artes visuais e integr ação curricular
J.B.Duarte:
Voltando a Efland (2002), este autor sugere que o conhecimento científico é
guiado por uma lógica proposicional sistemática, expressa em símbolos verbais e
matemáticos, que permite generalizações ou leis, enquanto o conhecimento
artístico é guiado por uma lógica metafórica e narrativa, de base não-
proposicional, que não permite generalizações (p.160). Essa proposta levanta
uma pergunta: não há "propostas" ou "proposições" sobre o
mundo e a vida num quadro como Guernica ou nos quadros de Chagal? Ou, por
outros termos, a imagística das artes visuais, apesar de ser não verbal e não
usar símbolos matemáticos, não é também "proposicional"? Por outro
lado, essas obras não permitem uma generalização pelo observador a outras
situações por ele vividas?
Esta reflexão implica toda a problemática da distinção entre
"generalização estatística" da investigação baseada em amostragens e
"generalização analítica" da investigação realizada a partir de
situações singulares, como propõe Yin para os estudos de caso (2005). Aliás, em
discordância de Efland, esta última generalização é designada de
"naturalística" por Eisner para os estudos de caso em artes visuais,
pois "the function of a case study is to learn about more than that
particular case, for a case is always a case of something (2002, p. 213). Ou
seja, um caso estudado em profundidade e mostrando claros registos do observado
pode trazer contribuições generalistas a quem o vier a conhecer (Duarte, 2008).
Tal como em arte o quadro Guernica.
A integração das artes no currículo escolar é assim uma questão subtil, a
depender do mais do efeito cognitivo profundo que o professor de arte for capaz
de desenvolver junto dos estudantes do que de orientações oficiais. E toda a
pedagogia atual mostra que a ação do professor terá de saber desencadear
atividades a desenvolver pelos estudantes e não se limitar ao verbalismo. É, em
suma, mais uma questão de currículo real que de currículo oficial, na distinção
de Kelly (1981). Por outro lado, é pertinente a ideia de uma especificidade do
ensino das artes, como propõe Efland, apoiando-se em Eisner e Gardner, ou seja
"the idea that the arts provide unique oportunities for the development of
mind that are not available in other modalities" (2002, p.157). O
argumento é que "different domains of knowledge utilize different
cognitive abilities for their mastery and that such capacities are not likely
to evolve if absent from the life experience of individuals". Ou seja,
tais considerações são reflexo da proposta de Gardner de que cada uma das
"inteligências múltiplas" requer uma didática adequada para se
desenvolver.
A integração das artes no currículo ao lado de outras disciplinas,
reivindicação expressa pela generalidade dos projetos de investigação
realizados por professores de artes, é assim uma questão a dirimir sobretudo no
terreno da prática docente e na investigação que sobre ela se fizer. Essa
prática saberá partir de situações problemáticas trazidas para a aula pelos
estudantes ou pelo docente, provocará debate de fundo teórico-metodológico
acerca do processo de resposta à situação problemática. Mas essa situação
problemática e todo o processo consequente, será tanto mais integradora no
currículo quanto mais potencial tiver para envolver docentes de outras áreas.
Por isso discordo de Efland quando propõe para o currículo a centralidade do
ensino das artes ("the arts should be centrally located within the
curriculum as an overlapping domain"), mas concordo em que "the work
of art becomes meaningful when it is seen in the context of the culture, and
the culture becomes understandable as read through the arts" (2002,
p.164).
No esquema visual apresentado no texto, Efland coloca as artes no centro, com
as "ciências físicas" do lado esquerdo e as "humanidades" à
direita, a "história" por cima e as "ciências sociais" por
baixo e do centro em que as artes se situam partem ligações undirecionais para
as quatro outras matérias de estudo. Ligações unidirecionais a partir das artes
é algo já em si discutível. Pelo menos que fossem bidirecionais, a sugerirem
influência mútua entre as áreas de trabalho escolar.
A disputa da égide duma ciência sobre as outras foi frequente na história da
ciência a partir do séc. XVIII em que Kant, com base nos Princípios Matemáticos
da Filosofia da Natureza de Newton propôs que a matemática seria a ciênciabase
de todas as disciplinas (Geymonat, 1990). Este autor recorda ainda tentativas
de sobreposição por parte de algumas ciências sobre outras, a biologia por
sobre a psicologia, a física por sobre a química e outros casos. Entre nós um
conhecido sociólogo tem proposto em sucessivas obras que as ciências
físiconaturais funcionem sob a égide das ciências sociais. E nas nossas escolas
cada professor tende a defender a sua disciplina tal como em tempos passados um
cavaleiro defendia a "sua dama" (comparação ouvida por mim a um
professor de matemática).
Ora cada professor deve defender sobretudo a integridade mental dos jovens a
seu cargo e, de algum modo, saber deixar envolver o seu jardim pelas plantas do
jardim vizinho, ao contrário do desejo da personagem Cândido de Voltaire, que
apenas pretendia cultivar o seu jardim. Num plano epistemológico, a dinâmica do
conhecimento não vive de égides de ciência alguma, mas da dinâmica do tal
debate intemporal entre as diferentes formas de conhecimento, que mencionei
acima. Concordo com Efland em que as artes constituem mapas ou imagens que nos
orientam dentro da sociedade e aqui evoco o que disse sobre Guernica. Mas os
graves problemas da ecologia ou da necessária descoberta de novas fontes de
energia (situações problemáticas a aprofundar em disciplinas físico-naturais)
não serão também questões centrais em todo o currículo das nossas escolas?
Questões que obviamente envolvem várias disciplinas e podem integrar toda a
imagística das artes.
Aliás, quanto à integração curricular, Efland (descontando o leitor a questão
da centralidade acima evocada) propõe a ligação de todas as disciplinas à
experiência do estudante: "We have multiple forms of cognition
(propositional and nonpropositional) but in my view these do not stand in
opposition to each other. Rather both emerge from the same common source, the
basic level of experience" (2002, p.171). Efland evoca depois o físico
David Bohm acerca de uma "ordem implícita" (implicated order)
subjacente à humanidade e que poderá constituir uma "fonte" para
superação do dualismo mente e corpo, pensamento e sentimento, indivíduos e
sociedade: "The construction of lifeworlds requires access to such sources
as represented and extended symbolically in thinking, feeling and willed
action. Such building is, in final analysis, "an achievement of the
imagination" (p.171).
Lembrei acima a proposta de Popper de que a criatividade é comum a todos os
homens e fundamental na ciência como na arte. A criatividade ou imaginação é
também fundamental aos docentes e aos estudantes para uma integração de todas
as disciplinas numa unidade dinâmica do currículo escolar.
M.C.Vasconcelos:
Efland defende que se o objectivo final da educação é a activação do potencial
cognitivo do aluno, terá de haver modos de integrar o conhecimento que evitem
as perspectivas compartimentalizadas existentes. São essas abordagens
integradas que favorecem a tranferência de conhecimento. A ideia das artes no
centro do currículo, não é nova, como Efland reconhece e os argumentos usados
prendem-se com 4 dimensões potenciadas pelas artes: flexibilidade cognitiva
(tal como na vida, na arte os julgamentos não são guiados por regras ou
generalizações); a integração do conhecimento (a interpretação de trabalhos de
arte baseia-se em conhecimentos de domínios colaterais, que permitem o
conhecimento do contexto); a imaginação (actividade estruturante usando a
metáfora e a narrativa para estabelecer novos significados e obter
representações coerentes, e unificadas) e a estética (os encontros estéticos
vividos através da percepção têm grande valor educativo).
Falando dos paradigmas do ensino artístico, Eisner (2002) refere também o
modelo de artes integradas com outras artes ou com disciplinas não artísticas,
organizado por 4 estruturas curriculares. 1) ajudar os alunos a compreender
p.ex. um período histórico ou uma cultura; 2) a compreensão das diferenças
entre as artes pois embora todas as artes se ocupem com a criação da forma
expressiva usam meios diferentes; 3) a partir dum grande tema ou ideia explorá-
lo com trabalho de diferentes áreas, dando como exemplo o conceito de
metamorfose; 4) a prática da resolução de problemas desenhando o currículo à
volta de um tema em que se integram várias disciplinas.
No seu novo livro Reimagining Schools, Eisner (2005) inverte de um modo muito
interessante a questão tão discutida - para que serve o ensino artístico ou o
que se aprende em artes - para uma outra: o que é que a educação tem a aprender
com as artes. A tentativa de disciplinar as artes exigindo mais rigor tanto na
avaliação como na pesquisa educativa é errónea na sua perspectiva, pois as
artes não devem parecer-se com outros campos académicos, mas seria relevante
que outros campos olhassem para as artes quando elas são bem ensinadas, pois
"artistry" deveria ser em todos os campos o ideal regulativo,
presidindo ao modo como pensamos os meios e os fins da educação.
No centro do currículo ou não, o que é importante é que as artes desempenhem
nele o seu papel fundamental - desenvolver o pensamento qualitativo e a
inteligência artística. Com a revolução cognitiva das artes, a teoria das
inteligências múltiplas e investigações ligadas ao campo das artes (Gardner,
Perkins, Hetland e o Project Zero da Universidade de Harvard) colocam-se novos
problemas às escolas, não no sentido de uniformizar, mas apontando para a
heterogeneidade de resultados a tal "idiossincrasia produtiva" que
Eisner refere. Provocatória e desafiadora dum certo status quo enraízado, que
negligencia o ensino das artes e que as vê como actividades não cognitivas, a
teoria das inteligências múltiplas reforça o papel das artes no currículo, se a
escola quiser ser o lugar de socialização e de integração. Se a mente humana
tem diferentes capacidades cognitivas e cada pessoa tem um perfil diferente, a
educação deve fornecer oportunidades de explorar e desenvolver todas essas
capacidades. Como diz Eisner, citado em Fowler (2001, p 42): "School
curricula would become equitable when they provide different strokes for
different folks. Equity requires diversity. Sameness is not the same as
equity".
Conteúdos e competências
J.B.Duarte:
A criatividade e a solução de problemas são termos fundamentais na
epistemologia de Popper, como vimos. Face aos problemas criamos teorias e
tentativas de solução delas decorrentes para os resolver. É aqui que
encontramos a problemática da aprendizagem. A pedagogia tendeu no passado a
ocupar-se de conceitos a aprender, com o professor ou com os manuais (nomes de
países, acontecimentos históricos), e também de capacidades (saber ler,
escrever, calcular) que podem situar-se a vários níveis de profundidade. Mas o
reconhecimento do pendor verbalista e mecanista da escola tradicional fez
sentir a necessidade de uma escola mais preocupada com a experiência sobre
situações problemáticas, com o saber-fazer, com as competências, e até nos
media tornaram-se recentemente mais exigentes as vozes daqueles que exigem que
a escola desenvolva competências para o trabalho a realizar na sociedade.
Tratase de uma problemática complexa que leva a ambiguidades e em que aparecem
opiniões diversas.
Desde 2001 em Portugal o currículo do Ensino Básico propõe o desenvolvimento de
"competências essenciais", gerais e específicas, em que os conteúdos
sejam abordados "com base em situações e problemas" (p.17). Para o
ensino secundário, o documento orientador da revisão curricular recomenda um
equilíbrio entre a "aquisição de conhecimento" e "o
desenvolvimento de competências vocacionais e a capacidade de pensar
cientificamente os problemas" (2003, p.5). Mas há controvérsia na
literatura pedagógica francesa e portuguesa sobre o conceito de competência.
Crahay (2006) e Schneider-Gilot (2006) dizem que é uma noção demasiado simples,
por não permitir aos professores a possibilidade de distinguir noções relativas
a conhecimento, prática, atitudes, capacidades e esquemas operativos.
Esta controvérsia pode ser ultrapassada pela articulação de competências com as
outras dimensões da aprendizagem, como conteúdos e capacidades, a partir de
situações problemáticas ou pelo menos motivadoras da curiosidade. Digamos com
Giordan (1998) que, para que resulte a transição para uma "sociedade
aprendente", será prioridade a introdução dos alunos numa abertura pessoal
aos saberes, num dispositivo de condições materiais e humanas para uma
autoaprendizagem a prosseguir ao longo da vida.
A metodologia da aprendizagem por situações problemáticas visa precisamente o
desenvolvimento da invenção e distingue-se da solução tradicional de problemas,
ou seja, "problemas ou exercícios de aplicação que têm por objectivo
accionar uma noção adquirida" (Fabre, 1999, p.86). O pensamento deste
autor francês coincide com o do norte-americano Arends que faz depender a
exploração das situações problemáticas, de "novas" tarefas do
professor: "ajudar os alunos a aprender a formular questões e a procurar
respostas e soluções para a sua curiosidade" (p.396). Por isso Fabre situa
o uso da situação problemática entre a gestão pedagógica e a gestão didática
(p.138).
M.C.Vasconcelos:
Face às caracteristicas da sociedade contemporânea a aprendizagem é cada vez
mais estratégica em qualquer área de conhecimento, pondo-se cada vez mais
ênfase nas estratégias para aprender a aprender e menos nos conteúdos.
O modelo português, construtivista como a maioria dos modelos europeus, coloca
a literacia em artes como o grande objectivo programático nas suas 4
competências essenciais: apropriação das linguagens elementares das artes,
desenvolvimento da capacidade de expressão e comunicação, desenvolvimento da
criatividade e compreensão das artes no contexto, subdivididas por sua vez em
inúmeras competências específicas. Possui este documento curricular mais
recente, "Competências Essenciais" (ME 2001), uma inspiração do DBAE
de Eisner e do Getty Center sem, no entanto, promover a divisão pelas
disciplinas de estética, história, crítica da arte e produção de arte como o
modelo inspirador refere. Resgata o interesse educativo da arte como
experiência necessária para o desenvolvimento individual e social, referindo
"a dinâmica propiciadora da capacidade de descoberta, da dimensão crítica
e participativa e da procura da linguagem apropriada à interpretação estética e
artística do mundo".
Do ponto de vista metodológico propõe-se a organização de projecto educativo em
unidades de trabalho que valorizam processos e produtos em que se inserem, de
forma sistemática, as competências e os conteúdos nelas implicados. Refere-se
também que os temas a tratar devem ser relevantes, actuais e orientados para
uma visão de escola aberta ao património artístico e natural e fala-se de
cooperação, e participação em trabalhos colectivos. Este modelo curricular
incorpora de certo modo a visão de Efland do currículo com a metáfora da cidade
ou da rede, ou rizomático, para domínios mal estruturados como o das artes, ao
contrário do currículo em espiral de Bruner para domínios bem estruturados.
Significa a possibilidade de diferentes percursos a partir de diferentes pontos
de partida ou de chegada que ao cruzarem-se fortalecem aprendizagens.
Por conseguinte, este programa está aberto a operacionalizações muito
diversificadas, quer nas temáticas a definir pelos grupos disciplinares e seus
professores quer na articulação de competências e conteúdos ao longo das
experiências de aprendizagem, quer ainda nas actividades propostas para a sua
consecução. Ir ao encontro dos interesses dos alunos, promover a conexão entre
o contexto social real e a escola através da escolha de temas de relevância
sociocultural, facilitar a integração de conhecimentos através da
interdisciplinaridade, alargar o território da arte às produções culturais de
hoje, fomentando o entendimento da cultura visual que nos rodeia e a
compreensão do conceito de pluralidade estética numa sociedade multicultural,
parecem caminhos promissores na educação artística da contemporaneidade.
A pedagogia crítica nas artes visuais
J.B.Duarte:
Dilmé e outros (1999) afirmam que os professores de artes visuais devem
desenvolver "uma "serie de funções" (p.81): o domínio do gesto,
a representação simbólica, as técnicas, as recriações, a observação e a memória
visual. Poderíamos substituir funções por " competências " ou
capacidades para mobilizar recursos, já que competência, nos termos mais
completos de Boterf (cit. por Gerard & Roegiers, 2003, p.60) é:
un savoir agir, c'est-à-dire, un savoir intégrer, mobiliser et
transférer un ensemble de ressources (connaissances, savoirs,
aptitudes, raisonnements, etc.) dans un contexte donné pour faire
face aux différents problèmes rencontrés ou pour réaliser une tâche.
Competência é assim a capacidade de mobilização de recursos (conhecimentos,
aptidões) para novas situações. Quanto àquelas seis "funções",
poderíamos ordená-las em dois grupos de competências, duas competências de
base, comuns a todo o currículo:
- a observação,
- a memória visual.
E um segundo grupo de competências, parcialmente comuns a outras disciplinas,
mas desenvolvidas de modo específico no ensino das artes:
- o domínio do gesto (a motricidade fina, a motricidade ampla)
- as técnicas (bidimensionais, como o desenho a pintura; tridimensionais, como
a escultura, a modelagem, estruturas de diferentes materiais; as novas
tecnologias)
- as recriações (reformulações a nível formal ou temático a partir de um
modelo)
- a experimentação que os autores mencionam numa primeira lista, a partir da
qual "é possível transgredir os limites, inventar novas formas"
(p.81)
- a representação simbólica (descritiva, narrativa e expressiva, comum também a
disciplinas de letras e outras),
- a reflexão sobre os processos (competência fundamental que não consta daquela
lista).
Essa necessária competência de reflexão crítica aparece sob outros termos em
diferentes autores como naqueles que se situam numa "didática da
suspeita" (López-Bosch, M., 2005). Dois princípios são importantes segundo
essa "didáctica de la sospecha" em termos castelhanos:
- saber analizar el grueso entramado de imágenes que nos rodean, especialmente
las que nos llegan bajo la etiqueta de información (…);
- saber construir productos visuales que alertan a los demás sobre esta
manipulación (…).
Acho interessante a proposta mas desnecessária tal designação, face às
propostas da pedagogia crítica, no rasto de Freire, Lacan e outros, de uma
procura de desenvolvimento da consciência crítica face aos discursos
predominantes. Como escrevem Morrow e Torres (1997, p. 382):
os pedagogos críticos mostram que a cultura assente em
"discursos múltiplos" (habitados por diferentes vozes) em
sociedades multiculturais, multirraciais ou multilinguísticas, nunca
é despolitizada (…) essa cultura é campo de luta, a linguagem, a
cultura e educação deveriam incluir sempre a pluralidade dos valores,
as vozes e as intenções dos sujeitos.
Em suma, a reflexão crítica é uma competência inalienável da escola, em conexão
com todo o processo da aprendizagem. Nas palavras de Gardner (1990, 2008,
p.49):
students learn effectively when they are engaged by reach and
meaningful projects; when their artistic learning is anchored in
artistic production; when there is an easy commerce among the various
forms of knowing, including intuitive, craft, symbolic, and
notational forms; and when students have ample opportunity to reflect
on their progress.
A perspetiva do autor engloba por outros termos as várias dimensões acima
mencionadas, acrescida da dimensão de projeto, em que as várias competências
são postas à prova e também a de saber trabalhar em cooperação com outras
pessoas. Viver e trabalhar em cooperação é uma aprendizagem essencial ao
desenvolvimento pessoal de cada indivíduo e ao desenvolvimento de uma sociedade
mais harmoniosa. Mas a capacidade crítica de cada homem e mulher face à sua
própria vivência e à múltipla informação envolvente é a condição sine qua non
ao progresso material e social da humanidade. Nesse processo, as artes visuais,
em conexão com outras formas de conhecimento, têm uma função inalienável, na
procura de futuros alternativos (como propõe Efland em epígrafe).
M.C.Vasconcelos:
O fato das artes serem domínios complexos e pouco estruturados no sentido
de Spiro e de Efland, referidos anteriormente, não implica abordar o seu ensino
de modo ambíguo, impreciso ou demagógico. Em termos genéricos:
Planificar y gestionar la Educación Artística supone estructurarla en
un sentido relativamente objetivo, de modo que permita informar
claramente de sus propósitos instructivos, prácticos y lúdicos;
significa establecer, del modo más preciso posible, las conexiones y
diferencias con las otras disciplinas en el contexto de la educación
general y adecuarse a sus propósitos desde una perspectiva cultural
amplia.(…) Supone establecer su conciencia epistemológica, su
conocimiento base en el contexto del conocimiento general (Gisbert
2005, p. 25).
Mais uma vez socorro-me de Eisner (2002) que, depois de apresentar diversos
modelos ou visões de ensino artístico refere que qualquer que seja o modelo ou
paradigma usado, o ensino das artes deve focar o que é verdadeiramente
distinto, característico e único nas artes. São cinco princípios que tento
resumir aqui. 1) tornar visíveis aspectos do mundo como as suas qualidades
expressivas, do modo único que as artes propõem; 2) acentuar o desenvolvimento
da inteligência artística, pois a reflexão inteligente é uma condição
fundamental para fazer arte; 3) ajudar os alunos a criar imagens visuais
satisfatórias, ensinando a ver e responder às artes e outras formas visuais,
aprendendo a experienciar os factores estéticos nas imagens e compreender a sua
relação com a cultura de que são parte; 4) reconhecer o que é pessoal e
distinto e mesmo único neles próprios e no seu trabalho - a criação duma
visão pessoal; 5) desenvolver esforços especiais no sentido dos alunos
adquirirem formas de experiência estética no seu quotidiano - um quadro de
referência estético.
Considerando que a educação artística deve ser continuamente repensada e
reinventada, há aspectos como compreensão, comunicação, resolução de problemas
e pensamento crítico que são competências comuns às artes e outras disciplinas
e com elas se devem articular. Defendo cada vez mais o ensino artístico no
contexto de temáticas sociais com projetos educativos de arte e produções
culturais, em que se definem situações, questões e problemas, focando a
produção e apreciação de arte e que promovem a integração comunitária e
identitária a par da subjectividade individual. Por exemplo, "Issues Based
Approach" de Gaudelius e Speirs (2005) permite agir dentro do mundo que
nos cerca e, ao mesmo tempo, olhar para dentro de nós próprios, quando os temas
intersectam as nossas vidas. Para além disso, como recordam Gaudelius e Speirs
(2005), muitos artistas contemporâneos lidam com temas sociais como conteúdo
prioritário das suas obras e criam arte no sentido de promover mudanças
sociais.