A consolidação da Educação e Formação Profissional na Escola Secundária nos
últimos 50 anos em Portugal
Introdução
O ensino secundário tem sido objecto de grande procura social e de grande
investimento das políticas públicas a partir da segunda metade do século XX,
apresentando-se como uma área crítica das políticas educativas (Azevedo,
2000, p. 18), tendo sido alvo de inúmeras reformas, não só em Portugal, como em
muitos outros países, nomeadamente da Europa.
No nosso país, nos últimos cinquenta anos, o acréscimo da importância do ensino
secundário no sistema educativo tem sido evidente, a par da questão da
qualificação dos jovens e a sua entrada no mercado de trabalho. As várias
reformas que, desde então, se têm verificado na política educativa portuguesa
reflectem estes dois vectores, sendo dada uma prioridade absoluta ao ensino
profissionalmente qualificante, preparatório da entrada dos jovens na vida
activa, sustentado num discurso onde ressalta a instrumentalização da educação
enquanto factor adiantado e infra-estrutura de suporte à competitividade
económica e à empregabilidade (Lima & Afonso, 2002, p. 12).
João Barroso (2006, p. 43) afirma que a evolução do sistema educativo português
tem sido marcada, ao longo das últimas décadas (em particular desde os finais
dos anos 60 do século XX), por um conjunto diversificado de reformas que têm
gerado mudanças que se centram nos aspectos estruturais do sistema
(configuração curricular, plano de estudos, órgãos de gestão, organismos de
formação), sendo frequentemente justificadas em função de princípios e
objectivos gerais (de natureza política, económica ou pedagógica) que acentuam
o carácter retórico das medidas tomadas. Acrescenta-se o cunho centralizador
das mesmas.
António Teodoro (2001) acentua que as décadas de cinquenta e sessenta são,
inquestionavelmente, marcadas, no plano das políticas educativas, por uma
preocupação dominante, a de assegurar uma contribuição marcante da educação
para o desenvolvimento económico (p. 28) e que, em especial, a partir da
década de cinquenta se inicia uma forte inflexão da frequência escolar em
todos os níveis de ensino (p. 50).
Aliás, as reformas educativas têm sido fortemente pautadas pela presença do
Estado como protagonista voluntarista das mesmas. O termo reforma aponta para
processos de mudança planificada centralmente, exógenos às escolas, em que é
predominante uma lógica de mudança instituída (Canário, 2005, p. 93). Refere
António Teodoro (2001, p. 16) que entendida como uma política racional de
intervenção, a reforma é um elemento fundamental da regulação, do controlo e do
governo do Estado.
Embora, nestas últimas décadas, a imagem do ensino profissional tenha vindo a
ser construída e desconstruída sucessivamente, não impede que o mesmo tenha
acabado por se consolidar na compleição do sistema educativo, servindo cada
reforma, apesar dos seus traços distintos, para o tornar cada vez mais
sustentado e morfologicamente mais presente na sua estrutura. Ou seja, existe
uma descontinuidade que, analisada temporalmente, constrói uma continuidade, em
função de múltiplos contextos que, por vezes, partilham de aspectos comuns
como, por exemplo, a relação cada vez mais recorrente entre educação, economia
e sociedade, que legitima e consolida cada acção reformista na esfera
educativa.
Daí a escolha de um limiar temporal que abarca cerca de cinquenta anos de
políticas educativas, para melhor percepcionar a consolidação do ensino
profissionalmente qualificante no sistema de educação e formação de nível
secundário em Portugal.
Nos cinquenta anos que medeiam entre os anos 1960 até aos nossos dias, aumentou
em cerca de 26 vezes (de 13.116 para 349.477 alunos) o número de jovens
matriculados no ensino secundário. Acrescenta-se que, em 1960, o número de
alunos matriculados no secundário representava 1,2% do universo total de alunos
matriculados nos vários níveis de ensino e que no ano lectivo de 2007-2008
representava 19,4% (GEPE/ME, 2009) desse total, o que mostra a sua crescente
importância.
Para além das mudanças registadas entre as décadas de 1960 e 1970, o ensino
secundário começa a ganhar uma expressão mais evidente no pós-25 de Abril,
quando o acesso à escola começa a ser encarado como elemento essencial da
própria cultura democrática e se torna o reflexo da construção política do
Estado.
Apesar da representação deste crescimento, a partir de meados da década de
1990, ocorre um decréscimo relativo do número de alunos matriculados neste
nível de ensino, consequência da evolução demográfica da população,
nomeadamente do índice sintético de fecundidade da população portuguesa que,
desde os anos 1970, tem registado uma forte diminuição.
No entanto, estes valores não traduzem o facto de que somente 49,6% da
população portuguesa, entre os 20 e os 24 anos, ter concluído o ensino
secundário (INE, 2006) quando, por exemplo, a média para a União Europeia, em
2007 (Education at a Glance, 2009) é de 85%, e de que a proporção de população
activa com este nível de ensino é de somente 15,3% (INE, 2008), para cerca de
70% na OCDE.
De qualquer forma, o crescimento do ensino secundário e a sua massificação têm
sido uma realidade, emergindo a par da diversificação de percursos escolares de
carácter qualificante, nomeadamente o ensino técnico-profissional e o ensino
profissional.
A resposta a inúmeras solicitações quer de carácter social, cultural, quer
económico ou político fazem com que o ensino secundário possua valor
instrumental para a sociedade actual, sobretudo no que diz respeito às relações
entre educação e o mercado de trabalho e à possibilidade de resposta a dar ao
número de jovens que ainda saem do sistema escolar sem terminar o ensino
secundário e que não possuem qualificações para o trabalho.
Uma das evidências dessa importância reside no facto de o direito à formação
ter vindo, ao longo das duas últimas décadas, a ser objecto de consagração
jurídica em todos os países desenvolvidos, mercê da sua emergência como objecto
social significativo, reflectindo-se também em Portugal essa tendência. Assim,
a formação aparece no sistema educativo português como uma das suas dimensões e
decorre naturalmente do direito à educação, sendo entendida pela Comissão
Interministerial para o Emprego (CIME, 2005) como o conjunto de actividades
que visam a aquisição de conhecimentos, capacidades, atitudes e formas de
comportamento exigidos para o exercício das funções próprias duma profissão ou
grupo de profissões em qualquer ramo de actividade económica.
Sendo assim, o desenvolvimento de políticas de educação e formação, com a
consequente diversificação das vias vocacionais, tem ganho maior consistência e
visibilidade, sobretudo a partir dos anos 80 do século XX, à medida que se têm
implementado sucessivas reformas do sistema educativo que, gradualmente,
alteraram a arquitectura do ensino secundário. Estas mudanças culminaram na
constituição de um sistema estruturado para a qualificação profissional da
população jovem e adulta que se sustenta num programa governamental lançado
recentemente, a Iniciativa Novas Oportunidades e na instituição do Sistema
Nacional de Qualificações.
Tradicionalmente, o ensino geral, mais direccionado para o prosseguimento de
estudos tem sido o preferencialmente escolhido pela maioria dos alunos
matriculados, tal como se pode observar pelo Gráfico 1. No entanto, podemos
registar algumas variações no que diz respeito à relação de importância que se
estabelece entre os três tipos de ensino.
Gráfico 1 - Alunos matriculados no nível secundário, por tipo de ensino e por
ano lectivo (%)
Podemos constatar que o ensino de carácter mais geral tem sido o predominante
ao longo destes últimos cinquenta anos. Nas décadas de 1960 e 1970 o ensino de
carácter profissionalizante mostra uma evolução assinalável, mas desde o início
dos anos 1970 até meados dos anos 1980 deixa de ter expressão significativa, só
reaparecendo com mais força a partir da década de 1990, mercê da implementação
de ofertas formativas de dupla certificação (escolar e profissional) que
valorizam o próprio estatuto deste tipo de ensino. Nos anos mais recentes, a
par da diminuição do número de alunos matriculados na via de ensino e nos
cursos tecnológicos, assiste-se a uma tendência de subida do ensino
profissional no ensino secundário.
1.As grandes reformas do sistema de educação e formação
A transição dos anos 60 para os anos 70 do séc. XX representa para Portugal um
ponto de viragem nas políticas de educação e formação. Sérgio Grácio (1998)
refere no seu trabalho sobre a evolução do ensino técnico em Portugal (1910-
1990) que as mudanças sociais e económicas que então se deram promoveram um
crescimento económico a ritmo elevado, especialmente nos anos 60 (p. 151) que
acabariam por ter consequências decisivas no aumento generalizado da procura
de ensino (p. 151), induzindo uma viragem decisiva na política de ensino (p.
187). Estas mudanças direccionaram-se no sentido da expansão dos ensino
preparatório e secundário (Teodoro, 1982, p. 21).
Stoer (1982) igualmente menciona que a expansão da industrialização e a grande
afluência de capital estrangeiro durante a década de 1960 para o nosso país,
deram início a uma transformação estrutural do Estado e abriram caminho para a
gradual introdução de uma política de ensino e planeamento que teve o efeito de
expandir o acesso ao ensino e de aumentar a sua importância económica.
Por conseguinte, a década de 1960 marca, sem qualquer dúvida, o início da
disseminação da educação em Portugal, com o estabelecimento da escolaridade
obrigatória, em 1964, de seis anos. É a fase que Canário (2005, p.79) apelida
de explosão escolar, em que a associação entre o progresso económico e a
elevação geral dos níveis de qualificação escolar das populações surge como a
grande impulsionadora da intervenção do Estado no sistema educativo. A
propósito desta altura, Stoer (1982) refere a forte influência das organizações
internacionais que transpiram a lógica de que a educação é concebida,
principalmente, como um agente de transformação económica e, consequentemente,
social. Ela providencia o capital humano. (p. 35).
A teoria do capital humano tornou-se um paradigma dominante na economia da
educação dos anos sessenta (Teodoro, 1994, p. 49), colocando a atenção no
papel económico do ensino, por oposição ao papel social que lhe era
tradicionalmente atribuído.
Os crescentes efeitos da influência internacional sobre o nosso país durante o
Estado Novo, tornam-se visíveis na relação entre o campo educativo e a
preparação para o trabalho e, por conseguinte, no crescimento do ensino
secundário e do ensino técnico-profissional. Fátima Antunes (2007) afirma que
nos anos 1950 a 1970, é de realçar a forte influência do ocdeísmo em Portugal,
patente na adopção de medidas de política educativa relacionadas com a expansão
da escolaridade, com o planeamento educacional e com a modernização
administrativa.
Numa breve retrospectiva, verifica-se que indubitavelmente somos herdeiros de
um passado histórico relacionado com o ensino técnico-profissional, que se
implementou progressivamente a partir de 1854, com António Augusto de Aguiar, e
que ganhou grande expressão durante o Estado Novo, sobretudo a partir da
Reforma do Ensino Técnico'Profissional, Industrial e Comercial (Decreto-Lei n.º
36 356), cuja execução foi legislada com o Estatuto do Ensino Profissional
Industrial e Comercial, de 25 de Agosto de 1948.
Segundo Sérgio Grácio (1986), a reforma de 1948 teve dois objectivos
essenciais: por um lado, adequar a escola às necessidades do desenvolvimento
económico, promovendo a qualificação da mão-de-obra e, além disso, o
enquadramento e o controlo, dentro de limites aceitáveis para o regime político
de então, da procura de ensino e das expectativas de ascensão social.
De acordo com o mesmo autor, a principal inovação desta reforma foi a
introdução do ciclo preparatório (pós ensino primário obrigatório de 4 anos),
com a duração de dois anos, associada à diversificação das suas modalidades de
frequência e a efectiva expansão da rede de escolas técnicas que se lhe segue
(Grácio, 1986, p. 97). Grácio sublinha que tiveram particular êxito os cursos
da metalomecânica e da electricidade, para onde convergia a maior parte dos
alunos do ensino industrial. Mas a percentagem de operários formados
relativamente ao total de diplomados do secundário foi sempre pequena, mesmo no
período em que o ensino técnico conheceu a sua melhor hora.(p. 97). A este
propósito, vejamos a seguinte referência:
Para termos a justa medida das proporções, consideremos agora o
conjunto do ensino secundário: tanto no início dos anos 60 como nos
anos 70 o número de diplomados pelos cursos industriais não
ultrapassa os 12% do total, contra 72% de diplomados pelos cursos
gerais e complementares do liceu e 16% pelos cursos comerciais. A
frequência da escola secundária não parece pois ter uma estreita
afinidade com a preparação para o "trabalho manual",
ainda que qualificado. É pois a exclusão, e não a frequência da
escola secundária, que se encontra associada na experiência dos
agentes à participação no trabalho manual (Grácio, 1986, p.46).
No entanto, a reduzida permeabilidade entre as vias técnica e liceal e a
precocidade, cada vez maior na própria medida do crescimento escolar, da
escolha entre elas, reforçavam a representação de uma divisão técnico/liceal,
obstáculo à realização da igualdade de oportunidades (Grácio, 1998, p. 185),
que se reflectiu num impacto menor do que o desejado para o alcance destas
medidas.
Apesar da pouca visibilidade verificada a nível do ensino secundário, a partir
desta reforma, introduzem-se aspectos determinantes para a consolidação do
crescimento do ensino qualificante durante as décadas que se seguem, uma vez
que a educação pós-básico se torna cada vez mais objecto de uma procura mais
generalizada e o sistema educativo passa a ser, indubitavelmente, encarado pelo
Estado como estratégia de desenvolvimento económico.
Essa procura atingiu um pico por altura da Reforma Veiga Simão, tendo-se
verificado que entre meados da década de 1970 e inícios da década de 1980,
decaiu significativamente, em detrimento dos cursos gerais, para depois, a
partir dos finais da mesma década, ter sido reanimada sucessivamente com as
reformas do ensino secundário que se seguiram: uma que abrange os finais da
década de 1980 e se prolonga pelos anos 1990 e outra que se desenvolve a partir
dos primeiros anos do século XXI e que culmina com a revisão curricular do
ensino profissional, em 2004.
A Figura 1 sintetiza as grandes marcas das reformas políticas da educação, em
termos cronológicos, que se repercutiram significativamente na evolução do
sistema de educação e formação de nível secundário quer porque ensaiaram uma
predisposição para abrir caminho para o ensino de carácter qualificante, quer
porque trouxeram inovações importantes que permitiram efectivar a sua
concretização.
Figura 1 - Cronologia das reformas educativas do sistema de educação e formação
(pós-1948)
Desta forma, serão passadas em revista as principais medidas que implicaram, em
cada reforma do sistema educativo a consolidação de uma política para a
educação e formação em Portugal.
1.1 Reforma Veiga Simão: um novo rosto para o ensino secundário
A Reforma Veiga Simão, em 1970-73, é o resultado das rápidas mudanças
demográficas, económicas e sociais que se impuseram a partir das décadas de
1950 e 1960 e que levaram a um aumento da procura de ensino (Grácio, 1998).
Rui Grácio (1981, p. 119-120), refere que importantes transformações se tinham
verificado entre as décadas de 1950 e 1970, com directa (e indirecta)
incidência na morfologia, na composição do sistema educativo e nas medidas de
política educativa e na alargada, diferenciada (designadamente pelo
contingente feminino, em crescendo) e volumosa procura de educação que então
se verificou. Desta forma, a elevação do nível de vida e a valorização da
certificação formal da educação a par da expansão do sistema de ensino,
contribuíram para a valorização do capital cultural e escolar. Este autor
refere:
Na verdade, verificava-se, desde o quinto decénio, um crescimento
económico, aliás acompanhado de uma desintegração do sistema
produtivo, de fenómenos de migração interna e externa, de
urbanização, principalmente no litoral, de terciarização e
feminização do emprego ' feminização do ensino também ' de
crescimento do sector administrativo do Estado e de reforço da
intervenção deste em vários domínios ' saúde, previdência social,
ensino; e, ainda, fim da autarcia económica, com integração crescente
na economia europeia desde finais de 50. Concomitantemente, em
diferentes camadas sociais, alteram-se atitudes e condutas, assumem-
se novos valores, sobretudo por efeito da urbanização crescente, de
mais acentuada abertura ao mundo exterior ' emigração, intensificação
do comércio externo, turismo, televisão ' abertura que suscita uma
consciência mais clara dos "atrasos" nacionais. Fenómeno
importante: a emergência de uma nova classe média e a tendência para
o assalariamento em diferentes camadas e grupos profissionais
(operários, quadros de administração pública e empresarial)
Stoer, Stoleroff e Correia (1990) apontam esta reforma como a primeira
tentativa séria para o Estado institucionalizar a escola de massas através do
alargamento do acesso ao ensino oficial, tendo como objectivos principais a
garantia da igualdade de oportunidades (a democratização do ensino) e a
promoção do desenvolvimento económico e social. O alargamento da escolaridade
obrigatória, de 6 para 8 anos, e a expansão do ensino preparatório, contaram-se
entre as medidas mais emblemáticas desta reforma.
António Teodoro (1982) também enfatiza alguns dos aspectos mais significativos
que atribui a esta reforma, perceptível no seguinte excerto:
No concernente à Reforma isto significou, com efeito uma maior
igualdade de oportunidades na educação, em termos de acesso,
quantidade de educação, regionalização e sexo. Por outro lado, ela
ocupou-se de uma nova via para o desenvolvimento, de um projecto de
modernização. Por outras palavras, a Reforma Veiga Simão exprimiu
mais do que uma exigência de acesso ao ensino, já que ela implicou
também mudanças básicas na orientação da economia (p. 29).
Envolta numa discussão pública inédita (Grácio, S., 1998, p. 179), o Projecto
de Sistema Escolar apresentado por Veiga Simão em 1971, teve um carácter
inovador e mobilizador, pois pretendia colocar em prática um ambicioso
programa de modernização do sistema educativo, que correspondesse ao discurso
de renovação e de mudança (Teodoro, 2001, p. 266) pretendido pelo Estado para
sua própria legitimação, numa época em que o ethos e o estilo salazaristas
tinham entrado em acelerada dissonância com o alargamento dos horizontes de
vida (Grácio, S., 1994, p. 186). Stoer (1986) considera que a Reforma Veiga
Simão foi o indicador concreto do colapso da ideologia educacional dominante
da era de Salazar (p. 28).
A Lei nº 5/73 de 5 de Julho, que nunca foi regulamentada, constituiu o
normativo que espelha a mudança do sistema de ensino. Esta prevê a
diversificação do sistema escolar e equipara o ensino técnico ao ensino liceal,
determinando que o ensino secundário complementar tenha o objectivo de,
simultaneamente, preparar para o ingresso nos cursos superiores ou para a
inserção na vida activa, garantindo-se pela primeira vez aos alunos do ensino
técnico o acesso ao ensino superior nas mesmas condições de paridade com os
alunos do ensino liceal, uma vez que os cursos complementares também se
estenderiam às áreas técnicas e artísticas, assegurados por escolas
secundárias polivalentes ou por estabelecimentos de ensino de índole
específicas, nomeadamente orientados para a formação de profissionais (ponto
4, Base IX, da Lei nº 5/73). Assim, o ensino técnico, agora designado
preferencialmente por ensino profissional, era deslocado para um nível mais
elevado do sistema de ensino apontando os cursos gerais de âmbito
profissional para o seu prolongamento no complementar (Grácio, S., 1998, p.
179).
Uma das finalidades preconizadas pelo sistema educativo, seria preparar todos
os portugueses (...) como agentes e beneficiários do progresso do País (ponto
2, Base III, da Lei nº 5/73) sendo a formação profissional um dos fins do mesmo
sistema, visando habilitar para o exercício de uma profissão, mas sem abdicar
de uma educação de ordem cultural e científica que favoreça o desenvolvimento
da personalidade e a adaptação às exigências sociais e profissionais
contemplando a frequência, com aproveitamento, de grupos de disciplinas
incluídas noutras modalidades do sistema escolar (Base XII, da Lei nº 5/73)
prevendo, desta forma, disciplinas comuns em cursos de natureza diversa, o que
certamente era inovador à época.
Destacamos um aspecto curioso deste normativo que se prende com o facto de nos
cursos gerais e nos cursos complementarester sido definida, obrigatoriamente,
como uma das disciplinas de opção uma matéria de índole técnico-profissional
(art.º 9, Base IX, da Lei nº 5/73), aspecto sintomático da intenção de
socialização dos jovens para a formação profissional, uma vez que a maioria
destes se decidia pela via liceal, para prosseguimento de estudos.
Em síntese, as medidas desta reforma que mais influenciaram a consolidação do
ensino técnico-profissional foram:
• o alargamento da escolaridade obrigatória; a expansão, no ensino secundário
complementar, da formação técnico-profissional, que assim, elevava o grau desta
formação (que se centrava muito nos cursos gerais);
• a possibilidade de prosseguimento de estudos superiores para um conjunto
maior de cursos de carácter qualificante de nível secundário.
No entanto, a Reforma Veiga Simão não teria oportunidade de vingar na sua
aplicação, com a queda do regime político em Abril de 1974, mas Stoer (1982, p.
48) considera-a muito importante porque abriu caminho para o planeamento e a
política educativa na década de setenta, ajudando a colocar Portugal numa
certa marcha para a modernização, alicerçada numa relação mais estreita entre
a educação e a orientação da economia.
1.2. O (re)acender do ensino profissionalmente qualificante nos anos 1980 e
1990
A partir de 1974, na sequência da mudança do quadro do regime político,
altera-se o contexto político da educação formal, afirmando-se mais
fortemente, e mais diferenciadamente, correntes de opinião favoráveis à
"democratização do ensino" (Grácio, R., 1981), delineando-se
tomadas de medidas que reflectem a nova relação entre o poder político e a
sociedade civil.
Assim, sob o pano de fundo da recém instaurada democracia, ocorre a extinção do
ensino comercial e técnico (em Junho de 1975) e a consequente unificação do
ensino secundário, que devem ser encaradas como tentativas de inverter o papel
da escola na reprodução das desigualdades sociais que se inscrevem no
desenvolvimento de um modelo de escola democrática, donde não está ausente a
preocupação de estabelecer uma relação crítica entre a escola e o mundo da
produção (Stoer, Stoleroff & Correia, 1990, p. 26).
Desta forma, as reformas realizadas nos anos setenta no ensino secundário, em
particular os processos de unificação das suas diferentes vias, situam-se neste
contexto, em que a preocupação dominante se manifesta ao nível da ligação entre
educação e democracia, e que tem na crítica ao carácter reprodutor das
desigualdades sociais do sistema educativo, desenvolvida abundantemente nos
anos sessenta, a sua base e fundamentos teóricos (Teodoro, 1994, p. 107).
De acordo com Rui Gráciotrês finalidades emergem da unificação do ensino
secundário, em 1975:
Primeira: adiar para quinze anos a escolha do rumo escolar que no
sistema antecedente teria de fazer-se aos doze, permitindo aos
rapazes e raparigas autodeterminarem-se com menor possibilidade de
erro e adiando, com vantagem, a incidência dos factores financeiros e
culturais de ordem familiar na opção do rumo escolar ou profissional
do jovem;
Segunda: romper com a dualidade ensino liceal-ensino técnico,
dualidade que no contexto político-social vigente exprime, ao mesmo
tempo que reforça, não apenas a dualidade trabalho intelectual-
trabalho manual, mas também, correlativamente a dualidade dominante-
dominado;
Terceira: romper com a dualidade escola-comunidade, educação formal-
educação não formal, dualidade que empobrece os dois termos do
binómio (1985, p. 106, 107).
Vislumbra-se nestas finalidades os ecos da revolução democrática em que
princípios como a igualdade e a paridade são os porta-estandartes da política
governativa. Por conseguinte, imbuído neste espírito, o ensino técnico-
profissional, sinónimo de desigualdade social, é relegado para um minimal
ensino nocturno, tendo-se verificado, paralelamente, um recrudescimento do
ensino de carácter geral.
A preocupação dominante da política educativa nos primeiros governos
constitucionais, que se seguem ao 25 de Abril de 1974, é a normalização do
funcionamento do sistema educativo (Barroso, 2003, p. 68), que se estende até
à aprovação da LBSE, em 1986. No plano da educação, sobretudo a partir do I
Governo constitucional, pretendeu-se concretizar o processo de normalização do
sistema educativo (Teodoro, 1994, p. 80), entendendo-se este processo por uma
alegada neutralização ideológica do aparelho de ensino, em correlação aparente
com o objectivo, prioritário, da sua adaptação às necessidades de um
desenvolvimento que exige a preparação de mão-de-obra e de quadros de
diferentes níveis de qualificação (Grácio, R., 1981, p. 15-16).
Barroso (2003, p. 68) torna inteligível, em termos práticos, esta concepção de
normalização, ao afirmar que o objectivo fundamental desta política consiste
em recuperar o poder e o controlo do Estado a da sua administração sobre a
educação, eliminando as "derivas revolucionárias", afastando os que
eram considerados os seus principais agentes no aparelho do Ministério da
Educação e introduzindo critérios de "racionalidade técnica" na
decisão política, nomeadamente, por meio do reforço das estruturas e dos
processos de planeamento.
A partir da década de 1980, a introdução de vias profissionalizantes de nível
secundário no sistema educativo passou a ser uma das questões mais centrais
marcando as reformas que se seguiram e que se caracterizaram por uma forte
intervenção do Estado na definição das estratégias da política educativa,
influenciada por uma racionalidade económica globalmente emergente e
impositiva.
Está retomada, assim, a discussão da reintrodução de uma via vocacional no
ensino secundário, inicialmente com a criação, por determinação do Decreto 240/
80, de 19 de Julho, do 12º Ano como ano terminal do ensino secundário,
estruturado em duas vias ' via ensino e via profissionalizante ' definindo que
a via profissionalizante prepara especificamente para um primeiro nível de
qualificação profissional, mediante uma informação e prática em áreas
tecnológicas diversificadas (art.º 3, ponto 3).
A Portaria 684/81, de 11 de Agosto, definiu os planos curriculares dos cursos
da via profissionalizante, orientados para actividades específicas, com
possibilidade de prosseguimento no ensino superior politécnico. No entanto,
esta tentativa ficou saldada por um tremendo fracasso, porque na sua origem
esteve sem dúvida o fechamento dos horizontes sociais que a via
profissionalizante representa para uma população cujo elevado grau de
sobrevivência no sistema de ensino lhe confere propriedades escolares e sociais
convidando a voos mais longos (Grácio, 1986, p. 149).
1.3 A Reforma Seabra ' uma experiência-piloto
Em 1983, José Augusto Seabra através do Despacho Normativo nº 194-A/83, de 21
de Outubro, apresenta uma experiência-piloto a ser avaliada e como início de
uma mutação estrutural do sistema de ensino, não só ao nível do secundário, mas
também a montante a jusante deste (Grácio, 1998, p. 225). Esta experiência
assinala o regresso da educação e formação no ensino secundário com a
reinstitucionalização de uma via vocacional (Stoer, Stoleroff & Correia,
1990, p. 27).
O preâmbulo do normativo legal que enquadra esta mudança confirma como vector
dorsal a preparação dos jovens para o emprego:
A política de educação do Governo dá prioridade à institucionalização
de uma estrutura de ensino profissional no ensino secundário, através
de um plano de emergência para a reorganização do ensino técnico que
permita a satisfação das necessidades do País em mão-de-obra
qualificada, bem como a prossecução de uma política de emprego para
os jovens (Despacho Normativo nº 194-A/83, de 21 de Outubro).
Com esta reforma foram criados cursos técnico-profissionais, com a duração de 3
anos, e cursos profissionais, com duração de ano e meio, a ministrar após o 9º
ano de escolaridade, estabelecendo as normas de estruturação e funcionamento
dos respectivos cursos. Os primeiros, permitiam a dupla certificação (escolar e
técnico-profissional) de nível secundário e o prosseguimento de estudos
superiores, os segundos, só permitiam a obtenção de um diploma profissional e o
ingresso na respectiva carreira profissional, ou seja, visam a formação
operária ou para profissões pouco abertas em termos de carreiras,
correspondendo tipicamente ao trabalho de execução (Grácio, 1998, p. 226),
necessitando de 3 anos de escolaridade suplementar, em regime nocturno, para
permitir o acesso ao ensino superior. Deste modo, a sua criação não fez
aumentar significativamente a percentagem de alunos inscritos neste tipo de
cursos. Joaquim Azevedo (1999) refere que em 1984, apenas 3% dos jovens que
prosseguiam estudos pós-básicos o faziam em cursos de tipo técnico e
profissional (p. 20).
Sérgio Grácio (1988) sintetiza um conjunto de razões que estão na base desta
reforma:
• o desemprego juvenil, causado por uma conjuntura em que figuram o
abrandamento no ritmo do crescimento económico, a desmobilização militar, a
travagem da emigração, o afluxo de repatriados das ex-colónias;
• o aumento da pressão exercida pelo caudal de candidatos ao ensino superior.
Estas razões terão suscitado, por parte dos dirigentes estatais a percepção de
um cenário de emergência pública de uma problemática juvenil, que foi
fundamental para a inserção de um ramo técnico-profissional na estrutura do
ensino secundário (Grácio, S., 1998, p. 205-211).
A acrescentar a esta interpretação podemos ainda defender a importância
crescente da influência proveniente das políticas da Comunidade Económica
Europeia, embora Portugal ainda não tivesse concretizado a sua adesão, mas sim
começado a executar uma estratégia de socialização antecipatória (Afonso,
2002, p. 35).
Apesar de tudo, a reforma Seabra salda-se por um insucesso na sua implementação
por escassez na procura dos cursos. Azevedo (1988) formulou uma hipótese
explicativa globalizante desse insucesso, adiantando que existia um
desequilíbrio entre a oferta e a procura (oferta que aumenta de ano para ano,
mas com cursos que acabaram por não abrir por falta de inscrições e muitos
outros com frequências mínimas), porque a tendência era marcadamente para o
prosseguimento de estudos, pelo que os jovens alimentavam expectativas de
permanência no sistema e, por isso, não aderiram ao ensino técnico-
profissional.
1.4 A Reforma do Ensino Secundário em 1989
A tendência para encarar a qualificação profissional como parte integrante dos
objectivos da política educativa acentua-se durante a década de 1980, em
especial a partir da integração de Portugal à então CEE. No discurso político
argumenta-se a necessidade de se darem respostas a esse desafio, tornando um
verdadeiro motor exógeno de desenvolvimento do país (Teodoro, 1995, p. 49),
sustentando a tendência vocacionalista da educação e acentuando o discurso
sobre a modernização, caracterizada pela racionalidade económica, a
optimização, a eficácia e a eficiência como elementos nucleares (Lima, 2002,
p. 21).
Fazendo um retrato da população, que se traduz por um fraco índice de estudos,
numa mão-de-obra profundamente desqualificada, numa taxa de analfabetismo sem
paralelo na Europa, em sérios estrangulamentos no acesso à educação, na
deficiente qualidade dos serviços educativos, a todos os níveis, e no grave
índice de insucesso escolar, particularmente no âmbito do ensino básico
(Programa do XI Governo, 1987 ), o Governo define uma série de iniciativas que
enformaram a reforma do sistema educativo a implementar nesta altura.
Marcada pela Lei de Bases do Sistema Educativo, apresentada normalmente como o
ponto de partida (e de referência) da reforma educativa (Lima, 2002, p. 52),
esta começou por ser concretizada através da criação da Comissão de Reforma do
Sistema Educativo (CRSE), por resolução do Conselho de Ministros nº 8/89, que
dá corpo às intenções da política educativa, como podemos ver pela referência
introdutória dessa resolução:
A reforma pretendida deverá preparar o sistema educativo para
responder oportuna e eficazmente aos novos desafios que se perfilam,
sejam eles decorrentes da adesão à CEE ou da inevitável emergência de
uma nova sociedade de inteligência, de criatividade, de formação
permanente e de justiça social.
Ao criar esta Comissão, o XI Governo (1987-91) deixa claro que a reorganização
do sistema educativo deveria estar em conformidade com as directivas do
Governo e obedecer aos princípios seguintes:
1. A necessidade de descentralizar a administração educativa, tanto no plano
regional e local como no plano institucional.
2. A intenção de modernizar o sistema de ensino, tanto na sua organização
estrutural e curricular como nos métodos e técnicas da sua prática.
3. O propósito de valorizar os recursos humanos disponíveis e assegurar maior
exigência qualitativa ao serviço de ensino prestado.
Desta forma, torna-se evidente que o Estado assume o protagonismo principal no
processo de reforma educativa (Teodoro, 1995, p. 53), papel esse patente no
posicionamento do Governo face à direcção a dar à política educativa, referindo
que a renovação estrutural da economia e da sociedade não poderá ocorrer sem
uma política de educação que valorize a nossa matriz cultural e permita vencer
os desafios inadiáveis do presente e do futuro próximo (Programa do XI
Governo, 1987), sinal indiscutível da valorização do eixo escolaridade-mercado
de trabalho (Stoer, Stoleroff & Correia, 1990, p. 11).
No âmbito desta reforma, o programa governamental defende a multiplicação
acelerada da oferta de formação profissional e profissionalizante quer no
âmbito da reformulação do ensino secundário e da expansão do ensino superior
politécnico, quer pelo apoio à implantação de uma rede de escolas
profissionais, de iniciativa eminentemente local, como um dos vectores em que
a modernização da educação portuguesa deverá assentar. A este propósito,
referem Stoer, Stoleroff e Correia (1990, p. 48) que as mudanças na política
educativa em Portugal, quer vistas em termos da profissionalização da educação
e da escolarização da formação profissional, quer vistas quanto à abertura da
escola ao mundo do trabalho e às empresas, podem ser tomadas, numa primeira
abordagem, como uma estratégia modernizadora de um Estado semiperiférico que
tenta promover a oferta de qualificações gerais e específicas, de acordo com o
aparecimento de uma procura em certos sectores da economia.
No primeiro documento da CRSE dá-se particular valor à formação profissional
como meio de adequar o sistema educativo à dinâmica do mercado de emprego,
através da reorganização global dos esquemas de iniciação e formação, a
articulação entre os sistemas formal e não formal, a adopção de um sistema
consistente de orientação escolar e profissional (Grácio, 1998, p. 232).
Desta forma, a CRSE preconiza o desenvolvimento de uma matriz comum para a
diversidade de ofertas de educação e formação a implementar no ensino pós-
básico, de acordo com um modelo normativo-dedutivo, fundado numa concepção
determinista da mudança, conduzida do topo para a base do sistema top down, com
o reforço dos dispositivos de planeamento e legitimada politicamente por um
discurso modernizador' tendo em vista assegurar a integração de Portugal na
Comunidade Europeia (Barroso, 2003, p. 70). A este propósito recorde-se que
foi fundamental para custear as despesas da nova política educativa o Programa
de Desenvolvimento Educativo para Portugal (PRODEP).
Fátima Antunes (2000, p. 121) considera que a reforma educativa envereda pela
diversificação da oferta formativa de nível secundário, tendo como base de
sustentação da política educativa a necessidade percepcionada de:
• por um lado, seduzir os sobreviventes do sistema educativo, aspirantes a
percursos escolares prolongados, para vias de formação de técnicos e/ou quadros
intermédios orientadas ainda para facilitar o confronto com o deserto do
mercado de emprego;
• por outro lado, proporcionar alternativas de escolarização (e formação)
suplementar àqueles jovens cuja experiência escolar conduziu à exclusão ou
alienação do sistema de ensino regular, formando e credenciando técnicos e
trabalhadores altamente qualificados.
Assim, o conjunto de medidas que estruturam o ensino/formação de nível
secundário ao longo dos anos 80 e 90, em particular aquelas implementadas entre
1988 e 1996, pode ser interpretado nos termos de um mandato que busca articular
a gestão da inserção profissional dos jovens (e a sua socialização e
mobilização para o trabalho nas novas condições de emprego) com a integração e
retenção de novos públicos em percursos de escolarização prolongada
alternativos ao ensino regular (Antunes, 2000, p. 127).
Com o incentivo à educação e formação profissional na ordem do dia, verificou-
se um acentuado aumento do número de alunos a frequentar as vias
profissionalizantes, que chegou a atingir 1/5 dos alunos inscritos no ensino
secundário.
Sustentada na LBSE, a ampla reforma do sistema educativo que surge nos finais
da década de 1980, determina o surgimento do ensino profissional nas Escolas
Profissionais, de iniciativa privada, mas apoiadas pelo Estado e pela União
Europeia, criadas pelo Decreto-Lei nº 26/89, de 21 de Janeiro, e a Revisão
Curricular do Ensino Básico e Secundário, reflectida no Decreto-Lei nº 286/89,
de 29 de Agosto, que sistematiza as principais intenções deste movimento de
reforma da educação.
A criação do subsistema de escolas profissionais em 1989, com tutela mista
entre o ministério da Educação e outros promotores públicos ou privados
(Barroso, 2003, p. 71), foi fundamental para a afirmação definitiva do ensino
profissionalmente qualificante como modalidade alternativa ao ensino secundário
regular. Esta oferta de ensino foi projectada para facultar acesso a um diploma
profissional de certificação de qualificação de nível III (técnicos
intermédios) equivalente, para efeitos de prosseguimento de estudos, ao diploma
do ensino secundário.
A partir desta reforma, todas as modalidades educativas de ensino secundário
pós-obrigatório passam a contar com uma estrutura curricular composta por três
componentes: geral ou sociocultural, específica ou científica e técnica ou
tecnológica, variando o peso de cada componente em função do tipo de curso, e
que se mantém até 2004 (altura de nova reforma do ensino secundário), em cursos
predominantemente orientados para o prosseguimento de estudos (CPOPE) ' os
cursos gerais - e cursos predominantemente orientados para o ingresso na vida
activa (CPOVA<) ' os cursos tecnológicos.
Desta forma, a via geral apresentaria maior congruência com percursos
posteriores mais longos e com componentes teóricas e académicas mais fortes e
os cursos tecnológicos mais orientados para preparar os jovens aspirando a
formações de nível superior mais curtas, de pendor dito mais prático e menos
academizante (o ensino politécnico cujos estudantes seriam originários, em
primeiro lugar, dos cursos tecnológicos) (Barroso, 2003, p. 119).
Como resultado desta reforma, assiste-se a um secundário que só admite na sua
via "predominantemente orientada para a vida activa cursos como os TP
[técnico-profissionais], e que rejeita os cursos P [profissionais], de facto
assaz incongruentes neste nível de ensino e neste estádio de desenvolvimento da
procura (Grácio, 1998, p. 233).
Em 1994, na sequência desta revisão curricular são lançados 11 cursos
tecnológicos nas escolas do ensino regular.
Os cursos gerais e tecnológicos apresentavam uma matriz curricular próxima: o
mesmo número de horas de duração, as mesmas disciplinas na componente de
formação geral e disciplinas comuns na componente específica nos cursos da
mesma área de formação. Esta aproximação a nível de estrutura começa a
preconizar a possibilidade de mobilidade entre os cursos, o que mais tarde se
veio a verificar aquando da reforma do ensino secundário, ocorrida em 2004.
1.5 A Revisão Curricular do Ensino Profissional e a Reforma do Ensino
Secundário no início do século XXI
Durante a década de 1990 continuou a fazer-se sentir a necessidade de uma
aposta ainda maior nas vias profissionalizantes de ensino, começando a
desenhar-se uma nova configuração do sistema educativo. Em 2000, o Ministro da
Educação, Guilherme de Oliveira Martins, afirmava que as componentes
profissional, tecnológica e artística têm uma dignidades próprias, e o Governo
está apostado em as valorizar, não só porque a sociedade precisa delas cada vez
mais, mas também para que os jovens possam ter acesso a uma empregabilidade
rápida (cit. por Pinto, 2006, p. 107).
A partir de 2004-2005 foi dado início à aplicação da Reforma do Ensino
Secundário, preparada gradualmente durante os finais da década de 1990 e
inícios deste século, através de uma série de medidas que abrangeram, entre
outras, o regime de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos
públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário (Decreto-Lei
nº 115-A/98, de 4 de Maio), a reorganização dos cursos gerais e cursos
tecnológicos e respectivos currículos e a reorganização dos programas das
disciplinas.
Em 2002, com a publicação da Lei Orgânica do Ministério da Educação foi
apontado como um dos objectivos estruturais da reforma da educação
directamente reclamado pelo desafio da qualificação dos recursos humanos em
termos conformes ao papel de Portugal na União Europeia e no mundo e às
necessidades da competitividade da economia global, a integração entre as
políticas e os sistemas de educação e as políticas e os sistemas de formação ao
longo da vida. Esta integração visa prosseguir objectivos, quer de qualificação
inicial de jovens com competências profissionais necessárias à sua transição
adequada para a vida activa, embora preservando e fomentando o cumprimento da
escolaridade obrigatória e das vias gerais da educação escolar de carácter
universal e contrariando a tendência para a inserção precoce dos jovens na vida
activa, quer do desenvolvimento da aquisição de aprendizagens por adultos, num
modelo de formação ao longo da vida. (Decreto-Lei n.º 208/2002, de 17 de
Outubro, Ponto 2).
Um ano depois, em 2003, com a reforma do ensino secundário a ser delineada, a
preocupação centrava-se na consolidação do ensino profissional, tendo sido
elaborado, para discussão pública, o documento orientador da Revisão Curricular
do Ensino Profissional, onde se refere que este se constitui hoje, como um
subsistema de ensino em clara trajectória de consolidação, integrando-se no
sistema do ensino secundário, no qual fez prova da sua relevância, como
modalidade especial de educação dirigida à qualificação profissional inicial
dos jovens. Os cursos profissionais de nível secundário apresentam-se como um
percurso alternativo assente numa estrutura curricular modular e numa dimensão
predominantemente técnica e prática da aprendizagem, preparando para o
exercício profissional qualificado, numa perspectiva de Aprendizagem ao Longo
da Vida, tendo sempre presente a dimensão humana do trabalho (p. 5).
As linhas orientadoras de acção definidas por este documento foram:
• a racionalização, articulação e transparência da oferta de formação
profissionalmente qualificante, nomeadamente através da criação de um Catálogo
Nacional de Qualificações e de um Catálogo Modular de Formação Profissional;
• a prioridade da oferta formativa dos cursos de qualificação profissional de
nível III (técnicos intermédios);
• a racionalização da rede de oferta formativa, através do reforço da
complementaridade e diversidade das formações e das instituições formadoras:
escolas profissionais, escolas secundárias e centros de formação;
• a concepção de Referenciais de Formação para a aquisição de competências
transversais e específicas dos perfis profissionais a considerar;
• organização da formação em três componentes ' sociocultural, científica e
técnica;
• a formação em contexto de trabalho, tendo em conta a dinâmica e
especificidade de cada Escola/Curso, a desenvolver no âmbito das disciplinas
estruturantes dos perfis de saída;
• reforço da estrutura modular, como característica dos referenciais de
formação profissionais, ou seja, a sua organização em módulos, entendidos estes
como unidades de aprendizagem autónomas, integradas num todo coerente.
Com o Decreto-Lei nº 74/2004, de 26 de Março, foram regulamentados os
princípios orientadores da organização e da gestão curricular, bem como da
avaliação das aprendizagens, no nível secundário de educação. Este diploma
consubstanciou as prioridades da política educativa nos dois vectores
seguintes:
• formação e qualificação dos jovens;
• combate ao insucesso e abandono escolares.
A articulação progressiva entre as políticas de educação e formação, a
potenciação da diversidade das ofertas formativas, a permeabilidade entre
cursos com afinidade de planos de estudo para facilitar ao aluno a alteração do
seu percurso formativo, a aposta nas tecnologias de informação e comunicação e
o reforço da autonomia das escolas foram as estratégias delineadas para atingir
as metas daqueles eixos prioritários. Através deste diploma, firmado pela
Portaria nº 550-C/2004, de 21 de Maio, abre-se às escolas secundárias do ensino
público a possibilidade de terem como oferta formativa cursos do ensino
profissional.
Paralelamente à introdução desta modalidade de ensino nas instituições
escolares públicas, acontece uma maior abertura destas às solicitações do meio
envolvente, valorizando mecanismos de aproximação entre os estabelecimentos de
ensino e as instituições económicas, financeiras, profissionais, associativas,
sociais ou culturais do tecido social local e regional, constituindo-se, assim,
como potencial factor de desenvolvimento e resultado do mesmo, no contexto de
uma sociedade e economia do conhecimento e da inovação (ME, 2003, p. 7-8).
Igualmente se define que a adequação desta oferta formativa aos perfis
profissionais actuais e emergentes deve ser feita no quadro de uma
identificação de áreas prioritárias e estratégicas para o desenvolvimento
económico e social do País, num contexto de globalização (Portaria 550-C/2004,
de 21 de Maio, art. 8º).
De referir que a grande aposta no ensino profissional é reforçada através dos
mecanismos de financiamento estabelecidos, nomeadamente através do Programa
Operacional do Potencial Humano (POPH), que veio substituir o PRODEP (Programa
de Desenvolvimento Educativo para Portugal), criado no âmbito dos Quadros
Comunitários de Apoio (QCA), do Fundo Social Europeu e que terminou em 2006.
O POPH constitui um dos programas operacionais que mais investimento público
concentra - perto de 8,8 mil milhões de euros, dos quais 6,1 mil milhões são
comparticipação do Fundo Social Europeu. No Quadro de Referência Estratégico
Nacional (QREN), documento programático que enquadra a aplicação da política
comunitária de coesão económica e social em Portugal no período 2007-2013
(substituta dos QCA) a dotação para qualificação dos recursos humanos
representa 37% dos apoios estruturais. Um dos eixos prioritários de intervenção
é o Eixo 1 - Qualificação Inicial. Este eixo insere-se na Iniciativa Novas
Oportunidades que tem como objectivo fazer do 12º ano o referencial mínimo de
escolaridade para todos os jovens e assegurar que as ofertas
profissionalizantes de dupla certificação passem a representar metade das vagas
em cursos de educação e de formação que permitam a conclusão do secundário
(POPH, 2007, p. 5).
A Iniciativa Novas Oportunidades é o programa mobilizador que alicerça a
consolidação das ofertas profissionalmente qualificantes, tendo operando uma
campanha agressiva, mas eficiente e de grande alcance, junto da opinião
pública, que tem vindo a criar uma imagem mais positiva deste tipo de ensino.
À semelhança da estrutura definida em 1989, a orgânica do actual sistema de
ensino não superior circunscreve a escolaridade pós-obrigatória a um ciclo
único de três anos, posterior à conclusão do ensino básico. Organiza-se segundo
formas diferenciadas, contemplando a existência de cursos predominantemente
orientados para a vida activa (carácter profissional) ou para o prosseguimento
de estudos (carácter geral) no ensino universitário ou politécnico (Eurydice,
2006/07).
De acordo com as metas previstas pela Iniciativa Novas Oportunidades, a
frequência de percursos formativos de nível secundário tem vindo a aumentar,
como se pode verificar pelo Gráfico 2, relativo ao número de alunos
matriculados em cursos de dupla certificação.
Gráfico 2. Alunos matriculados em cursos de dupla certificação de nível
secundário
O crescimento do número de jovens em cursos profissionais é o que mais tem
contribuído para a evolução que se tem verificado nos últimos anos,
representando 85% dos alunos matriculados em ofertas de dupla certificação no
ano lectivo de 2009-2010, o que representa um aumento de 185% relativamente a
2006-2007.
De acordo, ainda, com os dados da Agência Nacional para a Qualificação, existe
em 472 das cerca de 500 escolas públicas oferta de cursos profissionais de
nível secundário, o que corresponde a uma taxa de cobertura de cerca de 90%,
tendo assim ultrapassado em importância as escolas profissionais, com 60% dos
alunos destes cursos inscritos nas escolas públicas (Gráfico 3).
Gráfico 3 - Evolução dos alunos inscritos em cursos profissionais em escolas
públicas e escolas profissionais
De acordo com a Iniciativa Novas Oportunidades, na sua vertente de qualificação
de jovens, perspectiva-se uma profunda intervenção no ensino, de tal forma que
prevê a generalização da educação e formação dos jovens e, em particular, do
ensino profissional nas escolas públicas. A este propósito, a meta projectada
define que o número de vagas nos cursos/vias profissionalizantes representem,
em 2010, metade do total de vagas relativamente ao ensino secundário público
(Iniciativa Novas Oportunidades).
Com a instituição do Sistema Nacional de Qualificações, através do Decreto-Lei
nº 396/2007, de 31 de Dezembro, consolida-se esta Iniciativa, criando-se os
instrumentos de operacionalização que reestruturam e articulam a formação
profissional inserida no sistema educativo e no mercado de trabalho,
nomeadamente o Quadro Nacional de Qualificações e o Catálogo Nacional de
Qualificações, tendo como referência os princípios do Quadro Europeu de
Qualificações. A generalização de um patamar mínimo de qualificação dos jovens
correspondente ao nível secundário de escolaridade e a diversificação das
ofertas formativas de dupla certificação (escolar e profissional) surgem como
os objectivos principais a atingir pelo SNQ.
A grande visibilidade política que este conjunto programático, inerente à
estratégia educativa actual, tem assumido permitiu que, de facto, estejamos
perante um eixo reforçado de mudanças do sistema educativo que sustentam com
grande propriedade a educação e a formação profissional no contexto do ensino
secundário, com tendência para se projectarem no futuro de forma substantiva.