Os textos da tradição oral portuguesa no 3.º Ciclo do Ensino Básico e no Ensino
Secundário
O que está em causa sempre que uma criança utiliza um texto da literatura oral
não é uma mera iniciação no mundo da arte (Coelho, 1883, p. 16); um poema
oral infantil, uma adivinha ou um provérbio fazem parte do mundo do literário,
enquanto mundo de autonomia do estético e do belo, e permitem já a leitura e a
redefinição dos condicionalismos do real; são lugares de criação, descoberta e
exploração de identidades e intersubjectividades.
Por isso, sempre que o professor valoriza o património literário oral da
comunidade e, muito em particular, os textos literários orais que um aluno ou
os alunos usam, está a reconhecer os seus códigos linguísticos, sociais e
culturais. Desse modo, investe na cultura de cada um e de todos, e faz da sala
de aula e da escola espaços de acolhimento que contribuirão para a melhoria da
qualidade de vida pessoal e social (do lazer ao trabalho, do exercício da
cidadania ao exercício profissional). Unindo pessoas, esta literatura aproxima
culturas e povos. Daí o ponto de vista da UNESCO, em carta de recomendação
assinada em 1989 em Paris: a literatura oral, tradicional e popular é
património universal da Humanidade.
Não é por acaso que as chamadas dedicatórias (com frequência quadras
tradicionais ou de tipo tradicional) circulam intensamente entre os nossos
alunos, que às vezes as usam nas capas dos seus cadernos diários. O sucesso da
dedicatória, de que já recolhemos algumas centenas de exemplares, vem das
características do cancioneiro popular e da lírica em geral: a concisão, a
clareza discursiva, o ritmo, a métrica, a rima, a primazia dos motivos líricos
e a consequente facilidade de memorização dos seus poemas. Se as quadras
tradicionais sobrevivem com a função de dedicatória, muito adaptadas, com
pequenas variações ou mesmo reproduzindo totalmente o texto tradicional, é
porque correspondem a uma representação simbólica de sentimentos e de situações
que fazem parte do tecido sociocultural e idiossincrásico dos seus
utilizadores.
Uma dedicatória de amor, lida, declamada ou cantada, dá sentido a uma
mensagem que cada intérprete-autor e cada receptor, ouvinte ou leitor,
transforma em acto de conhecimento sobre si e sobre um objecto de desejo. Um
texto como este é lugar de sublimação, razão e emoção em que cada um procura
dizer a sua totalidade ou a sua fragmentação: Tudo o que tenho na vida/ Cabe
na minha mão/ O teu retrato cortado/ Em forma de coração (Nogueira, 2009, p.
82). Na dedicatória também há graça, gracejo, humor e ironia com uma
intencionalidade socializadora: O amor é um deserto/ Que se deve atravessar;/
Tudo depende do camelo/ Que te vá acompanhar (Nogueira, 2009, p. 92). E há a
sátira, a que podemos chamar medicinal, que vem da necessidade de lidar com
ressentimentos e libertar energias negativas: Je t'aime em francês,/ I love
you em inglês;/ Para te dizer a verdade,/ Detesto-te em português (Nogueira,
2009, p. 84).
Também as lendas exigem hoje uma atenção renovada no processo de ensino-
aprendizagem. Em primeiro lugar, porque dispomos de recursos teóricos e
críticos cada vez mais actualizados, a que poderemos adequar processos de
operacionalização tanto mais eficazes quanto mais conhecermos esses textos nas
suas formas da expressão e nas suas formas do conteúdo; mas também porque há
hoje uma especificidade cada vez mais enraizada na nossa cultura da
globalização: a chamada lenda urbana, a que os mais jovens dedicam uma atenção
muito particular, porque através dela são confrontados com a sua natureza
enquanto pessoas, nas suas verdades por vezes mais recônditas e irracionais.
Este género permite-lhes interagir com a alteridade às vezes mais estranha, mas
nem por isso destituída de significado para um melhor conhecimento do mundo e
do seu devir
[1]
. Tratar, na sala de aula, lendas urbanas xenófobas ou racistas pode ser muito
importante para desenvolver atitudes de tolerância, aceitação e respeito pelo
outro. O mesmo se deve dizer em relação a tipologias textuais como a anedota, a
adivinha e o provérbio, que existem porque reajustaram a sua funcionalidade às
condições sempre diferentes dos universos mental, social, religioso, político e
cultural.
Também não podemos esquecer o diálogo intertextual que autores consagrados,
inscrevendo-se numa tradição que nos chega dos cancioneiros trovadorescos,
estabelecem com o esquema matricial de uma Língua e de uma Literatura que todos
conhecemos e, não raro, usamos.
Fernando Pessoa, por exemplo, legou-nos, nas suas mais de quatrocentas quadras
ao jeito popular, o conhecimento, a estetização e a transformação do mundo que
só uma arte singular realiza, não através de formas a-sociais ou etéreas de
arte elitista, mas da aparente singeleza ou puerilidade das construções
inscritas nas tradições verbais portuguesas. Veja-se esta quadra popularizante
do poeta dos heterónimos, em que o eu canta e simultaneamente comenta uma
experiência de entrega amorosa partilhada com um tu: Boca de romã perfeita/
quando a abres pra comer,/ que feitiço é que me espreita/ quando ris só de me
ver? (Pessoa, 2002, p. 102); ou esta, de Vitorino Nemésio, que nos diz como
uma vida pode cumprir-se na palavra literária oral: No Brasil há uma alimária/
chamada papa-formigas;/ eu como a vida em palavras,/ chamo-me o papa-cantigas
(Nemésio, 1989, p. 304).
Garantir a estes géneros e subgéneros da tradição literária oral e popular a
merecida notoriedade dentro do nosso sistema educativo implica, primeiro,
realizar uma revisão científica, à luz das mais modernas teorias e
metodologias. Para isso, cada professor de língua portuguesa poderá adoptar a
seguinte linha de trabalho:
1. Selecção de textos: recolha de campo (em escolas, junto de alunos) e recolha
em livros (Almeida Garrett, Adolfo Coelho, José Leite de Vasconcelos,
Consiglieri Pedroso, Viale Moutinho, etc.).
2. Questões genéricas: circunstâncias da produção, transmissão e recepção (e da
recepção, transmissão, produção); autoria / anonímia; tradicionalidade; oral /
escrito; variantes e funções.
3. Formas e conteúdos: dos temas e motivos à poética dos géneros em versos e
dos géneros em prosa e à estruturação / funcionamento da língua.
4. Relação culto / popular: do texto oral / popular / tradicional ao texto de
autor (por exemplo: em escritores portugueses como Mário de Sá-Carneiro,
Fernando Pessoa ou Vitorino Nemésio, e brasileiros como Cecília Meireles ou
Carlos Drummond de Andrade).
5. Construção de uma bibliografia actualizada e de uma referência a recursos
disponíveis em páginas da Internet.
A reputação a que acima nos referíamos implica, numa segunda fase, o
desenvolvimento de actividades e estratégias de operacionalização pedagógico-
didáctica. É preciso articular as actividades já em curso no âmbito do
currículo (ler / ouvir / falar / escrever) com actividades de intermediação que
mobilizem as comunidades em torno das suas escolas; sem esta perspectiva, não é
possível fomentar uma cultura de escolaridade alargada, de respeito e apreço
pela instituição escolar.
Este caminho requer o desenvolvimento de projectos de parceria escola/
comunidade, nos quais se proceda a uma prática dos textos orais, populares e
tradicionais mais aptos a contribuir para a resolução das diferenças sociais,
culturais e económicas. Isto exige que se considere como estratégia essencial
de todo este processo a recolha de textos literários orais por parte dos
alunos: quer os que eles apresentam como corpus interiorizado, quer os que
circulam nos seus ambientes de socialização interpessoal, quer ainda os que
atravessam todas as áreas sociais.
De facto, as especificidades literárias de transmissão oral / popular /
tradicional surpreendem-nos hoje com hábeis dispositivos de adaptação a meios
supostamente adversos à acomodação-recriação de textos ou microtextos da
tradição oral. É sabido que os textos e os ambientes clássicos de circulação
têm conhecido aceleradas e súbitas mutações que não se compadecem com o
apagamento irreversível de uma determinada memória. Mas a literatura que se
realiza no suporte fugaz e instável dos canais da oralidade (primária ou
secundária) é sempre outra literatura, no movimento diacrónico como nas
sincronias socioculturais.
A tradição, categoria virtual e dinâmica, nunca é o que era. Daí que, no caso
da literatura oral, tradicional e/ou popular, assistamos à morte de géneros,
textos ou de praticamente todo o sistema de várias espécies textuais; neste
processo de selecção natural apenas se mantêm as composições que se adaptam a
novos registos, formatos e sustentáculos: o livro, sobretudo o de recepção
infantil e juvenil, a televisão, a rádio, o cinema, a internet, o CD, o CD-Rom,
etc.
Examinemos alguns casos, para que se perceba bem a amplitude e a complexidade
deste problema.
O texto literário oral que se mantém na memória e nos usos é, antes de mais, um
texto persuasivo; se não o é, desaparece assim que nasce. Nos objectos
publicitários, a forma tradicional obedece a uma brevidade poético-musical que
garante a sua funcionalidade: seja nas vozes que ecoam desde o fundo cultural
comunitário, seja nas vozes criadas originalmente para o registo mediático
(visual-sonoro ou impresso), de onde podem libertar-se para viver na oralidade.
O slogan Primeiro estranha-se, depois entranha-se, criado por Fernando Pessoa
para a coca-cola, nos inícios do século XX, ilustra bem esta tendência de
renovação da oralidade literária; acontece o mesmo com o sugestivo Há mar e
mar, há ir e voltar, de Alexandre O'Neill, que é hoje também uma forma breve
já clássica.
A cultura popular é, em muitos aspectos, transversal a classes sociais e formas
estéticas; pensemos em cantautores como José Afonso, Vitorino, Fausto, Isabel
Silvestre ou Sérgio Godinho ou em grupos como os Gaiteiros de Lisboa, Diolinda
ou Pé na Terra. Nas suas obras, os sentimentos, os valores e os símbolos
ancestrais convivem com os novos valores de cidadania, com as novas ideologias
e culturas; o intimismo, a sátira, o cómico, o feio, a religiosidade ou o belo
(nas suas diversas formas) aparecem em função das mesmas concepções humanistas
essenciais: a justiça, a honestidade, o riso como libertação humana, a luta por
valores ético-morais. A ligação faz-se tanto ao nível das estruturas e das
formas como ao nível dos conteúdos; os novos gostos ou tendências acolhem o
gosto antigo naquilo que ele tem de expressivo e comunicativo. A clareza da
linguagem e das ideias é uma das leis, mas nem por isso o texto surge
destituído de ambiguidade e, logo, de poeticidade.
São também paradigmáticas as estilizações e execuções de romances tradicionais,
de cantigas líricas ou narrativas
[2]
da responsabilidade de cantautores célebres como José Afonso, Vitorino ou
Fausto, ou de grupos conceituados, profissionais ou amadores, como a Brigada
Victor Jara, a Ronda dos Quatro Caminhos ou os Madredeus
[3]
.
Essas interpretações modernas, para lá da importância do estilo linguístico,
dependem muito de tudo o que torna a voz humana no mais prodigioso dos
instrumentos humanos. O tom e o timbre, o sentido do ritmo e os impulsos
sensoriais, em comunicação directa com a movimentação corporal, geram um
universo que é corpo e poesia, arte e humanismo. Nos seus estudos sobre poesia
oral, Paul Zumthor (1983) e Ruth Finnegan (1992) têm insistido num aspecto que
é essencial para a construção de uma escola mais democrática e saudável:
através da voz, o intérprete comunica ao seu corpo e ao dos ouvintes, por
contágio rítmico-magnético, um valor expressivo que maximiza a poetização, a
emocionalização e a percepção da mensagem. A oralidade mediatizada
mecanicamente, isto é, diferida, adiada, prolongada, repetida no tempo e no
espaço, interioriza a memória colectiva e ao mesmo tempo expressa-a, distende-
a e espacializa-a.
É por isso que a voz, mais habitualmente do que a escrita, assume na poesia um
discurso explícito de criação e participação, a que modernamente se junta a
força da imagem estilizada; e é por isso que este é um recurso por excelência a
convocar sem preconceitos nas nossas escolas. De resto, a grande poesia da
nossa época é (continua a ser) cantada.
A mudança de forma é fundamental na literatura de transmissão oral, que hoje
passa de puramente vocal e instrumental a oral mediatizada electronicamente (e
a audiovisual). Isto implica que a imagem, já não a imagem estática mas a
imagem em movimento, cumpre com o seu papel de mediação da mensagem entre a
fonte (um conjunto de técnicos de publicidade de comunicação bem treinados) e
os receptores.
Neste processo, a cultura oral popular liberta-se da conotação de
infraliteratura que lhe está associada há demasiado tempo. Notemos apenas dois
exemplos muito conhecidos: o anúncio televisivo do azeite Gallo, que recupera
uma música tradicional
[4]
, e o slogan radiofónico sobre um tarifário da rede telefónica móvel TMN, que
assenta em dois versos de uma conhecida fórmula de selecção infantil: Um dó li
tá/ Cara de amendoá.
Estes objectos literários folclóricos, cujo lugar é a memória de certas faixas
sociais ou de todo um país, acabam assim por ser absorvidos e devolvidos à
sociedade através de um canal que muitos ainda julgam ser incompatível com a
palavra literária comunal. E nem se trata aqui de comunicação artificial
suspensa entre a evolução e o conservadorismo; trata-se de uma purificação que
conjuga elementos da cultura popular / oral / tradicional, da cultura de massas
e da cultura erudita, numa prova notável de ligação a manifestações
tradicionais que, afinal, não estão irremediavelmente perdidas.
É uma literatura, nas suas multiformes manifestações, pronta a renascer do
silêncio que pesa sobre muitas das suas práticas e das suas formas; e é assim,
antes de mais, porque estes textos são atravessados por uma profunda
humanidade.
Sublinhemos, mais uma vez, o caso da dedicatória. Este género do cancioneiro
infanto-juvenil recupera muitas quadras tradicionais, mas não é um simples
memorial do cancioneiro popular português. Entre as crianças e os adolescentes
em idade escolar, do 2.º Ciclo do Ensino Básico até ao final do Secundário, há
inúmeros intérpretes-autores que entram em diálogo com a quadra tradicional;
multiplicam-na em concretizações escritas, que se inscrevem na milenária
tradição dos cancioneiros manuscritos, e criam novos textos a partir desse
modelo.
Os recursos, as temáticas e os valores que no passado justificavam géneros e
subgéneros literários, orais ou escritos, mantêm-se fundamentalmente os mesmos:
a complexa relação homem / mulher, os enigmas do amor e da morte, o humor, a
ironia, o riso, a linguagem lapidar e poética, para apelar aos sentidos e, numa
osmose lapidar, combinar emoção com intelectualização, razão com emoção.
Recordemos que os valores que regiam os heróis dos folhetos de cordel clássicos
são praticamente os mesmos que entram nos filmes de aventuras de Hollywood: o
bem e o mal, a riqueza e a pobreza.
Significa isto que o nosso projecto tem em vista um objectivo holístico: não se
trata de mudar os elementos, já (bem) presentes na organização curricular, mas
de optimizar a interacção entre eles.
Há, primeiro, que conhecer cientificamente estes textos nos seus múltiplos
aspectos e na sua complexidade, para que todos os possamos respeitar. Importa
admitir a sua exemplaridade artística e a sua profundidade enquanto signos de
um labirinto vivencial: signos cuja energia mental e estética é parte de uma
medicina e de uma memória da comunidade cujas propriedades terapêuticas e
valências não devem ser menosprezadas. Incluímos neste grupo quer quem se
encontra ligado às áreas do conhecimento que dela mais se podem valer, como
profissionais da saúde, antropólogos, sociólogos, linguistas, músicos,
historiadores de mentalidades, etc., quer todos os agentes do campo cultural
(compreenda-se: os da esfera da disponibilização de recursos financeiros,
nomeadamente políticos, entidades privadas e mecenas, e os de praticamente
todos os universos artísticos).
E já nem se trata propriamente de reclamar a canonização de uma modalidade
textual oral conotada apenas com as classes sociais ditas subalternas e
marginalizadas; já vimos que estes géneros literários orais se acomodam hoje a
um novo concerto de intervocalidades e intersubjectividades em que participam
todos os estratos da sociedade. Trata-se, antes, de reivindicar a originalidade
e a profundidade da cultura e literatura de transmissão oral na era da
globalização. Isto só é possível com a participação de alunos e professores,
desde que se entenda a verdadeira acepção da fórmula intervenção comunitária,
dependente, em larga medida, da articulação entre as dimensões formais e não-
formais do currículo, da cultura e da divulgação cultural.
Propomos, por isso, um agrupamento em categorias nas quais esses caminhos
poderão adquirir sentido:
1. Actividades de animação cultural: artístico-literárias, patrimoniais e
científicas.
2. Actividades de animação cultural: de integração (manifestações religiosas e
festivas).
3. Actividades de animação político-social: comemorativas, cívicas.
4. Actividades de animação ecológica: ambientais (com textos sobre a natureza:
alusivos à água, aos rios, aos mares, aos animais, etc.).
5. Actividades de animação tecnológica: do texto à imagem e ao som.
A tudo isto acresce a convicção de que importa publicar as conclusões a que
chegarmos, de modo a que todos os interessados possam conhecer as novidades e
os progressos atingidos, dentro do objectivo que todos perseguimos: a
construção de cidadãos plenamente amadurecidos, civilizados, cultos e com
aptidões e interesses diversificados.
Conviria que tal divulgação assumisse também a forma de um específico manual de
didáctica da Língua e da Literatura Portuguesas; a realizar-se, a sua vertente
científica não poderá desligar-se de uma integração efectiva no processo de
ensino-aprendizagem, valorizando tanto as necessidades e especificidades dos
educandos como os processos de que o professor deverá ser agente, para que se
concretize a diversificação de aprendizagens que esta literatura permite.
Para que todos os interessados possam conhecer, usar e comentar o trabalho
produzido, poder-se-á publicar uma parte considerável dessa produção em formato
digital: numa plataforma específica, nas revistas digitais dedicadas ao ensino
da língua portuguesa ou no sítio da Internet do Instituto Camões. Tornar-se-á
assim possível verificar como é de excepção este campo literário e linguístico,
que abre novas possibilidades de ensino-aprendizagem dentro das unidades
didácticas das diversas áreas curriculares.
Exemplifiquemos com o caso da adivinha, que, na sua impressionante condensação,
é pluridimensional e desencadeia no sujeito intercâmbios entre a indagação
subjectiva e a sistematização objectiva, entre a desordem dos dados da
experiência e o seu reagrupamento em conceitos organizados. Ao, nas composições
que mais engenhosas e evoluídas, articular narração com descrição, a adivinha
interage com a tendência da criança e do jovem para dar mundos ao real
empírico; nela, substitui-se o existente pelo real sublime da fantasia e do
maravilhoso.
No ápice de admiração e arrebatamento que coincide com a compreensão do texto,
após a descoberta ou revelação da resposta, o literário torna sensível e
elevado o invisível. Ninguém fica insensível a composições como estas, que unem
os universos da natureza e da cultura, da inteligência e da sensibilidade:
Branco foi meu nascimento,/ Mas sou preta de geração,/ Delicada que sou de
cinta/ E vivo na escuridão (formiga); Sou verde de nação,/ Coroaram-me em
pequenina;/ Do coração me tiraram/ Quantas pedras finas eu tinha (romã);
Altos palácios,/ Lindas janelas,/ Abre-se e fecha-se,/ Ninguém mora nelas
(olhos); Verde foi meu nascimento/ E de luto me vesti;/ Para dar a luz ao
mundo/ Mil tormentos padeci (azeitona). Razão e deslumbramento conjugam-se num
tipo de pensamento que descobre a outra plenitude das coisas.
Se, na sala de aula, tomarmos a adivinha como motivação para o comentário de um
texto ou para a explicação de um conteúdo gramatical, ou se dela partirmos para
questões de poética, a solução poderá reservar-se para o fim, como corolário do
interesse e do assombro despertados nos alunos. A monumentalização da língua,
assim concretizada em cada sujeito falante que com ela institui uma relação
integral de conhecimento e prazer mental e físico, é também a monumentalização
do espaço humano da língua.
Há ainda muito a aprender e a descobrir tanto no que diz respeito à
antropologia e à estética das formas literárias orais como no que tem a ver com
a sua didáctica. Este é um universo de surpreendentes agonias, resistências e
metamorfoses, mas regista-se cada vez mais uma certeza que a verificação
empírica da prática lectiva das literaturas orais, marginais ou marginalizadas,
nos distintos níveis de formação, confirma: o entusiasmo dos docentes que
ensinam os textos, os co-textos e os contextos, e a adesão apaixonada e activa
dos alunos; o que contrasta com a tão falada crise do livro e da leitura, que o
mesmo é dizer crise no ensino da Literatura (institucionalizada).
Através de métodos e suportes progressivamente mais sofisticados, estes
produtos artísticos verbais, que com dificuldade têm adquirido estatuto
literário, em Portugal e não só, conquistam actualmente terreno, no processo de
ensino-aprendizagem, às formas literárias que os mecanismos de validação
institucional procuram introduzir no tecido social.
A adesão dos alunos viabiliza, no professor, o desenvolvimento e a construção
de procedimentos e materiais a implementar em ambiente de aula; e o entusiasmo
do professor também se reflecte no aprofundamento da participação crítica da
maioria dos alunos; e na sua compreensão da diferença social, etária, étnica,
sexual e cultural, num tempo que privilegia o saber-fazer especializado e as
novas tecnologias em detrimento dos afectos. Temos aqui motivos suficientes
para uma reflexão séria sobre a legitimidade do ensino da Língua e da
Literatura, as metodologias, os materiais de apoio e os textos a privilegiar.
Neste processo, pode também verificar-se a optimização de uma prática que é
própria da actividade docente: a docência enquanto campo de investigação
permanente.