Bondade, Altruísmo e Cooperação. Considerações evolutivas para a educação e a
ética ambiental
4. Conclusão: implicações evolutivas para a ética ambiental e a educação
Vivemos num mundo em que as questões éticas estão globalizadas, mas as
condições etológicas e psicológicas para a experiência da bondade e do
altruísmo não são hoje muito diferentes daquelas que caracterizaram um mundo
humano de mais pequena escala. Continuamos a escolher pertencer a pequenos
grupos e as nossas tendências altruístas tendem a beneficiar, em primeiro
lugar, os nossos familiares, de seguida o nosso grupo e só depois a comunidade
mais alargada. Em termos evolutivos, os nossos comportamentos pró-sociais
associaram-se estreitamente com as nossas tendências agressivas.A pressão
evolutiva que seleccionou a cooperação e o altruísmo para a sobrevivência do
grupo, é semelhante à que levou a discriminar contra aqueles que não pertencem
a esse grupo e são potencialmente inimigos (Eibl-Eibesfeldt, 1989). No entanto,
a situação da humanidade actual modificou drasticamente o cenário evolutivo dos
milénios anteriores. Confrontamo-nos hoje com um mundo globalizado que nos é
apresentado quotidianamente através dos meios de comunicação social. O grupo de
pertença alargou-se e identificamo-nos hoje com os humanos que vivem nos
antípodas quase tanto como nos identificamos com os vizinhos que vivem ao nosso
lado. Todos passaram a fazer parte do grupo alargado da humanidade. Os
movimentos de solidariedade colectiva a que assistimos com frequência e a
reflexão contemporânea sobre a aldeia global reflectem essa identificação.
É claro que, nestas comunidades expandidas, o altruísmo, o exercício da bondade
e o vínculo moral são frágeis. Falta-lhes o reconhecimento individual, a
constância e a potencial reciprocidade dos pequenos grupos. Este é um dos
problemas mais graves com o qual estão confrontadas a ética ambiental e a
educação. Mas a compreensão das condições etológicas e psicológicas da
cooperação e do altruísmo poderão ajudar a criar as condições para que a
motivação pró-social se mantenha nas comunidades expandidas. Como vimos, essas
condições incluem a compreensão da cooperação e do altruísmo enquanto forças
biológicas de promoção dos grupos sociais, a ontogénese do afecto e a
experiência precoce da indulgência e da bondade, o exercício da empatia
emocional e cognitiva que se encontra sobretudo activa nos grupos
individualizados, a capacidade de identificação expandida com outros que
consideramos moralmente semelhantes a nós, a possibilidade de instituir um
sistema de normas e de penalizações derivadas, a capacidade de imaginar
argumentos narrativos que justifiquem uma cultura global melhor.
As situações contemporâneas confrontam-nos com problemas inéditos na história
da humanidade: desde as questões da bioética até aos novos problemas
ambientais, todos apelam à consciência deliberativa no sentido de escolher o
melhor bem. Mas estas situações levantam problemas de percepção e de
compreensão a muitos níveis. Rompem com os hábitos comportamentais e não
permitem uma percepção directa sobre o seu grau de necessidade moral. Impõem-se
em cenários distantes no tempo e no espaço, e resultam muitas vezes de
previsões não inteiramente clarificadas pelos conhecimentos disponíveis. Estas
novas questões implicam novas respostas educativas e novos valores morais: uma
literacia que saiba lidar com a complexidade e a imprevisibilidade dos cenários
sociais e ambientais contemporâneos e uma ética sensível à condição dos outros,
humanos e não humanos, presentes e futuros.A disposição bondosa associada a uma
compreensão mais profunda do sentido colectivo da vida sobre a terra estão na
origem da abertura a esse todo. A inteligência emocional pode então encontrar
as soluções cooperativas que o nosso futuro conjunto espera de nós.
Notas
1
O altruísmo biológico aparecerá entre aspas, seguindo a recomendação de Ruse
(1996) quanto à distinção entre a etologia do"altruísmo" nos
animais socialmente menos complexos,e o verdadeiro altruísmo motivado por
emoções, como nos primatas superiores, ou por obrigações, como no ser humano.
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