Análise descritiva da afetividade nos professores em formação na faculdade de
ciências da educação da Universidade de Granada
Introdução
O tema da afetividade tem sido um dos aspetos mais estudados no campo da
psicologia e da psiquiatria. Entre as duas dimensões básicas da pessoa
destacamos a inteligência e a afetividade.
No campo da filosofia, o termo afetividade tem sido tratado nalguns encontros
científicos (Honorio, 2003; UNED, 2004). Entre os clássicos, Aristóteles
referiu-se a conceitos como o desejo; Descartes à paixão; Brentano e Scheler
aos sentimentos, que são termos relacionados.
É ao tentar definir o termo afetividade que nos apercebemos da dificuldade em
fazê-lo (López-Barajas, 2000), já que o seu conteúdo se encontra em todas as
experiências do sujeito e, por isso, contém múltiplas formas de expressão,
necessitando da ajuda de uma linguagem tanto verbal, como não verbal.
Recolhemos algumas das definições que alguns autores fazem do termo, procurando
ilustrar a dificuldade da sua definição.
A palavra afetividade provém de "afetivo", do latim affectatio, que
significa a impressão interior que se produz devido a um fator interno ou
externo.
Vallejo-Nágera (1997) entende a afetividade como o modo através do qual o nosso
ser interior é afetado por tudo aquilo que ocorre à nossa volta, o que provoca
sensações que oscilam entre dois pólos opostos: amor-desamor, alegria-tristeza,
recusa-aceitação.
Nas palavras de Rojas (1993: 12), a afetividade é constituída por "um
conjunto de fenómenos de natureza subjetiva, diferentes do que é o puro
conhecimento, que podem ser difíceis de verbalizar e provocam uma transformação
interior que se move entre dois pólos extremos: agrado-desagrado, inclinação-
recusa, atração-repulsa".
O dicionário filosófico-pedagógico (1997) assinala, entre outros aspetos, que é
uma das dimensões da pessoa, caraterizada por uma série de processos psíquicos,
entre os quais emoções, sentimentos e paixões, unidos pelas manifestações
sentimentais do homem e que se apresentam entre dois pólos: agrado-desagrado,
ódio-amor.
Das definições que aparecem anteriormente, poderíamos assinalar algumas das
caraterísticas essenciais que nos permitirão definir o conceito:
1ª. a afetividade é um estado subjetivo, pessoal e interior, em que o sujeito é
o protagonista da sua própria experiência.
2ª. a afetividade é uma vivência sentida de forma individual e experimental por
cada um em cada momento.
3ª. a afetividade é um estado de alma que se manifesta através das emoções,
sentimentos e paixões que a pessoa tem.
4ª. a vivência e o impacto da afetividade persistem e são marcantes em função
da sua intensidade e duração ao longo da vida emocional do indivíduo.
A cada momento do estado afetivo existe uma trajetória em que é possível
analisar, em primeiro lugar, a origem; em segundo lugar, como se produz e
porque se sente de maneira interna; em terceiro, que reações provoca no âmbito
corporal em cada um de nós; em quarto lugar, de que maneira se manifesta; e em
quinto lugar, a nível cognitivo, de juízos, pensamentos, de que forma ela é
percebida.
Em consequência do exposto, parece que a afetividade funciona nos planos
centrais e mais profundos do organismo vivo: lá onde o psíquico se funde com o
orgânico; lá onde nascem as energias que são utilizadas para satisfazer as
necessidades de todo o ser humano.
Por tudo isto, há que considerar a afetividade como o motor que impulsiona o
comportamento humano, já que condiciona a imensa maioria das nossas formas de
conduta quando vamos realizar uma ação.
Os sentimentos são, antes de tudo, cristalizações que aparecem vinculadas aos
significados sócio-históricos; constituem parte integrante do organismo social;
são conotativos; integram tanto valores em si, como para si; contribuem para a
seletividade do sentido pessoal; interiorizam-se no processo de apropriação;
difundem-se através do processo de aprendizagem, centram-se no outro; apoiam-se
externamente; vinculam-se à atividade objetivada dominante; ligam-se com os
verbos procurar, atuar, poder, fazer, conseguir, alguma coisa; relacionam-se
com o mundo e com o eu através da dimensão do sentido pessoal, exprimem
sentimentos intelectuais, estéticos e morais; constituem sinais do que ocorre
no mundo, manifestam-se na conduta humana; exprimem-se por meio da linguagem
verbal e não verbal; revelam o conteúdo dos objetos assimilados; são
vivenciados pelo sentido pessoal; expressam-se como resultado da consciência
social; surgem pelo funcionamento dos centros subcorticais; são temporais; são
voluntários; regulam os estados emocionais; vinculam-se às necessidades humanas
em general; asseguram a homeostasia do organismo; detêm uma função reguladora
de preservação e extensão da espécie; regulam as relações entre os indivíduos e
a sociedade; são relativamente estáveis; asseguram a estrutura social; estão
contidos nas objetivações humanas; são signos portadores de significado;
possuem carácter, exigem concetualização, ligam-se às motivações humanas; são o
resultado dos processos de subjetivação e objetivação humanas.
Os sentimentos desempenham um importante papel na vida das pessoas. O indivíduo
pode apropriar-se ou não, assimilar ou não, e em diferentes graus, com papel
preponderante ou não, de matizes emocionais, com um determinado significado
sentido.
Quanto às emoções, podemos observar que parte dos pressupostos teóricos do seu
estudo assenta na relação com a atividade. Nesse sentido estimamos que as
emoções se formam na atividade, tanto interior como exterior, e que a sua força
vai depender do nível de desenvolvimento desta atividade prática.
No entanto, são as necessidades que impulsionam as mais variadas formas de
atividade do homem, garantindo a sua formação, existência e desenvolvimento
como organismo, indivíduo e pessoalidade no sistema das relações sociais.
Assim, o desenvolvimento das necessidades e o nascimento dos motivos
específicos humanos apenas podem ser descritos em termos da relação com os seus
objetos.
Como todos os processos psíquicos, os emocionais são o resultado da atividade
do cérebro. O reflexo, no cérebro do ser humano, das suas relações sociais
reais, experimenta as necessidades com objetos que têm significado para ele. A
origem do comportamento emocional é inicialmente orgânica, regulada pela função
postural. Daí o seu caráter filogenético. No entanto, não se pode, nem reduzir
o psíquico ao orgânico, nem separá-los por um abismo impossível de franquear.
Por tudo isto, as emoções fazem parte integrante da esfera motivacional da
afetividade; relacionam a função de signos internos; são mediadoras do processo
de apropriação; refletem as relações entre os motivos e as necessidades;
dirigem a atividade; aparecem como consequência da ação, do motivo, antes da
valoração racional; são paradoxais; exteriorizam-se tonicamente, de maneira
difusa, por todo o organismo; são desconcertantes, estimuladas pelo meio e
possuem conotação valorativa; estabelecem uma relação entre os pronomes eu, me,
mi, migo, e o verbo ser; relacionam-se com os verbos sentir, recordar, olhar,
estar com diferentes tipos de fenómenos; expressam oposição; são
transmissíveis; relacionam o que sente o eu com a atividade dominante;
explicitam o como sentem; exprimem vivências de sentido pessoal, são reprimidas
pela educação e ganham objetividade através das operações intelectuais; são
utilizadas pela consciência como meio mágico de adulteração do real; convertem-
se no ponto de partida da consciência especulativa, são o suporte da
consciência individual; regulam as relações sociais, são instrumentos da
comunicação humana, asseguram a adaptação do indivíduo que se inscreve nas
representações; articulam as condições orgânicas e sociais; experimentam
sentimentos; incorporam a tríade humana bio-psico-social.
A atenção aos valores afetivos, dentro da formação inicial do professorado, é
necessária por estes serem determinantes do comportamento do ser humano; os
sentimentos e as emoções acabam por fazer parte dos elementos curriculares e,
como tal, devem receber um tratamento específico dentro do processo de ensino-
aprendizagem.
Os estabelecimentos de ensino não podem esquecer a realidade dos jovens que
estão a formar, nem desconhecer a emergência dos valores afetivos que estes
alunos apresentam e o papel tão fundamental que desempenham os sentimentos e as
emoções para lhes encontrar soluções. Sabemos que esta tarefa não é fácil, mas
nem por isso deixa de ser urgente. A necessidade e as bases para formar alunos
educados na afetividade foram já expostas neste e noutros trabalhos. Apenas
apontamos que tal solução deve ser um compromisso a adotar, não só pela
administração educativa, mas também pelos professores e, evidentemente, pelos
alunos que formamos nas nossas universidades.
Objetivos
O estudo da afetividade nos futuros educadores, a sua força e evolução são
elementos de suma importância para os professores dos estabelecimentos de
ensino, pois permitem melhorar a relação educativa, decidir a metodologia mais
idónea, assim como a seleção dos conteúdos do ensino, oferecendo um lugar de
primazia a valores como as emoções e os sentimentos - com interesse, além
do mais, para os alunos que vivem, às vezes inconscientemente, um conjunto de
valores emergentes, alheios à reflexão e à crítica, e também para as
instituições relacionadas com a formação de futuros educadores e cidadãos, que
devem organizar com maior frequência as atividades previamente planificadas a
partir de um conhecimento mais exato de quais são os interesses e prioridades
dos seus destinatários.
Considerámos os seguintes objetivos:
1. Identificar os valores dos alunos da Faculdade de Ciências de Educação;
2. Determinar a hierarquia axiológica dos mesmos;
3. Analisar os valores afetivos nos futuros docentes.
Método
Participantes
Realizámos um estudo de carácter longitudinal em três cursos académicos nas
diversas formações em Educação (Ensino Básico - 1º ciclo, Educação de
Infância, Educação Física, Educação Musical, Audição e Linguagem, Língua
Estrangeira - Inglês e Francês, e Educação Especial) e em Pedagogia. O trabalho
foi realizado ao longo de três anos consecutivos, de forma a conhecer a
evolução que, na hierarquia dos seus valores, apresentavam os estudantes de
Ciências da Educação incluídos na investigação, de tal maneira que os mesmos
estudantes foram inquiridos no primeiro ano do seu percurso estudantil, no
segundo, e no terceiro ano. O estudo realizou-se na Faculdade de Ciências da
Educação de Granada, na Faculdade de Humanidades de Ceuta e na Faculdade de
Humanidades de Melilla. Neste artigo apresentam-se detalhadamente os dados
produzidos pelos estudantes durante o primeiro ano da sua carreira, e comparam-
se com as pontuações gerais obtidas durante o segundo e o terceiro anos. Trata-
se, sempre, dos mesmos estudantes.
Os sujeitos que responderam às nossas perguntas, no seu primeiro ano, ascendem
a um total de 945 alunos. Destes, 19.6% são do sexo masculino, e 80.4% são
mulheres.
Instrumento de recolha de informação
A resposta ao primeiro interrogante está condicionada pelo modelo axiológico de
educação integral que serviu de base a outras investigações (Peñafiel, 1996,
Casares, 1997, Álvarez, 2001, Cámara, 2003, Riol, 2006).
O modelo axiológico de educação integral do Prof. Gervilla (2000) inclui o
conceito de totalidade, uma educação do ser humano completo, um desenvolvimento
harmonioso de todas e cada uma das suas faculdades e dimensões, assim como dos
valores que delas derivam. O problema radica em determinar quais são essas
potencialidades e valores, o que dependerá do conceito de pessoa que se tome
como ponto de partida. Neste sentido, a sua conceção de pessoa como "ser
corpóreo dotado de inteligência emocional, singular e livre nas suas decisões,
relacionado com as pessoas e as coisas no tempo e no espaço" (Gervilla,
2000, 43), comporta uma série de categorias ou dimensões e valores derivados de
cada uma delas, e que vamos analisar em seguida. Ainda assim, para cada tipo de
valores estabelece uma série de anti-valores que consistem basicamente na
negação, oposição ou carência dos valores com que se relacionam.
Tal modelo sintetiza e relaciona o conceito de pessoa com o conjunto de valores
e anti-valores gerados por cada uma das suas dimensões, suscetíveis de serem
realizados ou recusados através da ação educativa.
A partir deste modelo, o grupo de Investigação "Valores Emergentes e
Educação Social" (MUM.580), re-elaborou um instrumento que contemplava os
dez valores indicados: corporais, intelectuais, afetivos, individuais,
estéticos, morais, sociais, ecológicos, instrumentais e religiosos (Casares,
1995, 513-337).
O questionário de valores elaborado é o instrumento que utilizámos, uma vez que
se adequava aos nossos objetivos. Neste instrumento manifesta-se o grau de
reação favorável (muito agradável, agradável, indiferente, desagradável, e
muito desagradável) a um conjunto de 25 palavras que configuram cada categoria
de valor, já que as palavras, tal como o valor, possuem uma componente dupla:
informativa e afetiva.
No questionário foi utilizada a técnica de qualificação de palavras, com base
na definição de cada uma em cada categoria e, a partir daí, foi confecionado um
banco de conceitos, na sequência do qual se selecionaram os 25 termos ou
expressões que obtiveram as médias mais altas; estes passaram a formar o
questionário definitivo. Em seguida apresentamos as dez categorias de valor:
Para determinar a fiabilidade do instrumento, selecionámos aleatoriamente um
grupo de alunos a quem passámos o questionário. Mediante o programa SPSS
Windows 11.0 aplicou-se a escala de Cronbach, tendo sido obtido este resultado:
Relibility Analysis-Scale (Alpha)
Realiability Coefficients
N of case = 945
Alpha = ,9141
N of Items = 250
O índice de fiabilidade que oferecemos é o realizado a todo o instrumento de
recolha de dados. Consideramos importante apresentar os resultados obtidos em
cada uma das categorias nas quais está estruturado o questionário. A seguir
apontam-se as pontuações obtidas.
Resultados
Uma vez codificados os dados numa matriz, e antes de passar à análise
propriamente dita, procedemos àquilo que se conhece como depuração da matriz de
dados. Esta depuração consiste em corrigir os possíveis erros, e é efetuada
tanto mediante a impressão de toda a matriz em papel, visualizando os
resultados, como mediante a função de pesquisa automática do programa
estatístico SPSS.13.
Em primeiro lugar, optámos por expor os dados globais para constatar a
hierarquia axiológica dos futuros docentes. De acordo com a pontuação obtida,
seria a seguinte:
À medida que vamos realizando os comentários pertinentes, iremos apresentando
alguns dados desta tabela, de maneira a facilitar a sua visão e análise.
Como realçámos antes, os valores afetivos ocupam um primeiro lugar, existindo
grande correlação com outros estudos axiológicos realizados com jovens (Elzo et
al, 1999; Cruz, et al, 1999; Injuve, 2005). Este dado parece-nos lógico, já que
a afetividade é uma dimensão importante na pessoa, trazendo-lhe um maior grau
de felicidade. Todos os termos que aparecem nesta categoria obtiveram uma
pontuação superior a +1 (intervalo entre +2 e -2), excetuando conceitos
como: casar-se ou esposos (+0.65 e +0.58), pela sua possível relação com
aspetos institucionais e de compromisso.
Análise descritiva
O nosso trabalho estuda a categoria de valores afetivos, centrando-se nos
vocábulos "afetividade", "amar",
"felicidade", "sentimento" e "emoção", e
identificando o número de sujeitos que responderam a cada um dos valores que
compõem este grupo, mínimo e máximo das pontuações obtidas, a média de cada
valor, assim como o seu desvio típico.
Categorias
Tabela 1. Hierarquia de valores
Os valores afetivos são os que atingem as pontuações mais altas, sempre muito
próximas a +2, excetuando os termos esposos e casar-se, com um desvio típico
entre 1.09 e 1.10, respetivamente. As palavras que obtiveram as médias mais
altas são: felicidade (1.91), ser amado (1.89), amar (1.88), carinho (1.86).
Avançando na nossa investigação, aprofundámos alguns vocábulos dentro desta
categoria (valores afetivos), bem como a forma como são entendidos pelos alunos
inquiridos. Os valores que vamos referir são: afetividade, amar, felicidade,
emoção e sentimento.
Tabela: 2. Categoria: Valores afectivos
A afetividade no processo de ensino-aprendizagem serve como catalizador e
intensificador dos interesses dos alunos por qualquer processo educativo de
conhecimento. Como se pode observar nos dados da tabela que mostramos, a
afetividade desempenha um papel essencial na vida dos sujeitos inquiridos, uma
vez que 78,8% a considera como o motor que impulsiona o seu comportamento na
vida.
Tabela 3. Afectividade
Ao definir o termo amar, faz-se referência a um estado emocional caraterizado
pela atração por uma pessoa ou coisa e que vai gerar outros estados afetivos,
entre eles a compreensão, a generosidade, o afeto (Fromm, 2003). É, além disso,
aquela emoção que sentimos por outra pessoa, é sentir que essa pessoa pertence
ao meu mundo, à minha vida (Segura & Arcas, 2003), cuja manifestação é o
desejo da sua companhia, alegrar-se, possui-lo. Dos alunos que participaram na
investigação (945), 89,5% considera que amar é uma questão de suma importância
nas suas relações com os outros.
Tabela: 4. Amar
Os seres humanos desejam sempre o bem. A esse bem último, chama-se felicidade.
Já Aristóteles na sua obra Ética a Nicómaco, assinalava que o que "de um
modo absoluto faz de fim é o que sempre se escolhe pelo seu próprio valor e
nunca pelo valor que outra coisa possui. Pois bem, a felicidade é o que
concebemos como o que mais vale por si e em maior medida". Kant sustenta
que a felicidade é um bem perseguido por todas as pessoas, em virtude de uma
necessidade natural. Por tudo isto, podemos afirmar que a felicidade é o fim
último que procuram alcançar todos os indivíduos da sociedade.
Como se observa na tabela n.º 5, as percentagens obtidas superam em pontuação
os restantes valores analisados, já que 6,2% consideram a felicidade como
agradável e 92,4% como muito agradável.
Tabela: 5. felicidade
Embora os conceitos de emoção e sentimento sejam difíceis de explicar, é
possível fazer uma descrição dos mesmos em determinados contextos sociais e
educativos (Mártinez-Otero, 2005, 38-39), concretizados nos lugares de ócio, na
arte (Segura & Arcas, 2003), nas aulas e nas relações interpessoais
professor-aluno. Podem afetar uma ou todas as funções de forma facilitadora ou
bloqueadora. Sobre a importância que concedem às emoções e aos sentimentos
- que costumam ser persistentes - os 945 sujeitos que participaram
nesta investigação, podemos assinalar que 96,9% manifesta que as emoções são
muito agradáveis nas suas vidas, juntamente com 97%, que manifesta idêntica
posição relativamente aos sentimentos.
Tabela 6: Emoção
Tabela 7: Sentimento
Análise de contingência
Após o estudo dos dados obtidos na sequência da análise descritiva da nossa
investigação, percorremos as variáveis das tabelas de contingência elaboradas,
para assim poder identificar detalhadamente outras questões sobre o estudo dos
valores na formação do professorado. Concentrar-nos-emos apenas nos seguintes
valores: item (54) afetividade; item (55) amar; item (62) emoção; item (73)
sentimento; e item (66) felicidade, relacionados com algumas das variáveis
estudadas (sexo, opção política e especialidade seguida):
Relativamente aos termos analisados (afetividade, amar, emoção, sentimento e
felicidade) e cruzados com a variável sexo, tanto homens como mulheres, existe
um posicionamento claro no sentido do agradável e muito agradável, ainda que,
devido à percentagem mais elevada de mulheres, sejam elas as que obtêm maiores
pontuações.
Tabela: 8.
Variável sexo: afectividade, amar, emoção, sentimento e felicidade
Tabela: 9
Variável opção política: afectividade, amar, emoção, sentimento e felicidade
Em linhas gerais, poderíamos assinalar que aqueles que se manifestam
politicamente de Esquerda, em conjunto com os indiferentes, apresentam uma
valorização mais alta, posicionando-se entre o agradável e muito agradável.
Parece que a opção política influi de maneira notória na relação com as ideias
de afetividade, amar, emoção, sentimento e felicidade. É ainda assim necessário
destacar que os que se consideram de Esquerda (161 sujeitos) ou centro Esquerda
(61 sujeitos), optam pelo valor emoção mais do que os que são de centro Direita
(42 sujeitos) e Direita (77 sujeitos). Existe uma tendência mais numerosa para
o valor sentimento nos sujeitos de Esquerda (161) ou centro Esquerda (71) do
que nos alunos que se manifestam de centro Direita (42 sujeitos) e Direita (67
sujeitos).
Tabela: 10
Variável especialidade seguida: afectividade, amar, emoção, sentimento e
felicidade
Relativamente à "especialidade seguida", os resultados obtidos
mostram que existe, em todas as especialidades inquiridas, a tendência a
posicionar-se com pontuações mais próximas do + 2.
É importante salientar que não existem diferenças apreciáveis nos dados obtidos
referentes ao componente afetivo das carreiras educativas entre os estudantes
das diferentes especialidades.
Percorrendo cada uma delas, observamos que as médias são muito semelhantes: na
variante de Audição e Linguagem, a média do vocábulo afetividade é de 1,85; em
Educação de Infância, 1,84; em Língua Estrangeira, 1,76; em Educação Física,
1,74; em Pedagogia, 1,71; em Educação Especial, 1,73; em Educação Musical,
1,65. A média obtida no primeiro ano da investigação é de 1,76; no segundo,
1,74; e no terceiro, 1,80.
O mesmo ocorre quando estudamos as médias obtidas no termo amar. Observamos que
as pontuações não diferem: na variante de Audição e Linguagem, a média do
vocábulo amar é de 1,85; em Educação de Infância, 1,84; em Língua Estrangeira,
1,76; em Educação Física, 1,74; em Pedagogia, 1,71; em Educação Especial, 1,73;
em Educação Musical, 1,65. A média obtida no primeiro ano da investigação é de
1,88; no segundo, 1,85; e no terceiro, 1,86.
De acordo com as diferentes especialidades, os futuros educadores consideram a
emoção como: na especialidade de Educação Especial a média das emoções é de
1,69; em Educação Musical, 1,69; em Educação Física, 1,67, em Audição e
Linguagem, 1,67; em Educação de Infância, 1,64; em Língua Estrangeira, 1,63; em
Ensino Básico 1.º Ciclo, 1,62; e na licenciatura de Pedagogia, 1,61.
São os futuros docentes de Educação Musical e Educação Especial os que mostram
uma valorização mais alta dos sentimentos. É lógico pensar na relação com o
fazer profissional do docente dedicado a educar.
A média obtida no primeiro ano da investigação é de 1,67; no segundo, 1,64; e
no terceiro, 1,68. Não se observa tendência alguma na evolução das valorações
que estes estudantes fazem ao longo do tempo, pois ainda que no segundo ano a
média geral baixe, para 1,64, no terceiro ano volta a subir, pontuando 1,68.
O mesmo acontece com as pontuações obtidas pelos sentimentos: na titulação de
Audição e Linguagem a média do vocábulo sentimento é de 1,85; em Educação de
Infância, 1,84; em Língua Estrangeira 1,75, em Educação Física, 1,74; em
Educação Especial, 1,73; na licenciatura em Pedagogia, 1,71; em Educação
Musical, 1,65; e em Ensino Básico 1.º Ciclo, 1,63. A média obtida no primeiro
ano da investigação é de 1,71; no segundo, 1,71; e no terceiro, 1,78. Parece
observar-se que, à medida que avança a formação inicial destes futuros
docentes, a componente de sentimentos atinge um peso maior nas suas
preocupações profissionais, seguramente depois de comprovar, durante os
estágios nas escolas, que não são os conteúdos a ferramenta fundamental da
educação, mas o sentimento que se coloca na base das relações humanas.
Por último, na variante de Audição e Linguagem, a média da palavra felicidade é
de 1,85; em Educação de Infância, 1,84; em Língua Estrangeira, 1,75; em
Educação Física, 1,74; em Educação Especial, 1,73; na licenciatura em
Pedagogia, 1,71; em Educação Musical, 1,65; e em Ensino Básico 1.º Ciclo, 1,63.
A média obtida no primeiro ano da investigação é de 1,91; no segundo, 1,88; e
no terceiro, 1,89. É curioso detetar que o termo felicidade, é precisamente
entre os estudantes da variante de Audição e Linguagem, o que adquire um maior
nível em toda a escala aplicada. Podemos relacionar este dado, possivelmente,
com o facto de ser entre os alunos desta área que encontramos a maior proporção
daqueles que escolheram esta carreira como primeira opção para aceder à
Universidade. Não é pois lógico pensar que se sentem felizes com a opção
tomada?
Para finalizar, mostramos a evolução que tiveram todos estes conceitos ao longo
dos três anos que durou a investigação.
Tabela: 11. Hierarquia
Conclusões
A leitura cruzada dos dados obtidos leva-nos a extrair as seguintes conclusões:
1. As mulheres valorizam mais o âmbito afetivo do que os homens. A capacidade
de manifestar sentimentos e emoções é maior nas mulheres do que nos homens.
A análise de contingências referente ao cruzamento das variáveis sexo e
afetividade permite-nos concluir que são precisamente as estudantes mulheres
que atingem pontuações sensivelmente mais altas (localizadas no nível mais alto
da escala) relativamente aos valores afetividade, amar, felicidade, etc. Ou
seja, parece que as mulheres encaram a carreira docente a partir de uma visão
da profissão em que o emotivo e o sensitivo desempenham um papel de maior peso
face ao cognitivo do que os seus companheiros do sexo masculino. Os dados
alcançados na tabela de contingência permitem-nos, ainda, concluir que a
diferença do sensitivo a favor das mulheres é estatisticamente significativa.
2. Aqueles que se manifestam politicamente de Esquerda, em conjunto com os
indiferentes, valorizam mais os sentimentos, a felicidade, amar, a afetividade
e as emoções que os de Direita.
Apesar da simplificação, provocada conscientemente, de estabelecer a ideologia
do estudantes em construções tão débeis como Direita e Esquerda, o cruzamento
de dados desta dicotomia com o resto das categorias submetidas a estudo
permite-nos afirmar que os estudantes que se veem a si mesmos como de Esquerda,
em conjunto com os indiferentes, são os que pontuam no nível mais alto da
escala, isto é, valorizam como muito agradáveis os conceitos e palavras que se
referem aos sentimentos, à afetividade, ao amor e às emoções. Pelo contrário,
são os estudantes que se auto-definem como de "Direita" os que
pontuam mais baixo nos valores referentes ao afetivo e ao emotivo.
3. Quanto à variável "especialidade seguida", não se observam
diferenças nos dados recolhidos.
É importante concluir que não existem diferenças apreciáveis nos dados obtidos
referidos ao componente afetivo das carreiras educativas entre os estudantes
das diferentes licenciaturas. São as diferenças ligadas ao sexo e à orientação
ideológica as que marcam divergências evidentes, mas da leitura da análise de
contingência realizada entre a variável "especialidade seguida" e a
afetividade, depreende-se que todas as pontuações de todos os estudantes se
agrupam no nível mais elevado da escala, independentemente da Variante
profissional escolhida. Não podemos portanto falar de uma predisposição para a
valorização da componente afetiva da Educação mais ligada aos educadores de
determinada área do que a outros, uma vez que todos, de maneira indistinta, o
fazem por igual. Concluímos assim que os conteúdos que estão na base das
diferentes licenciaturas não geram diferenças formativas relativamente aos
futuros educadores no âmbito da afetividade.
Insistimos, em conclusão, na necessidade de conseguir que se reconheça a
importância da formação afetiva, não só no âmbito familiar, mas também no
curricular, com vista a conseguir que se supere a proliferação do intelectual e
se consolide a formação da afetividade com um sentido verdadeiramente
humanístico.
Concluímos que os futuros profissionais da Educação, em termos gerais,
consideram que a felicidade, o amor, a afetividade, a emoção e os sentimentos
devem impregnar todos os processos relacionados com a aprendizagem e a formação
daqueles que vão educar no futuro.