Sexualidade e Educação Sexual
Sexualidade e Educação Sexual
Manuel Tavares conversa com Júlio Machado Vaz
Manuel Tavares (MT)-Professor, para iniciarmos a nossa conversa, não se importa
de fazer uma breve síntese do seucurricum vitae?
Júlio Machado Vaz (JMV) - Licenciado em Medicina; especialista em
Psiquiatria; doutorado em Psicologia Médica; regente da disciplina de
Sociologia Médica; vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia
Clínica; co-director do mestrado de Sexologia da Universidade Lusófona.
Obra publicadas: Sexo dos Anjos, O Fio Invisível, Domingos, Sábados e Outros
Dias, Conversas no Papel, Estilhaços, Estes Difíceis Amores, Olhos nos Olhos
(publicado em Espanha).
Autor e Apresentador dos seguintes programas televisivos:
Sexualidades e Estes DifíceisAmores.
Autor e apresentador dos seguintes programas, na rádio: O Sexo dos Anjos,A Bela
e os Monstros, Olhos nos Olhos e o Amor é....
Director clínico da comunidade Terapêutica de Adaúfe.
MT - "Chega-se ao companheiro ideal após experiências diversas, que
permitem reconhecê-lo por contraste de afectos e prazeres, uma vez nos seus
braços poderemos dizer sem receio, como Neruda: confesso que vivi." JMV,
Estilhaços, pp. 146-147. Depois, vem um conselho: "nem sempre a prática
corresponde à teoria." (op. cit., p. 147).
Este discurso seria impensável tê-lo há quarenta anos. Os tempos mudaram mesmo?
Estas "experiências diversas", estes contrastes, significam saltar
de ramo em ramo, experinciar a sexualidade, descobrir, descobrir-se, re-
descobrir-se? Por onde andam os tabus? Por fim,o conselho às mulheres: cuidado!
Os homens sabem o que significam as suas experiências diversas! Não as aceitam
nas mulheres (nascurso masculino sobre a igualdade entre os sexos?
JMV- Vivemos tempos de alguma "experimentação curtida e
eufórica", mas sobretudo de monogamia seriada - um homem das suas
vidas de cada vez e fazendo figas para que funcione!
É verdade: os homens debitam um discurso politicamente correcto para
"portuguesas verem". E, às vezes, - os marotos! - para
as seduzirem. Mas não para lhes aceitar a igualdade ao nível dos
comportamentos.
MT- A retórica masculina sobre a sexualidade tem finalidades perversas?
Será que as novas narrativas se enquadram numa estratégia de conquista pós-
moderna? Ou, tal como os deuses, os homens também evoluem?
JMV - Claro que evoluem (quanto aos deuses, não sei). Mas menos do que
parece e com menores diferenças do que seria de esperar nas gerações mais
novas.
MT - Gostaria que me falasse um pouco de como perspectiva a educação
sexual nas nossas escolas. Uma disciplina específica? Integrada em diversas
disciplinas? Qual o âmbito dessa educação sexual? Complemento da Educação na
família ou, apenas, numa perspectiva científica?
JMV - 1º Nunca me agradou a hipótese de uma disciplina específica,
tresanda a presente envenenado, pois pode tornar-se no "gueto
sexual" das terças às onze da manhã. 2º O núcleo duro informativo e de
avaliação obrigatória ficaria muito bem na área da saúde, desde que acompanhado
por uma discussão dos factores culturais que influenciam, por exemplo, as
tomadas de decisão na vertente preventiva. 3º Nas diversas disciplinas que
amplamente o justificam - história, psicologia, literatura.. - a
sexualidade deveria ser abordada pelo que é - parte integrante da
personalidade e das relações interpessoais. 4º A "perspectiva
científica" não pode ser isolada de questões éticas em particular, e
culturais, em geral. De resto, não acredito em abordagens científicas
"puras", a ciência não se limita a discutir factos, interpreta-os à
luz dos mais variados pré-conceitos e ideologias.
MT - As suas investigações direccionam-se, actualmente, para a história
da sexualidade (penso que não estou a fazer confusão!). Por que razão a nossa
relação com o corpo (o corpo próprio, como diz Ricoeur) é, ainda, numa época
tão freneticamente liberal, tão complicada? Estudamos o corpo, referimo-nos a
ele cientificamente sem tabus (o corpo-objecto, também expressão de Ricoeur) e,
quando se trata de uma relação afectiva, sensual, erótica… tudo se complica?
Por outro lado, o discurso sobre a sexualidade tem sido, ao longo da história,
por um lado, um discurso do silêncio e, por outro, um discurso da repressão, do
arrependimento e da culpabilidade. Concorda com esta leitura? Se sim, como
criar hoje narrativas sobre a sexualidade que se enquadrem nas novas narrativas
do corpo como, por exemplo, as da publicidade?
JMV- Não creio que possamos falar de história da sexualidade. O conceito
é moderno e não faria sentido, por exemplo, para os clássicos, que não davam ao
sexo a importância nuclear e "rotuladora" que lhe atribuímos. Penso
que assistimos a uma pseudo-libertação sexual e a uma reificação de um corpo
não pensado ou fantasiado. E sem fantasia, a um ritmo frenético, como aspirar
ao erotismo? Não concordo inteiramente com a leitura que refere, ela está
ligada à Igreja (não emprego a expressão "tradição judaico-cristã"
porque a considero injusta para Jesus e para os Judeus). Mas, ao mesmo tempo,
ao erigir a Carne como inimigo principal - na minha opinião ao arrepio
dos Evangelhos…. -, a Igreja deu-lhe uma visibilidade aterradora; pense
nos milhares de páginas escritas sobre o tema por obcecados homens de negro.
Qualquer penitencial do primeiro milénio faz corar de inveja os Tratados de
Sexologia!
MT - Na era da globalização, é inevitável que as sociedades democráticas
ocidentais se transformem, cada vez mais, em sociedades multiculturais.
Estaremos nós preparados, do ponto de vista das mentalidades, para aceitar
determinadas práticas, ditas culturais, de iniciação à fase adulta, como, por
exemplo, mutilação de órgãos genitais femininos, circuncisão? Cultura ou
barbárie? Crime ou cultura?
JMV - Fui educado na convicção de que a democracia defende os direitos
até dos que conspiram contra ela. Em contrapartida, considero que o
multiculturalismo não pode servir de justificação a atentados contra a
dignidade da pessoa humana. A questão faz-me pensar no que em antropologia
médica apelidamos de "camuflagem cultural": determinado indivíduo,
por exemplo, não abusa do álcool, e ponto, parágrafo. O comportamento acontece,
porque ele é, suponhamos, irlandês. Uma cultura não pode servir de álibi a
práticas como a mutilação genital feminina, embora possa admitir, num período
de transição, a possibilidade de pactuar com rituais simbólicosque evitem
práticas discriminatórias por parte do grupo em questão.
MT - Com a vulgarização de Internet, de salas privadas de chat, onde,
muitas vezes, se pratica sexo virtual a dois ou em grupo, com a vulgarização
das Web Cams, como analisa este novo tipo de relacionamento virtual, solitário
e, por outro lado, que reflexos psicoafectivos poderão ter nos indivíduos que
aderem a essas práticas e que consequências nos relacionamentos afectivos
reais?
JMV-A tecnologia é o que fazemos dela. Conheço namoros e casamentos que
começaram na Net, abençoada seja! Mas também observo o enorme potencial aditivo
desse mundo, o qual, se "encaixa" em determinadas características
psicológicas, pode levar pessoas a recusarem as agruras - e recompensas…
- das relações "ao vivo". O caso de adolescentes que se auto-
exilam no seu quarto é particularmente preocupante. Por outro lado, a
experiência de ter um blogue foi uma agradável surpresa, ao demonstrar-me as
extraordinárias potencialidades do que apelidaria de "tertúlia
virtual". Mas é evidente que o anonimato da Net também permite a
activação do que mais cruel e mesquinho nos habita.
MT - "Uma em cada três adolescentes já tomou a pílula do dia
seguinte. As jovens portuguesas continuam a correr muitos riscos nas relações
sexuais. Um dos maiores estudos sobre as práticas contraceptivas já realizados
em Portugal revela que uma em cada seis raparigas entre os 15 e os 19 anos não
utiliza qualquer método anticoncepcional." (Alexandra Campos,Público, 03-
03-05). Quer fazer um comentário?
JMV - Quando, vinte e um anos depois da aprovação de uma lei de educação
sexual, um ministério precisa de constituir uma comissão para averiguar o que
se passa no (seu) terreno, está tudo dito sobre o que os sucessivos Governos
fizeram para modificar esse estado de coisas.
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