Crise económica, saúde e doença
ABSTRACT
Economic crises produce impacts on the health of the populations. Health risk
factors increase while protection decreases. The effects manifest themselves
differently in time but can be prevented or mitigated. To understand the
negative effects of economic downturns on population health and ways to prevent
them we search in MEDLINE, and other sites of evidence-based medicine, articles
published from January 2000 until June 2013, using the MeSH terms: Economic
crisis, Financial crisis, Health, Mental Health. The scientific production in
recent years has shown the effects of economic crises on health. Infant
mortality, mortality related to homicides and suicides increases whereas
mortality from road accidents decreases. The rise in unemployment is associated
with higher suicide rates. The most vulnerable groups are particularly
affected. The effects of economic crises can be mitigated. Investment in active
labor market policies reduces the impact of the recession on the
population's mental health and decreases suicide rates. Strong social
protection systems make societies more able to face adversity. Support programs
for low-income families, institutions that create social networks, measures to
combat over-indebtedness, decreased accessibility to alcohol and the proximity
of mental health services to the people can make a difference. The adverse
effects of economic crises on populations are predictable and can be mitigated
with appropriate measures.
Key-words-Economic Crisis, Financial Crisis, Health, Mental Health
As mudanças de ciclo económico têm sido associadas a modificações nos níveis de
saúde das comunidades (Edwards, 2008). As crises económicas produzem impactos
particularmente gravosos na saúde física e mental das populações. Na realidade
o declínio da atividade económica associa-se habitualmente a uma sequência de
fenómenos como o aumento do desemprego, da exclusão social e da pobreza assim
como à diminuição do investimento em serviços públicos de saúde e de proteção
social por parte dos estados, que acabam por se constituir em fatores de risco
de adoecer. As crises económicas estão associadas a uma diminuição dos fatores
protetores e a um aumento dos fatores de risco para a saúde. Quer as
circunstâncias da vida diária - as condições em que as pessoas nascem, crescem,
vivem, trabalham, quer os fatores estruturais dessas condições (distribuição de
poder, dinheiro e recursos) conhecidas por determinantes sociais da saúde são
influenciadas pelas crises financeiras (WHO, 2011). A descrição e análise do
estado de saúde das populações faz-se recorrendo aos chamados indicadores de
saúde, que são medidas de características que permitem quantificar e avaliar o
estado de saúde dessas mesmas populações, conhecer os grupos de risco, fazer
comparações entre países e ao longo do tempo, bem como detetar tendências
evolutivas.
Os efeitos das crises económicas manifestam-se de forma diversa. Alguns
revelam-se a curto prazo enquanto outros só se tornam manifestos a longo prazo,
podem ser diretos ou indiretos e de natureza reversível ou irreversível. As
crises ao fazerem variar a distribuição de rendimentos fazem variar da mesma
forma a saúde das populações. O rendimento per capita dos países e a sua
distribuição determina o nível de saúde dos mesmos (Babones, 2008). Existe
atualmente suficiente evidência acumulada sobre as consequências das crises
económicas, obtida a partir de estudos sobre crises anteriores e da forma como
afetaram os países e o povos. São também conhecidas as formas de atenuar e
minorar os impactes negativos.
Sobre a crise atual que se iniciou em 2008, nos países europeus com dados
publicados, nota-se que as taxas de suicido que declinavam até 2008 sofreram
uma inversão da tendência e estão em aumento (McKee, Karanikolos, Belcher,
& Stuckler, 2012). Na Inglaterra a associação do suicídio com o desemprego
entre 2008 e 2010 foi documentada por Barr, Taylor-Robinson, Scott-Samuel,
McKee e Stuckler (2012). A Grécia parece ser o país mais fortemente afetado.
Devido à crise económica e à austeridade imposta, o orçamento dos hospitais
públicos foi cortado em cerca de 40% (Kentikelenis, et.al. 2011) e começam a
aparecer sinais preocupantes em termos do aumento de doenças infeciosas
incluindo a malária (Danis, et al., 2011). O aumento das infeções pelo HIV
(Vírus da Imunodeficiência Humana) entre toxicodependentes subiu acentuadamente
(Kentikelenis, et al., 2011). Os estudos publicados sobre a situação grega
mostram uma associação entre a baixa de rendimentos e as taxas de homicídio, de
divórcio e de mortalidade (Giotakos, Karabelas, & Kafkas, 2011) e os
suicídios entre 2007 e 2009 aumentaram 17%. A principal explicação para esta
evolução terá a ver com ver com a dificuldade em suportar altos níveis de
endividamento pessoal e familiar (Kentikelenis, et al., 2011). Em Espanha um
estudo mostrou um aumento do atendimento em Cuidados de Saúde Primários de
doentes com problemas de saúde mental especialmente com depressão (Gilli, Roca,
Basu, McKee, & Stuckler, 2012).
Existe pouca evidência publicada sobre o impacto da crise económica em Portugal
no campo da saúde. Mas alguns indicadores e os poucos estudos realizados
esboçam um panorama preocupante. Um dos estudos realizados em Portugal,
tentando quantificar os impactos da crise na saúde da população duma região do
Alto Minho, aponta para um aumento das tentativas de suicídio de 47% no sexo
feminino e de 35% no sexo masculino entre 2011 e 2012 e estima que, os casos de
depressão tenham aumentado em 30% nesta região, durante o mesmo intervalo de
tempo, enquanto os internamentos compulsivos subiram 76% o que poderá ser
atribuível ao agravamento das situações clínicas de doença mental, devido à
desadequada adesão à terapêutica (Barbosa, 2013 como citado em OPSS, 2013).
Entre 2011 e 2012 o Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (INFARMED)
verificou um aumento de 7,6% na aquisição de antidepressivos e estabilizadores
de humor. Os ansiolítico e hipnóticos tiveram um ligeiro aumento de 1,5% no
mercado ambulatório.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2010 os
valores do suicídio ultrapassaram pela primeira vez as mortes por acidentes
rodoviários. Em 2011 houve um aumento da mortalidade infantil, devido ao
incremento da mortalidade neonatal, conforme assinalou a Direção Geral de Saúde
(DGS) em relatório publicado em Janeiro de 2013. A violência doméstica
apresentou, segundo a Associação Portuguesa de Apoio à Vitima (APAV), um
acréscimo de 8,8% de 2010 para 2011 e de 10% de 2011 para 2012.
No que respeita ao movimento assistencial, a comparação entre o primeiro
trimestre de 2012 após o aumento das taxas moderadores e a modificação do
sistema de isenções, com igual período do ano anterior mostra uma redução do
número de utilizadores e da taxa global de utilização em todas as
Administrações Regionais de Saúde (OPSS, 2012). Johnson, Goss, Berckman e
Arachu (2012) chamaram a atenção para o facto de a introdução de taxas
moderadoras poder provocar uma diminuição da utilização dos serviços de saúde
bem como um atraso na procura de cuidados e/ou prestação incompleta e
inadequada de cuidados de saúde. As taxas de utilização ou de moderação poderão
constituir uma importante barreira no acesso aos serviços de saúde,
especialmente das pessoas com rendimentos mais baixos que não estejam isentas
(James, et al., 2006).
Os resultados de um estudo sobre o bem-estar das famílias portuguesas publicado
em 2012 mostram que 22,2% dos inquiridos referiram redução de despesas com a
saúde. Mas nas famílias com um ou mais elementos desempregados (20% das
famílias inquiridas), esta redução deu-se em 39,9% dos casos (SEDES, 2012).
Existem fortes indícios de que o acesso aos cuidados de saúde em Portugal
diminuiu por uma conjugação de diversos fatores como sejam o empobrecimento, o
aumento das taxas moderadoras, dos tempos de espera, as dificuldades nos
transportes de doentes e o encurtamento de horários e encerramento de serviços
(OPSS, 2012).
Até recentemente, o custo humano das políticas de austeridade foi em grande
parte invisível. Uma razão importante foi a falta de dados relevantes. Em
marcado contraste com os dados financeiros, alguns dos quais estão disponíveis
instantaneamente e outros, tais como os do crescimento económico, em poucas
semanas, os dados sobre a mortalidade em muitos países, têm um atraso de vários
anos. Assim, é só agora, que a tragédia que aflige parte da Europa se está
tornando aparente (McKee, et al., 2012).
O que nos mostra a evidência sobre a mortalidade e a morbilidade
Segundo o Fundo Monetário Internacional (Leaven & Valencia, 2012) desde
1970 até finais de 2008 aconteceram no mundo 447 crises financeiras nacionais
(124 crises bancárias, 208 de desvalorização da moeda, 63 de divida externa dos
países, 42 duplas e 10 triplas). O que diferencia a atual crise das precedentes
foi a sua extensão rápida à economia real por contágio entre países numa
economia global. A produção científica estudou exaustivamente em termos de
impactos na saúde crises como as que surgiram após a desintegração da União
Soviética, a Crise da Argentina na viragem do século, a Crise nos Países do
Sudoeste Asiático e a Crise na Finlândia nos anos noventa. Particularmente bem
estudado está também o impacto do desemprego na saúde física e mental das
populações.
Stuckler, Basu, Suhrcke, Coutts e McKee (2009) num trabalho onde analisam a
influência das condições económicas, medidas através do desemprego e os efeitos
dos gastos em proteção social sobre as taxas de mortalidade em 26 países da
União Europeia entre 1970 e 2008 concluíram que o aumento da taxa de desemprego
está associado a um aumento no número de suicídios e que o investimento em
políticas ativas de emprego pode minorar esse impacto. Observaram também uma
diminuição da mortalidade por acidentes rodoviários nos períodos de recessão
económica, mas não encontraram influências sobre as outras causas de
mortalidade.
Em 2009 Falagas, Vouloumanou, Mavros e Karageorgopoulos, fazem uma revisão
sistemática dos artigos científicos publicados até 2008 analisando a
mortalidade geral e a mortalidade por causas específicas, comparando os
períodos de crise com a situação antes e depois desses períodos. Nesta revisão
entraram em linha de conta com cinco estudos referentes à Rússia, dois estudos
sobre a Coreia do Sul, outros dois relativos a países da América Latina (Perú e
México) um à Bulgária e outro a Madagáscar. A principal conclusão desta revisão
sistemática foi que nos períodos de crise econômica, nos países menos
desenvolvidos, há um aumento da mortalidade por todas as causas na população em
geral. Isto deve-se ao aumento das taxas de mortalidade na maioria das
principais causas de morte, tais como doenças cardiovasculares, infeções
respiratórias e doenças do fígado. A mortalidade infantil, bem como a
mortalidade relacionada com suicídios e homicídios também aumenta, enquanto a
mortalidade por acidentes rodoviários diminui. Outra crise particularmente bem
estudada foi a que resultou do desmantelamento da União Soviética. Entre 1990 e
1994 a taxa de mortalidade estandardizada por idade aumentou na Rússia cerca de
30% e a esperança de vida nos homens caiu dos 68 para os 58 anos de idade. A
causa principal foi o aumento da mortalidade dos homens em idade ativa por
causas externas e doença cardiovascular (Walberg, McKee, Shkolnikov, Chenet,
& Leon, 1998 como citado em Falagas, et al., 2009).
A aparente discordância de resultados entre o estudo que analisou os países
europeus e as conclusões a que chegaram os que se debruçaram sobre países menos
desenvolvidos parece estar relacionada com os esquemas de proteção social
existentes nos países europeus e inexistentes nos países menos desenvolvidos.
Os efeitos sobre a saúde da crise económica dos anos noventa na Malásia, foram
substancialmente reduzidos comparativamente com os dos países vizinhos, porque
este país se recusou a seguir os conselhos da comunidade financeira
internacional que aconselhavam a diminuição da proteção social. A lição que
ficou para outros países com a economia desenvolvida é a importância da
manutenção dos investimentos dos governos em políticas sociais (Hopkins, 2006).
Em tempos de crise económica os governos tendem a diminuir as despesas com os
serviços de saúde devido à redução das receitas nos seus orçamentos e o acesso
a estes serviços pode piorar significativamente. A influência duma crise
financeira sobre os cuidados de saúde e os seus resultados em doentes
coronários hospitalizados foi documentada por Gurfinkel, Bozovich, Dabbus,
Mautner e Andersen (2005) durante a Crise Argentina. Entre 1999 e 2002 a
mortalidade intra-hospitalar por doença coronária subiu além do esperado, o que
pode ter ficado a dever-se, segundo os autores, a uma menor qualidade de
cuidados e a um menor acesso a tecnologias e a material médico importado. O
número de doentes tratados com medicamentos mais caros baixou durante o período
de crise económica e os procedimentos invasivos mais onerosos sofreram
consideráveis atrasados. Willard, Shah, Leep e Ku (2012) que estudaram o
impacto da crise económica entre 2008 e 2010 nos departamentos de saúde locais
dos Estados Unidos da América concluíram que todas as áreas programáticas foram
afetadas pelos cortes, demonstrando que a capacidade de prestação de cuidados
de saúde pública tinha sido prejudicada pela recessão económica.
Vários fatores parecem mediar o aumento da mortalidade e da morbilidade
observada em associação com crises econômicas. Os fatores psicológicos, tais
como aumento dos níveis de stresse ou depressão parecem ser importantes causas
indiretas do excesso de mortalidade observada durante períodos de crise
económica (Colledge,1982 como citado em Falagas, et al., 2009). O stresse e a
depressão, têm sido considerados como fatores que contribuem para a morbilidade
e mortalidade cardiovascular (Greenwood, Muir, Packham, & Madeley,1996 como
citado em Falagas, et al., 2009). Acontecimentos de vida stressantes ou
desagradáveis estão associados a um aumento do risco de morte cardiovascular
(Gump, Matthews, Eberly, & Chang, 2005). Alterações nas respostas neuro-
endócrinas e imunes relacionadas com o humor podem contribuir para a
instabilidade das placas ateroscleróticas responsáveis pela trombogénese (Kop
& Gottdiener, 2005).
A exposição ao stresse de longa duração está associada à diminuição de diversos
parâmetros imunológicos (Segerstrom & Miller, 2004). Existem hoje
suficientes evidências de que as desregulações da imunidade associadas ao
stresse podem ter influências na saúde (Padgett & Glass, 2003). As
alterações na função imunitária que são observados na resposta ao stresse e a
outros parâmetros psicológicos podem também aumentar a suscetibilidade a vários
tipos de doenças infeciosas, traduzindo-se num plausível aumento de mortalidade
nestas condições (Steptoe, Hamer, & Chida, 2007).
Numa a revisão bibliográfica de 30 estudos Suhrcke et al. (2011) identificaram
um agravamento das doenças transmissíveis em consequência de uma crise
económica. As principais causas encontradas para esse agravamento foram o
aumento da transmissibilidade resultante do empobrecimento das condições de
vida, do pior acesso aos cuidados de saúde e da menor adesão à terapêutica. Em
situações de crise económica verifica-se também uma diminuição das atividades
assistenciais programadas, sobretudo das associadas à prevenção da doença e à
promoção da saúde, em favor do atendimento de situações de doença aguda
(Catalano, 2009).
A angústia psicossocial associada com eventos de vida desfavoráveis pode
levar a mudanças nos estilos de vida, nos hábitos pessoais e comportamentais
favorecendo comportamentos de risco como sejam o abuso do álcool ou drogas e o
uso excessivo de tabaco (Cooper, Russell, Skinner, Frone, & Mudar, 1992
como citado em Falagas, et al., 2009) contribuindo por esta via também para um
aumento da mortalidade e morbilidade. Existem pois uma série de mecanismos quer
de índole psicológica, quer de índole comportamental e até de alteração na
transmissibilidade das doenças que associados à diminuição da acessibilidade
aos cuidados podem explicar de uma forma plausível o aumento da mortalidade e
da morbilidade em tempos de crise económica.
A Saúde Mental em tempos de crise económica
A Organização Mundial de Saúde definiu Saúde Mental como um estado de bem-estar
no qual os indivíduos realizam as suas capacidades, conseguem lidar com as
tensões normais da vida e trabalhar de forma produtiva e frutífera para a sua
comunidade (WHO, 2011). Uma boa Saúde Mental permite a flexibilidade cognitiva
e comportamental necessária para que as competências sociais se manifestem
assim como assegura a resiliência necessária para lidar com os acontecimentos
stressantes que são condições fundamentais para o bom funcionamento das
famílias, comunidades e da sociedade em geral.
Os efeitos negativos da recessão económica sobre a Saúde Mental manifestam-se
num curto prazo (Suhrcke & Suhrcke, 2012) ao contrário dos efeitos sobre a
saúde física que tendem a ser mais demorados no tempo. O desemprego, a
precariedade no trabalho e a falta de um salário mínimo influenciam
negativamente a saúde (WHO, 2011). As alterações no mercado de trabalho e na
regulação laboral que acompanham as situações de crise económica aumentam as
exigências cognitivas e emocionais relacionadas com o trabalho. O absentismo e
a saída do mercado de trabalho também aumentam devido a problemas relacionados
com o stresse, ansiedade e situações relacionadas com a depressão (Jårvisalo,
Andersen, Boedeker, & Houtman, 2005).
Os mais pobres são os mais duramente afetados pela perda de rendimentos ou de
casa (Edwards, 2008) fenómeno que não tem parado de aumentar em toda a Europa
desde o início da crise. Quanto mais baixo é o nível socioeconómico menor é a
saúde psicológica e emocional (Everson, Maty, & Lynch, 2002). As dívidas,
as dificuldades financeiras e os problemas relacionados com o pagamento das
prestações da casa aumentam também os riscos de sofrer de problemas de saúde
mental (Taylor, Pevalin, & Todd, 2007). Quanto mais dívidas as pessoas
acumulam, maior o risco de virem a sofrer de perturbações mentais (Brown,
Taylor, & Price, 2005).
As pessoas afetadas pelo desemprego e pelo empobrecimento têm um risco
aumentado de sofrer de problemas de saúde mental como depressão, problemas
relacionados com o álcool e suicídio comparativamente com os seus congéneres
não afetados (Mckee-Ryan, Song, Wanberg, & Kinicki, 2005). Este risco
apresenta uma diferença de género aumentando significativamente no sexo
masculino (Artazcoz, Benach, Borrell, & Còrtes, 2004). Os desempregados de
longa duração do sexo masculino e com mais baixos níveis educacionais são os
que apresentam maior risco (Edwards, 2008). O aumento das taxas de desemprego
está associado nacional e regionalmente com o aumento do número de suicídios.
Um estudo desenvolvido em Inglaterra entre 2008 e 2010 por Barr et al. (2012)
demonstra a evidência da ligação entre o aumento de suicídios e a crise
económica que se iniciou em 2008.
As regiões de Inglaterra com maiores aumentos do desemprego foram também as que
tiveram maior aumento de suicídios particularmente entre os homens. As mulheres
parecem ter menos propensão para este comportamento e maior resiliência,
fenómeno que foi igualmente detetado em outros países da Europa. A associação
entre suicídio e desemprego é mais importante do que quaisquer outras medidas
de estatuto socioeconómico. O desemprego parece ser um fator de risco
independente para o suicido e a depressão. São as áreas geográficas
caracterizadas pela alta fragmentação social que apresentam maiores taxas de
suicídio e esta associação é independente de privação (Smith, Whitley, Dorling,
& Gunnell, 2001).
Um estudo que analisou 26 países da União Europeia (UE), entre 1970 e 2007
concluiu que, nos indivíduos com idades inferiores a 65 anos, cada aumento de
1% na taxa de desemprego estava associada a uma subida de 0,79% na taxa de
suicídio. Para aumentos superiores a 3%, na taxa de desemprego este impacte era
ainda mais significativo, com uma subida de 4,45% na taxa de suicídios e de 28%
nas mortes decorrentes do consumo excessivo de álcool (Stuckler, Basu et al.,
2009). O desemprego é em termos de saúde, um flagelo tão grande quanto em
termos sociais e está altamente correlacionado não apenas com o suicídio mas
com os problemas relacionados com o álcool, cirrose hepática, úlcera péptica e
problemas de saúde mental (Stuckler, King, & McKee, 2009). O consumo de
álcool e as mortes relacionadas com o álcool tendem a aumentar nos períodos de
recessão económica (Johansson, Böckerman, Pråttålå, & Uutela, 2006). Na
Federação Russa as mudanças sociais depois da dissolução da União Soviética em
1991 e da crise do rublo em 1998 foram seguidas por um aumento das mortes
relacionadas com o álcool (Zaridze, et al., 2009). Também na União Europeia
grandes incrementos nas taxas de desemprego foram relacionados com o aumento do
número de mortes relacionadas com o álcool (Stuckler, Basu, et al., 2009).
A existência de redes sociais pode funcionar como fator de proteção em tempos
de crise económica. O aumento das taxas de mortalidade na crise russa não
atingiu a todos de igual forma. Grupos populacionais com maiores e melhores
redes sociais sentiram menos este efeito. Em tempos de crise, é importante ter
pessoas que possam emprestar dinheiro e fornecer comida ou abrigo ou que possam
fornecer aconselhamento sobre onde encontrar ajuda. Os efeitos adversos para a
saúde foram reduzidos substancialmente nas zonas onde muitas pessoas eram
membros de organizações sociais, como sindicatos, associações ou grupos
desportivos (Stuckler, King, & McKee, 2009).
As famílias são igualmente afetadas no seu conjunto pelas recessões económicas.
Os mecanismos principais são o desemprego com a consequente queda dos
rendimentos e a emigração, com as saídas de alguns dos seus elementos. O
stresse provocado pelas dificuldades financeiras repercute-se na saúde mental
dos pais em termos da conjugalidade e da parentalidade acabando por influenciar
a saúde e bem-estar das crianças e adolescentes (Conger, Ge, & Elder, 1994
como citado em WHO, 2011). Também a extrema pobreza na infância está associada
a deficits do desenvolvimento cognitivo, emocional e físico que se manifestam a
longo prazo sobre a saúde e o bem-estar. Um estudo de seguimento e base
populacional desenvolvido por Solantus , Leinonen e Punamåki (2004) que
acompanhou as crianças nascidas na Finlândia durante a crise económica do
início dos anos noventa mostrou que ao atingirem a idade adulta uma em cada
quatro tinha problemas com a justiça e uma em cada cinco havia recebido
tratamento psiquiátrico. Os grupos mais vulneráveis da população estão
particularmente expostos aos efeitos das crises económicas. Aqueles que vivem
na pobreza ou no limiar da pobreza, as crianças e adolescentes, idosos,
famílias monoparentais, emigrantes e minorias étnicas são os mais expostos ao
risco de exclusão (WHO, 2011).
Que fazer para minorar os efeitos adversos na saúde das crises económicas?
Muitos dos efeitos adversos das crises económicas sobre a saúde das populações
podem ser prevenidos ou mitigados. Como atrás se discutiu a existência de
fortes sistemas de proteção social tornam as sociedades mais capazes de
enfrentar as circunstâncias adversas relacionadas com os períodos de crise
económica. O investimento em políticas ativas de emprego pode reduzir o impacto
da recessão económica na saúde mental das populações e reduzir o aumento da
taxa de mortalidade por suicido.
Nos países da União Europeia demonstrou-se que a cada aumento adicional de 100
dólares per capita gastos ao ano em programas de política ativa de emprego se
consegue uma redução de cerca de 0,4 % do número de suicídios associados à
subida de 1% nas taxas de desemprego e um aumento igualmente de 100 dólares em
políticas de apoio às famílias permite reduzir em cerca de 0,2 % o efeito do
desemprego sobre o suicídio (Stuckler, Basu, et al., 2009). Os programas mais
prioritários são os destinados aos desempregados de longa duração e com baixa
escolaridade sobretudo do sexo masculino que são os que apresentam maior risco.
As áreas com elevados níveis de fragmentação social devem ser consideradas
territórios de intervenção prioritária.
A cobertura jornalística dos suicídios deve ser feita cautelosamente. Em tempos
de crise económica o aumento de notícias sensacionalistas sobre suicídios, na
comunicação social, pode produzir um efeito de "bola de neve"
enquanto reportagens responsáveis e bem elaboradas ajudam a diminuir este
comportamento sobretudo em adolescentes (Hawton & Williams, 2001). A
colaboração entre jornalistas e técnicos de saúde sobre a melhor forma de
comunicar notícias relativas a suicídios deve ser incentivada.
As redes sociais funcionam como fatores de proteção da saúde. Aqueles que
participam em atividades de grupo e que se sentem mais apoiados pelas suas
comunidades apresentam maiores níveis de saúde mental do que aqueles que se
encontram isolados e ficam mais propensos à depressão. As políticas públicas
devem apoiar ativamente associações, clubes desportivos e congregações
religiosas que funcionam como promotoras de redes sociais.
O consumo de álcool costuma aumentar em tempos de crise económica com
consequências danosas para a saúde. As políticas que permitam diminuir a
acessibilidade às bebidas alcoólicas nomeadamente através do aumento dos preços
levam à diminuição do consumo de álcool e dos danos associados (Anderson,
Chisholm, & Fuhr, 2009). O aumento do preço das bebidas alcoólicas permite
reduzir o número de mortes relacionadas com o álcool. A disponibilização de
programas de tratamento breve nomeadamente em Cuidados de Saúde Primários para
os bebedores excessivos tem demonstrado também produzir bons resultados
(Anderson, et al., 2009).
Uma das áreas chave em termos de políticas públicas para proteger a saúde
mental passa por evitar o sobre-endividamento e assegurar aos afetados por este
problema uma rápida ajuda que lhes permita regressar a uma vida digna. Um
estudo controlado feito em Inglaterra e no País de Gales junto de serviços de
apoio a pessoas endividadas mostrou uma melhoria significativa no estado de
saúde nomeadamente em termos de depressão e ansiedade (Williams & Samson,
2007). A sensibilização dos trabalhadores destes serviços para aconselharem os
clientes a recorrer aos serviços de saúde e dos profissionais de saúde para
remeterem os seus pacientes a serviços de apoio à gestão de dívidas pode ajudar
a minorar os efeitos negativos destas situações (Fitch, Hamilton, Bassett,
& Ryan, 2009).
DISCUSSÃO
Os efeitos das crises económicas sobre a saúde não são inevitáveis. Os estudos
feitos sobre as crises anteriores ensinam onde e como atuar para mitigar os
seus efeitos. O investimento em políticas ativas de emprego bem como medidas
que reforcem a coesão social podem fazer a diferença. Uma atenção especial deve
ser dada aos grupos mais vulneráveis da população.