Terceiro trimestre de gravidez: expectativas e emoções sobre o parto
Durante a gestação a mulher elabora um conjunto de expetativas relativas ao
momento do parto. Estas expetativas têm sido influenciadas pela perceção de que
o parto resume-se a uma intervenção médica, à qual está associada maior
segurança tanto para mulher como para o bebé (Inhorn, 2006; Kitzinger, et al.,
2006). Este tipo de perceção dá primazia à dimensão fisiológico em detrimento
da dimensão psicossocial do parto, contribuindo para que a mulher tenha menor
controlo no processo, passando de uma posição de sujeito para uma posição de
objeto (Johanson, Newburn, & MacFarlane, 2002) Contudo, esta perspetiva tem
sido desafiada pelas mudanças ocorridas na sociedade.
Tem-se observado a tendência em interpretar-se a vivência da gravidez como um
acontecimento privado, dando enfoque ao núcleo familiar e à sua dimensão
emocional (Nascimento, 2003). Por outro lado, o conhecimento proveniente da
partilha de experiências foi substituto pela facilidade de acesso à informação
especializada nestas temáticas (Nascimento, 2003), o que permitiu à mulher
recuperar algum do controlo e poder de decisão. Deste modo, parece existir
indícios de estar a ocorrer, progressivamente, a inversão da preponderância da
perspetiva fisiológica para uma perspetiva psicossocial do parto. Estes
desafios implicam que haja redefinições nas vivências e expetativas associadas
ao parto. Tornando-se relevante aprofundar esta temática através da perspetiva
da grávida no terceiro trimestre de gestação.
O parto não sendo um acontecimento neutro, implica vivenciar um conjunto
complexo de sentimentos, que não se cingem ao acontecimento em si, mas que
também englobam as expetativas sobre a vivência prévia ao parto como também em
relação ao período de pós-parto. De acordo com esta perspetiva procuramos, em
seguida, analisar a complexidade destes sentimentos.
Apesar da satisfação vivenciada pela mulher por estar a terminar uma gestação
bem-sucedida, não invalida a que percecione um elevado nível de ansiedade
(Figueiredo, 2000). A ansiedade centra-se no receio de não ser capaz de
identificar atempadamente os primeiros sinais de trabalho de parto e assim
colocar em risco a vida do bebé (Brazelton & Cramer, 2004). Este sentimento
também é referido quando perceciona que não existe uma forma fácil de
ultrapassar o parto bem como ao acontecer, irá implicar e consolidar inúmeras
transformações na sua vida, às quais questiona a sua capacidade de adaptação
(Brazelton & Cramer, 2004; Conde & Figueiredo, 2003). Deste modo, a
ansiedade vivenciada reflete a pressão sentida em confirmar a sua competência
feminina de gerar, de cuidar e de nutrir um outro ser (Stern, 1997).
Com o final da gestação a grávida vivencia um período de tristeza associado à
perda do estatuto de grávida. Este estatuto pressupôs a vivência de um conjunto
de particularidades que modificaram por completo a sua posição perante a
sociedade, perante a sua rede social e perante si própria (Canavarro, 2006).
Apesar da tristeza, paradoxalmente, a grávida é impelida a querer usufruir de
forma energética de todas as regalias associadas ao seu estatuto (Raphael-Leff,
2005).
A elaboração do processo de luto não se centra unicamente em relação ao
estatuto de grávida, mas também em relação ao bebé imaginário, que ao longo dos
nove meses teve um papel de destaque no seu pensamento e comportamento
(Raphael-Leff, 2005). Nesta fase, passa a existir um menor número de
representações sobre o bebé. De acordo com a literatura existente, ao realizar
este processo de luto a grávida estará a proteger-se de possíveis deceções que
possam surgir quando ocorrer a confrontação com o bebé real (Ammaniti, 1991;
Vizziello, Antoniolli, Cocci, & Invernizzi, 1993).
O medo de ter prejudicado o desenvolvimento do bebé ao longo da gravidez por
algum tipo de comportamento inapropriado também tem um papel de destaque
(Brazelton & Cramer, 2004; Melender, 2002b). Para que este sentimento não
seja bloqueador na vivência dos últimos meses, a grávida tem a necessidade de
sobrevalorizar as interações do bebé e assumi-lo como um ser separado de si
(Brazelton & Cramer, 2004). Contudo, o medo vivenciado também é direcionada
para si própria. No seu caso, existe o medo de castração, o medo de após o
parto percecionar um vazio interno e o medo da morte (Raphael-Leff, 2005).
Todos estes medos não são resultado apenas da experiência presente, podem
refletir também experiências passadas, interpretadas como eventos negativos
(Raphael-Leff, 2005).
Além dos medos identificados anteriormente, existe um ao qual as investigações
têm dado grande enfoque - medo da dor durante o parto (e.g. MacLean,
McDermott, & May, 2000). Segundo a literatura, verificou-se que este medo é
mencionado pela grávida de forma intercultural, variando apenas o grau de
importância atribuído (Figueiredo, Costa, & Pacheco, 2002). Tende a ser
percecionado como sendo um dos poucos dados concretos que a grávida reconhece
relativamente ao momento do parto, perante a imprevisibilidade inerente ao
acontecimento (Figueiredo, et al., 2002). Também reflete o paradoxo entre o
medo da morte e a curiosidade de conhecer uma nova vida.
A vivência intensa destes sentimentos define as expetativas sobre o parto.
Deste modo, a grávida tende a percecionar como sendo um acontecimento difícil;
algo que será doloroso; em que a mulher não terá confiança e controlo bem como
terá medo de possíveis consequências negativas para si como para o bebé (e.g.
Figueiredo, et al., 2002; Hofberg & Brockington, 2000; Pacheco, Figueiredo,
Costa, & Pais, 2005). Estas expetativas menos positivas fazem com que a
grávida necessite de recorrer a estratégias, que proporcionem um contexto de
ordem e de previsibilidade, de forma a controlar a complexidade destes
sentimentos (Pacheco, et al., 2005; Raphael-Leff, 2005).
O apoio percecionado dos profissionais de saúde materna é retratado como
fundamental pela capacidade que têm de responder às necessidades físicas e
psicológicas da grávida relativamente ao parto como também ao período do
puerpério (Bowers, 2002; Goodman, Mackey, & Tavakoli, 2004; Raphael-Leff,
2005; Records & Wilson, 2011). A mulher nesta fase assume uma posição de
mediadora entre as indicações destes profissionais e o bebé, numa constante
auto-obsevação (Raphael-Leff, 2005). Este tipo de suporte pretende ajudar a
mulher a adaptar-se às exigências do novo papel (Phipps, Charlton, & Diez.,
2009), desenvolvendo expetativas reais e saudáveis sobre o parto (Goodman, et
al., 2004). Existindo suporte durante o processo de parto por estes
profissionais, a mulher tende a experienciar o momento com maior satisfação
(Green & Baston, 2003; Tarkka, Paunonem, & Laippala, 2000).
O suporte da rede social também tem um grande impacto na forma como esta lida
com as vivências físicas e emocionais (Pacheco, et al., 2005). Estudos
realizados nesta área verificaram que relativamente ao suporte no momento do
parto a mulher é bastante seletiva, dando enfoque à mãe, à irmã e à sogra
(Figueiredo, Costa, & Morais, 1982). Cada vez mais o pai do bebé começa a
ser mencionado como sendo a figura principal de apoio no parto (Relvas &
Lourenço, 2006). A reflexão sobre o suporte da rede social da grávida não é
realizada exclusivamente sobre o momento do parto, também é feita relativamente
ao pós-parto, uma vez que há um redimensionar de todas as relações, a nível dos
papéis e tarefas que cada um desempenha (Canavarro, 2006; Relvas &
Lourenço, 2006).
Devido ao impacto que o parto tem na vida da mulher e em todos os envolventes,
é importante garantir a promoção de expectativas realistas e desse modo, ajudar
a mulher a conseguir uma experiência satisfatória perante a separação física
entre si e o bebé. Deste modo, a presente investigação, definiu como objetivo
de estudo compreender as vivências emocionais e as expectativas da grávida, no
terceiro trimestre de gravidez, sobre a temática parto.
MÉTODO
A presente investigação consiste num estudo qualitativo exploratório
descritivo. Esta metodologia não procura verificar hipóteses, mas analisar um
conjunto de dados subjetivos, que serão descritos de forma rigorosa, sem
existir manipulação da informação a fim de uma melhor compreensão do fenómeno
em estudo.
Participantes
Através de um processo de amostragem não probabilístico de conveniência foi
possível aceder a 30 grávidas de nacionalidade portuguesa (20 primíparas e 10
multíparas) no terceiro trimestre de gravidez (entre 28 e 41 semanas). Com
idades entre os 27 e os 42 anos (M=32 anos, DP=4,0 anos). Maioritariamente
católicas (90%) e casadas ou a viver maritalmente (90,0%). Os graus de
escolaridade mais frequentes são ensino secundário (37%) e licenciatura (37%).
Todas as gestações são desejadas (100%) e essencialmente planeadas (83%). A
maioria sem complicações (77%) e designadas por gestações normais (93%). Até ao
momento da participação tinham realizado, em média, 5 ecografias (DP= 2,9
ecografias). Durante o acompanhamento da gravidez a presença do pai nas
consultas foi expressiva (73%). Metade das grávidas recorreu a instituições de
saúde pública (50%), uma outra parte significativa a instituições de saúde
privada (40%) e uma minoria a ambas (10%).
Material
Questionário sociodemográfico foi elaborado especificamente para a investigação
a fim de caracterizar a amostra. Este material pretende identificar a idade, as
habilitações literárias, a profissão, o estado civil, a nacionalidade, a
naturalidade e o número de filhos. Em relação ao processo gravídico questiona-
se se foi uma gravidez planeada, se foi desejada, se houve complicações, que
tipo de gravidez (de risco ou normal), número de semanas, número de ecografias
realizadas, a presença do pai nas idas ao médico e a instituição de saúde onde
é acompanhada.
Interview of Maternal Representations during Pregnancy - Revised Version
(IRMAG-R; Ammaniti & Tambelli, 2010) consiste numa entrevista semi-diretiva
que tem como objetivo aceder às representações da grávida durante o terceiro
trimestre sobre esta fase da gestação. Foi traduzida para língua portuguesa. A
entrevista é constituída por 41 questões, organizadas em sete partes, com
objetivos distintos. A primeira parte permite analisar a forma como a grávida
organiza e expressa a sua vivência. A segunda parte centra-se na temática do
desejo de maternidade enquadrada na história pessoal e conjugal da grávida. A
terceira parte nas reações à notícia da gravidez. A quarta parte é sobre as
emoções e mudanças que ocorreram em todas as áreas da sua vida. A quinta parte
destina-se a analisar as perceções, as emoções, as fantasias e o espaço mental
destinado ao bebé. A sexta parte apresenta questões sobre as expetativas
relativas ao futuro e às possíveis mudanças. Por último, procura-se aprofundar
a história de vida da grávida. Como se observa, na descrição realizada
anteriormente, não existe um conjunto de questões dirigidas exclusivamente às
temáticas relacionadas com o parto e sendo as perguntas de resposta aberta,
implicou que a análise de conteúdo às entrevistas fosse realizada na íntegra.
Procedimento
No primeiro contacto com as grávidas era explicado o objetivo do estudo e o
tipo de participação. Concedida a autorização para participar no estudo era
marcado um novo encontro, respeitando os princípios éticos recomendados na
declaração de Helsínquia. Nesse encontro as grávidas assinavam o Consentimento
informado, preenchia-se o Questionário sociodemográfico para caracterização da
amostra e realizava-se a entrevista intitulada Interview of Maternal
Representations during Pregnancy - Revised Version(IRMAG-R; Ammaniti
& Tambelli, 2010). O facto de ser uma entrevista semi-diretiva possibilitou
fazer diversos reajustamentos ao guião pré-estabelecido a fim de se obter uma
resposta aberta e exaustiva sobre as temáticas. A duração variava entre 30 a 60
minutos de acordo com o tipo de resposta da grávida. É importante ressalvar,
que a utilização deste material só foi possível no presente estudo após a
autorização dos autores ao pedido realizado. Todas as entrevistas foram
gravadas em áudio e transcritas na íntegra. Garantiu-se o critério de anonimato
e de confidencialidade das participantes ao longo do processo, sendo atribuída
a cada entrevista um código (e.g. E1). Estes procedimentos permitiram realizar
a análise de conteúdo, que será descrita na secção de tratamento de dados.
Tratamento de dados
Todas as transcrições das entrevistas das grávidas, no terceiro trimestre,
foram analisadas a nível do seu conteúdo (Bardin, 1994). As seis categorias e
as respetivas subcategorias foram criadas de acordo com a literatura existente
sobre a temática em estudo (e.g. Figueiredo, et al., 2002; Goodman, et al.,
2004; Melender, 2002b; Raphael-Leff, 2005) bem como através das
particularidades que emergiram das respostas das grávidas. Na análise de
conteúdo não se considerou a frequência das respostas de cada grávida, uma vez
que o peso de uma narrativa ou de várias narrativas sobre uma determinada
categoria e/ ou subcategoria têm igual relevância. Assim, considerou-se apenas
a frequência do número de grávidas. A fim de garantir a validade e fiabilidade
da análise, esta foi realizada por dois juízes independentes, que analisaram
separadamente as entrevistas e cada juiz analisou em dois momentos distintos.
Em caso de discordância recorria-se a um terceiro juiz. Realizada a
categorização do conteúdo os dados foram interpretados segundo o conhecimento
existente.
RESULTADOS
De forma analisar as expetativas e as emoções relativas ao parto, segundo a
perceção da grávida no terceiro trimestre, foram criadas seis categorias. A
categoria que é mencionada pelo maior número de grávidas é designada por
Envolvência afetiva com o bebé (96%) e em seguida surge a categoria
Expectativas sobre o parto (70%). A categoria Preocupações após o parto(63%)
bem como Suporte da rede social (63%) são temáticas mencionadas pelo mesmo
número de grávidas. Por último, com menor representatividade, surge a categoria
Sentimentos em relação ao parto(53%) e a categoriaPreocupações sobre o momento
do parto (47%). Em seguida, serão apresentadas e analisadas segundo a ordem de
representatividade.
Envolvência afetiva com o bebé
Esta categoria analisa o grau de investimento emocional mencionado pela grávida
no terceiro trimestre em relação ao bebé. No quadro_1 estão presentes as três
subcategorias que têm como objetivo caraterizar a relação. A subcategoria com
maior representatividade é Singularidade da relação (97%). Nesta subcategoria,
observa-se que a grávida no terceiro trimestre perceciona a existência de uma
relação entre si e o bebé, com uma dimensão emocional intensa, diferenciada de
qualquer outro tipo de relação e vivenciada de forma satisfatória ("É
engraçada! (…) Tranquila e amorosa. Uma coisa mais quentinha!", E5;
"Nem sei como hei te explicar, acho que só sentindo.", E4; "
É diferente de qualquer outra relação que tenha tido.", E23). Em seguida,
surgem as subcategorias que evidenciam particularidades através das quais a
grávida perceciona e define a relação. Prevalecendo a comunicação verbal (62%;
"Eu falo muito com ele! Estou sempre a falar com ele, é normal! É uma
ligação!", E7; "Falo com ela todos os dias, várias vezes…",
E23), em seguida os movimentos fetais (41%; "O mexer é muito
giro…", E15; "…se eu acordo de manhã e ele não está a mexer e eu
puser a mão na barriga e dizer "Olá! Bom dia! Mexe lá e dá bom dia à
mãe!", ele mexe. É giro essa sensação!", E17) e em menor número as
ecografias (7%"…é giro! (…) Eu acho que a expetativa está toda
agora.", E20; "É emocionante!", E16).
Expectativas sobre o parto
Esta categoria analisa a forma como a grávida imagina o momento do parto,
explorando um conjunto de detalhes, presentes nas narrativas das grávidas e que
se traduzem em seis subcategorias. Das 30 grávidas entrevistadas apenas 21
grávidas apresentam narrativas que se enquadram nesta categoria temática.
Observa-se no quadro_2 que as expectativas são principalmente em relação à
Duração do momento do parto (48%). Esta subcategoria tem a particularidade de a
grávida mencionar preferencialmente a expetativa de ser algo rápido e fácil
("…eu prefiro pensar que vai ser super fácil (…) que eu vou dar um
suspiro e a miúda vai sair cá para fora, prefiro ter este tipo de
pensamento!", E9; "Ai, imagino que seja … parto normal, rapidinho,
assim pouco tempo lá dentro, pronto.", E29). Em seguida, a subcategoria
Tipo de Parto(38%), em que se observa a expectativa de ser um processo com
pouca intervenção médica, apenas a necessária ("…para mim deveria ser um
parto mais natural possível (…) com poucas intervenções…", E6). Em
terceiro lugar, surge as expectativas em relação à Dor no parto (33%). Neste
caso as grávidas percecionam como algo inevitável e à qual atribuem sofrimento
("Que vai doer, acho que dessa parte não me vou livrar…", E19;
"Eu acho que também se a gente não sentir essas pequenas coisas não…é
como se a gravidez ficasse a meio, não fosse completa", E20). Em quarto
lugar, observa-se um conjunto de grávidas que assumem que não querem imaginar o
momento do parto (33%; "… acho que nem consigo imaginar (…) quando
imagino que estou lá, nem quero imaginar (…) Acho que não dá para imaginar! Não
consigo!", E15). Por fim, verifica-se que a Influência dos cursos de
preparação para o parto(29%) e a Influência do acompanhamento médico (10%) têm
um impacto pouco significativo nas descrições das expectativas sobre o parto em
comparação com as restantes subcategorias.
Preocupações após o parto
Pretende-se analisar se durante o terceiro trimestre existem preocupações sobre
o período após o nascimento do bebé tanto em relação à capacidade que a grávida
terá em desempenhar o papel de mãe bem como em relação ao bem-estar do bebé. O
que se observa no quadro_3 é que a maioria tem preocupações relativas ao bem-
estar do bebé nos primeiros meses de vida (84%; "E depois essa sensação
de é tão pequenino que se pode partir (…) aqueles problemas que eles às vezes
podem ter de digestões…", E11; "Há sempre aquela preocupação que se
ouve falar, que o bebé deixa de respirar quando está a dormir…", E17). Em
menor número, observa-se nas narrativas das 19 grávidas preocupações relativas
à capacidade de fornecer cuidados maternos ao bebé (42%; "E depois quando
o bebé nascer se vou conseguir cuidar dele?!", E 19; "…há sempre a
preocupação de estarmos preparadas a nível emocional para receber este
bebé.", E22).
Sentimentos em relação ao parto
Quando analisados os sentimentos mencionados nas entrevistas, observou-se que
se organizam principalmente em três subcategorias: Medo, Ansiedade e Confiança.
A subcategoria Ansiedade (63%) é a mais representativa entre as três
subcategorias. A ansiedade mencionada pela grávida é dominada pela curiosidade
em querer conhecer o bebé ("…estamos desejosos de lhe ver a
cara…",E4; "Estou ansiosa para o ver, mas tento controlar-me mais
para não estar muito a pensar." E16). Contudo, também se observou, em
menor número, a ansiedade relativa ao modo como irá decorrer o parto
("…aquela ansiedade de "Será que eu vou perceber quando é que tenho
que ir para a maternidade?!" "Acho que a necessidade é mais saber a
altura certa, reconhecer os sinais …", E21). Em seguida, surge a
subcategoria Confiança sobre o decorrer do parto ("Toda a gente consegue,
eu também ei de conseguir…", E12; "…já houve tanta mulher que foi
mãe (…) não há de ser assim uma coisa tão má.", E25) e em menor número o
sentimento de Medo ("… nessa altura com certeza que estarei com
medo…", E3; "… tenho um bocado de receio…", E10).
Preocupações sobre o momento do parto
As preocupações sobre o momento do parto centram-se nas consequências negativas
para a saúde da mulher como para a saúde do bebé. Nesta fase da gravidez as
preocupações partilhadas pela grávida são dirigidas principalmente ao bebé
(86%; "Que nasça bem… hoxa lá que tenha saúde……venha com os dedos
todos…que esteja tudo no sítio…", E21; "…grande preocupação que ele
venha bem, …que venha perfeito…", E19), em seguida são as preocupações
comuns aos dois (36%; "Só que corra tudo bem…", E14) e das 14
grávidas nenhuma menciona preocupações exclusivas à sua saúde no momento do
parto (0%).
DISCUSSÃO
Através da análise de conteúdo, verificou-se que as grávidas durante o terceiro
trimestre elaboram um conjunto de expetativas que não se cingem ao
acontecimento parto, consideram também as vivências prévias e posteriores.
Salientando, deste modo, o impacto significativo que este acontecimento tem na
história de vida de cada mulher.
Os resultados demonstram que no terceiro trimestre a grávida faz inúmeras
referências ao bebé. Esta observação é corroborada pelo número de subcategorias
centradas neste elemento bem como na representativa que estas têm face às
restantes subcategorias. A presença explícita do elemento bebé é caracterizada
com base numa dimensão afetiva intensa, em que é defendida a singularidade bem
como a exclusividade da relação. Esta perceção é sustentada nos nossos
resultados através da fraca influência que os dados concretos sobre o bebé
(e.g. perceções provenientes dos movimentos fetais ou das ecografias)
demonstraram ter no modo como estruturam a relação.
Esta díade é interpretada como sendo central na vida de cada mulher, fazendo
com que se limitem ao mundo interno, perante a perceção e o desejo de usufruir
de sentimentos nunca antes vivenciados (Smith, 1999). Esta relação ultrapassa o
presente, existindo projeções relativas ao período do pós-parto, em que a
temática das preocupações sobre o bem-estar do bebé é predominante. Deste modo,
observa-se um processo de adaptação e de reajustamento da mulher perante a nova
fase da sua vida (Canavarro, 2006).
Esta projeção no futuro pode ser compreendida por uma predisposição por parte
da mulher em prolongar ao período do puerpério o desejo de ser uma mãe
suficientemente boa, que consiga responder às necessidades do bebé, tendo uma
posição ativa de resposta perante eventos negativos que possam surgir
(Winnicott, 2014).
Contudo, consideramos importante referir que devido à intensidade emocional
como é retratada a relação, tenhamos algumas reticências no impacto que este
estado poderá ter na vivência do parto. Segundo a literatura (Stern, 1997),
seria esperado que nesta fase houvesse uma diminuição das representações sobre
o bebé de forma a proteger ambas as partes no momento da confrontação entre o
bebé imaginário e o bebé real. Espera-se que a mulher consiga ultrapassar este
momento e que a ansiedade mencionada nas entrevistas em querer conhecer o bebé
real permita afastar-se da relação passada e elaborar uma relação no presente.
Se assim não for, existirá consequências negativas no âmbito do desenvolvimento
do bebé, na adaptação da mulher à identidade materna e na relação entre ambos
(Ammaniti, 1991; Vizziello, et al., 2003). Desta forma, é necessário ao longo
da gestação ajudar a mulher a lidar com estas questões e a formular expetativas
reais sobre o período após o nascimento do bebé (Conde, Figueiredo, Costa,
Pacheco, & Pais, 2007).
Através da análise aos resultados do estudo, observámos que as vivências
relativas ao momento do parto estão a distanciar-se de uma perceção em que o
parto é considerado como equivalente de um evento exclusivamente feminino
(Peterson, 1996), para ser compreendido como a materialização da relação entre
a grávida e o bebé. Esta compreensão dos dados emerge da fraca
representatividade das subcategorias centradas na mulher em comparação com as
subcategorias centradas no bebé e na relação de ambos.
Quando se analisa as questões mais concretas sobre o parto (e.g. expetativas,
sentimentos e preocupações sobre o momento do parto), é evidente a dificuldade
que a grávida tem em direcionar o seu discurso para esta temática. Segundo a
literatura, o parto não é considerado pelas grávidas como um dos acontecimentos
mais importantes durante a gravidez, preferindo falar da gestação enquanto
experiência global (Lee, 1995). Observa-se, mais uma vez que quando o fazem, os
seus discursos centram-se no bebé.
Em termos gerais, os resultados evidenciaram que a grávida apresenta
expectativas positivas face ao decorrer do parto. Esta observação converge com
confiança manifestada face ao que irá acontecer durante o parto e com a fraca
representatividade da temática das preocupações e medos.
A confiança pode ser compreendida pelo facto de a mulher nesta fase da sua
vida considerar que integra uma determinada linhagem de mulheres, cujas
ancestrais foram capazes de ultrapassar o momento do parto e dessa forma também
a própria conseguirá (Raphael-Leff, 2005). Segundo a literatura, esta perceção
relativa ao parto contribuirá para uma vivência mais positiva do momento
(Lundgren, 2005).
Os resultados indicam que a grávida no terceiro trimestre tem a expetativa de
que o parto seja rápido, fácil e com pouca intervenção médica. Esta expetativa,
de ter pouca intervenção médica, sustenta a mudança de paradigma relativamente
ao parto. A mulher parece querer assumir maior controlo durante o processo,
valorizando a dimensão psicossocial, procurando vivenciar o parto para além de
um ato médico, em que este seria o único capaz de lhe permitir ter "um
bom resultado" (Inhorn, 2006; Johanson, et al., 2002; Kitzinger, et al.,
2006). Importa salientar que a maioria frequentou o ensino superior, apresenta
estabilidade socioeconómica e dessa forma tem facilidade em aceder a várias
fontes de informação a fim de consolidar as suas decisões. Fatores que a
literatura relaciona com a perceção de controlo por parte da mulher no parto.
A expectativa de ser rápido, fácil e com pouca intervenção médica, tem sido
referida em diversas investigações realizadas com grávidas de outros países
(e.g. Fenwick, Hauck, Downie, & Butt, 2005; Gibbins & Thomson, 2001).
Estas características também são mencionadas como sendo responsáveis por
contribuírem para uma perceção mais positiva do parto (Waldenstrom,
Hildingsson, Rubertsson, & Radestad, 2004).
A expetativa de sentir dor é descrita pela grávida como algo que perceciona
como sendo inevitável e que está intrínseco à vivência do parto. Distancia-se
da representação de que um acontecimento que não provoque dor é que poderá ser
compreendido como algo bom (Peterson, 1996). Os resultados indicam que existe a
"naturalização do sofrimento", em que a dor está inerente ao
processo de transição para o papel de mãe. Mais uma vez, observamos a presença
de um fator cuja literatura indica como potenciador para uma vivência positiva
do parto (Waldenstrom, et al., 2004). Este resultado também pode ser
compreendido de acordo com os dados sociodemográficos das participantes. A
maioria é cristã e desse modo uma boa mãe é aquela que sofre durante o parto,
estabelecendo-se uma relação linear entre parto e dor (Lopes, et al., 2005).
A predominância de expetativas positivas sobre o trabalho de parto faz-nos
questionar se não existirá o risco de estas expetativas se tornarem
irrealistas, pois observa-se nos resultados a tendência para uma perceção
idealizada da relação grávida-bebé como também em relação ao momento do parto.
Segundo Beaton e Gupton (1990) estaremos, então, perante expetativas às quais
definem como "expetativas românticas".
A emergência de fantasias, que estruturam a maioria das expetativas da grávida
nesta fase da gestação, contribuem para que seja compreensível que a influência
dos conhecimentos transmitidos durante o acompanhamento médico ou durante os
cursos de preparação para o parto, não sejam suficientemente representativos
nos resultados, como seria expetável (Bayle, 2005; Nascimento, 2003). Contudo,
acreditamos que numa fase prévia estes conhecimentos tenham tido destaque e
influência na postura atual da mulher. Nesta fase a mulher procura usufruir ao
máximo dos últimos tempos enquanto grávida e dessa forma tende a afastar-se dos
dados factuais, valorizando a dimensão emocional mais do que a dimensão
fisiológico.
Algumas grávidas mencionaram de forma explícita que não desejam imaginar o
momento do parto, manifestando uma postura defensiva. Contudo, este movimento
defensivo também pode ser observado na análise global dos resultados pelo
número reduzido de grávidas em cada categoria associada diretamente à temática
parto. Esta postura é considerada como expetável (Lopes, et al., 2005) nesta
fase da gestação, sendo compreendida como uma estratégia para lidar com a
complexidade de sentimentos que vivencia (Figueiredo, et al., 2002).
A grávida prefere acreditar e estruturar as expetativas com base numa
perspetiva positiva, de confiança e amparada pela rede social, não equacionando
as consequências negativas que podem estar associadas. Esta posição alinha-se
no modo como perceciona o bebé. Um bebé bastante especial, com quem tem uma
relação afetiva intensa, é a materialização de uma relação de amor e poderá vir
a ser o único filho, logo será a única gravidez que vivenciará. Este papel de
destaque que o bebé/ a gravidez assume faz com que equacionar a possibilidade
de algo correr mal seja extremamente doloroso para grávida. Por isso, apesar de
todas as implicações negativas que podem surgir deste estado de idealização,
defende-se ao criar uma imagem positiva e concordante entre todas as categorias
equacionadas na análise de conteúdo.
A rede social da grávida durante o parto e no pós-parto é descrita nos nossos
resultados como também na literatura como sendo de extrema importância,
influenciando o bem-estar da grávida bem como minimizando os fatores de risco
inerentes ao desenvolvimento de problemáticas psicológicas, como a depressão no
período pós-parto (Waldenstrom, et al., 2004).
A perceção de suporte do pai do bebé no parto poderá ser compreendida pelo
facto de a grávida interpretar o nascimento do filho como a concretização de um
projeto de ambos. Esta compreensão é sustentada pelo facto de a maioria das
participantes viverem um relação amorosa com o pai do bebé bem como o facto de
este ter estado presente ao longo do acompanhamento da gestação. Este suporte
no momento do parto contribui para uma menor perceção de preocupações
(Melender, 2002a; Saisto, Kaaja, Ylikorkala, & Halmesmaki, 2001), como se
verifica nos resultados do estudo.
O papel de destaque da mãe da grávida no puerpério pode ser compreendida pelo
facto de a maioria das grávidas ser mãe pela primeira vez e deste modo há
necessidade de esclarecer dúvidas e de apaziguar os receios relativamente à sua
competência enquanto mãe. A grávida procura a figura que represente para si o
modelo materno. Nesta fase da gestação e no pós-parto, considera-se que o
período de confrontação com a figura materna e por sua vez o processo de luto
da perda do papel exclusivo de filha para também o papel de mãe, já tenha sido
elaborado de forma a consolidar a sua identidade materna (Ferrari, Piccinini,
& Lopes, 2006). Contudo, a literatura salienta que esta necessidade de
apoio deve ser transitória e breve para que cada elemento desempenhe o seu
papel e por sua vez as tarefas que lhe compete (Relvas & Lourenço, 2006).
A prevalência destas duas figuras indicam que cada vez mais a vivência da
gravidez é realizada num ambiente privado. Estes resultados também demonstram
que o conhecimento de gerações anteriores, como a mãe da grávida, tem ainda
bastante impacto na formulação das representações das grávidas, enfraquecendo o
argumento da primazia pelas informações transmitidas pelos mass media
(Nascimento, 2003).
Apesar das reflexões realizadas anteriormente, o nosso estudo apresenta algumas
limitações que devem ser consideradas. A amostra apresenta um número reduzido
de participantes. Tem um número desigual de primíparas e multíparas. A maioria
é da mesma zona do país, o que poderá implicar fatores culturais que não foram
considerados na análise. Considerou-se apenas a perspetiva da grávida
relativamente à temática parto. Deste modo, seria interessante explorar junto
das figuras de referência da rede social da grávida as suas representações.
Estas questões servirão como base para as próximas investigações.
O parto, sendo um acontecimento biopsicossocial e de extrema importância na
vida de cada mulher, recordado ao longo de toda a vida com uma elevada carga
emocional, torna-se uma temática que não se esgota em si própria, pelo
contrário, inúmeras questões surgem constantemente às quais se procurará dar
resposta.