“Para mim é fácil”: Escala de avaliação de competências pessoais e sociais
A aprendizagem das competências pessoais e sociais começa logo no início da
vida e continua pela vida fora, acontecendo, em geral, como um processo natural
de imitação, sublinhando o papel dos modelos sociais disponíveis no
envolvimento do indivíduo (Bandura, 1976).
Neste contexto, Beauchamp e Anderson (2010), referem que estas competências
surgem gradualmente durante a infância e a adolescência, como resultado de uma
relação dinâmica entre o sujeito e o meio. Quando tal não se verifica, poderão
surgir situações de isolamento social, ansiedade e redução de autoestima, que
poderão vir a ter grande impacto no desenvolvimento positivo do sujeito.
Cacioppo (2002) refere que as competências pessoais e sociais são essenciais
para a capacidade do indivíduo desenvolver e manter relações duradouras, bem
como para a sua identidade e participação na comunidade.
A promoção de competências pessoais e sociais em crianças e adolescentes
implica uma abordagem desenvolvimentista e uma abordagem ecológica
(Bronfenbrenner, 2001; 2005). O desenvolvimento positivo e saudável, a
potencial mudança de comportamento, crenças e atitudes existe como consequência
de uma influência global das relações entre o indivíduo em desenvolvimento, de
fatores biológicos, psicológicos, família, comunidade, cultura, ambiente físico
e nicho histórico. As regulações e o equilíbrio para um desenvolvimento
adaptativo emergem desta bidirecional interação, entre o indivíduo e o seu
contexto, promovendo o bem-estar e qualidade de vida de ambos os componentes
(Lerner, Almerigi, Theokas & Lerner, 2005).
Nas últimas décadas, na área da intervenção na comunidade, nomeadamente na área
da saúde mental, tem-se assistido a uma mudança de paradigma onde o enfoque na
intervenção clínica, com base no indivíduo em risco ou "desviante",
vai dando lugar à importância da participação do mesmo num processo de
desenvolvimento pessoal e social, desejavelmente, de forma preventiva (Matos,
et al, 2012).
Um desenvolvimento positivo na adolescência contribui positivamente para o
Self, para a família, para o grupo de pares, para a comunidade e para a
sociedade civil. Implicando o desenvolvimento de diversas competências
específicas, denominadas pelos cinco C: (1) Competência, perspetiva positiva
sobre a própria ação em diversos domínios, incluindo o social (relações
interpessoais; comunicação; resolução de conflitos), cognitivo (processamento
de informação; tomada de decisão), académico (avaliações e frequência e
envolvimento escolar) e vocacional (futuro/carreira); (2) Confiança, perceção
de autoestima e de autoeficácia, perspetiva do valor global do próprio; (3)
Ligação "Connection", ligações positivas com pessoas e instituições
(pares, família, escola e comunidade) com os quais se estabelecem relações
bidirecionais; (4) Carácter respeito pelas regras sociais e culturais, sentido
do bem e do mal e integridade; (5) Compaixão, sentido de simpatia e empatia
para com os outros (Lerner et al, 2005).
Uma intervenção eficaz deve ter em consideração fatores de risco e fatores de
proteção. Os fatores de risco aumentam a probabilidade de envolvimento em
comportamentos negativos, podendo estes ser de origem socioeconómica,
comunitários, interpessoais (Família, amigos, professores, colegas etc.) e
individuais. Os fatores de proteção, pelo contrário diminuem a probabilidade de
manifestação de comportamentos com consequências negativas, podendo ter a mesma
origem dos fatores de risco. A prevenção deve assim ser vista numa ótica
sistémica que engloba não apenas os períodos críticos, como a adolescência, mas
que contemple períodos de desenvolvimento anteriores e as relações
interpessoais, especialmente as precoces, com os pais, devendo a família e a
escola estar envolvidas no processo de prevenção. Sendo esta última um local de
excelência para o treino de competências pessoais e sociais (Moreira, 2001;
WHO, 1999).
Programas que abordem a qualidade das relações interpessoais (membros da
família, escola e comunidade) podem melhorar substancialmente o desenvolvimento
emocional, social, cognitivo e físico da criança e adolescente. A escola é uma
estrutura social crucial para a educação das crianças e adolescentes na
preparação para a vida, no entanto, deveriam ter uma abordagem educacional mais
alargada, promotora de um desenvolvimento social e emocional mais saudável dos
alunos, envolvendo também as famílias e a comunidade (Gaspar, 2010). A
Organização Mundial de Saúde (WHO; 2001) desenvolveu um currículo educacional
de competências de vida, no qual, os professores podem promover junto dos
alunos competências psicossociais, tais como, competências de resolução de
problemas, pensamento crítico, comunicação e relacionamento interpessoal,
empatia e gestão das emoções. Estas competências permitem às crianças e
adolescentes desenvolverem uma saúde mental positiva e um maior bem-estar. É
fundamental, promover um bom ambiente sociocultural, a nível escolar e
comunitário. Através do desenvolvimento de competências de tolerância, empatia
e igualdade entre rapazes e raparigas, entre diferentes grupos étnicos,
religiosos ou diferentes grupos sociais. Esta ação passa, também, por
estabelecer mais e melhores conexões entre a escola, família e comunidade,
encorajando criatividade, competências académicas e promove a autoestima e
autoconfiança das crianças e dos adolescentes (Gaspar et al., 2012, Matos 2005;
WHO,2001).
Matos (2005), refere-se à importância da intervenção através de Programas de
Promoção de Competências Pessoais e Sociais, como meio para ajudar os
indivíduos a desenvolver as suas capacidades pessoais e relacionais, promovendo
o autoconhecimento e o autoconceito, e a reflexão sobre o modo como se
relacionam com os outros e com as situações do dia-a-dia, encontrando
alternativas adequadas a cada situação, quer do ponto de vista da
autorregulação e resolução de problemas, quer do ponto de vista do
estabelecimento e manutenção de uma rede de apoio social.
Como referem Machado e colaboradores (2008), o desenvolvimento precoce do
conhecimento das emoções está diretamente ligado às competências académicas e à
aceitação entre partes, sendo importante neste contexto haver um entendimento
de como surgem as emoções, no sentido de um maior domínio destas. Sendo
relevantes ações ligadas ao desenvolvimento de vocabulário relacionado com
aspetos emocionais, no sentido de melhorar as competências emocionais.
Segundo Ruzani e Groissman (2008) as lideranças juvenis são essenciais no
movimento social de proteção à saúde, através de elementos que incutam
orientações saudáveis dentro dos seus grupos, tornando-se num modelo
comportamental de referência. Para além de determinadas competências, o desafio
destes jovens é também articular as contradições entre o paradigma de coexistir
comos pares e tornar-se adulto, sem deixar de representar o seu grupo.
Desta forma, os adolescentes têm sido indicados como alvo preferencial de
programas preventivos de Competências Pessoais e Sociais, por se encontrarem
próximos do momento em que a adoção dos comportamentos de risco pode ter início
(Becoña, 2001; Hawkins, Catalano & Arthur, 2002; Negreiros, 1998).
McIntyre e Araújo (1999) defendem que é com base em teorias e modelos de
mudança de comportamento que se delineiam programas promotores de saúde e
intervenções preventivas de comportamentos de risco. Conclui-se, que a
avaliação da eficácia dos programas de promoção da saúde se constitui como
fator primordial na condução de investigações/intervenções rigorosas e
metódicas.
O presente estudo pretende apresentar e validar uma nova escala de avaliação
das competências pessoais e sociais para crianças e adolescentes, denominada
"Para mim é fácil". Esta escala pretende efetivamente avaliar as
competências numa perspetiva positiva e não numa perspetiva de falta de
competências.
MÉTODO
Participantes
Foram incluídas 960 crianças e adolescentes dos quais 56,7% rapazes. Em termos
de grupo de idade, 24,5% tinham dos 8 aos 12 anos de idade, 25,1% dos 13 aos 15
anos e 50,4% com 16 ou mais anos. A M de idades é de 15,3 anos e o DP de 3,7
Material
O Instrumento foi construído tendo como base a checklist de competências
sociais (Goldstein & McGinnis, 1997) e o questionário de autorregulação
emocional (Moilanen, 2007).
A escala inicial tinha 50 itens, foi testada junto de crianças, adolescentes,
professores do 1º, 2º e 3º ciclos e psicólogos. As sugestões e contribuições
por estes indicadas, nomeadamente, na exclusão de alguns itens, alteração de
formulação de outros, foram incluídas na versão final aqui utilizada.
A versão final é constituída por 43 itens que abordam competências das mais
simples às mais complexas, nos diversos contextos da criança e jovem, tais como
"Para mim é fácil dizer obrigado"; "Para mim é fácil defender
os meus direitos"; "Para mim é fácil lidar com os colegas da
escola".
Foram também utilizados dois instrumentos complementares para aprofundar o
estudo da escala "Para mim é fácil". Um dos instrumentos
complementares avalia uma variável pessoal (bem-estar subjetivo) e outro que
avalia uma variável social (Suporte social).
Para medir o bem-estar subjetivo foi utilizada a escala KIDSCREEN-10 (Matos,
Gaspar & Simões, 2012). A sua boa consistência interna de fidelidade
(Cronback's alpha = 0,82) e a boa fidelidade/estabilidade teste-reteste
(r=0.73; ICC = 0.72) permitem avaliar de forma precisa e estável da HRQoL. A
escala KIDSCREEN-10 permite diferenciar grupos; resultados baixos referem-se a
sentimentos de tristeza, desajustados e insatisfeitos relativamente a vida
familiar, pares e vida escolar, e resultados altos indicam o oposto:
sentimentos de felicidade, ajustados e satisfeitos com família, escola e grupo
de pares. O instrumento resulta num valor global, onde uma medida
unidimensional representa o valor global das versões completas do KIDSCREEN
(KIDSCREEN-52 e KIDSCREEN-27), adequado para estudos grandes e epidemiológicos
(The KIDSCREEN Group Europe, 2006). De acordo com as orientações
internacionais, a tradução do questionário KIDSCREEN incluiu um processo de
Backtranslation. A versão portuguese apresenta boas propriedades métricas e a
análise fatorial confirmatória tem um modelo ajustado (Matos, Gaspar &
Simões, 2012).
Para medir a satisfação com suporte social, foi utilizada a escala de
Satisfação com o Suporte Social (Ribeiro, 1999) que mede o nível de satisfação
com o suporte social e foi construído para populações de jovens adultos e
adultos, em situações de doença, tanto cronica como psicológica. Para a
construção desta escala, um grupo de dimensões relacionadas com saúde e bem-
estar foram consideradas, paralelamente a outras dimensões. A versão original
da escala é composta por 15 frases afirmativas para autopreenchimento. Os
sujeitos marcam o nível com o qual concordam com a afirmação (caso se aplique
ao indivíduo), numa escala tipo Likert variando entre "Concordo
Totalmente" e "Discordo Totalmente". Os 15 itens estão
distribuídos entre quatro dimensões ou fatores, gerados empiricamente, para
medir os seguintes aspetos relacionados com a Satisfação com o Suporte Social:
"Satisfação com Amizades", "Intimidade",
"Satisfação com a Família" e "Atividade Social". A
Escala de Satisfação com o Suporte Social (Ribeiro, 1999) foi traduzida e
adaptada para crianças e adolescentes portugueses por Gaspar, Ribeiro, Matos,
Leal, & Ferreira, 2009) e obteve uma consistência interna de α=0,77.
Procedimento
Este estudo faz parte de uma investigação mais alargada que tem o objetivo de
avaliar o impacto de um programa de promoção de competências pessoais e sociais
em crianças e adolescentes, desenvolvido pela Casa Pia de Lisboa, denominado
CSI (Competências Sociais Integradas). A iniciativa da realização do mesmo
partiu das escolas envolvidas. Assim, após decisão das direções das escolas
envolvidas, os objetivos do estudo foram apresentados à comunidade escolar
(professores, alunos e pais). A recolha de dados foi efetuada junto de alunos
de 4 escolas de Lisboa. Os pais dos alunos participantes deram o seu
consentimento. O instrumento foi de autopreenchimento e de participação
voluntária. A aplicação foi efetuada em contexto de sala de aula.
Para a análise de dados foi utilizado o software SPSS 20, para realizar análise
estatística descritiva, analise fatorial exploratória, correlações e ANOVA.
RESULTADOS
Nos resultados primeiro será apresentada a análise fatorial da escala, para
avaliar a sua estrutura fatorial. De seguida serão apresentados os dados
descritivos e as propriedades psicométricas da escala e das dimensões
identificadas. Depois serão apresentadas as correlações entre a Escala, suas
dimensões e as escalas complementares. Por fim será estudada a sensibilidade da
Escala e das suas face às diferenças de género e idade.
Analise Fatorial da Escala "para mim é fácil"
A análise fatorial exploratória forçada a 5 fatores apresenta uma variância
explicada cumulativa de 40,19%. O Eigenvalue para o primeiro fator é de 10, 45
que explica 24,30 da variância, o Eigenvalue para o segundo fator é de 2, 08
que explica 4,85 da variância, o Eigenvalue para o terceiro fator é de 1, 67
que explica 3,88 da variância, o Eigenvalue para o quarto fator é de 1,61 que
explica 3,74 da variância, o Eigenvalue para o quinto fator é de 1,48 que
explica 3,43 da variância.
A análise da Escala "Para mim é fácil" quanto às propriedades
psicométricas mostrou uma boa consistência interna para a escala total (α=0,92)
e para todos as 5 dimensões com valores entre α=0,87 em" Resolução de
Problemas" e α=0,62 no " Definição de objetivos ".
Verificam-se correlações estatisticamente significativas entre quase todas as
variáveis, a correlação mais elevada é entre a Escala Total e a dimensão
"Resolução de Problemas" (r=0,71) e correlação mais baixa e
negativa entre a dimensão "Definição de Objetivos" e a dimensão
"Resolução de Problemas"(r=0,09). Verificam-se correlações mais
elevadas entre as dimensões da Escala e entre as Escala e as suas dimensões e
correlações mais moderadas entre a escala, suas dimensões e as variáveis
complementares (bem-estar e satisfação com suporte social).
A grande maioria das crianças e jovens (70%) considera que tem competências
pessoais e sociais médias. As dimensões que apresentam uma perceção de
competências pessoais e sociais mais baixa são a competência de
"Regulação Emocional" (33,5%) e a competência de "Definição
de Objetivos" (52,9%).
Foram analisadas as diferenças de Género e Idade na Escala "para mim é
fácil" através da ANOVA. Nos quadros_5 e 6 estão destacados em negrito o
valor médio mais elevado (com significância estatística).
Foram encontradas diferenças estatisticamente significativas ligadas ao género
em três das dimensões da competência pessoal e social. Na dimensão
"Resolução de Problemas" e na dimensão "Regulação
Emocional" são os rapazes que apresentam valores mais elevados de
competências, na dimensão "Competências Básicas" são as raparigas
que apresentam mais competência. Na escala total e nas restantes duas dimensões
não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas ligadas ao
género.
Foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os três
grupos de idade em quase todas as dimensões da competência pessoal e social com
exceção da dimensão "Relações Interpessoais" na qual não se
verificaram diferenças estatisticamente significativas. Na Escala total e nas
dimensões "Resolução de Problemas"; "Regulação
Emocional"; "Competências Básicas" são as crianças até aos 12
anos que apresentam valores mais elevados de competências, na dimensão
"Definição de Objetivos" são os mais velhos que apresentam valores
mais elevados o que nesta dimensão revela menor perceção de competência.
DISCUSSÃO
O presente estudo pretende apresentar e validar uma nova escala de avaliação
das competências pessoais e sociais para crianças e adolescentes, denominada
"Para mim é fácil". Esta escala pretende avaliar as competências
numa perspetiva positiva.
A Escala apresenta boas propriedades psicométricas, pode ser utilizada como um
facto único de medição da competência pessoal e social (α=0,917), ou analisada
em cinco fatores/dimensões que caracterizam a competência social e pessoal,
nomeadamente: Resolução de Problemas, Competências Básicas, Regulação
Emocional, Relações Interpessoais e Definição de Objetivos (entre α= 0,86 e
α=0,61).
A correlação da Escala Total e as suas dimensões são elevadas e
estatisticamente significativas, o que revela a correlação entre o constructo e
as suas dimensões. A correlação da escala/dimensões com outras variáveis
pessoais (bem-estar subjetivo) e sociais (suporte social) são estatisticamente
significativas mas moderadas o que remete para relação mas constructos
distintos.
A grande maioria das crianças e jovens (70%) considera que tem competências
pessoais e sociais médias. A dimensão que apresenta uma perceção de
competências pessoais e sociais mais baixa é a competência de "Regulação
Emocional". Estes dados permitem-nos planear a intervenção baseada nas
necessidades da população-alvo.
Foram finalmente analisadas as diferenças de Género e idade na Escala
"Para mim é fácil" através do teste da ANOVA.
Na Escala Total não foram encontradas diferenças de género. Foram encontradas
diferenças estatisticamente significativas ligadas ao género em três das
dimensões da competência pessoal e social. Na dimensão "Resolução de
Problemas" e na dimensão "Regulação Emocional" são os rapazes
que apresentam valores mais elevados de competências, na dimensão
"Competências Básicas" são as raparigas que apresentam mais
competência.
Foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os três
grupos de idade em quase todas as dimensões da competência pessoal e social com
exceção da dimensão "Relações Interpessoais" na qual não se
verificaram diferenças estatisticamente significativas. Na Escala total e nas
dimensões "Resolução de Problemas"; "Regulação
Emocional"; "Competências Básicas" e "Definição de
Objetivos" são as crianças até aos 12 anos que apresentam valores mais
elevados de competências.
Os rapazes e as crianças que apresentam uma maior perceção de competências
pessoais e sociais.
A Escala "Para mim é fácil" é uma proposta para a avaliação das
competências pessoais e sociais numa perspetiva positiva de competências
adquiridas. Permite avaliar as competências mais robustas e as competências
mais frágeis numa determinada população. Considera-se um importante contributo
para a investigação e essencialmente para recolher informação necessária para o
planeamento de uma intervenção baseada na evidência.