Qualidade de vida no trabalho dos médicos da atenção básica no estado de
Roraima (Brasil)
Na atualidade, a Qualidade de Vida (QdV) é entendida como o sentimento do
sujeito acerca do lugar que ocupa na vida, na perspectiva cultural e classes de
valores nos quais vive e em relação aos seus objetivos, anseios, comportamentos
e reflexões (WHOQOL Group, 1995). A Organização Mundial da Saúde (OMS) juntou
profissionais experientes de vários países, que após múltiplas reuniões
definiram QdV como a compreensão do sujeito de sua atuação na vida, no contexto
da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus
objetivos, expectativas, padrões e preocupações (WHO, 2005).
O conceito QdV envolve uma variedade de questões que podem alterar a perceção
do sujeito, seus sentimentos e comportamentos incluindo, mas não se limitando a
elas, a sua condição de saúde e as intervenções médicas. Portanto, a
idealização de QdV assume aos olhos de cada observador os contornos da sua
sensibilidade, da sua cultura, da sua condição socioeconómica, dos seus
planos,e das suas metas e frustrações (Moreira, 2001).Assim, por intermédio dos
seus instrumentos de avaliação, a OMS não determinou o valor mínimo de QdV
aceitável para cada grupo. As análises são feitas por comparação dos valores de
cada domínio e determinação dos fatores de influência. Com a intenção de
uniformizar critérios da avaliação da QdV, a OMS estruturou um instrumento
dirigido para essa finalidade: World Health Organization Questionnaire for
Quality of Life - Brief Form (Whoqol-bref).
A QdV no trabalho pressupõe um equilíbrio entre a produção de bens materiais e
a realização do trabalhador. Na realidade, ela consiste na aplicação concreta
de uma filosofia de humanização através da iniciação de estratégias
participativas que transformem um ou vários aspectos do ambiente laboral, com o
propósito de evidenciar novas situações no cenário laboral que sejam mais
favoráveis à satisfação e ao desempenho dos profissionais no momento de
realizarem sua atividade (WHO, 2005).
A denominação QdV no trabalho pode ser definida como a melhoria nas condições
laborais -com extensão a todas as ações de qualquer natureza e nível
hierárquico - nas variáveis do comportamento, ambiente e organizacional
que venham, juntamente com estratégias de recursos humanos condizentes,
humanizar o trabalho, de forma a encontrar um resultado adequado, tanto para os
profissionais como para a organização. Isto significa diminuir o conflito
existente entre o capital e o trabalho (Asaiag, Perotta, Martins & Tempski,
2010). Vários estudos, em diversas partes do mundo, têm verificado questões
stressantes no dia a dia do profissional que atingem a sua QdV. A pesquisa
atual difundida pelo Conselho Federal de Medicina do Brasil mostrou que mais da
metade dos médicos apresenta queixas psiquiátricos como, por exemplo, a
ansiedade e a depressão, além de cansaço acentuado. Também apontou que 5%
destes profissionais sentem falta de esperança, estão infelizes e com ideias
suicidas (Enns, Cox, Sareen & Freeman, 2001).
A identificação de caraterísticas stressantes já no começo da vida académica
dos médicos e os seus resultados para a saúde dos académicos vêm sendo
pesquisadas. Situações stressantes, como cobranças para assimilar novas
condutas, muito volume de novos conhecimentos, escasso tempo para lazer, para
desporto, para descanso e para atividades sociais, o contato diário com
queixas severas e com a morte no cuidado clínico dos doentes,
concorremdiretamente para o desenvolvimento de sinais e sintomas depressivos
nos académicos. As diferentes formas de assédio (verbal, institucional, por
risco médico desnecessário, físico e sexual) vividos pelos académicos de
medicina, podem elevar o seu stresse (Costa & Pereira, 2005). Como
consequência, alguns estudos têm encontrado elevada taxa de suicídio, de
depressão, de uso de fármacos controlados, de alterações conjugais e de
distúrbios profissionais em médicos e académicos de medicina que podem
interferir no cuidado do doente (Rossetto, Skawinski, Coelho, Rossetto Júnior
& Bolla, 2000).
Quanto maior a satisfação dos trabalhadores, melhor é a QdV no ambiente
laboral. Os sujeitos podem estar mais ou menos satisfeitos, não apenas com os
fatores motivacionais e higiénicos, mas também com outras questões, como com a
sua própria educação formal, a vida familiar e as oportunidades para desfrutar
de atividades culturais, sociais e de lazer. Estes três últimos aspetos estão
claramente fora do ambiente de trabalho. No entanto, é inegável o seu papel na
saúde psíquica e na produtividade dos técnicos de todos os níveis. No âmbito
organizacional, a QdV é uma questão reconhecidamente de grande relevância, pois
relaciona-se diretamente com questão da competitividade, do espaço no mercado e
da produtividade da empresa. Nesse contexto, a QdV no trabalho pode ser
compreendida como o envolvimento de sujeitos, trabalho e organizações, onde a
preocupação com o bem-estar do profissional e com a resolutividade da
organização são os aspectos mais significantes (Maximiano, 2001).
Este estudo pretende avaliar a QV dos médicos que atuam na atenção básica, no
estado de Roraima, sob a ótica de satisfação no trabalho, relacionando os
diversos fatores geradores de stresse que modificam a essa QV. A QdV do médico
residente é analisada conjuntamente com a privação do sono e o stresse do
profissional da saúde.
MÉTODO
Participantes
A população estudada correspondeu ao número de médicos disponíveis que no
momento da aplicação do questionário trabalhavam nas unidades da atenção
básica, nas equipes da Estratégia de Saúde da Família (ESF) do Estado de
Roraima (Brasil). Participaram no estudo 43 médicos das 53 equipes em Boa vista
e 19 das 30 equipes dos municípios do interior do Estado, num total de 62
inquiridos (51,6 % do sexo masculino). Cerca de 36% dos participantes, ex
aequo, tinham idades compreendidas entre 28 e 29 anos e entre 40 e 49 anos.
Material
Utilizámos para este estudo dois questionários. O primeiro, pretendia conhecer
as caraterísticas sociais e demográficas dos médicos, mediante uma adaptação do
questionário sociodemográfico de Fernandes (2009). Avaliaram-se fatores fixos,
como sexo e percentil de índice de satisfação pessoal ajustado para idade, além
do grau de satisfação, do número de horas de atividade profissional.
O segundo corresponde ao questionário da World Health Organization Quality of
Life (WHOQOL-ABREVIADO) (WHO, 2005), que referencia QdV como um conjunto
subjetivo, multidimensional e composto por dimensões positivas e negativas. O
WHOQOL-ABREVIADO baseia-se nos pressupostos de que a QdV é um conjunto
subjetivo (percepção do indivíduo em questão), multidimensional e composto por
dimensões positivas (por exemplo, mobilidade) e negativas (por exemplo, dor).
A versão em português do WHOQOL foi desenvolvida no Centro WHOQOL para o
Brasil, no departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul, sob a coordenação de Marcelo Pio de Almeida Fleck (Fleck
et al., 2000). É composto por 26 perguntas. As primeiras duas perguntas são
sobre QdV enquanto as demais 24 facetas compreendem quatro domínios: físico,
psicológico, relação social e meio ambiente (quadro_1).
A resposta a cada pergunta faz-se numa escala descritiva de 5 pontos, conforme
os dois exemplos que se apresentam:
Procedimento
A pesquisa foi autorizada pelo Comité de Ética da Faculdade Roraimense de
Ensino Superior, de Boa Vista (Roraima) e pelo Secretário Estadual de Saúde do
Governo Estadual de Roraima (Brasil). Os participantes, depois de esclarecidos
sobre o estudo, firmaram um termo de consentimento livre. A coleta de dadosfoi
realizada entre julho e agosto de 2011. Os questionáriosforam aplicados
diretamente pelo primeiro autor deste estudo, sob a orientação científica dos
demais autores. A aplicação fez-se antes de iniciar o atendimento no período
matutino, num ambiente sossegado e tranquilo.
A informação foi tratada no IBM SPSS Statistics 20.0. Os dados foram pré-
processados através do auto-escalamento onde se verificou os valoresda média e
dividiu-se cada um pelo desvio padrão, de forma que todas as variáveis passam a
ter a mesma importância. Utilizámos uma ANOVA aos dados obtidos neste estudo,
para nível de significância de 5% (p <0,05).Nesse trabalho utilizámos o qui-
quadrado para variáveis nominais e a tabela ANOVA para variáveis intervalares e
K amostras.
RESULTADOS
Com relação ao sexo, não houve diferença significativa entre os valores médios
analisados com intervalo de confiança de 95% (p <0,05). Nos estudos de Machado
(1999) mostrou que 70,6% dos médicos são homens, dado semelhante ao conjunto do
país (69,8%). Apesar da medicina continuar a ser exercida, na sua maioria, por
profissionais do sexo masculino (73,7%), existe uma tendência de aumento no
número de profissionais do sexo feminino. Os dados de Machado (1999) corroboram
com os nossos encontrados em Boa Vista. Assim, na pesquisa da saúde dos médicos
do Brasil (Barbosa, Andrade, Carneiro & Gouveia, 2007) o sexo masculino
representa 62,9%. Esta tendência também se confirma na pesquisa acerca da
demografia médica do Brasil com 60,1% (Scheffer, 2011).
No que diz respeito à faixa etária, é entre 28 e 49 anos de idade onde se
encontra a maior quantidade de médicos em atividade profissional,
correspondendo a 72,2%. Nessa mesma faixa etária na pesquisa da saúde dos
médicos do Brasil (Barbosa et al., 2007) encontra-se 53,1%, que corresponde ao
período da vida mais produtiva do médico.Em relação ao estado civil, a maioria
dos profissionais entrevistados é casado ou em união de facto (62,9%).
Possivelmente, esta relação afetiva é importante para diminuir o stresse no
ambiente laboral e o relacionamento com os outros profissionais no ambiente de
trabalho. Este fato é comprovado também na pesquisa da saúde dos médicos do
Brasil, onde a vida conjugal é preferida para 75,6% (Barbosa et al., 2007).
Observou-se a predominância de médicos que mora com seus familiares (75,8%),
confirmando os resultados encontrados no estudo realizado na Saúde dos Médicos
do Brasil (Barbosa et al., 2007; Fernandes, 2009). Esta caraterística está
provavelmente ligada ao facto de que estes profissionais reagem e lidam melhor
com o stresse próprio do dia a dia no trabalho da ESF quando a família está no
lar, aguardando seu retorno após de uma jornada cansativa e stressante.O
aconchego da família é, provavelmente, um fator importante na tranquilidade
deste profissional nas horas de sossego em sua residência.
Neste estudo, 22,6% dos participantes vive sem dependentes; 33,9% com 1-
2 dependentes; 37,1% com 3-4; e 6,5% com cinco o mais dependentes.De acordo com
Barbosa e Aguiar (2008), a baixa taxa de permanência do profissional em sua
função ameaça o impacto e os resultados da ESF, prejudica a criação de vínculos
de confiança entre os profissionais, usuários e suas famílias e com a
comunidade. A existência do número de dependentes pode supor compromissos que
requerem maior estabilidade, contribuindo para fixação dos profissionais no
município de atuação.
No item referente a vínculo empregatício na ESF, observou-se que 82% dos
inquiridos possuem contrato provisório. Num contexto de globalização, de grande
concorrência de mercado, não ter contrato fixo provavelmente pode significar um
elemento indutor de stresse. Nesta pesquisa, 61,3% dos profissionais afirmaram
ter dois vínculos. Os profissionais da saúde por possuírem duplo vínculo
empregatício, estão cada vez mais sujeitos ao stresse, afetando os ambientes
laborais, a QdV no trabalho, com sobrecarga, conflito de funções e
desvalorização profissional (Santos et al., 2010).
No item referente à carga horária na ESF, constatou-se que 75,8%tem
atribuídasoito horas de trabalho; todavia sabe-se que nas condições em que os
médicos trabalham em Boa Vista, a jornada de trabalho pode representar uma
tensão, visto que faltam medicamentos, estrutura adequada e material, estando
expostos a um estado de stresse pelas próprias condições de trabalho
existentes. Assim, ambientes de trabalho impróprios, conforto mínimo para
laborar oito horas diárias, salários insuficientes, turnos extenuantes, falta
de lazer, configuram-se em stressores poderosos que atingem o médico (Barbosa
et al., 2007).
O médico com especialização, nesta pesquisa, corresponde a 64%, sendo a nível
do país 55,1% (Scheffer, 2011). Este é, possivelmente, um fator positivo para o
profissional lidar com o stresse do ambiente laboral e melhore a QdV no
trabalho, segundo Gouveia, Lins, Freires, Gomes e Lima (2009). Os médicos até
20 anos de graduação representam 79,4%, nesta pesquisa. O tempo de graduação é
um fator que influi sobre a QdV no trabalho e na segurança do profissional para
desenvolver suas atividades cotidianas com menos stresse devido provavelmente à
experiência no trabalho (Amaral, 2010).
A pós-graduação (mestrado e doutoramento) dos médicos participantes representa
um quantitativo baixo nesta pesquisa, com um valor de 1,6%, dados que estão na
continuidade da distribuição de pós-graduados em medicina no Brasil (Teixeira,
Gonçalves, & Botelho, 2011), onde se mostra que existem em Roraima, por
cada 100 mil habitantes, 2,84 mestres e 1,98 doutores. Observa-se uma grande
desigualdade entre as regiões, podendo ser explicada pela atribuição desigual
de recursos. O sudeste do Brasil, por exemplo, recebeu em 2002 cerca de 54% dos
recursos provenientes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico, enquanto que aonorte foi atribuído, apenas, 2,4% (Teixeira et al.,
2011). Esta situação não estimula o médico e piora a QdV no ambiente de
trabalho, devido à falta de uma política adequada de educação permanente para
este profissional.
O salário mensal na ESF é de Real 5000,00 R$ a 10 000,00 R$ por 40 horas
semanais, o que corresponde a 85,4% dos inquiridos. Referente ao salário mensal
de todos, os empregados (63,3%) responderam estar entre Real10 000,00 R$ a 20
000,00 R$ por 40 horas semanais.Isto significa que, para chegar a estesalário,
o profissional em Roraima tem mais de dois vínculos e ainda fazer turnos
noturnos em ambientes de trabalho stressantes e com falta de recursos humanos e
materiais, como se evidencia nas condições atuais da ESF, onde as equipes são
insuficientes para atender a população e a falta de medicamentos e outros
insumos são frequentes (CRM-RR, Março 2012). Verificamos que a satisfação é
baixa.
As respostas em relação à satisfação no ambiente de trabalho, corresponderam
entre muito pouco e médio, que representam, juntas, 80,6%. Tal deve-se,
possivelmente,à crença dos médicos na melhoria das condições de trabalho, mais
não é o que vem acontecendo, conforme atesta o relatório da comissão de
fiscalização do Conselho Regional de Medicina (CRM-RR, Março 2012).Ao comentar
acerca das boas condições de trabalho, as respostas mais frequentes foram muito
pouco e médio que correspondem, juntas, a 80,6%, devido às precárias condições
de estrutura física, falta de contribuições e de medicamentos nas unidades de
atenção básica (CRM-RR, Março 2012).
Podemos assim concluirque, o grau de satisfação dos médicos, em relação ao
ambiente de trabalho, é baixo, podendo interferir no nível de acometimento de
stresse. O resultado anterior é corroborado pelo resultado do item referente às
boas condições de trabalho, onde ficou constatado que 50% está pouco satisfeito
com as condições de trabalho.
Em relação às variáveis sociodemográficas quando relacionadas, ou associadas
aos domínios, verificamos não haver diferenças estatisticamente significativas.
Exceção para o estado civil quando testado com os domínios físico e meio-
ambiente. Nestes dois casos o valor p, na ANOVA, mostrou significância
estatística. Valores p de 0,02 para a variável independente estado civil quando
confrontadas as variáveis dependentes domínio físico e ambiente de trabalho
respectivamente, o que indica que o fato de ser casado, não casado, divorciado
ou separado tem diferenças significativas para os domínios físico e meio
ambiente. As variáveis, sexo, faixa etária, com quantas pessoas mora e o número
de dependentes não apresentou significância com qualquer dos domínios.
Verificou-se não haver diferenças estatisticamente significativas em à relação
às variáveis dos aspectos profissionais, e à sua associação aos domínios, a não
ser para o tempo de graduação com o domínio das relações sociais. O valor de p
encontrado é de 0,01. O domínio geral mostra uma associação significativa
quando relacionada com a variável das horas trabalhadas na ESF com valor p de
0,02. Podemos, também, aceitar por um processo de aproximação uma associação
significativa do domínio geral com a variável dos múltiplos vínculos
empregatícios, já que o valor p apresentado nesta associação é de 0,05.
No que diz respeito à relação das variáveis do salário mensal na ESF e de todos
os empregados, não existem diferenças estatisticamente significativas com
nenhum dos domínios. Observou-se que a satisfação das necessidades familiares
com o salário da ESF é estatisticamente significativa quando relacionados a
todos os domínios, com exceção do domínio físico. As variáveis satisfação com o
ambiente de trabalho e as boas condições de trabalho, mostram significância com
todos os domínios, inclusive o domínio geral. Todas essas relações mostram
valores p significativos a 0,05. Isso significa que todos os domínios mostram
valores médios diferentes quando os inquiridos escolhem resultados distintos
para aspectos do trabalho como satisfação com o ambiente laboral e boas
condições de trabalho.
Utilizámos, também, o coeficiente de fidedignidade de Cronbach(quadro_2).
O conjunto das 26 facetas têm uma consistência interna mais satisfatória 0,93,
correspondendo a maior homogeneidade dos itens que constituem os domínios/
facetas. Seguindo este raciocínio, observamos valores altos nos itens dos
domínios físicos (0,84), relações sociais (0,82), psicológico (0,79) e meio
ambiente (0,77). São considerados satisfatórios os valores maiores ou iguais a
0,7, evidenciando maior consistência interna do questionário para esses
profissionais. O domínio geral apresenta um valor para o coeficiente Alfa de
Cronbach de 0,57, considerado baixo pela literatura, porém justificado pelo
baixo número de itens deste domínio (2). De forma geral, os valores dos
coeficientes indicam uma consistência interna satisfatória. O domínio QdV geral
quando analisado individualmente apresenta o menor valor. Ressalte-se que o
domínio QdV geral é conformado por dois itens, o que determina necessariamente
transtorno (fragilidade) no desempenho de tal metodologia de análise, também
detetada por Fleck (2008).
Os resultados relativos à satisfação com a saúde dos médicos são apresentados
no quadro_3.
No quadro_3, em relação à satisfação com a sua saúde, 50% dos inquiridos
revela-se muito insatisfeito ou insatisfeito. O entendimento que provavelmente
se tem é que o profissional de saúde deve ter sempre uma boa satisfação com a
sua saúde, como condição de um bom exercício profissional. Porém, os médicos
são pessoas como quaisquer outros profissionais e, provavelmente, susceptíveis
de adoecer quando trabalham sem condições e ambientes estressantes (Barbosa et
al., 2007).Os resultados relativos aos respectivos domínios para os valores
transformados 4-20 e 0-100 são apresentados no quadro_4.
No quadro_4 a média dos valores transformados (ET 4-20) do domínio Geral é de
11,8, com desvio padrão de 3,3. O domínio Meio ambiente apresentou a menor
média com 11,6. Estes dados são também corroborados pela pesquisa do ambiente
de trabalho, com valor reduzido para este domínio, por Fernandes (2009). Estes
valores estão abaixo da faixa de neutralidade (12), com tendência à valoração
negativa, traduzindo QdV insatisfatória, ou seja, muito impacto negativo ou
presença de impacto negativo dos domínios Meio ambiente (ambiente de trabalho)
e Geral na QdV.
Os demais domínios apresentaram o valor aproximado de 13 (ET 4-20). Porém,
quando observamos a dispersão de opinião a partir da média do desvio padrão, o
domínio das relações sociais apresenta o valor de 3,4 como a maior medida de
dispersão das opiniões. Neste domínio, observamos valores transformados
próximos ao valor mínimo com 5,3 e no valor máximo de 20, visto que, tivemos
domínios que atingiram valores altos. Quanto mais alto o valor, melhor a QdV
naquele domínio (Ferreira, 2008).
Utilizámos a estatística multivariada para estimar variações no domínio Geral,
e variações nos demais domínios. No quadro_5 apresentam-se os resultados
relativos ao coeficiente de correlação entre os diferentes domínios, para a
amostra (n = 62).
No coeficiente de correlação (r) entre os diferentes domínios e o domínio Geral
(OVERALL) indica a maior correlação entre o domínio Meio ambiente de trabalho e
o Geral com 0,68. Podemos afirmar que entre o domínio Meio ambiente do trabalho
do médico e o domínio Geral onde esta incluída a QdV global e saúde do médico
existe uma correlação fortemente positiva. Assim, o ambiente de trabalho
(condições de trabalho inadequadas) relaciona-se com a QdV no trabalho do
médico da atenção básica no estado de Roraima. Observamos, também, elevada
correlação do domínio Geral com os domínios Físico e Psicológico. Tal significa
a existência de um grau de associação destas variáveis. Podemos afirmar que os
estados físico e psicológico (possivelmente stresse) do médico influenciam a
QdV no trabalho e a saúde do médico no estado de Roraima.
A mais baixa correlação é observada no domínio das Relações sociais com o
domínio Geral, com o valor de 0,55. Salientamos, porém, que todos apresentam
significância, ou seja, diferentes de zero com valor p< 0,01. A probabilidade,
ao afirmar a existência de uma correlação positiva entre os quatro domínios e o
Geral, é inferior a 1%, de estarmos errados nesta afirmação.
DISCUSSÃO
Com este estudo, observou-se a presença de fatores geradores de stresse que
modificam a QdV dos médicos, como a insatisfação com o ambiente e as condições
de trabalho a que estão submetidos na procura de melhorar o seu rendimento
familiar. Desta forma, é reportadada como má a QdV no ambiente de trabalho e a
existência de condições precárias de atendimento, procura excessiva e cansativa
de pacientes, gerando stresse e angústias nestes profissionais.
Referente ao objetivo geral verificou-se que a QdV no trabalho dos médicos que
atuam na atenção básica no estado de Roraima, sobre a ótica de satisfação, não
é aceite como adequada. É antes sentida, como ambiente stressante pela maioria
de médicos participantes neste estudo, identificando alguns fatores listados a
seguir: falta de recursos materiais, de medicamentos, de material para
curativos; falta de recursos humanos (as equipes de saúde da família são
insuficientes para atender à procura crescente em Boa Vista e no estado de
Roraima, devido à falta de médicos); falta de infraestruturas adequada das
unidades de saúde; falta de um centro de referência com especialidades médicas,
funcionando a referência e contra referência para as queixas mais prevalentes;
e falta de manutenção das unidades de saúde. Todas estas carências determinam
que o médico assuma responsabilidades que não são da sua competência,acabando
sobrecarregando no seu trabalho. A jornada de trabalho é extensa e intensa
expondo o profissional a riscos de sua saúde com sobrecarga física extenuante e
desgastante, fator que compromete a QdV no trabalho, dos médicos desta região,
que não é diferente as condições existentes nos municípios do interior do
estado.
Outro objetivo foi descrever que fatores influenciam a QdV no trabalho dos
médicos da atenção básica, que apresentou os seguintes resultados: stresse no
ambiente laboral; inadequadas condições de trabalho; más estruturas físicas das
unidades de saúde; contrato de trabalhos precários; multiplicidades de
vínculos; falta de cursos profissionalizantes que qualifiquem e valorizem o
profissional. Na sequência, analisámos aspetos laborais que produzem melhorias
na QdV no trabalho dos médicos da atenção básica. Foi apontado o bom
relacionamento entre os colegas e integrantes da ESF.
A insatisfação na atividade laboral acaba compondo uma situação stressante, que
é resultado da interação entre profissionais, os seus valores pessoais, as
expectativas com o ambiente e a organização do trabalho. O impacto do trabalho
nos profissionais compreende as repercussões dos fatores relacionados ao
trabalho sobre a saúde e o sentimento de bem-estar do conjunto.