Bem-estar subjetivo em idosas com e sem cancro da mama em remissão
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (World Health Organization, 2012),
a proporção de pessoas com mais de 60 anos de idade está a crescer
exponencialmente em todo o mundo, comparativamente a faixas etárias mais novas.
Adicionalmente, tem havido um aumento gradual não na idade per semas nas co-
morbilidades associadas a esta fase de vida (Fernández-Ballesteros, 2006).
Neste sentido, recursos e intervenções focadas no bem-estar e qualidade de vida
são extremamente necessárias para esta população (Lima, Silva, &
Galhardoni, 2008). Concomitantemente ao aumento da esperança média de vida
encontra-se a idade como fator de risco para o desenvolvimento do cancro da
mama, o que torna esta doença como a principal na adultícia avançada feminina
(Owusu, 2009).
O carcinoma mamário representa a doença maligna mais comum entre as mulheres
dos países Ocidentais (Bernardi, et al., 2008). Este tipo de cancro é o mais
frequente e a principal causa de morte entre o sexo feminino (Wrosch &
Sabiston, 2013). Adicionalmente, as mulheres com idades compreendidas entre os
70 anos ou mais apresentam a maior taxa de incidência de cancro da mama
invasivo (Vacek, Skelly, & Geller, 2011). De facto, aproximadamente 50% dos
cancros da mama estão presentes em mulheres com 65 anos ou mais, e mais de 30%
dos carcinomas mamários ocorrem entre as mulheres com 70 anos ou mais (Kimmick
& Balducci, 2000).
Mulheres idosas com cancro da mama encontram-se afetadas em inúmeras dimensões,
tais como, a biológica, a social e psicológica, o que coloca em risco o seu
bem-estar (Cheng & Lee, 2011; Diener & Ryan, 2009). A incidência desta
patologia requer uma maior compreensão acerca de como melhorar a vida destas
pacientes, especialmente porque as sobreviventes de cancro encontram-se em
risco de desenvolver diversas condições de co-morbilidade (i.e., outros tipos
de cancro, doenças cardiovasculares, osteoporose, diabetes mellitus) e assim
haver um declínio exponencial das suas condições de saúde, o que leva a
sequelas psicossociais (Demark-Wahnefried, Morey, Sloane, Snyder, & Cohen,
2009). Para além destas influências negativas no bem-estar destas mulheres,
existe uma preponderância para desenvolver dores, fadiga, insónia e distúrbios
de humor, o que também poderá contribuir para uma influência negativa no bem-
estar da população em questão (Cheng & Lee, 2011; Diener & Ryan, 2009).
Neste contexto, abordamos, assim, o conceito de bem-estar subjetivo (BES). O
BES é um conceito (Tessier, Lelorain, & Bonnaud-Antignac, 2012) utilizado
para definir a avaliação emocional e cognitiva que a pessoa faz sobre si
própria ou sobre a sua vida (Diener, 2009). Esta avaliação subjetiva engloba
julgamentos e sentimentos acerca da satisfação com a vida, interesse e
compromisso, reações afetivas (alegria e tristeza) perante os eventos da vida,
satisfação com o trabalho, relações, saúde, significado pessoal, sentido da
vida, entre outros domínios (Diener & Ryan, 2009). Assim sendo, o BES é
constituído por duas dimensões: a afetiva e a cognitiva. A componente cognitiva
é avaliada pela Escala de Satisfação com a Vida (ESV- Simões, 1992) através da
qual é mensurada a satisfação com a vida do indivíduo de acordo com os seus
próprios critérios (Shin & Johnson, 1978). A componente afetiva é avaliada
pela Escala de Afetos Positivos e Negativos (PANAS) (Galinha & Pais-
Ribeiro, 2005a) podendo ser, contudo, independentes uma da outra (Diener, Suh,
Lucas, & Smith, 1999).
Um elevado BES parece estar na base de uma boa saúde, longevidade, cidadania e
boas relações sociais (Diener, 2012). De facto, o BES pode ser influenciado não
só pela saúde, incluindo bem-estar psicológico e saúde mental (Dear, Henderson,
& Korten, 2002; Diener, Suh, & Oishi, 1997), mas também por aspetos da
vida não ligados à saúde (Tessier, et al., 2012), tais como a idade, o género,
o rendimento e suporte familiar (Lee & Browne, 2008).
A literatura existente sugere que o BES pode ser um fator preditivo na
incidência de cancro e de taxas de sobrevivência na doença oncológica (Williams
& Schneiderman, 2002). Pacientes oncológicos optimistas e com uma elevada
auto-estima apresentam uma associação com o BES (Pinquart & Fröhlich,
2009); e o suporte social e sentido de vida são bons preditores do aumento do
BES destes pacientes (Pinquart & Fröhlich, 2009).
Quanto ao tratamento da doença oncológica, é importante referir que o BES dos
sobreviventes de cancro da mama difere significativamente dependendo do tipo de
tratamento que haviam recebido (Tessier, et al., 2012), sendo que a mastectomia
é o tratamento com mais impacto negativo no BES pelo enfraquecimento da imagem
corporal (Janni, et al., 2001). Do mesmo modo, a forma como os sobreviventes de
cancro se veem a si próprios na sua relação com o mundo também poderá afetar o
BES (Zebrack, 2000).
Por último, a literatura acerca do cancro da mama na adultícia avançada e da
relação entre estes fatores com o BES é, ainda, escassa, havendo, por isso, uma
premência de estudos futuros acerca desta temática. Neste sentido, o nosso
estudo pretende colmatar esta lacuna. Os objetivos da nossa investigação são os
seguintes: averiguar se os dois grupos amostrais de idosas, com e sem cancro da
mama em remissão, apresentam diferenças significativas nos totais de BES e nas
suas dimensões afetiva e cognitiva.
MÉTODO
Participantes
A amostra total foi constituída por 387 mulheres, não institucionalizadas,
cujas idades se encontram entre os 75 anos ou superior (M=85,27; DP=6,59;
intervalo 75-100). Assim, 31,3% são inglesas e 55,3% são profissionalmente
ativas. Cento e noventa e três mulheres desta amostra foram diagnosticadas com
cancro da mama em remissão, enquanto as restantes 194 não foram diagnosticadas
com qualquer tipo de doença oncológica. A participação dos indivíduos amostrais
foi selecionada de acordo com a disponibilidade dos inquiridos, através de
listas de locais comunitários e de centros de saúde. Os critérios de inclusão
incluíram a inexistência de perturbações psiquiátricas de acordo com o DSM-IV
(American Psychiatric Association, 2000), sendo que todos aqueles que obtiveram
menos de 26 pontos do Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) (Folstein, Folstein,
& McHugh, 1975) foram excluídos.
O quadro seguinte apresenta os dados socio-demográficos e características de
saúde da amostra em questão (quadro_1).
No presente estudo um dos instrumentos utilizados para avaliar a dimensão
afectiva do BES dos participantes foi a PANAS, segundo a versão portuguesa de
Galinha e Pais-Ribeiro (2005b) e validada a partir da escala PANAS original de
Watson, Clark, e Tellegen (1988).
A PANAS é composta por 20 itens de auto-preenchimento que designam afetos,
sendo que cada item está associado a uma afeto negativo (exemplo: Nervoso) ou
a um afeto positivo (exemplo: Interessado) e cada total mede a intensidade
desse afeto específico (1=Nada ou Muito Ligeiramente a 5=Extremamente) (Rossi
& Pourtois, 2012; Watson, et al., 1988). Quanto à consistência interna da
PANAS, o alfa de Cronbach da escala de Afetos Negativos (AN) está entre 0,84 e
0,87 e o alfa de Cronbach da escala de Afetos Positivos (AP) está entre 0,86 e
0,90 (Galinha & Pais-Ribeiro, 2005b; Watson, et al., 1988).
A dimensão cognitiva do BES foi avaliada pela ESV (Simões, 1992), originada
pela Satisfaction With Life Scale (SWLS) de Diener, Emmons, Larsen e Griffin
(1985). A ESV é composta por 5 itens de auto-preenchimento, tais como As
condições da minha vida muito boas ou Até agora eu tenho conseguido as coisas
importantes da vida que eu desejava (Diener, et al., 1985). A escala é do tipo
Likert de 7 pontos item (1=Discordo Totalmente,7=Concordo Totalmente) (Diener,
et al., 1985). Nos estudos da escala original Diener et al. apresentaram um
alfa de Cronbach de 0,87 (Diener, et al., 1985) e no estudo de Neto (1993) a
ESV apresentou um coeficiente de consistência interna de 0,78. Tais valores
correspondem a um nível elevado de consistência interna da ESV.
Os instrumentos referidos anteriormente, assim como o questionário de dados
socio-demográficos, foram utilizados para caracterizar compreensivamente os
dados deste estudo.
Procedimento
A amostra foi recolhida pelo método não-probabilístico de conveniência (Maroco,
2010). Assim, os participantes foram recrutados em locais comunitários e
centros de saúde. Todos os participantes deram o seu consentimento informado
após a apresentação do estudo. Os questionários foram aplicados individualmente
para aqueles que desejaram participar. A informação privada de cada
participante não foi partilhada sem o conhecimento destes ou contra a sua
vontade. Do mesmo modo, nenhum dos participantes foi identificado e a qualquer
altura da investigação os participantes podiam desistir sem qualquer
penalização. Posteriormente, os participantes foram distribuídos em dois
grupos: cancro de mama em remissão e sem cancro de mama em remissão.
Seguidamente, procedeu-se à análise estatística dos dados obtidos.
Os dados foram analisados através de estatística descritiva em relação às
variáveis demográficas e aos totais das subescalas do BES. Assim, no presente
estudo, o alfa de Cronbach do AP, AN e ESV encontra-se compreendido entre 0,91,
0,88 e 0,77, respetivamente, sendo que considerámos estas escalas como tendo
níveis satisfatórias ao nível da fiabilidade.
Por forma a determinar se os totais da PANAS e da ESV apresentam uma
distribuição normal, assim como homogeneidade de variâncias nos dois grupos,
utilizamos os testes de Kolmogorov-Smirnov e o Teste de Levene (Modified-Levene
Equal-Variance). Seguidamente, com o intuito de comparar o grupo com cancro de
mama em remissão e o grupo sem cancro de mama em remissão relativamente aos
totais da AP, AN e ESV, utilizámos o teste paramétrico t-student.
RESULTADOS
Através da análise da estatística descritiva obtivemos as médias e os desvio-
padrões dos totais de AP, AN, ESV, PANAS e BES nos dois grupos amostrais. O
grupo com cancro da mama em remissão apresentou totais superiores em todas as
variáveis, comparativamente ao grupo sem cancro da mama em remissão (ver quadro
2).
O teste t-student revelou que os dois grupos amostrais apresentam diferenças
significativas quanto ao total de AP (t(385)=8,08, p<0,001), ao total de AN (t
(385)=2,62, p=0,009), ao de ESV (t(385)=8,06,p<0,001), ao total afetos
positivos e negativos (t(385)=6,04,p<0,001) e ao total do BES (t
(385)=6,73,p<0,001) (ver quadro_3).
DISCUSSÃO
O presente estudo teve como intuito analisar as diferenças significativas entre
os dois grupos amostrais (com e sem cancro da mama em remissão) em relação ao
BES, e as suas dimensões cognitiva e afetiva.
Os resultados indicaram diferenças significativas entre os grupos quanto ao
total de BES e das suas dimensões. Contrariamente às nossas expetativas
iniciais, o grupo com cancro da mama em remissão apresentou um total de BES
muito superior ao total do grupo sem cancro da mama em remissão, sendo que o
mesmo ocorreu perante as restantes variáveis. Estes resultados foram de
encontro ao estudo elaborado por Dirksen (2000), no qual os sobreviventes com
cancro de mama também apresentaram valores elevados nos totais de BES.
Por outro lado, na amostra total o valor do total de AN foi o mais reduzido
tanto no grupo com cancro da mama como no grupo sem cancro da mama. Todavia, em
relação a esta variável o grupo com cancro de mama em remissão teve um valor
ligeiramente superior ao outro grupo, sendo que a diferença entre os grupos foi
significativa. Deste modo, os nossos resultados corroboraram a literatura, no
sentido em que é sugerido que as sobreviventes de cancro apresentam um total
mais elevado de afetos negativos em comparação com as mulheres saudáveis
(Carpenter, Johnson, Wagner, & Andrykowski, 2002).
O grupo com cancro de mama em remissão apresentou totais significativamente
elevados de AP e ESV, em relação ao outro grupo. De acordo com Kessler (2002),
as sobreviventes de cancro apresentam mais afetos positivos do que negativos
apesar do stress e das consequências negativas que poderão advir do diagnóstico
e tratamento do cancro de mama. Para além disso, no estudo de Mols,
Vingerhoets, Coebergh, e Poll-Franse (2009), a ESV apresentou totais
significativamente mais elevados nas mulheres com cancro de mama,
comparativamente à população não-clínica. Assim sendo, hipotizámos que, para as
mulheres com cancro de mama em remissão da nossa amostra, a longevidade é mais
relevante do que o diagnóstico de cancro da mama, devido às co-morbilidades
associadas ao processo de envelhecimento que poderão, por sua vez, ter
diminuído o impacto da doença oncológica nas suas vidas. Adicionalmente, e no
sentido da literatura atual, é possível que as mulheres idosas com cancro da
mama em remissão da nossa amostra tenham experienciado um impacto positivo do
cancro nas suas vidas (Mols, et al., 2009), o que poderá ter influenciado os
afetos positivamente.
Por outro lado, tendo em conta que a doença oncológica se encontra em remissão,
colocamos a hipótese de que as participantes possam ter ficado com maiores
sentimentos de gratidão e de apreciação da vida após a sua sobrevivência. De
facto, segundo Stanton (2006), indivíduos com cancro costumam referir um
exponencial aumento da sua espiritualidade, apreciação da vida, relações mais
íntimas, mudança de prioridades e um maior aumento da força interior, fatores
que podem influenciar o BES e as suas dimensões cognitiva e afetiva. No
contexto da teoria da adaptação cognitiva e eventos ameaçadores de Taylor,
segundo a qual inúmeros recursos psicológicos podem facilitar a adaptação
positiva ao cancro, nomeadamente, o otimismo, controlo percebido sobre a
doença, auto-estima generalizada e sentido e significado da vida (Taylor, 1983;
Taylor, Kemeny, Reed, Bower, & Gruenewald, 2000). Tais fatores podem também
contribuir para o desenvolvimento de afetos positivos e de satisfação com a
vida, cujas respetivas escalas apresentaram os totais mais elevados no grupo
das mulheres com cancro de mama em remissão.
Apesar dos resultados relevantes desta investigação, várias limitações devem
ser consideradas. As participantes foram recrutadas através de centros
comunitários e de saúde, o que poderá constituir um enviesamento para o estudo.
Por outro lado, os nossos instrumentos foram somente de auto-preenchimento, não
tendo a sua relevância clínica sido ainda determinada e consequentemente os
nossos resultados, embora estatisticamente significativos, devem ser
interpretados com prudência quanto à prática clínica para evitar uma
sobrestimação das diferenças. É importante referir, também, que nas 193
mulheres da amostra, 33,9% apresentaram outras doenças para além do cancro o
que poderá ter influenciado os resultados de algum modo.
Em suma, ambos os grupos apresentaram diferenças significativas no que diz
respeito ao BES e as suas subescalas. O grupo com cancro de mama em remissão
apresentou totais médios elevados de BES e subescalas, particularmente nos
totais dos AP, comparativamente ao grupo sem cancro da mama.
Ao invés de focalizar nos tratamentos clínicos, este estudo providencia dados
originais e relevantes para o bem-estar nas condições crónicas da adultícia
avançada, numa abordagem salutogénica em combinação com a perspectiva de um
envelhecimento saudável desta população. Apesar do diagnóstico do cancro da
mama representar uma ameaça importante ao BES das idosas, estas participantes
apresentaram um total significativamente elevado face a esta variável. Desta
forma, os nossos resultados contribuíram para um aprofundamento do cancro de
mama focado no BES e suas dimensões na adultícia avançada, o que permite um
avanço na pesquisa e futuras intervenções na área da saúde psicológica com
mulheres idosas com cancro da mama.