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EuPTHUHu1645-00862014000100014

National varietyEu
Year2014
SourceScielo

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Fisioterapia na autoestima de mulheres com incontinência urinária: estudo longitudinal

O estudo da autoestima refere-se à avaliação pessoal e subjetiva, que o indivíduo faz si próprio, e que normalmente mantém, expressando atitudes de aprovação ou desaprovação em relação a si mesmo, seja de modo positivo ou negativo, podendo conter julgamentos sociais que as pessoas internalizam (Bernichon, Cook, & Brown, 2003).

A autoestima refere-se a processos de autoatribuição e de comparação social, salientando o valor pessoal, constituindo assim uma relação forte com a identidade, na medida em que, quanto mais os indivíduos valorizarem as suas capacidades, maior é a probabilidade que têm de se superar a si mesmos, elevando assim a sua autoestima (Brown, 1993) A investigação indica ainda que uma elevada autoestima tem implicação social, e é favorecedora de conforto, ao passo que baixa autoestima constitui um estado debilitante (Brown & Dutton, 1995). O constructo autoestima é, pois detentor de um importante papel mediador no comportamento psicológico, social e físico do indivíduo (Sonstroem, 1997).

Esta avaliação está assim associada a fenómenos de compensação ou descompensação emocional, podendo englobar diversos auto-esquemas, ou seja, as pessoas avaliam-se a elas próprias de forma favorável nalguns aspetos, mas não noutros, significando assim que os auto-esquemas podem influenciar as perceções, a memória e as inferências acerca da própria pessoa (Taylor & Armor, 1996) A autoestima depende do modo como avaliamos as nossas identidades de papéis específicos, isto é, conceitos do self em papéis específicos e as qualidades pessoais (Neto, 1999). Segundo Rosenberg (1965), o nosso nível global de autoestima é o produto destas avaliações individuais, sendo cada identidade pesada de acordo com a sua importância.

É de salientar que a autoestima constitui uma componente do autoconceito (Martin-Albo, Nuniez, Navarro, & Grijalvo, 2007; Garcia, Musitu, & Veiga, 2006). Alguns estudos conceptualizam o autoconceito como uma estrutura cognitiva contextualizada e dinâmica com funções adaptativas e autorreguladoras importantes (Diehl, Hastings, & Stanton, 2001). Desempenha um papel preponderante ao nível individual, uma vez que a ele se ligam motivos, necessidades, atitudes e sentimentos acerca das capacidades, aparência e aceitabilidade social próprias do indivíduo, constituindo um elemento nuclear da personalidade (Bruce, 1996).

Diehl, et al. (2001) acrescentam que o autoconceito é interpretado como uma estrutura organizada de conhecimentos, características, valores, memórias episódicas e semânticas acerca do self.

Nos últimos anos, os investigadores têm revelado um interesse crescente no estudo da incontinência urinária (IU), que sob o ponto de vista de Saúde Pública, pode ser interpretado como uma realidade crescente e preocupante, que surge com inevitáveis e importantes repercussões físicas, sociais, psicológicas e económicas nos mais variados contextos de vida da mulher.

A IU tem sido definida pela International Continence Society como uma condição na qual a perda involuntária de urina constitui um problema social e/ou higiénico, podendo ser objetivamente demonstrada. Atualmente, esta definição deve contemplar qualquer queixa de perda involuntária de urina (Haylen, et al., 2010).

A IU na mulher implica repercussões negativas nos seus mais variados contextos de vida, ao nível físico, social, económico e psicológico, nomeadamente a diminuição da autoestima, estando associada a pudor, embaraço, isolamento social (Viana, Viana, & Festas, 2005; Viktrup, Koke, Burgio, & Ouslander 2005) Vários investigadores, após estudos sobre a problemática da IU nas mulheres, consideram a fisioterapia uroginecológica, nomeadamente os exercícios dos músculos do pavimento pélvico, como eletiva no tratamento de qualquer tipo de manifestação de IU, sendo recomendada como primeira linha de tratamento (Dumoulin & Hay-Smith, 2010).

O presente estudo tem como objetivo investigar os efeitos da fisioterapia na autoestima de mulheres com IU, tendo sido estabelecida a seguinte hipótese: Espera-se encontrar diferenças ao nível da autoestima em mulheres com IU entre o grupo experimental de fisioterapia e o grupo de controlo.

Métodos Participantes Participaram neste estudo longitudinal e prospetivo 157 mulheres com diagnóstico clinico de IU, das quais 100 (64%) constituem o grupo experimental de fisioterapia, seguidas no Serviço de Medicina Física e Reabilitação do Hospital de São João, e 57 (36%) constituem o grupo de controlo, seguidas na Consulta Externa da Unidade de Uroginecologia e Reconstrução do Pavimento Pélvico do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de São João.

Selecionamos a amostra por conveniência para facilitar o acesso á população, tendo avaliado as participantes dos dois grupos antes da intervenção (pré- teste) e após a implementação de um programa de 12 semanas de fisioterapia uroginecológica (pós-teste).

De acordo com os objetivos apresentados, foram estabelecidos como critérios de inclusão: mulheres caucasianas, com diagnóstico clínico de IU de esforço, com idade superior a 18 anos, de nacionalidade portuguesa, inseridas em condições normais na comunidade e dispondo de condições para a realização de uma vida autónoma, e seguidas no Serviço de Medicina Física e Reabilitação e na Consulta Externa da Unidade de Uroginecologia e Reconstrução do Pavimento Pélvico do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de São João; como critérios de exclusão: mulheres que tivessem sido submetidas a cirurgia uroginecológica, fisioterapia uroginecológica ou medicação para tratamento da IU, com patologias graves e perturbações psiquiátricas clinicamente diagnosticadas, com elevado défice ao nível de competências cognitivas, visuais e motoras, com diagnóstico de incontinência fecal, prolapsos pélvicos e patologias do sistema nervoso central, e outras alterações das condições de saúde, que pudessem alterar as variáveis psicológicas das participantes durante o pré-teste e o pós-teste.

Nos Quadros seguintes apresentamos as características sociodemográficas da amostra (idade, estado civil, escolaridade, situação profissional, atividade profissional, situação económica). Assim, podemos observar no quadro_1, as características sociodemográficas relativas à idade da amostra, onde as participantes deste estudo apresentam uma média de idade de 51 (DP=13) para o grupo experimental de fisioterapia e de 54 (DP=11) para o grupo de controlo.

No quadro_2, podemos observar que as participantes de ambos os grupos eram maioritariamente casadas, e com o ensino básico do ciclo. Relativamente à situação profissional, as participantes eram, maioritariamente ativas, 51% do grupo experimental de fisioterapia e 51% do grupo de controlo, no entanto, destaca-se que, respetivamente, 30% e 33% das participantes eram reformadas.

Relativamente à atividade profissional exercida foi utilizada uma tabela normativa do nível profissional daClassificação Nacional de Profissões do Instituto do Emprego e Formação Profissional (Instituto do Emprego e Formação Profissional, 2001).

Podemos observar ainda que a maioria das participantes do grupo experimental de fisioterapia são trabalhadoras não qualificadas (23%), enquanto a maioria das mulheres do grupo de controlo são operárias, artífices e trabalhadoras similares (33%).

No que concerne à situação económica, observamos que a maioria das participantes revelou estar satisfeita com a mesma, quer as do grupo experimental de fisioterapia (61%) quer as do grupo de controlo (53%).

Material Aplicamos a Escala de Autoestima Global e o Questionário para a identificação de características sociodemográficas, que passaremos a enunciar e explicitar.

A escala de auto ' estima global para adultos de Rosenberg (The Rosenberg Self- Esteem Scale) foi desenvolvida por Rosenberg (1965), tendo sido adaptada para a população portuguesa por Neto (1996), cuja versão foi utilizada no nosso estudo.

A versão original desta escala revelou-se um instrumento com qualidades psicométricas amplamente reconhecidas e satisfatórias, sendo largamente utilizada no contexto internacional e nacional (Neto, 2002; Neto, 2008). Este instrumento é considerado uma medida unidimensional, englobando 10 itens que avaliam a autoestima global, sendo estes subdivididos em 5 itens, indicadores de atitudes positivas e outros 5 itens, indicadores de atitudes negativas, cada um deles com diferentes categorias de resposta que registam as atitudes globais acerca do self. Exemplos de itens desta escala são: Sinto que tenho boas qualidades e Às vezes penso que não presto para nada. Os itens negativos e positivos não foram apresentados consecutivamente para tornar a estrutura da escala menos transparente, reduzindo o viés de resposta direcionada.

Para cada questão existem quatro possibilidades de resposta numa escala tipo Likert, pedindo-se aos sujeitos para se avaliarem numa escala, que utiliza quatro alternativas de resposta: desde totalmente em desacordo (1) a totalmente em acordo (4). A cotação dos itens negativos foi invertida. Os scores obtidos variam entre 10 e 40. Assim, quanto mais elevados forem os resultados obtidos maior é a autoestima global dos sujeitos.

Este instrumento é considerado um dos melhores instrumentos na avaliação da autoestima global, sendo uma das primeiras medidas do conceito global do eu, e impulsionadora da avaliação moderna do autoconceito, como sendo uma organização de partes e componentes organizados hierarquicamente e interrelacionados de modo complexo. Integramos também um conjunto de variáveis sociodemográficas de resposta fechada, que se pretende assumir como uma medida objetiva das condições de vida dos participantes. As variáveis sociodemográficas foram avaliadas através de um questionário que recolheu informação no sentido de caracterizar a amostra, nomeadamente, a idade, o estado civil, a escolaridade, a situação profissional, a atividade profissional, a situação económica.

Procedimento O estudo foi aprovado pela Comissão de Ética do Hospital de São João. Obtivemos o consentimento das mulheres para participar no estudo através do preenchimento voluntário do questionário e da declaração de consentimento informado, considerando os princípios éticos estabelecidos pela Declaração de Helsínquia. Os instrumentos foram aplicados às participantes do grupo experimental de fisioterapia, antes e 12 semanas depois do programa de fisioterapia uroginecológica, assim como às do grupo de controlo, respeitando a sua completa liberdade de participarem ou não na investigação e garantindo-lhes a absoluta confidencialidade das respostas.

É de referir que o conjunto dos instrumentos foi constituído por uma breve explicação do objetivo geral do estudo, das tarefas a realizar e do procedimento de preenchimento, assim como a declaração de consentimento informado. Às participantes, o pedido de colaboração foi justificado como sendo um contributo para um estudo em curso, visando medir as reações das pessoas perante a sua vida e a sua condição clínica.

Após a recolha de dados, procedeu-se ao seu registo e ao respetivo tratamento estatístico, utilizando o programa informático Statistical Package for Social Science (SPSS), na versão 18.0® para Windows. As variáveis contínuas são descritas através da apresentação da média, desvio-padrão, mediana e valor mínimo- valor máximo. As variáveis categóricas são descritas através de frequências absolutas e relativas para cada categoria. Foram testadas hipóteses sobre a distribuição de variáveis contínuas com distribuição não normal, através da utilização do teste não paramétrico de Mann-Whitney. O nível de significância considerado foi de 5%.

Resultados No que diz respeito à autoestima das mulheres com IU no pré-teste, podemos verificar no quadro_3, uma equivalência de médias, sendo que a média ligeiramente mais elevada (29,56 e DP=4,19) corresponde às mulheres do grupo de controlo e a média ligeiramente mais baixa (29,09 e DP=4,91) mas muito similar à anterior, corresponde às mulheres do grupo experimental de fisioterapia.

Constatamos assim, através da análise de variância, que no pré-teste não se verificam diferenças estatisticamente significativas relativamente às médias de autoestima das mulheres com IU entre o grupo experimental de fisioterapia e o grupo de controlo.

No entanto, podemos constatar, no quadro_3, no pós-teste, relativamente à autoestima das mulheres com IU, que a média mais elevada mais elevada (34,64 e DP=4,00) corresponde às mulheres do grupo experimental de fisioterapia, enquanto a média mais baixa (27,61 e DP=5,48) corresponde às mulheres do grupo de controlo. Constatamos assim, diferenças estatisticamente significativas relativamente às médias da autoestima das mulheres entre o grupo experimental de fisioterapia e o grupo de controlo (p<0,001). Deste modo, no pós-teste, é de atender ao efeito benéfico do programa de fisioterapia uroginecológica sobre a autoestima das mulheres.

No que diz respeito à variação da autoestima das mulheres com IU entre o grupo de experimental de fisioterapia e o grupo de controlo, entre o pós-teste e o pré-teste, podemos verificar no quadro_3, que a média mais elevada (5,56 e DP=3,35) corresponde às mulheres com IU do grupo experimental de fisioterapia, enquanto a média mais baixa (-1,84 e DP=3,80) corresponde às mulheres com IU do grupo de controlo. Constatamos assim, que relativamente à variação entre o pré- teste e o pós-teste, verificamos diferenças estatisticamente significativas relativamente às médias da autoestima das mulheres entre o grupo experimental de fisioterapia e o grupo de controlo (p<0,001).

Discussão O presente estudo teve como preocupação fundamental investigar os efeitos da fisioterapia na autoestima em mulheres com IU, entre o grupo experimental de fisioterapia e o grupo de controlo. A hipótese formulada inicialmente foi confirmada, dado que existem diferenças estatisticamente significativas em relação à autoestima das mulheres com IU entre o grupo experimental de fisioterapia e o grupo de controlo, podendo-se verificar que o tratamento de fisioterapia uroginecológica promoveu efeitos benéficos sobre a autoestima das mulheres com IU. Os resultados estão em consonância com os de investigações anteriores que examinaram a autoestima em mulheres com IU e encontraram diferenças significativas entre o grupo de intervenção e o grupo de controlo (Alewijnse, Mesters, Metsemakers, Adriaans, & van den Borne, 2001; Ashworth & Hagan, 1993; Berghmans, Bernards, Hendriks, & Bo, 1999; Lagro- Janssen, Debruyne, Smits, & van Weel, 1992). Os resultados ainda são corroborados por Viana, et al. (2005), que ao investigarem a influência da fisioterapia uroginecológica na promoção da autoestima em 113 mulheres com IU, num estudo transversal com dois grupos independentes de mulheres com IU, efetuado em Portugal, com um grupo de intervenção, submetido a fisioterapia uroginecológica e um grupo de controlo, sem fisioterapia uroginecológica, obtiveram diferenças estatisticamente significativas entre o grupo de intervenção e o grupo de controlo, cujos resultados traduziram-se num aumento dos níveis de autoestima no grupo das mulheres submetidas ao tratamento de fisioterapia uroginecológica, contribuindo para uma melhor integração psicossocial.

Assim, as implicações da especificidade desta área devem ser discutidas em equipa pluridisciplinar, salientando a relevância da intervenção do fisioterapeuta na otimização da qualidade das relações mais significativas e promoção da autoestima das mulheres com IU.


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