Linhas de redefinição de um objeto: entre transformações no terreno e
transformações na antropologia
Introdução: revisitações de um terreno e historicidade da etnografia
O convite que me foi feito para participar neste dossiê refere-se à
investigação de terreno que levei a cabo nos anos 1990.[1] É portanto em torno
dela que focarei alguns pontos a propósito dos quais pode ser evocada a relação
com o contexto de pesquisa e de teorização dessa época ' relação essa que
também fui convidada a estabelecer. A investigação a que me refiro, na verdade,
revisitava um terreno, uma prisão de mulheres onde tinha feito um primeiro
trabalho de campo dez anos antes (Cunha 1994, 2002).
As revisitações de um terreno começam por levantar a questão da dupla
historicidade da etnografia: historicidade relativa ao contexto etnografado,
historicidade relativa ao etnógrafo. Tanto etnógrafo/a como etnografados/as
estão situados no tempo, mudam à medida que este progride. Por isso, cada
investigação etnográfica é inevitavelmente contingente não só a um conjunto de
circunstâncias e a um momento histórico particular, mas também a um encontro
intersubjetivo irrepetível (Kenna 1992; Okely 1992). Os regressos ao terreno
permitem justamente situar de forma mais nítida as etnografias precedentes nas
etapas de evolução de um contexto. A esta dupla historicidade acrescentarei
adiante um terceiro elemento: o contexto teórico em que ambos ocorrem ou se
desenrolam.
Se esta natureza situada da etnografia convida a pensar a cada passo as
condições do rigor etnográfico, ela não torna à partida fútil a tentativa para
captar a mudança na longa duração da realidade estudada, através de uma
sucessão de visitas ao terreno. Contingência e intersubjetividade, para
mencionar as duas dimensões que eventualmente suscitam mais reservas em relação
a uma ambição deste tipo, também não são forçosamente obstáculo a uma
comparação etnográfica controlada entre o passado e o presente. A modalidade de
conjugação do passado e do presente é que dificilmente pode assumir a forma de
um estudo longitudinal clássico, à maneira dos que se realizam noutras
ciências sociais através da replicação de um inquérito ao longo do tempo (e.g.
Bahr, Caplow e Chadwick 1983; Phelps, Furstenberg e Colby 2002). Nem todo o
acompanhamento diacrónico de um terreno é disciplinável de acordo com este
modelo.
Antes de avançar neste ponto, convém precisar, primeiro, a que tipo de
revisitação me refiro aqui. A questão da historicidade da pesquisa etnográfica
não se coloca, de facto, da mesma maneira consoante uma investigação num dado
terreno seja conduzida em diferentes momentos pelo mesmo investigador ou por
etnógrafos diferentes (ver também, a este propósito, Burawoy 2003). Um
etnógrafo não travará consigo próprio uma polémica como aquela que Derek
Freeman (1983) travou com Margaret Mead (1943 [1928]) a propósito de Samoa, ou
como a que opôs Oscar Lewis (1963 [1951]) a Robert Redfield (1930) a propósito
de Tepotzlán. É certo que as revisitações de um terreno por um outro
investigador não se saldam sempre por controvérsias vivas, refutações ou
impugnações, como o mostrou por exemplo o regresso de Sharon E. Hutchinson
(1996) aos Nuer de Evans-Pritchard (1969 [1940]), ou o de Annette Weiner
(1976) aos Trobriandeses de Malinowski (1961 [1922]). Estas duas últimas
foram não tanto reanálises caracterizadas por uma divergência fundamental em
relação aos respetivos predecessores, mas revisitações marcadas pela
complementaridade dos aspetos examinados por uns e outros. Ainda assim, mesmo
neste caso, a questão da temporalidade de uma etnografia tão-pouco é
dissociável da questão das condições de reinterpretação da investigação por
outros investigadores que se sucedem no mesmo terreno ' a qual não pretendo
focar aqui.
No caso do etnógrafo que regressa ao seu próprio contexto de estudo, quer seja
através de um acompanhamento regular e contínuo que vai atualizando
pontualmente uma dada investigação, ou de um regresso mais espaçado no tempo
inaugurando uma diferente estadia de terreno (e.g. Colson 1989; Firth 1936,
1959), a revisitação permite não só aprofundar a produção de dados, mas
sobretudo seguir continuidades e mudanças, captar processos. Tal regresso
corresponderia portanto, como se pode ser levado a supor, a uma espécie de
versão qualitativa da investigação diacrónica levada a cabo sob a forma de
estudos longitudinais. É esta figura de re-study, assim como os limites da
analogia com estes estudos, que me proponho focar aqui a propósito do meu
regresso em 1997 ao Estabelecimento Prisional de Tires para mais um ano de
trabalho de terreno, a suceder a uma estadia de dois anos na mesma instituição
na década de 1980.
Um regresso à prisão
Para me limitar às razões de ordem científica ' que quase nunca são as únicas
', a intenção inicial desta revisitação era de facto prolongar a investigação
anterior, tendo em conta mudanças organizacionais, legislativas e na demografia
e perfil sociopenal da população reclusa, população essa que não só tinha
quadruplicado como se tinha entretanto tornado mais uniforme. Estas
transformações, a par de outras na envolvente nacional e internacional, eram
suficientemente importantes para justificar só por si a comparação e o
prolongamento do trabalho anterior. Este deveria também dar conta, de resto,
dos efeitos de uma inflexão da instituição, no sentido de uma burocratização e
complexificação (Barak-Glanz 1981) mais orientadas por uma razão gestionária
do que ortopédica, quer dizer, mais preocupada em gerir de maneira eficiente
e ordeira o dia a dia do que em reabilitar reclusos (ver, a este propósito,
Cunha 2014 [no prelo]).
Mas, paralelamente a estas mudanças que motivaram o meu regresso ao terreno, à
chegada identificaria uma outra mutação, cuja natureza subvertia o pano de
fundo de continuidade necessário para articular o passado e o presente numa
lógica longitudinal, assente numa comparação ponto a ponto entre o passado e o
presente. Foi por isso preciso renunciar a essa lógica. A segunda investigação
não retomava senão alguns temas da primeira, abandonando outros que já não eram
cruciais para a leitura desse universo, nem traziam nada à compreensão da sua
transformação.
Neste sentido, tratava-se agora de um outro estudo, não de um reestudo.
Passível de evocar um enfoque longitudinal linear ou de pautar qualquer
acompanhamento de um terreno por este único formato, a etiqueta de reestudo
pode ser de facto enganadora e inadequada para caracterizar este tipo de
investigação. Não era possível simplesmente manter as questões que me tinham
guiado antes e limitar-me a desenvolvê-las e aprofundá-las. Era preciso
reconstruí-las ou mesmo recolocá-las. Por conseguinte, se o meu regresso ao
terreno permitiu por si mesmo identificar, e tornar mais percetível, a natureza
de uma mutação de fundo, foi no entanto necessário renunciar a prolongar a
investigação anterior segundo um modelo longitudinal de re-study.
Essa mutação de fundo decorria da presença generalizada na prisão de redes de
interconhecimento prévio ao encarceramento, sobretudo de parentes e vizinhos, e
vinha convidar a uma revisão de modelos analíticos habituais nos estudos
prisionais, bem como da premissa fundamental que orientava a abordagem deste
tipo de instituições: a saber, a de que a prisão representaria um corte
biográfico e social, uma interrupção, uma realidade entre parêntesis (Goffman
1968 [1961]) ' uma heterotopia (Foucault 1984, 2009). São modelos que partem do
princípio de que a prisão é um hiato social, um mundo cortado de relações
exteriores, o que neste caso significa cortado de relações anteriores. É
este pressuposto que tem governado o olhar sobre as instituições carcerais, a
ponto de não ser excessivo falar a este propósito de um regime de representação
da prisão. É aliás possível que este regime de representação tenha criado uma
espécie de ângulo morto que impediu a identificação de redes de
interconhecimento semelhantes noutros contextos prisionais, noutros países, e
tenha tornado invisíveis fenómenos cuja existência é possível atestar através
de numerosos indícios na literatura relevante (ver Cunha 2002, 2008).
Se falo de uma mutação de fundo, foi porque ela não só veio transformar a
natureza da socialidade prisional ' com implicações depois nos âmbitos vários
da experiência do espaço-tempo carceral por parte das reclusas e no modo como
ela é mediada pelo corpo e os sentidos ', como tornou essa socialidade
translocal, diluindo a fronteira entre o interior e o exterior. A prisão e o
pequeno número de bairros onde passou a constituir-se o grosso das fileiras de
detidos passaram a estar permanentemente entrelaçados nesta trama, e era nesta
zona desta conjugação que a minha investigação teria de situar-se agora. Isso
implicou redefinir de alto a baixo as minhas linhas de investigação.
Mais do que isso, fez com que este já não fosse propriamente um estudo
prisional, ou que o fosse apenas em parte. Era necessário descentrar-me da
prisão como instituição, em parte porque o seu perímetro espacial já não
configurava como antes a vida prisional. A prisão permanecia a unidade de
observação, mas deixara de ser a unidade privilegiada de análise. No passado
(i.e. nos anos 1980) uma tal abordagem era relativamente adequada ao universo
que estudava e a minha primeira investigação podia ser facilmente arrumada no
domínio dos estudos prisionais, não só pela sua problemática, mas sobretudo
porque era aí que se situavam o corpus bibliográfico e os quadros comparativos
mais pertinentes para compreender a realidade que então estudava.
Dez anos depois (i.e. a investigação que conduzi no final dos anos 1990), salvo
algumas exceções e abordagens sobretudo de tipo macroestrutural (e.g. Austin e
Irwin 1993; Jacobs 1977; Wacquant 1999), não encontrava neste campo de estudos
praticamente auxílio algum para perceber as transformações com que me deparava.
No passado as fronteiras materiais da prisão, às quais correspondiam também
fortes fronteiras simbólicas, delimitavam um quadro de vida específico, dotado
de uma relativa autonomia, e um quadro de relações sociais próprio, mesmo se os
elementos para a sua leitura não estavam inteiramente contidos intramuros. Ter
em conta a especificidade e relativa autonomia deste quadro de vida não
implicava considerá-lo um isolato, apesar da sua óbvia delimitação no espaço
físico, nem uma unidade social ou o lugar de uma cultura, cujo conteúdo
restaria ao antropólogo formular ' como sucedia com algumas abordagens
funcionalistas em que terreno e objeto quase se confundiam. Mas as implicações
destas fronteiras na definição desse universo eram de facto profundas nos anos
1980, como em qualquer quadro prisional clássico.
Estas implicações não seriam as mesmas uma década depois. Era preciso abrir a
análise ao exterior, uma vez que os bairros de onde provinham as reclusas
passaram a ser constitutivos da vida prisional. Mais do que um mero elemento de
contextualização, o mundo exterior deveria ser colocado em continuidade
analítica com o mundo intramuros. Em vez de um estudo prisional, tratava-se
agora de um tricot a duas agulhas: o bairro e a prisão. E se a análise dos
bairros se tinha tornado indispensável para compreender a prisão, a prisão
permitia, por sua vez, entrever certas propriedades comuns a estes bairros, e
que seria difícil identificar a partir de um outro ponto de observação. Sendo
assim, a prisão permitia também identificar a natureza de alguns processos em
ação no exterior.
Interrogar uma mudança
Esta transformação no terreno parecia ela própria ressoar com algumas
transformações na antropologia, nomeadamente a passagem de um enfoque em
sistemas para um enfoque em processos e na ação, condizente com a ideia de que
o locus e a lógica da cultura não estão dados de antemão nem de uma vez por
todas, tecendo-se em vez disso na prática e nos contextos de interação ' sem
ignorar, ao mesmo tempo, as estruturas de poder mais vastas em que estão
imersos. Esta deslocação de ênfase acompanhou-se também de conceitos com
potencialidades metodológicas mais adaptadas a este enfoque teórico, como o
conceito de rede social (Barnes 1990; Boissevain 1974), que assenta justamente
em indivíduos e interações. São o âmbito, as características e os fins destas
interações que definem os limites mais ou menos amplos dos sistemas sociais,
limites esses que não são portanto absolutos, mas relativos a uma cena social
ou a um conjunto de atividades. Além de permitir dar conta das práticas e da
textura da socialidade de grupos e unidades sociais que não são permanentes nem
dados à partida, a noção de rede é também um utensílio descritivo apropriado
para a investigação, tanto em cenas sociais de pequena como de larga escala;
tanto de fluxos transnacionais (Hannerz 1997) como de comunidades a-locais ou
sem centro de gravidade, como é o caso das comunidades virtuais na Internet
(Miller e Slater 2001). E, vendo-o a posteriori no caso em análise, permitia
não só um movimento através de diferentes escalas, como quebrar a ilusória
barreira analítica traçada pelos muros físicos de uma instituição prisional.
Poder-se-ia então ter dado o caso de esta minha mudança de enfoque (da prisão
para a interface prisão-bairro) refletir estas mudanças de ênfase na teoria
antropológica? A ser assim, levanta-se a questão de as tendências e os
elementos centrais que passei a discernir se encontrarem eventualmente já
presentes aquando da investigação anterior, mas sem que eu me tivesse
apercebido deles. Por outras palavras, poderiam bem ter-me escapado em razão de
escolhas teóricas e metodológicas que, ao orientar o olhar numa direção, também
podem afastá-lo de outra. Neste sentido, a historicidade da etnografia é já não
dupla, mas tripla: quer dizer, é relativa ao contexto etnografado, ao/à
etnógrafo/a e suas relações intersubjetivas no terreno, e, por fim, ao contexto
da teoria, ao Zeitgeist teórico incorporado num percurso intelectual.
Creio contudo não ter sido esse o caso, e que a minha mudança de enfoque foi
gerada principalmente por uma mudança no terreno. As redes de interconhecimento
que estiveram na sua base limitavam-se, nos anos 1980, às reclusas que se
designavam a si próprias por ciganas e apenas emergiriam como fenómeno
generalizado nos anos 1990. Ou seja, estas transformações foram a causa, não um
efeito dessa mudança de enfoque, e a saliência da noção de rede nesta segunda
investigação deveu-se menos a uma espécie de aggiornamento conceptual do que à
emergência de um novo fenómeno sociológico.
Resta então examinar a conjuntura intersubjetiva, a relação entre o/
a etnógrafo/a e os seus interlocutores. Também aqui houve que perceber por que
razão a minha relação com as reclusas foi bastante diferente nos dois momentos.
E também aqui me apercebi que, se assim era, tal devia-se sobretudo ao facto de
em ambos os momentos ela própria estar incorporada nas lógicas sociais e
identitárias locais ' lógicas essas, porém, bem diferentes entre si. Daí que
essa relação entre mim e as minhas interlocutoras integrasse o objeto de estudo
e tivesse contribuído para esclarecê-lo. Foi de resto neste sentido que vários
etnógrafos se objetivaram, utilizando a sua presença como revelador ou como
método (e.g. Althabe 1990; Sélim 1989). Se na minha primeira estadia o que me
intrigava a princípio eram a facilidade e a rapidez com que a minha relação com
as reclusas se estabelecia ' frequentemente, aliás, por iniciativa destas ', na
segunda investigação as minhas tentativas de aproximação deparavam com uma
relutância inesperada.
Comecei por atribuir essa dificuldade ao afastamento estrutural que entretanto
se tinha produzido entre nós, sobretudo por via da pauperização acentuada e da
relegação abrupta da generalidade das reclusas para a base do espaço social de
classe. Mas é evidente que este afastamento pouco poderia explicar. Em primeiro
lugar, porque a distância social e cultural entre os/as etnógrafos/as e os seus
interlocutores nunca foi em si impedimento à comunicação entre uns e outros.
Basta olhar para a história da antropologia. Em segundo lugar, porque a
distância intersubjetiva não decorre linearmente da distância estrutural. Por
exemplo, o fosso social que se cavara entre mim e as reclusas era muitas vezes
curto-circuitado a um outro nível, pela noção de que, colocada nos seus
contextos sociais de vida, eu teria podido, como elas, desembocar na prisão.
Dez anos antes, este tipo de identificação com as presas não era senão muito
pontual. Na investigação de terreno seguinte, os seus delitos pareciam-me
ligados muito mais diretamente à sua profunda marginalização, tendo-se com toda
a evidência reduzido para elas o espaço onde as escolhas se jogam e decidem.
Na verdade, a rápida proximidade que as reclusas estabeleceram comigo no meu
primeiro trabalho de campo traduzia a distância existente entre elas e
inscrevia-se precisamente nessa estratégia de distanciação. A proximidade em
relação a mim permitia-lhes esconjurar a identidade desviante de que a reclusão
era signo ' uma identidade que recusavam para si mas que projetavam nas
correclusas ' e recuperar a pertença a uma ordem legítima, em que não haviam
deixado de se rever. Quer dizer que a minha exterioridade ao universo recluso
era então uma vantagem.
Dez anos depois tornava-se um obstáculo, pois o que estava em causa era bem
diferente. A profunda marginalização anteprisional que afetava agora estas
mulheres, a sua exclusão coletiva tanto estrutural como simbólica, da qual a
reclusão já não é senão um dos momentos, tornou a prisão um palco algo
irrelevante para este jogo de demarcação. O vasto entrançado de parentes,
amigos e vizinhos trouxe consigo proximidade, intimidade, segredos. Criou, em
suma, silêncio (ver Rabinow 1977 a este propósito) e uma ordem privada que eu
já não podia penetrar da mesma maneira; e criou também, pela primeira vez, a
convicção de uma comunidade, à qual eu chegava agora como uma intrusa. Por
isso, mais do que por razões imputáveis a mim própria ou ao meu percurso, as
minhas dificuldades pareciam decorrer em boa parte das novas características do
objeto.
Em que ficamos, pois, quanto à historicidade da etnografia, à seletividade e
contingência que envolve o triângulo etnógrafo/a-terreno-teoria? Os regressos
ao terreno dão-nos os parâmetros e as dimensões dessa contingência, sobretudo
quando redundam em conclusões opostas, como foi o caso das duas investigações
que conduzi na mesma prisão. A discrepância de conclusões atravessava vários
âmbitos da vida prisional, desde o corpo e a sensorialidade até às
representações do tempo, passando pelas sociabilidades e pelas noções que regem
o quotidiano. Todos eles apresentavam aspetos novos e contrastantes. Como
encarar este contraste? Dever-se-ia ao facto de eu ter tido a ocasião de
assistir ao fim de um ciclo e ao início de um outro? Ou seria que ' para
retomar a questão que coloquei atrás ' tais aspetos se encontravam já presentes
na realidade anterior, não me tendo eu apercebido deles? É que uma investigação
etnográfica é conduzida não apenas numa conjuntura interpessoal específica e
num dado panorama teórico, mas também num momento do ciclo de vida do
investigador e numa etapa da sua maturação intelectual e analítica.
Pode uma etnografia ser longitudinal? Do rigor e cumulatividade etnográficos
Pude porém constatar que uma franja minoritária de reclusas reeditava, nos anos
1990, as mesmas representações, práticas e socialidade que dez anos antes eram
salientes na maioria da população prisional. Este grupo reduzido de reclusas,
que entretanto substituíra as do passado, correspondia de muito perto às
descrições e análises que eu construíra para a maioria da população reclusa
naquela prisão nos anos 1980. O regresso ao terreno produziu assim de maneira
imprevista um efeito de controlo retrospetivo da primeira investigação. Mas ao
mesmo tempo permitia também aferir a fiabilidade e robustez da segunda. Pode
dizer-se que produziu uma espécie de triangulação no tempo, fazendo com que as
duas etnografias, por contrastantes que fossem, se validassem mutuamente. Isto
é, afinal as lentes ' pessoais, teóricas, relacionais ' que eu usara em ambas
as investigações não tinham mudado substancialmente. Só assim teria sido
possível discernir, em primeiro lugar, permanência através da mudança, num
registo diacrónico comparando dois momentos; e, em segundo lugar, semelhança na
diferença, bem como diferença na semelhança, num registo sincrónico comparando
diferentes padrões num mesmo momento. A saliência de uma e de outra tinha-se
invertido de maneira muito pronunciada, mas essa alteração foi relativamente
alheia às lentes utilizadas. Resultava sobretudo, isso sim, de transformações
na realidade observada (decorrentes de dinâmicas internas e forças externas),
transformações essas exteriores ao meu percurso pessoal, teórico e
intersubjetivo.
Do que expus retiraria, pois, duas conclusões relacionadas entre si. A primeira
é que os aspetos de contingência e intersubjetividade envolvendo etnógrafo/a e
etnografados/as ' e aos quais os antropólogos deram grande atenção nos anos
mais reflexivistas das décadas de 1980 e 1990 ' não votam necessariamente a
um esforço vão qualquer exercício de controlo dos parâmetros de uma etnografia,
nem esvaziam de antemão a tentativa de aferir a fiabilidade dessa etnografia
num registo mais realista. Indo mais longe, a natureza triplamente situada da
investigação etnográfica tão-pouco condena cada pesquisa de terreno a limitar-
se a pontuar momentos avulsos de um processo histórico, nem deve coartar
tentativas de maior fôlego na captação etnográfica da longa duração. Pelo
contrário, não só não obriga a renunciar a toda e qualquer ambição cumulativa
no conhecimento desse processo histórico, como as revisitações etnográficas de
um terreno podem contribuir para conjugar com mais rigor o passado e o presente
de modo a melhor captar a mudança ' e a permanência.
Em segundo lugar, e para que tal ocorra, é de concluir que o modelo
longitudinal clássico não é sempre a opção mais rigorosa para dar conta
etnograficamente da historicidade de um contexto. Uma investigação realiza-se
sempre numa dada conjuntura (Pina-Cabral 2000). Mudando a conjuntura, uma nova
investigação terá provavelmente de formular novas questões, em vez de limitar-
se a alimentar as mesmas questões com novos dados ao longo do tempo. A
prosseguir no rumo traçado de início, o risco é, paradoxalmente, o de distorcer
a historicidade que se procura captar precisamente através de uma revisitação
do terreno. Revisitação não equivale, pois, a replicação. É precisamente a
ausência de rigidez da abordagem etnográfica que se pode revelar a mais
adequada para captar o sentido das transformações. Por muito que se traga uma
questão prévia e teoricamente sustentada para o terreno, a fim de não sucumbir
a um empirismo ilusório, as linhas de uma investigação etnográfica só acabam
por se definir verdadeiramente ' sabemo-lo bem ' não antes, mas depois da
chegada ao terreno e em função deste. Seria por isso algo contraditório com a
natureza desta abordagem que essas linhas de pesquisa adquirissem em seguida
uma qualquer qualidade de necessidade e se tornassem linhas prospetivas a impor
à partida a uma investigação que revisite esse terreno. As mudanças, tal como
em geral a vida das pessoas, não cuidam de produzir-se seguindo as linhas de
pesquisa fixadas pelo/a etnógrafo/a.