Cuidar das crianças entre Angola e Portugal: a parentalidade nas famílias
transnacionais
Introdução
Apesar da existência de políticas migratórias cada vez mais restritivas, os
fluxos migratórios de África para a Europa continuam a ser significativos.
Muitas famílias impossibilitadas de se movimentarem em conjunto vivem cada vez
mais separadas dos próprios filhos, utilizando redes locais e transnacionais
adaptadas ao cuidado das suas “crianças”. Assim, assiste-se à emergência de
famílias migrantes transnacionais derivadas da migração dos seus membros.
A pouca informação que existe sobre a organização de cuidados às crianças de
famílias transnacionais baseia-se em evidências parciais e estudos qualitativos
com números reduzidos de famílias que indicam que existem consequências
negativas para o desenvolvimento das crianças, bem como custos emocionais para
elas e para os seus pais (Parreñas 2001 e 2005; Folbre 2001; Zontini 2004;
Dreby 2006). Estes estudos indicam ainda como os aspetos negativos podem ser
compensados pelos efeitos positivos das remessas, constituindo este último
aspeto o foco principal à volta do qual a literatura e os debates sobre
migração se têm debruçado.
Neste artigo, a partir dos dados recolhidos no projeto de investigação TCRAf-Eu
[1] e tendo em conta uma escala de análise transnacional, será questionada a
legitimidade das noções/pressupostos modernistas de nação/ tempo/ espaço
embebidos em conceitos como parentalidade/ acolhimento/ integração. Por um
lado, serão discutidos alguns aspetos relevantes que emergem de distintas
culturas familiares e que determinam à partida a representação de cuidados na
criação dos filhos em formas também diferentes. Por outro lado, será discutido
como as crianças que pertencem a famílias transnacionais não são abrangidas
pelas leis portuguesas que regulam o seu acolhimento: a regulamentação que
existe centra-se exclusivamente nos “filhos menores em risco”. As novas formas
de família, na realidade, obrigam a repensar a sociedade europeia
contemporânea, que conta com uma presença cada vez mais importante dos
migrantes de outros países e suas famílias. Considerar a mobilidade
contemporânea como sendo geradora exclusivamente de situações de risco para a
educação das crianças no âmbito de famílias transnacionais sugere uma visão
parcial da mudança social em curso no âmbito da família e da sociedade
contemporânea (Grassi 2007). Os desafios para a implementação de leis
internacionais e nacionais para a proteção dos direitos das “crianças” em
contextos migratórios são complexos e as “crianças” fazem parte do processo
migratório numa variedade de situações distintas. O presente artigo pretende
analisar uma destas situações e propõe um olhar sobre as formas que assumem os
cuidados transnacionais dados às crianças e aos jovens de origem angolana em
Portugal e como estas mesmas formas afetam as vidas daquelas que permanecem no
país de origem, dos seus pais migrantes e dos seus cuidadores.
Ao considerar a família como uma unidade de análise central na compreensão das
relações dos indivíduos em contextos transnacionais, torna-se crucial ter em
conta que estas relações são desenvolvidas em diferentes países, cada um dos
quais com uma organização social e familiar específica do ponto de vista
histórico, cultural e político, e que condicionam as representações e a
autoperceção dos papéis representados pelos indivíduos.
No âmbito da literatura que caracteriza tal tipo de famílias, optamos neste
artigo por denominar famílias transnacionaisas famílias “cujos membros vivem
distantes a maioria do tempo, mas que juntos querem atingir o bem-estar comum/
coletivo, baseado na união/unidade, mesmo além das fronteiras” (Bryceson e
Vuorela, 2002: 3).[2] Trata-se de famílias onde existe separação geográfica
entre pais e filhos, e uma unidade social e familiar baseada na organização da
parentalidade à distância. As famílias transnacionaisconstituem um tema de
pesquisa emergente que ainda não foi estudado no contexto dos fluxos
migratórios entre Portugal e Angola.
Os estudos realizados no contexto europeu geralmente centram-se na análise das
políticas de família e assistência social, incluindo a investigação sobre a
divisão do trabalho e as responsabilidades entre as famílias e o estado
(Guerreiro e Pereira, 2007; Torres, Guerreiro e Lobo 2009; Wall, 2003; Fonseca,
2005). Outros estudos focam o papel do género em relação à divisão dos cuidados
com as crianças no seio da família (Crompton, Lewis e Lyonnette, 2007; Lewis,
Campbell e Huerta, 2008), sendo este tópico explicado pela sua relevância no
quadro dos estudos feministas e tendo uma importância central para a igualdade
entre homens e mulheres.
No nosso estudo de caso, constatamos como a questão de género se torna central
também para a perceção das relações familiares à distância. Dos estudos
existentes sobre a separação entre pais e filhos nas famílias transnacionais
(Parreñas 2008; Suarez-Orozco e Suarez-Orozco, 2001) e sobre a parentalidade, a
maioria incide sobre a maternidade (Hondagneu-Sotelo e Ernestine, 1997;
Parreñas, 2001; Schmalzbauer, 2004; Yepez, Ledo e Marzadro, 2011; Zontini, 2004
e 2010; Tolstokorova, 2010).
Neste sentido, e como veremos, na nossa amostra a maioria dos migrantes
angolanos em Portugal com crianças em Angola são pais que estão separados das
mães das crianças que residem em Angola. Esta circunstância explica o motivo
pelo qual iremos focar o presente artigo maioritariamente na questão da
paternidade.
No âmbito da literatura sobre famílias transnacionais, apresentaremos algumas
das formas definidas pelos cuidados transnacionais que, como veremos, se
adaptam e são adaptados por uma multiplicidade de circunstâncias relacionadas
com os contextos geográficos, históricos e culturais que estruturam a
organização familiar (Uhlendorff, Rupp e Euteneuer, 2011).
A investigação que alicerça as análises que aqui apresentaremos, e que se
centra sobre os migrantes angolanos em Portugal, pode considerar-se igualmente
peculiar devido à evidência de que, neste contexto, as famílias analisadas
parecem ter uma composição e regras específicas que desafiam uma das mais
consensuais definições de família transnacional (Bryceson e Vuorela, 2002),
aquela acima referida.
O fluxo migratório do nosso estudo tem um caráter específico, uma vez que se
realiza num contexto pós-colonial, onde as representações sociais que foram
herdadas da antiga posição hegemónica que Portugal ocupou durante séculos nos
PALOP (países africanos de língua oficial portuguesa) estão ainda muito
presentes, tanto nas ex-colónias como em Portugal (Machado, 1994). As ligações
históricas entre Portugal e Angola têm repercussões simbólicas e culturais,
entre as quais a persistência do legado colonial da língua portuguesa como
língua oficial é uma das mais significativas. São esses laços simbólicos que
determinam a escolha de Portugal como o país de destino mais importante para o
migrante angolano, assim como realçam a existência de alguma proximidade que
não se verifica noutros contextos. Ao mesmo tempo, a guerra civil que assolou
Angola, no decurso de quase 30 anos (1975-2002), moldou fortemente os
movimentos migratórios provenientes de Angola e determinou, em grande parte, o
perfil socioeconómico dos angolanos em Portugal.
Os estudos existentes sobre a migração entre Angola e Portugal são, na sua
maioria, centrados na dinâmica da “integração social” dos angolanos em Portugal
e não expressam a importância numérica deste fluxo migratório (Pires 2003;
Peixoto 2008; Machado et al., 2011; Grassi 2009). De facto, em Portugal, e
particularmente em Lisboa, as populações migrantes têm vindo a aumentar.
Segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros português e o Instituto Nacional
de Estatística, os angolanos com residência fixa aumentaram de 5000 para 23.200
pessoas, entre 1990 e 2012. Destes, cerca de 15.824 vivem na região de Lisboa.
Além disso, os fluxos entre Angola e Portugal têm sido quase sempre estudados
juntamente com outros fluxos referentes aos PALOP. Na literatura existente
sobre a mobilidade entre PALOP e Portugal, podemos ver, por exemplo, que os
estudos sobre os indivíduos cabo-verdianos são os mais numerosos (Grassi e
Evora, 2007; Batalha, 2004; Akesson 2004), existindo apenas alguns que se
centram em migrantes angolanos (Grassi, 2007, 2009; Øien, 2006, 2007; Tinajero,
2010). De igual modo, a maioria das pesquisas realizadas em Portugal, enquanto
país de acolhimento, focam-se na integração no mercado de trabalho (Peixoto,
2008, 2009a, 2009b; Pereira, 2010), em aspetos demográficos (Peixoto 2007 e
2009b; Fonseca, 2005 e 2011), redes e capital social (Grassi, 2009 e 2010), e
nas identidades migrantes (Machado, 1994; Grassi, 2008a e 2008b).
Na nossa amostra a maioria das famílias transnacionais entre Portugal e Angola
revelam que um importante número de pais migrantes em Portugal estão separados
da mãe da criança e envolvidos num outro relacionamento afetivo. Grande parte
destes indivíduos têm outras crianças com a atual parceira com quem vivem em
Portugal. Como é que estas famílias transnacionais funcionam neste contexto?
Quais são as repercussões no relacionamento entre o cuidador e os pais, e entre
os pais e os seus filhos? Que formas assumem a organização de cuidados para a
criação dos filhos? Estas são as principais questões que abordaremos neste
texto.
O artigo está organizado em três partes. Após uma descrição sumária do contexto
e das leis migratórias em Portugal, serão apresentados os desafios
metodológicos e os métodos de recolha da informação original. A segunda parte
analisa as diferentes formas utilizadas pelas famílias transnacionais para
educar os filhos e organizar o seu cuidado, entre os dois países. Finalmente,
através de uma ênfase especial dada às questões de género e à paternidade,
procurar-se-á compreender quais são nas famílias transnacionais as dimensões
mais relevantes para a educação dos filhos e o exercício da paternidade à
distância.
A migração angolana para Portugal
Durante um longo período de tempo, Portugal tem sido um país de emigração e,
apesar da intensificação do fluxo emigratório dos últimos cinco anos, nas
décadas mais recentes tornou-se também um país de imigração. Em 2012, 22,6%
(94.267) dos estrangeiros em Portugal (de um total de 417.042 residentes
legais) eram cidadãos das ex-colónias portuguesas (SEF, 2010). Entre 1975 e
meados da década de 1980, a independência das ex-colónias africanas portuguesas
trouxe de volta centenas de milhares de pessoas, os chamados “retornados”
(Lubkemann, 2003; Ovalle-Bahamón, 2003). Por outro lado, o fluxo migratório que
já havia começado na década de 1960, especialmente de Cabo Verde, aumentou. Um
novo ciclo migratório surgiu com a entrada de Portugal na Comunidade Económica
Europeia em 1986, em grande medida impulsionado pelo aumento da procura de mão
de obra, devido ao desenvolvimento da construção e de vários projetos de
infraestrutura. Os fluxos dos PALOP, sendo muito facilitados pelos laços
históricos, linguísticos e culturais, aumentaram significativamente. No
entanto, o período mais intenso de migrações angolanas ocorreu durante a década
de 1990 e início dos anos 2000, devido ao recomeçar da guerra, na sequência do
fracasso dos processos de paz de Bicesse e Lusaka.[3] Alguns desses migrantes,
filhos da elite e da classe média que fugiu do serviço militar obrigatório em
Angola, migraram para Portugal para continuar a sua formação, mas a maioria
foram migrantes não qualificados que vieram para trabalhar na construção civil,
limpeza e outros trabalhos similares. O conflito em Angola teve um grande
impacto sobre as decisões de emigração, mas não deve ser visto como o único
fator determinante. A migração é também consequência da violência,
instabilidade, mão de obra limitada, oportunidades de educação e declínio dos
padrões de vida — fatores que podem ter influenciado, todos juntos, as opções
migratórias. A proximidade linguística e cultural, o apoio familiar e a
existência de redes sociais em Portugal (amigos e parentes em Lisboa) tornou
este país um destino adequado para muitos angolanos, para além das
oportunidades de trabalho (IOM, 2009). A maioria dos migrantes recebeu alguma
assistência de membros da sua família e das outras redes sociais em Portugal.
Como se pode observar na figura_1, embora o número de homens angolanos em
Portugal tenha sido mais elevado do que o de mulheres angolanas, esta tendência
tem vindo a mudar, uma vez que o número destas aumentou de uma forma contínua.
Em 1999, 59% eram homens e 41% eram mulheres, e em 2012 foram mais as mulheres
do que homens registados em Portugal (52,7% e 47,3% respetivamente — dados
provisórios). Esta evolução é explicada pelo processo de reagrupamento familiar
(Fonseca, 2005). De acordo com um estudo recente da Organização Internacional
das Migrações (OIM), os migrantes angolanos do sexo masculino tinham mais
probabilidade de emigrar devido às consequências da violência e da guerra, às
dificuldades económicas, aos estudos e à busca de oportunidades, enquanto as
principais razões para a migração entre as mulheres revelaram argumentos como
juntarem-se a um familiar, a procura de novas oportunidades de trabalho e os
estudos (IOM, 2009: 49). O período migratório que se inicia nos primeiros anos
de 2000 caracteriza-se pela diminuição do número de migrantes angolanos devido
à recessão económica em Portugal e ao aumento das oportunidades de trabalho em
Angola. Pode-se falar de uma tendência para a inversão do fluxo migratório
(Ferreira e Grassi, 2012).
A partir de 2006, muitos dos migrantes estrangeiros voltaram ao seu país ou
migraram para outros países europeus. Na verdade, uma grande percentagem de
migrantes estrangeiros com baixas qualificações (como por exemplo os angolanos)
enfrentaram situações de vulnerabilidade económica. Em 2006, os angolanos que
se fixaram em Portugal foram mais de 33.000. No entanto, este número diminuiu
consideravelmente nos últimos cinco anos, atingindo 20.366 em 2012 (INE, 2010;
SEF, 2010, 2011). Alguns angolanos voltaram para Angola, onde atualmente,
devido à crise económica em Portugal, têm mais oportunidades económicas. Outros
migraram para outros países após terem adquirido a nacionalidade portuguesa,
aproveitando a nova lei da migração de 2006, que tem vindo a agilizar a
nacionalização dos migrantes estrangeiros (Malheiros, 2011).
O impacto das leis migratórias nos migrantes de origem angolana
Em comparação com outros países da Europa, Portugal tem tido uma abordagem
inclusiva relativamente à imigração. Em 2011, Portugal foi muito bem
classificado no Mipex,[4] um índice que compara os países de acordo com as suas
leis e políticas de integração. Esta classificação reflete sobretudo as leis e
as políticas relativas ao mercado de trabalho e ao direito ao reagrupamento
familiar. Durante a década de 1990, a maioria dos migrantes angolanos foram
admitidos em Portugal com vistos de turista e agora tornaram-se residentes
permanentes ou temporários, ou mesmo cidadãos portugueses. Na verdade, durante
a década de 1990, o governo português lançou um processo de regularizações, que
incluiu medidas de discriminação positiva para os cidadãos dos países de língua
portuguesa (decreto-lei n.º 212/92, de 12 de outubro). Houve um total de três
períodos de regularizações extraordinárias, que permitiram à maioria dos
migrantes angolanos tornarem-se residentes permanentes (Grassi, 2011).
A particularidade do caso português diz respeito à história do país colonial:
até 2006, o sistema migratório pareceu, de facto, ter sido originalmente
projetado para acomodar a migração dos países africanos de língua portuguesa e
historicamente favoreceu uma discriminação positiva desses países, que se
refletiu tanto na legislação como nos acordos bilaterais. Em 2006, a lei da
nacionalidade fortaleceu o princípio ius soli, ou seja, o direito à cidadania
para as crianças nascidas em Portugal, se os pais estivessem legalmente
residentes no país por um período de cinco anos. Em 2007, foi aprovada a nova
lei da migração, o que facilitou a regularização dos processos, nomeadamente
com a introdução do “estatuto de residente de longa duração”, e estabeleceu o
direito das crianças e dos seus pais a terem uma “autorização de residência”
quando aquelas estivessem matriculadas na escola até ao nível secundário.
Em Portugal, qualquer cidadão com uma autorização de residência válida tem
direito ao reagrupamento familiar com os membros da família a viver fora do
país. Estes familiares podem ter vivido com os seus progenitores em outro país,
ou depender deles ou coabitar com eles. Em 2002, a reunificação familiar
representava mais de 75% do fluxo de migração anual (Fonseca, 2005), e em 2009
foram emitidas 805 autorizações de residência para pessoas de Angola ao abrigo
do reagrupamento familiar (SEF, 2010).[5]
Houve na ultima década mudanças importantes na forma como os pedidos de
reagrupamento familiar foram processados e considerados. A nova lei de
estrangeiros, de 2007, foi concebida para simplificar este processo, admitindo
a reunificação com filhos de mais de 18 anos se estes fossem dependentes nos
termos acima referidos. Este é um ponto em que Portugal difere de muitos outros
países europeus, e que sugere uma política familiar friendly, na abordagem à
gestão das migrações.[6] No entanto, na prática, reunir toda a documentação
pode ser para o requerente uma tarefa difícil e que custa dinheiro. A lista de
exigências é bastante longa.[7] Assim, quer os aspetos práticos de trazer as
crianças para Portugal, quer as suas repercussões na vida quotidiana podem
explicar a razão porque algumas pessoas não conseguem trazer os seus filhos com
eles. Para tal, a exigência de rendimentos implica um problema para muitos
migrantes em Portugal no contexto da crise que o país atravessa e do desemprego
que atinge em particular as populações migrantes (Peixoto, Marçalo e Tolentino,
2011).
Em 2009, reconhecendo o impacto negativo da crise económica sobre os níveis de
emprego dos migrantes, foi adicionado um apêndice à lei, que admitiu uma
especial suspensão temporária das necessidades económicas para a regularização
e a reunificação familiar. O governo português, tal como indicado no preâmbulo
da lei, considerou que os efeitos desproporcionados do desemprego e do trabalho
temporário para migrantes não justificavam mantê-los afastados das suas
famílias. Resumindo, a regulamentação gradual que foi iniciada após a década de
1970 incluiu a desburocratização e a facilidade de acesso à nacionalidade, o
reagrupamento familiar e a renovação de vistos.
Notas metodológicas
Como seria de esperar, abordar uma problemática complexa e, até agora, pouco
estudada requer uma metodologia também complexa, quer de um ponto de vista
teórico e epistemológico (a combinação de diferentes olhares disciplinares),
quer do ponto de vista da escolha dos métodos de recolha de dados originais.
Todos os projetos que fazem parte do programa Norface TCRAf-Eu adotaram a SMS
(simultaneus matched sample)(Mazzucato, 2008). Trata-se de uma metodologia de
investigação plurissituada, que implica a recolha de dados no país de origem e
no país de chegada dos migrantes, permitindo assim a abordagem transnacional.
Além disso, baseia-se num rigoroso trabalho de equipa em vários locais e no
contacto permanente, com troca de relatórios semanais via e-mail das equipas
envolvidas. Finalmente, o trabalho de campo, que implica a observação junto das
“tríades” (redes que incluem pais, filhos e cuidadores) dos migrantes, revelou-
se crucial, uma vez que, ao serem colocadas as mesmas questões nos vários
lugares através da adaptação dos instrumentos aos contextos locais, conseguiu-
se captar as diferenças culturais na organização das relações familiares entre
os diversos contextos. A recolha de dados do projeto TCRAf-Eu entre Angola e
Portugal incluiu: (a) inquérito em Portugal com 300 pais de origem angolana;
(b) inquérito em Angola com 2246 alunos (Luanda e Benguela); (c) entrevistas
com informantes privilegiados; (d) entrevistas aprofundadas às “tríades” em 20
famílias. O presente artigo centra-se apenas nos dados obtidos do inquérito a
300 pais de origem angolana residentes em Portugal. A estratégia de amostragem
foi organizada para entrevistar e comparar três categorias de progenitores
migrantes: os pais cujos filhos ficaram em Angola (n = 68, 23%); os
progenitores que têm filhos em Portugal e em Angola (n = 76, 25%); os
progenitores cujos filhos vivem todos em Portugal (n = 156, 52%), que
constituem o grupo de controlo.
No momento da entrevista, os pais viviam na área metropolitana de Lisboa (AML),
no distrito de Lisboa ou Setúbal. A AML é a região com o maior número de
habitantes em Portugal (2.821.699 cidadãos no ano 2011 — Pordata, 2012) e foi
especificamente escolhida porque é o lugar onde a maioria dos cidadãos
angolanos vive e trabalha: 80% em 2010 (Pordata, 2012; SEF, 2010, 2011). Esta
tendência para viver dentro da AML reflete a polarização e a absorção de
emprego nesta área geográfica (Pereira, 2010), bem como uma importante presença
dos angolanos nas redes sociais da capital e seus arredores. Os progenitores
inquiridos tinham uma média de idade de 37 anos, sendo 135 deles do sexo
feminino (45%) e 164 do sexo masculino (55%).
As entrevistas foram conduzidas por entrevistadores de origem angolana
especialmente treinados por um dos membros da equipa e foram concluídas no
decurso de seis meses (entre dezembro de 2010 e maio de 2011), utilizando-se
diferentes estratégias de recrutamento (69% de amostragem por “bola de neve”;
20% por contacto pessoal; 4% por recrutamento em locais públicos; e 3% por meio
de associações ou através da igreja). A estratégia de amostragem foi concebida
por forma a atingir um equilíbrio na diversificação da amostra em termos de
género, idade da criança (o entrevistado devia ter pelo menos uma criança com
menos de 21 anos) e país de residência dos filhos dos entrevistados. Os dados
foram analisados com Stata e SPSS, fazendo uma análise descritiva e
inferencial. Diferentes variáveis foram testadas pelo teste do qui-quadrado
(todos os dados categóricos) ou Anova (categórica e os dados numéricos) para
estabelecer os perfis dos diferentes tipos de famílias. É de realçar que, em
termos estritamente estatísticos, trata-se de uma amostra não representativa,
pelo que os resultados que serão apresentados, embora tendo uma evidente
relevância exploratória, deverão ser lidos tendo presente esta limitação.
Padrões de migração dos três grupos de migrantes
Para compreender os perfis dos três grupos de progenitores , teremos, em
primeiro lugar, que apresentar algumas características da amostra, para dar uma
especial atenção à estrutura familiar dentro de cada grupo. Como já foi
realçado na introdução, centrar-nos-emos especialmente na situação conjugal dos
entrevistados.
Os entrevistados são relativamente jovens, com uma idade média de 37 anos, não
tendo sido encontradas diferenças de idade entre os três grupos. Relativamente
ao género, a proporção de homens e mulheres é diferente entre os grupos.
Enquanto a maioria dos inquiridos que vivem com todos os filhos em Portugal são
do sexo feminino (66%), a maioria dos progenitores entrevistados cujos filhos
vivem em Angola são do sexo masculino (respetivamente 82% para os que têm todos
os filhos em Angola e 68% para aqueles cujos filhos estão a residir em Angola e
em Portugal). Muito poucas mulheres que vivem em Portugal têm as crianças a
viver em Angola: de facto, 113 homens têm crianças em Angola e apenas 31
mulheres estão nesta situação; 80% dos nossos entrevistados que têm filhos a
residir em Angola são os homens. A baixa percentagem de mulheres nesta situação
parental revela um desequilíbrio que parece ser específico do contexto
português. Os outros fluxos estudados dentro do projeto TCRAf-Eu (Nigéria-
Irlanda, Gana-Holanda) revelam padrões de migração diferentes, com números
importantes de mães cujos filhos vivem no país de origem.
Quando se observam os padrões de migração, o tempo médio passado em Portugal é
de 10,6 anos. Isso explica-se pelo facto de a maioria deles (60,3%, n = 181)
terem vindo para o país entre 1999 e 2002, após o reacender da guerra e da
violência em Angola, que levou à migração em massa da população angolana, que
fugiu na sua maioria para os países vizinhos. Um grande número de jovens
abandonou Angola para escapar ao serviço militar obrigatório, mas também para
procurar oportunidades de emprego, acabando por se estabelecer em Portugal.
Apenas 12% dos inquiridos são migrantes recentes (n = 35), chegados nos últimos
cinco anos. A maioria dos entrevistados entrou em Portugal com vistos de
turista e posteriormente tornou-se residente permanente, ou teve acesso à
autorização de residência temporária. Quase nenhum deles procurou asilo; este
facto explica-se porque os cidadãos angolanos beneficiaram de redes sociais e
familiares já existentes em Portugal, bem como das leis de migração que foram
particularmente favoráveis aos cidadãos originários de todos os PALOP. Além
disso, o estatuto de refugiado em Portugal impunha limitações no acesso ao
mercado de trabalho. As leis de migração, bem como os processos de
regularização, explicam porque estavam quase todos os participantes (94%), à
data do inquérito, a residir legalmente em Portugal.
No entanto, e apesar da discriminação positiva para os migrantes originários
dos PALOP, que possibilitou várias regularizações extraordinárias desde a
década de 1990 e no início da de 2000, e da situação migratória estável, mais
de metade dos inquiridos (62%) parecem desejar o regresso a Angola ou a
deslocação para outro país nos próximos cinco anos. Sobre os projetos
migratórios dos entrevistados existem diferenças entre os diferentes grupos. Os
progenitores migrantes com todos os seus filhos em Portugal parecem mais
dispostos a permanecer no país de migração (43%) do que aqueles que têm todas
as crianças em Angola (23,5%). A maioria do grupo com filhos em Angola (53%)
deseja voltar ao seu país. Os que têm filhos em Angola e em Portugal encontram-
se mais divididos entre as três opções: 37% pretendem ficar, 34% pretendem
retornar e 27% gostariam de ir para outro país. É de sublinhar que a maior ou
menor vontade de voltar para Angola prende-se com a atual recessão económica em
Portugal e, paralelamente, com o aumento das possibilidades de trabalho em
Angola (Ferreira e Grassi, 2012).
Educação, emprego e trabalho
O nível das qualificações dos migrantes está associado ao seu grau de
empregabilidade em qualquer país e influencia o seu nível de rendimento e
capacidade de enviar remessas para o país de origem. Há indícios de que alguns
angolanos residentes no estrangeiro são migrantes qualificados (Grassi 2009).
Na nossa amostra, a maioria dos entrevistados têm qualificações de nível médio
(32% têm o ensino básico e 36% têm o ensino secundário) mas uma parte
significativa (19%) frequentou faculdades ou universidades, o que revela a
diversidade do nosso grupo-alvo, mesmo sendo esta proporção no ensino superior
inferior à taxa nacional em Portugal em 2009, que era de 30,6% e atingia 53,2%
na Grande Lisboa (INE, 2010: 69).
O nível médio de educação formal pode explicar a razão pela qual os migrantes
têm empregos que oferecem poucas oportunidades de desenvolvimento das suas
competências ou baixas perspetivas de carreira. Na amostra, 7% dos
entrevistados são alunos, e esta percentagem atinge 17,6% nos inquiridos que
têm todas as crianças em Angola. De facto, desde o período colonial, os
angolanos vêm para Portugal para estudar (Januário, 2007), principalmente
devido à escassez das instituições de ensino superior no seu país, em especial
durante o período da guerra civil.
A maioria dos inquiridos (tanto do sexo masculino como feminino) encontra-se a
trabalhar (65%), mantendo empregos mal remunerados no setor dos serviços, e
encontrando-se portanto na parte inferior da hierarquia profissional do mercado
de trabalho português (isto é, os serviços de limpeza para as mulheres e a
construção civil para os homens). O rendimento familiar de 75% dos nossos
entrevistados é inferior a 1000 euros por mês, e 20% ganham menos de 500 euros
mensais. O salário médio em Portugal foi 813 euros em 2011 e o salário mínimo
era 475 euros. Em 2008, 7,4% da mão de obra recebia o salário mínimo (INE,
2010).
Nos nossos dados verifica-se uma alta incidência do desemprego (26,5%), muito
acima da média nacional de 12,4% (INE, 2010). Esta alta taxa reflete a atual
recessão económica em Portugal, o aumento da pobreza e a crise no setor da
construção, onde muitos angolanos trabalham (Pereira e Vasconcelos, 2007;
Pereira, 2010). Os homens tendem a procurar emprego na indústria da construção
civil (44%), a trabalhar também como pedreiros, carpinteiros, motoristas,
eletricistas, técnicos, guardas, etc. Em geral, os resultados confirmam as
conclusões do levantamento da OIM realizado em 2009 com 200 angolanos e o
inquérito da OCDE (OECD, 2008) — os dois revelaram que os migrantes dos PALOP
em Portugal estão em desvantagem em relação aos migrantes de outros países.
Quase todos os inquiridos trabalham em tempo integral e, em média, trabalham
mais do que o limite legal (42 horas/semana). Em média, os que têm filhos a
residir em Angola trabalham mais horas por semana e mudam de emprego mais
frequentemente. Mais de metade não possuem contrato de trabalho nem têm um
contrato de duração determinada, o que torna a sua situação laboral muito
vulnerável ao desemprego (32% consideram que é muito provável estarem
desempregados no ano seguinte). A maioria considera que não tem dinheiro
suficiente para as despesas diárias e 40% acham que a sua situação financeira
não é tão boa quanto a da sua vizinhança.
Assim, o papel de “ganha-pão”, a maioria das vezes atribuído ao pai, está a ser
posto em causa pela crise económica que se vive em Portugal. A comparação da
situação económica entre os três grupos é complexa, porque, por um lado, os
dados recolhidos mostram que os inquiridos com filhos a residir exclusivamente
em Portugal estão mais frequentemente desempregados (32%) do que os inquiridos
com filhos em Angola. Mas, por outro lado, se considerarmos o nível de
rendimento, o número de vezes que mudam de emprego e o número de horas de
trabalho por semana, os resultados mostram que os inquiridos com todas as
crianças a residir em Portugal mudam de emprego menos vezes, trabalham menos
horas e ganham mais do que os pais nas duas outras categorias.
As crianças e as suas famílias
Os membros de famílias transnacionais entre Angola e Portugal referem viver
numa situação conjugal peculiar e com papéis específicos do casal na família.
Uma grande proporção dos inquiridos encontra-se num relacionamento (quase 80%),
mas apenas 16% deles são casados (oficialmente ou tradicionalmente). Os homens
são mais propensos a estar num relacionamento do que as mulheres; a proporção
de progenitores sós é maior entre as mulheres (25%) do que entre os homens
(16%). Há muito mais homens solteiros no grupo de entrevistados cujos filhos
todos estão a residir em Angola (38%) do que nos outros grupos (12% no grupo
dos que têm filhos a residir em Portugal e em Angola e 16% no grupo de
entrevistados cujos filhos estão todos a residir em Portugal).
A grande maioria dos entrevistados está a viver em Portugal com o seu parceiro
(92%), sendo este um elemento fundamental para compreender a dinâmica
transnacional do regime de cuidados. Uma parte muito reduzida dos homens
referiu que a sua atual parceira está a viver em Angola (apenas 4%, n = 6),
contrastando com uma percentagem mais elevada entre as mulheres entrevistadas
(12%, n = 12). No nosso caso, a distância geográfica é reforçada pela separação
conjugal entre os dois progenitores e isso afeta o funcionamento de toda a
família e os contactos entre estes e os seus filhos em Angola. A separação
ocorreu quase sempre antes da migração do pai, sendo esta um projeto individual
do pai separado. Neste contexto, a migração não pode ser considerada um projeto
comum dos progenitores para aumentar os rendimentos da família.
A maioria dos entrevistados tem filhos de diferentes parceiros e em metade dos
casos o outro progenitor da criança não é o parceiro atual do entrevistado.
Essa proporção atinge 65% para o primeiro filho (que é o filho que vive em
Angola) tendo, obviamente, um impacto na relação entre o pai em Portugal e a
criança em Angola e configurando um tipo particular de relação em que não
existe, ou é diferente, a expectativa de pai e filho ficarem juntos. Parece
tratar-se de uma relação em que surgem, no casal, dificuldades na organização
das responsabilidades de criar os filhos (Nobles, 2011).
Na amostra, o número médio de filhos (menores de 21 anos) por entrevistado é
2,33, bem acima do índice de fecundidade em Portugal (1,49 em 2009 e 1,6 na
área da Grande Lisboa — INE, 2010). No entanto, estes valores são bastante
menores relativamente aos valores em Angola, onde o índice de fecundidade
atinge 5,6 crianças por mulher em idade fértil, sendo, na nossa amostra, os
homens a ter, em média, mais filhos (2,51) do que as mulheres (2,12).
O primeiro filho da maioria dos entrevistados nasceu em Angola (quase 60%)
antes da migração para Portugal. Esta relação é inversa para o segundo filho
(66% nasceram já em Portugal) e mais de 85% dos terceiros filhos também
nasceram em Portugal. No total, 59% das crianças nasceram em Portugal e 40% em
Angola. A grande maioria das crianças que vivem em Portugal nasceram neste país
(82%), 12% migraram com os pais e apenas 8% se juntaram a estes mais tarde.
Isto revela uma baixa percentagem de casos de reagrupamento familiar na
amostra. Das 284 crianças que nasceram em Angola, 234 (82,3%) ainda vivem em
Angola. Aqueles que migraram para Portugal representam apenas 17% (49 migraram
com os pais e 23 migraram após o pai). Neste caso concreto, existe uma
diferença de género importante, uma vez que as mulheres migrantes parecem mais
propensas a migrar com os seus filhos para Portugal do que os homens.
A análise detalhada dos dados recolhidos na nossa pesquisa revela uma imagem
particularmente complexa das famílias angolanas. Ao contrário da imagem de uma
família transnacional, em que o “ganha-pão” é maioritariamente o pai que emigra
para trabalhar num país europeu e assim sustentar a sua companheira e os filhos
(Barou, 2001), na nossa amostra encontram-se muito poucos casais com estas
características. Assim, contrariamente, existe uma alta percentagem de famílias
transnacionais em que o pai migrou para Portugal e tem filhos em ambos os
países, embora já não tenha um relacionamento com a mãe do filho que ficou em
Angola. A maior parte desses pais tem outra relação afetiva em Portugal e tem
outros filhos desta nova parceira, que é, na maioria dos casos, de origem
angolana. O facto de ter outros filhos, como veremos mais à frente, tem
consequências sobre as modalidades transnacionais de cuidados às crianças.
Género e parentalidade à distância
Em relação aos papéis de género, a família transnacional entre Angola e
Portugal marca uma rutura institucional com a visão tradicional de género, não
só porque conduz a uma redistribuição e negociação da divisão sexual
tradicional do trabalho dentro da família, mas também porque altera a forma
como os pais vivem nos respetivos países e interagem sobre os cuidados
institucionais dos filhos (Folbre, 2001). Na nossa amostra, em que a grande
maioria dos migrantes com as crianças em Angola são homens (apenas 20% do total
de progenitores que têm filhos em Angola são mulheres), podemos observar que o
arranjo de cuidados transnacionais reproduz várias diferenças de género. Estas
tornam-se mais evidentes quando se analisam as relações intergeracionais entre
pais e filhos de famílias migrantes transnacionais angolanas. Se, no caso das
famílias transnacionais de origem filipina estudadas por Parreñas (2005), a
distância no tempo e no espaço entre o pai migrante e seus filhos contribui
para enfraquecer as relações intergeracionais, que se perdem na vida do dia a
dia, no nosso estudo ambos os pais e as crianças migrantes expressaram um
sentimento de desconforto e distância emocional em relação ao seu filho/pai. Os
resultados também revelam diferenças no bem-estar emocional das famílias
transnacionais, caso seja a mãe e não o pai o progenitor que migra. Quando a
mãe migra, as crianças queixam-se mais frequentemente de sentimentos de
abandono. Do mesmo modo, no nosso estudo de caso, existem pais migrantes que
frequentemente se queixam do desconforto emocional de não poder partilhar a
vida do dia a dia com os seus filhos (Parreñas, 2008).
Entre as mães envolvidas no nosso estudo, um terço daquelas cujos filhos vivem
em Angola estão a estudar em Portugal e pretendem voltar a Angola depois de
terminar os seus estudos. As mães que têm filhos a residir em Angola têm uma
idade média de 37 anos, quase todas são residentes legais em Portugal (96%) e
vieram viver para o país, em média, há dez anos. Aproximadamente um terço
concluiu o ensino médio primário/secundário, outro terço concluiu a escola
secundária superior, 12% completaram o nível profissional, e 24,3% possuem um
diploma universitário. A maioria dessas mulheres (51%) são migrantes
temporárias e a frequência de contactos que elas têm com os filhos em Angola é
muito elevada, entre uma e várias vezes por semana. Metade delas ainda está num
relacionamento afetivo com o pai das crianças que ficaram em Angola.
Relações nas tríades
Para entender o sentimento geral dos inquiridos face ao papel da paternidade à
distância e face à satisfação dos pais migrantes com o cuidador da sua criança
e, consequentemente, para entender melhor a organização dos cuidados aos filhos
neste tipo de famílias, mais uma vez a análise de género parece ajudar a
entender melhor as diferentes circunstâncias. Na nossa amostra, o papel de
prestação de cuidados é desempenhado pelo outro progenitor (77,5% dos casos),
mais especificamente pelas mães biológicas em 73% das famílias, e pelo pai em
4% dos casos. Quase todos os cuidadores são mulheres (94%): ou são as mães das
crianças ou outras mulheres da família. Quando o cuidador não é o outro
progenitor biológico, é um avô ou uma avó (15%), ou uma tia / um tio (5%).
Em relação ao cuidador, há, na nossa amostra, uma pequena diferença de acordo
com os tipos de famílias transnacionais. Quando as crianças vivem todas no país
de origem, 30% delas não estão ao cuidado do outro progenitor biológico, e esta
percentagem atinge apenas 20% quando o entrevistado tem crianças em ambos os
países.
As principais características dos cuidadores da nossa amostra indicam que a
grande maioria deles trabalham (72%) e têm entre 31 e 40 anos de idade. A
duração média da prestação de cuidados é de aproximadamente dez anos, num
contexto em que o tempo de migração de um dos pais é em média de 11 anos. Isto
revela uma tendência para a estabilidade no cuidado: uma alta percentagem de
crianças da nossa amostra (82%) nunca mudaram de cuidador no decurso da sua
infância.
Em termos gerais, os contactos entre o pai migrante e o cuidador são mantidos,
embora numa base não frequente, uma vez que a grande maioria telefona apenas
uma vez por mês e 14% não têm sequer contacto com o cuidador da sua criança.
Nesta dimensão também se regista, mais uma vez, uma diferença de acordo com o
género do progenitor migrante no que respeita à sua perceção sobre a frequência
dos contactos com os filhos. Os pais consideram a frequência de contacto
bastante baixa, enquanto as mães migrantes com todas as crianças a viverem em
Angola e que têm contacto com o cuidador, em média, uma vez por semana, não têm
esta perceção e referem o relacionamento com as suas crianças como mais
positivo do que os pais.
A esmagadora maioria dos inquiridos (83%) respondem que estão satisfeitos ou
muito satisfeitos com a organização dos cuidados às suas crianças. Os
satisfeitos respondem que o cuidador “cuida bem de seus filhos”, “é uma boa
mãe”, “dá uma boa educação”, “dá carinho e a atenção necessária”, “ama seu
filho”, etc. No caso em que os entrevistados declaram não estar satisfeitos com
os cuidados prestados às suas crianças, os motivos prendem-se com o cuidador
que “não tem as condições necessárias para os cuidados de saúde e escolares”,
“não pode ajudar a criança com os trabalhos da escola”, “não dá uma boa
educação”, “é desleixado”, “é descuidado”, etc.
No entanto, o facto de a maioria dos pais migrantes estar satisfeita com os
cuidados dados aos seus filhos não quer necessariamente dizer que tenha um bom
relacionamento com o cuidador. Cerca de 28% dos pais relataram que nunca ou
quase nunca têm tido um relacionamento aberto e caloroso com o cuidador. Cerca
de 31% dizem ter, por vezes, um bom relacionamento mas, no total, apenas 41%
dizem ter “sempre” ou “muitas vezes” um bom relacionamento com o cuidador. E 6%
dizem abertamente ter uma relação conflituosa. Isto pode ser explicado pelo
facto de uma grande percentagem dos cuidadores serem geralmente os ex-parceiros
dos respondentes, tendo a conjugalidade, nesses casos, um impacto direto na
organização dos cuidados.
Quando os conflitos surgem entre o pai em Portugal e o cuidador em Angola, em
cerca de 60% dos casos estes são devidos a questões de dinheiro. Isso permite-
nos levantar a questão dos pais nas famílias transnacionaise do papel de género
de chefes de família. Por outras palavras, até que ponto “os ganha-pães” são os
chefes de família, contribuindo com dinheiro ou bens para a educação dos seus
filhos que vivem em Angola? Até que ponto as expectativas de género
relacionadas com este papel mudam no nosso contexto?
Os resultados mostram que 80% dos pais enviam para os seus filhos bens ou
dinheiro, e isso é particularmente evidente no caso dos pais cujos filhos vivem
todos em Angola. No entanto, quando se aprofunda a questão dos envios de
remessas, os dados indicam que os entrevistados não enviam dinheiro
regularmente, mas sim várias vezes por ano ou ocasionalmente. Isto acontece
mais nos casos em que o pai tem um emprego de baixa remuneração ou se encontra
desempregado. Para além disso, a situação conjugal dos pais e o facto de alguns
deles também terem crianças em Portugal são cruciais para entender a questão
das remessas, as quais diminuem quando os pais têm filhos em Portugal.
Sobre a qualidade da relação entre o pai migrante e o cuidador, no nosso estudo
de caso parece que, mais uma vez, encontramos uma situação diferente daquela
descrita por Parreñas (2005) sobre o caso de famílias transnacionais filipinas.
No caso dos migrantes angolanos, e com base nos nossos resultados, parece haver
uma falta de cooperação entre os progenitores que vivem em diferentes países
relativamente à educação das crianças. No entanto, pesquisas anteriores sobre
disciplina e educação em famílias transnacionais e sobre o papel dos dois
progenitores separados revelam que, quando o migrante é o pai, este tende a
assumir a chamada “disciplina à distância”, um papel central da masculinidade,
que é reconhecido e promovido pela mãe da criança. Isso pode, consequentemente,
reforçar a lacuna emocional na família (Parreñas, 2005: 5 e 69). Considerando
essas relações e a baixa frequência de contactos entre crianças e pais, estamos
perante um tipo diferente daqueles que têm sido descritos até agora na
literatura sobre famílias transnacionais (Bryceson e Vuorela, 2002).
Uma outra diferença dos acordos transnacionais na nossa pesquisa é o facto de
não serem recentes, tendo em conta que a maioria dos pais migrantes cujos
filhos estão a residir em Angola são-no há mais de dez anos (66%, n = 198),
pois a maioria das vezes têm vivido no país de migração. Na nossa amostra, como
vimos, há muito poucos casos de famílias reunificadas e a maioria dos pais
migrantes não pretendem trazer os seus filhos para Portugal, por várias razões:
por não terem recursos suficientes e terem empregos precários, mas também por
estarem num relacionamento com outra mulher. Outros não querem porque os seus
filhos sempre viveram com a mãe em Angola.
Finalmente, o nosso estudo sugere que os pais se sentem tristes por viverem
separados geograficamente dos filhos e revela diferenças entre os casos em que
há crianças que vivem em Portugal e outras que vivem em Angola e aqueles em que
as crianças vivem todas em Angola. Pais com crianças em ambos os países (n =
57) encontram-se quase igualmente divididos entre a sensação de tristeza (36%),
a indiferença emocional (36%), ou a sensação de que estar longe é a melhor
solução (27%).
Conclusão
Como vimos, os fluxos migratórios entre Angola e Portugal têm sido,
historicamente, muito importantes e têm ocorrido sob diferentes formas. Os
reduzidos grupos de estudantes angolanos que chegaram na década de 1960, e que
viriam mais tarde a integrar a classe dominante de Angola, deram lugar, nos
anos 80, aos diferentes grupos de angolanos menos escolarizados ou qualificados
que migraram para Portugal em busca de oportunidades de emprego durante a
guerra. Alguns deles eram filhos da elite e da classe média angolana que fugiu
ao serviço militar obrigatório e continuou a sua educação em Portugal, mas a
maioria era constituída por migrantes não qualificados, alguns dos quais não
tinham autorização de residência e trabalhavam na construção civil, na limpeza
e em outros empregos similares.
Começámos neste artigo a analisar como a organização à distância das famílias
transnacionais angolanas é um fenómeno que implica um quadro difícil de
estudar, devido às múltiplas causas do movimento migratório entre os dois
países.
A nossa análise constitui só um começo que entendemos crucial para compreender
a repercussão da mobilidade nas vidas das pessoas e das famílias. A análise dos
dados recolhidos com o questionário aos progenitores de origem angolana em
Portugal, e que constitui a base empírica do presente artigo, serviu para
tornar visível a existência de diferentes tipos de famílias angolanas em
Portugal, facto que permite levantar novas questões no âmbito dos estudos da
família na atualidade.
As evidências mais importantes captadas neste inquérito prendem-se, como vimos,
com o género do progenitor migrante, e com os poucos casos em que a família
transnacional entre Angola e Portugal é constituída por mães migrantes cujos
filhos ficaram em Angola. A escassez de tais casos neste fluxo migratório,
responsável, em parte, pela escassa representatividade estatística da nossa
amostra, não diminui a sua relevância para a compreensão do fenómeno em estudo,
ainda não explorado neste contexto. As famílias que existem são principalmente
de migrantes temporários que mantêm um contacto mais próximo com os seus filhos
e relatam ter um bom relacionamento com o cuidador. Os dados também revelam que
querem voltar para Angola, de modo a reunirem-se com os seus filhos. Ao mesmo
tempo, quando o pai tem filhos em ambos os países, a relação com o cuidador
(principalmente a ex-parceira) parece ser mais controversa e o pai não parece
estar disposto a trazer os seus filhos para Portugal.
A imagem complexa da família transnacional angolana surge também nos dados que
foram recolhidos em Portugal, através de entrevistas qualitativas com os pais
de origem angolana. A análise complementar das entrevistas recolhida no âmbito
do projeto, mesmo destacando uma dinâmica semelhante de organização familiar
como aquela que é transmitida pelos dados quantitativos, revela que existem
pequenas diferenças que sugerem pistas de aprofundamento sobre as categorias de
análise típicas nos estudos da família. Por exemplo, neste artigo foi
evidenciada a importância da situação conjugal dos pais para compreender a
dinâmica da paternidade transnacional, assim como a centralidade dos papéis de
género no interior da família.
Além disso, os nossos dados parecem sugerir que a condição de jovens de
famílias transnacionais em Portugal constitui um desafio à implementação de
leis para a sua proteção em contextos migratórios. Na nossa investigação, os
cuidados organizam-se maioritariamente com práticas informais de acordo com um
conceito de parentalidade como relação social dentro do parentesco alargado na
sociedade angolana, que inclui também pessoas sem laços biológicos e de
afinidade. O acolhimento informal de crianças é uma prática parental em Angola
que se alicerça em tradições culturais da sociedade comuns nos países da África
Ocidental (Meillassoux, 1975). Tem como intuito o reforço dos laços familiares
ou a criação de outros (e novos) laços; no passado era muitas vezes uma forma
de prover educação ou formação à criança, devido às limitações económicas da
família. No período do conflito armado, estando muitas vezes associada a formas
de solidariedade para com os órfãos, esta prática era obviamente comum (Roque,
2009). O acolhimento informal parece continuar a assumir importância na
sociedade angolana, embora se verifique atualmente mais devido a mudanças na
estrutura familiar (elevado número de divórcios e separações) do que por motivo
de migração (Queirós, 2010).
A interpretação dos dados recolhidos pela nossa pesquisa está a ser objeto de
uma análise comparativa com os outros estudos do programa Norface referido no
início deste artigo e que está em curso de publicação.
Perante a existência cada vez mais numerosa de famílias transnacionais no mundo
contemporâneo, podemos concluir sublinhando a necessidade de uma redefinição de
família derivada da separação geográfica dos seus membros e da organização de
parentesco no país de origem dos migrantes. Este artigo tem assim como
principal objetivo ilustrar e refletir sobre esta temática no contexto das
relações familiares das famílias transnacionais entre Angola e Portugal.