Políticas culturais locais: contributos para um modelo de análise
O que sabemos sobre as políticas culturais autárquicas
O objetivo deste artigo é propor um modelo de análise das políticas culturais
locais adaptado à realidade portuguesa. Parte da ideia de que uma combinação
das perspetivas da sociologia e da economia constitui o melhor enquadramento
para tal análise. Considera que o conjunto de estudos de que já dispomos traça
uma panorâmica bastante interessante, quer do ponto de vista dos resultados,
quer do ponto de vista do método. E procura contribuir para o seu
aprofundamento, através do desenho de uma estratégia de investigação empírica —
isto é, de um modelo de análise — que possa ser sistematicamente aplicada, com
as especificações requeridas caso a caso.
O que sabemos, hoje, sobre as políticas culturais autárquicas pode ser
sintetizado em umas poucas afirmações.
A primeira assinala a sua relevância. Desde os meados dos anos 1990, a despesa
realizada pelo conjunto dos municípios passou a ser a principal fonte de
financiamento público das atividades e serviços culturais, sobrelevando a
despesa dos organismos sob tutela do governo (cf. Santos, 1998: 92-93; e Neves,
2005a). A figura_1 mostra a evolução das duas fontes. A qualidade dos dados é
discutível, mas não obscurece a tendência geral: crescimento mais acentuado da
despesa cultural autárquica, em comparação com a da Secretaria de Estado ou do
Ministério da Cultura, nos anos de incremento orçamental; maior capacidade de
resistir aos primeiros sinais de inversão da tendência, na década de 2000; e
queda abrupta da despesa, após a crise de 2008, sem que isso signifique a perda
da condição de fonte principal de financiamento.
Depois, às autarquias pertence a propriedade e a responsabilidade de gestão de
parte considerável dos equipamentos culturais: as bibliotecas de leitura
pública, os arquivos municipais, os museus municipais, e recintos para artes
performativas, como teatros, cineteatros e salas de concertos, por vezes
integrados em centros culturais ou centros de artes, que podem compreender
também espaços para exposições temporárias e/ou permanentes. O quadro_1
condensa a informação mais recente sobre este ponto.
Finalmente, as autarquias foram ocupando um lugar crescentemente central nas
estruturas e dinâmicas culturais locais, à medida que foram aumentando a
importância política concedida e os recursos humanos, materiais e financeiros
afetados. Embora várias investigações ponham em dúvida a dimensão e
sustentabilidade daquela importância, o certo é que ela não tem termo de
comparação com os primeiros tempos de implantação do poder local democrático e
com o tipo de concentração das políticas nas infraestruturas físicas a que a
equipa de Juan Mozziccafreddo (1990) chamou, sugestivamente, o “grau zero do
poder local”. O ponto de viragem ocorreu nos meados dos anos 1980: o lançamento
da primeira rede nacional de equipamentos — a Rede de Leitura Pública — e as
oportunidades abertas, em termos de financiamento do investimento, pela
integração de Portugal na então Comunidade Económica Europeia mudaram
qualitativamente as condições de intervenção autárquica na esfera cultural. A
análise estatística não chega para dar conta desta intervenção, porque parte
dela se faz por vias e de formas não diretamente registáveis física e
quantitativamente. Os laços entre os eleitos e as associações, coletividades e
outros agentes culturais — e, num contexto fortemente presidencialista e
dependente de redes relacionais, como mostrou Fernando Ruivo (2000),
diretamente com cada presidente de câmara; os apoios não materiais e, entre os
materiais, não imediatamente contabilizáveis, como os de natureza logística; e,
mais recentemente, a reconfiguração de sistemas de governança (governance)
local, de modo a incluir mais funcionalmente agentes culturais — todos são
processos de valorização do papel cultural das autarquias que só a análise
aprofundada caso a caso pode reconstituir e interpretar.
Maior relevância, portanto: eis a primeira afirmação sintética que se pode
fazer, a propósito da evolução da relação das autarquias locais portuguesas com
a cultura (cf. Gomes e Martinho, 2012). A segunda respeita ao modo predominante
nessa relação; e consensualismo parece ser o nome apropriado. O que não quer
dizer, evidentemente, uniformismo: por exemplo, Luísa Albuquerque (2011) notou
diferenças entre vereações de direita, centro-esquerda e esquerda quanto à
articulação entre identidade local, expressão cultural e serviço público
cultural. Mas, no Portugal pós-25 de Abril, o nível de partida era reduzido (em
termos de dimensão e diversidade), no que tocava ao capital cultural local, e
as câmaras municipais encontravam-se numa posição de dependência face ao poder
central e, quando passou a ser o caso, às orientações e recursos europeus
veiculados por esse poder, que fazia delas mais destinatários que autores de
políticas públicas. O baixo nível de partida favoreceu o consensualismo
político, porque a lógica incrementalista, baseada no princípio de que o que
era preciso era desenvolver e isso se fazia por crescimento tão rápido quanto
possível de infraestruturas, representava não apenas um ponto de convergência
entre forças políticas e interesses locais como também um fator de legitimação
política, pronto a usar. Por seu lado, a relação de dependência face às
orientações e aos recursos nacionais e europeus — carecendo tipicamente a
generalidade dos municípios de parcerias com essoutros dois níveis de
administração para poder concretizar e sustentar os seus projetos
incrementalistas — facilitava o consenso, porque as variações de políticas que
realmente contavam eram as que ocorriam ao nível do governo e da Comissão
Europeia, ou pelo menos contavam mais, em regra, do que a alternância política
local, quando ela existia. Pôde assim sugerir-se que o “roteiro de abordagem”
das políticas culturais devia ser específico, e não partir das classificações
políticas que fazem sentido no plano dos estados (Silva, 2007).
A terceira e última afirmação que fará a síntese do que sabemos hoje, em
Portugal, sobre as políticas locais já destaca as dinâmicas de alteração. Se a
descrição empreendida por Silva, Babo e Guerra (2013) estiver correta, dir-se-á
que, depois de um período de subalternidade no conjunto das preocupações
autárquicas, se foi estabelecendo desde os meados dos anos 1980 um padrão de
intervenção municipal estruturado em três eixos principais: a defesa e
valorização do património, o desenvolvimento de uma oferta local e a formação
de públicos culturais. O padrão é ainda hoje largamente hegemónico. Mas, nos
anos mais recentes, tem sido desafiado em municípios de vária dimensão e
localização. Não se trata de uma mudança radical, mas sim de complexificação:
não colocando em causa nenhum dos três eixos anteriores, várias políticas
locais (mais uma vez, respondendo a estímulos e incentivos exógenos, nacionais
ou europeus, e nalguns casos também à influência de agentes culturais locais ou
do meio nacional que atuam localmente como consultores ou ativistas) vão
acrescentando e valorizando outras dimensões. Principalmente duas. Uma é
interna à esfera cultural — e procura redefini-la como uma economia local,
apostando mais em questões como a profissionalização, a gestão, a clusterização
e a qualificação de sistemas de governança. A outra articula a política
cultural com outras políticas públicas, designadamente de reabilitação urbana,
de inclusão social, de turismo, ou para a promoção da marca local e a captação
de residentes e investidores, numa lógica de alavancagem cultural do
desenvolvimento local (Babo, 2010a; Silva, Babo e Guerra, 2013).
Para a análise intensiva das políticas culturais locais
As políticas culturais autárquicas são relevantes; são específicas — entre
outros pontos, porque o consensualismo político é nelas bastante mais forte do
que ao nível nacional; e estão em transformação, pelo menos parcial e no
sentido de maior complexificação do paradigma vigente. Nestes termos, como
podemos avançar, metodologicamente?
A nossa resposta é: investindo mais na sua análise como políticas públicas (cf.
Throsby, 2010: 33-57). Quer dizer, estudando como se formam e desenvolvem como
políticas, como se integram e articulam no conjunto das políticas públicas
autárquicas, como interagem com os meios sociais e territoriais sobre que se
exercem e como dialogam com os respetivos campos culturais.
Esta resposta não subentende nenhuma desvalorização crítica do que tem sido
feito. Pelo contrário: foi muito importante analisar o discurso político sobre
a cultura e a política cultural; foi igualmente importante proceder ao
inventário cuidadoso dos recursos e processos postos em prática para
incrementar o capital cultural local; e foi absolutamente decisivo perceber as
ligações entre os vários níveis e setores da política e da administração
pública portuguesa. A dimensão de avaliação, muito corrente nos estudos
disponíveis, também tem indiscutível pertinência, além de ser útil para os
eleitos e as instituições, que são, muitas vezes, clientes ou parceiros das
investigações empreendidas. Entretanto, a acumulação de informação e a
possibilidade de traçar visões panorâmicas (a que ainda agora restituímos, ou
outras mais certeiras) incita ao aprofundamento, aplicando modelos económica e
sociologicamente enriquecidos. O que sugerimos aqui pretende servir de guia a
estudos empíricos intensivos, isto é, a análises de casos: sejam os municípios
tomados isoladamente ou em cachos (e não apenas as comunidades intermunicipais
e as áreas metropolitanas, mas outro tipo de redes).[1]
O quadro_2 apresenta o modelo.
O modelo considera quatro níveis principais. O primeiro diz respeito à
caraterização do contexto; e a opção metodológica subjacente é fazê-lo pela
identificação das dinâmicas observáveis em quatro dimensões: o sistema
político; o sistema social; o sistema territorial; e o sistema de recursos e
atividades culturais. O segundo nível é a autonomização do que se poderia
considerar como um conjunto de fatores intermédios, que ligam as dinâmicas de
contexto às políticas culturais: são as caraterísticas próprias das
instituições e orientações políticas e das tecnoestruturas associadas. O
terceiro descreve cada política cultural, dando conta do seu desenho, discurso,
operacionalização e desenvolvimento. Finalmente, procura-se identificar e,
sendo o caso, avaliar os resultados da política e a sua retroação quer sobre
esta, quer sobre os sistemas locais pertinentes. Distingue-se entre os efeitos
propriamente culturais e os efeitos para o desenvolvimento local e regional.
A sucessão é apresentada do ponto de vista lógico, não do ponto de vista
metodológico. Será, até, eventualmente mais operatório começar o exercício
analítico pelo terceiro nível lógico, fazendo dele a primeira etapa da
abordagem. Ensaiar-se-á, assim, uma caraterização inicial do objeto da
investigação — a política cultural em vigor no município ou conjunto de
municípios em referência — para depois procurar explicá-la, em função das
variáveis de contexto (primeiro nível lógico) e intermédias (segundo nível). O
que provavelmente permitirá refinar a caraterização (retomando e desenvolvendo
o terceiro nível), apreender melhor os resultados (quarto nível) — e seguir a
retroação destes sobre contexto, instituições e atores políticos e política,
tornando pois a percorrer os primeiros três patamares analíticos (figura_2).
Considerar o contexto
Como é que o sistema político local serve de contexto à formação e
desenvolvimento da política cultural do município? A resposta depende
evidentemente do caso, mas há um conjunto de passos que podem ser dados. Desde
logo, considerar a dimensão e a localização do ou dos municípios em causa e as
dinâmicas de cooperação inter ou supramunicipal em que estejam envolvidos.
Depois, fazer o inventário dos atores locais cuja ação produz efeitos
políticos: os atores políticos propriamente ditos — partidos e outras
associações, incluindo evidentemente o fenómeno dos grupos partidariamente
independentes, cuja importância vem crescendo de eleição para eleição; mas
também os restantes atores politicamente relevantes, de que é útil destacar os
meios de comunicação com expressão local, as associações cívicas e os grupos de
interesse, e (eventualmente) movimentos sociais. Dadas as caraterísticas
específicas do poder local, importa sublinhar, no primeiro grupo de atores, as
lideranças pessoais (muito fortes num sistema de governo de pendor
presidencialista e em que a maioria tem grande capacidade de cooptação das
oposições); e, no segundo grupo, as redes estabelecidas entre extensões locais
dos partidos, serviços e níveis locais da administração pública, e instituições
sociais ligadas à Igreja, à assistência social, ao terceiro setor, à proteção
civil e a outras formas de entreajuda e solidariedade local.
A influência social e a representação eleitoral dos partidos políticos (e seus
equivalentes funcionais), o histórico e o estado da competição arbitrada
eleitoralmente, são também fatores essenciais para a dinâmica do sistema
político local. Basta pensar em como são diferentes as seguintes situações,
todas verificadas em Portugal: longa permanência de uma mesma liderança pessoal
(isto é, não só o mesmo partido como a mesma pessoa), que nalguns casos se
estendeu desde as primeiras eleições, em 1976, até às eleições de 2013, as
primeiras em que teve efeito a proibição da acumulação de mais de três mandatos
sucessivos na mesma autarquia; longa hegemonia por parte de um partido, com
renovação de lideranças, muitas vezes numa lógica de sucessão quase nos termos
de dinastia política (entre patronos e delfins); alternância bipartidária, cada
um dos partidos ou coligações assegurando um período de governo relativamente
longo (mais de dois mandatos); e forte competição a dois ou três partidos, com
mudanças constantes de maioria e governação (e, várias vezes, de coligação).
O modelo sugere que sejam relevadas as ligações extralocais dos atores
políticos, quer na relação com o campo político nacional, quer na relação com
as orientações nacionais e europeias. No caso particular dos Açores e da
Madeira, isto passa pela especificação das articulações com os respetivos
governos e partidos regionais.
Um segundo elemento central do contexto local das políticas culturais concerne
a dinâmica do sistema social. Em sentido lato. Múltiplas variáveis consideradas
pelas estatísticas nacionais — a começar pelo Recenseamento Geral da População
— são úteis para apreender essa dinâmica: é-o especialmente a variação da
composição da população residente por género e grupos de idade, assim como por
instrução e classe socioprofissional. Importa também recolher a informação
relativa à frequência das instituições do ensino superior, nas cidades que são
suas sedes e nas respetivas áreas urbanas. A natureza e o impacto local da
atividade destas instituições (assim como de outros centros de produção e
transferência de conhecimento) contribuem ainda para qualificar o meio social.
Dar conta das condições objetivas que contextualizam uma política cultural
passa pelo inventário tão minucioso quanto possível dos agentes locais:
associações e coletividades, grupos menos formais, promotores privados e
instituições públicas, operando nas artes performativas e visuais e nos
restantes círculos das atividades culturais (Throsby, 2008), sem esquecer o
papel, muitas vezes crítico, desempenhado pelos órgãos de comunicação social.
Em alguns municípios é possível obter, a partir de fontes secundárias, dados
sobre o consumo cultural dos residentes, as suas práticas de envolvimento
artístico amador ou semiprofissional e as audiências dos prestadores de bens e
serviços culturais. Todavia, na generalidade dos casos, isso não dispensa algum
inquérito específico.
O terceiro elemento do contexto local que é considerado no presente modelo
refere-se à dinâmica do sistema territorial. Está em jogo a interdependência
entre a configuração das políticas culturais e a forma como se organizam no
território as estruturas urbanas, as redes de equipamentos e infraestruturas,
os fluxos de pessoas e atividades. A análise dos sistemas urbanos locais, na
sua dinâmica de funcionamento, é essencial para compreender as tipologias de
ocupação de atividades, os fatores de atratividade dos espaços centrais e de
esvaziamento funcional dos espaços limítrofes, as lógicas de hierarquização e
concentração das funções. Esta análise implica abordagens intraurbanas e
interurbanas, considerando a participação dos agentes locais em espaços de
cooperação e de relação com os agentes e públicos de outros territórios,
próximos ou distantes (como os regionais, nacionais e internacionais). Implica
também a perceção dos modos como as cidades, onde se concentram os principais
agentes artísticos e culturais e parte significativa do mercado consumidor, se
relacionam com os seus territórios de proximidade, onde frequentemente
persistem ativos de grande relevo histórico ou significado simbólico (por
exemplo, monumentos relevantes e sítios arqueológicos) e segmentos de públicos
igualmente importantes.
A informação disponível é de natureza quantitativa e qualitativa; e merece, em
geral, um tratamento integrado, capaz de traduzir não apenas a diversidade e
densidade das funções instaladas como também os fluxos entre os diferentes
espaços e as suas condicionantes principais. A mobilidade das populações
constitui atualmente uma dimensão fundamental no quadro do funcionamento das
estruturas territoriais e urbanas, garantindo o acesso das pessoas aos
principais centros de produção e disseminação cultural.
Já quanto ao que designámos como sistema de recursos e atividades culturais, as
abordagens têm acentuado a preocupação de combinar vários quadros de leitura. O
sistema é multidimensional, compreendendo o património, as artes, as chamadas
indústrias culturais e parte das criativas. Mas também se estrutura de acordo
com a natureza dos seus agentes, integrados no setor público, privado
empresarial e privado não empresarial, neste predominando as organizações sem
fins lucrativos do terceiro setor.
Por outro lado, o sistema incorpora uma lógica de mercado e de cadeia de valor
económico. A relação entre oferta e procura de bens e serviços culturais
apresenta especificidades, de que uma das mais estudadas é o envolvimento de
uma boa parte dos agentes culturais em processos de formação de públicos. As
atividades culturais são multímodas, indo desde a criação artística e a
conceção das ideias à produção e circulação de produtos, ou à participação
direta dos públicos no desenho e desenvolvimento de eventos e obras.
O sistema de recursos e atividades culturais é ainda um sistema aberto. Ele
mantém um conjunto alargado de interligações e fluxos com os sistemas político,
social e territorial. Concorre assim para a configuração e evolução de diversas
formas de capital no contexto local: capital humano, em complementaridade com
as estruturas de educação e qualificação formais; capital social, na evolução
das normas, da participação cívica e cidadã, dos laços e redes interpessoais
(cf. Putnam, 1993); capital cultural, entendendo os bens artísticos e culturais
enquanto ativos de capital (Throsby, 2010); e capital simbólico.
Também as caraterísticas e dinâmicas do meio criativo e o seu posicionamento no
campo nacional e internacional são fundamentais na análise do sistema local de
recursos. Assim, considere-se a emergência e consolidação de atores e projetos
culturais; a distribuição territorial dos protagonistas e as formas e dinâmicas
de relacionamento e cooperação entre eles; o potencial de atração de novos
recursos e atores; as relações das estruturas e atores com os espaços
exteriores; as parcerias e redes de desenvolvimento artístico, criativo,
profissional em que se inserem (Kebir e Crevoisier, 2008). A dimensão e
caraterísticas dos mercados locais de bens e serviços culturais são,
evidentemente, fatores críticos de potenciação e sustentação dos meios
criativos.
Por último, os elementos artísticos e culturais locais são muito influenciados
pela natureza dos espaços, urbanos ou territoriais, em que se implantam,
definindo tipologias diversas — “bairros”, “distritos”, “cenas”, ou clusters. E
são inúmeras as investigações que recorrem a essas expressões para apreender as
espacializações das dinâmicas culturais, artísticas e criativas.
O conceito de cena conota o espaço de desenvolvimento e manifestação de
múltiplas dinâmicas de produção, intermediação, consumo e fruição. Ele conduz à
análise da conectividade entre os atores e os espaços sociais das cidades,
facilitando a compreensão da dinâmica das forças sociais, económicas e
institucionais que influenciam a expressão cultural e criativa coletiva
(Guerra, 2013). As cenas são ancoragens territoriais, mas não significam
exatamente lugares físicos (são locais, mas também translocais e virtuais); e
conjugam múltiplos efeitos: de aglomeração, do quadro de interação, de marca,
de artistas e de estilos de vida.
Esta abordagem permite adaptar conceitos trabalhados pela economia ou a
geografia. Como o de distrito, usado, por analogia à perspetiva marshalliana,
como espaço de concentração de recursos culturais e artísticos qualificados e
de informação, gerando vantagens competitivas (Babo, 2010b). Ou o de bairro
cultural, que articula, por referência a um mesmo espaço, os estilos de vida e
as sociabilidades com as produções e práticas criativas e a economia e o
desenvolvimento urbano (Costa, 2008). O reconhecimento dos processos e efeitos
de concentração de atividades artísticas e culturais também levou alguns
investigadores à adoção da expressão “quarteirões culturais”, para dar conta de
espaços urbanos regenerados com a cultura como alavanca do desenvolvimento
socioeconómico (Montgomery, 2003).
Estudar o processo de formação da política
O que o nosso modelo designa como fatores intermédios procura identificar as
dinâmicas do sistema político que contribuem diretamente para a formação e
aplicação da política cultural local. Fazem a ligação entre as condições
contextuais (objetivas, na medida em que definem as caraterísticas do meio
local que situam, restringindo e capacitando a atuação dos diferentes atores
políticos) e os comportamentos destes atores. Uma forma simples de compreender
a relação é pensar que o primeiro nível analítico do modelo respeita ao
contexto político (além de social e cultural); e reservar para o segundo nível
a imagem do jogo político, em sentido técnico (e não pejorativo).
A lista indicativa de fatores apresentada no quadro_2 procura evidenciar dois
traços específicos da formação da política cultural autárquica em Portugal. O
primeiro é o peso dos contributos externos: pois, se uma das lições principais
dos estudos empíricos realizados até ao momento é, a nosso ver, a maior
importância relativa desses contributos sobre as dinâmicas endógenas a cada
meio, a abordagem analítica de novos casos deve tornar este ponto numa hipótese
de partida. Daí que se sugira o inventário dos programas disponíveis ao nível
regional, nacional e europeu, porque eles orientam muito do que será a
intervenção prática de cada município; a identificação da presença e influência
dos técnicos (gabinetes de estudos e planeamento, consultores, terceiro setor,
fundações culturais, etc.) que funcionam como mediadores, “traduzindo” aqueles
programas para as necessidades e condições de cada caso, no plano das
orientações, terminologias, financiamentos e outros recursos de acesso
competitivo; e a despistagem das relações dos eleitos, tecnoestruturas e
agentes culturais locais com personalidades, instituições e correntes de
opinião do campo cultural e artístico nacional, já que vários programas postos
em prática por autarquias são virtualmente incompreensíveis sem observar a
ligação especial que se foi criando e consolidando entre certo parceiro
institucional ou pessoal externo e certo eleito, técnico ou protagonista local.
O segundo traço que o nosso modelo pretende relevar, na formação da política
cultural, é a influência de aspetos da estrutura política local que não estão
diretamente associados ou dependentes da filiação partidária e ideológica da
maioria municipal. As circunstâncias são ainda muito marcadas pelo
consensualismo político, em que o discurso em torno da valorização patrimonial,
da promoção da oferta, da formação de públicos e do trabalho com as escolas e,
mais recentemente, da economia da cultura tende a percorrer transversalmente —
mesmo que com as nuances já indicadas por Luísa Albuquerque (2011) e outros — o
sistema partidário. Em tais circunstâncias, a diferença pode ser feita, não
pela chegada ao poder deste ou daquele partido e o triunfo deste ou daquele
programa eleitoral, mas sim pelo perfil social e político do/a vereador/
a encarregado/a do pelouro cultural, dos técnicos e responsáveis pelos serviços
e equipamentos, e pelo tipo e alcance da relação que todos eles mantenham com
redes locais de influência social e política, designadamente as provenientes do
meio cultural.
Se nos demorarmos na análise fina destes atores da formação de cada política,
do seu comportamento estratégico e do jogo que resulta da sua interação,
estaremos mais bem apetrechados para compreender a conformação específica dessa
política. Queremos, em suma, defender que a combinação de uma abordagem
sistémica e contextual e de uma abordagem estratégica, centrada sobre os jogos
de atores, tal como teorizada por Crozier e Friedberg (1992 [1977]), constitui
uma excelente via para conhecer e interpretar a dinâmica das políticas locais.
De tal modo que, depois de uma primeira descrição geral, cada política pode ser
revisitada (enquanto nível III da figura_2), como consequência de um jogo
político (nível II) contingente a um dado contexto (nível I).
A elucidação e resumo dessa política tende a concentrar-se em duas vertentes
principais: discurso e produtos. Não deixa assim de ecoar, no plano analítico,
o foco político no “programa” e na “obra”: que propusemos fazer e como o
justificámos, que fizemos e como o aproveitámos? Daqui não decorre nenhum
problema de maior, desde que os dispositivos analíticos sejam respeitados. Mas
a nossa ideia é que não só se vá mais longe do que estas duas vertentes, como
que estas sejam integradas e bem compreendidas no corpo mais vasto a que
pertencem.
Assim, tentemos esboçar o desenho global da política cultural autárquica em
causa. Como se integra no conjunto das políticas dessa autarquia, isto é, que
lugar detém nelas (subalterno, central?); e como se articula com outras
políticas setoriais (designadamente educativa, social, de turismo, de
qualificação urbana)? E como é construída e apresentada, discursiva e
organizacionalmente: que finalidades exprime, que estratégias propõe para
atingi-las, que recursos mobiliza, que atores interessa e que interlocutores
identifica? O modelo seguido por Maria de Lurdes Rodrigues na discussão
analítica da sua própria política educativa pode ser de grande utilidade: quer
na ponderação das medidas de política por objetivo e modalidade de intervenção
(Rodrigues, 2010: 19-32), quer na restituição de cada medida através da
sequência lógica: (i) análise do problema — (ii) desenho e definição das
políticas (objetivo global, objetivos específicos, estratégia de intervenção) —
(iii) metodologia e atores (atividades desenvolvidas, atores) — (iv) avaliação
e resultados — (v) desafios futuros (por exemplo, Rodrigues, 2010: 55-72). Mas
há outras formas possíveis de organizar a informação e análise; e todas têm de
ser adaptadas a cada pesquisa.
Uma variável chave da política pública a que deve dar-se mais atenção é a
relativa ao sistema de governança. Ele permite perceber melhor não só os jogos
de atores e interlocutores como as condições de controlo sobre os recursos e de
uso eficiente e eficaz deles, bem como as questões próprias de legitimidade e
liderança política. A assunção da governança no processo da decisão implica a
compreensão das relações entre os vários níveis do exercício de poder (público,
privado e sociedade civil); e a consideração da complexidade dos processos de
desenvolvimento nas suas dimensões (económica, social, cultural, ambiental e
institucional) e nos seus níveis de ação (local, regional, nacional e
transnacional) (OECD, 2005). A cooperação e o envolvimento dos atores —
públicos, privados e associativos — situam-se em diversos patamares e numa
geometria variável: cooperação vertical, entre o governo nacional e outras
autoridades públicas, regionais ou locais; cooperação horizontal, das
autoridades locais (municípios) entre si; cooperação com outros stakeholders,
aos diversos níveis, pressupondo relacionamentos entre representantes públicos
e atores privados (empresas, instituições sem fins lucrativos ou terceiro setor
e cidadãos) (Greffe, 2005).
Um dos efeitos da perspetiva da governança reside na ligação das políticas
culturais a outras políticas setoriais, como as políticas de regeneração e
reabilitação urbana, as políticas sociais ou as intervenções de marketing
urbano e territorial. Esta luz facilitará a interpretação das informações
relativas a aspetos como a orgânica do município e dos seus equipamentos e
agências; a distribuição do poder e das responsabilidades entre os
intervenientes, bem como a relação entre a administração pública central e a
administração pública local, ou entre esta e os privados; as rubricas e níveis
de despesa, corrente e de capital, as suas fontes de financiamento e os
beneficiários diretos e indiretos; os níveis de participação da população e dos
agentes locais, públicos e privados, nos processos de formulação de opções de
política, de tomada de decisão e da sua execução; assim como uma primeira
leitura de indicadores de produto e resultado das políticas.
Não menorizamos a vertente discursiva da política cultural. Os discursos sobre
as políticas devem interessar-nos a vários títulos: os discursos de todas as
partes interessadas e, designadamente, dos eleitos locais (no poder ou na
oposição, no executivo e na assembleia), bem como dos ativistas culturais
(pessoas ou associações, em contexto profissional ou amador, no mercado ou em
instituições públicas ou de terceiro setor, etc.) — já para não falar dos
discursos dos investigadores, formadores e consultores em políticas culturais…;
os discursos políticos e os discursos culturais sobre as políticas culturais;
os discursos dirigidos para dentro e para fora (e de fora para dentro) do meio
local; e por aí adiante, qualquer que seja o nível de estruturação e impacto de
tais discursos. Apenas dizemos que, no estado atual da investigação, já não
devemos reduzir a análise a este plano; e ele compreende-se melhor em
interseção com os demais.
Análise de resultados
Considerando, por um lado, a complexidade das interações entre os sistemas
presentes no contexto local e a política cultural municipal e, por outro lado,
o tempo, imediato ou prolongado, de tais interações, a análise dos resultados
das políticas culturais locais exige uma abordagem simultaneamente matricial e
diacrónica.
Vale a pena distinguir dois grandes grupos de resultados: setoriais,
relacionados com o sistema de recursos e atividades culturais; e globais, os
que o extravasam, induzindo efeitos nos sistemas político, social e
territorial, ou na dinâmica geral do desenvolvimento. Para além da separação
entre resultados setoriais e globais, podemos ainda admitir diferentes
gradações de resultados, consoante se trate de efeitos imediatos, que traduzem
as mudanças diretamente efetivadas com a aplicação dos instrumentos de política
adotados, ou de impactos, que representam mudanças de outras componentes não
diretamente envolvidas na aplicação desses instrumentos.
Indiquemos, então, alguns dos parâmetros mais relevantes da análise dos
resultados das políticas culturais.
O primeiro pode bem ser a conservação e valorização do património, tangível e
intangível. Os indicadores hão de ser procurados nas estatísticas oficiais da
cultura, que nos dão conta da frequência de visitantes por tipo de equipamento
cultural; nas avaliações realizadas na última década em torno da aplicação de
programas específicos de valorização e dinamização patrimonial; no recurso a
inquéritos próprios aplicados no quadro da gestão dos equipamentos; nas
monografias temáticas ou por equipamentos; ou, ainda, no contexto escolar, no
interesse e abordagem do património e sua interligação com as diversas
atividades educativas. É reconhecido que o Programa Operacional da Cultura
(2000-2006) inaugurou uma nova sensibilidade face ao património e sítios
culturais; mas é necessário um investimento mais intenso na realização de
abordagens integradoras dos impactos da valorização patrimonial.
Um segundo parâmetro respeita à consolidação e desenvolvimento do meio
artístico e cultural, assim como ao emprego associado. Ele permite-nos ter uma
noção mais clara dos reais resultados da política e das possibilidades de
intervenção dos diferentes atores. Requer a mobilização de procedimentos
capazes de traçar a evolução do número e perfil de agentes culturais e
artísticos locais. Com duas prevenções: por um lado, atender aos protagonistas
privados e do terceiro setor; por outro, identificar os criadores e as
entidades criativas emergentes, designadamente em meio urbano, as quais muitas
vezes não possuem uma atividade formalizada, ou então exercem múltiplas
atividades de cruzamento artístico, cultural, lúdico e turístico. Não basta,
pois, olhar para os registos estatísticos e administrativos oficiais; é
geralmente preciso empreender investigações próprias, e de caráter intensivo,
procurando apreender e atualizar perfis de atividade (cf. ainda IQF, 2006a,
2006b).
A qualificação da oferta cultural local depende bastante da dinâmica de
variáveis de composição da estrutura socioprofissional, tais como a geração e o
género, a formação e a ocupação, os regimes de trabalho, o impacto das mudanças
tecnológicas e organizacionais, ou o relacionamento entre agentes e entidades.
As funções de intermediação e os mediadores (produtores, representantes,
distribuidores, comunicadores, críticos, divulgadores…) são naturalmente
centrais, quando se trata de observar a dinâmica de um meio cultural.
Um terceiro parâmetro refere-se à internacionalização: como é que a (eventual)
circulação e apropriação internacional de projetos e obras tem impacto no
desenvolvimento, reputação e visibilidade do meio cultural e artístico local?
Neste âmbito, importa perceber a amplitude, os objetivos e as caraterísticas
das procuras internacionais; os canais e conteúdos de projeção mediática de
tecidos culturais locais; e os contextos, as oportunidades e os espaços de
internacionalização.
Não se pode deixar de lado, evidentemente, as dinâmicas de consumo e fruição
das obras e eventos culturais. Referimo-nos, em primeiro lugar, à dinâmica dos
públicos, que tem sido objeto de vários estudos, desde a década de 1990. A
informação existente é sobretudo de caráter quantitativo, recolhida sob a forma
de inquéritos por questionário aplicados a conjuntos diversos e espacialmente
variáveis de atores e contextos: cidades e redes de cidades, concelhos,
equipamentos culturais, festivais e eventos, escolas, espaços de fruição
musical e lúdica, galerias, ruas… Os dados permitem identificar os gostos e
práticas culturais e artísticas, os seus tempos e espaços de realização, as
lógicas de habituação e fidelização, as determinantes sociais das práticas e a
sua organização segundo hierarquias de classificação e preferência.
Complementarmente, estudos mais qualitativos — ou ligando o quantitativo e o
qualitativo — têm abordado “ambientes”, “atmosferas” e “cenas” criativas,
nomeadamente no Porto e em Lisboa (cf. Guerra, 2010). Está em causa uma
combinação de técnicas que vão do inquérito por questionário ao focus group,
passando pela observação etnográfica, e o recurso a técnicas de tratamento como
a análise de correspondências múltiplas ou a social network analysis; sendo o
objetivo fundamental a identificação de padrões relacionais de gostos e
fruições em quadros de interação concretos. Quer dizer, a perspetiva de uma
cultura em ação, restituindo culturas urbanas, juvenis, ecléticas, locais e
translocais (cf. Pais e Blass, 2004). Aliás, o marketing territorial vem
estimulando a realização de estudos focados em segmentos específicos de fruição
cultural, associados ou associáveis a “marcas” culturais; o que por sua vez
ajuda ao desenho de estratégias de clusterização que agreguem segmentos da
população, atividades e espaços, a fim de favorecer o jogo entre oferta e
procura artística e cultural (Costa e Lopes, 2010).
Do lado da economia, a análise das políticas culturais considera um conjunto de
variáveis macroeconómicas fundamentais, como são o emprego, o VAB, o PIB, as
exportações, entre outras. Trata-se de uma matéria a que tem sido reconhecida,
nas últimas décadas, grande pertinência e relevância estratégica por diferentes
protagonistas do tecido político e institucional e pelos meios científicos e
técnicos. Contudo, a projeção da avaliação para além dos resultados económicos
diretos da atividade cultural enriquece-a, na medida em que os efeitos
induzidos e os impactos da política cultural nas restantes componentes dos
sistemas do contexto local geram igualmente valor económico. Neste caso, a
análise pode incidir menos em dimensões quantitativas e mais em dimensões
qualitativas, que traduzem os efeitos da política cultural em vários níveis: a
competitividade local, baseada em fatores de diferenciação e atratividade; a
inovação nos sistemas empresarial, tecnológico e organizacional, baseada na
criatividade artística e cultural; ou a internacionalização dos territórios e
das empresas, baseada em ativos, atributos e símbolos culturais.
Procuremos agora sinalizar pistas para a abordagem de resultados mais
globalizantes das políticas culturais. Uma boa chave de integração pode ser a
consciência de que a cultura, enquanto campo e objeto de intervenção política,
representa um domínio de atividade humana em simbiose com o território (o
lugar) em que se instala (cf. Pinto, 1994).
Assim, ao nível intraurbano, sublinham-se as articulações entre a salvaguarda e
valorização do património e a reabilitação e regeneração urbana, bem como o
papel que os artistas e agentes culturais em geral assumem nos processos de
transformação e revitalização de áreas urbanas degradadas, obsoletas ou
abandonadas. Por outro lado, destacam-se os processos de aglomeração e
concentração urbana e espacial de base cultural (incluindo atividades culturais
e atividades relacionadas, como a animação urbana, o entretenimento, a
restauração e o alojamento turísticos), que configuram os já referidos
clusters, quarteirões, bairros e cenas culturais. Impõem-se ainda, como campo
de análise espacial das políticas culturais, os resultados da participação dos
criadores na configuração do desenho, morfologia e estrutura urbanas, e
particularmente na arquitetura e na arte pública.
Ao nível interurbano e territorial, a análise dos resultados das políticas
culturais incidirá particularmente nas interações entre espaços que dispõem da
presença de capital cultural ou de dinâmicas artísticas e culturais
significativas. São igualmente relevantes os efeitos ao nível da aglomeração e
da concentração territorial de atividades culturais e conexas, formando os
distritos e clusters culturais; bem como os efeitos nas dinâmicas de cooperação
e intercâmbio entre diferentes centros urbanos, configurando redes de cidades
de base cultural e redes de atores culturais e artísticos de diferentes
cidades.
Por fim, a análise dos efeitos das políticas culturais em termos de
desenvolvimento local deve integrar as diversas dimensões anteriormente
enunciadas — a cultura, a educação, o tecido social, a economia, o território —
com as esferas organizativas e institucionais. Sobressaem então os efeitos das
políticas culturais sobre as condições de governação, do relacionamento entre
os agentes públicos e privados e das práticas de colaboração, cooperação e
associação em rede entre uns e outros. A consideração destes últimos efeitos
requer a avaliação dos processos de planeamento e formulação de estratégias,
dos processos de tomada de decisão, e dos processos de operacionalização e
implementação de programas e projetos, de promoção pública e privada. É
essencial escrutinar as formas e práticas de participação pública, procurando
perceber também de que modo é que as políticas culturais têm contribuído para
aumentar a capacidade de intervenção dos diversos grupos da população nas
estruturas de governança local.
Conclusão
Os leitores acabaram de tomar contacto com o que não é mais do que um exercício
de método. Parte de duas bases fundamentais e procura cumprir também dois
propósitos centrais.
Uma base teórica: é uma defesa da combinação entre as perspetivas da economia e
da sociologia da cultura. Como logo se viu, a aplicação dessa combinação a
dinâmicas locais fez imediatamente surgir a importância de uma terceira
perspetiva, a geográfica, centrada no território. E uma base empírica: o
conhecimento acumulado em Portugal sobre as políticas culturais locais permite
e pede um esforço de sistematização, capaz de propor linhas de investigação
para futuras pesquisas: isto é, um modelo de análise daquelas políticas.
Um dos propósitos deste artigo é, pois, contribuir para a orientação
metodológica — no sentido preciso da palavra, isto é, articulando teorias e
técnicas a partir do “comando” das primeiras — de estudos de casos e outras
investigações intensivas sobre as políticas culturais locais. Não se trata de
propor um quadro fechado, mas sim um guião, a ser validado e aplicado em função
dos condicionalismos e desenvolvimentos concretos de cada pesquisa. Procurámos
aqui estender ao nível heurístico o “roteiro” específico que já foi defendido,
num plano mais introdutório, para a análise dessas políticas (Silva, 2007).
A investigação não tem de circunscrever-se, entretanto, ao nível estritamente
analítico. Ela pode integrar-se num processo mais geral de formação, realização
e avaliação de políticas concretas, enriquecendo-o com as competências e
saberes próprios de sociólogos, economistas, geógrafos e outros cientistas. Tal
é o segundo propósito do nosso artigo: sugerir que um modelo de análise bem
calibrado é um instrumento útil para o desenvolvimento da política pública.
Uma nota final. Concluída a leitura, perceber-se-á melhor o uso do adjetivo
“locais” para designar as políticas de que tratámos. As políticas autárquicas
constituem certamente uma sua componente principal. Por isso mesmo, o modelo
sugere vivamente que se considere com minúcia a dimensão autárquica e o
contexto e processo político-institucional que a materializa. Mas não fechemos
a investigação nesse nível, por duas razões cumulativas. A primeira é que os
atores realmente envolvidos nas políticas locais transcendem o plano autárquico
— e a valorização específica das questões de governança, a que demos tanto
realce, permite justamente compreendê-lo. A segunda razão é que os processos de
desenho e implementação de polícias culturais territorializadas já hoje não
estão circunscritos às fronteiras concelhias — e estarão cada vez menos no
futuro. As aglomerações supramunicipais, as comunidades intermunicipais, as
redes de equipamentos e atores de âmbito regional (ou de escala ainda mais
larga) e tantas outras formas de parceria constituem campos de análise que não
podem ser esquecidos — e para os quais o modelo heurístico aqui delineado pode
ser útil.
Eis, pois, mais uma ferramenta disponível para investigadores interessados em
estudos intensivos sobre políticas culturais. Como para qualquer outra
ferramenta, o seu valor é instrumental. Esperemos que seja suficientemente
plástica para poder ser usada eficientemente em várias aplicações.