Desigualdades, redistribuição e o impacto do desemprego: tendências recentes e
efeitos da crise económico-financeira
Introdução
O presente artigo procurará desenvolver um exercício de caracterização das
desigualdades em Portugal, dando particular ênfase à distribuição de
rendimentos.[1] A análise que se irá empreender persegue dois objetivos
fundamentais. O primeiro é fazer uma síntese das principais tendências mais
recentes referentes à evolução das desigualdades de rendimento em Portugal e ao
efeito de algumas políticas redistributivas, tendo como referência os países
europeus. O segundo objetivo apresenta um sentido mais exploratório, ao
considerar alguns dos impactos da atual crise económico-financeira sobre os
níveis de desemprego, que aumentaram substancialmente em certos países
europeus. A questão que se pretende desenvolver é a de saber até que ponto se
pode estabelecer uma relação analítica entre as desigualdades, o incremento do
desemprego e a respetiva diminuição da taxa de emprego, que afetou alguns
países europeus. Assim em termos da estrutura do texto, começaremos por
realizar uma breve comparação entre o nível de desigualdade em Portugal, face
ao verificado no universo de países da UE-28, e promover um olhar sobre a
desigualdade salarial no país. Em seguida, a análise recairá sobre a amplitude
relativa da ação redistributiva do estado português em perspetiva comparada. Na
última parte apresentar-se-á a análise exploratória, tendo em conta o aumento
do desemprego e a eventual associação com o nível das desigualdades de
rendimento nos países europeus.
Enquadramento teórico: desigualdades e redistribuição
As desigualdades são por natureza multidimensionais, não se circunscrevem
apenas a um setor da sociedade (educação, saúde, economia, comunidade…), nem a
um único recurso (riqueza, cultura, títulos…), nem sequer a uma única variável
(rendimento, escolaridade, idade, género, região…). Por sua vez, estas
variáveis têm um caráter potencialmente sistémico e relacional no que diz
respeito às causas e aos seus efeitos (Costa, 2012). A este respeito, a obra
The Spirit Level (Wilkinson e Pickett, 2010) propõe uma perspetiva sistémica
das desigualdades, ao estabelecer uma relação analítica entre a distribuição de
rendimentos e um conjunto diferenciado de variáveis dependentes, designadamente
o nível de confiança, a esperança de vida, a mortalidade infantil, a saúde e a
obesidade, a performance educativa das crianças, os homicídios, etc.
Embora se estabeleçam nessa obra correlações apreciáveis entre um conjunto
diversificado de variáveis e a desigualdade na distribuição do rendimento, não
é explicado o modo como as sociedades produzem mecanismos estruturais geradores
de desigualdade. Diversos autores, como Charles Tilly (2005), propõem uma
leitura sistémica sobre os mecanismos geradores de desigualdade que, segundo
este autor, são fundamentalmente três: exploração, fechamento e seleção-
distribuição.
O conceito de exploração tem sido desenvolvido pela análise marxista das
desigualdades de classe e, no entender de E. O. Wrigth, significa “[…] um
processo em que um grupo tem a capacidade de se apropriar de parte da mais-
valia social produzida por outro grupo” (1994: 25).
Por sua vez, a análise dos processos defechamentoé influenciada pelos
contributos de M. Weber (1989 [1922]) ou de F. Parkin (1971). Esses processos
podem ser definidos como estratégias para dominar determinados recursos, pelos
quais os diversos grupos sociais concorrem entre si, de modo a beneficiarem ao
máximo os seus interesses e provocarem a exclusão desses recursos a conjuntos
mais ou menos vastos de pessoas e grupos sociais menos favorecidos.
Se não forem contrariados por políticas públicas eficientes, os processos
geradores de desigualdade não só tendem a persistir ao longo do tempo, como
exercem um efeito reprodutor entre as várias gerações. Na verdade, como
demonstraram P. Bourdieu e J.-C. Passeron (1970) no seu estudo precursor sobre
a reprodução social, muitas das condições socioeconómicas e socioculturais são,
em termos sociais, parcialmente herdadas, e afetam as oportunidades e
expectativas de vida dos indivíduos, que se jogam em diversos setores da vida
social e económica. Segundo estes autores, estabelece-se uma relação entre o
nível de desigualdade social de partida e a real possibilidade de ascensão
social (oportunidades). Assim, quanto menor for o grau de interferência dos
fatores herdados no conteúdo e no mecanismo desta relação, maiores serão as
reais possibilidades de os indivíduos se apropriarem das melhores oportunidades
de vida (cf. Carmo, 2012). Para tal, é fundamental as sociedades e as economias
promoverem e facilitarem o acesso a um conjunto diferenciado de sistemas e
serviços públicos(educação, saúde, justiça, segurança social, etc.).
É nesta linha que se pode enquadrar o terceiro tipo de mecanismo, que remete
para os processos que levam a um maior ou menor nível de equidade social. John
Rawls (2001 [1971]) é o autor de referência sobre as questões de equidade e
justiça social. Na sua obra Uma Teoria da Justiça, este autor desenvolve a sua
análise sobre o designado princípio da diferença, que diz respeito aos
mecanismos de equidade distributiva dos “bens primários” (rendimento, acesso à
educação, saúde, liberdade, oportunidades etc.). Na sua conceção geral, este
princípio defende que os bens primários devem ser distribuídos de forma
igualitária, a não ser que a sua distribuição mais desigual implique vantagens
para os mais desfavorecidos. Nesta aceção, a distribuição justa destes bens
garante aos membros menos favorecidos da sociedade a melhoria das suas
condições de existência, através de modelos institucionais de proteção social e
de redistribuição.
Independentemente do modelo institucional, o estado social é constituído por
sistemas tão diferenciados como a educação, a saúde, a segurança e proteção
social, entre outros, que têm como lógica para o seu funcionamento o incremento
da desmercadorização. Este conceito proposto por Esping-Andersen (1990)
significa, em termos gerais, a capacidade de proteger as pessoas e os grupos
mais vulneráveis das incertezas e dos imponderáveis gerados pelos mercados.
Neste sentido, as políticas sociais e de redistribuição, que emanam dos vários
setores do estado social, têm como objetivo primordial a redução das
desigualdades económicas e sociais e o consequente alargamento e aprofundamento
das oportunidades de vida.
Tendo em conta os pressupostos teóricos brevemente enunciados, as desigualdades
podem definir-se como “sistemas de diferenças que se traduzem em desvantagens
duradouras e penalizadoras de indivíduos e grupos e que são geradas, mantidas e
reproduzidas — independentemente de méritos ou deméritos individuais — através
de diversos mecanismos identificáveis nas sociedades” (Almeida, 2012: 25).
A desigualdade de rendimento é uma das manifestações mais pungentes desse
sistema de diferenças e desvantagens, assumindo-se ao mesmo tempo como um
fenómeno produzido por um conjunto alargado de situações e posições de
assimetria social, mas também como um recurso pelo qual esse sistema de
desigualdades tende a reproduzir-se. A distribuição do rendimento é, na
verdade, um elemento decisivo na definição das condições de vida das
populações, nomeadamente dos grupos que ocupam a base da distribuição
(Rodrigues, Figueiras e Junqueira, 2012). Desigualdade e pobreza são fenómenos
analiticamente autónomos, mas empiricamente relacionados. As desigualdades de
recursos económicos estão, neste sentido, associadas a desigualdades de
condições de vida e de oportunidades.
O nível de desigualdade económica de um país não é, por isso, uma variável
social e politicamente inócua. Um dos aspetos fundamentais para se
problematizar o fenómeno das desigualdades económicas prende-se com a análise
da redistribuição do rendimento levada a cabo pelo estado. Até que ponto o
estado consegue, por via das transferências sociais, dos impostos, e da
prestação de serviços, mitigar a amplitude das desigualdades económicas geradas
no mercado de trabalho?
A pertinência analítica destas questões é reforçada tendo em conta o atual
contexto de crise económico-financeira que se vive em Portugal e em muitos
países europeus. Daí que se torne relevante perceber quais os fatores que podem
contribuir para o aumento ou a persistência das desigualdades, pressionando
ainda mais a capacidade dos sistemas públicos de proteção e redistribuição em
responderem adequadamente às consequências sociais da crise. A este respeito,
considera-se que o profundo agravamento do desemprego, ocorrido nos últimos
anos, poderá estar a causar uma reconfiguração nos mecanismos de produção de
desigualdade, transformando-se numa variável estrutural que deverá ser
devidamente contemplada nas análises sociológicas.
Portugal: um país desigual e de baixos rendimentos
Portugal é, no universo de países da UE-28, um país de baixos rendimentos. Em
2012, o rendimento médio disponível por adulto equivalente[2] em Portugal era
9897 euros, muito inferior ao verificado em termos médios nos países da UE
(17.617 euros), cerca de 1/4 do verificado no Luxemburgo (38.442 euros) e de 1/
3 do apurado na Dinamarca (29.438 euros) e na Suécia (28.074 euros), e menos de
metade dos valores apresentados em países como a Finlândia (25.901 euros), a
França (24.773 euros), a Áustria (24.366 euros), a Bélgica (23.279 euros), a
Holanda (23.125 euros), ou a Alemanha (22.471 euros). O fosso face a estes
países é também enorme quando se analisa o rendimento mediano disponível, que
em Portugal se fixou em 8170 euros (o mais baixo do conjunto de países da UE-
15), enquanto a média da UE-28 foi de 15.382 euros.
Mas não só o rendimento médio e mediano de Portugal é comparativamente baixo,
no universo de países mencionado, como a sua distribuição é internamente
desigual. Portugal era, em 2012, o quinto país da UE que registava o valor mais
elevado para o coeficiente de Gini.[3] Isto demonstra que, do ponto de vista
comparativo, Portugal apresenta assimetrias económicas internas profundas. Este
valor estatístico de síntese é, no entanto, pouco inteligível ou pelo menos a
leitura da sua grandeza numérica não corresponde a uma evidência de
desigualdade facilmente apreensível. Tal não acontece quando se comparam shares
de rendimento, ou seja, porções desse recurso económico detidas por grupos da
população. O rendimento por adulto equivalente dos 10% mais ricos em Portugal
era, em 2012, 10,6 vezes superior ao auferido pelos 10% mais pobres, enquanto o
dos 20% mais ricos era 6,0 vezes superior ao dos 20% mais pobres. A Bulgária, a
Letónia, a Lituânia, a Grécia, a Roménia e a Espanha são os países da UE que
apresentam para estas duas medidas níveis de desigualdade superiores ou
próximos aos de Portugal. O registo do país situa-se, contudo, acima da média
da União e bastante distante dos resultados de países mais igualitários, como a
Eslováquia, a Eslovénia, a República Checa, a Suécia, a Holanda ou a Finlândia.
Apesar de o seu valor ser comparativamente elevado ao longo do período de 2003-
2012, as desigualdades de rendimento em Portugal conheceram variações
importantes na sua amplitude. Veja-se que, em 2004, o valor do coeficiente de
Gini era cerca de quatro pontos superior ao verificado em 2012 e as diferenças
entre a porção do rendimento detido pelo decil e pelo quintil do topo face aos
respetivos quantis da base da distribuição eram também significativamente mais
vincadas naquele ano do que neste. Apesar desta evidência, importa detalhar a
análise, pois o aumento da dimensão das desigualdades entre estes extremos da
baliza temporal em causa não obedeceu a uma evolução linear. Entre 2004 e 2009
houve uma diminuição continuada das desigualdades de rendimento no país. De
2009 para 2010 essa dinâmica estagnou e conheceu mesmo uma pequena inversão (no
caso do coeficiente de Gini e do rácio S90/S10), tendência que se confirmou e
aprofundou em 2011 e 2012 — nomeadamente no caso das medidas de desigualdade
S90/S10 e S80/S20.
O rendimento é um conceito estatístico que integra vários tipos de rendimentos,
o mais importante dos quais são os salários. De acordo com Brandolini, Rosolia
e Torrini (2011), Portugal era em 2006 o país da UE que registava maiores
desigualdades salariais, com um coeficiente de Gini estimado em cerca de 41,4%.
[4] Isto significa que o mercado de trabalho em Portugal tem sido um gerador de
desigualdades económicas. Uma das principais conclusões do importante estudo de
Carlos Farinha Rodrigues, Rita Figueiras e Vítor Junqueira (2012), Desigualdade
Económica em Portugal, é que, enquanto as desigualdades de rendimento em
Portugal tenderam a diminuir nas últimas décadas (devido à ação redistributiva
do estado), a distribuição dos ganhos salariais tornou-se mais assimétrica. Em
1985 o ganho mensal[5] dos 20% mais bem pagos era 3,9 vezes superior aos dos
20% com salários mais baixos, tendo esse valor aumentado em 2009 para 4,8
vezes. Se compararmos a porção do ganho mensal recebido pelos 10% mais bem
pagos face ao dos 10% com vencimentos mais baixos, essa evolução foi de 5,8
vezes para 6,7 vezes (ibid.: 79). Embora a porção dos ganhos auferidos pelos
trabalhadores que ocupam a base da distribuição tenha conhecido uma ligeira
subida no período analisado pelos autores, o aumento do valor destas medidas de
desigualdade deveu-se essencialmente ao alargamento da porção dos ganhos
auferidos pelo decil do topo da distribuição. Se em 1985 os 10% com vencimentos
mais altos em Portugal auferiam 24% dos ganhos totais, em 2009 esse valor
aumentou para 29,8%. Se considerarmos os 5% mais bem remunerados, essa evolução
foi de 14,7% para 19,3%, e no caso dos 1% mais bem pagos de 4,59% para 6,64%
(ibid.: 97).
O nível de habilitações escolares da população trabalhadora é uma variável
estruturante das desigualdades salariais (e de rendimento) em Portugal.
Existem, de facto, diferenças assinaláveis no volume salarial da população
trabalhadora de acordo com esta variável. Enquanto a média mensal de ganhos
salariais brutos em Portugal foi de 1034 euros, esse montante para os
trabalhadores que concluíram o ensino superior foi de 1938 euros. Este é um
valor destacadamente acima do apurado para os demais níveis de escolaridade:
1094 euros para os trabalhadores que concluíram o ensino secundário e 787 entre
os que não foram além do 9.º ano. Muito embora a diferença salarial entre os
trabalhadores com o ensino superior concluído tenha diminuído entre 1994 e 2009
face ao ganho médio (de 2,6 vezes superior para 1,9), tal deve-se “ao acréscimo
da dispersão salarial a que também se assiste ao longo do período para este
mesmo grupo” (ibid.: 150). Ou seja, as desigualdades internas no seio deste
grupo acentuaram-se no período em causa. Embora não defina qual a posição
relativa a ocupar no quintil do topo da distribuição salarial, o ensino
superior é um recurso fundamental para se aceder a essa categoria económica.
Veja-se que, em 2009, cerca de 60% dos trabalhadores que tinham concluído o
ensino superior faziam parte do grupo dos 20% mais bem remunerados em Portugal,
enquanto apenas 8,7% dos que tinham concluído um nível básico de ensino e 3,0%
dos que não tinham qualquer nível de ensino integravam essa mesma categoria.
Inversamente, apenas 2,4% dos trabalhadores com o ensino superior se situavam
entre o grupo dos 20% com salários mais baixos, enquanto 26,4% dos que tinham
um nível básico de ensino e 37,7% dos que não tinham qualquer nível de ensino
integravam esse grupo.[6]
Estes dados vêm ao encontro das conclusões avançadas pelo Education at a Glance
2013 (OECD, 2013), relatório segundo o qual Portugal é um dos países da OCDE em
que o prémio da conclusão do ensino superior é comparativamente mais elevado.
No ano de 2010, a população residente em Portugal que concluiu o ensino
superior auferia uma remuneração do trabalho 69,7% superior à auferida por quem
concluiu no máximo o ensino secundário ou pós-secundário não superior. Em
termos médios, esse valor é de 57,2% para o conjunto de países da OCDE. Por
outro lado, a penalização remuneratória de quem não foi além do 9.º ano é
também das mais expressivas: a remuneração do grupo com essa escolaridade
representa apenas 69,3% da auferida pelos trabalhadores com formação escolar
intermédia (média de 76,2% nos países da OCDE).
Apesar de a escolaridade ter uma relação positiva com o nível de rendimento e
salarial, o aumento das desigualdades económicas em Portugal nas últimas
décadas deveu-se em grande medida a um aprofundamento bastante expressivo da
concentração do rendimento nos grupos que formam o “topo do topo” da
distribuição do rendimento. Muito embora a maioria dos elementos que formam
essa elite económica tenha habilitações escolares de nível superior, o fenómeno
do aumento da concentração dos rendimentos nesses grupos da população é mais
complexo e relativamente independente dessa variável. Quando se analisam apenas
os rendimentos salariais, verifica-se que os indivíduos que ocupam o percentil
do topo da distribuição tendem a inserir-se em tipos específicos de ocupação,
em particular no grupo dos diretores de empresas (Cantante, 2014). Constata-se
também que grupos profissionais como os pilotos de aviões ou os controladores
de tráfego aéreo apresentam elevadas taxas de participação nesse percentil
(Cantante, 2013).
Portugal é, portanto, um país onde os rendimentos médios e medianos são
comparativamente baixos e no qual as desigualdades económicas internas têm uma
dimensão elevada. Como se mencionou, as dinâmicas remuneratórias associadas ao
funcionamento do mercado de trabalho e à premiação das habilitações escolares
têm induzido um aumento das desigualdades económicas em Portugal nas últimas
décadas, um afastamento entre o topo e a base da distribuição. Procurar-se-á na
secção seguinte analisar, em perspetiva comparada, os efeitos que as políticas
redistributivas do estado têm tido na mitigação deste processo.
A redistribuição do rendimento: que efeitos?
Na secção anterior demonstrou-se que o mercado de trabalho tem sido um motor de
aumento das desigualdades económicas em Portugal. Contudo, a análise das
desigualdades de rendimento familiar tem normalmente como referente económico
empírico os recursos monetários dos agregados domésticos após serem realizadas
as transferências sociais para as famílias e deduzida a quantia paga em
impostos. Ou seja, o rendimento disponível. O impacto das transferências
sociais na diminuição das desigualdades será tanto maior quanto mais eficaz e
eficiente for o processo de redistribuição monetária entre os que detêm
rendimentos de mercado mais elevados e os que os detêm mais baixos. Por seu
lado, o impacto dos impostos na mitigação das desigualdades de rendimento
depende não só da dimensão da carga tributária, mas também da sua
progressividade.
As políticas redistributivas levadas a cabo em Portugal permitiram diminuir em
quase 10 pontos percentuais (cerca de 22%) as desigualdades económicas internas
no final da primeira década de 2000, resultado abaixo do verificado em termos
médios no conjunto de países da União Europeia e da OCDE (Rodrigues, Figueiras
e Junqueira, 2012; Joumard, Pisu e Bloch, 2012). Em relação ao impacto das
transferências sociais, Rodrigues, Figueiras e Junqueira referem que “Portugal
apresenta uma das proporções mais baixas de prestações sociais para o primeiro
quintil da distribuição do rendimento” (ibid.: 179), enquanto Joumard, Pisu e
Bloch (ibid.: 10) concluem que a explicação para o reduzido impacto das
transferências monetárias em Portugal reside na progressividade
comparativamente baixa das mesmas. Segundo Carlos Farinha Rodrigues “não temos
tido em Portugal políticas efetivas de combate às desigualdades. Nos últimos
anos são raras as políticas que tenham sido concebidas e aplicadas para reduzir
as desigualdades. Há como que um alheamento político face a este problema. O
que aconteceu em Portugal, e que é muito significativo, é que até 2009 tivemos
políticas de combate à pobreza e à exclusão social que tiveram impactos
positivos, no sentido em que permitiram alguma redução da desigualdade
económica. Eu costumo utilizar muito a expressão, ‘o combate à desigualdade em
Portugal foi à boleia das políticas sociais de combate à pobreza’”.[7]
Tal como os autores citados, Nuno Alves (2012) conclui que o impacto das
transferências monetárias em Portugal na diminuição das desigualdades é
comparativamente baixo (no universo da UE-27). Contudo, defende que o país é um
dos estados-membros da União Europeia em que as “prestações sociais em dinheiro
são mais progressivas” (ibid.: 50), isto é, direcionadas para as populações dos
quintis inferiores da distribuição do rendimento. Neste sentido, o baixo
impacto das transferências monetárias deve-se ao facto de o volume de despesas
neste tipo de prestações ser relativamente diminuto: representava, em 2009,
cerca de 5,8% do rendimento base dos agregados domésticos, contra 8,7% nos
países da UE-27 (id., ibid.: 51). Segundo este autor, embora estas prestações
(excetuando as pensões) sejam eficientes, no sentido em que são orientadas
principalmente para os grupos mais pobres da população, elas acabam por ter um
impacto abaixo do observado nos países da União devido à sua dimensão ser
comparativamente diminuta. O contraste entre esta conclusão e a veiculada por
Joumard, Pisu e Bloch (2012) dever-se-á aos pressupostos metodológicos que
enformam a construção dos conceitos de rendimento, ou seja, aos tipos de
rendimento que são tidos em consideração na análise dos processos de
redistribuição. Enquanto Nuno Alves conceptualiza as pensões de reforma como
rendimento não redistributivo, isto é, como um recurso económico anterior à
ação redistributiva do estado integrado no “rendimento base”, o estudo dos
outros autores inclui esse tipo de rendimento no processo redistributivo. A
discrepância de resultados que aparentemente decorre desta opção metodológica
parece indicar que as pensões de reforma tendem a ser pouco eficientes na
redistribuição do rendimento.
Em relação aos impactos redistributivos dos impostos e das contribuições para a
Segurança Social, Rodrigues, Figueiras e Junqueira (2012: 172) constatam que a
política fiscal em Portugal permite diminuir em 11% o valor do coeficiente de
Gini. Segundo Nuno Alves (2012), o efeito redistributivo dos impostos é mais
elevado em Portugal do que na média da UE-27, concluindo que enquanto neste
país os dois decis do topo da distribuição pagam 61,2% do total dos impostos
sobre os rendimentos singulares, o valor médio desse indicador nos países da
UE-27 é de 51,9%: “A elevada fração do total de impostos sobre o rendimento
paga pelos decis de rendimento mais elevados em Portugal — um dos máximos na
União Europeia — resulta essencialmente da elevada desigualdade na distribuição
do rendimento bruto em Portugal, dado que as taxas médias de imposto nos decis
de rendimento mais elevado não diferem substancialmente da média europeia”
(Alves, 2012: 56).
A análise das transferências monetárias para as famílias e nos impostos diretos
retrata apenas uma parte dos efeitos redistributivos da ação do estado. É, no
fundo, um olhar sobre a redistribuição monetária dos recursos económicos da
população de um dado país. Mas o estado diminui também as desigualdades
económicas através da prestação de serviços públicos à população. Como esses
serviços públicos têm um valor monetário, no sentido em que o seu usufruto
implica despesa económica, a sua prestação pelo estado significa um acréscimo
virtual de rendimento para as famílias. De acordo com um estudo da OCDE (OECD,
2011), as prestações nas áreas da saúde, educação, habitação social e nos
cuidados a crianças e idosos significaram, no ano de 2007, um aumento médio do
rendimento disponível das famílias em Portugal de 28,6%, valor semelhante ao
estimado para os países da organização. As prestações nas áreas da saúde e da
educação são as que têm um maior peso. Em Portugal estima-se que esse efeito
foi de 16% e 11%, respetivamente — acima dos valores médios para os países da
OCDE (13,9% e 11,8%). O aumento do rendimento monetário decorrente deste tipo
de prestações não assume o mesmo peso relativo ao longo da estrutura de
distribuição dos rendimentos monetários. As famílias que ocupam a base dessa
distribuição são as que mais beneficiam das prestações em espécie (não
monetárias) dos serviços públicos. Estima-se que em Portugal as prestações na
área da saúde tenham implicado um aumento do rendimento monetário do quintil da
base (20% mais pobres) na ordem dos 50%, de 28% no caso dos rendimentos dos
agregados domésticos do 2.º quintil, de 20% do rendimento dos agregados que
ocupam o 3.º quintil, de 14% dos que se situam no 4.º quintil e de 7% do
quintil do topo. No caso das prestações na área da educação, esse aumento foi
de 35%, 20%, 15%, 9% e 5%, respetivamente. A grandeza deste efeito é mais
pronunciada em Portugal do que nos países da OCDE, nomeadamente nos dois
quintis da base da distribuição dos rendimentos.
De acordo com as estimativas deste estudo, a inclusão do valor monetário dos
serviços públicos na análise da distribuição do rendimento tem um impacto
importante na diminuição da amplitude das desigualdades económicas. Em
Portugal, o valor do coeficiente de Gini decresce 21% (semelhante à média da
OCDE) e a desigualdade entre o rendimento dos 20% mais ricos em relação ao dos
20% mais pobres (rácio S80/S20) diminui 36% (sete pontos percentuais acima
dessa média). Apesar de este tipo de dados não ter em linha de conta as
diferenças existentes entre os países no que diz respeito ao nível de
qualidade, eficácia e eficiência na provisão dos serviços públicos, eles são
sem dúvida indicadores relevantes para a análise do papel dos estados na
redistribuição dos recursos económicos e na melhoria das condições de vida das
populações. De facto, as despesas dos países da OCDE em prestações de serviços
públicos em áreas como a saúde e a educação representavam, em 2007, cerca de
13% do seu PIB — mais do que os 11% canalizados para as transferências em
dinheiro para as famílias.
Desemprego e desigualdade: o incremento de uma relação?
O expressivo aumento do desemprego, que se verifica em muitos países europeus
depois da crise financeira de 2008 e que atinge principalmente os países do Sul
da Europa, está a produzir profundas consequências económicas e sociais cada
vez mais visíveis e traduzidas em múltiplos indicadores estatísticos. Através
da análise da evolução das taxas de desemprego e de emprego é possível
identificar algumas tendências bem vincadas.[8]
Em 2012 a taxa de desemprego anual atingiu os 24,9% em Espanha, 24,7% na Grécia
e 16,3% em Portugal — cifrando-se nos 10,5% no que diz respeito à média da
União Europeia (27 países). Todavia esta média encobre situações muito
díspares, na medida em que, noutros países, situados no Centro e no Norte de
Europa, os níveis de desemprego apresentam taxas consideravelmente mais baixas:
3,2% na Noruega, 4,3% na Suíça, 4,4% na Áustria, 5,3% na Holanda, ou 5,6% na
Alemanha. Esta distância — que se agrava em 2013[9] — é reveladora de uma
Europa cada vez mais distinta no seu interior, em termos das respetivas
condições e oportunidades sociais.
Esta realidade pode ser melhor demonstrada através da análise da evolução das
taxas de emprego e da consequente destruição de postos de trabalho que tem
acontecido, principalmente, nos países do Sul. A título de exemplo, verificava-
se, em 2005, uma taxa de emprego para a população com idade entre os 15 e os 64
anos na Alemanha na ordem dos 65,5%, aumentando para 70,1% em 2008 e para 72,8%
em 2012. Em sentido contrário, Portugal, que tinha em 2005 uma taxa de emprego
superior à alemã (67,3%), vê aumentar ligeiramente a taxa até 2008 (68,0%), ano
em que esta atinge o pico, vindo, posteriormente, a decair significativamente
até 2012 (61,4%). Ou seja, se tanto em 2005 como em 2008, Portugal apresentava
uma das taxas de emprego mais altas de União Europeia, entre este último ano e
2012 assiste-se a uma redução de quase sete pontos percentuais, passando a
situar-se abaixo da média europeia (64,2%).
Desde, pelo menos, os anos de 1990 que Portugal vinha mantendo o padrão de ser
um dos estados-membros da UE com taxas de emprego mais elevadas, situação que o
distinguia de países como a Grécia e a Espanha. A título ilustrativo, em 1992
esta taxa era superior a 66% em Portugal, enquanto na Grécia e em Espanha os
valores situavam-se em cerca de 54% e 49%, respetivamente.
Até 2005 esta situação altera-se significativamente para a Espanha e a Grécia,
que atingem taxas de emprego de 63,6% e 59,6%, respetivamente, embora mantendo-
se abaixo da média da UE (tanto a 27 como a 15 países). Tal como em Portugal,
os valores ainda sobem até 2008, ano a partir do qual se dá um verdadeiro recuo
nesta taxa para ambos os países: em 2012 essa taxa era de 55,8% em Espanha e
50,8% na Grécia. Ou seja, decresceu cerca de oito pontos percentuais no
primeiro país e nove pontos no segundo.
O efeito da Grande Recessão, que alastrou desde os finais de 2007 por vários
países do mundo ocidental, acabou por se transmutar na Europa para a designada
crise das dívidas soberanas que se abateu principalmente sobre os países do Sul
da Europa e a Irlanda, mas que não se cingiu somente à periferia europeia,
afetando, embora em menor escala, alguns países do centro da Europa, como a
França e a Bélgica, entre outros. No caso dos países intervencionados por
programas de ajustamento, a partir de 2010, ao efeito da crise veio-se a somar
um conjunto de medidas de austeridade, cujo impacto social e económico tem sido
considerável.
Não é objetivo deste artigo fazer uma análise detalhada sobre as consequências
da crise e das políticas de austeridade nos níveis de coesão social verificados
entre os diferentes países europeus. De qualquer modo, dada a evolução descrita
no que diz respeito às taxas de emprego e de desemprego, pensamos que seria
interessante efetuar uma análise exploratória sobre a relação que se poderá
estar a produzir entre o aumento do desemprego e o incremento, ou a
persistência, das desigualdades de rendimento nos países europeus.
Tradicionalmente os indicadores relacionados com o desemprego são vistos como
conjunturais, sendo um efeito, mais ou menos direto, dos ciclos de crescimento,
estagnação ou recessão económica. No entanto, com a atual crise e os efeitos
devastadores que provocou, o desemprego está a transformar-se numa variável
estrutural que, para além de representar por si só um grave problema social,
pode estar a induzir novas relações com outras dimensões sociais e económicas,
designadamente com a pobreza e a desigualdade.
O desemprego representa uma situação de redução de rendimento disponível dos
indivíduos e respetivos agregados familiares. O montante auferido por via do
subsídio de desemprego não garante na maior parte dos casos uma substituição
completa do rendimento que provinha da remuneração salarial. Este dado, que é
particularmente notório em Portugal, significa logo à partida uma diminuição do
rendimento. Por sua vez, a perda do subsídio de desemprego (decorrente do
desemprego de longa duração),[10] mas também as dificuldades de acesso a essa
prestação (associadas à precariedade laboral experimentada por uma parte da
população trabalhadora, principalmente dos mais jovens) podem estar a
contribuir para a dilatação das disparidades de rendimento (Silva e Pereira,
2012).
Contudo, como se disse anteriormente, trata-se de uma hipótese exploratória,
mas que pode ser devidamente ilustrada a partir de um exercício analítico no
qual se pretende, antes de tudo, revelar que estaremos provavelmente a assistir
à transformação do desempego numa variável capaz de influenciar, de forma mais
estrutural, a evolução de outras variáveis, com é o caso da desigualdade de
rendimento.
Tendo como referência a análise desenvolvida por Wilkinson e Pickett (2010) no
seu famoso livro, O Espírito da Igualdade, iremos realizar uma regressão
simples entre duas variáveis (a taxa de desemprego e o rácio de rendimento S80/
S20) para dois anos distintos: 2005 e 2012 (o primeiro é anterior à atual crise
económico-financeira e o segundo já representa um ano em plena crise).[11]
Como se pode observar na figura_3, em 2005 a correlação entre o nível de
desemprego dos países e as desigualdades de rendimento (medidas pelo rácio S80/
S20) é praticamente inexistente. Ou seja, de uma maneira geral, podemos dizer
que o desemprego e a desigualdade eram fenómenos relativamente autónomos, não
se depreendendo qualquer relação entre eles. De facto, tradicionalmente na
análise das desigualdades sociais, mesmo naquelas que enfatizam o seu caráter
multidimensional (Therborn, 2006; Bihr e Pfefferkorn, 2008), o desemprego não
emerge como variável a ter em conta, ao contrário de outras que remetem
claramente para essa relação, como é o caso do género, do nível de
escolaridade, da etnia, da classe social, etc. Os níveis comparativamente
baixos de desemprego e/ou a elevada eficácia dos sistemas de proteção social
terão funcionado como fatores preventores da associação entre o desemprego e as
desigualdades económicas.
O aumento galopante do desempego e, em países como Portugal, do desemprego
desprotegido alterou profundamente a realidade social e económica. Essas
tendências, verificadas principalmente nos países do Sul (Espanha, Grécia,
Portugal) e também do Leste europeu (Letónia, Lituânia e Bulgária) podem estar
a produzir um incremento das desigualdades sociais. A configuração da figura_4,
na qual se apresenta a mesma regressão mas com indicadores referentes ao ano de
2012, aponta nesse sentido, ao identificar uma correlação relevante entre as
variáveis em causa.
A reconfiguração da posição dos países face à reta da regressão, leva-nos
concluir, embora sublinhando as devidas cautelas, que não só o desemprego tende
a ser uma dimensão cada vez mais relacionada com as desigualdades, como esta
relação é muito diferenciada entre os países europeus. Isto é, interpretando a
figura, parecem vislumbrar-se duas “Europas” distintas: a Europa do Norte e do
Centro, onde o desemprego tende a ser mais baixo assim como o nível das
desigualdades de rendimento, e a Europa do Sul, que se estende a alguns países
do Leste, onde, pelo contrário, se observa um incremento da associação entre a
desigualdade económica e o agravamento do desemprego. Na verdade, para além dos
indicadores económico-financeiros, é também por aqui que emerge uma Europa a,
pelo menos, duas velocidades.
Notas conclusivas
A sociedade portuguesa é uma das mais desiguais da União Europeia ao nível da
distribuição do rendimento disponível. As políticas de redistribuição monetária
têm representado um esforço relevante e relativamente efetivo para a diminuição
dos níveis de desigualdade económica. Políticas públicas como o rendimento
social de inserção ou o complemento solidário para idosos permitiram elevar os
recursos económicos dos indivíduos e famílias mais pobres — e, por essa via,
contribuíram para diminuir as disparidades económicas. Contudo, o cariz
estrutural e persistente das desigualdades económicas na sociedade portuguesa,
fenómeno imbricado com a desigualdade de recursos escolares e qualificacionais,
tem funcionado como um fator de pressão sobre a ação redistributiva do estado,
de tendencial polarização das condições de vida e de entrave às possibilidades
de mobilidade social de boa parte da população portuguesa.
A este padrão de desigualdade persistente na sociedade portuguesa vêm somar-se
outros mecanismos, ainda difíceis de discernir de forma pormenorizada, que
derivam da profunda crise económico-financeira que atualmente se abate sobre
Portugal e parte da Europa. Como foi ilustrado, por intermédio de uma análise
de regressões simples, o desemprego pode estar a transformar-se numa variável
estrutural que afeta outras dimensões económicas e sociais, como é o caso das
desigualdades de rendimento. Na verdade, algo de muito particular está a
acontecer na Europa, que se repercute na reconfiguração dos processos habituais
de produção de desigualdades e que pressiona decisivamente os sistemas vigentes
de proteção social e de redistribuição. Os dados disponíveis ainda não nos
podem dizer muito mais, mas trata-se de uma problemática fundamental para o
futuro do nosso país (e também da Europa), que carece a prazo de análises mais
robustas e aprofundadas.