Registos do Ator Plural: Bernard Lahire na Sociologia Portuguesa
Registos do Ator Plural. Bernard Lahire na Sociologia Portuguesa [João Teixeira
Lopes (org.), 2012, Porto, Edições Afrontamento]
Nuno Nunes*
*Investigador do CIES-IUL, Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL) E-
mail: nuno.nunes@iscte.pt
A obra coletiva Registos do Ator Plural. Bernard Lahire na Sociologia
Portuguesa, sob a organização de João Teixeira Lopes, constitui um oportuno
contributo para o desenvolvimento da problemática das desigualdades sociais nas
sociedades contemporâneas. Bernard Lahire é hoje uma referência sociológica
central na reflexão sobre o social à escala individual, mais concretamente no
estudo dos processos de socialização e de constituição das disposições sociais,
em sociedades marcadas pela diferenciação, diversidade contextual e desiguais
constrangimentos e possibilidades. É no estado incorporado e das variações
intraindividuais e interindividuais dos comportamentos culturais e sociais que
as desigualdades sociais são por Lahire problematizadas, (con)substanciadas nos
modos de cada indivíduo se pensar a si mesmo, tendo por referência as suas
circunstâncias sociais, desigualdades objetivas modeladoras (cri)ativas
desingularidades individuais que permitem entender a forma como estas se
apropriam das múltiplas realidades que compõem o mundo social dos agentes.
Longe do modelo das identidades pós-modernas, as biografias tornam-se, então,
cada vez mais complexas, atuando (pluralmente) dentro de um campo finito de
possibilidades, como diria Gilberto Velho.
A relevância de Bernard Lahire nas ciências sociais recobre os domínios da
epistemologia, da teoria e da metodologia. No seu trabalho científico, Lahire
não dissocia a atenção epistemológica quanto ao ofício de sociólogo e aos seus
instrumentos de investigação, e a procura de perspetivas teóricas avançadas,
sustentadas empiricamente.
O seu posicionamento de extensão e reelaboração do fundamental legado
conceptual de Pierre Bourdieu está a fazer nascer novas possibilidades de
análise sociológica, sistematizando o mais possível os conceitos de habitus, de
transmissibilidade das disposições, de homologias e de herança cultural. Lahire
constrói um modelo teórico que permite pensar a ação e o ator entre disposições
heterogéneas e contextos variáveis, observando as práticas no âmbito de uma
sociologia da pluralidade disposicional e contextual, com lugar para as
relações intersubjetivas, para os domínios de atividade e para as próprias
situações de interação, ativando ou enfraquecendo disposições diferentemente
constituídas e com graus desiguais de robustez, que, combinando-se com
apetências, crenças, cálculos e estratégias, compõem a vida quotidiana
fortemente marcada por conflitos estruturais.
As diferentes escalas de observação do social enriquecem o trabalho sociológico
na análise dos problemas em estudo. A biografia sociológica é o instrumento
central das propostas de Bernard Lahire, a que melhor permite reconstituir os
diferentes quadros de socialização dos agentes e as diferentes experiências por
que estes passam. Como refere Sandra Lima Coelho, uma das coautoras do livro
que aqui se apresenta, a grande inovação que ilustra o contributo de Bernard
Lahire “consiste numa mudança, precisamente, ao nível do objeto de estudo: o
seu desígnio passa por analisar indivíduos singulares, apoiado
metodologicamente na técnica dos retratos sociológicos, construídos com base em
entrevistas aprofundadas, retendo, deste modo, as matrizes incrustadas em cada
indivíduo enquanto produto de experiências de socialização passadas” (p. 94). E
neste livro a metodologia dos “retratos sociológicos” constitui a principal
ferramenta de compreensão das disposições sociais em múltiplas esferas da vida
social.
O livro Registos do Ator Plural. Bernard Lahire na Sociologia Portuguesa é
composto por cinco capítulos, antecedidos de um prefácio da autoria do próprio
Bernard Lahire, e por uma breve introdução ao livro por parte de João Teixeira
Lopes, o organizador da obra. O principal objetivo do livro é resgatar uma
série de contributos alicerçados em pesquisas empíricas elaboradas em Portugal
a partir da sociologia de Lahire, desafiando a heuristicidade da rede de
conceitos do programa de pesquisa do autor francês. No primeiro capítulo, da
autoria de Ana Caetano, discute-se teoricamente a articulação entre
reflexividade individual e disposições; no segundo capítulo, da autoria de
Isabel Silva Cruz, a tese do ator plural permite aprofundar o conhecimento do
consumo enquanto prática social; no terceiro capítulo, por Pedro dos Santos
Boia e João Teixeira Lopes, procura-se apreender a variação disposicional
consoante as esferas de socialização estruturais e culturais que caracterizam
uma determinada trajetória de vida; no quarto capítulo, Sandra Lima Coelho,
através da análise de percursos biográficos de voluntários associativos, parte
da teoria lahiriana e do seu desenho metodológico para o estudo da ação
coletiva; no capítulo 5, Ana Roseira Rodrigues e Tânia Leão analisam as
práticas culturais dos estudantes do ensino superior, a partir dosresultados do
projeto “Os Estudantes e os Seus Trajetos no Ensino Superior. Sucesso,
Insucesso, Fatores e Processos, Promoção de Boas Práticas”, coordenado por
António Firmino da Costa e João Teixeira Lopes.
Ana Caetano analisa a reflexividade individual no quadro de uma teoria
disposicionalista, uma vez que o trabalho de Bernard Lahire constitui um
contributo fundamental para pensar e operacionalizar o conceito de
reflexividade. Os agentes relacionam-se diferentemente com as suas disposições,
detendo graus diferenciados de reflexividade nos múltiplos contextos sociais
onde atuam. Como refere Ana Caetano, “os processos de reflexividade só podem
ser realmente analisados tendo em conta a complexidade interna de cada ator, o
que implica abordar a singularidade individual sem esquecer que se trata de
sujeitos socializados, que se encontram na interseção de diferentes esferas e
forças sociais” (p. 17). As lógicas da ação reflexiva e de sentido prático
articulam-se, “coexistem na ação humana e estão permanentemente a suceder-se e
a intercalar-se no quotidiano. Não é possível, por um lado, viver apenas com
base na escolha racional, no interesse ou na estratégia, e as práticas, por
outro, não são exclusivamente orientadas pelo hábito e pela rotina” (p. 20).
Isabel Silva Cruz, no capítulo 2, propõe alicerces para uma sociologia à escala
individual aplicada à esfera do consumo, testando empiricamente a homogeneidade
/ heterogeneidade dos sistemas de disposições e as relações de condicionamento
que o poder / volume e espécies de capitais exercem sobre as práticas de
consumo. O género, a idade, o capital escolar, o tipo de agregado e a fase do
ciclo de vida familiar, o lugar de classe e o rendimento constrangem as
práticas de consumo. Verifica-se aassociação entre o consumo e o desempenho de
papéis por parte dos agentes, que remetem para o status, para competências e
formas de poder. É reforçada a perspetiva “de que o consumo é a expressão de um
querer mais ou menos constrangido pelos deveres sociais (regras de prescrição),
pelos saberes adquiridos (socializações múltiplas, contextos de interação), e
pelos poderes (económico, cultural, relacional, entre outros)” (p. 48).
No capítulo 3, Pedro Boia e João Teixeira Lopes debruçam-se sobre as
experiências das mulheres clubbers, a partir da análise do retrato sociológico
de Maria, no contexto periférico pobre da área metropolitana do Porto. O
objetivo da investigação consistiu em compreender as experiências das mulheres
e os processos de construção identitária de classe e género, no âmbito da sua
participação nas (sub)culturas ligadas às festas de música eletrónica de dança.
Verifica-se a existência de “homologias” entre a segmentação da cena clubbinge
outras segmentações de cariz estrutural. Observa-se uma interseção entre as
práticas culturais tradicionais, populares, de massas e o clubbing, em
detrimento de uma compartimentação estanque.
No capítulo 4, Sandra Lima Coelho, a partir das trajetórias biográficas,
procura decifrar as motivações dos voluntários de uma associação de comércio
justo. A análise da pertença familiar e da trajetória de vida dos entrevistados
evidenciou algumas das características estruturais da sociedade portuguesa,
nomeadamente a trajetória intergeracional de mobilidade social ascendente com
investimento na educação. A partilha de um sistema de valores e de universos
simbólicos convergentes com a causa do comércio justo constitui um fator
indispensável de organização associativa, fomentadora de patrimónios de ação
coletiva perante as desigualdades e injustiças sociais, princípios e critérios
que denodadamente regem o comércio justo.
Ana Roseira Rodrigues e Tânia Leão fecham esta obra coletiva, mostrando como a
combinação de capitais (culturais, económicos e simbólico) da família de
origem, é importante e decisiva para as práticas culturais na idade adulta e
marca também a relação criada com o ensino superior. A par da família ou do
grupo de amigos, a instituição universidade contribui igualmente com a sua ação
socializadora. As sociabilidades são a prática mais citada entre os estudantes
do ensino superior entrevistados, influenciando a estruturação dos estilos de
vida durante este período de vida dos jovens. Como salientam Rodrigues e Leão,
“as sociabilidades geradas em contexto académico, muitas vezes exteriores ao
recinto institucional […], existem como espaços de aproximação sociais, não
pela atenuação ou esbatimento de desigualdades, mas pela quantidade de redes
sociais que esses locais podem acolher. Essa profusão de redes, pode favorecer
uma abertura face às relações estabelecidas, o que permite o alargamento de
redes e o contacto com práticas culturais legítimas, no domínio da receção
cultural e também da criação / expressão, confirmando assim a ação do grupo de
pares como responsável pela sensibilização e/ou socialização cultural” (p.
149).
Concluindo, este é um livro que, ao incorporar criativamente o património
científico de Bernard Lahire, projeta no presente e no futuro da investigação
social as enormes potencialidades sociológicas congregadas na obra do autor
francês. As virtudes de uma sociologia à escala individual, que aprofunde o
espaço interno dos agentes em conjugação fecunda com os ambientes externos da
ação, e suas respetivas escalasmeso e macrossociais, certamente enriquecem a
análise dos fatores subjetivos e dos fatores objetivos presentes na
estruturação das desigualdades sociais contemporâneas.