Do outro lado da cidade: crianças, urbanização e violência na área
metropolitana de Lisboa
Introdução
A violência, nas mais variadas formas, é componente estrutural nas dinâmicas
sociais. Os fenómenos de violência são parte constitutiva da vida quotidiana,
transversais a todos os grupos sociais, indissociavelmente ligados à quebra e
violação de direitos humanos. Atingem o cerne da ordem social pelos efeitos
desestruturantes que causam, tanto a nível individual como social. Parte da
discussão sobre violência centra-se recorrentemente nas suas expressões em
contexto urbano, frequentemente associadas a processos de urbanização cujos
efeitos se fazem sentir de modo intenso sobre as populações (Lourenço, Lisboa e
Frias, 1998), em especial as crianças. Desde há muito que a literatura
científica evidencia que as crianças estão entre os grupos sociais mais
vulneráveis à violência e criminalidade em ambiente urbano (Osofsky e outros,
1993; Sampson e Laub, 1994). No entanto, os seus testemunhos sobre estas
matérias tendem a ser frequentemente desvalorizados pelos adultos, família e
profissionais, logo no momento de um incidente violento (Catling, 2005). Poucas
vezes são ouvidas sobre estas questões e é notória a necessidade de mais
investigação centrada na problematização das experiências, perceções e
representações das crianças sobre as formas de violência que as afetam nos
contextos onde vivem, nomeadamente quando estes apresentam elevadas taxas de
violência e crime.
Tendo como pano de fundo as profundas mudanças sociais ocorridas nos últimos
anos no tecido (sub)urbano em Portugal, desenvolveu-se um projeto de
investigação centrado na problematização dos modos de vida de crianças, entre
os seis e os 12 anos, em seis bairros sociais de realojamento, no concelho de
Oeiras, na área metropolitana de Lisboa, e em particular do seu envolvimento em
violência e delinquência. Assente numa linha orientadora que cruzou três
vetores infância, delinquência e território , partiu-se da hipótese de que
os modelos e os processos de urbanização concretizados nesses bairros se
articulam com o desenvolvimento de formas de socialização e modos de vida que
facilitam o acesso das crianças a janelas de oportunidades para a prática de
violência e delinquência (ver Carvalho, 2010).1 A opção pelo uso da expressão
bairro de realojamento nesta pesquisa remete primordialmente para uma medida
de política pública de habitação social, que assentou em processos de
relocalização de populações que conduziram ou podem ter mantido uma
concentração de determinados problemas e desvantagens sociais em alguns
territórios quando se poderia, eventualmente, ter defendido outras soluções que
obstassem a essa concentração. Se é certo que estes são espaços onde está
identificada a existência de um leque de problemas sociais, também está provado
que esses problemas não se encontram ou se produzem só no seu interior, bem
como não podem ser analisados sem se ter em consideração os contornos do
funcionamento de sistemas sociais (ensino, saúde, proteção e ação social,
segurança e justiça), tanto a montante como a jusante (Machado e Silva, 2009).
Dada a dimensão do estudo em causa, este artigo fica reduzido a uma breve
discussão sobre alguns dos principais resultados obtidos na primeira fase, em
que se teve a intenção de conhecer como as crianças representam os seus quadros
de vida no contexto selecionado. As tendências observadas destacam as desordens
físicas e sociais,2 a violência e a criminalidade como principais eixos
(des)estruturantes nos seis bairros, fenómenos sumariamente discutidos nestas
páginas a partir do(s) olhar(es) das crianças neles residentes. As suas
escolhas e ações são reflexo de mudanças sociais e, através da análise dos
processos de interação social onde participam, acabam por se projetar imagens
que espelham também os adultos que com elas privam. Pelo caráter exploratório
da pesquisa, os resultados obtidos restringem-se à população e contexto à data
estudados, não podendo ser generalizados a outros territórios.
Crianças, urbanização e violência
Enquanto espaço privilegiado da produção económica e da interação política e
social, pelo caráter de aglomeração a cidade está plena de contrastes e
diferenças que se revelam, a um primeiro olhar, num mosaico humano estruturado
em torno de frágeis equilíbrios relacionais e sociais sobre os quais importa
refletir. O espaço urbano reforça-se como aquele para onde tudo conflui, ou
deseja confluir, e disso são exemplo os fluxos migratórios. Vivemos numa era de
globalização em que a tradicional estratificação dos recursos pelo espaço
continua a marcar a organização das sociedades. Apesar de toda a evolução e
progresso, nas sociedades ocidentais as desigualdades sociais têm vindo a
crescer, talvez mesmo a exacerbar-se (Sassen, 2001). Se, por um lado, a
globalização tem potenciado uma ideia de desterritorialização da cidade pela
difusão de estilos de vida que não estão circunscritos aos seus limites
territoriais, por outro, a divisão social do espaço urbano acarreta segregações
que se traduzem na desigualdade de oportunidades no acesso a recursos materiais
e simbólicos, e numa acentuada dificuldade de exercício ao nível da
participação social que a todos afeta, nomeadamente as crianças.
A reconfiguração das cidades para as funções que os novos espaços económicos,
de comunicações e serviços qualificados exigem sustenta a perda de populações
do centro para as periferias, num processo de nova urbanidade descentralizada
(Oliveira e outros, 2004: 94), que implica que mais do que se falar em cidade,
se coloque o acento nas grandes metrópoles que nelas têm a sua origem. Nestas
áreas, a espacialização da diferenciação social revela-se na emergência de
zonas urbanas e suburbanas socialmente desfavorecidas, recorrentemente
qualificadas como críticas, sensíveis ou problemáticas, só para citar
três das adjetivações mais usadas neste campo e que dão corpo ao que Wacquant
(2001, cit. em Oliveira e outros, 2004: 94) designa uma política urbana de
abandono organizado. A estes contextos, nichos de concentração de desvantagens
sociais, na maioria segregados social e territorialmente, sobrepõem-se relações
de força e de poder entre os diferentes grupos sociais, a partir das quais se
constroem modos e estilos de vida e metáforas de natureza espacial que
determinam a forma de crianças e adultos olharem e agirem sobre a divisão
social do espaço e as relações entre grupos sociais (Valentine, 2001). Deste
modo, as distâncias espaciais traduzem também as distâncias sociais
estabelecidas na interação entre indivíduos.
Nas últimas décadas, tem-se assistido a nível internacional a uma revitalização
de estudos sociológicos sobre violência e crime em contexto urbano no quadro da
ecologia social, cujas raízes se encontram na Escola de Chicago. No processo de
atualização e (re)formulação das propostas de autores clássicos como Shaw,
McKay, Park, Burguess, Trasher, entre outros, é significativa a que se refere
ao estudo da desorganização social prevalecente em certos locais, da qual
decorrem os neighbourhoodeffects junto de crianças, entendidos como o resultado
da interação social e de processos institucionais que envolvem aspetos
coletivos da vida social das crianças nos territórios onde residem (Sampson e
Laub, 1994; Sampson, Morenoff e Earls, 1999). O discurso público sobre a
criança e a cidade tem vindo a crescer, ao longo dos tempos, em torno do medo,
da violência e da insegurança, o que, segundo alguns autores, sustenta a ideia
de que viver a cidade é, intrinsecamente, viver o medo (Oliveira e outros,
2004). Observar e compreender os quadros de vida das crianças significa
apreender um universo muito vasto. A infância não é uma realidade plana, vivida
ou representada exclusivamente no singular; pelo contrário, destaca-se em cada
forma de a viver um campo próprio que remete para a coexistência de traços
singulares diversos, decorrentes de desigualdades assinaladas por diferentes
origens de género, espaço social de classes e, até mesmo, de local geográfico
(Almeida, 2009).
Diversos estudos recentes confirmam uma linha de orientação já presente em
muitas pesquisas originais da Escola de Chicago, ou seja, a existência de uma
relação positiva entre a concentração de desvantagens sociais em certos espaços
urbanos e as práticas de desordem, violência e crime. O foco de análise foi
deslocado dos laços individuais para a eficácia social dos grupos, emergindo
assim o conceito de eficácia coletiva, que se refere aos mecanismos sociais de
construção de confiança e de partilha de expetativas entre residentes de um
determinado território relativamente ao controlo social, particularmente em
espaço público e, de modo mais específico, à educação e ação coletiva a
desenvolver junto das crianças residentes (Morenoff, Sampson e Raudenbush,
2001). Como provam os resultados de diferentes investigações (Sampson e Laub,
1994; Sampson, Morenoff e Earls, 1999; Moignard, 2008), processos sociais
fulcrais, como o controlo social, se exercido nos espaços públicos com base no
envolvimento coletivo dos residentes, associam-se negativamente a violência e
crime. Independentemente da composição sociodemográfica de um território, onde
a eficácia coletiva é mais elevada, o nível de desordens, de violência e de
alguns crimes é mais baixo (Sampson, Morenoff e Earls, 1999).
Um crescendo de desordens e violência pode operar a um nível semelhante ao de
uma cascata, acabando por gerar maior instabilidade e por minar o exercício de
controlo social por parte de indivíduos e grupos sociais. Afeta a socialização
das crianças, não só pela exposição direta a esse tipo de ações, mas também na
forma como os adultos tenderão a diminuir o exercício de uma ação coletiva
junto das mesmas no sentido da conformidade social. As desordens constituem um
primeiro reflexo de baixa eficácia coletiva, percecionadas como reflexo da
falta de capacidade dos residentes em intervir relativamente à não conformidade
social, e são um indicador expressivo de desorganização social, fator decisivo
na criação das condições para a prática de alguns tipos de crime, sendo deste
modo que se veem relacionados estes dois fenómenos. Um não conduz diretamente
ao outro, mas ambos têm a mesma origem (Sampson, 2002).
A natureza, extensão e tipo de desordens predominantes refletem o grau de
eficácia coletiva dos residentes, mas podem, ao mesmo tempo, revelar-se fator
de diminuição do seu envolvimento em ações que visem a melhoria da qualidade de
vida no respetivo território, estabelecendo-se um círculo difícil de quebrar. À
luz dos contornos do desenvolvimento urbano, a eficácia coletiva depende da
construção de relações de confiança estabelecidas com o(s) outro(s), que
satisfaçam tanto necessidades pessoais como sociais, sendo indissociáveis do
território onde se concretizam, um espaço físico e social determinado que as
crianças interpretam e usam, de que se apropriam, que reconstroem e representam
de modo diferenciado dos adultos (Corsaro, 1997).
Ter em consideração o olhar das crianças sobre os problemas sociais que as
afetam abre horizontes que remetem para a sua compreensão como entidades
participativas na construção da realidade e da mudança social nas mais variadas
dimensões. Deste modo, as formas como percecionam, representam e se relacionam
com desordens e violência nos bairros onde residem não podem ser dissociadas
dos processos de socialização e modos de vida que aí desenvolvem e sobre os
quais também intervêm.
A investigação
A informação apresentada neste artigo foi obtida no decorrer de um projeto de
investigação mais vasto, um estudo de caso, de base etnográfica, realizado
entre 2005 e 2009, centrado na problematização dos modos de vida de crianças,
entre os seis e os 12 anos de idade, em seis bairros sociais de realojamento,
no concelho de Oeiras, na área metropolitana de Lisboa,3 e em particular do seu
envolvimento em violência e delinquência (Carvalho, 2010).4 O modelo teórico de
análise, com origem nos campos do interacionismo simbólico, da ecologia social
e da sociologia da infância, pensa as práticas de violência e delinquência na
infância como expressão de problemas sociais que, não sendo novos, estão
associados a um amplo espetro de fatores e circunstâncias de natureza diversa.
Estes fatores e circunstâncias colocam-se em jogo num determinado território,
cujo ambiente físico influi e simultaneamente sofre as influências da ação e do
controlo social exercido pelos indivíduos que nele se situam, ou o atravessam,
e em relação aos quais as crianças, na qualidade de atores sociais, atribuem um
sentido particular de que se apropriam, que integram, reconstituem e
(re)produzem.
Em função da observação de uma realidade social complexa a nível de conteúdo e
da acessibilidade aos atores sociais nela envolvidos, esta foi uma investigação
marcada por intensos desafios metodológicos e éticos relativamente aos quais
não se tem oportunidade de aprofundar nestas páginas (ver Carvalho, 2010).
Aplicou-se uma metodologia qualitativa que resultou da complementaridade entre
diferentes técnicas, uma vez que cada uma apenas proporciona fragmentos da
realidade social em causa: observação participante, conversas informais,
entrevistas semiestruturadas a crianças (72) e a pais/familiares (62), técnicas
visuais (312 desenhos individuais sobre os bairros e fotografias tiradas por
duas turmas de escola do 1.º ciclo do ensino básico) e análise documental,
primordialmente de registo de ocorrências da esquadra local da Polícia de
Segurança Pública e processos entrados na Comissão de Proteção de Crianças e
Jovens de Oeiras pela prática de facto qualificado pela lei penal como crime.
De forma a garantir a uniformidade de procedimentos na recolha de parte da
informação junto de crianças residentes, abarcando tanto as que estavam
identificadas com violência e delinquência como aquelas que não estavam, optou-
se por aplicar as técnicas visuais a partir de duas escolas do 1.º ciclo do
ensino básico localizadas nos bairros, ambas de agrupamento de escolas
integrado no programa TEIP II.5 A recolha de informação ocorreu durante três
anos letivos consecutivos, abrangendo 70,8% do total de alunos matriculados
nestas escolas entre 2006 e 2008.6 Foi formalmente solicitada a autorização aos
órgãos de gestão para o acesso à população estudantil e, na sequência de
resposta positiva, foi entregue aos encarregados de educação um pedido de
autorização para a participação das crianças na investigação, contendo
informações sucintas sobre a sua natureza e objetivos gerais. Idêntico
procedimento de consentimento informado foi realizado junto das crianças em
cada patamar da pesquisa.
O tratamento da informação recolhida foi sustentado numa lógica analítica
compreensiva, que teve como ponto de partida a voz das crianças expressa em
diferentes produções. De entre estas, assumiu especial relevo o desenho sobre o
bairro, porta de entrada para um trabalho mais aprofundado com cada
participante. Ao tomar-se o desenho das crianças como ferramenta metodológica
numa pesquisa sociológica, mais do que focar o interesse da análise numa visão
fechada sobre o produto final, que redundaria numa interpretação
adultocêntrica, considera-se antes ser fundamental ouvi-las sobre os processos
de criação, sobre as leituras que fazem dos desenhos, tendo em vista a
apreensão dos significados que lhes atribuem. Quando desenham, as crianças
estão a abrir janelas para que outros entrem nos seus mundos e tenham acesso à
forma como entendem e percecionam o que as rodeia, as relações mais
significativas e os modos de participação na vida social (Malchiodi, 1998;
Sarmento, 2007). Enquanto ato comunicativo, o desenho constitui muito mais do
que uma mera tentativa de representação do mundo exterior, pois, pela
atribuição própria de significados e de conteúdos particulares, as crianças vão
além da prática de um realismo visual (Gardner, 1990). O entendimento dos
desenhos não pode ficar cingido à ideia de representação estrita do real;
importa antes verificar como inscrevem o real na representação, como o exploram
através de formas específicas de ação social e como o descodificam perante
outrem (Anning e Ring, 2004; Sarmento, 2007; Kostenius, 2011).
Enquanto produto resultante de uma ação individual, num determinado espaço e
tempo, o desenho articula simbolicamente os vários planos de existência da
condição de vida da criança. Para a sua interpretação há que atender a uma
tripla dimensão: o desenho como produto único, singular, de uma criança
específica; como artefacto social que permite desocultar as regras e os valores
dos quadros de vida de crianças pelo acesso às várias culturas da infância; e
como objeto simbólico através do qual se dá expressão a um grupo geracional
específico, o da infância (Sarmento, 2007).
Neste sentido, há necessidade de identificar, analisar e compreender as
condições sociais de produção do desenho das crianças (Sarmento, 2007: 10).
Importa ter em consideração os meios disponíveis que foram colocados à sua
disposição ou a que tiveram acesso, e perceber qual a relação dinâmica
estabelecida entre estes e os processos de criação e a construção gráfica. Mas
não só, interessa não descurar as rotinas em que os desenhos foram
concretizados, a que momentos do quotidiano corresponderam, e quais as práticas
institucionais e as relações sociais que se construíram ou se manifestaram com
outros atores sociais na sua execução. A própria materialidade do gesto gráfico
e dos suportes físicos deve ser também objeto de reflexão, na medida em que o
mundo plástico da criança é estruturalmente diferente do mundo do adulto.
Perante este enquadramento, partiu-se para o terreno com a ideia de que o
desenho das crianças é, afinal, o desenho de um mundo (Sarmento, 2007: 20).
Deste modo, em pequeno grupo em contexto de sala de aula ou polivalente, com
base num enunciado simples, solicitou-se aos participantes a criação individual
de um desenho sobre o bairro: És capaz de fazer um desenho sobre o teu
bairro? A cada criança foi dada uma folha A4, branca, em que se tinha
marginado o espaço onde deveria ser executado o desenho e outro para a escrita
da legenda. À medida que foram sendo concluídos, ocorreram conversas informais
individuais com a investigadora, visando a interpretação através da
identificação dos conteúdos e significados que cada criança lhes atribuía na
construção de uma narrativa sobre o que fora desenhado. Nos casos em que o
domínio da escrita era mais rudimentar ou insuficiente, o registo da descrição
ficou a cargo da investigadora, passando a escrito o que a criança dizia, o que
suscitou um especial agrado por verem um adulto interessado nas suas palavras.
Com todas foi possível obter registos escritos sobre os desenhos. Como os
tempos dedicados a esta tarefa nem sempre permitiram o contacto individual
aprofundado imediato, fez-se num primeiro momento a confirmação da legenda e,
em vários casos, deixou-se para uma altura posterior a conversa mais detalhada.
Em função da natureza e conteúdo destas situações, as conversas seguiram várias
direções, não sendo possível indicar um tempo médio de duração, dada a
diversidade de situações.
Na análise dos desenhos, o primordial não foi a consideração de critérios
desenvolvimentais ou técnicos, mas antes o entendimento de que são importantes
produções simbólicas das crianças (Sarmento, 2007). A lente de observação foi a
sociológica e o foco de interesse reportou-se às dimensões socioculturais que
ajudam a situar esta produção num determinado contexto social, bem como às
formas de apropriação das principais características desse contexto pelas
crianças. Na consideração de que os desenhos das crianças são gramaticalmente
articulados (Coquet, 2003: 4), a narrativa que lhes foi acrescida por elas
mesmas fez com que ganhassem uma outra energia e dinâmica que, num primeiro e
simples olhar, não se detetavam, pois muitos apresentam-se sem diversidade de
elementos, maioritariamente numa configuração estática que tem o principal
enfoque no edificado. Se é verdade que foi a aparência gráfica que marcou a
primeira abordagem, importa realçar que esta segunda fase do processo de
análise, através da qual se tentou aceder ao significado daquilo que
pretenderam fazer quando desenharam decidindo o sentido atribuído à sua ação,
trouxe a constatação de como a leitura inicial feita pelo adulto pode
apresentar uma orientação diferente, até enganadora, relativamente às intenções
manifestadas pelas crianças. Neste âmbito, realça-se a importância que teve o
acompanhamento de todo o processo de criação.
Na sequência da digitalização dos desenhos acompanhados da respetiva narrativa,
seguiu-se a organização em arquivos informáticos, tendo por base o critério da
idade ao momento da recolha. Mediante o preenchimento de grelhas de análise que
contemplavam a conjugação de dois planos de análise o da representação
gráfica e o da narrativa numa só unidade, pretendeu-se a identificação de
padrões emergentes, de semelhanças e diferenças, acompanhando-se este trabalho
com um olhar sobre as notas de campo recolhidas na altura dos processos de
criação. Em função da pertinência do analisado, as dimensões iniciais de
análise foram sendo desdobradas em categorias e subcategorias, procurando-se
não distorcer nem trair as proposições enunciadas pelas crianças. Para testar
efeitos de género e idade, foi realizada análise do qui quadrado (c²).
Espaço vivido, espaço representado: tensões, conflito e desordens
Na análise das representações das crianças sobre os bairros onde residem, o
primeiro ponto relevante prende-se com o facto de os aspetos negativos
apontados se sobreporem significativamente aos positivos. Esta tendência
adquiriu maior relevância quando falaram sobre as pessoas (c² = 125, p < 0,05)
e os equipamentos públicos (c² = 85, p < 0,05) e, num grau um pouco inferior,
mas ainda expressivo, quando se reportaram ao espaço público (c² = 31, p <
0,05) e comércio/serviços (c² = 31, p < 0,05). Por outro lado, a habitação(c² =
12, p < 0,05), as escolas (c² = 18, p < 0,05) e a família (>c² = 8, p < 0,05)
suscitaram valorações mais positivas do que negativas. Digna de registo a
ligeira diferença na forma como representaram as crianças nestes contextos,
expressando uma visão mais negativa do que positiva, essencialmente associada a
conflitualidade e violência. Em todas as categorias não foram registadas
diferenças de género estatisticamente significativas.
Globalmente, os problemas sociais mais destacados foram desordens físicas e
sociais, violência e crime. A apreciação mais negativa, manifestada por quase
metade das 312 crianças participantes (47,1%), remete para o campo da interação
social, precisamente para pessoas, os adultos com quem privam, se cruzam, que
conhecem ou observam. Independentemente da idade, género e bairro de
residência, esta valoração associou-se a diversas perspetivas, que vão desde a
consideração das atitudes e comportamentos, maioritariamente entendidos como
perturbadores e desordeiros, até às competências e responsabilidades dos
indivíduos no desenvolvimento dessas ações. As crianças parecem ter uma clara
noção sobre os papéis sociais que os adultos devem ter, referenciando
depreciativamente a existência de uma larga parte que se afasta do que
consideram ser o modelo de referência adequado para a manutenção da coesão
social. Neste sentido, aproximam-se da conceção de ator social atribuída a cada
indivíduo e deixam no ar a ideia de que a melhoria da qualidade de vida da
população dos bairros passa pela mudança de comportamentos e atitudes de quem
aí reside, destacando de modo intenso as desordens e violência de caráter
étnico.
Quero dizer que gostava muito que os bairros fossem melhorados, não é que eles
tenham só coisas más, mas é que as pessoas têm de ficar de ser assim mais
amigas umas das outras, mesmo sendo pretos, brancos, ciganos. [Rapariga
F17, 9 anos, 4.º ano, Bairro Amarelo]
Este problema recorrentemente mencionado está associado, até certo ponto, à
divisão social do espaço dos bairros em função da origem étnica dos residentes.
Desde há muito, e basta recordar as principais linhas de orientação da Escola
de Chicago, que a compreensão sobre o território e as dinâmicas espaciais se
revela fundamental no entendimento dos fenómenos de discriminação étnica. Parte
da interação social nos bairros em estudo assenta em processos de segregação
espacial de certas famílias, aparentemente realojadas por ruas em função da
origem étnica, fator sentido pelas crianças como obstáculo à melhoria da
qualidade de vida (figura_2).
É notório como as crianças estão atentas à realidade social e dela participam,
reconstruindo o seu papel social pelas situações que vivenciam, representando-
as de forma conflitual. Quando se fala de bairros de realojamento, a imagem que
tende a prevalecer na opinião pública aponta para espaços homogéneos,
ignorando-se como isso está longe de ser verdade. Estes territórios não se
limitam à sua configuração física alargada; mais relevantes podem ser as
fronteiras percecionadas, representadas e vividas no seu seio, em divisões por
microterritórios associados até a hierarquias étnicas e a grupos culturais
específicos. Ainda que o processo de realojamento tenha sido pensado
institucionalmente, a generalização de expressões do género a rua dos
ciganos, para citar o exemplo mais paradigmático observado nesta investigação,
amplamente conhecido e mencionado pelos residentes dos seis bairros, é algo que
contribui, e simultaneamente (re)constrói, um permanente mal-estar social,
reforçando fenómenos de estigmatização. A aparente nostalgia e o desejo de
retorno a um passado manifestado por algumas crianças, mesmo a fases em que se
terá vivido maior privação socioeconómica, refletem os fenómenos de exclusões e
inclusões precárias a que Young (1999) se refere na caracterização da
sociedade exclusiva. Trata-se de situações em que ganha corpo a
(re)construção da noção de comunidade à luz da transformação dos processos de
uso e apropriação do espaço, muito em especial do espaço público.
A forma como as crianças dispõem e mencionam o uso do espaço público de um
lado nós, no lado oposto os outros , numa representação (figura_3) que
traduz um campo de batalha, não pode ser desvalorizada na análise da sua
socialização. A divisão social do espaço produz relações de poder que se
institucionalizam entre os residentes, num clima de permanente oposição e de
procura de domínio territorial. Estes choques revelam-se de forma intensa em
torno da necessidade de afirmação pessoal e social, assente numa linguagem
fortemente segregadora e violenta, mas que não é mais do que o espelho de como,
desde muito cedo, experiências de não inclusão marcam a vida de muitas
crianças, estando longe de ser exclusivas dos espaços em análise.
Num quadro de complexificação da vida social, a fragmentação e a
heterogeneidade das dinâmicas culturais em presença potenciam uma ideia de
clivagem e conflitos duradouros que marcam a vida das crianças e adultos. Mas
os problemas de desordens, conflitualidade e violência não decorrem
exclusivamente da localização das famílias em certas ruas, nem se encerram nos
confrontos entre grupos de diferentes origens étnicas, acontecendo também no
seio dos mesmos. A questão da honra, valor fortemente assumido num quadro
social desta natureza, constitui frequentemente um elemento catalisador da
passagem ao ato violento. Trata-se de uma noção central pela qual crianças,
jovens, famílias e grupos se envolvem numa linha de disciplina moral a partir
da qual avaliam as suas interações e quais os efeitos perniciosos no caso de
assumirem que a sua honra foi beliscada por outrem. A perceção de um ato como
violento e intencional é, tendencialmente, objeto de uma ação reparadora que
pode mesmo envolver outra violação de normas, e a procura deste tipo de ações é
inevitável neste contexto. Importa perceber e não descurar o papel da
oralidade, fundamental na interação social, sendo muitas vezes a vítima
exterior encarada como responsável na agressão que sofre (Moignard, 2008).
A desocultação das desordens sociais pelas crianças evidenciou o barulho dia e
noite, o consumo de álcool na via pública, as brigas, os conflitos, os
insultos, as ameaças, as lutas, situações confirmadas na análise das
ocorrências policiais registadas na esquadra local da PSP. De assinalar este
denso entrecruzamento entre a informação obtida junto das crianças e das
autoridades policiais na construção de um idêntico quadro social. Para as
crianças, os poucos cafés existentes surgem como espaço fulcral e origem de uma
larga parte das desordens, dia e noite, vários localizados em ruas sem saída
(figura_4), o que dificulta a intervenção dos mecanismos formais de controlo
social.
As crianças mostraram-se atentas a aspetos do ordenamento do território,
arquitetura e urbanismo que interferem no exercício do controlo social informal
no espaço público. A apreciação negativa que fazem sobre o espaço público
(34,5%) está associada não apenas às desordens sociais mencionadas, mas também
a um amplo leque de desordens físicas (lixo, graffiti, mobiliário urbano
destruído, carros abandonados e/ou roubados nas palavras das crianças
estacionados na via pública, os obstáculos resultantes da organização do
território e o deficitário funcionamento da iluminação pública), que
identificam de modo expressivo nestes bairros. Conjuntamente, os equipamentos
públicos registaram uma valoração negativa (26,6%), que se encontra
intrinsecamente relacionada com a falta de parques infantis. Deve-se isto ao
facto de não terem sido construídos ou, como os próprios referem, porque os
dois existentes foram destruídos e vandalizados, não necessariamente pelas
crianças, mais por adultos e jovens, nem sempre residentes, que deles se
apropriaram para outros fins, incluindo práticas desviantes. Contudo,
registaram-se diferenças significativas em termos de idade (c²(1) = 5,533, p <
0,05), com o grupo dos 10-13 anos a queixar-se menos do que o dos 6-9 anos, o
que pode sugerir diferentes formas de ocupação do espaço público em função
desta variável. Realce ainda para a preocupação das crianças com a iluminação
pública, frequentemente inoperacional na sequência de vandalismo que oculta
diversas intenções (figura_5).
Este é um problema grave com implicações diretas na segurança pública
(Farrington e Welsh, 2002). Nestas ações, como nas restantes, nem todas as
crianças são meras espetadoras; algumas têm um papel ativo, geralmente
conhecido e comentado publicamente entre moradores. No caso da iluminação
pública, alguns rapazes são colocados em risco de vida quando se trata de
inutilizar o sistema de iluminação pública de forma a encobrir práticas
criminais ou de provocação às autoridades policiais.7 Como referia um dos
participantes, eles [adultos e jovens] mandam desligar as luzes,
desligam tudo para a polícia não ver e é como se não fosse nada e o
[rapaz M40, 9 anos, Bairro Verde] vai, vai sempre ele, lá ele,
vai já faz isso desde pequeno [ ] e outra noite também fez para
gente brincar aos polícias e ladrões [ ] então, assim ficou tudo
escuro e ninguém sabia onde estavam escondidos [notas de campo].
Os laços sociais revelam-se contidos no espaço geográfico, obstando à
realização de respostas coletivas que avancem no sentido do cumprimento da
norma devido ao domínio territorial que se alcança nestas ações. Observa-se
como de uma lógica de transmissão e manipulação pelos adultos, algumas crianças
facilmente passam a uma lógica de orientação em que direcionam o mesmo tipo de
ações aprendidas junto dos mais velhos para os seus próprios fins,
especialmente lúdicos.
Violência e criminalidade no quotidiano
Pelas situações que testemunham e/ou de que são vítimas no quotidiano, ou pelo
conhecimento e envolvimento em redes criminais locais (Carvalho, 2010), para
várias crianças a representação do bairro que emerge é a de um espaço
permanentemente atravessado por polícias e ladrões, como se de um jogo se
tratasse (figura_6).
Como destrinçar o puzzle da concentração ecológica da violência e do crime e
perceber até que ponto as políticas de habitação social estão na origem da
manutenção destes problemas sociais, ou até do seu agravamento, é uma das
questões que se levanta nesta pesquisa. Numa sociedade que faz da segregação um
modo de gestão social, os laços de sociabilidade e as relações de poder nestes
territórios são construídos em torno de limites bem conhecidos, o que
possibilita ter uma ideia aproximada sobre as possíveis repercussões da
violação desses códigos sociais. Mas se, por um lado, se observam e mantêm
rituais, por outro, a desregulação presente e constante pode afetar a sua
ordem.
As não conformidades identificadas têm de ser pensadas a partir da sua
articulação com as lógicas de exclusão e de segregação em relação com os
espaços onde tomam corpo. Se a segregação é uma qualidade intrínseca e
percecionada no que diz respeito a determinados territórios, e por arrastamento
aos seus residentes, ela reenvia o olhar para as formas e modos como estes
vivem na relação interna e com o exterior, numa linha muitas vezes marcada por
sentimentos de dependência, de frustração e até de revolta (Wacquant, 2007).
Isoladamente, a criminalidade foi o problema social mais mencionado pelas
crianças residentes (31,4%), em especial crimes contra as pessoas e crimes
rodoviários, consubstanciando-se assim, de modo mais grave, uma conflitualidade
que já se via emergente nas desordens anteriormente discutidas (figura_7).
Vários participantes no estudo destacaram a morte de crianças em circunstâncias
violentas (i.e. vítimas de atropelamento ou acidente em corridas ilegais, furto
de automóveis, violência doméstica, acidentes em espaço público e privado),
numa orientação em que ganha corpo a ideia defendida por Benbenisthy e Astor
(2005), de que, mais do que agressoras, as crianças oriundas deste tipo de
contextos sociais são as que tendem a apresentar uma maior probabilidade de
serem vítimas de atos violentos, quando comparadas com as que residem noutros
locais. Durante a pesquisa no terreno, desde a fase exploratória, houve o
confronto com este tipo de situações, que trazem à superfície importantes
indicadores sobre as dinâmicas sociais nestes territórios. A espacialização da
diferenciação social na origem destes bairros traduz-se em fragilidades do
controlo social, identificando-se um quadro de desorganização social e de baixa
eficácia coletiva, que parte de um reduzido nível de confiança entre residentes
expresso num elevado nível de conflitualidade e tensão social.
Deste modo, não é de estranhar que o exercício da violência, sob as mais
diversas formas, seja parte integrante da cultura da rua onde muitas destas
crianças vêm a crescer (Moignard, 2008). A violência é socialmente construída e
o seu uso aparece normalizado aos olhos dos mais novos, muitos dos quais dela
participam e a ela não hesitam em recorrer desde idades bem precoces,
inclusivamente perspetivando-a em relações pessoais futuras. O ato violento
enquanto meio de recurso legitimado neste contexto, constantemente reafirmado,
seja na própria família no exercício de violência doméstica, como no seu
exterior, aponta para uma valorização do uso da força, da ameaça verbal e
física e da intimidação, que não é exclusiva do universo masculino. Tem por
pano de fundo uma evidente articulação com outras zonas similares, mesmo de
fora do concelho e até do distrito de Lisboa, cujo acesso se vê facilmente
promovido por uma rede de vias de circulação e outras formas de comunicação.
Em qualquer ponto do planeta, grande parte da infância está na rua,
constituindo esta um lugar fundamental de socialização. Naturalmente, os laços
e as ligações à rua são diversos para cada indivíduo, mas a verdade é que a rua
é um espaço de socialização primordial, um espaço inteiro onde se está em
função de determinados códigos, rituais e linguagens, que se conjugam de modo
específico e particular com as características de urbanidade do território
habitado (Anderson, 1999). Neste âmbito, um dos aspetos relevantes trazido para
discussão pelas crianças prende-se com a aparente facilidade de acesso a armas
brancas e de fogo no quotidiano, com os riscos daí decorrentes.
Me deram um tiro, profissora', me deram um tiro, me deram um tiro!
Profissora', foi aqui me deram um tiro! gritou o rapaz Δ anos,
M24, 1.º ano, Bairro Branco] ao chegar à escola no primeiro dia de aulas
do segundo período letivo, correndo atrás das professoras. Segurava as calças
com uma mão e apontava com a outra o buraco da bala no tecido, junto ao joelho,
na sequência de tiro que o atingira de raspão quando se encontrava na rua ao
início da noite de Ano Novo. [Notas de campo]
A existência de armas de fogo em casa é uma tendência de longa data registada
na sociedade portuguesa e encontra-se muito longe de estar restrita à população
de bairros sociais, como tantas vezes se faz crer entre a opinião pública
(Pureza e outros, 2010). Aqui as crianças aprendem mais por si próprias e na
rua a conhecer e a avaliar os perigos e riscos que correm do que sob a
orientação adequada de adultos. E a experiência de contacto com armas brancas
ou de fogo ganha outras proporções quando se trata de ser partilhada ou
adquirida junto de familiares, até mesmo sob a sua iniciativa.
Já vi muita caçadeira boa, automática na parte do bairro novo. Então no Ano
Novo [Rapaz M02, 10 anos, 3.º ano, Bairro Azul]
Pois, pois, está tudo na rua, o meu pai é que diz que é nessa altura que se vê
quem tem as melhores armas! [Rapaz M10, 9 anos, 3.º ano, Bairro
Azul]
Ah! Ah! [risos] É só pum, pum [imita o som dos
tiros]. Eu andava com ela e também disparei lá para baixo, uma
espingarda assim [faz os gestos do tamanho]. Eu andava com ela.
[ ] foi quatro caixas de balas [ ] deram-me, um
gajo, um gajo fixe [ ] está em casa, está escondida, o meu pai
também deu tiros para lá. [Rapaz M02, notas de campo]
A minha avó tinha uma pistola e não era a fingir. [Rapaz M21, 9 anos,
3.º ano, Bairro Verde, notas de campo]
Estas situações, bem como inúmeras outras semelhantes presentes nos desenhos e
narrativas, foram observadas no terreno e traduzem-se em várias vertentes. Por
um lado, há uma espécie de naturalizaçãodeste fenómeno, que surge recorrente e
espontaneamente nas conversas, assumindo diferentes orientações. À semelhança
do registado noutros estudos (Pureza e outros, 2010), nesta investigação deu-se
conta da existência de dinâmicas contraditórias entre as crianças relativamente
ao uso de armas de fogo, para umas de atração, para outras de rejeição, medo e
repulsa. Outros aspetos merecem particular atenção, nomeadamente o conhecimento
que algumas, quase exclusivamente do género masculino, revelam sobre as
possibilidades da sua fácil aquisição: Sim, sou capaz de arranjar uma pistola,
vou ao [nome] e compro, ele vende barato mas há muitos. Está a
ver o [nome], ele já faz negócio. Posso ir lá
[nome] e trocar por outra coisa, tanto faz e dá para ter, o
[nome] já fez isso com [nome] e ficou com uma .38.
Vai comprar num carocho'. Estas não foram respostas isoladas e os nomes
referenciados por uns e outros repetem-se, apontando para uma realidade
dinâmica e acessível neste contexto. Além da aquisição, alguns mencionam as
formas de adaptação de determinadas armas, sobretudo de alarme, para o uso com
munição real de certos calibres, estando a par de como se faz, o que mais do
que em grupo de amigos parece ocorrer sobretudo no seio da família. São
processos identificados, mais por rapazes entre os 10 e 12 anos, identificando-
se num ou noutro um ideal de vida construído em torno da violência armada.
O tráfico de droga é frequentemente referido num patamar de reciprocidade à
posse e uso de armas. Ambos são representados como fatores de intensa
perturbação da ordem pública e do universo familiar de parte desta população. A
maioria rejeita a adesão a este modo de vida pelos perigos que encerra,
reportando casos de jovens e adultos dos bairros que o desenvolviam e acabaram
por morrer em circunstâncias violentas que continuam a ter um amplo eco neste
contexto. E o entendimento sobre armas não pode ser dissociado do recurso a
cães perigosos, usados como forma de intimidação e ameaça e em lutas
organizadas sobre as quais assentam determinadas formas de economia subterrânea
aqui emergentes.
Conclusão
O território onde as crianças residem e crescem assume um importante papel na
maneira como se relacionam com os problemas sociais, influenciando as opções
que têm ao dispor no quotidiano (Benbenisthy e Astor, 2005). Nesta
investigação, constatou-se que, para as crianças participantes, o bairro onde
residem é uma noção específica de um ponto de vista socioespacial, uma
realidade física e social, concreta, de que se apropriam e que usam de
diferentes modos, a partir dos quais (re)constroem determinadas representações
sobre o mesmo, que orientam o seu posicionamento perante os outros (Rasmussen e
Smidt, 2003). Observou-se que os bairros em estudo tendem a não beneficiar de
maior proximidade e trocas de sentido positivo com outras zonas residenciais
socialmente diferenciadas, onde as expetativas relativamente ao controlo social
das crianças são mais elevadas, acentuando-se desigualdades em termos de
recursos a nível espacial (Sampson, Morenoff e Earls, 1999). É uma situação
que, à data da investigação, era agravada pelo facto de cinco terem como zona
residencial mais próxima outro bairro da mesma natureza, acabando por
constituir uma vasta mancha territorial correspondente a cerca de 40% do total
dos programas de habitação social do concelho de Oeiras.8 Esta separação
espacial relativamente a outras zonas residenciais é reforçada pela degradação
dos espaços e equipamentos públicos, constituindo uma forma de violência para
as crianças; por um lado, física, pelas limitações que impõe, por outro, de
natureza simbólica, pelos efeitos que acarreta nas relações sociais entre os
residentes e não residentes. Deste modo, a violência identificada assenta em
processos espaciais, que caracterizam todo o sistema metropolitano, anulando-se
a ideia inicial das teorias ecológicas tradicionais de ficar apenas pelas
características internas dos bairros (Sampson, 2002). Inversamente ao que tende
a marcar o olhar exterior, individual ou institucional, estes bairros não são
espaços sociais anónimos; pelo contrário, assentam em lógicas de funcionamento
estruturadas e em torno de determinadas linguagens a que nem todos de fora
conseguem aceder (Anderson, 1999; Moignard, 2008).
De uma maneira geral, as crianças foram eloquentes sobre as relações sociais
neste contexto, sobre a importância de certos valores e sobre a violência nas
suas vidas. A violência discutida nestas páginas acaba por servir para a
construção das suas competências, não apenas em termos de preparação para o
futuro funcionamento em sociedade, mas estruturando já no presente as relações
atuais entre pares, ao contribuir para a organização social e posicionamento no
universo da respetiva classe, o que coloca especiais desafios a todos os que
com elas lidam, e muito em especial às escolas e comunidades educativas,
instâncias primordiais de socialização nestas idades (Rayou, 2005). É
necessário entender que uma parte destas desordens e violência pode nascer nos
interstícios entre desejos, aspirações e necessidades básicas, da experiência
quotidiana da rejeição e da relegação a que parte dos residentes nestes
territórios se veem sujeitos, no fundo uma forma de violência inerte que
acentua um sentimento de fatalidade social que os próprios acabam por
interiorizar (Moignard, 2008). Esta cultura de violência centrada na procura de
uma dignidade perdida ou esquecida tende a ser transmitida de geração em
geração, relevando a oposição entre uns nós e uns outros que potencia a
resistência à autoridade e reforça as marcas da estigmatização. O desafio à
autoridade, que é restrito a determinados grupos de residentes, parece, pela
amplificação dos seus efeitos, tornar-se norma, envolvendo desde os mais novos
aos mais velhos.
Muito fica por dizer nesta discussão. O(s) olhar(es) aqui discutidos partem
exclusivamente de alguns dos aspetos mais negativos e preocupantes das
vivências nestes territórios, não podendo ser generalizados. Importa reter que
as crianças manifestaram uma especial preocupação sobre a sustentabilidade dos
bairros, aproximando-se da defesa de uma ideia de cidade saudável (Duhl e
Hancock, 1999, cit. em Oliveira e outros, 2004: 97), que se refere aos espaços
urbanos em que se está continuamente a criar e a melhorar o ambiente físico e
social, fortalecendo os laços e recursos comunitários visando a qualidade de
vida e o potencial da população, aproximando-se, assim, dos fundamentos do
conceito de eficácia coletiva. Desta abordagem, fica claro como as crianças
podem e devem ter um importante papel na discussão sobre os processos de
urbanização, sendo necessário promover a sua participação nos mais diferentes
domínios da vida social e aprofundar o conhecimento sobre os contornos que
prevalecem nos seus processos de socialização, particularmente em territórios
duramente atingidos por fatores de exclusão social e desvantagens sociais.