Trabalho moderno e serviço: uma discussão de tipologias e definições
Introdução
A crescente importância do sector terciário e das actividades de trabalho com
uma componente de serviço tem tido uma correlativa tradução em formulações
teóricas e em tentativas de definição e de clarificação conceptual. Porém, em
nosso entender, é algo paradoxal o facto de raramente estas propostas de
aplicação terem integrado as preocupações dos sociólogos, sendo geralmente
relegadas para o plano da economia e da gestão (mormente da gestão da qualidade
e da normalização de procedimentos por via das normas da International Standard
Organization ISO).
Admitimos, naturalmente, que sendo estas conceitualizações oriundas de uma
tradição disciplinar inicialmente tributária de outras disciplinas, elas têm
vindo a ser progressivamente integradas no campo da sociologia do trabalho, mas
os quadros teóricos desenvolvidos nesta interdisciplinaridade são dada esta
constatação simultaneamente histórica e epistemológica instrumentos
inacabados.
Todavia, é particularmente na década de 1990 que poderemos começar a situar
análises à problemática do trabalho no(s) serviço(s) com um grau de maturação
mais elevado. É precisamente de entre esse acervo conceptual que optamos por
seleccionar neste artigo e numa exposição necessariamente não exaustiva
algumas abordagens que serão apresentadas de forma relativamente
compartimentada mas cujo carácter operativo assume uma dupla função: por um
lado, permitem interrogar criticamente as concepções pós-industrialistas das
formas de organização das actividades de trabalho e, por outro lado,
constituirão a base para uma proposta de análise do trabalho numa lógica de
organização tributária do que temos vindo a designar como processos de
servicialização (Almeida, 2004; 2005; 2009).
Os critérios para uma semelhante escolha são de natureza epistemológica e
conceptual. Vejamos cada um dos pontos em detalhe. Por um lado e em termos
epistemológicos a tipologia de João Freire referente aos sistemas de produção
nos serviços, as análises de Jean Gadrey do produto nos serviços, as críticas à
sociedade dual de André Gorz, as tipologias de Alain d´Iribarne referentes às
profissionalidades na indústria e nos serviços e as propostas de Philippe
Zarifian para uma sistemática no tratamento e definição do conceito de serviço
e da sua valoração e avaliação constituem, na década presente, as únicas
propostas teóricas consolidadas na temática. Por outro lado e em termos
conceptuais as obras destes autores constituem a base do acervo que, em nosso
entender, integra os contributos mais relevantes para o actual estado da arte
sobre estas problemáticas.
A tipologia de Freire e o enfoque no sistema empresarial: da década de 1980 à
década de 2000
Na investigação, pioneira em Portugal, de Freire, referente aos encarregados na
indústria, observaram-se separadamente dois principais tipos de mudanças
tecnológicas e organizacionais , tendo aplicado um novo conceito operatório de
sistema de produção para o qual o autor criou dois índices sistemáticos
(i.e., relativos aos modos de organização das entidades empresariais) um
concernente à estrutura, e um outro ao funcionamento organizacional ,
conceitos que foram ulteriormente integrados num esquema teórico mais elaborado
(Freire, 1991; 2001).
Já na década de 2000, o autor ensaiou a aplicação empírica dos índices de
estrutura organizacional e de funcionamento organizacional a uma amostra
representativa de empresas portuguesas, sendo que o índice de funcionamento
esteve depois na origem de um índice de modo de gestão empresarial, traduzido
numa escala ímpar com as designações de burocrático, de intermédio e de
flexível (Freire, 2002: 77-78).
Na proposta deste autor, os sistemas de trabalho correspondem a formalizações
teóricas que permitem descrever a forma estruturada e estável como se organizam
e combinam os diversos elementos presentes nos processos produtivos, incluindo
designadamente (Freire, 1997: 50-56, 85): o ambiente ou quadro ecológico
envolvente das situações de trabalho; a natureza do trabalho; as relações de
trabalho; a forma de aprendizagem; e o tipo de produção. Parte-se do princípio
de que a noção de sistema de trabalho pode ser traduzida no quadro de um modelo
teórico sistémico, onde existem em interacção vários subsistemas,
condicionando-se mutuamente mas sem se considerar qualquer carácter de
determinação intersistémica (Freire, 1997: 51). A partir dos subsistemas
retidos pelo autor técnico, económico, organizacional, profissional e
do movimento social este procede à construção de uma grelha de análise dos
sistemas de trabalho comportando alguns indicadores básicos, pormenorizados no
quadro 1.
Quadro 1 Grelha de análise de postos de trabalho e tipologia de sistemas de
trabalho
A proposta sequencial de Freire é a de apresentação de uma tríade de sistemas
de trabalho, tendo como característica fundamental a convergência sobre um
deles.
Para o autor, estes três tipos de sistemas de trabalho não podem ser vistos
linearmente, como uma sucessão de modelos que se substituem no tempo e
implicando a exclusão dos demais (Freire, 1997: 24-56): apenas em certos
períodos históricos um dado sistema representa o modelo fundamental presente
numa sociedade e na sua economia; assim, se o sistema fabril pareceu, em dada
altura, eliminar o sistema de ofício, ficou mais tarde patente que isso não
acontecia, tendo-se antes assistido a uma recuperação das suas potencialidades;
por outro lado, se a noção de sistema empresarial só se tornou possível depois
do pleno desabrochar do sistema fabril, uma tal constatação não indica que este
último não irá ainda subsistir longamente. Aliás, as recentes análises e
propostas de entendimento do trabalho moderno retomam o conceito fabril de
ofício, associado a uma produção artesanal mais abrangente, e transversal a uma
economia técnica de serviços materiais e imateriais (Sennett, 2009: 8-9).
É de relevar o facto de que esta reconcentração sobre o sistema empresarial
reforça, do nosso ponto de vista, o interesse analítico da noção de empresa de
serviço (Almeida, 2003a: 11 e ss.); além disso, convirá explicitar que a
tipologia de Freire (figura 1) referente às dinâmicas de convergência sobre o
sistema empresarial no final da década de 1990 inclui o sistema de ofício,
o sistema fabril e o sistema empresarial (Freire, 1997: 53- 56).
Figura 1 Dinâmicas de convergência sobre o sistema empresarial no final da
década de 1990
Detalhando, o sistema de ofício assenta na importância decisiva do trabalho-
saber, na relevância assumida pela progressão profissional, sendo baseado num
modo de produzir casuístico, unitário, original ou fracamente seriável; este
sistema engloba o perfil do operário de ofício, artesanal, e pode corresponder
a actividades de prestação de serviços imateriais ou de pequeno comércio, às
profissões liberais tradicionais ou a novas ocupações qualificadas, ao trabalho
científico e artístico, ou a boa parte do trabalho independente.
O sistema fabril baseia-se na substituição progressiva, e em grande extensão,
do trabalho-saber pelo trabalho-máquina, combinado com doses mais ou menos
importantes de trabalho-força para uma produção em série e normalizada nos seus
produtos e nos procedimentos produtivos; neste sistema, as qualificações e o
conhecimento distribuem-se de maneira muito desigual entre trabalhadores e
entre os diversos órgãos funcionais, pelo que a organização unifica-se,
formaliza-se e centraliza-se.
O sistema empresarial assenta na sofisticação tecnológica que permite
a flexibilidade produtiva, com a utilização de uma maquinaria que tende a
tornar-se mais soft, sendo que o trabalho-força desaparece quase completamente
dando lugar a formas de combinação diversas de trabalho-saber e de trabalho-
máquina; segundo o autor, é aqui que as diversas profissionalidades e
qualificações encontram um espaço para reencontros, numa lógica de legitimação
de centralidade da ideia de empresa, onde se abre espaço para as tecnologias
automáticas de produção e de informação, para o marketing, e para as
actividades industriais e saliente-se de serviços.
Mais recentemente, e já na década de 2000, Freire avança com um desenvolvimento
das suas análises do trabalho, ensaiando a aplicação de um modelo de sistemas
operativos PTU processamento, trabalho, utente, particularmente direccionado
para o estudo das organizações terciárias e do tipo de actividades de trabalho
que aí são desenvolvidas (Freire, 2001: 6-7, 16-17).
Considerando que ainda se trata de um conceito em busca de operacionalização, o
modelo do autor inclui três indicadores: o primeiro (P) refere-se à noção de
processamento, i.e., aos principais elementos que são processados na
actividade normal da empresa/tratados na organização; o segundo (T) é referente
ao trabalho, e indica a natureza do trabalho humano predominante na empresa
ou organização; e o terceiro (U) identifica o tipo de utentes que beneficiam
das actividades da empresa ou da organização (figura 2).
Figura 2 Modelo de "sistemas operativos PTU - processamento,
trabalho, utente" para análise das organizações de trabalho terciárias
Na fase de desenvolvimento em que se encontra o conceito, Freire entende que as
alternativas propostas como respostas a cada um destes quesitos não são
exclusivas, mas antes cumulativas.[1]
A figura 2 explicita, portanto, os três lados deste sistema operativo: o
conceito P o que é processado refere-se a materiais e mercadorias,
equipamentos, serviços, informação, conhecimentos, pessoas, património/espaços,
sentidos/significados, ou outros; o conceito T que tipo de actividade de
trabalho humano inclui os aspectos técnico (operação, condução ou reparação
de equipamentos), de transacção ou negócio, de prestação de serviços pessoais,
de manutenção e conservação de coisas e espaços, de tratamento sistemático de
informação, de investigação, relacional, comunicacional ou expressivo
(performativo), de controlo e segurança (de pessoas e espaços), ou outros; por
fim, o conceito U reporta-se ao tipo de clientes/"utentes"
pessoas, empresas, Estado, outros entes públicos, entidades associativas
sociais, ou outros que consomem/utilizam os serviços.
É de salientar ainda que Freire observou na operacionalização empírica do
modelo algumas frequências estatísticas significativas:
por exemplo, os escassos valores registados na operação de equipamentos, ou de
trabalho técnico nos serviços, ou ainda de clientes individuais entre os
utentes das empresas de comércio e restauração (em contraste com os clientes
empresariais). É também de assinalar a escassa expressão dos processos e do
trabalho simbólico, sobre sentidos e relacional, bem como do trabalho de
investigação e mesmo de tratamento de informação codificada, bem distantes dos
patamares percentuais alcançados por modalidades mais tradicionais como o
trabalho de negócio ou de atendimento. (Freire, 2001: 17)
As análises de Gadrey: crítica e reabilitação do utilizador e do produto
A proposta de Gadrey, por seu turno, é a da diferenciação relativamente às
análises que se referem explicitamente ao carácter improdutivo dos serviços
(imputando-lhes parte dos custos sociais considerados excessivos, contributo
essencial para as crises ou para o abrandamento no crescimento das economias
desenvolvidas) e das teorias que consideram o terciário como algo que se
assemelha a uma esponja ou a um refúgio, capaz de absorver o emprego em
momentos de crise (sem atribuírem necessariamente ao sector uma conotação
negativa).
Neste sentido, o autor associa a importância das actividades de serviços nas
sociedades contemporâneas a dois factores (Gadrey, 1992: 20-30, 120-122): por
um lado, uma crescente complexificação da produção, do consumo e das trocas e,
por outro lado, uma complementaridade entre bens produzidos e serviços
fornecidos. A primeira pode ser, segundo Gadrey, analisada a partir da dupla
transformação do how we produce (complexidade da organização produtiva) e do
what we produce (diversidade e diferenciação crescentes dos bens e dos
serviços, associada a uma maior rapidez nas trocas); a esta última encontra-se
adstrita uma complementaridade de necessidades ligadas quer à produção
(serviços para as empresas, formação, etc.), quer à distribuição e ao consumo
(este último associado a uma sucessiva sofisticação dos estilos de vida nas
sociedades desenvolvidas).
Gadrey cita a definição aventada por Hill, autor que define um serviço como a
transformação da condição de um indivíduo ou de um bem pertencente a um agente
económico, resultante da actividade de um outro agente económico, a pedido ou
com o consentimento do primeiro (Hill, 1977). Esta definição permite distinguir
o serviço como processo e o serviço como resultado (transformação do estado
de uma dada realidade); a noção destaca também o envolvimento dos agentes
económicos numa relação de serviço, a propósito de uma realidade a transformar
que constitui o suporte dessa actividade.
Qual é a proposta de Gadrey? Para este autor convém definir uma actividade de
serviço como uma operação visando a transformação de uma realidade C, na posse
ou utilizada por um cliente ou um utente B, e realizada por um prestador A, a
pedido de B e muitas vezes em interacção com este, mas não confinada a um
produto final susceptível de circular economicamente independente do suporte de
C (Gadrey, 1992: 3, 16-19; 1994: 23-41; 1996: 169-172).[2] É justamente este
modelo de prestação de serviços que o autor representa graficamente por um
triângulo, em que cada um dos lados corresponde a um dos três elementos
primordiais da sua definição (figura 3).
Figura_3 Modelo triangular de prestação de serviços
Complementarmente, Gadrey avança também com uma tipologia que inclui quatro
tipos de serviços, e os seus respectivos conteúdos (Gadrey, 1996: 75-87). Em
primeiro lugar, os serviços com forte dimensão de tratamento material de
suportes técnicos.[3] Em segundo lugar, os serviços intelectuais aplicados a
saberes produtivos organizados, tratando-se de serviços mercantis ou não
mercantis[4] aplicados não a bens (daí a designação de imateriais ou
incorpóreos) mas condicionando a produção, a organização e a gestão desses
bens.[5] Agrupam-se numa terceira categoria os serviços aplicados aos saberes
e capacidades dos indivíduos no consumo final, incluindo aqueles de que os
particulares são beneficiários de um modo individual, sendo estes menos
tangíveis ou mesmo imateriais.[6] Por último, e correspondendo a uma quarta
categoria, também o resultado final das actividades dos serviços de
organização e gestão poderá ser considerado imaterial, tratando-se aqui de
actividades de carácter administrativo, no sentido mais lato do termo.[7]
Mas a insatisfação do autor em relação à abrangência da sua primeira definição
de serviço a qual possui, na sua argumentação, interesse quanto ao seu
desiderato de conceito tipológico para a análise das diversas situações de
serviço e das relações sociais a elas adstritas leva-o a propor uma extensão
do conceito adaptável à problemática da diversidade dos fundamentos de valor
para os serviços prestados (Gadrey e Zarifian, 2002: 60-62, 161).
Postula-se que, nos sistemas capitalistas desenvolvidos, existe produção
económica de serviços quando se está perante um de dois casos. Primo, quando
uma organização A, que possui ou controla uma capacidade técnica ou humana
(podendo falar-se de competências neste caso), vende (ou propõe a título
gratuito se se tratar de serviços não comerciais) a um agente económico B o
direito de uso dessa capacidade e dessas competências por um dado período de
tempo, para produzir efeitos úteis sobre o referido agente económico B ou sobre
os bens C (objectos ou sistemas materiais, informações, indivíduos nas
dimensões físicas e intelectuais, organizações) que ele possui ou pelos quais é
responsável. Secondo, quando um intermediário ou um consumidor final emprega
ele mesmo um assalariado para se ocupar dos seus bens ou da sua pessoa (ou, em
certos casos, de pessoas em relação às quais esse indivíduo possui um grau de
responsabilidade delegável).
Para Gadrey podem então distinguir-se três situações. Primeiro, e em certos
casos, essa utilização toma a forma de uma intervenção solicitada por B, sobre
um suporte C detido ou controlado por B (pelo que se pode falar de modelo
triangular de prestação de serviços (representado na figura_3 a que já
aludimos), sendo esta uma situação corrente nas prestações de serviços dos
bancos aos clientes, como a gestão dos depósitos ou o aconselhamento
financeiro, por exemplo). Numa segunda situação, essa prestação resume-se à
utilização temporária por B de uma capacidade técnica posta à sua disposição
por A (como são os casos do aluguer, do arrendamento ou da locação).
Finalmente, há os casos de uma representação humana (acompanhada pelo seu
suporte técnico) que A organiza e à qual B assiste (no sentido de uma
performance teatral, cinematográfica ou musical, por exemplo).
Portanto, a prestação de serviços reparte-se por três lógicas, particularizadas
segundo uma duplicidade de critérios (figura 4): por um lado, o modo de
activação desse agente económico em relação às capacidades e às competências
utilizadas (procura de serviço ou decisão de se servir) e, por outro lado, a
natureza (técnica ou humana) das capacidades com as quais o agente económico
contacta a título principal, e para as quais o autor faz referência explícita à
noção de competências mobilizadas.
Figura 4 Três tipos de lógica de prestação de um serviço
Da sociedade de serviços à sociedade dual: Gorz e a produção macrossocial e
efeitos de uma sociedade dos serviços
No raciocínio de Gorz que se posiciona numa perspectiva simultaneamente
crítica e reflexiva as preocupações passam pela discussão em torno da
problemática da libertação do trabalho com finalidade económica, pela redução
da sua duração e pelo desenvolvimento de outro tipo de actividades
(designadamente de serviços) que confeririam um sentido positivo às economias
de trabalho assalariado.
Para este autor, o projecto de uma sociedade do tempo livre, onde cada
indivíduo possa trabalhar menos com uma finalidade económica a fim de que todos
possam trabalhar melhor e viver mais, tornou-se um dos pilares da coesão social
na década de 1990 (Gorz, 1988; 1997). Neste sentido, a teoria dos serviços de
Gorz representa uma interpretação alternativa para a problemática da passagem
de uma sociedade industrial a uma outra formação social: parte-se da
constatação da existência de um número progressivamente superior de empregos
atípicos[8] que segue a par com um desinvestimento nas indústrias de
equipamentos clássicas (Gorz, 1997: 49-92).
Retomando a discussão acerca da terciarização das actividades, para Gorz
assistir-se-ia, ao longo das décadas de 1970 e de 1980, ao surgimento de uma
sociedade de serviços. Neste tipo de sociedade, um segmento importante do todo
social possuiria rendimentos bastante elevados e teria como interesse
estratégico (de acordo com a racionalidade económica dominante) deixar para
outros uma série de tarefas domésticas (que eles mesmos poderiam assegurar),
mesmo com o risco de ver a sua autonomia e a sua capacidade de execução
reduzidas. Um outro segmento, bastante numeroso, seria constituído por uma
massa crescente de novos trabalhadores domésticos: nova no sentido de que se
trataria de assalariados dos serviços comerciais, não empregados numa relação
de dependência.
Na tese de Gorz, o sector que se desenvolve e que cria empregos é o dos
serviços. Ora o autor entende que um serviço corresponde, precisamente, a um
trabalho executado na proximidade do seu utilizador, sob o seu controlo e
sujeito a lógicas de (des)valorização e de disponibilidade (figura 5): no
quadro deste tipo de divisão do trabalho Gorz sustenta que o trabalho se torna
um factor de produção subalterno e que a classe operária (entenda-se, os
trabalhadores não qualificados dos serviços) já não pode aspirar a qualquer
forma de hegemonia (Gorz, 1997: 121-178).
Figura 5 Modo de produção de serviço e envolventes societais
Portanto, e na argumentação de Gorz, caminha-se-ia para uma sociedade dual: por
um lado, verificar-se-ia a continuidade de um sector racionalizado e com uma
produtividade muito elevada (para a qual o contributo da disseminação da
microinformática teria sido decisivo) e, por outro lado, observar-se-ia o
crescimento de um sector de serviços personalizados e directos, cujas
principais características incluiriam a impossibilidade da sua racionalização e
a sua fraca produtividade (este sector alimentar-se-ia da perda de empregos
gerada no primeiro segmento). Para o autor, este segundo sector não é
comercial na acepção mais corrente do termo, uma vez que os serviços que
presta não são mensuráveis, normalizáveis ou armazenáveis, dado que estes são
prestados num dado contexto mercantil mas possuem, de facto, um carácter mais
comunitário.
Trata-se, então, da criação de dois sectores heterónimos designados por Gorz
como comercial e não comercial , cuja coexistência o autor acredita ser
possível no quadro de um Estado regulador dos mercados e distributivo dos
valores e dos rendimentos dos bens do sector concorrencial, de forma a
alimentar o segundo terciário.[9]
A tipologia de Iribarne: profissionalidades e reformulação da noção de sistemas
de trabalho
Numa perspectiva mais microssocial, Iribarne inclui dois aspectos na análise do
trabalho moderno: por um lado, o exame das relações do titular do posto de
trabalho com os produtos, os serviços, os equipamentos, os métodos e os
procedimentos; e, por outro lado, a análise das relações desse titular com os
outros indivíduos.
Semelhante abordagem implica situar o trabalho de cada indivíduo em termos
técnicos, organizacionais e sociais (Iribarne, 1993: 62). É, porém, a questão
da existência de uma variável tecnológica determinante na organização dos
sistemas de trabalho que conduz o autor a propor um esquema teórico mais
global, na tentativa de ultrapassar as limitações da sua aplicação às situações
de trabalho industrial. Nesta tipologia de Iribarne podem ser retidos três
grandes sistemas técnicos de trabalho (quadro 2), cuja aplicação será depois
desenvolvida e estendida pelo autor pese embora com alterações aos serviços
(Iribarne, 1993: 62, 67-68).
Quadro_2
Sistemas de trabalho aplicados à indústria e aos serviços
O sistema homem-produto corresponde a uma transformação do produto
exclusivamente manual, pelo que o operário intervém apenas com utensílios na
elaboração do produto que controla directamente, sem a intervenção de
equipamentos na sua transformação (pertencem a este sistema todas as
actividades artesanais e as actividades industriais arcaizadas, como as
misturas e separações nas cadeias da indústria alimentar, por exemplo). O
sistema homem-máquina sistema intermédio , equivale às situações em que o
operário utiliza máquinas ou outros dispositivos para transformar ou intervir
sobre os materiais, mantendo com estes uma relação de proximidade física e
psicológica (este tipo de sistema predomina nas indústrias manufactureiras
semiautomatizadas, ou automatizadas, como as máquinas-ferramenta com comando
digital, por exemplo). Por fim, o sistema máquina-produto caracteriza-se por
uma relação de transformação que é mediatizada pela concepção dos equipamentos,
em instalações de produção automatizadas de tal modo que aos operadores cabe
apenas vigiar e controlar os processos de transformação (através de elementos
simbólicos de informação, ou por intermédio de automatismos de regulação) sem
qualquer contacto com os materiais ou os produtos (este sistema corresponde a
todas as salas de controlo nas indústrias de processo, como a indústria
química, a indústria cimenteira ou a indústria de papel, por exemplo).
Um facto digno de nota refere-se à antinomia estabelecida nesta tipologia de
Iribarne entre as profissionalidades requeridas para as actividades ligadas à
produção e os empregos correspondentes a outras funções industriais. Na
concepção do autor, as situações profissionais de fabricação requerem uma
profissionalidade assente sobre uma capacidade para compreender a função do
sistema técnico de fabricação e para ajustar as intervenções do trabalhador em
função de situações concretas do seu desempenho, ou de representações
abstractas (simbólicas ou conceptualizadas) adquiridas pela via da formação
(isto para os casos dos sistemas máquina-produto). Por seu turno, os empregos
correspondentes a outras funções industriais não ligadas à produção implicam
referências mais constantes a corpus de conhecimentos organizados em torno das
tecnologias: os trabalhos de manutenção, de escritório ou de laboratório são
paradigma desta fundamentação, assente sobre uma profissionalização do tipo
homem-máquina (aqui retida pelo autor enquanto progressivo domínio da
influência dos produtos e dos equipamentos sobre os conteúdos de trabalho, sem
existir uma passagem para um sistema do tipo máquina-produto).
Partindo das proposições antecedentes, o autor ensaia uma analogia entre as
transformações na indústria, a evolução das suas profissionalidades e as
transformações nos serviços (quadro_2) podendo na sua argumentação reter-se
analogamente três grandes sistemas de trabalho (Iribarne, 1993: 70-72).
Mais do que na indústria, é no caso dos serviços que estes três sistemas
coexistem nos mesmos sectores ou nas mesmas empresas, fazendo recurso ao modelo
de organização taylorista. Segundo Iribarne (1993: 70), a passagem de um
sistema a outro faz-se por uma de três razões: por um acréscimo da distância
entre os clientes e os níveis técnicos de decisão; por um prolongamento e uma
decomposição crescentes dos circuitos de tratamento de dados; ou por uma
aplicação crescente da informática na gestão, no tratamento de operações e na
prestação de serviços.
Temos assim: um sistema do tipo artesanato evoluído, correspondendo ao
trabalho independente ou liberal, em que existe um contacto directo entre o
profissional e os seus clientes (este acompanha as profissões regulamentadas,
inclui colaboradores formados pela via da aprendizagem e um pessoal de apoio em
número limitado); uma organização burocrática desenvolvida nas médias e
grandes empresas, assente na normalização das prestações e dos procedimentos (a
expansão destes sistemas é acompanhada por uma multiplicação de locais de
contacto com a clientela, confiados a pessoal formado nas operações próprias do
sector como, por exemplo, as operações bancárias ou da segurança social, sendo
que o tratamento de dados tende a ser realizado em unidades de exploração
centralizadas que recorrem à mecanização); e, por fim, uma organização
automatizada, onde existe um vasto recurso à mecanografia e, posteriormente, à
informática (o computador enquanto utensílio integra o conjunto dos
procedimentos de tratamento, de gestão e de estocagem das informações
estandardizadas, para as quais possibilita ganhos importantes na produtividade
do trabalho e na performance das empresas).
Curiosa é ainda a referência às profissionalidades presentes no terciário. De
entre estas, Iribarne destaca a dupla evolução das funções de enquadramento,
fundada na tecnicidade e no desenvolvimento das grandes organizações
burocráticas. A sua tecnicidade corresponderia ao desenvolvimento de
especialidades de nível elevado (de marketing, de direito do trabalho ou de
gestão contabilística, por exemplo) susceptíveis de criar necessidades em
competências muito pontuais, com um número reduzido de efectivos a recrutar
pelas empresas. Por seu turno, a burocratização (que implica procedimentos
múltiplos e diversas necessidades de coordenação) traduzir-se-ia pela
multiplicação do número de escalões hierárquicos, resultando numa
estratificação entre as grandes categorias de pessoal, designadamente entre
quadros médios e superiores: a profissionalidade dos primeiros corresponderia,
então, ao domínio dos procedimentos das empresas, e a profissionalidade dos
segundos ao domínio das estratégias empresariais, facto que também se traduz
nas formas de racionalidade organizacional.
As propostas de Zarifian: lógica da competência e da avaliação dos resultados
do serviço
Completando este périplo por cinco das principais abordagens ao trabalho no(s)
serviço(s), é Zarifian quem apresenta uma extensão da noção de serviço (no
singular) às novas formas de dividir e de avaliar a produção i.e., de
produzir um serviço independentemente do sector de actividade económica
(Gadrey e Zarifian, 2002: 90).
Este autor considera que se pode observar a persistência de formas tayloristas
de organização do trabalho em determinados sectores da mão-de-obra
(particularmente da mão-de-obra feminina), mas a verdade é que as novas
realidades empresariais não invalidam uma outra hipótese, segundo a qual o
núcleo do modelo clássico de organização estruturado desde o século transacto
se encontra enfraquecido nas suas bases (Zarifian, 1999a: 108-115). Um tal
fenómeno verificar-se-ia, na tese do autor, porque as teorias de eficácia (que
constituem esse núcleo) se encontram desadequadas à realidade técnico-económica
assim como às configurações dos meios e dos objectivos que condicionam a
formação do valor na economia actual.
Partindo desta proposição, Zarifian esboça uma definição de serviço elaborando
uma dupla abordagem do valor do serviço, construída a partir dos seus
efeitos e a partir dos seus recursos (Gadrey e Zarifian, 2002: 99). Primo
e na abordagem do serviço a partir dos seus efeitos , o serviço equivale a uma
transformação nas condições de actividade do destinatário, nomeadamente nas
suas disposições para a acção, com efeitos julgados válidos e positivos por
esse destinatário e/ou pelo colectivo. Secondo e na abordagem do serviço a
partir dos seus recursos , o serviço corresponde a uma organização e a uma
mobilização o mais eficiente possível de recursos (e logo de competências
vivas) para interpretar, compreender e gerar a transformação anterior (i. e.,
nas disposições para a acção de um dado destinatário), sendo essa eficiência
avaliada pela direcção de uma dada organização, pelos seus assalariados e mesmo
pelo destinatário quando este age, ele próprio, como um recurso.
Note-se que na tese do autor a ordem de factores nesta definição não é
arbitrária, pois a abordagem do serviço a partir dos seus efeitos comanda a
abordagem do serviço a partir dos seus recursos.[10] Todo o serviço, na
perspectiva do autor, se encontra submetido a uma avaliação baseada numa
relação entre três elementos (figura 6): o que é esperado ex ante, ou seja, as
expectativas de serviço e as expectativas construídas sobre os seus efeitos; o
que é realizado ex post, tratando-se aqui de conhecer os efeitos produzidos
pelo serviço e de avaliar em que medida estes correspondem às expectativas
iniciais; e o modo de obtenção do serviço, ou seja, a prestação propriamente
dita e a forma como o percurso seguido é considerado válido pelo destinatário
e/ou pelo colectivo.
Figura_6 Formas de valor de produção de um serviço e formas de avaliação
(jugement) dos seus efeitos
Posto isto, Zarifian propõe-se encetar uma reflexão a três níveis (Gadrey e
Zarifian, 2002: 94-100): em relação às formas de produção de valor de um
serviço, acerca dos seus efeitos (avaliações) e sobre as racionalidades sociais
associadas à produção de sentido para a sua utilidade final (numa acepção da
ética e da moral weberianas).
Quanto às formas de valor do serviço, Zarifian considera quatro (figura 6).
A abordagem ao valor-trabalho foi, na sua perspectiva, completamente
desenvolvida por Marx, designadamente através da distinção que este autor
elabora entre o trabalho cristalizado em formas de capital constante e
variável, fixo e circulante (máquinas, matérias-primas, etc.) e as forças de
trabalho assalariadas, ou seja, as que se encontram envolvidas no processo
produtivo e que acrescentam uma mais-valia ao que é produzido (e em torno da
qual se estruturam os conflitos entre o salário pago e o lucro). O valor de
uso, pelo seu lado, diz respeito a uma ideia de bom senso, segundo a qual uma
dada mercadoria não será vendável caso não participe potencialmente num
processo de consumo (produtivo ou final). O valor perfomance é entendido pelo
autor como a representação do valor sob a forma de um sistema complexo que
inclui custos, qualidade, prazo, variedade e inovação; este marca a introdução
da figura do cliente como um dos seus referenciais e, portanto, de uma lógica
de serviços.[11] Em quarto lugar, o valor financeiro do trabalho possui uma
importância considerável, pois operou, segundo o autor, uma deslocalização das
formas de apreensão das relações sociais,[12] designadamente da expressão
formalizada do capital-trabalho (valor trabalho) e da relação concorrencial
(valor perfomance) para a relação de propriedade e de controlo do capital pelos
accionistas e dirigentes empresariais.
Também a problemática da avaliação se torna central para compreender os efeitos
julgados válidos e positivos pelos destinatários. Não é introduzido, na
formulação de Zarifian, um intermediário (pessoa, bem ou realidade) entre a
realidade e os destinatários do serviço, pois, se a transformação operada pelo
serviço é nas condições de actividade do destinatário, esse intermediário (um
tratamento adequado de uma doença, um novo tipo de aço desenvolvido para um
cliente específico, por exemplo) é um meio para realizar o serviço e uma causa
eficiente da sua produção, mas não representa o serviço enquanto tal. Gadrey
responde criticamente à noção de serviço proposta por Zarifian: para Gadrey
falta a Zarifian considerar a operação visando a transformação de uma realidade
C, uma vez que esta é subsumida como um meio para realizar esse serviço. Mas
também Gadrey considera a definição de Zarifian de alcance limitado, dado o seu
carácter normativo na tipificação do que se devem considerar os efeitos
julgados válidos e positivos pelos destinatários (que Gadrey prefere remeter
para o plano dos jogos na construção social de convenções entre actores). Ora
serão justamente, para Gadrey, os meios de obtenção do serviço final e a sua
organização social (interacções, relações de propriedade e modos de
apropriação) que conferem especificidade à situação social de prestação de um
serviço (Gadrey e Zarifian, 2002: 57-161).
Nesta medida, para Zarifian (Gadrey e Zarifian, 2002: 101-114) o serviço
encontra-se sujeito a quatro tipos de avaliação, tal como esquematizámos
anteriormente (figura_6).
Desde logo, a uma avaliação de utilidade que corresponde à produção de efeitos
úteis sobre a actividade de um destinatário, sendo que o autor argumenta que a
verdadeira utilidade reside na transformação das condições de actividade e,
além disso, é no uso que os efeitos do serviço se revelam.[13] Em segundo
lugar, o serviço encontra-se sujeito a uma avaliação de justiça,
particularmente presente na noção de serviço público e expressa em termos de
direitos adstritos a normas públicas e sociais (direito à saúde, à educação,
por exemplo) e em termos de destinatários (indivíduos, ou associações de defesa
dos seus direitos). No que diz respeito à avaliação de solidariedade, esta
encontra-se associada a um número considerável de efeitos procurados pelos
destinatários na estruturação dos seus modos de existência, expressa através do
significado associado à ideia de prestar um serviço a (quer quando se trata
de trabalho social, ou quando estão em causa normas de urbanidade ou de
cordialidade indispensáveis a uma interacção nas formas de serviço prestado por
empresas privadas). Em quarto lugar, Zarifian acrescenta à sua tipologia uma
avaliação estética do serviço, adstrita a uma transformação provocada no plano
emocional e ético dos destinatários. Todavia, este autor considera que este
tipo de avaliação não se encontra acantonado aos bens culturais, sendo
solicitado na quase totalidade das actividades humanas (implica uma noção de
partilha intersubjectiva de uma concepção estética, que é extensível quer a uma
máquina quer a uma relação entre dois sujeitos).
Considerações finais
Tal como observámos neste panorama necessariamente diacrónico de
alternativas conceptuais para a noção de serviço, as suas formas de definição e
a estruturação das suas perspectivas de análise apresentam, naturalmente,
diferenças significativas quando particularizamos as abordagens dos diversos
autores.
O que nos interessa especialmente é a disseminação nas sociedades avançadas
de uma lógica de serviço que contempla diversas características (Almeida,
2005; 2009; 2011): a estruturação das empresas de serviço de forma a potenciar
a construção de acervos de informação pertinentes e actualizados sobre os
clientes-utentes, que devem ser ulteriormente mobilizáveis para uma
identificação das suas singularidades; a organização das actividades de
trabalho de modo a que estas contribuam para a co-produção de respostas
adaptadas aos problemas dos clientes; e a pressão no sentido de uma
recomposição das tecnologias de produção e da logística relacional, em
processos de co-produção de serviços e com autoformação de competências.
É esta a noção de empresa de serviço que temos vindo a desenvolver nos nossos
trabalhos e para a qual as cinco tipologias supra são um contributo importante,
orientador de problematizações presentes e futuras. Trata-se de apreender a
produção de serviço nas suas relações com a oferta de serviços e com as
estratégias das organizações, pensadas em termos de objectos, de conceitos, de
constrangimentos da acção e de actores centrais para uma sociologia do trabalho
aplicada aos mundos de produção e de trabalho terciário.
Uma tal abordagem sociológica propor-se-ia, então, identificar os objectivos e
os recursos da produção, em ligação com a análise da oferta de serviços,
colocando a questão do estatuto e do papel do cliente na produção e do carácter
pluriobjectivo desta produção. Além disso, seriam também aspectos a considerar
a organização da produção e das estruturas (lógica de agrupamento das
actividades, dimensão das actividades, formas de coordenação), o perímetro e
articulação entre o back office e o front office, e a estrutura e a organização
dos sistemas de informação. Depois, ainda seria de interesse analisar as formas
de condução da produção em termos de objectivos para as performances, bem como
o sistema de animação dessa produção, relacionando-o com as competências dos
trabalhadores, o sistema de avaliação, o sistema de remuneração e as políticas
de formação. Por fim, alguns dos ulteriores domínios de estudo poderiam incluir
as funções da produção contemporânea no domínio dos serviços e o papel da
informação na delimitação dessas funções, a integração da variável espaço, ou
ainda a produção de serviços públicos (Almeida, 2003; 2009). Interessará
analisar quais são os processos associados à produção social de valorização dos
bens de serviço. Poderá também interessar conhecer qual o impacto da emergência
do modelo de empresa de serviço para a organização e para a estruturação do
mercado de trabalho em Portugal, e qual o papel aqui reservado aos actores
sociais colectivos (Almeida, 2003; 2009).