Estratégias de estudo dos alunos no âmbito dos processos de socialização
Introdução
Muito daquilo que é o processo global de aprendizagem dos alunos nos nossos
dias processa-se fora da sala de aula (OCDE, 2005). Neste âmbito, em muitos
países o trabalho desenvolvido em casa representa a maior parte do tempo de
aprendizagem dos alunos (OCDE, 2002: p. 280). É, pois, reconhecido que o tempo
que os alunos despendem em casa a aprender é um ingrediente fundamental para o
seu desempenho escolar. Na compreensão deste trabalho dos alunos definem-se
três grandes actores essenciais: os alunos, porque são eles que o fazem, os
professores, porque muitas vezes marcam trabalho e influenciam para estudar em
casa, e os pais, porque providenciam as condições onde esse trabalho se
desenvolve e facultam níveis diferenciais de influência para esse fim (Hong e
outros, 2004).
Se o trabalho desenvolvido em casa pelos alunos representa, em inúmeros países,
a maior parte do seu tempo de aprendizagem, fomos procurar perceber, no caso
concreto de Portugal e, mais especificamente, dos alunos de algumas escolas de
Lisboa, o tipo de trabalhos que eles desenvolvem em suas casas, desde logo, no
caso das ciências, o tempo que eles afectam às diferentes fontes de informação
disponíveis para o estudo dessa unidade curricular (manual, apontamentos das
aulas, visionamento de documentários científicos televisivos e uso de outras
fontes: livros e revistas científicas e as TIC).
Neste âmbito, sabendo-se que muitas das actividades que as crianças desenvolvem
em suas casas, desde logo as que implicam maiores níveis de responsabilidade,
são condicionadas pelas famílias, cabe perguntar: qual o papel que estas
exercem no âmbito do trabalho autónomo dos alunos?
Paralelamente, sendo reconhecido o efeito de influência que a acção pedagógica
dos professores tende a exercer sobre os alunos, desde logo ao nível das
respectivas estratégias de estudo, de que forma se joga essa influência deste
agente socializador face àquela que é exercida familiarmente?
Este é o questionamento central em torno do qual orientámos esta investigação.
Estudo dos alunos em casa
O papel dos pais/educadores
O envolvimento dos pais nos trabalhos dos alunos é fundamental porque, ao longo
desse estudo, podem ocorrer dúvidas que eles podem ajudar a esclarecer (Reach e
Cooper, 2004) e porque através desse envolvimento os pais contribuem para que
essas crianças desenvolvam bons métodos de estudo, porque a capacidade de
seleccionar fontes, de encadeamento dos conhecimentos conseguidos, etc. faz
parte de um continuum de procedimentos que só se desenvolvem gradualmente e,
não raramente, através do exemplo (Bempechat, 2004; Cooper e outros, 2001;
Corno e Xu, 2004). Em termos dos mecanismos consubstanciadores desse processo
de estruturação, Bourdieu e Passeron (s.d.) salientam que a estrutura de
significações do real objectivada pelos familiares às crianças o habitus tem
uma força global orientadora da aprendizagem de conteúdos, métodos de
aprendizagem, etc., e é inculcada através de mecanismos de constrangimento ou
influência mais ou menos recônditos.
Paralelamente, ainda no âmbito deste contexto familiar, o papel decorrente das
condições materiais de apoio ao estudo dos alunos constitui uma outra dimensão
relevante e que pode condicionar as suas estratégias de estudo(OCDE, 2005),
desde logo tendo em conta a diversidade de fontes de informação que lhes são
disponibilizadas para o desenvolvimento do seu trabalho em casa. Em todo o
caso, o tipo de apoio e influência familiares varia consideravelmente consoante
as famílias (Lee e Heyworth, 2000), desde logo em função do respectivo nível de
instrução (Shumow e Miller, 2001, cit. em Cosden e outros, 2004).
Mesmo com esta elevada força socializante, ainda assim, as objectivações do
real fornecidas em casa às crianças e jovens não são interiorizadas por estas
de uma forma mimética. Efectivamente, verificam-se apropriações características
decorrentes dos dados idiossincráticos das mesmas (Berger e Luckmann, 1987).
Paralelamente, o próprio visionamento televisivo, efectuado pelos alunos,
também se consubstancia no habitusfamiliar (Lazar, 1998; Pinto, 2000). É o caso
do tempo que as crianças e jovens dedicam ao visionamento de programas
didácticos e científicos, cujo valor pedagógico em termos das respectivas
estratégias de estudo discutimos noutro momento (Dias, 2009), e que resulta, em
grande parte, da influência familiar para esse fim (Alexander, 2001; Buerkel-
Rothfuss e Buerkel, 2001; Lazar, 1998). Seja como for, também neste caso existe
uma margem de autonomia não negligenciável, quer no tipo de programas vistos,
quer na sua frequência, em função da idiossincrasia dos alunos, o que
relativiza uma vez mais o papel da família nesse âmbito (Alexander, 2001).
O papel do aluno: relevância dos níveis motivacionais
Ainda no âmbito do processo de interacção criança-família, Coutts (2004)
salienta que é necessário perceber melhor as perspectivas das crianças sobre os
trabalhos que elas desenvolvem em casa, porque muitas das razões que as levam a
fazer esses trabalhos são extrínsecas. Porém, se se espera que elas venham a
desenvolver através deles qualidades tais como espírito de responsabilidade,
envolvimento, etc., tem de haver também uma componente intrínseca (Coutts,
2004). Esta questão remete, antes de mais, para os níveis motivacionais das
crianças face ao estudo e à disciplina de ciências. De facto, os níveis
motivacionais dos alunos (motivação intrínseca) têm sido apontados como
factores fundamentais para explicar o afinco com que eles se dedicam às
ciências e ao seu estudo (OCDE, 2004; Singh e outros, 2002). Efectivamente,
tem-se verificado que os alunos mais motivados são os que mais estudam,
ganhando, tendencialmente, maior confiança nas suas competências para vencer os
desideratos escolares e indo ao encontro dos interesses do professor, obtendo,
por isso, reforços positivos que aumentam ainda mais os seus níveis
motivacionais (Bempechat, 2004). Esta questão, por outro lado, não pode ser
desligada da motivação que os alunos podem ter pelas ciências pelo facto de
essa disciplina integrar o plano de estudos de todos os cursos que dão acesso à
área científica. Falaríamos aqui de uma motivação extrínseca, geralmente
socializada mas, também, com uma vertente autónoma relevante (OCDE, 2005;
2006).
O papel do aluno: relevância do género
Paralelamente, o género dos alunos parece deter também alguma relevância
explicativa neste âmbito das estratégias de estudo. De facto, para além de
diferenças de aproveitamento em ciências entre ambos os sexos, são apontadas
dissemelhanças fundamentais em termos das respectivas estratégias de estudo
(OCDE, 2003; 2004).
O papel do professor
Os processos de socialização primária, que perspectivámos antes, não encontram
somente nas interiorizações idiossincráticas da realidade por parte dos alunos
as razões dos desvios ao seu quadro normativo. De facto, os processos de
socialização secundária, entre eles o processo de ensino-aprendizagem escolar,
sobrepõem-se com uma força não negligenciável e, não raramente, operam com
sinal contrário à socialização familiar, devido às descontinuidades estruturais
que decorrem do diferente posicionamento das famílias face à escola em função
dos respectivos lugares de classe ocupados. De facto, os níveis de influência
exercidos pelos professores para que os alunos estudem em casa em muito podem
condicionar os tempos que eles dedicarão ao estudo. É sabido, por exemplo, que
as orientações que o professor dá para o uso das TIC, nomeadamente a influência
que ele exerce sobre os seus alunos para que as usem, condicionam o uso que
esses mesmos alunos delas farão (Hinson, 2005).
Metodologia
Na constituição da nossa amostra, delimitámos três agregados populacionais cuja
composição relativa (tomando como critério a estrutura de lugares de classe
proposta na tipologia ACM) reflecte zonas essencialmente diferenciadas entre
si, cujo conjunto corresponde, no essencial, à cidade de Lisboa: bairros
históricos de Lisboa (Alfama, Mouraria, etc.); zona central de Lisboa, avenidas
novas e Restelo; zonas periféricas de Lisboa (Belém, Lumiar e Olivais, etc.).
Após termos identificado estas grandes zonas, retirámos aleatoriamente uma
freguesia com agrupamento vertical de ensino de cada uma delas e, em cada um
desses agrupamentos, inquirimos uma turma do 12.º ano, duas do 5.º e outras
duas do 7.º ano. Este procedimento permitiu-nos constituir uma amostra de 468
alunos, sendo 163 do 5.º ano (80 rapazes, 49,9%, e 83 raparigas, 50,9%), 198 do
7.º ano (95 rapazes, 48,0%, e 103 raparigas, 52,0%) e 107 do 12.º ano (51
rapazes, 47,7%, e 56 raparigas, 52,3%).
Utilizámos um questionário para inquirir os alunos sobre o conjunto de questões
que o estudo pretendia investigar.[1]
Tendo em conta o nosso objecto de estudo a confrontação dos níveis de
influência das duas principais agências de socialização para o estudo dos
alunos face àquilo que são as estratégias de estudo efectivas desses mesmos
alunos e o respectivo quadro teórico, perspectiva-se que as duas agências de
socialização exercem níveis diferenciais de influência ou constrangimento para
o estudo formal (pelo manual e apontamentos), para o visionamento de
documentários científicos e para o uso de outras fontes (Internet e/ou CD-ROM
e/ou livros e/ou revistas científicas). Por seu lado, os alunos adoptam face
a cada um desses três grupos de fontes de estudo uma prática efectiva mais ou
menos próxima ou distante das referidas orientações socializantes. Assim, em
termos de operacionalização empírica, perguntámos aos alunos: O teu professor
de ciências costuma incentivar-te para que estudes em casa? Fizemos uma
pergunta consentânea desta para a influência familiar. Posteriormente, para
estas duas perguntas procedemos a uma medição através do uso de escalas de
Likert com quatro opções de resposta: nunca, quase nunca, quase sempre, sempre,
a variar do nível mínimo (com peso zero) até ao nível máximo (ponderado com
três). Omitimos intencionalmente a categoria intermédia, para forçar os(as)
respondentes a decidirem-se claramente por um certo perfil de resposta,
evitando a tão frequente tendência central de resposta. As escalas continham
exactamente o mesmo nível de pontuação. Como o critério de classificação do
nível de influência da família e do professor foi sempre o dos alunos, então as
comparações dos níveis das escalas reflectem os mesmos critérios de apreciação.
Por exemplo, o aluno classificou a influência do professor para o estudo formal
com três e da família com dois, demonstrando estar sujeito a níveis de
constrangimento mais elevados por parte do professor do que dos congéneres
familiares. Urge salientar que se, por um lado, isso garante a fidelidade
interna das respostas dadas por cada aluno, tal não garante, por outro, que
aquilo que é classificado com um dois por um aluno não seja apreciado, por
exemplo, com um um ou um três por outro. Procurámos relativizar este erro
de medida através da consistência entre a pontuação numérica atribuída pelo
aluno e o teor da sua resposta a uma pergunta aberta descritiva que fizemos
questão de incluir para cada uma dessas escalas de Likert. Havendo elevada
discrepância, essa resposta foi excluída. Por sua vez, para caracterizarmos o
tempo de estudo formal dos alunos para ciências, facultámos-lhes três níveis de
escolha: Costumas estudar todos os dias para ciências? Se sim: Quantos
minutos por dia? Se não: Costumas estudar todas as semanas para ciências?
Se sim: Quantos minutos por semana? Se não: Quantos minutos estudas por mês
para ciências? Para a determinação dos níveis de visionamento de documentários
científicos e sobre o uso de outras fontes, utilizámos um procedimento
consentâneo deste, que referimos para o tempo de estudo formal.
Análise de dados
Escolas centrais e escolas periféricas: caracterização do perfil
sociodemográfico das turmas com as quais trabalhámos
Como referimos anteriormente, a nossa amostra compreendeu diferentes zonas de
Lisboa. No seu todo, agregámos em duas grandes zonas o conjunto dos nossos
dados: centro, bairros de prestígio, etc.; periferia, bairros problemáticos,
etc. Procuremos seguidamente caracterizar a composição diferencial das famílias
dos alunos segundo esses dois critérios dicotómicos que directamente
condicionaram a composição relativa das turmas por nós acompanhadas. A
estrutura de composição dos lugares de classe do primeiro agregado referido
apresentou, em média, mediante o uso da tipologia ACM, a seguinte distribuição:
assalariados executantes pluriactivos (AEpl): 0,9%; empresários, dirigentes e
profissionais liberais (EDL): 28,6%; empregados executantes (EE): 14,9%;
operários (O): 0%; profissionais técnicos e de enquadramento (PTE): 38,1%;
trabalhadores independentes (TI): 8,4%; trabalhadores independentes
pluriactivos (TIpl): 9,1%. Paralelamente, os níveis de instrução da mãe
(considerando o último ano concluído) correspondentes foram: 1.º ciclo (1%);
2.º ciclo (5%); 3.º ciclo (12%); secundário (32,1%); ensino superior e mais
(49, 9%). No seu conjunto, estes dados permitem caracterizar as escolas desta
zona como pertencendo a um contexto socioculturalmente favorecido, com um peso
claramente maioritário de lugares de classe mais elevados (EDL + PTE = 66,7%).
Correspondentemente, os níveis de instrução das mães dos alunos deste contexto
são bastante elevados: a maioria destas concluiu pelo menos o ensino secundário
(secundário + ensino superior e mais = 82,0%).
Vejamos agora a composição relativa do segundo agregado de escolas segundo os
mesmos critérios de caracterização: AEpl (11,4%); EDL 7,2%; EE (19,0%); O
(15,3%); PTE (20,0%); TI (7,2%); TIpl (20,0%). Níveis de instrução da mãe: 1.º
ciclo (22,2%); 2.º ciclo (13,7%); 3.º ciclo (19,8%); secundário (25,0%); ensino
superior e mais (19, 3%). Como se pode ver, este segundo contexto agregado com
o qual trabalhámos apresenta uma composição sociodemográfica claramente
distinta do primeiro: existe agora uma muito maior dispersão pelas diferentes
categorias de lugares de classe da tipologia ACM. Mormente, o somatório das
percentagens relativas dos lugares de classe adstritos a posições socialmente
mais elevadas é agora claramente minoritário (EDL + PTE = 27,2%) em favor dos
lugares de classe socialmente mais baixos. Consentaneamente, os níveis de
instrução das mães destes agregados familiares correspondem agora,
maioritariamente, ao ensino básico (1.º + 2.º + 3.º ciclos = 55,7%).
Estratégia de estudo dos alunos
Tempo de estudo formal para ciências (feito pelo manual e pelos apontamentos)
Do conjunto das diversas variáveis teoricamente identificadas com o tempo de
estudo formal das ciências (feito pelo manual e pelos apontamentos), em termos
dos nossos dados, apenas a influência familiar para esse tipo de estudo, o
género e o ano de escolaridade se revelaram estatisticamente associados (ver
quadro 1). Tomando a primeira relação identificada, verificámos que os tempos
de estudo formais para ciências aumentam em função do incremento da influência
familiar para esse tipo de estudo. Neste âmbito, aquilo que mais chama a
atenção é o facto de a influência do professor para o estudo formal não se ter
revelado estatisticamente significativa.
Quadro 1 Estudo formal (manual e apontamentos)
As respostas que os alunos deram para explicitar o tipo de influência exercido
do lado da família e do professor permitem aclarar esta ausência de influência
do professor. De facto, em mais de 57% das vezes, os professores limitam-se a
aconselhar ou a mandar estudar e/ou fazer os TPC. Ou seja, a sua acção é
essencialmente dispersa e generalista, não especificando, concretamente, os
termos e as metodologias que devem nortear esse estudo. Pelo contrário, é
quando analisamos o trabalho pedagógico desenvolvido no contexto familiar que
percebemos que é aí que a verdadeira gramaticalidade estruturadora das
estratégias de estudo se processa: neste âmbito verificámos a proliferação de
verbos de acção a determinar uma progressiva inculcação de formas de fazer/
proceder que, no seu conjunto e continuação, alicerçarão muito do que tais
estratégias virão a ser.
Tomando agora como referência as segunda e terceira relações identificadas,
entre o género e o ano de estudo dos alunos, verifica-se que as raparigas
tendem a estudar formalmente, em média, mais do que os seus colegas (18 minutos
de estudo semanal contra 13 dos rapazes). Essa relação é válida para os dois
primeiros anos estudados (5.º e 7.º) mas a tendência inverte-se para o 12.º
ano. Os alunos deste ano são os que mais estudam (26 minutos de estudo semanal
médio), seguidos dos seus colegas do 5.º ano (14 minutos) e, por fim, dos
colegas do 7.º (11 minutos).
Tempo de visionamento de documentários científicos (BBC Wild Life, National
Geographic, Discovery Channel, etc.)
As relações de associação identificadas para os tempos de visionamento de
documentários científicos sobre a natureza são próximas das que vimos para o
estudo formal, havendo apenas duas excepções a salientar: primeira, o ano de
estudo (ANO) não é agora importante para perceber os tempos de visionamento;
segunda, os níveis de motivação extrínseca dos alunos para as ciências são
agora importantes para perceber os tempos de visionamento. Verificámos que os
alunos que disseram atribuir maior valor às ciências são, também, os que mais
visionam este tipo de documentários científicos, mencionando, alguns deles,
mormente, explicitamente, a importância futura que o visionamento deste tipo de
documentários poderá ter na sua formação universitária e/ou no seu desempenho
profissional.
Tal como para o estudo formal, verificámos que para o visionamento é no
contexto familiar que se estrutura a forma de uso e compreensão desses
programas.
Utilização de outras fontes no estudo (Internet e/ou CD-ROM e/ou livros e/ou
revistas científicas)
A análise log-linear que desenvolvemos para a variável utilização de outras
fontes apresentou múltiplas relações cruzadas, das quais retivemos as mais
relevantes do ponto de vista do nosso estudo.
A utilização de outras fontes surgiu associada à motivação dos alunos (para o
estudo e para fazer os trabalhos de casa), à posse em casa de recursos (fossem
eles livros e revistas ou filmes e vídeos científicos), à posse de computador
com ligação à Internetem casa e à influência (isolada ou simultânea) da família
e do professor para esse tipo de utilização, descrevendo um padrão médio de
aumento que acompanha o incremento dessas variáveis. Dados motivacionais dos
alunos, lado a lado com a posse de recursos didácticos em casa e com a
influência familiar e do professor surgem a condicionar a utilização de outras
fontes.
Contextos de socialização e estratégia de estudo dos alunos, integração por
tipos principais
A Influência da família
A influência média das famílias para o estudo dos alunos exerce-se,
fundamentalmente, para o estudo formal. Segue-se a influência para o
visionamento e, por fim, os níveis de influência para o uso de outras fontes.
As famílias cujas mães concluíram o 3.º ciclo (N3), o ensino secundário (N4) e
o ensino superior ou mais (N5) exercem, tendencialmente, níveis de
constrangimento para o estudo formal acima da média (respectivamente, 1,52,
1,57 e 1,75) (ver figura 1). Complementarmente, as famílias cujas mães
concluíram o 2.º ciclo (N2) exercem níveis de influência para esse tipo de
estudo abaixo do respectivo valor médio (1,34). Por fim, as famílias cujo nível
de influência é claramente mais baixo neste âmbito (1,24) são as que
correspondem às mães que concluíram o 1.º ciclo (N1).
Figura_1 Níveis de constrangimento familiar combinado, por escolaridade da mãe
As famílias correspondentes às mães que concluíram o 1.º ciclo (N1), 3.º ciclo
(N3) e o secundário (N4) situaram-se todas abaixo do nível médio de influência
para o visionamento de documentários científicos (respectivamente, 0,63, 1,10 e
1,11). As famílias representadas pelos dois restantes grupos de escolaridade da
mãe (N2 e N5) apresentaram níveis de influência para o referido visionamento
superiores à média (respectivamente, 1,17 e 1,66).
Quanto aos níveis de influência familiar agregada para o uso de outras fontes,
o padrão ora descrito para o visionamento repete-se.
Complementarmente, verificámos que são, tendencialmente, as famílias dos
lugares de classe mais elevados aquelas que influenciam com níveis acima da
média para o estudo formal. Contudo, as famílias que ocupam o lugar de classe
dos empresários, dirigentes e profissionais liberais (EDL) pouco se
superiorizam à média.
A posição relativa das famílias dos nossos alunos quanto aos níveis de
influência para o visionamento descreve um padrão semelhante ao do estudo
formal, pelo que não nos iremos deter nesse nível de análise.
Já no que toca à apreciação dos níveis de influência para o uso de outras
fontes, há alguns aspectos que convém salientar. Em primeiro lugar, verificámos
que o lugar de classe dos empresários, dirigentes e profissionais liberais
(EDL) apresentou níveis de influência abaixo da média, situando-se próximo,
para este nível de análise, dos trabalhadores independentes pluriactivos (TIpl)
e dos empregados executantes (EE). Uma outra observação algo inusitada foi o
facto de os assalariados executantes pluriactivos (AEpl), lado a lado com os
operários (O) se terem situado acima da média para o uso de outras fontes.
B Influência do professor
A influência do professor para o estudo dos alunos exerce-se, fundamentalmente,
para o estudo formal. Onde os níveis médios de influência do professor são mais
baixos é para o visionamento, com valores médios inferiores à influência para o
uso de outras fontes.
Em termos dos níveis de influência combinados exercidos por cada professor
sobre os respectivos alunos para o uso das diversas fontes de informação que
temos estado a analisar (manual escolar e apontamentos; visionamento de
documentários científicos; uso de outras fontes, com destaque para as TIC)
demarcam-se dois perfis de professor (ver figura 2). De um lado, o professor
tradicional (PT), com três níveis de exigibilidade (com 28% de ocorrências).
Este professor tende a influenciar os seus alunos apenas para o estudo formal
(em torno do manual e dos apontamentos das aulas). Nos antípodas deste perfil
temos o professor com dupla orientação informal (Pd), também ele a variar em
três níveis de exigibilidade quanto ao estudo formal (com 10% das menções).
Este perfil de professor (segundo apurámos, ainda minoritário nas nossas
escolas), ao contrário dos professores PT, tende a influenciar os seus alunos
para o uso de todas as fontes que estudámos. Entre estes dois tipos
essencialmente opostos incluem-se os restantes professores por nós observados.
Figura 2 Níveis de constrangimento combinado por professor
C Comparação dos padrões de influência das duas agências de socialização:
família e professor
Tanto do lado da família como do lado do professor, a influência que mais se
exerce sobre os alunos é para o estudo formal, embora os níveis de influência
do professor tendam a ser muito mais elevados do que os congéneres do lado
familiar.
Paralelamente, verificámos que os níveis de influência do professor para o
estudo formal dos alunos decrescem segundo as categorias da escolaridade da mãe
(ver figura 3). Pelo contrário, os níveis de influência familiar para o estudo
formal aumentam segundo esses mesmos níveis de escolaridade da mãe. Parece
desenhar-se aqui uma certa acção supletiva por parte do professor.
Figura 3Comparação dos níveis de constrangimento para o estudo formal (manual e
apontamentos) prof./família, por escolaridade da mãe
Procedendo à caracterização das famílias através da tipologia ACM (ver figura
4), verifica-se que essa acção supletiva do professor procuraria levar os
alunos das classes mais baixas a contrariar os menores níveis de influência
exercidos familiarmente para o estudo formal. É, no entanto, uma tentativa
essencialmente infrutífera, já que, como vimos atrás, através dos dados da
análise multivariada, a influência do professor para este tipo de estudo é
estatisticamente não significativa.
Figura 4 Comparação dos níveis de constrangimento para o estudo formal (manual
e apontamentos prof./família, segundo a tipologia ACM
Esta mesma tendência compensatória por parte de professor encontrámo-la também,
quer em termos dos níveis de influência para o visionamento de documentários
científicos, quer para o uso de outras fontes. Quando inquiridos sobre essa
situação alguns dos professores (aqueles que exercem a docência nas escolas
periféricas de Lisboa) disseram que procuram usar em sala de aula e influenciar
os alunos a utilizar em casa fontes alternativas de informação (desde logo o
visionamento de documentários científicos e as TIC) para atrair os alunos mais
afastados das estratégias pedagógicas mais habituais, aliciando-os com estes
instrumentos de cariz mais lúdico.
D Estratégia de estudo efectiva dos alunos
Uma vez identificados os níveis de influência combinada exercida sobre os
alunos, quer do lado das famílias, quer dos professores, fomos ver quais as
estratégias de estudo efectivas dos alunos quanto às fontes de informação em
análise.
A distribuição dos grupos de alunos em relação ao tempo de estudo formal
descreve uma sucessão crescente em função dos níveis de escolaridade da mãe,
excepto o grupo A(N2), que surge posicionado à frente de A(N3) e A(N4).
Mormente, salientam-se tempos abaixo da média para todos os grupos de alunos,
excepto o grupo A(N5). Em termos globais, é de salientar que os tempos médios
de estudo formal dos alunos para ciências (14, 11 e 26 minutos semanais,
respectivamente para os 5.º, 7.º e 12.º anos, como vimos antes), escondem uma
elevada percentagem de alunos (principalmente dos 5.º e 7.º anos) que afirmaram
que nunca estudam para ciências (tempos nulos) ou praticamente nunca o fazem.
Ainda em termos dos tempos de estudo formal avulta o grupo de alunos cujas mães
concluíram o 1.º ciclo A(N1) e o ensino superior e mais A(N5): os
primeiros pelo baixo valor médio (12,6 minutos semanais); e os segundos por
apresentarem um valor médio que se destaca face a todos os restantes grupos
(21,6 minutos semanais). Este padrão distributivo é, aliás, também aquele que
avulta para os tempos médios de visionamento semanal. Paralelamente, verificou-
se um uso essencialmente ubíquo de outras fontes por parte dos nossos alunos (à
volta dos 36 minutos semanais), com variações médias de utilização entre eles
bastante próximas (as discrepâncias entre os grupos de alunos em função da
escolaridade da mãe são praticamente nulas), o que sugere que o grupo de pares
poderá ter também um papel relevante na estruturação das estratégias de estudo
dos alunos (questão que analisaremos noutro artigo).
Confrontando agora as estratégias de estudo efectivas dos alunos com os níveis
de influência familiar, há alguns aspectos que merecem reflexão. Em primeiro
lugar, em termos do grupo de alunos cujas mães concluíram o 1.º ciclo A(N1)
existe consentaneidade entre as orientações familiares e as práticas dos
alunos: são o grupo claramente menos influenciado para o estudo formal (ver
gráfico 1) e, correspondentemente, apresentam tempos de estudo formal
destacadamente abaixo da média (ver figura 5). Mas há outros aspectos não
consentâneos com a referida influência familiar: as famílias influenciam estes
alunos com níveis abaixo da média, quer para o visionamento, quer para o uso de
outras fontes (ver figura_1). A nível do visionamento, efectivamente os seus
valores médios situaram-se abaixo da média. No entanto, esses alunos utilizam
outras fontes com tempos superiores (embora próximos) da média (ver figura 5).
Para o grupo de alunos cujas mães terminaram o 2.º ciclo - A(N2) -,
também eles sujeitos a níveis de influência para o estudo formal abaixo da
média (ver figura_1), os respectivos tempos formais de estudo seguem a
tendência, com valores inferiores à média. Mormente, as famílias deste grupo de
alunos, como vimos, influenciam acima da média quer para o visionamento, quer
para o uso de outras fontes (ver figura_1). A estratégia de estudo dos alunos é
consentânea com esse padrão de influência, embora o seu nível de utilização de
outros recursos se situe ligeiramente abaixo da média. Os grupos de alunos
cujas mães terminaram o 3.º ciclo - A(N3) - e/ou o secundário
- A(N4) - parecem ser aqueles onde se verificam maiores
discrepâncias entre aquilo que são os níveis de influência familiar para o uso
dos três grupos de fontes e os tempos que os alunos lhes afectam.
Primeiramente, essas famílias apresentam níveis de influência para o estudo
formal superiores à média; do lado dos respectivos alunos, os tempos efectivos
de estudo formal são, pelo contrário, maioritariamente, inferiores à média. São
famílias que influenciam quer para o visionamento, quer para o uso de outras
fontes com níveis inferiores à média; os alunos correspondentes, pelo
contrário, apresentam níveis de visionamento e de uso de outras fontes
superiores à média. O facto de os grupos de alunos cujas mães correspondem aos
níveis de instrução do 1.º ciclo - A(N1) -, 3.º ciclo - A(N3)
- ou secundário - A(N4) - apresentarem níveis de utilização
de outras fontes superiores à média, não obstante estarem sujeitos a níveis
inferiores à média de influência para esse uso por parte das respectivas
famílias pode, em parte, ser percebido pela acção supletiva do professor, como
vimos anteriormente. Lembremo-nos que os níveis de influência do professor para
o uso de outras fontes estabeleceram uma associação estatisticamente
significativa com o uso dessas mesmas fontes por parte dos alunos. O último
grupo alunos, correspondente às mães com o ensino superior ou mais - A
(N5) -, foi o mais coerente em termos da relação entre as orientações
familiares tendenciais para o uso de certas fontes e a respectiva estratégia de
estudo.
Figura 5 Estratégias de estudo de grupos de alunos identificados pelo nível de
instrução da mãe
Por sua vez, do confronto entre os perfis de influência dos diversos
professores e as estratégias de estudo efectivas dos alunos avultaram, desde
logo, os dois perfis que anteriormente mencionámos: de um lado, o dos
professores mais tradicionais, com influência quase exclusiva para o estudo
formal (PT); e, do outro, o dos seus colegas que optam por diversificar ao
máximo os níveis de influência sobre as fontes aqui consideradas (Pd). Vemos
que os primeiros influenciam fundamentalmente para o estudo formal; pelo
contrário, a grande maioria dos seus alunos afirmou que lhe dedica tempos
abaixo da média, de forma exclusiva ou combinada. Paralelamente, são
professores que praticamente não influenciam os alunos para o uso de outras
fontes, desde logo as TIC. No entanto, os alunos fazem-no e com frequências
bastantes elevadas. Prefigura-se aqui, claramente, por consequência, uma
situação de inadequação pedagógica deste tipo de professor em termos das
orientações que dá aos alunos para a estruturação das respectivas estratégias
de estudo: os alunos, tendencialmente, fazem o contrário daquilo que ele diz.
Já os professores que influenciam com valores acima da média para o uso dos
três grupos de fontes que temos estado a apreciar conseguem alunos que,
maioritariamente, também as usam. Aqui temos de ter em conta, por um lado, que
a influência do professor para o uso de outras fontes foi identificada como
tendo uma relação estatisticamente significativa no respectivo uso; e, por
outro, que somente os grupos de alunos cujas mães concluíram o 2.º ciclo ou o
ensino superior e mais A(N2) e A(N5) é que foram influenciados
familiarmente com valores superiores à média para o uso de outras fontes. Desta
forma, perspectiva-se que excluindo a acção do grupo de pares (que não
apreciámos neste artigo) a inflexão da estratégia de estudo dos três
restantes grupos de alunos A(N1), A(N3) e A(N4) , em termos da utilização de
outras fontes, se fique a dever, pelo menor em parte, à acção influenciadora do
professor. Assim, este tipo de professor demonstra, por oposição ao primeiro,
uma elevada adaptação aos alunos actuais em termos das orientações que lhes dá
para a estruturação das respectivas estratégias de estudo, uma vez que a sua
acção orientadora acaba por ser tendencialmente consentânea com aquilo que são
as estratégias de estudo efectivas dos alunos.
Conclusões
O tempo de estudo formal para ciências apenas apareceu associado à influência
familiar para esse tipo de estudo, ao género dos alunos e ao ano de estudo:
verificou-se que os tempos de estudo aumentam em função do incremento da
influência familiar para o estudo formal; constatou-se que as raparigas tendem
a estudar formalmente, em média, mais do que os seus colegas, dando força, pelo
menos num certo sentido, às análise de Felouzis (1993), que as classifica como
desempenhando melhor o ofício de aluno do que os rapazes. Estes resultados
relativizam o peso que tantas vezes se atribui a outras variáveis, desde logo
motivacionais (motivação intrínseca ou extrínseca), e para a importância das
condições materiais de apoio ao estudo (referidas, por exemplo, em OCDE, 2003).
Paralelamente, o facto de a motivação extrínseca não ter apresentado uma
associação significativa com o tempo de estudo formal pode talvez compreender-
se porque tomámos os dados agregados. Ora, esse tipo de motivação para alunos
dos 5.º ou 7.º anos será previsivelmente ainda muito baixo comparativamente aos
seus colegas do 12.º ano, cujas escolhas profissionais futuras e os cursos
superiores subsequentes em muito poderão depender dos resultados nessa
disciplina. A corroborar esta justificação está o facto de terem sido
efectivamente os alunos do 12.º ano os que mais referências instrumentais
fizeram sobre os resultados que precisariam de ter em ciências.
O padrão encontrado para caracterizar os tempos de visionamento de
documentários científicos sobre a natureza foi próximo do que vimos para o
estudo formal, com duas excepções a salientar: primeira, o ano de estudo não se
revelou importante para perceber os tempos de visionamento, essencialmente
semelhantes para os 5.º, 7.º e 12.º anos; segunda, os níveis de motivação
extrínseca dos alunos para as ciências revelaram-se importantes para perceber
os tempos de visionamento. Na verdade, verificámos que os alunos que disseram
atribuir maior valor às ciências eram, também, os que mais visionavam este tipo
de documentários científicos, mencionando, alguns deles, explicitamente, a
importância futura que o visionamento deste tipo de documentários poderia vir a
ter na sua formação universitária e/ou no seu desempenho profissional.
O nível de influência que os professores mais exercem em termos das fontes de
estudo que estudámos verificou-se, de forma destacada, para o estudo formal em
torno do manual e dos apontamentos das aulas. Seguidamente, os professores
tendem a influenciar mais para o uso de outras fontes. Os níveis de influência
para o visionamento foram os mais baixos. Este aspecto evidencia bem a
assertiva de Benavente (1989) quando salienta que os programas televisivos nos
surgem pela via lúdica, sendo, por isso, pouco reconhecidos pelos nossos
professores enquanto fonte legítima de transmissão do saber. Em muitos casos,
parece-nos, o facto de o professor não fazer este reconhecimento de
legitimidade à informação dos documentários levará muitos alunos não
influenciados em casa para o visionamento a não verem esse tipo de programas,
que lhes poderiam trazer algumas aprendizagens importantes, mesmo que não
tivessem intenção explícita de aprender dessa forma, como vimos noutro lugar
(Dias, 2009).
Em termos familiares, é também para o estudo formal que mais se influencia os
alunos, embora em torno de níveis de influência muito menores do que os
verificados para o professor. Seguidamente, as famílias tendem a influenciar
mais para o visionamento. Aqui há que ter em conta que o visionamento
televisivo é uma actividade essencialmente ubíqua no espaço das famílias
portuguesas, principalmente nas das classes média e baixa (Pinto, 2000). Assim
se percebe a implantação deste tipo de documentários num âmbito mais alargado,
no qual a televisão ocupa, por vezes de forma exclusiva, os tempos de lazer
familiares. Do lado das famílias, os níveis mais baixos de influência
verificaram-se para o uso de outras fontes.
Neste âmbito, avançamos uma razão possível para o facto de a influência do
professor se ter revelado não significativa em termos da orientação quer dos
tempos de estudo formal, quer de visionamento. O que acontece é que, para
qualquer das fontes de informação em estudo, verificámos que é no contexto
familiar que se constroem os mecanismos através dos quais, gradualmente, se vão
estruturando as estratégias de estudo dos alunos. De facto, desde a sugestão de
métodos mais fáceis à monitorização das pesquisas na Internet, passando pela
desconstrução dos conteúdos dos programas televisivos, foi no contexto familiar
que essas operações foram sendo feitas. Pelo contrário, no contexto de sala de
aula, na grande generalidade dos casos, os diferentes professores acompanhados
limitaram-se a dizer aos alunos para estudar, com toda a ambiguidade de que uma
tal expressão enferma. Neste âmbito, foram pouco referidas pelos alunos
estratégias pedagógicas dos professores tendentes a orientar efectivamente
aquilo que será o estudo dos alunos em casa (fora daquilo que são os trabalhos
de casa).
Procurámos perceber quais os níveis de influência combinados para cada família
identificada pelo último ano de escolaridade concluído pela mãe. Se, para o
estudo formal, a relação foi, digamos, previsível (com os níveis de influência
familiar a aumentar para as mães que concluíram os anos de estudo mais
avançados), já o mesmo não pode ser dito quanto ao visionamento e ao uso de
outras fontes. No que se refere aos níveis de influência familiar para o
visionamento de documentários científicos esperaríamos, talvez, que as famílias
representadas pelas mães que concluíram o 1.º ciclo apresentassem,
eventualmente, níveis de influência mais elevados, dada a forte implantação do
hábito de visionamento televisivo junto das classes mais populares. Contudo,
temos de ter aqui em conta que se trata da influência para o visionamento de
documentários científicos e não de um outro programa qualquer, um concurso, um
reality show, etc. Assim, o facto de ser um programa eminentemente de cariz
cultural pode ter sido a causa da pouca influência observada junto destas
famílias tendencialmente arredadas de actividades de tipo cultural.
Inversamente, exactamente porque se tratava de programas culturais,
esperaríamos que as famílias cujas mães concluíram o 3.º ciclo e,
principalmente, as que concluíram o secundário, exercessem um maior nível de
influência sobre os seus educandos para o visionamento destes documentários. No
entanto, não foi assim: ambas se situaram abaixo (embora próximo) da média de
influência para esse fim. Por outro lado, algo discrepantemente também,
avultaram as famílias cujas mães concluíram o 2.º ciclo (N2) e que se situaram
acima desse valor médio de influência. O grupo que nos pareceu mais coerente
com uma certa leitura apriorística que pudesse fazer-se destes dados foi o das
famílias cujas mães concluíram o ensino superior e mais (N5), com níveis
destacados de influência para o referido visionamento.
Por fim, tomando agora como critério de análise os níveis de influência para o
uso de outras fontes, os dados voltaram a ser algo inusitados: as famílias
cujas mães concluíram o 3.º ciclo e o ensino secundário situaram-se abaixo da
média de influência, lado a lado com as famílias cujas mães concluíram o 1.º
ciclo. Que estas últimas não reconhecessem valor a essas outras fontes, parece-
nos compreensível, dado o afastamento que essas tecnologias representam no
âmbito profissional tendencial dessas famílias; já, pelo contrário, e pela
homologia tendencial previsível existente entre as profissões das famílias
cujas mães concluíram o 3.º ciclo e, principalmente, o ensino secundário,
esperaríamos uma maior influência para o uso das fontes cuja análise nos
interessa. Pelo contrário, os dados pareceram mostrar uma orientação bastante
conservadora destes dois grupos de famílias que apenas influenciaram acima da
média para o estudo formal, valorizando comparativamente bastante pouco outros
tipos de aprendizagem de cariz informal.
Complementarmente, verificámos que foi para os lugares de classe mais elevados
que se verificaram os níveis de influência acima da média para o estudo formal.
Neste âmbito, cabe salientar que as famílias que ocupam o lugar de classe de
empresários, dirigentes e profissionais liberais (EDL) são as que, de certa
forma, apresentaram níveis de influência menos previsíveis, já que pouco se
superiorizaram à média. Aqui devemos talvez ter em conta que, em Portugal,
frequentemente, este lugar de classe inclui uma percentagem não negligenciável
de pessoas com baixas habilitações (Costa e outros, 2007), o que pode
determinar (por homologia) uma menor valorização da escolarização formal dentro
deste grupo, com consequências em termos dos níveis de influência exercidos
sobre os alunos para esse mesmo tipo de estudo.
O conjunto destes dados faz avultar que a generalidade dos nossos alunos dos
diversos lugares de classe considerados e/ou dos vários níveis de educação da
mãe não estudam ou estudam pouco (maioritariamente nos 5.º e 7.º anos, onde
uma elevada percentagem identificou zero minutos de estudo para ciências).[2]
Este facto reforçado (nas situações em que tal aconteceu) com um uso
claramente diferencial face às orientações familiares do visionamento de
documentários científicos e/ou do uso de outras fontes no estudo das ciências
relativiza, embora no estrito âmbito das estratégias de estudo dos alunos, a
força reprodutiva da estrutura familiar, tantas vezes assumida
aprioristicamente. Se é certo que, como vimos, foi neste contexto familiar que
os aspectos mais essenciais da gramaticalidade estruturadora das estratégias de
estudo avultaram, contudo, ainda assim, essa força estruturante exercida
familiarmente não invalida a existência de um amplo espaço de autonomia dos
alunos, que se materializa, desde logo, nos referidos tempos de estudo formal
abaixo da média. Ou seja, não obstante, como vimos, a generalidade dos alunos
estar sujeita a níveis de constrangimento para o estudo formal superiores à
média da escala, ainda assim, maioritariamente, e a cortar transversalmente os
diferentes lugares de classe considerados, os nossos alunos não estudam ou
estudam pouco. Estes dados vêm, assim, dar razão a alguns críticos do
estrutural determinismo quando relativizam a irredutibilidade das estruturas. É
neste mesmo sentido, por exemplo, que Diogo (1998), com base na proposta
teórica de Berthelot, salienta que a escola é um espaço onde existe jogo,
porque a lógica estrutural não determina totalmente e, nesse sentido, é um
espaço de imprevisibilidade. Consequentemente, os actores podem jogar, quer
dizer, desenvolver estratégias, dentro das margens de manobra permitidas pelas
estruturas (p. 34). Mormente, podemos afirmar que esta tendência aduzida pela
autora especificamente em relação ao contexto da socialização secundária
escolar apresenta, na verdade, segundo os nossos dados, uma dupla tendência de
autonomia, uma vez que verificámos que, quer do lado da influência do
professor, quer das famílias, os alunos apresentam estratégias de estudo que,
frequentemente, contradizem uma e outra. Estes dados, embora no estrito âmbito
das estratégias de estudo, permitem perceber, empiricamente, a dualidade da
estrutura nos termos propostos por Giddens (2000). De facto, a estrutura pode
ser, e é a seu tempo, uma condição da acção mas, para além dessa possibilidade,
existe ainda a apropriação característica e única que cada agente dela faz, o
que determina, como outra possibilidade, que ela seja então, também, resultado
ou produto de transformação por parte dos agentes em processo. Esta
variabilidade das estruturas face à acção pode resultar, desde logo, da
circunstância de nem todos os aspectos da acção social estarem previamente
previstos e determinados nas regras estruturadas. Neste caso, entramos nos
argumentos de Bernstein (1996) sobre o unthinkable (o ainda por pensar), a zona
potencial ou o gap, com toda a virtualidade que daí decorre, abrindo espaço ao
livre critério dos alunos. No entanto, não nos parece ser esse o caso aqui,
uma vez que, explicitamente, os alunos dizem que estão sujeitos a níveis de
constrangimento para o estudo formal, pelo que as agências de socialização
produzem um sinal claro aos alunos daquilo que deles pretendem. Mas há outras
situações possíveis. Desde logo, a variabilidade da acção dos alunos face aos
dados da estrutura familiar e do professor parece dar força aos argumentos dos
autores construtivistas (ver, por exemplo, Berger e Luckmann, 1987), quanto
referem que o real objectivado familiarmente aos jovens, ao ser interiorizado
por estes (interiorização da exterioridade), é-o caracteristicamente
(idiossincraticamente), pelo que o produto exteriorizado (exteriorização da
interioridade) tanto pode conduzir à reprodução (como de facto acontece com os
procedimentos metodológicos face aos três grupos de fontes de estudo que
analisámos), como a formas alternativas de acção (como verificámos acontecer
quanto à alteração das prioridades por parte dos alunos quanto às fontes de
estudo, claramente em detrimento do tempo de estudo formal que,
tendencialmente, é a fonte mais valorizada pelas duas agências de
socialização). Por um lado, parece estar aqui em causa, uma vez mais, a acção,
ainda que sub-reptícia, do grupo de pares, uma vez que é uma prática genérica
que corta transversalmente todos os grupos de alunos, o que sugere um certo
efeito de contágio (que procuraremos perspectivar melhor noutro artigo); por
outro lado, tal pode ainda ser devido ao facto de o controlo que é exercido ou
as consequências práticas desse controlo por parte das duas agências de
socialização não serem suficientemente dissuasores desse desvio. Seja como for,
os nossos dados não nos permitem concluir se existe, ou não, um acompanhamento
ou uma percepção posterior efectiva do desvio dos alunos face ao conjunto das
orientações normativas socializadas; ou se, por outro lado, mesmo havendo
consciência desse desvio, ele não seja sancionado de uma forma suficientemente
forte para alterar esse comportamento (existiria, neste caso, se quisermos, um
certo nível de consentimento e/ou de fracas consequências práticas para os
alunos). Por fim, e paralelamente, estes dados não podem deixar de levantar
alguma preocupação. De facto, num outro artigo (Dias, no prelo) verificámos que
o estudo formal é a variável que mais condiciona os resultados dos alunos em
ciências (medidos em provas escritas), o que perspectiva que estes alunos
estão, tendencialmente, a suboptimizar os seus resultados em ciências em função
das suas práticas efectivas de estudo, em termos do pouco tempo que dedicam ao
manual e aos apontamentos dessa unidade curricular. Mormente, tal prefigura,
ainda, um prejuízo tendencialmente maior para os alunos mais fracos, pois
como verificámos também nesse artigo seriam eles os que mais teriam a
beneficiar com esse tipo de estudo, inflectindo, por essa via, a sua menor
preparação (em termos de currículo oculto) face aos desideratos escolares.
No confronto entre as escolhas efectivas das fontes de estudo para ciências com
os níveis de influência dos respectivos professores para o uso dessas mesmas
fontes destacaram-se, entre outros possíveis, dois perfis de professor: um
essencialmente eficaz, correspondente ao grupo de professores que apresentaram
níveis elevados de influência para o uso de todas as fontes que analisámos e
cujos alunos corresponderam a esse padrão; outro essencialmente ineficaz que,
não obstante exercer níveis de influência para o estudo formal acima da média,
tem alunos que, pelo contrário, maioritariamente, estudaram abaixo da média.
Este perfil de professor, por outro lado, apresentou níveis de influência
abaixo da média, quer para o visionamento, quer para o uso de outras fontes. Os
seus alunos, pelo contrário, apresentaram níveis acima da média para o uso
dessas fontes, com destaque para as TIC (estas últimas usadas por uma elevada
percentagem deles). Ou seja, neste caso, tudo o que tinham sido as orientações
deste grupo de professores para a estratégia de estudo dos alunos revelou-se
claramente contraditório face àquilo que foram as práticas efectivas desses
mesmos alunos. Neste âmbito, urge salientar que os nossos dados apontam
inequivocamente para uma nova forma de apropriação do saber por parte dos
nossos alunos: para todos os grupos de alunos dos vários níveis de instrução da
mãe e dos diversos lugares de classe da tipologia ACM, verificámos um uso,
diríamos ubíquo, de outras fontes, com destaque para as TIC. Ora, face a um tal
novo padrão de apropriação do saber por parte dos nossos alunos é, no mínimo,
decepcionante verificar a pouca importância que alguns professores ainda
concedem a estas novas tecnologias. Neste sentido, é crível que um professor
que pouco ou nada incentiva para o uso das TIC também pouco fale sobre o
assunto e, muito menos, que monitorize e oriente as pesquisas que os alunos vão
efectuando de forma por vezes autónoma. Ora, como diz Masterman (1993), é
importante que o professor tenha conhecimento da forma como os assuntos que
está a abordar em sala de aula estão a ser tratados noutras fontes, para que
consiga dar resposta aos alunos de uma forma que complemente ou, até, esclareça
as dúvidas resultantes dessas aprendizagens informais. Essa necessidade
pedagógica e científica é tão mais indispensável quanto é sabido que alguns dos
sitesdisponíveis facultam informação não raramente errada. Assim, para que o
professor consiga desconstruir pedagógica e cientificamente essas concepções
erradas é preciso que, pelo menos, aceite que os alunos falem sobre essas
aprendizagens alternativas. Ao mesmo tempo, o professor teria toda a vantagem
em, ele também, ir buscar informações, por exemplo à Internet. Tal permitir-
lhe-ia aperfeiçoar os métodos de busca, identificar os melhores sites de
informação e os mais incorrectos, prática que poderia partilhar com vantagem
com os seus alunos. Por fim, esta questão remete para a importância de passar
do primado de um ensino fechado sobre a noção de matéria e do papel do
professor como sendo o daquele que tudo deve saber (para uma discussão sobre
este tema ver, por exemplo, Ferrés, 2004, ou Trilla, 2003), para caminhar para
uma perspectiva aberta, onde esse saber ligado à matéria passe a poder
estabelecer ligações com saberes conseguidos de fora, tantas vezes
enriquecedores e transdisciplinares, e em que o professor passe a aceitar que
não sabe tudo e que há exemplos que irá ouvir pela primeira vez. Neste âmbito,
para além de uma mudança cultural de base há, desde logo, alterações
programáticas importantes a implementar no âmbito da formação de professores.
Nesta investigação conseguimos perceber a relação complexa que se estabelece
entre os níveis de influência exercidos pelas duas agências de socialização
consideradas, família e escola, os níveis motivacionais dos alunos e os tempos
que estes afectam às principais fontes de estudo para ciências. Cabe
interrogar: qual o papel (se existe algum) que o grupo de pares desempenha
nesse âmbito?
Paralelamente, verificámos, do lado das famílias, que os níveis de influência
combinada para o estudo variam. Trata-se de uma revelação previsível. Contudo,
no contexto familiar concreto, no âmbito de relações de pendor mais
microssociológico, que estratégias concretas se desenham, por exemplo, dentro
de cada um dos lugares de classe analisados?
Estas são algumas das novas questões às quais procuraremos dar resposta em
futuros trabalhos.