Identidades em rede: construção identitária e movimento associativo
Uma questão de identidade
A construção da identidade esses complexos processos que levam o homem a ser
aquilo que é, a agir, apresentar-se e autopercepcionar-se de determinada forma
tem-se tornado um dos principais temas de debate e de análise psicológica,
antropológica e sociológica. Do mesmo modo, é questão recorrente no discurso a
nível do senso comum e naquele que é difundido pelos meios de comunicação
social. Todavia, entre propostas que visam a existência de identidades básicas,
essencialistas e pré-determinadas, e as suas oponentes, que propõem um ser
fragmentado, fluido e alheio à dimensão temporal, parece sobrar espaço para
análises intermédias que, de resto, têm sido avançadas por vários cientistas
sociais. É neste quadro que a presente pesquisa começou a ser delineada,
procurando-se construir modelos analíticos que permitissem estudar o processo
de construção identitária, de acordo com a postura teórica adoptada,
procurando-se debater modelos de construção identitária e elaborar propostas
que se afastem tanto do essencialismo como da fragmentação.1
A concepção essencialista da identidade sugere a existência de uma identidade
básica, uma verdade mais autêntica e mais profunda que torna o indivíduo
naquilo que ele é, com alguma imutabilidade, independentemente do seu percurso
vivencial. A ideia de que, apesar das diferenças introduzidas pela vivência,
existe uma identidade essencial, no facto de um indivíduo nascer no seio de
determinado credo religioso, nação ou grupo étnico, é algo que se pretende ver
posto de lado logo à partida, por mais do que um motivo.
Em primeiro lugar, a maior parte das categorias que recebem o estatuto de
essências identitárias geralmente a raça, a religião ou a nacionalidade
são, elas próprias, construídas reflexiva ou auto-reflexivamente e, como tal,
produtos contextuais. Por outro lado, e por muita importância que determinada
categoria apresente, um indivíduo está sempre inserido em mais do que uma
categoria. Impreterivelmente, é de um determinado sexo, poderá ter uma
determinada religião, terá alguma pertença natal, quer essa tenha a forma de
pátria quer não, e será lícito considerar ainda a pertença a outras categorias:
profissionais, familiares, de determinada comunidade de interesses em que se
encontre inserido Com tal panóplia de pertenças, a identidade do indivíduo
acabará por ser multicomposta, e seria irrealista procurar encontrar uma
pertença mais verdadeira do que as demais, ainda que em muitos casos esta
demanda se apresente como socialmente expectável. Este dilema encontra-se
particularmente bem ilustrado no ensaio As Identidades Assassinas de Amin
Maalouf, onde o autor retrata a sua experiência como libanês habitante em
França:
quando acabo de explicar, com mil detalhes, as razões exactas que me levam a
reivindicar plenamente a totalidade das minhas pertenças, alguém se aproxima de
mim para murmurar, poisando a mão no meu ombro: tem toda a razão em falar
desse modo, mas lá bem no fundo de si mesmo, o que é que se sente? (Maalouf,
1999: 99).
Finalmente, a identidade não é totalmente determinada à nascença, por factores
exógenos, é (re)construída ao longo da vida, como resultado de múltiplos
processos temporais, de inserção e interacção, e como tal deve ser vista como
uma reconstrução permanente, flexível e dinâmica, e não como uma pré-construção
essencialista.
Neste sentido, considera-se que a identidade de cada um de nós pode ser
eventualmente (e apenas analiticamente) segmentada em fracções relevantes, por
exemplo, a identidade étnica, nacional, regional, de classe, profissional ou
familiar, para citar alguns dos exemplos mais comuns, mas também é proveniente
dos grupos de sociabilidade em que se encontra inserido, do bairro que se
habita, ou da comunidade de interesses a que se encontra associado. Em cada um
de nós coexistem diferentes traços que, unidos, vão dar lugar a um ser humano
único.
Integrando-se, assim, e de certo modo, na discussão sobre a fragmentação do
self na (pós?) modernidade, a presente pesquisa passa pela simultânea
necessidade de conceber o indivíduo como ponto de encontro de diversas
influências e como actuante em diversos contextos, integrando e reivindicando
diversas pertenças (e por conseguinte conjugando-se e (re)inventando-se em
diversos papéis), sem com isso se pretender considerar que o indivíduo se
encontra condenado à fragmentação.
Esta ideia da fragmentação do self advém de uma crítica tecida em relação ao
selfmodernista, uno, estável e transparente, herdeiro de uma tradição
iluminista de dar primazia epistemológica ao ser, tomado como tal. A este ser,
considerado como essencialista, certos teóricos opõem a ideia de um ser
fragmentado, pela intersecção de diversas categorias, totalmente fluido,
dependente do contexto: nós não nascemos com um self, somos antes compostos
por um turbilhão de selves parciais, às vezes contraditórios ou mesmo
antitéticos (Powell, 1998).
No fundo, o problema da fragmentação advém da diversidade de contextos de
interacção característica da sociedade actual, da necessidade de assumir
diversos papéis, frequentar diversos contextos, tomando contacto com uma
realidade múltipla, opcional e diversificada, reconhecendo-se em cada ser
diversas influências, práticas e representações que se apresentam como
contraditórias: os indivíduos vivem múltiplos papéis, em função dos
diferentes planos em que se movem, que podem parecer incompatíveis sob o ponto
de vista de uma ética linear (Velho, 1994: 26).
Este estudo procurou analisar de que modo cada projecto individual concerta as
suas múltiplas influências, abandonando simultaneamente a concepção
essencialista da identidade e a necessidade de desdobramento do self em
identidades paralelas, sendo mesmo possível considerar-se esta como uma
persecução da ideia anterior; já que no fundo trata-se de dividir o ser em
várias identidades, todas de um mesmo tipo essencialista. O que se pretende
afirmar é que, se é necessário pôr totalmente de parte as concepções do ser
como votado a um essencialismo, negando-lhe toda uma diversidade de papéis que
são desempenhados e a multifiliação em diversos contextos, também não se pode
considerar que isto signifique que cada pessoa é composta de muitos
compartimentos estanques. Por outro lado, e paradoxalmente, esta diversidade
pode mesmo ser encarada como unificadora, como propõe Anthony Giddens:
( ) não seria correcto ver a diversidade contextual como promovendo simples e
inevitavelmente a fragmentação do self, muito menos a sua desintegração em
múltiplos selves, pois pode igualmente, pelo menos em muitas circunstâncias,
promover uma integração do self ( ) uma pessoa pode usar a diversidade de modo
a criar uma auto-identidade distinta que incorpora positivamente elementos de
diferentes cenários numa narrativa integrada (Giddens, 1997: 175).
A partir das noções apresentadas nas últimas páginas, pode-se concluir que faz
parte das competências de qualquer indivíduo o transitar entre diversos mundos,
assumindo diferentes papéis, seguindo diferentes códigos e interagindo no seio
de contextos distintos. Deste facto resulta a construção de identidades
multifacetadas, marcadas por aquilo a que Gilberto Velho chama potencial de
metamorfose.
Faz parte da competência normal de um agente social mover-se entre as
províncias de significado ( ) mas as fronteiras entre essas províncias podem
ser mais ténues ou singelas e os trânsitos menos solenes e pomposos. Essa
permanente latência implica o que poderíamos chamar de potencial de
metamorfose, distribuído desigualmente por toda a sociedade (Velho, 1994: 29).
Por metamorfose designa-se a capacidade de inserção e desinserção plena em
diversos contextos; todavia, também não se deve confundir este termo com o de
fragmentação.
( ) a noção de metamorfose deve ser usada com o devido cuidado, pois os
indivíduos, mesmo nas passagens e trânsitos entre domínios e experiências mais
diferenciadas, mantêm ( ) uma identidade vinculada a grupos de referência e
implementada através de mecanismos sociais básicos (idem).
Mais ainda, cada indivíduo acaba por compor a sua identidade a partir desta
multiplicidade de pertenças e inserções, constituindo-se como ser uno, ainda
que multifacetado, actuando de modo algo diverso de acordo com o contexto.
Movimento associativo e construção identitária
As questões abordadas na primeira parte deste artigo puderam ser analisadas e
debatidas no decorrer do projecto de investigação aqui apresentado. Ao procurar
contextos específicos de análise empírica, ou seja, lugares estratégicos de
investigação, particularmente exemplificativos dos processos que se pretendiam
estudar, surgiu uma hipótese, a de efectuar a pesquisa no seio do movimento
associativo, não só em virtude das diversas possibilidades de trabalho de campo
que esta ideia comporta, mas também, e principalmente, devido a um interesse de
ordem teórica em abordar as associações sob uma perspectiva que não é a mais
comum. Com efeito, análises sobre o movimento associativo, não existem muitas,
e a maioria incide sobre o impacto que este tem na sociedade em geral, enquanto
veículo para a participação e motor da transformação social. Neste caso, porém,
o que interessava era analisar o impacto que a pertença a uma associação tem
para os seus próprios membros e, especificamente, o pendor identitário que
apresenta, observando-se a pertença como expressão de uma identidade individual
e a própria actividade associativa como celebração e promoção de uma identidade
colectiva.
Esta ideia parte também do reconhecimento do movimento associativo como forma
de sociabilidade particularmente emblemática do modo como as pessoas se
relacionam em condições de modernidade e no seio das grandes cidades. A
compressão espácio-temporal, associada aos mecanismos de descontextualização
(tal como concebidos por Anthony Giddens) pôs fim à hegemonia do local, e abriu
caminho para a construção e manutenção de redes sociais para além da família,
dos co-trabalhadores e vizinhos, permitindo a criação de relações interpessoais
compensadoras de uma forma dispersa no espaço, marcada pelo voluntarismo.2
Esta relação entre associação e identidade, ao invés de forçada, acaba por se
apresentar como coerente, enquadrando-se nas dimensões-chave consideradas: a
importância dos grupos de pertença, das redes de sociabilidade (entre as quais
as associações e as actividades de tempos livres apresentam uma grande
preponderância) e do projecto pessoal do self(em termos de opções de vida) na
construção da identidade. Finalmente, e porque a interacção, por definição
intrínseca, é algo de recíproco, a associação, enquanto grupo mais ou menos
delimitado, acaba por se constituir como um laboratório de análise
interaccional, em que os indivíduos se influenciam reciprocamente e em que não
só a pertença à associação acaba por influenciar a identidade dos indivíduos,
como a própria identidade da associação é profundamente marcada pelos seus
membros. Os resultados desta pesquisa, levada a cabo no seio de uma associação
específica: a Xuventude de Galícia Centro Galego de Lisboa, a seguir
apresentados, permitem reflectir sobre estes pontos.3
Comemoração étnica e celebração
A Xuventude de Galícia é uma associação de cariz fechado, com destinatários
muito definidos, e com fins também precisos: a celebração da identidade galega
e a promoção do contacto entre os galegos imigrados em Portugal. Neste sentido,
enquadra-se num contexto de defesa e promoção de uma comunidade étnica,
definindo-se esta como uma comunidade proprietária de:
um nome próprio comum; um mito de ancestralidade comum, memórias históricas
partilhadas, um ou mais elementos diferenciadores próprios de uma cultura
comum; uma associação com uma terra natal específica; um sentimento de
solidariedade para sectores significativos da população (Smith, 1991: 21).
Para atingir os seus propósitos, a associação apresenta um espaço onde os
sócios se podem encontrar e interagir, inclusivamente no bar, onde a
gastronomia galega é uma constante, a par com pratos genericamente espanhóis e
com alguns tradicionais portugueses.
A própria sede pretende ser uma reconstrução da Galiza, por exemplo, a nível
arquitectónico, com o cruzeiro na entrada, as imagens de Santiago, ou o busto
de um conhecido galego, benfeitor da associação.4 Por outro lado, se a língua é
um dos principais bastiões da identidade nacional, a galega surge
recorrentemente, nas inscrições várias que se podem ler no espaço, e é também
falada por parte dos sócios e, vulgarmente, no bar. Finalmente, encontram-se
presentes outros símbolos da identidade nacional ou regional: bandeiras,
estandartes ou as cores da Galiza, em vários locais estratégicos da associação.
Para além da existência de um espaço comum, adequado à interacção, à promoção
de sociabilidades e ao simples estar, aproveitado semanalmente por muitos dos
sócios mais velhos, a associação promove actividades que permitem aos membros
interagir, aproveitando simultaneamente a faceta mais recreativa da associação,
nalguns casos através de actividades directamente relacionadas com a origem
galega, como a gaita-de-foles, o baile galego e o canto e instrumentos típicos
galegos (embora também existam aulas de outro género, como as sevilhanas, a
salsa ou o ioga). O trabalho de campo realizado incidiu mais directamente sobre
estas últimas actividades, os gaiteiros, por um lado, e pelo outro, os
bailarinos e as cantadeiras e tocadores de instrumentos. Estes são encorajados
a participar conjuntamente no grupo folclórico da associação, o qual acaba por
se constituir como o principal meio de expressão da tradição galega. O próprio
nome do grupo reivindica este papel: tem o nome de Anaquiños da Terra, ou seja,
os bocadinhos da terra. Trata-se, portanto, de um grupo que pretende
constituir-se como meio de apresentar uns pedacitos, culturais e expressivos,
da cultura original da terra, ou seja, da Galiza. O próprio nome é, assim,
indicativo no modo como reflexivamente o grupo se percepciona, algo
posteriormente reforçado com a leitura de documentos produzidos pelo grupo,
apresentando-se inicialmente como:
um grupo do jovens que cantavam com alegria e saudade os cantares da sua terra
e da dos seus pais (ao qual posteriormente se juntou) também a dança, expressão
máxima do folclore galego, que com a sua vivacidade e alegria nos transporta à
essência da cultura da Galiza
(Anaquiños da Terra: Pequeno Historial do Grupo, não publicado).
Estas actividades, para além de serem ensinadas aos membros que nelas queiram
participar, são apresentadas perante o público em actuações, não só na própria
Xuventude, como meio de celebrar em conjunto uma identidade de origem étnica
através de algo que é considerado pelos próprios como um dos expoentes máximos
da sua cultura as expressões artísticas mais enraizadas , mas também noutras
colectividades e em espectáculos abertos, demonstrando perante o público as
tradições culturais regionais, segundo um sentimento de pertença de cariz
identitário. Neste sentido, enquadra-se dentro das chamadas associações de
expressão, em que a necessidade de expressar o gosto por determinada prática
cultural se encontra associada ao desejo de evidenciar a pertença a uma cultura
de origem, reivindicada através de sentimentos obviamente fundamentados no
tempo, que surge aqui como uma dimensão analítica fundamental.
Neste caso temos consciência de uma ligação expressiva a um outro tempo:
indivíduos que nasceram já em Portugal, ou que cá vivem há bastantes anos,
mantêm um sentimento identitário em relação a uma cultura de referência,
baseada numa origem histórica e numa herança vertical directa, procurando
celebrá-la através de comemorações específicas, algo que reenvia directamente
para a importância da memória colectiva e do papel das associações na
preservação-(re)construção e celebração desta, através daquilo a que Paul
Connerton chama cerimónias comemorativas performances repetidas e
ritualizadas, através das quais uma comunidade é recordada da sua identidade,
representando-a e contando-a numa metanarrativa (Connerton, 1999). Neste
sentido, a celebração da identidade surge como uma representação construída
(reflexivamente), mais do que como algo de espontâneo.
No intuito de encontrar meios de celebrar a sua pertença, os membros da
associação escolhem determinados processos, considerados particularmente
adequados à celebração. Neste caso, são seleccionados como particularmente
exemplificativos os cantares, essencialmente femininos, e os instrumentos,
entre os quais a pandeireta ocupa um lugar de destaque, mas sendo complementada
por instrumentos como as conchas (vieiras), iguais às utilizadas pelos
peregrinos no caminho de Santiago, as pinhas, o tambor, o bombo, o pandeiro e a
sanfona (instrumento de cordas medieval). As canções escolhidas, cantadas em
galego, são de raiz popular, algumas de expressão brejeira, outras reenviando
para a questão da imigração e da distância em relação à terra de origem.
Por outro lado, os espectáculos são complementados com o grupo de baile, que
ensaia separadamente executando algumas das danças tradicionais da Galiza,
principalmente a xota, a muiñeira e a pandeirada, características dos bailes
tradicionais, mas também algumas danças associadas a eventos específicos, como
por exemplo a dança do maio, a dança dos paus ou a dança da regueifa (típica
dos casamentos), e ainda danças mais recentes, produto de interacções com
outras tradições, geralmente trazidas pelos imigrantes galegos, como a polca, a
valsa galega, a mazurca. Como tantas outras expressões culturais, a própria
dança surge como um exemplo da miscegenação. Sendo a história da Galiza marcada
pela imigração, as suas danças surgem como influenciadas por tradições
culturais de outras paragens, coexistindo com versões galegas de danças
celebrizadas noutros lados. De um modo geral, as versões galegas, por exemplo,
da valsa ou da polca, caracterizam-se por serem mais saltitantes Para além
da música e da dança, o grupo veste-se com trajes típicos da Galiza, de várias
regiões e com diversas aplicações (traje domingueiro, traje de trabalho, etc.),
fazendo-se acompanhar por estandartes e outra simbologia própria, e a
apresentação ao público, nas actuações, é feita em galego.
A abertura para o exterior e a presença portuguesa
Para além do destaque dado às formas culturais directamente herdeiras da
tradição galega, e da panóplia de artefactos que representam a associação e o
seu próprio espaço como marcadamente galegos, institucionalmente, a associação
era, até há pouco tempo, de facto, destinada exclusivamente a galegos ou
descendentes de galegos. Na inscrição era necessário apresentar a prova de
sangue galego, e eram raros os membros que não tinham de facto esta origem, e
que entravam por via de conhecimento com algum sócio. Neste caso, são, ainda
agora, considerados como sócios simpatizantes, sem direito de voto na
assembleia associativa. Esta situação acabava por conduzir a um processo de
reprodução no interior da associação, frequentada em conjunto por famílias (em
larga medida de estatuto social elevado), em que pais e filhos participam
conjuntamente, sendo a participação destes últimos encorajada desde a infância.
O decurso do tempo quis, todavia, que esta situação não se prolongasse. A
quantidade de membros activos de origem galega começou a diminuir, de um modo
que foi descrito, pelos sobreviventes, como devido a um desinteresse dos
jovens, a partir do momento em que entraram para a faculdade, casaram ou
começaram a namorar ou, nalguns casos, regressaram a Espanha. Como resultado
deste afastamento, a associação começou a perder membros, e decidiu abrir-se
para o exterior, alargando a entrada a não galegos, como sócios simpatizantes,
fazendo inclusive publicidade nas universidades. Este processo, levado a cabo
no decorrer do ano 2000, permitiu a entrada e a coexistência no mesmo espaço de
indivíduos com um perfil social distinto, sem qualquer relação prévia com a
Galiza, mais novos e maioritariamente frequentando a universidade em Lisboa,
que revelaram interesse e abertura para a participação no seio desta
associação. O grupo dos Anaquiños da Terra, não obstante o seu papel de
destaque como guardião da identidade galega, foi um dos grupos que mais
protagonizou esta abertura, nomeadamente através de um novo curso de dança para
principiantes, dado por uma professora de origem galega, e que abriu no início
do ano lectivo em que foi levada a cabo a pesquisa.
Entre os novos membros, muitos acabaram por integrar o grupo folclórico e
frequentar também os ensaios quinzenais com um ensaiador vindo de Santiago de
Compostela, percurso que foi também por nós efectuado como parte do trabalho de
observação participante. Como resultado, a Xuventude de Galícia, e não obstante
a sua referida vertente de reivindicação identitária étnica, agrupava sob o seu
estandarte, à altura, uma grande quantidade de jovens portugueses e ainda, por
uma razão ou por outra, pessoas de outras nacionalidades, um belga, uma
francesa, um espanhol das Baleares, diversos membros oriundos dos PALOP
Esta composição conduz a situações particularmente engraçadas, como, por
exemplo, no decorrer de uma actuação em que o organizador gabava os bailarinos,
referindo-se a esta juventude, que, apesar de provavelmente mais portuguesa
que galega, continuava a dançar as danças da sua terra, comentário que deixou
perdidos de riso os quatro bailarinos: uma única jovem de origem galega, duas
portuguesas (entre as quais a investigadora) e um jovem belga, que disse que,
ao menos ele, era tão galego como português, o que provocou o riso entre o
grupo.
Não deixa todavia de ser interessante verificar como o dinamismo de uma
associação de cariz étnico é mantido por uma quantidade muito significativa de
elementos que não reivindicam nenhuma relação com a pertença étnica associada
ao grupo e que, todavia, se revestem de todos os elementos e artefactos
associados à defesa étnica para actuarem, praticando intensivamente actividades
apresentadas como expressões máximas da cultura tradicional galega.
O facto de grande parte dos associados não terem origem galega não implica que
a sua pertença à associação seja menos importante, nem elimina a possibilidade
de se abordar a questão identitária. De resto, os não galegos reinvindicam a
sua pertença à associação e ao grupo de sociabilidade que se desenvolve no seu
seio, tal como os galegos, embora o sentimento de pertença assuma formas
distintas. Por exemplo, no caso dos galegos a identificação com o nome da
associação é maior enquanto no caso dos não galegos se destacam os sentimentos
de pertença em relação à actividade desenvolvida e ao grupo de sociabilidade.
Uns e outros encontram-se envolvidos com a associação, prolongando a sua
participação para além da execução de actividades, organizando saídas em grupo,
sugerindo novas actividades, frequentando em conjunto workshops e cursos como
extensão das actividades praticadas. Para além disto, existe o hábito de jantar
na associação todas as quartas-feiras, ao que geralmente se segue uma saída
nocturna, para os membros mais jovens do grupo. Todos estes processos permitem
caracterizar este grupo como de sociabilidade e encontrar processos
identitários e de pertença associados.
A inexpectabilidade que se encontra entre os associados pode tornar-se
particularmente digna de análise, reenviando para uma determinada visão da
identidade, considerada como aquilo que os indivíduos efectivamente fazem,
sentem ou reivindicam como seu através dos seus sentimentos de pertença. Neste
sentido, são postos de lado os discursos sobre a autenticidade e a procura de
identidades autênticas, tradicionais ou afins, sendo considerado, neste
trabalho, que autêntico só pode ser aquilo que efectivamente se passa, ou
aquilo que é sentido (acabando por ser também algo que acontece, ainda que a um
nível subjectivo de opinião, representação ou sentimento). Eventualmente, o que
é sentido pode não ser o mais expectável ou habitual, mas nem por isso perde,
antes pelo contrário, o seu valor analítico e o seu estatuto de fenómeno
observável. Neste caso, uma reconstrução da cultura, música e dança galegas
tradicionais surge como parte da identidade de jovens portugueses, alguns dos
quais nunca puseram o pé na Galiza. Entre outras coisas, a pertença dos não
galegos à associação relaciona-se particularmente com a noção de projecto
pessoal do self. Para além de indivíduos que frequentam a associação,
incentivados pelo meio de origem, pela ideia de pertenças culturais básicas ou
pelo hábito enraizado no seu grupo familiar ou de sociabilidade, encontram-se
jovens cuja participação numa associação deste tipo não se encontra associada à
pertença étnica, enquadrando-se antes no seu estilo de vida, reflexivamente
construído.5
Uma primeira explicação para presença dos portugueses reenvia para um contacto
inicial mais ou menos fortuito. Analise-se, por exemplo, o caso de um dos
bailarinos, estudante universitário deslocado em Lisboa, que partilha o
apartamento com outra rapariga nas mesmas condições, e decidiu entrar para as
aulas de dança. Ao convite desta última, o jovem decidiu vir experimentar, e a
partir daí tornou-se membro assíduo. Não existia qualquer relação pré-
estabelecida entre o jovem e a cultura galega, nem com a dança tradicional ou
folclórica, mas, não obstante, gerou-se um sentimento de pertença entre este e
a Xuventude, apesar de o próprio considerar que foi absolutamente por acaso que
aí entrou. Um dos factores mais significativos para o sucesso do movimento
associativo é que as pessoas sentem necessidade de participar, de se integrarem
no seio de movimentos, de praticarem actividades várias. Isto assume
posteriormente aspectos muito importantes para a sua identidade, mas não é
necessário existir qualquer relação prévia com a actividade em causa.
Um movimento cultural emergente
Todavia, por vezes, a participação em determinada associação ou actividade
enquadra-se mais directamente num padrão pré-existente na vida dos grupos ou
dos indivíduos. Isto pode acontecer dentro de parâmetros mais óbvios, como é o
caso dos galegos. Todavia, também pode ocorrer em outros contextos, como é o
caso de diversos dos elementos portugueses da Xuventude.
No decorrer do trabalho de campo, a surpresa em relação à composição dos
membros da Xuventude foi seguida da descoberta de um determinado meio cultural,
no qual se enquadra uma parte significativa dos associados, e que justifica,
até certo ponto, a pertença a este tipo de associação. Este é um meio associado
ao gosto e à prática de músicas e danças consideradas tradicionais, marcado
pelos seus ícones e formas culturais próprias, e que encontra âncoras num
conjunto localizável de espaços e eventos. Em primeiro lugar, em duas
associações culturais, que promovem as actividades favoritas, a Fala-só, que
assume um papel particularmente importante pela abertura do seu bar, local
privilegiado para a criação de sociabilidades, marcadas pelo sentimento de
comunidade e de inter-reconhecimento, e a Pé de Xumbo, cuja principal distinção
é a organização de festivais de música e dança tradicionais, que constituíram
portal de entrada, neste contexto, para a maior parte dos elementos dos
Anaquiños, sendo um dos elementos mais caracterizadores do movimento cultural
que se pretende descrever, por promoverem de forma particular as preferências
culturais, em termos de dança e música.6 Mais do que tudo o resto, estes
festivais são um alvo privilegiado dos sentimentos de pertença, sendo
frequentados pela quase totalidade dos jovens bailarinos de origem portuguesa
da Xuventude.
No que diz respeito à música, esta é de cariz tradicionalista, utilizando
instrumentos típicos. Não se trata, todavia, de música herdeira da tradição
portuguesa ou, pelo menos, não só, nem particularmente. Trata-se antes de
apreciar as músicas tradicionais de variadas culturas, principalmente as de
origem europeia, nomeadamente espanholas, galegas, irlandesas e escocesas, mas
também africanas, ou de outros pontos do mundo. Quanto à dança, que apresenta
uma ainda maior relevância neste festivais, é também de cariz tradicionalista,
englobando diversos tipos de danças, unidas sobre o epíteto de danças
europeias. Tal como o termo danças de salão, o nome danças europeias é uma
metonímia, em que sob o termo genérico que diz respeito ao todo (a totalidade
das danças europeias) se agrupa um conjunto mais ou menos pré-definido e
restrito de danças, reconstruídas e estilizadas, que são as efectivamente
praticadas sob este epíteto. Estas danças europeias, praticadas nos vários
espaços determinantes para este grupo (Fala-só, festivais, workshops, etc.),
constituem uma pedra-de-toque do meio que se pretende caracterizar, e são
particularmente distintivas de processos identitários marcados pela procura de
filões tradicionais de origens diversas, de uma forma ecuménica, com alguma
tendência para o sincretismo. Novamente, é a noção de reivindicação de um outro
tempo, de um certo passado, que marca, mas desta feita sob moldes diversos,
existindo uma prática simultânea de tradições de diversos países, com os quais
não existe uma relação baseada na origem histórica.
As danças galegas propriamente ditas não estariam inseridas neste conjunto, e
não são ensinadas na maioria dos workshops de dança. Todavia, e tendo em conta
a exiguidade do meio, existem diversos pontos de contacto. Como já foi
referido, grande parte dos membros de origem portuguesa da Xuventude já se
encontravam enquadrados neste meio cultural, e foi assim que, através de um
qualquer processo inicial, tomaram conhecimento da existência das danças
galegas, que acabaram por ser progressivamente enquadradas no movimento como
umas das danças europeias. Neste sentido, gera-se um processo invertido: em vez
de uma pertença inicial conduzir à prática das danças galegas, é a prática de
danças similares que conduz à descoberta da Galiza e à inserção no meio galego.
A reconfiguração das identidades nacionais
Da união entre portugueses, residentes no seu país, mas membros de uma
associação da Galiza, e de galegos inseridos nessa mesma associação, mas
imigrados em Portugal, nascem também complexos processos identitários em termos
de identidade nacional. Por um lado, entre os galegos, encontram-se alguns dos
clássicos dilemas do imigrante, nomeadamente no que diz respeito ao modo como
se manejam as duas principais influências identitárias, provenientes das duas
nações de referência, dualidade de referências que tanto pode criar um pouco a
sensação de que não se pertence a parte alguma, como também pode servir para a
constituição de uma identidade mais individual, por resultar da ligação pessoal
de influências culturais e nacionais consideradas distintas.
Por outro lado, para a maior parte dos portugueses, a ideia de uma identidade
galega surge como imediatamente associada a um movimento regionalista, ou mesmo
nacionalista, em que existiria uma divisão marcada em relação a Espanha, quer
esta identidade seja acompanhada de uma aproximação com o Norte de Portugal,
quer não. Não se pretende negar a importância da pertença galega para grande
parte dos seus habitantes, mas a verdade é que, para muitos dos membros da
associação, a obsessão em não serem confundidos com espanhóis não parecia
dominá-los. As cores e a simbologia de Espanha encontram-se igualmente
presentes na associação. A referência ao Instituto Espanhol é constante, e
diversos elementos estudam nessa escola desde a infância. E se isto pode
demonstrar uma especificidade marcada em relação a Portugal, por outro lado
abstém-se de marcar uma diferença em relação a Espanha, inclusivamente a nível
linguístico.
Esta identificação com Espanha ou, pelo menos, esta falta de militância no
afastamento em relação a Castela, é, pelo contrário, muito mal recebida por
parte de diversos membros do grupo, de origem portuguesa, que fazem questão de
marcar esse afastamento, identificando sempre o nome das regiões como Galiza,
Catalunha, etc., defendendo a independência destas, a sua especificidade
linguística e, inclusive, segundo o testemunho de uma jovem galega, entrando em
divergência quando esta se afirma como espanhola e se refere ao facto de
estudar no Instituto Espanhol, coisas que para alguns elementos portugueses se
revestem de um carácter extremamente incorrecto.
A construção de identidades em rede
Se ao longo deste artigo já ressaltaram, de forma patente, duas importantes
dimensões para a construção identitária a continuidade temporal, mais ou
menos reformulada e (re)criada pelo próprio sujeito, e o projecto reflexivo do
self, mais ou menos constrangido socialmente pelo campo de possibilidades dos
indivíduos , há uma terceira dimensão que tem estado latente e que é a da
interacção, enquanto veículo privilegiado para a troca de experiências, valores
e, por conseguinte, para a transmissão identitária.
Da análise efectuada nas páginas anteriores, pode verificar-se como uma
associação, enquanto ponto de referência para determinado grupo de
sociabilidade, acaba por se constituir como ponto de encontro entre elementos
dispersos, marcados por diferentes origens, hábitos, práticas e representações,
lugares sociais e correntes culturais, surgindo como um ponto de encontro entre
vários vectores identitários, que se entrecruzam no seu seio, como se de uma
complexa rede se tratasse, rede em que se encontram tecidas linhas
identitárias, correntes culturais. É precisamente esta sua constituição que lhe
dá o seu carácter único e distintivo, a identidade própria da Xuventude de
Galícia. Isto porque, tal como já foi sugerido anteriormente, as influências
entre a associação e respectivos membros são recíprocas, ou seja, nestas linhas
identitárias a transmissão (de informações, práticas, representações, estilos
de vida ) é sempre nos dois sentidos, existindo uma troca constante entre os
dois vectores aqui referidos.
Concretamente, na Xuventude verifica-se a existência de transmissão de
informação entre a linha proveniente dos galegos, herdeira de conceitos,
hábitos e preferências culturais próprias, e os elementos mais directamente
enquadrados no movimento cultural de que se tem vindo a falar nas últimas
páginas. No caso destes últimos, a cultura e a dança galega foram, como já foi
referido, enquadradas dentro das suas práticas culturais e, neste sentido,
adoptadas como parte do movimento. A sua execução no seio de uma associação de
galegos, todavia, comporta uma relação ainda maior com a Galiza, através da
absorção de alguns elementos particularmente distintivos, não existindo uma
igual absorção da cultura de outros países de que também conhecem as danças,
praticadas nos festivais e ateliers. Entre outras coisas, existe uma absorção
da língua que, como já foi referido, é utilizada nos ensaios; de elementos da
cultura galega, como as próprias roupas, utilizadas nas actuações; de diversos
termos específicos do universo da dança galega. Por outro lado, começam também
a ser frequentadas extensões das actividades praticadas na associação, como foi
o caso dos workshops e, muito particularmente, dos cursos de dança galega na
Páscoa, em Lugo, em que vários bailarinos se inscreveram, e que uma delas
frequentou durante uma semana. A relação com a terra galega começa, assim, a
ser uma constante (inclusivamente houve convites de alguns dos galegos para
férias em suas casas). Mas longe de ser uma surpresa, este facto acaba por se
constituir como expectável, já que, ao penetrar num determinado meio, que é
apreciado, é comum iniciar-se um processo de socialização no seu seio,
comportando a absorção de diversos elementos.
Por outro lado, a mais recente enchente de jovens portugueses introduziu
igualmente um acréscimo de variabilidade no interior da Xuventude, patente em
diversos acontecimentos, por exemplo, a frequência de concertos, espaços e
bailes mais abrangentes do que especificamente os de origem galega. Deste modo,
a identidade da Xuventude da Galícia prima pela intersecção entre unidade e
diversidade, entre sentimentos únicos e comuns, produto das interligações entre
os seus membros, e divergências profundas que acabam por se manter.7
Deste modo, se a inserção em contextos específicos influencia os indivíduos,
estes não são completamente definidos por ela, não só em virtude de estarem
simultaneamente inseridos em mais contextos, mas também devido à própria
prática de interacção, que pressupõe reciprocidade. Se a pertença à Xuventude
influencia os seus membros, também esta associação é resultado dos contributos
dos indivíduos que a compõem, das referências que trazem consigo e da
interacção entre os dois principais vectores já referidos, como duas linhas
identitárias que no interior da associação se vão combinar numa rede
identitária, a qual torna a Xuventude naquilo que ela é. Esta ideia de rede
identitária, com a qual se terminará o artigo, pretende, assim, ser uma forma
esquemática de dar conta da panóplia de influências que rodeiam uma determinada
unidade em análise, contribuindo em conjunto para a construção dinâmica e
multifacetada da sua identidade.
A oscilação feita neste trabalho entre identidade individual e colectiva
permite também conceber cada indivíduo como um ponto de intersecção único de
uma miríade de linhas que se cruzam. Ao procurar um lugar entre o essencialismo
e a fragmentação, que dê conta de uma identidade única e una, multifacetada e
dinâmica, começa assim a surgir um modelo de análise que, ao considerar a
diversidade de influências, cujo único ponto de intersecção é a própria unidade
em análise, se vai estruturar em torno de uma ideia de rede.
Tomando, por exemplo, um indivíduo, verifica-se que este constitui um ponto de
intersecção único de um conjunto de linhas que se entrecruzam. Uma herança
significativa poderá vir-lhe da família uma linha, ou campo, que desemboca
nele. Mas esse indivíduo também tem uma profissão outro vector relevante. E,
provavelmente, pratica algum desporto, colecciona qualquer objecto, aprecia
particularmente a cultura e a culinária de certo país, é simpatizante dum
partido político; tudo pequenas linhas, que o atravessam (continuando depois o
seu percurso), que se cruzam a cada momento na sua vida, e que juntas
constituem uma rede relativamente extensa, em torno do indivíduo, como
influências díspares que o transformam naquilo que ele é. Particularidade
dessas redes identitárias é o facto de a informação que contêm passar sempre
nos dois sentidos. O indivíduo não é um sujeito passivo, que apenas recebe a
informação. É obrigado, por um lado, a processá-la, a dar-lhe forma e sentido,
superando as hipóteses de fragmentação ao dar unidade pessoal ao conjunto.
Noutras palavras, elabora o seu próprio percurso sobre as redes em que se
encontra, escolhe-as, integra-as, abandona-as. Por outro lado, o próprio
indivíduo é um emissor de informação, que reenvia para as redes que o
constituem, efectuando trocas.
O que se passa no interior da Xuventude de Galícia acaba por ser um bom exemplo
destes processos, resultando a identidade única desta associação da interacção
entre os seus membros e entre os dois grandes vectores identitários que
interagem no seu interior.
Notas
1 A conceptualização de identidade que foi feita neste trabalho, aqui
apresentada de forma muito resumida, é baseada no trabalho de diversos autores,
sendo de atribuir um particular destaque aos trabalhos de António Firmino da
Costa (1999), Gilberto Velho (1981, 1994), Anthony Giddens (1997) e Amin
Maalouf (1999).
2 Para além de Giddens (1996, 1997) há que destacar os contributos para este
trabalho da obra de Claude Fisher (1982) e Barry Wellman (1999), sobre
sociabilidades em rede.
3 Esta pesquisa foi realizada em 2000/2001, tendo sido utilizada uma
metodologia qualitativa de trabalho de campo etnográfico, entre Fevereiro e
Junho de 2001, pelo que os resultados apresentados dizem respeito a aspectos da
associação nesse determinado período.
4 A Xuventude de Galícia fica situada num palacete muito próximo do Campo dos
Mártires da Pátria, em Lisboa.
5 Estes conceitos de identidade reflexiva e de projecto pessoal do self
baseiam-se nos trabalhos de Anthony Giddens (1997) e Gilberto Velho (1981,
1994) sobre o tema.
6 A Fala-só fica sediada próxima do Bairro Alto, um dos bairros lisboetas mais
famosos pela sua animação nocturna, e para além do bar, onde decorrem
semanalmente concertos e bailes, promove diversos workshops; a Pé de Xumbo,
para além dos festivais, apoia e organiza diversas actividades ligadas à dança,
principalmente cursos e workshops, inclusivamente na sua Escola de Artes, em
Évora, e tem ainda um site e uma mailing list de divulgação (http://
www.pedexumbo.com).
7 A discussão levada a cabo sobre uma perca de importância da identidade dita
étnica dos membros da Xuventude, face a uma identidade forjada nas redes de
sociabilidade e dependente da trajectória dos indivíduos acaba por se confirmar
em posteriores contactos esporádicos com os Anaquiños da Terra. Entre estes, é
possível denotar uma certa dinâmica de rotatividade, assistindo-se, num
primeiro momento, ao retorno de alguns antigos membros de origem galega,
acompanhado de alguma desistência por parte dos jovens portugueses. Num segundo
momento, ainda mais recente, assiste-se a uma nova procura por parte de jovens
que não têm qualquer relação com a Galiza. Sem se contrapor à análise
apresentada, esta movimentação acaba por demonstrar a dinâmica presente nas
sociabilidades e na própria construção identitária.