Mudança e modernização nas empresas portuguesas
MUDANÇA E MODERNIZAÇÃO NAS EMPRESAS PORTUGUESAS
João Freire *
O presente texto apresenta de uma forma muito sintetizada os resultados de um
inquérito sociológico às empresas portuguesas, realizado em 2001, com o
objectivo de caracterizar o processo em curso de mudanças, no triplo plano da
tecnologia, da organização e dos (micro) sistemas sociais.1
O conceito de mudança foi aqui alargado também para o de mudança inovatória
(ou inovação), para dar conta das suas eventuais implicações mais mediatizadas,
prolongadas e promotoras de auto e hetero-desenvolvimentos, como de resto tem
vindo a ser proposto em muitas análises da evolução contemporânea dos sistemas
económicos e sociais. E foi também estendido até à noção de modernização
clássica na literatura historiográfica e sociológica para captar o
cumprimento da função social da empresa de hoje e para responder à inquietante
observação de que a actualização do aparelho produtivo português poderia estar
a ser feita sem uma correspondente assunção das vertentes qualitativas no
fundo, de melhoria da qualidade de vida das pessoas que poderiam ter.
O texto que segue apresenta a sequência de dimensões (oito, no total) e
indicadores (33) retidos na concepção do projecto e do inquérito e na análise
dos seus resultados.2 Os dados apurados foram aqui convertidos em números numa
escala de 1 a 10, em ordem crescente da importância do factor de mudança (ou de
inovação ou de modernização) considerado. Estes resultados aparecem
desagregados por sectores de actividade económica.
Mudanças tecnológicas
De acordo com o modelo teórico adoptado, esta dimensão de análise refere-se a
meras alterações dos equipamentos e dispositivos existentes na empresa, que não
configuram contudo nem situações de inovação nem de modernização, segundo as
conceptualizações correntes. Inclui, assim, alterações de (ou em) máquinas e
dispositivos mecânicos, instalação de automatismos, informatização, mudanças
nos materiais utilizados, nas formas de energia empregues e nos produtos ou
serviços prestados, e ainda nos edifícios ou instalações. Os indicadores
escolhidos incluíram:
* os investimentos feitos nos últimos três anos (e também os previstos fazer
nos próximos três);
* a forma de introdução ou condução dessas mudanças, no tocante ao seu
acompanhamento com acções de formação do pessoal;
* as resistências porventura encontradas (ou antes, a sua ausência);
* e os seus resultados positivos (medidos pelo aumento da produção ou
produtividade e pela diminuição dos custos de produção).
Mudanças organizacionais
O conceito de mudança aqui utilizado tem o mesmo significado do anterior, só
que respeitante aos modos de organização da empresa. Eis os indicadores
escolhidos para tal:
* investimentos feitos em melhorias na organização do trabalho ou do processo
produtivo feitos nos últimos três anos e previstos fazer nos próximos três;
* utilização de novas tecnologias de informação e comunicação, que tendem
sempre a alterar decisivamente a organização (foram retidos, para este
efeito, os usos de e-mail, da Internet, de teletrabalho e de tecnologias de
informação integradas permitindo simulações e aprendizagem no posto de
trabalho);
* e, por último, a diversificação das áreas de negócios ocorrida nos últimos
três anos.
Uma palavra deve ser dita sobre a mudança social, neste quadro de análise
aplicado às empresas e outras organizações de trabalho. É que partimos do
pressuposto de que a entidade económica e social que é a empresa não tem
condições para, por meros fenómenos de mudança, provocar alterações na
sociedade global, constituindo, ao invés, um espaço de recepção e incorporação
de mudanças que provêm dessa mesma sociedade global (comportamentos dos
indivíduos, ideias, etc.). Há aqui, entre empresa e sociedade, uma relação
essencialmente assimétrica e unívoca. Por tal razão, a quadrícula mudança
social da nossa grelha de análise ficou vazia e não foi operacionalizada no
inquérito. Porém, o mesmo já não acontece no que toca aos conceitos de
inovação social e de modernização social, como veremos adiante.
Inovação tecnológica
O conceito de inovação distingue-se da mudança pelo facto de, enquanto esta
produz meros resultados imediatos, traduzidos por um output quantitativo
acrescido (aumento da produtividade, etc.), a inovação potencia alterações
também qualitativas enriquecedoras da própria organização
(autodesenvolvimento), bem como alterações em entidades terceiras
(heterodesenvolvimentos). É, portanto, uma mudança com condições de provocar
alterações mais complexas e a prazo mais dilatado.
Tal como no caso das mudanças, também as inovações podem distinguir-se entre
tecnológicas, organizacionais e sociais. Para a análise da inovação tecnológica
utilizámos um dispositivo clássico que distingue os seguintes indicadores:
* a realização de actividades de investigação e desenvolvimento (R & D),
incluindo investimentos (feitos e a fazer) nestes domínios, participação em
projectos de pesquisa conjuntos com instituições universitárias ou institutos
de investigação e a criação de estruturas de I & D;
* o registo de patentes;
* a criação de algum novo produto ou serviço, concretizando a chamada inovação
radical;
* e o aperfeiçoamento de algum produto ou serviço já existente, traduzindo a
denominada inovação incremental.
Inovação organizacional
O conceito de inovação aplicado à organização foi operacionalizado através dos
seguintes indicadores:
* externalização de actividades (novas subcontratações feitas nos últimos três
anos e maior recurso ao serviço de especialistas ou consultores externos nos
últimos cinco anos);
* adopção de medidas de flexibilização (aumento da contratação nos últimos
cinco anos de trabalhadores a tempo parcial ou a meio-tempo, e diminuição da
linha hierárquica ou aligeiramento/flexibilização do funcionamento
organizativo nos últimos três anos);
* aumento do número de especialistas na empresa (presença de técnicos não-
sócios na administração da empresa e recrutamento de especialistas
qualificados de nível médio ou superior nos últimos três anos);
* actividades de formação para o pessoal (percentagem média de trabalhadores
envolvidos);
* e, por último, melhoria no nível de qualificação profissional dos
trabalhadores (medido pela percentagem de empresas que têm mais de metade dos
seus trabalhadores com formação superior).
Inovação social
O conceito de inovação social procura traduzir os contributos inovatórios que
a empresa, com as suas práticas actuais, pode exportar para além das suas
fronteiras e mesmo para além da esfera económica, ajudando assim a alterar
comportamentos e representações no âmbito da sociedade global. Este conceito
foi aqui operacionalizado através dos seguintes indicadores:
* investimento (e projectos de investimento) em actividades de marketing,
publicidade, apresentação de produtos ou serviços e imagem, dirigidos
fundamentalmente ao público consumidor;
* melhorias observadas nas relações com os clientes, almejando a sua
fidelização;
* melhorias registadas na gestão de stocks, aumentando a eficácia do processo
de circulação no sentido do just in time;
* e uso de horários de trabalho flexíveis, o que tende a desconcentrar toda uma
gama de acções de forte impacte social.
Modernização tecnológica
O conceito de modernização foi trazido para esta análise a partir da
sustentação teórica de que a empresa será, nas sociedade desenvolvidas de hoje,
uma instituição não apenas económica mas também social, e isto no sentido de
que no seu âmbito se geram processos específicos de socialização dos
indivíduos, cujos resultados os mesmos indivíduos parcialmente transportam para
as outras esferas da sua inserção social (família, meio de convívio, etc.).
Assim, é por esta forma reconhecido que a empresa moderna é também capaz de
criar, desenvolver e exportar referências e valores de modernidade, não apenas
no que toca à (sobejamente conhecida) racionalização, mas igualmente no que
respeita à individualização (identidade, autonomia e responsabilização dos
sujeitos-pessoas) e a outras referências da nossa contemporaneidade (qualidade
de vida, segurança, universalidade concreta).
Aplicado à dimensão tecnológica, o conceito de modernização foi aqui traduzido
por via de três indicadores:
* acções desenvolvidas para melhorar a qualidade dos produtos e serviços
(investimentos feitos e previstos, melhoria observada da qualidade dos
produtos/serviços e existência de serviço próprio de controlo da qualidade);
* aquisições obtidas quanto à certificação oficial da qualidade dos produtos e
da própria empresa;
* e acções concretas para o controlo ambiental dos processos produtivos
(investimentos feitos e existência de uma estrutura ou de especialistas
ocupados com estes problemas).
Modernização organizacional
A modernização organizacional foi operacionalizada por via dos indicadores
seguintes:
* desburocratização de procedimentos (realização de menos relatórios escritos);
* preocupações efectivas com a saúde, a prevenção de riscos e a segurança no
trabalho dos colaboradores da empresa (medidas através da existência de
serviços próprios especializados, a existência de representantes legais dos
trabalhadores para tais questões, e a não ocorrência de problemas de
absentismo, acidentes ou doenças profissionais, ou ainda de alcoolismo ou
droga);
* a internacionalização ou globalização da actividade económica da empresa
(medida pela existência de exportações);
* a existência de uma orientação de estratégia económica mais ampla do que a
simples gestão empresarial (integração em grupo económico, participação em
capital de outras empresas e adopção de um plano estratégico de orientação
plurianual);
* e, finalmente, um indicador sintético relativo à melhoria global da
competitividade da empresa.
Modernização social
Por fim, o conceito de modernização social foi aplicado neste quadro analítico
com o recurso aos cinco indicadores seguintes:
* a responsabilização individual dos trabalhadores (medida pela existência de
prémios segundo o desempenho individual);
* a autonomia de que beneficia o trabalhador de base da empresa (se tem
contacto directo com o cliente o que é sempre uma situação exigente , e se
tem capacidade para decidir algum problema técnico que afecte a execução das
suas tarefas);
* a existência de estruturas de participação dos trabalhadores na organização
do trabalho e outros aspectos da vida da empresa (tais como círculos de
qualidade, etc.);
* o grau de realização de situações de equidade entre os sexos (existência de
mulheres entre os quadros da empresa e na sua administração);
* e, por último, o acolhimento feito a pessoas portadoras de deficiência (com
referência a uma quota máxima de 20%) e, portanto, afectadas simultaneamente
por diminuições objectivas e pela condição de minoria social.
Conclusões
Em síntese final, no quadro_9 apresentamos os resultados médios apurados, por
dimensão de análise e sempre desagregados por sectores.
Integrando estes dados em conjuntos um pouco mais amplos e com significado
teórico processos de mudança, de inovação e de modernização, por um lado, e
tecnológicos, organizacionais e sociais, por outro podemos obter os
resultados ilustrados no quadro_10.
Uma média final ponderada (por causa das diferentes taxas de sondagem
utilizadas para os diversos sectores de actividade) traduzir-se-ia no índice
2,1 (numa escala de 0 a 10), relativo à dinâmica de transformação em curso nas
empresas portuguesas. É, à evidência, um valor bastante baixo, que mostra até
que ponto o tecido empresarial português é retardatário, lento e pesado, mas
que também esconde o que nele já vibra e responde às novas exigências, internas
e externas, que se vão colocando às empresas, aos seus responsáveis e aos seus
trabalhadores.
Mais qualitativamente, pode ainda avançar-se com algumas ideias colhidas de uma
análise mais detalhada dos dados apurados neste estudo:
* ao contrário do que poderia talvez esperar-se, o sector da indústria
permanece ainda como aquele em que os seus processos de mudança, nas suas
várias cambiantes, são mais visíveis e significativos;
* tal como já tivéramos oportunidade de observar em 1991,3 a dinâmica de
mudança em curso num arco significativo de empresas portuguesas parece
continuar bem sustentada, dez anos depois;
* as mudanças tecnológicas continuam a sobrepor-se geralmente às de natureza
organizacional e social, mas provavelmente menos do que há 10 anos atrás;
* é revelador que, nos dados sintéticos calculados, os processos sociais
(repercutidos, do exterior, nas nossas empresas) apareçam com maior expressão
do que os processos organizacionais, evidenciando as carências existentes
nesta área;
* as mudanças inovadoras e modernizadoras revelam uma expressão desigual,
consoante os domínios, mas em muitos casos bem maior do que poderia supor-se;
* ainda assim, à luz dos dados apresentados, os processos de inovação surgem
como os que mais dificuldade têm em se impor no nosso tecido empresarial;
* as diferenças sectoriais entre indústria, comércio e serviços, se bem que
nítidas, parecem estar a esbater-se em vários domínios;
* são claras e recorrentes as diferenças observadas consoante a dimensão humana
da empresa, sendo contudo de realçar a emergência da classe das micro-
empresas onde, a despeito da sua especificidade e evidentes limitações, já
são nelas perceptíveis praticamente todos os fenómenos ligados à mudança, à
inovação e à modernização que se observam nas organizações maiores;
* não obstante estes aspectos positivos, é ainda muito acentuado o peso
numérico de empresas pouco dinâmicas, em especial nos sectores do comércio,
restauração e de alguns serviços e nas de muito pequena dimensão.
Notas
1 Estudo sobre a Inovação Empresarial, financiado pelo Observatório das
Ciências e Tecnologias (Ministério da Ciência e Tecnologia) e realizado no
âmbito do Centro de Investigações e Estudos de Sociologia (CIES)-ISCTE.
2 O inquérito foi aplicado a uma amostra representativa de 120 empresas do
Continente e Regiões Autónomas, estruturada por dimensão e sector de
actividade, incluindo a indústria extractiva e transformadora, a energia e
fornecimento de águas, a construção, o comércio e restauração, os transportes,
as financeiras e os restantes serviços.
3 Investigação financiada pela JNICT e outras entidades, da qual se publicou o
livro A Função de Chefia Directa na Indústria, Lisboa, IEFP, 1995.