Avaliação da implementação da Educação Sexual em contexto escolar, na região do
Introdução
Tendo em conta as ligações da sexualidade às dimensões da identidade pessoal e
das relações interpessoais, a Educação Sexual (ES) precisa de ser
concetualizada de forma holística, englobando as dimensões biológica,
psicoafetiva, sociocultural, relacional e ética, ligadas e dependentes entre si
(Frade, Marques, Alverca, & Vilar, 2006; López & Fuertes, 1999; Matos,
Reis, Ramiro, Ribeiro, & Leal, 2014). Também a Organização Mundial de Saúde
[OMS] (2010), nas últimas décadas, tem reforçado a necessidade de implementar
estratégias efetivas que promovam a vivência segura e feliz da sexualidade,
realçando o papel da ES.
De acordo com o Ministério da Educação - Grupo de Trabalho de Educação
Sexual (ME-GTES) (2005), a ES é o "processo pelo qual se obtém informação
e se formam atitudes e crenças acerca da sexualidade e do comportamento
sexual" (p. 6). Considerando que a escola é onde as crianças e os jovens
passam grande parte do seu tempo (United Nations Educational, Scientific and
Cultural Organization - UNESCO, 2009), a concretização da ES em contexto
escolar parece ser essencial (Frade et al., 2006). A escola possui, também, uma
vertente de formação pessoal e social que atua na promoção de competências e
capacidades para a resolução dos problemas quotidianos (Canário, 2005), devendo
ser considerada como um contexto importante para possibilitar o aumento de
conhecimentos na área da sexualidade e para a promoção de atitudes e
comportamentos adequados (ME-GTES, 2007b).
As abordagens educativas no âmbito da sexualidade e, consequentemente, da ES,
são diversificadas e foram surgindo em função da evolução e transformação do
próprio conceito de ES. Desta forma, os diferentes modelos de ES caracterizam-
se por terem distintos quadros de valores que orientam as práticas educativas,
diferentes conteúdos e metodologias pedagógicas (Vaz, Vilar, & Cardoso,
1996; Vilaça, 2006). Vaz et al. (1996) consideraram quatro modelos de ES que,
apesar de assumirem designações diferentes, se coadunam com os modelos
propostos por López (1990). Em Portugal, o modelo impositivo conservador, o
qual justifica a finalidade da sexualidade como sendo meramente reprodutiva,
teve grande ênfase, dado o peso da Igreja na nossa sociedade. Também o modelo
médico-preventivo, amplamente divulgado em Portugal nos anos 90, no âmbito da
Rede de Escolas Promotoras de Saúde (REPS), se tornou característico das
intervenções de muitas instituições de saúde em meio escolar, visando a
prevenção do aborto, das Infeções Sexualmente Transmissíveis (IST) e da
gravidez na adolescência (López & Oroz, 1999). O estudo de Matos et al.
(2014) permitiu perceber que este modelo continua a ser o mais praticado nas
escolas portuguesas. Ainda assim, o modelo de desenvolvimento pessoal é
considerado o mais atual e pertinente, pois aborda a sexualidade nas suas
várias vertentes (Ramiro, Reis, Matos, Diniz, & Simões, 2011; Vilar, 2002).
Em Portugal, a primeira lei a contemplar a ES em contexto escolar foi aprovada
em 1984 (Lei n.º 3/84), e, em 1999, a Lei n.º 120/99 reafirmou a necessidade de
reforçar as garantias do direito à saúde reprodutiva. Em 2000, a Escola foi
reconhecida, através do Decreto-Lei n.º 259/2000, como entidade competente para
integrar estratégias de promoção e Educação para a Saúde (EpS), incluindo a ES
nos currículos dos ensinos básico e secundário (Decreto-Lei n.º 259/2000). Com
a reforma curricular de 2001, a ES pôde ser abordada no ensino básico, nas
áreas curriculares não disciplinares (ACND): Formação Cívica, Estudo
Acompanhado e Área de Projeto, estabelecidas pelo Decreto-Lei n.º 6/2001.
Somente em 2009 a Lei n.º 60/2009 estabeleceu a aplicação da ES nos
estabelecimentos do ensino básico e do ensino secundário, em resultado das
recomendações presentes nos vários documentos elaborados pelo GTES (ME-GTES,
2005, 2007a, 2007b). Desta forma, consagraram-se as bases gerais do regime de
implementação da ES em contexto escolar, "conferindo-lhe o estatuto e a
obrigatoriedade, com uma carga horária adaptada e repartida por cada nível de
ensino, especificada por cada turma e distribuída de forma equilibrada pelos
diversos períodos do ano letivo" (Portaria n.º 196-A/2010, p. 1170-2),
devendo cada escola não agrupada/agrupamento de escolas designar um professor-
coordenador para a ES (Lei n.º 60/2009). A lei prevê, ainda, que a ES deve ter
o acompanhamento de profissionais de saúde e devem ser estabelecidos acordos de
parceria com entidades devidamente credenciadas na área da EpS/ES, para o
desenvolvimento de projetos específicos (Lei n.º 60/2009).
Dois anos antes da legislação mais recente ter entrado em vigor, o GTES
realizou uma avaliação da ES em contexto escolar (ME-GTES, 2005, 2007a, 2007b),
e em março de 2014 foi publicado o relatório de avaliação sobre a aplicação da
ES (Matos et al., 2014). Ainda assim, pareceu-nos pertinente caracterizar e
avaliar o processo de implementação da ES em meio escolar numa região
particular - o Algarve, tendo sido nossa intenção perceber não só qual o
grau de cumprimento em termos de enquadramento legal, mas sobretudo de que
forma se tem concretizado a ES em contexto escolar. Mais concretamente,
quisemos perceber se a ES foi incluída no projeto educativo dos agrupamentos de
escolas (AE) e de que forma tem sido implementada; identificar e caracterizar
os agentes educativos que participaram no processo de implementação da ES;
avaliar as parcerias estabelecidas com outras entidades credenciadas na área da
EpS/ES; perceber qual a dinâmica dos Gabinetes de Informação e Apoio ao Aluno
(GIAA); e perceber se a aquisição de competências e a mudança de comportamentos
foram contempladas como objetivos dos programas de ES desenvolvidos pelos AE.
Quisemos, também, contribuir para informar e dar suporte aos programas e
intervenções de ES num contexto específico de uma das regiões nacionais, tendo
em conta as limitações e os fatores que efetivamente promoveram o sucesso da
ES, identificados pelos agentes educativos responsáveis pela ES.
Método
Tendo em conta os objetivos apresentados e a natureza dos fenómenos, o presente
estudo insere-se no paradigma interpretativo/ qualitativo, por nos permitir
considerar os significados atribuídos pelos indivíduos aos fenómenos em estudo,
mais do que as suas causas (Cohen, Manion, & Morrison, 2007). Ao
considerarmos que as interações humanas recriam de modo contínuo a vida social,
tal estratégia implica investigar perspetivas individuais, constructos
pessoais, negociar significados e definições de situações, no contexto de uma
perspetiva fenomenológica, interacionista e de interesse prático (Creswell,
2013).
Pelas suas particularidades, optámos por realizar um estudo de caso múltiplo,
com recurso a técnicas qualitativas de recolha de dados (entrevista a
coordenadores da EpS/ES e a um diretor de AE). A fonte direta dos dados é o
ambiente natural, assumindo-se o investigador como o principal instrumento de
recolha de dados (Bogdan & Biklen, 1994). Mais concretamente, trata-se de
uma investigação de tipo descritivo, em que o foco é nos processos e não tanto
nos resultados ou produtos, respeitando a unicidade e a dinâmica dos contextos
(Cohen et al., 2007; Creswell, 2013). Enquanto estudo de caso descritivo
reportado a uma ou mais organizações (Yin, 2010), inclui um foco narrativo,
combinando subjetividade com objetividade (Dyer, 1995, cit. por Cohen et al.,
2007; Creswell, 2013).
Participantes
Os seis AE que integraram este estudo foram selecionados de forma aleatória,
tendo em conta a existência do 3º Ciclo do Ensino Básico (CEB) e do ensino
secundário e o facto de estarem localizados em municípios com número variável
de residentes, de forma a abarcar diferentes realidades educativas. Por
questões de confidencialidade, os AE serão designados por AE1 e AE2, ambos
situados em concelhos com menos de 40 mil residentes, e por AE3, AE4, AE5 e
AE6, situados em concelhos com 40 mil ou mais residentes. Os AE 1 e 2 têm uma
população escolar de 1500 e 1800 alunos, respetivamente, enquanto o AE3 tem
cerca de 2000 alunos, o AE4 cerca de 2500, o AE5 cerca de 2700 e o AE6 cerca de
2900. Participaram no estudo nove sujeitos do sexo feminino (oito coordenadores
de EpS/ES e um diretor de AE). Inicialmente, o objetivo era entrevistar os
diretores dos AE; no entanto, devido à especificidade do tema, os mesmos
consideraram que seria mais adequado entrevistar os coordenadores da EpS/ES.
Num dos AE, para além de termos entrevistado o coordenador da EpS/ES, o diretor
mostrou-se disponível e interessado em participar. Suspendeu-se a inclusão de
novos participantes quando as informações fornecidas começaram a apresentar
repetição dos dados recolhidos (Denzin & Lincoln, 1994).
Dos nove participantes, cinco são professores de Ciências Naturais e dois de
Biologia, um é professor de Economia e um de Inglês/Alemão. A média de anos de
serviço dos nove participantes é de 22,89 anos (DP = 8,82), e a média de anos
de coordenação de EpS/ES dos sete participantes é de 7,71 anos (DP = 4,75).
Instrumentos
Neste estudo recorremos a uma entrevista semidiretiva (Ghiglione & Matalon,
2001), destinada a coordenadores da EpS/ES e ao diretor de AE, com a intenção
de avaliar de que forma a ES foi implementada, identificando os agentes que
participaram neste processo. Quisemos, também, avaliar as parcerias
estabelecidas com outras entidades credenciadas na área da EpS/ES e identificar
as estruturas de apoio.
O guião da entrevista (em anexo) foi construído com base na Lei n.º 60/2009 e
na Portaria n.º 196-A/2010, sendo constituído por 14 perguntas. Por motivos de
garantia de fidelidade e validade do estudo, foi testado junto de três
sujeitos, com experiência superior a 15 anos em funções de direção de escolas
não agrupadas, na região de Lisboa, e mais de 30 anos de serviço. As questões
foram apresentadas e discutidas com cada um dos sujeitos, individualmente
(método da reflexão falada), tendo sido propostas algumas alterações e sugerida
a introdução de novas questões.
O instrumento de recolha de dados foi registado na plataforma online do
Ministério da Educação e Ciência (MEC) - Monitorização de Inquéritos em
Meio Escolar (MIME), e aprovado pela Direção-Geral de Educação para aplicação
em meio escolar com o número de registo 0396900001.
Procedimentos de recolha e análise de dados
Após as necessárias autorizações, os dados foram recolhidos, entre fevereiro e
maio de 2014, em cada AE. As entrevistas foram realizadas individualmente, por
uma das investigadoras, e o tempo de realização variou entre 40 minutos e uma
hora.
Após a transcrição na íntegra de todas as entrevistas realizadas, coligindo e
construindo um corpus da análise (dados resultantes), recorremos a uma análise
comparativa entre as indicações da legislação (Lei n.º 60/2009; Portaria n.º
196-A/2010) e os dados das entrevistas. Para tal, tendo como base um quadro de
referência a priori(guião de entrevista), definimos os seguintes indicadores:
"cargo que o participante ocupa no AE"; "tipo de projetos
desenvolvidos pelo AE na área da EpS/ES"; "ano de integração da ES no
projeto educativo do AE"; "ciclos de ensino em que foi integrada a
ES"; "participantes no processo de ES no 3º CEB";
"critérios utilizados para designar o professor-coordenador da EpS/
ES"; "tipo de formação dos professores-coordenadores na área da
ES"; "disciplinas que mais participaram no projeto de ES de
turma"; "tipo de entidades credenciadas na área da ES com as quais
foram estabelecidas parcerias"; "tipo de apoio prestado pelos
parceiros"; "funcionamento, parceiros e recursos disponibilizados
pelo GIAA"; "estratégias para a operacionalização do projeto de ES de
turma"; "tipo de avaliação do projeto de ES" e "objetivos
da ES privilegiados".
Seguiu-se a construção de uma grelha de análise aberta e a definição das
categorias conforme estas iam emergindo da nossa análise ao corpus (Paulos,
2014). As categorias que permitiram uma resposta direta aos objetivos definidos
(unidade de registo) (da pergunta 1 à 11) foram objeto de uma análise
qualitativa, a qual recorre a indicadores não frequenciais (presença ou
ausência) suscetíveis de permitir inferências (Bardin, 2009). Nas categorias
cujas respostas refletiram opiniões pessoais sobre o tema (da 12 à 14), contou-
se o número de vezes que determinado conteúdo apareceu (unidade de numeração
aritmética), seguindo-se a análise quantitativa, que permite obter dados
descritivos tendo em conta a frequência de aparição de certos elementos da
mensagem (Bardin, 2009). Os dados resultantes (corpus da análise) da análise de
conteúdo (Bardin, 2009) foram posteriormente submetidos a procedimentos
estatísticos que, pelo poder explicativo que aportavam, justificaram a sua
escolha.
Todos os tratamentos estatísticos foram efetuados com recurso ao software R (R
Development Core Team, 2013), com o pacote gdata, tendo sido calculadas as
médias e o desvio-padrão, bem como percentagens.
Apresentação e discussão de resultados
Avaliar se a Educação Sexual foi incluída no projeto educativo dos agrupamentos
de escolas e de que forma foi implementada
Face aos resultados obtidos, podemos afirmar que a ES foi incluída no projeto
educativo de todos os AE do estudo. Ainda assim, os AE 3 e 4 integraram a ES
apenas nos 2º e 3º CEB e no ensino secundário, e os restantes AE em todos os
ciclos de ensino. Antes da publicação da Lei n.º 60/2009, todos os AE
desenvolveram projetos na área da EpS/ES, disponibilizando Gabinetes para a
Saúde dedicados ao atendimento dos alunos (AE 1, 2, 3, 4 e 5), promovendo
sessões de formação/sensibilização de caráter contínuo (AE 5) e de caráter
pontual (AE 4, 5 e 6), dinamizadas por agentes externos, verificando-se que a
experiência adquirida nesse âmbito parece ter facilitado o processo de
implementação da ES.
No que respeita à organização e planeamento anuais da ES, de forma a cumprir as
12 horas anuais, constatámos que o projeto de ES de turma foi elaborado pelo
professor-coordenador da EpS/ES (em todos os AE) e pela equipa interdisciplinar
(AE 2 e 6), e partilhado com os diretores de turma, para que, em conjunto com o
conselho de turma, o adaptassem de acordo com as necessidades e características
de cada turma, como previsto na lei (artigo 7º da Lei n.º 60/2009; Portaria n.º
196-A/2010). Constatámos que apenas o AE 5 não cumpriu as 12 horas previstas,
uma vez que, segundo a coordenadora de EpS/ES, a redução da componente letiva
atribuída ao coordenador não tem sido suficiente para levar a cabo o projeto da
ES. De acordo com a UNESCO (2009), a grande maioria dos programas aplicados nas
escolas que obtiveram resultados positivos a longo prazo incluíram 12 ou mais
sessões anuais, com a duração de, pelo menos, 30 minutos.
Quanto à operacionalização da ES, percebemos que os AE 1, 2, 5 e 6 procuraram
integrar o projeto de ES nas várias disciplinas, de forma a que a ES fosse
abordada naturalmente pelos professores, e recorreram, também, a agentes
externos e à coordenadora de EpS/ES para desenvolverem atividades pontuais; no
AE 4 a ES foi desenvolvida através de sessões pontuais de formação/
sensibilização dinamizadas pelos psicólogos do Serviço de Psicologia e
Orientação (SPO) e pela coordenadora da EpS/ES, recorrendo, também, aos
parceiros, os quais dinamizaram atividades de caráter contínuo e pontual,
integradas no plano anual de atividades do AE; no AE 3 a ES foi desenvolvida,
maioritariamente, pela coordenadora da EpS/ES, que dinamizou sessões de
formação/sensibilização pontuais nas turmas, e pela enfermeira, que promoveu,
sobretudo, o atendimento aos alunos no GIAA.
Os resultados do presente estudo demonstraram que todos os AE recorreram à
coordenadora de EpS/ES para levar a cabo a ES, mas que, pelo reduzido número de
horas disponíveis para a EpS/ES, apelaram, também, a agentes externos para
dinamizarem ações de formação, sendo que apenas quatro AE contemplaram os
conteúdos da ES de forma transversal, em todas as disciplinas, como previsto na
lei. Segundo os resultados do Projeto Experimental do Programa de Promoção e
Educação para a Saúde - PES, Associação para o Planeamento da Família - APF e
Direção-Geral da Saúde - DGE (1999), as ações dinamizadas por agentes externos
revelaram ser o método menos eficaz pelo seu caráter esporádico, irregular e
menos responsabilizador da escola como um todo. Os mesmos autores consideraram
que este tipo de atividades é mais eficaz quando combinado com a ES realizada
de forma transversal, o que se constatou nos AE 1, 2, 5 e 6, mas não nos AE 3 e
4. No entanto, apesar de ter sido referido pelos coordenadores da EpS/ES de
quatro AE que o projeto da ES de turma era operacionalizado de forma
transversal, os mesmos referiram que a disciplina de Ciências Naturais tem sido
a mais interveniente nos projetos de ES de turma, seguindo-se a de Português,
sendo que as restantes disciplinas mencionadas pelos participantes obtiveram
uma percentagem reduzida (Figura_1).
De referir ainda que, apesar de a atual lei contemplar que os conteúdos da ES
devem ser desenvolvidos nas ACND (artigo 2.º da Portaria n.º 196-A/2010), tal
não se verificou no nosso estudo, uma vez que estas foram extintas (Decreto-Lei
n.º 50/2011; Decreto-Lei n.º 139/2012). Para os participantes, o seu
desaparecimento acabou por comprometer a operacionalização da ES, visto que os
seus temas eram, muitas vezes, abordados no âmbito da Formação Cívica. Estas
áreas pretendiam promover a autonomia, a responsabilidade e o espírito crítico,
sendo mais fácil abordar temas e problemas transversais às várias disciplinas,
uma vez que são "de natureza transversal e integradora" e para os
alunos correspondiam "a oportunidades de aprendizagem que devem ser
articuladas com todas as outras" (Ministério da Educação, 2001, p. 11).
Observámos também que todos os AE se basearam nos objetivos mínimos da ES
(artigo 2.º da Lei n.º 60/2009), adaptando os conteúdos previstos para o 3º CEB
(quadro anexo da Portaria n.º 196-A/2010) às características e necessidades de
cada turma. Contudo, todos os AE determinaram conteúdos prioritários, tais como
as IST, a gravidez na adolescência, os métodos contracetivos, o Vírus da
Imunodeficiência Humana/Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (VIH/Sida) e os
sistemas reprodutores, tendo em conta a sua pertinência na faixa etária em
questão e as necessidades dos alunos. Os AE 3, 4 e 5 privilegiaram, ainda, os
objetivos que visam desenvolver sentimentos e atitudes, trabalhando os afetos e
o reconhecimento da importância dos sentimentos e da afetividade na vivência da
sexualidade, bem como o treino e aquisição de competências.
Considerando a perspetiva de Frade et al. (2006) no que respeita aos objetivos
da ES, constatámos no presente estudo que todos os AE privilegiaram o aumento e
a solidificação dos conhecimentos (IST e gravidez na adolescência, métodos
contracetivos, VIH/Sida e sistemas reprodutores). Tal pode ter ocorrido devido
ao facto de estes conteúdos fazerem parte do programa curricular da disciplina
de Ciências Naturais no 3º CEB, na qual, segundo o presente estudo, a ES é
abordada com mais regularidade. Estes resultados permitem-nos afirmar que os AE
seguiram, maioritariamente, o modelo médico-preventivo, o qual visa a prevenção
de comportamentos de risco. Não obstante, embora de utilidade evidente, este
modelo não aborda as componentes emocionais e relacionais da sexualidade, sendo
possível que os AE que o seguiram possam, muitas vezes, confrontar-se com
necessidades de formação dos jovens nestas matérias. Os resultados sugerem,
ainda, que a seleção dos temas a abordar pode estar relacionada com o conforto
dos professores em abordar certos temas e não tanto com os interesses e as
necessidades dos alunos.
Percebemos que a avaliação do projeto de ES tem sido realizada tendo em conta
"as horas usadas na ES", "os temas abordados", "as
atividades realizadas", "a opinião/avaliação dos alunos"
relativamente às atividades desenvolvidas e o "número de alunos" que
receberam informação através de sessões dinamizadas por agentes externos (AE 1,
2, 3, 4, 5 e 6); teve em conta, também, a contabilização das disciplinas
intervenientes (AE 1, 2 e 5) e os materiais produzidos no âmbito da ES (AE 1 e
2). O AE 2 realizou a avaliação do impacto do projeto de ES na aquisição de
conhecimentos e mudança de comportamentos nos alunos através de avaliação
qualitativa (nível de empenho e motivação dos alunos nas atividades
desenvolvidas) e quantitativa (trabalhos realizados pelos alunos; testes de
avaliação de conhecimentos; inquéritos aos alunos realizados previamente à
atividade e no final, para verificar mudanças de opinião e atitudes). Os
restantes AE realizaram uma avaliação qualitativa das atividades com base na
motivação e participação dos alunos nas atividades desenvolvidas.
Estes resultados sugerem que, tendo em conta a natureza dos fatores
considerados na avaliação da ES levada a cabo pelos AE, os processos de
avaliação não têm contemplado a avaliação de conhecimentos, nem os principais
objetivos da ES - a aquisição de competências e as mudanças de
comportamentos. No presente estudo, apenas o AE 2 avaliou o impacto da ES
nestas dimensões, sendo que os restantes AE realizaram uma avaliação
qualitativa das atividades. Entendemos, à semelhança de Ramiro, Matos, e Vilar
(2008), que somente através da avaliação sistemática e efetiva dos projetos de
ES e do seu impacto nos conhecimentos e atitudes dos alunos será possível
compreender mais e melhor os fatores que efetivamente promovem o sucesso da ES.
Contudo, e na linha de pensamento de Reis (2004), parece-nos que esta avaliação
só será possível a médio e a longo prazo, quando a ES estiver sistematizada nas
escolas e depois de clarificar qual a dimensão pretendida quando se fala de
avaliação na área da ES.
Pelo discurso dos participantes percebemos que o MEC não parece ter participado
ativamente no trabalho desenvolvido no âmbito da EpS/ES, ao qual foram
apontados aspetos negativos e positivos (Tabela_1). De acordo com os
participantes do estudo, o MEC não tem assumido ativamente o seu papel no
acompanhamento, na supervisão e na coordenação da EpS/ES (artigo 13.º da Lei
n.º 60/2009). Na prática, o MEC tem desempenhado funções no âmbito da avaliação
do cumprimento da lei e não tanto no âmbito da viabilidade dos projetos de ES.
Os participantes mencionaram ainda que a formação necessária para o exercício
de funções na área da ES, garantida pelo MEC (n.º 4 do artigo 8.º da Lei n.º
60/2009), foi sendo reduzida, fazendo com que os professores recorressem à
formação interpares, especialistas convidados ou formação facultada por ONG.
Nas palavras dos participantes, "o MEC parece ter-se esquecido da
ES". Não obstante, foram realçadas as verbas disponibilizadas pelo MEC
para a EpS/ES, através da Direção-Geral de Educação, as quais permitiram a
aquisição de material para as atividades.
As maiores limitações identificadas no processo de implementação da ES pelos
participantes (Tabela_2) resultaram do pouco apoio do MEC, mas também das
políticas educativas implementadas recentemente, tais como a redução do número
de horas disponíveis para a formação de professores, a qual é exigida e
necessária nesta área, e a redução de horas letivas, limitando o tempo dos
professores para cumprir os conteúdos programáticos e não disponibilizando
horas para a ES. Os participantes referiram, também, que o facto de os
programas curriculares estarem desajustados, dificultando a integração dos
objetivos da ES, e de a lei estar desatualizada no que diz respeito à
prossecução das finalidades da ES comprometem a sua concretização (artigo 2.º
da Portaria n.º 196-A/2010). Também a falta de informação sobre as diferentes
dimensões da sexualidade, por parte dos professores e pais, associando a ES
somente à dimensão biológica da sexualidade, foi considerada pelos
participantes como um entrave. Foi ainda mencionado o facto de alguns
professores considerarem que os temas da ES são de caráter privado, não
devendo, por essa razão, ser abordados na escola. A pouca (ou nenhuma)
participação dos pais no projeto da ES foi referida como um obstáculo na
concretização efetiva da ES. Estes resultados sugerem que a continuidade da ES
em contexto escolar parece depender dos professores que consideram a ES
fundamental para uma educação plena do aluno.
Considerando os fatores anteriormente mencionados, percebemos que nos AE
situados em concelhos com menos residentes e, consequentemente, com menos
alunos (AE 1 e 2) se observaram mais fatores em comum no processo de
implementação da ES, sendo que seguiram mais fielmente as recomendações da lei
que regula atualmente a ES em contexto escolar. Pelo contrário, os AE situados
em concelhos com mais residentes e com mais alunos (AE 3 e 4) demonstraram,
também, mais fatores em comum no processo de implementação da ES, mas maior
distanciamento relativamente às recomendações da legislação em vigor. Tais
evidências poderão estar relacionadas com os recursos humanos, o número de
horas e os recursos materiais afetos à implementação e operacionalização da ES,
os quais aparentaram ser semelhantes em cada AE. Assim, parece-nos essencial
que o número de alunos do AE seja considerado aquando do planeamento do projeto
de ES, para que sejam assegurados os recursos necessários à sua concretização
de forma holística e sistemática.
Identificar os agentes que participaram no processo de implementação da
Educação Sexual no 3º Ciclo do Ensino Básico
No presente estudo, os resultados parecem revelar a participação das direções
dos AE, dos docentes (nomeadamente, os de Ciências Naturais), dos alunos e dos
coordenadores da EpS/ES (AE 1, 2, 3, 4, 5 e 6), de outros agentes educativos
(psicólogos e enfermeiros) (AE 4 e 6) e da antiga Direção Regional da Educação
(AE 6) no processo de implementação da ES. Contudo, a participação dos pais é
quase inexistente, e parece associar-se apenas ao conhecimento dos objetivos,
atividades e conteúdos contemplados no projeto de ES de turma. À semelhança do
que revelou o estudo de Caron et al. (1993), foi referido pelos coordenadores
da EpS/ES que muitos pais não se sentem à vontade para falar sobre sexualidade
e que receiam não ter a informação apropriada. Acreditam, ainda, que ao
abordarem com os filhos a sua sexualidade estarão a promover o início da sua
atividade sexual mais cedo do que o esperado. Finger (2000) contrariava esta
ideia, referindo que os estudos realizados concluíram que a ES retardava o
começo da atividade sexual porque, quando bem informados, os educandos tendem a
ponderar as suas atitudes e a fazer decisões acertadas sobre o seu
comportamento sexual. Sabemos também que o conhecimento, as competências e a
confiança dos pais para conversar com os seus filhos adolescentes sobre
questões relacionadas com a ES têm enorme potencial para promover os
conhecimentos e os comportamentos preventivos nos jovens, sendo que os
programas de ES devem considerar uma estratégia que aumente a frequência e a
eficácia de tal comunicação (Grossman, Frye, Charmaraman, & Erkut, 2013).
Para além disso, parece-nos fundamental que os pais participem nas diversas
fases dos projetos de ES (Kirby, 2001; ME-GTES, 2005).
Quanto à participação dos alunos, os resultados indicaram que estes têm sido
consultados sobre os conteúdos que gostariam de ver abordados no projeto de ES
de turma, que participaram nas atividades realizadas para comemorar as
efemérides (e.g., Dia dos Namorados, Dia Mundial de Luta contra a Sida), e que
alguns ajudaram a organizar e a dinamizar o GIAA. Foi também mencionado pelos
participantes do estudo que, no geral, os alunos participaram com entusiasmo
nas atividades realizadas nas sessões de ES, nomeadamente quando estas são
dinamizadas por agentes externos. Contudo, importa reforçar a importância da
participação dos jovens na organização, prossecução e avaliação da ES (OMS,
2010).
Os coordenadores da EpS/ES têm participado ativamente na implementação da ES
nos AE estudados, tendo sido nomeados em todos os AE. Os professores-
coordenadores da EpS lecionavam Ciências Naturais (AE 1, 2, 3), Biologia (AE 4
e 6) e Economia (AE 5), e o professor-coordenador da ES lecionava Inglês e
Alemão (AE 2), constatando-se que, no geral, os professores-coordenadores
tinham formação inicial na área das Ciências, Matemática e Informática.
Verificou-se ainda que todos têm formação específica na área da ES, promovida,
maioritariamente, pelos Centros de Formação de Escolas, mas também por
Organizações Não Governamentais (ONG). Segundo o relatório do GTES (ME-GTES,
2007b), a formação nesta área não deve ser ignorada, sendo que estes Centros
devem continuar a considerar a área de EpS/ES como prioritária,
disponibilizando módulos de formação contínua ao corpo docente da sua área.
Percebemos também que este cargo não tem sido renovado com frequência,
existindo professores a ocupá-lo há 18 anos consecutivos (desde a coordenação
do antigo Projeto de Educação Sexual), uma vez que os professores de Ciências
Naturais surgem, à partida, como candidatos mais motivados, pelo maior
conhecimento dos aspetos biológicos do corpo humano. Assim sendo, os requisitos
previstos na lei (artigo 7.º da Portaria n.º 196-A/2010) para a nomeação deste
cargo não têm sido considerados. No nosso entender, a rotatividade deste cargo
torna-se pertinente devido à necessidade de renovar ideias e motivações,
garantindo a efetiva implementação da ES (PROF 1, AE 2). Destaca-se, ainda, que
as equipas interdisciplinares (artigo 8.º da Lei n.º 60/2009) não foram
constituídas nos AE 1, 3, 4 e 5, uma vez que partiu da direção do AE a decisão
sobre o número de horas a reduzir na componente letiva de quem integra a
equipa, sendo que nestes AE a redução não possibilitou a sua constituição. Nos
AE onde existiam estas equipas (AE 2 e 6), constatámos que são constituídas por
professores de Inglês, Alemão, Ciências Naturais, Tecnologias da Informação e
Comunicação e Educação Física (AE 2), e por professores de Matemática, Ciências
Naturais, Educação Visual e Educação Física (AE 6). Relativamente a esta
questão, os coordenadores da EpS/ES sugeriram que as direções dos AE fossem
sensibilizadas para a importância da ES em contexto escolar e para os fatores
que mais contribuem para o seu sucesso (AE 1 e 5).
No presente estudo foi referido pelos participantes que tem sido a disciplina
de Ciências Naturais a intervir mais ativamente no projeto de ES de turma,
conclusões que vão ao encontro dos resultados apurados no estudo de Matos et
al. (2014). Na opinião de vários coordenadores, tal pode acontecer por se
acreditar, ainda, que os professores de Ciências Naturais são os mais capazes
de abordar estes temas, ignorando-se o facto de que a ES não contempla apenas a
dimensão biológica e científica, mas também a dimensão dos afetos, sentimentos,
competências pessoais e sociais, que qualquer professor deveria estar
habilitado a abordar. De acordo com Ramiro et al. (2008), os professores de
Ciências Naturais revelaram mais conhecimentos e maior probabilidade de
atribuir elevada importância aos vários temas da ES. No entanto, a
concretização efetiva da ES implicaria que todos os professores oferecessem o
seu contributo, para que todas as áreas do conhecimento participassem no seu
desenvolvimento, promovendo-se a ES de forma transversal (Precioso, 2004).
Os resultados indicaram também que todos os AE estabeleceram parcerias com
Centros de Saúde e Hospitalares (CSH), com ONG (AE 2, 4, 5 e 6) (APF -
Associação para o Planeamento Familiar; MAPS - Movimento de Apoio à
problemática da SIDA; ASMAL - Associação de Saúde Mental do Algarve; APPC
- Associação de Paralisia Cerebral; GAT - Grupo Português de
Ativistas sobre Tratamentos de VIH/Sida), com Outros Organismos do Estado (AE
2, 3, 4 e 5) (IPJD - Instituto Português da Juventude e Desporto; SICAD
- Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências;
CPCJ - Comissão de Proteção de Crianças e Jovens; CVP - Cruz
Vermelha Portuguesa), com Instituições de Ensino Superior (AE 2 e 4) (Instituto
Piaget) e com Outras Entidades (AE 2) (Ordem dos Farmacêuticos). Estes
parceiros promoveram sessões pontuais de formação/sensibilização aos alunos (AE
1, 2, 3, 4, 5 e 6) e, também, projetos contínuos (AE 2 e 4). O recurso a
parceiros para dinamizarem sessões de ES, segundo a opinião de todos os
participantes, prendeu-se com a falta de professores motivados e com à-vontade
para abordar temas na área da ES. Não obstante, verificámos que nos AE 3, 4 e 5
os coordenadores da EpS/ES dinamizaram sessões de formação/sensibilização aos
alunos. Os seis AE contaram, ainda, com a colaboração de enfermeiros dos CSH,
os quais prestaram apoio ao GIAA, promovendo o atendimento e o esclarecimento
de dúvidas aos alunos. Estas parcerias são indispensáveis para que os alunos e
a comunidade educativa desenvolvam plenamente as suas potencialidades e
adquiram competências de "saber ser" e "saber fazer"
(Portaria n.º 196-A/2010).
Identificar a existência de Gabinetes de Informação e Apoio ao Aluno
No presente estudo, verificámos que cinco dos seis AE tinham o GIAA a
funcionar, tal como prevê o artigo 10.º da Lei n.º 60/2009, sendo que o GIAA do
AE 6 se encontrava em fase de implementação no ano letivo 2013/2014. Percebemos
que os GIAA articularam a sua atividade com os CSH (AE 1, 2, 3, 4 e 5), com
ONGs (AE 4) e com Outros Organismos do Estado (AE 5), e que garantiram o
horário estabelecido por lei (uma manhã e uma tarde por semana, pelo menos). No
entanto, cumprir a lei parece não ter sido suficiente para alcançar o propósito
do GIAA, o qual deve ser um espaço dos e para os alunos, organizado com a sua
participação, devendo disponibilizar prontamente informação atualizada e
métodos contracetivos adequados. À exceção do AE 5, encontrou-se um espaço
impessoal e, segundo as perceções da maioria dos coordenadores da EpS/ES, pouco
procurado pelos alunos. Os mesmos chamaram a atenção para o facto de o MEC não
criar as condições necessárias para a viabilidade do GIAA, uma vez que os
alunos não têm disponibilidade para o visitar por terem horários muito
preenchidos (AE 1, 2, 3 e 4), e também por terem receio de serem rotulados por
frequentarem o espaço, visto que existe alguma dificuldade em conseguir um
espaço que garanta o anonimato (AE 1, 2 e 3). Por sua vez, os resultados do
estudo de Matos et al. (2014) demonstraram que, na perspetiva dos diretores dos
AE, a adesão dos alunos ao GIAA tem sido "muito boa". Na nossa
opinião, esta controvérsia entre as perspetivas dos diretores e dos
coordenadores da EpS/ES pode refletir algum distanciamento da realidade por
parte dos diretores. Este facto pode estar relacionado com a sobrecarga de
tarefas administrativas a que estão sujeitos atualmente, não lhes permitindo um
envolvimento mais direto e ativo no âmbito da ES, como referido no estudo de
Matos et al. (2014).
Quanto aos recursos disponibilizados pelos GIAA, constatámos que foram
disponibilizados kits de demonstração e prestaram atendimento aos alunos (AE 1,
2, 3, 4 e 5), cederam um espaço condigno para os alunos frequentarem (AE 1, 3,
4 e 5) e Internet (AE 3, 4 e 5), promoveram o esclarecimento de dúvidas através
da "caixa das dúvidas" (AE 1, 4 e 5), disponibilizaram livros (AE 3,
4 e 5) e sugestões de atividades para os professores desenvolverem com os
alunos (AE 1 e 4), disponibilizaram métodos contracetivos (AE 5) e folhetos (AE
4). Percebemos que os AE 4 e 5 foram os que garantiram e disponibilizaram mais
recursos aos alunos e que o AE 2 foi aquele que menos recursos garantiu e
disponibilizou, tendo em conta que não tem um espaço em condições para o
efeito. Apenas o AE 5 garantiu o acesso a métodos contracetivos, sendo que os
restantes coordenadores da EpS/ES alegaram não ter autorização para o fazer.
Todavia, o número 8 do artigo 10.º da Lei n.º 60/2009 prevê que os GIAA,
articulados com os CSH, assegurem aos alunos o acesso a métodos contracetivos
adequados. Num estudo recente à população portuguesa (Deco Proteste, 2006, cit.
por Ramiro et al., 2008), verificou-se que cerca de metade dos inquiridos
concordou com a distribuição de preservativos em contexto escolar. Estes
resultados sugerem, mais uma vez, que a concretização da ES depende, em parte,
das convicções e dos valores de quem a implementa e dinamiza.
Considerações finais
Apesar das limitações, que se prendem com as características inerentes às
opções metodológicas assumidas, nomeadamente no que concerne às estratégias de
recolha de dados e à constituição do grupo de participantes, podemos afirmar
que o estudo contribuiu para um conhecimento mais amplo e contextualizado da
forma como tem decorrido o processo de implementação da ES e de como tem sido
operacionalizado o projeto de turma no 3º CEB, na região do Algarve. Foi
possível, também, identificar os agentes educativos e os parceiros que mais
participaram, bem como as estruturas existentes que apoiaram a concretização da
ES. Além disso, entendemos que estes resultados contribuíram para perceber as
limitações identificadas no processo de implementação e os fatores que
promoveram o sucesso da ES formal nos AE estudados, promovendo a melhoria e
reforço dos programas e intervenções de ES.
No nosso entender, a legislação que estabelece o regime de aplicação da ES em
contexto escolar (Lei n.º 60/2009; Portaria n.º 196-A/2010) foi cumprida no que
respeita à sua integração no projeto educativo dos AE, na região do Algarve,
bem como à carga horária estipulada. No geral, os AE dispõem de um GIAA,
organizado pelos coordenadores da EpS/ES, apesar de nos parecer que o espaço é
utilizado essencialmente para planear as ações a desenvolver no âmbito da EpS/
ES, sendo mais aproveitado pelos professores e não tanto pelos alunos. No que
respeita à implementação da ES, percebemos que os AE situados em concelhos com
menos residentes e, consequentemente, com menos alunos (AE 1 e 2) revelaram
mais fatores em comum no processo de implementação da ES, apresentando um
percurso mais próximo das recomendações da lei que regula atualmente a ES em
contexto escolar, sugerindo que o número de alunos pode ter algum tipo de
relação com o modo como se implementa a ES. Os resultados do nosso estudo
evidenciaram, também, que a disciplina de Ciências Naturais foi o espaço
curricular onde temas da ES eram abordados com mais frequência, sugerindo que a
sua realização ao nível interdisciplinar e transversal não parece ser, ainda,
uma realidade constatada na prática. Na mesma linha de pensamento do GTES (ME-
GTES, 2005), consideramos que cada disciplina deveria procurar perceber qual o
contributo a dar à EpS/ES, uma vez que todos os professores têm na sua zona de
conforto tópicos que podem desenvolver na área da sexualidade.
No âmbito dos conteúdos abordados, foi privilegiado o aumento e a consolidação
dos conhecimentos, numa vertente de prevenção, apesar de percebermos que estão
a ser assumidas outras preocupações, como o treino de competências pessoais e
sociais, sentimentos e atitudes. Ainda assim, parece-nos que, apesar de a
legislação apontar para que os objetivos propostos nos programas de ES
contemplem múltiplas temáticas, os AE estudados seguiram, maioritariamente, o
modelo médico-preventivo. Desta forma, parece-nos que não se tem dado espaço
para trabalhar a aquisição de competências e as mudanças de comportamentos,
denotando-se, também, no presente estudo, a ausência de avaliação dos projetos
de ES neste âmbito. De acordo com o trabalho desenvolvido pelo GTES (ME-GTES,
2007b), a informação sobre a sexualidade é uma vertente essencial na ES, mas
não é suficiente. Sobre este assunto, Ramiro et al. (2011) defendem que os
programas de ES devem contemplar a aquisição das competências cognitivas e
comportamentais, a avaliação da vulnerabilidade ao risco e da motivação para a
mudança e os fatores situacionais que possam intervir na implementação desse
comportamento/mudança, como são as normas sociais, a pressão do grupo de pares
e a influência do parceiro. Para tal, acreditamos que a abordagem a seguir no
âmbito da ES deve ser holística e democrática (Ramiro et al., 2008),
sistemática e não pontual, devendo iniciar-se antes de qualquer atividade
sexual (Firestone, 1994).
Os resultados sugerem, ainda, que a continuação e o sucesso da ES em contexto
escolar parecem depender das convicções e da vontade dos professores que
consideram importante abordar e integrar a ES nos conteúdos disciplinares, e
que as limitações à sua prossecução passam pela falta de formação, de
experiência e de à-vontade dos docentes nesta área. Neste contexto, vários
autores defendem que as atitudes mais positivas face à sexualidade estão
relacionadas com a formação específica nesta área (Ramiro & Matos, 2008;
Zapiain, 2003). Assim, parece-nos pertinente alertar para a importância de
garantir a continuidade de ações de formação na área da ES e de as Instituições
de Ensino Superior assumirem a responsabilidade na formação dos futuros
professores nesta área. Contudo, na mesma linha de pensamento de Reis e Vilar
(2004), para que o professor se sinta motivado para levar a cabo um programa de
ES que se deseja interdisciplinar, é necessário considerar algumas variáveis,
para além da formação, tais como o tempo, o espaço físico e as circunstâncias
para pôr em prática um programa de ES. Para além disto, importa ter em conta
que a realização da ES nas escolas de forma transversal pode aumentar a
quantidade de tarefas exigidas ao docente na atualidade, sendo que os
obstáculos à ES podem surgir não tanto pela falta de vontade por parte dos
professores em dinamizar a ES, mas pela incapacidade de responder com confiança
e capacidade.
Entendemos que, apesar das limitações já destacadas, este estudo contribuiu,
não só para perceber a importância dos docentes, da sua formação e à-vontade
para abordar temas no âmbito da ES, mas também para compreender a importância
do envolvimento do MEC e da comunidade educativa, nomeadamente no sucesso da
sua implementação e dinamização. Ao contrário do que foi demonstrado neste
estudo, o MEC deve assegurar uma intervenção ativa na prossecução da ES, de
forma a que os professores não se sintam "cansados" e
"sozinhos" neste percurso, mas também as famílias devem envolver-se
mais na educação e na relação com a escola, outro aspeto que não se observou no
presente estudo. Igualmente os alunos devem desempenhar um papel mais ativo,
sobretudo através do seu envolvimento no processo de ensino/aprendizagem,
parecendo-nos indispensável uma abordagem pedagógica realizada em contextos
curriculares e extracurriculares, numa lógica interdisciplinar, nomeadamente na
restituição das ACND.
Apesar das limitações apontadas, os participantes neste estudo acreditam na
concretização efetiva da ES como uma educação transversal, indispensável ao
desenvolvimento pleno dos alunos, e, por isso, continuam a investir na ES por
reconhecerem a sua importância na formação pessoal, social e cívica dos alunos,
"promovendo o crescimento sadio, pleno e holístico do indivíduo"
(PROF 2, AE 6).
Agradecimentos
O estudo relatado no texto foi financiado por Fundos Nacionais através da FCT -
Fundação para a Ciência e a Tecnologia no âmbito do projeto UID/SOC/04020/2013.