Manuais escolares de Ciências Naturais de 8º ano em Portugal e estrutura
conceptual do PISA 2006
RÉSUMÉ
Cet article se concentre sur l`analyse des activités d`apprentissage et
évaluation formative dans la section des manuels scolaires, de Sciences de la
Vie et de la Terre, dédiée à la "Gestion Durable des Ressources".
Le but de cette méthode est de mesurer l`adéquation du modèle de développement
des compétences proposé dans les manuels scolaires avec les critères
d`évaluation de la culture scientifique promus par le PISA 2006. Basé sur une
enquête qualitative, le fondement théorique est en accord avec le cadre
conceptuel de PISA 2006. Les manuels ont été sélectionnés selon le critère
"du manuel le plus couramment adopté". Les résultats montrent que
l'accent a été mis sur le développement basé sur l`acquisition de
connaissances factuelles et des concepts qui complètent les compétences et
constatent l`absence de situations d`apprentissage qui favorisent la
connaissance et la compréhension des compétences scientifiques.
Mots-clé:Curriculum; Manuels scolaires; Compétences; PISA 2006
Introdução
O momento em que se escreve este artigo coincide com a apresentação, a nível
nacional, de uma revisão curricular, em resultado da revogação do currículo
nacional para o ensino básico (Ministério da Educação (ME), 2001) pelo Despacho
n.º 17169/2011, de 23 de dezembro, onde é mencionado que "O documento
insere uma série de recomendações pedagógicas que se vieram a revelar
prejudiciais. Em primeiro lugar, erigindo a categoria de
"competências" como orientadora de todo o ensino, menorizou o papel
do conhecimento e da transmissão de conhecimentos, que é essencial a todo o
ensino". A revisão curricular em curso assenta em novos planos de estudo
por ano de escolaridade, com as respetivas cargas horárias semanais, e em Metas
Curriculares que definem as aprendizagens essenciais a realizar pelos alunos em
cada disciplina. O Ministério da Educação e Ciência (MEC) (2012), no seu texto
de enquadramento às metas, refere: "(…) seguindo um dos princípios
essenciais das teorias da instrução, foi nossa intenção que nas presentes metas
ficasse clara a relação entre o que se pretende que o aluno aprenda -
conhecimento ou capacidade - e os processos envolvidos nessa
aprendizagem". O mesmo documento realça que as teorias da aprendizagem e
instrução onde se alicerçam as metas "são as que salientam a importância
de aspetos como o conhecimento, a memória, a compreensão e a resolução de
problemas" (MEC, 2012, p. 2).
O contexto criado pela publicação destes dois documentos confere pertinência a
esta investigação, cujo objeto é a análise do modelo pedagógico dos manuais
escolares em vigor, elaborados e certificados em função do documento revogado,
cujo modelo é alicerçado na categoria das "competências", que a atual
revisão curricular responsabiliza.
Sabemos que os manuais escolares são instrumentos didáticos poderosos, já que
muito do conhecimento científico transmitido nas salas de aula é por eles
veiculado (DeBoer, 2000). Morgado (2004) diz: "ao funcionarem como
elemento estruturador dos conteúdos disciplinares e como um dos principais
meios para a sua transmissão, os manuais escolares desempenham um importante
papel na regulação das práticas pedagógicas" (p. 47).
Pela literatura, os manuais escolares são apontados como instrumentos
influentes no processo de ensino e aprendizagem da ciência, por exercerem um
papel significativo na forma como os conteúdos são definidos e comunicados, ao
mesmo tempo que influenciam os resultados da aprendizagem (Millar, 2011;
Morgado, 2004; Roseman, Kulm, & Shuttleworth, 2001; Tyson, 1997). São ainda
apreciados como constituindo o principal guia do currículo na preparação das
aulas, sendo utilizados, desde a primeira à última página, por professores
inexperientes ou sem tempo para planificarem as suas aulas (Roseman, et al.,
2001). Segundo Millar (2011), moldam a prática dos professores com as suas
orientações.
Neste contexto, adquire relevância a análise comparativa entre, por um lado, o
desenvolvimento de competências que é promovido pelas atividades de
aprendizagem e avaliação formativa da unidade de ensino curricular "Gestão
Sustentável dos Recursos" (GSR), elaboradas à luz do documento agora
revogado, e, por outro lado, a avaliação de competências realizada pelas
unidades de avaliação do teste PISA (Programme for International Student
Assessment) 2006. Dessa análise resultará o modelo pedagógico
'motor' de desenvolvimento de competências, da orientação,
apresentação e comunicação dos conteúdos dos manuais, que, do ponto de vista
dos seus autores, é facilitadora das aprendizagens. Segundo Roseman, Stern, e
Koppal (2010), todos os manuais escolares protagonizam um modelo pedagógico,
exibido pela forma como apresentam e comunicam os conteúdos. Os manuais
escolares que nos propusemos analisar correspondem aos mais adotados, numa
amostra de 223 escolas, pelo que manifestam a anuência, por parte de muitos
professores, a um modelo pedagógico.
Num currículo nacional são expressos os conteúdos e os objetivos e valores que
regulamentam as aprendizagens de uma nação. A sua existência é da maior
importância e a sua estabilidade da maior conveniência (Oates, 2011). De acordo
com Oates (2011), uma revisão curricular não deve ser conduzida com base em
considerações particulares e parciais dos problemas identificados, mas sim na
compreensão profunda das funções do currículo. Ainda segundo Oates (2011), a
análise da avaliação internacional, comparada, com base na qual os sistemas
educativos europeus têm sido avaliados, realça dois conceitos-chave para a
compreensão do sucesso de alguns países. São eles a "coerência
curricular" e o "controlo curricular". Quando Oates (2011) fala
em "controlo curricular" não se refere ao exercido pelo Estado, mas
sim ao relacionado com a "coerência curricular". Por exemplo, nalguns
sistemas educativos, a ênfase ênfase está na alta qualificação exigida aos
professores, enquanto noutros reside no controlo dos materiais utilizados, como
os manuais escolares. A expressão "coerência curricular" tem um
significado técnico preciso, que consiste em definir os conteúdos curriculares
com o objetivo de assegurar a relação da progressão com a idade e de ajustar os
elementos do sistema educativo com os programas, a avaliação, a pedagogia, a
formação de professores e os manuais escolares (Schmidt & Prawat, 2006).
Os resultados da avaliação comparada na perspetiva da definição de
"coerência" devem apenas ser utlizados para compreender as razões do
sucesso e os elementos do sistema que são responsáveis por esse sucesso. Para
Schmidt e Prawat (2006), a "coerência curricular" numa avaliação
internacional comparada aparece associada ao alto desempenho do sistema
educativo.
Sabemos que falar de currículo significa questionar. Questionar quais os
conteúdos científicos e qual o tempo a atribuir-lhes, quais os seus objetivos,
qual o grau de profundidade com que devem ser ensinados, como devem ser geridos
e, por fim, em que ano de escolaridade deve o seu estudo ter início (Millar,
2011). O desenho curricular é quase sempre um compromisso entre as implicações
de um conjunto de objetivos e as tensões a que estes conduzem (Millar, 2011;
Wellington, 2001; Roldão, 1999). Daí não ser fácil acordar num desenho
curricular.
A reflexão e a investigação sobre o ensino das ciências, documentadas em
numerosas publicações e relatórios na última década (Osborne & Dillon,
2008; UNESCO, 2005; Rocard et al., 2007; Vieira, 2007; Gago et al., 2004;
Chagas, 2000; Jenkins, 2001; Millar & Osborne, 1998), identificam falhas e
apresentam recomendações. E, de facto, essas recomendações têm sido seguidas e
dado origem a mudanças curriculares em vários países europeus, entre os quais
Portugal. O nosso país foi pioneiro nessa transformação, dado que tanto o
currículo nacional para o ensino básico (ME, 2001) como as orientações
curriculares para as Ciências Físicas e Naturais para o 3º ciclo do ensino
básico datam de 2001 (Galvão, 2001).
Inicia-se, assim, uma relação entre o ensino da ciência e a sociedade, que,
juntamente com o desenvolvimento tecnológico, veio propor novos objetivos aos
currículos e divulgar o termo "literacia científica" como o estudo da
ciência em relação com a vida do dia a dia (Holbrook, 2010; Jenkins, 2007;
Bybee & Fucks, 2006; DeBoer, 2000). A relevância educacional dada à
literacia científica no currículo confronta-se, na prática, com as políticas de
utilidade (Aikenhead, 2005) responsáveis por uma tensão curricular marcada por
dois propósitos distintos de difícil alcance: a exigência social de alcançar
bons resultados e a necessidade de inovar e promover experiências de
aprendizagens (Galvão, Reis, Freire, & Almeida, 2011). O objetivo é
garantir e medir a literacia científica de um estudante. Para o efeito surgiram
reformas educativas e curriculares assentes em metas associadas aos conteúdos,
com consequências para o ensino e por isso controversas (DeBoer, 2000; Au,
2011).
Bybee (2010) sugere que a dimensão funcional da literacia científica
transmitida aos professores nos últimos anos, como a compreensão e aplicação
adequada de vocabulário científico e tecnológico, deve ser acrescida da
dimensão conceptual e processual da aprendizagem, onde a informação deve estar
relacionada com os conceitos que unificam as diferentes disciplinas de
ciências. Deve ainda incluir a compreensão e as competências relativamente ao
processo de funcionamento da ciência. Por esta razão, entende que o conceito de
literacia é multidimensional (Bybee, 2010).
A avaliação de competências em literacia científica protagonizada pelo PISA
2006 não se limita apenas a medir o domínio dos conteúdos específicos, mas
também a capacidade dos estudantes para identificar questões científicas,
explicar fenómenos científicos e utilizar evidências científicas na resolução
de problemas da vida real que envolvem a ciência e a tecnologia (OCDE, 2008). É
uma avaliação que pressupõe uma perspetiva construtivista da aprendizagem,
centrada na resolução de problemas e em atividades de natureza investigativa.
Esta perspetiva é considerada por diversos autores como incentivadora da
curiosidade dos alunos e, assim, capaz de motivar para a aprendizagem da
ciência (Galvão et al., 2011; Holbrook, 2010; Rocard et al., 2007). O currículo
nacional do ensino básico (ME, 2001) e as orientações curriculares de Ciências
Físicas e Naturais para o 3º ciclo do ensino básico (Galvão, 2001), que
serviram de orientação na elaboração dos manuais escolares em análise nesta
investigação, têm a mesma perspetiva para as aprendizagens. Sugerem a
utilização de atividades de natureza investigativa (ME, 2001, p. 129) e
preconizam o desenvolvimento de competências (ME, 2001, p. 132). Estes aspetos
permitem verificar a existência de sintonia entre o desenvolvimento de
competências em literacia científica dos manuais e o avaliado pelo PISA 2006.
Estamos, assim, perante um estudo onde serão comparados os conceitos de
literacia científica e de desenvolvimento e avaliação de competências que
serviu de base à elaboração dos manuais escolares e dos testes PISA 2006.
Partimos dos pressupostos de que os manuais escolares de Ciências Naturais do
8º ano atendem ao currículo e às orientações curriculares de ciências físicas e
naturais para o ensino básico, possuem valor didático para alunos, professores
e encarregados de educação, propõem orientações didáticas que guiam a prática
do professor, e ainda de que o enquadramento conceptual do PISA 2006 para a
avaliação de competências em literacia científica pode servir de base à análise
dos manuais escolares.
De modo a responder a este desafio, formulamos o seguinte problema de
investigação: De que forma as atividades de aprendizagem e a avaliação
formativa propostas na unidade de ensino Gestão Sustentável dos Recursos (GSR)
seguem, em manuais escolares do 8º ano de Ciências Naturais, o enquadramento
conceptual em literacia científica do PISA 2006?
A avaliação em literacia científica realizada pelo PISA 2006
O PISA apresenta uma característica inovadora, que é a avaliação das
competências em literacia dos jovens escolarizados até aos 15 anos de idade
(Carvalho, 2009). Os testes abrangem os domínios da leitura, da matemática e da
literacia científica, e a avaliação é centrada nas competências para literacia
e não no currículo escolar, como muitas das avaliações tradicionais de
desempenho. Como instrumento de avaliação, cruza duas realidades distintas, a
social e a cognitiva. A primeira diz respeito às multiculturalidades que
envolve e a segunda às escolhas e definições sobre o conhecimento e a
aprendizagem (Carvalho, 2009). A tradução prática destas ideias é expressa na
noção de competência, que o PISA abraça. A adoção deste conceito numa
perspetiva científica da aprendizagem associada à teoria cognitiva exige uma
nova organização do processo de ensino e aprendizagem, o que legitima a
reestruturação curricular por razões económicas (Carvalho, 2009; Canário,
2006).
O enfoque na avaliação de competências permitiu ao PISA distanciar-se de outras
avaliações comparadas cujo enfoque é o currículo. Segundo Carvalho (2009),
estas opções implicam a própria escolarização no seu conjunto, por ligarem
aprendizagem, contextos e modos de ensinar e aprender à escola, colocando-a no
centro do problema.
Passou-se a questionar as práticas de avaliação da escola e as modalidades
tradicionais de organizar o processo de ensino e aprendizagem. Se o
questionamento for visto como meio de promover a mudança de um modelo
curricular para outro que se adapta melhor às lógicas da sociedade
contemporânea, então o PISA pode ser entendido como força crítica e potencial
de mudança (Neumann, Fisher, & Kauertz, 2010; Millar, 2006; Carvalho, 2009;
Costa, 2009). Neumann et al. (2010) referem que os resultados dos estudantes
alemães no PISA 2006 foram essenciais na compreensão do sistema educativo até
então. Hoje os resultados desta avaliação constituem uma base de análise para a
construção de tendências futuras da monitorização da avaliação em literacia
científica (OCDE, 2008).
O desenvolvimento e a avaliação de competências exigem uma estrutura conceptual
forte e clara que defina os domínios da avaliação e a estrutura dos testes
(Bybee, 2010). As unidades de avaliação de competências em literacia científica
obedecem ao conceito de literacia científica do PISA (OCDE, 2008, p. 39)
internacionalmente aceite.
Em termos de metodologia, o PISA recolhe informação sobre o desempenho dos
estudantes em testes que exigem apenas a utilização de papel e lápis. Os testes
estão organizados por vários itens ou questões de avaliação. Estas podem ter
diferentes formatos. Algumas exigem a construção de uma resposta onde se
demonstre os métodos e processos mentais utilizados na elaboração da resposta.
Outras requerem uma explicação, e outras ainda são do tipo escolha múltipla.
As unidades de avaliação do PISA 2006
A definição de literacia científica do PISA 2006 (OCDE, 2008, p. 39) segue a
visão da Educação em Ciência para todos (Bybee, McCrae, & Laurie, 2009),
evidenciada pela capacidade de utilizar e compreender conhecimento científico
em situações da vida que envolvam a ciência e a tecnologia. Transferi-la para
um teste de avaliação internacional exigiu a elaboração de uma estrutura
conceptual (ver Figura_1) assente em 4 pilares (contexto, competências,
conhecimento e atitudes) que orientou a elaboração dos itens ou unidades de
avaliação. Parte do entendimento de que um "contexto" exige
"competências", que por sua vez exigem a compreensão dos factos e a
sua inclusão no conhecimento científico adequado de modo a organizar a
informação destes mesmos factos (Bybee, 2010). Esta estrutura conceptual foi
elaborada em colaboração com os melhores especialistas em educação e tem hoje
largo consenso internacional (Hatzinikita, Dimopoulos, & Christidou, 2007),
servindo de fundamento teórico a este estudo.
Nas unidades de avaliação do PISA 2006, para cada questão foi definido um
contexto, a competência a avaliar e o tipo de conhecimento envolvido (ver
Figura_1).
Na definição de um contexto de ciências, o PISA 2006 procurou situações de vida
com interesse para os estudantes, que envolvessem contextos de Ciência e
Tecnologias nas áreas de "Saúde", "Recursos Naturais",
"Qualidade Ambiental", "Riscos" e "Fronteiras da
Ciência e da Tecnologia" (OCDE, 2008, pp. 39-41).
A seleção das competências "Identificar questões científicas",
"Explicar fenómenos científicos" e "Utilizar evidências
científicas" foi apurada pela investigação com base na importância que
possuem em relação ao modo como a ciência funciona e pelas capacidades
cognitivas que exigem, nomeadamente o raciocínio indutivo e/ou dedutivo, o
pensamento sistémico, a tomada de decisões, a construção de tabelas, a
argumentação e a explicação baseadas em evidências, o raciocínio em termos de
modelos e a utilização de dados matemáticos (Bybee et al., 2009). Mas o modo
como o estudante exerce as suas competências é influenciado pelo conhecimento
de ciências (conhecimento de diferentes disciplinas científicas e do mundo
natural) e sobre ciência (como forma de investigação humana) (OCDE, 2008).
Por fim, chegamos ao quarto pilar da estrutura conceptual do PISA 2006, as
atitudes. Estas, segundo a OCDE (2008), desempenham um papel importante nas
decisões dos estudantes quanto ao desenvolvimento dos conceitos científicos, à
escolha de carreiras e à utilização dos conceitos e métodos científicos ao
longo da vida. O seu caráter transversal e a ausência de questões nos manuais
escolares dirigidas à sua avaliação justificam a ausência deste domínio nesta
investigação, razão pela qual na Figura_1 surge pontilhada essa componente.
Esta estrutura conceptual responde à vontade crescente de a avaliação em
literacia científica estar assente no desenvolvimento de competências
científicas (o desenho de questões que vão além da simples memorização de
conhecimentos científicos) exigidas pelo mercado de trabalho (OCDE, 2008). A
investigação revela ainda que os indivíduos com boas competências científicas
são capazes de gerar inovações em diferentes áreas, beneficiando e
impulsionando o progresso tecnológico (OCDE, 2008). Por esta razão, parece-nos
fazer sentido comparar o desenvolvimento de competências protagonizado nas
atividades de aprendizagem apresentadas nos manuais escolares com as que os
testes PISA 2006 promovem.
Metodologia
A metodologia geral desta investigação inscreve-se numa perspetiva qualitativa
e interpretativa, em que os manuais escolares selecionados são o objeto de
estudo.
Seleção dos manuais escolares analisados
No processo de seleção dos manuais, recorremos à consulta da página oficial da
Direção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular (DGIDC), secção manuais
escolares e, dentro desta, a adoção on-line de manuais, onde verificamos a
adoção do manual da disciplina de Ciências Naturais do oitavo ano de
escolaridade, nas escolas de cada concelho do distrito de Lisboa. Neste
processo foram identificados oito manuais.
Os dados recolhidos evidenciaram, no distrito de Lisboa, uma clara preferência
por dois manuais, designados nesta investigação por 'manual A' e
'manual B', razão pela qual foram os manuais selecionados. A opção
pelo distrito de Lisboa relaciona-se com o facto de este ser o que possui o
maior número de concelhos e, consequentemente, de escolas. O processo de
seleção descrito explica a opção pelo critério de "verificação do manual
mais adotado". Este critério exprime a preferência de muitos professores
da disciplina de Ciências Naturais presentes em escolas de diferentes concelhos
que respondem a realidades educativas diferentes. Os manuais propostos para
adoção, incluindo os utilizados neste estudo, estão abrangidos por um regime de
avaliação e certificação regulamentado pela Lei nº 47/2006, de 28 de agosto.
Caracterização dos manuais
A caracterização dos manuais A e B incide no capítulo "Gestão Sustentável
dos Recursos" (GSR). A opção pelo tema curricular "Sustentabilidade
na Terra", que inclui o subtema GSR, prende-se com a sua aproximação aos
contextos científicos do PISA 2006, "Recursos Naturais" e
"Qualidade Ambiental", e com as recomendações de relatórios e de
conferências internacionais que apelam ao envolvimento social pelo
Desenvolvimento Sustentável (United Nations, 1992, 2000, 2002; UNESCO, 2005;
Fensham, 2008), no qual a educação é chamada a colaborar.
O capítulo do manual referente à temática GSR inicia-se por uma página
introdutória com uma imagem alusiva ao tema, com a indicação de subcapítulos ou
subtemas. Consoante o manual, na página seguinte, ou se dá início ao texto de
desenvolvimento do conteúdo, ou é oferecida informação adicional da história da
ciência relacionada com o tema do capítulo. Esta abordagem é comum a todos os
outros capítulos, quer se trate do manual A ou do manual B. Nos dois projetos,
na página que antecede o início do texto de desenvolvimento do conteúdo, são
apresentadas, na forma de lista, as aprendizagens a realizar pelo estudante ao
longo do capítulo. O texto de desenvolvimento do conteúdo é, nos dois casos,
acompanhado por imagens e introduzido por uma pergunta. Curiosidades
relacionadas com a história da ciência ou com o tema, colocadas em caixas de
texto ao lado do texto principal, e questões sobre o conteúdo surgem também.
Estas questões parecem ter o objetivo da verificação da aquisição dos
conhecimentos expostos no texto de desenvolvimento do conteúdo cuja leitura
proporciona a resposta correta. As palavras "Refere",
"Indica", "Aponta", "Define" e
"Transcreve" são frequentes nos enunciados destas perguntas.
Fazem ainda parte dos capítulos atividades de aprendizagem onde a informação é
apresentada em diferentes suportes (gráficos, tabelas, texto, desenhos e
fotografias) que confrontam o estudante com a leitura de dados, interpretação e
análise desta informação. Estas atividades de aprendizagem surgem ao longo dos
capítulos dos dois projetos e são apresentadas, pelos seus autores, como
oportunidades para refletir sobre situações-problema que contribuem para o
desenvolvimento de competências. Constituem, conjuntamente com a avaliação
formativa, os elementos de análise desta investigação. Verificámos, consoante
se trate do projeto A ou do projeto B, a opção pela apresentação de situações
de aprendizagem ou pela apresentação de questões junto ao texto de
desenvolvimento do conteúdo. Esta opção parece ter tido efeito no número de
atividades de aprendizagem apresentadas nos dois projetos. Em ambos os
projetos, verifica-se a procura de situações-problema de contexto atual e
relacionadas com a vida quotidiana do estudante.
A realização em sala de aula destas atividades permite evidenciar a aquisição
dos conhecimentos veiculados pelo capítulo. A solução para as perguntas das
atividades é, nos dois projetos, dada apenas ao professor. Fazem ainda parte
das propostas do capítulo pesquisas na Internet, propostas de visitas de estudo
e atividades práticas e experimentais. O capítulo encerra, nos dois casos, com
a síntese escrita dos conceitos e dos conhecimentos expostos, seguida de uma
proposta de avaliação formativa. O texto de desenvolvimento dos conteúdos é em
linguagem acessível e a qualidade das imagens é cuidada em ambos os projetos.
Fundamento teórico do instrumento de recolha de dados
O caráter teórico deste estudo justifica a opção por uma abordagem de natureza
qualitativa e interpretativa, definida por Bogdan e Biklen (1991) como
descritiva, enaltecedora do "significado" e promotora da análise
indutiva, valorizando mais o processo de análise do que os dados na situação
concreta a investigar. Possui um método sistemático a partir do qual o
investigador vai construindo e testando de forma cuidadosa as suas conclusões
(Miles & Huberman, 1994).
Com base no fundamento teórico desta investigação - a estrutura
conceptual do PISA 2006 (ver Figura_1) que define os domínios da avaliação e a
estrutura dos testes - e na questão de investigação, estabelecemos duas
categorias de análise: o Currículo Nacional de Ciências Físicas e Naturais
(CNCFN) e a Estrutura Conceptual do PISA 2006 (ECPISA06). Dado que ambas
protagonizam o desenvolvimento de competências para a literacia científica, a
definição dos códigos-padrão "Contexto", "Competência",
"Tipo de Conhecimento" e "Tipo de Questão" foi sustentada
pelos documentos (ME, 2001; Galvão, 2001; OCDE, 2008; Gabinete de Avaliação
Educacional/ Ministério da Educação (GAVE/ ME), 2011) e a sua descrição
corresponde à transcrição dos mesmos. Este procedimento conduziu à elaboração
do instrumento de recolha de dados que, segundo Miles e Huberman (1994), é a
forma mais garantida de evitar a perda de dados no processo de categorização e
codificação. Os Quadros_1 e 2 expõem a descrição de cada código-padrão.
Na codificação do código-padrão "Contexto", teve-se também em atenção
as questões do PISA 2006, onde a classificação de um determinado contexto se
faz com base na descrição do mesmo e na consequência que a situação de
aprendizagem evidencia. Se a situação de aprendizagem tem consequências
ambientais globais, como por exemplo o "efeito de estufa", o contexto
é considerado global ou ambiental, segundo a categoria "ECPISA06" ou
"CNCFN", respetivamente. Caso o efeito da situação seja local, então
o contexto é classificado como social, e pessoal ou individual quando a
consequência recai sobre o indivíduo.
A par da definição dos códigos, verificamos a existência de uma relação entre o
tipo de conhecimento e o tipo de competência. Por exemplo, na categoria
"ECPISA06" verificamos que as questões que correspondem ao tipo de
"Conhecimento sobre ciência - investigação científica" surgem
associadas à competência "Identificação de questões científicas".
Esta competência implica, na prática, situações de aprendizagem onde o
estudante é chamado ou "a identificar o problema de investigação, ou à
compreensão da metodologia de investigação, ou à identificação das variáveis da
investigação, ou à mudança de variáveis, ou a conhecer as capacidades e limites
da investigação" (OCDE, 2008, pp. 98, 100, 113). Quer isto dizer, segundo
a estrutura conceptual do PISA 2006, que o tipo de conhecimento
"Conhecimento sobre ciência - investigação científica" exige o
conhecimento e a compreensão das características de uma investigação científica
(OCDE, 2008).
Já as questões que se incluem no domínio do "Conhecimento sobre ciência
- explicação científica" aparecem associadas à competência
"Utilização de evidências científicas". Esta competência exige, nas
respostas às questões que a promovem, saber sintetizar e utilizar
"Conhecimento de ciências" e "Conhecimento sobre ciência -
explicação científica". As principais características da situação de
aprendizagem que desenvolve esta competência são: "interpretar evidências
para fazer e comunicar conclusões; identificar hipóteses, evidências e
raciocínios por trás das conclusões; e reflectir sobre as implicações sociais
dos desenvolvimentos científicos e tecnológicos" (OCDE, 2008, p. 87). O
estudante deve elaborar uma conclusão apoiada ou justificada em evidências
científicas resultantes de um processo de investigação ou elaborar uma
comunicação apoiada ora em evidências científicas ora em conhecimentos
científicos adquiridos. Em função da situação, a questão inclui-se no domínio
"Conhecimento sobre ciência" ou "Conhecimento de Ciências",
respetivamente.
Por fim, as questões do PISA incluídas na categoria "Conhecimento de
ciências" surgem sempre associadas à competência "Explicação
científica de fenómenos". Esta competência, no PISA 2006, centrou-se nos
conceitos científicos básicos das áreas de conteúdo (OCDE, 2008, p. 84).
Segundo a OCDE (2008), relaciona-se com os objetivos dos cursos tradicionais de
Física e Biologia. As situações de aprendizagem classificadas sob esta
competência exigem a aplicação de "Conhecimento de ciências",
descrição ou interpretação científica de fenómenos e previsão de mudanças,
assim como identificação de descrições, explicações e previsões adequadas. O
estudante é chamado a aplicar e a evidenciar os seus conhecimentos no contexto
sobre o qual está a ser questionado.
Esta associação do "Tipo de Conhecimento" com "Tipo de
Competência" tem o objetivo de proporcionar resultados do desempenho em
ciência através da escala de proficiência para as competências (OCDE, 2009).
Por outro lado, a decisão de separar as duas categorias de conhecimento
determinou, no caso dos testes PISA, o peso relativo das três competências e a
atribuição de um peso de 60% ao "Conhecimento de ciências" (OCDE,
2009).
Ao pretendermos averiguar se a estrutura conceptual do PISA 2006 está presente
nos manuais, torna-se necessário saber se esta relação que as questões do PISA
2006 exibem tem eco nos documentos orientadores dos manuais escolares, no
currículo nacional (ME, 2001) e nas orientações curriculares (Galvão, 2001).
Para verificar esta situação, recorremos às descrições dos códigos da categoria
"CNCFN". Começamos pelas descrições dos códigos-padrão
"Conhecimento substantivo" da categoria "CNCFN", e da
competência "Conhecimento", onde verificamos que ambas remetem para a
"análise e discussão de evidências de situações problema que permitem
adquirir conhecimento científico e tecnológico de modo a interpretar e a
compreender conceitos, leis e modelos científicos, reconhecendo as limitações
da Ciência…" (Galvão, 2001, p. 5; GAVE/ ME, 2011, p. 1; ME, 2001, p. 132).
As duas descrições são reveladoras de sintonia, tendo sido por esta razão
associadas. De igual modo, as descrições das situações de aprendizagem que
envolvem o código-padrão "Conhecimento processual" e a competência
"Raciocínio" referem "…execução de experiências, individualmente
ou em grupo, avaliação dos resultados obtidos, planeamento e realização de
investigações…" (ME, 2001, p. 132). Ambas remetem para para situações de
aprendizagem que envolvam a "interpretação de dados, formulação de
problemas e/ou hipóteses, previsão e avaliação dos resultados de uma
investigação" (Galvão, 2001, p. 5; GAVE/ ME, 2011, p. 1; ME, 2001, p.
132).
A descrição do código-padrão "Conhecimento epistemológico", como o
próprio nome indica, implica conhecer o modo como a ciência obtém evidências. O
currículo descreve-o como "formas de trabalho de diferentes
cientistas" (Galvão, 2001, p. 6; GAVE/ ME, 2011, p. 1; ME, 2001, p. 133).
Neste ponto encontramos relação com a competência "Comunicação", que
exige "interpretação de fontes de informação diversas, exposição de
ideias, defesa e argumentação, estruturação lógica de textos" (Galvão,
2001, p. 6; GAVE/ ME, 2011, p. 1; ME, 2001, p. 133). Ao estudante é pedido que
exponha ideias e que as defenda através da apresentação de um texto
argumentativo com uma estrutura lógica (ME, 2001). Esta competência, ao exigir
interpretação, argumentação e estruturação de ideias numa sequência lógica,
abrange as categorias do "Conhecimento processual" e do
"Conhecimento epistemológico". A sua ligação a estes códigos-padrão
está dependente do contexto da situação-problema em que o estudante está a ser
questionado.
Do exposto podemos perceber que, à semelhança da categoria
"ECPISA06", é possível estabelecer uma relação do "Tipo de
Conhecimento" com o "Tipo de Competência" para a categoria
"CNCFN". Resta ainda referir que no PISA 2006 cada questão,
independentemente da competência e tipo de conhecimento que lhe corresponde,
possui um nível de proficiência definido pela escala de proficiência para cada
competência. O processo de codificação realizado não inclui a atribuição de um
nível de proficiência às atividades de aprendizagem e à avaliação formativa dos
manuais. Com ele pretendemos apenas aferir o contexto, as competências e o tipo
de conhecimento que as perguntas das atividades dos manuais privilegiam.
Com base nas descrições dos códigos-padrão (ver Quadros_1 e 2) e na relação
existente entre "Tipo de Conhecimento" e "Tipo de
Competência", procedemos, numa primeira fase, à codificação das atividades
de aprendizagem e de avaliação formativa dos manuais A e B. Numa segunda fase,
e dado que as descrições de cada código-padrão, nas duas categorias (ver
Quadros_1 e 2), exprimem diversas exigências, foram estabelecidas perspetivas,
a partir das quais realizamos uma nova codificação. Deste modo pretendemos
conhecer a expressão das "Competências" e "Tipo de
Conhecimento" nas atividades de aprendizagem e na avaliação formativa dos
manuais. A título de exemplo, a descrição da competência
"Conhecimento" da categoria "CNCFN" exprime as exigências
de "análise e discussão de evidências e situações-problema",
"interpretação e compreensão de leis e modelos científicos" e
"elaboração e interpretação de representações gráficas" (ver Quadro
1). Igual procedimento foi realizado para a categoria "ECPISA06". A
codificação das atividades de aprendizagem e de avaliação formativa dos manuais
segundo estas perspetivas permitiu-nos conhecer qual a expressão das
"Competências" e "Tipo de Conhecimento" nos manuais e, numa
terceira fase, procurar saber qual a relação desta expressão com o "Tipo
de Questão". Nesta fase, a codificação realizada teve em atenção a
descrição dos códigos-padrão "Tipo de Questão" (ver Quadros_1 e 2) e
as soluções para as questões propostas pelos manuais.
Descrito o procedimento que fundamenta as opções metodológicas da recolha de
dados, segundo as duas categorias (CNCFQ e ECPISA06) passamos à análise dos
resultados.
Análise e interpretação dos resultados
A sintonia entre as estruturas conceptuais do currículo nacional para o ensino
básico e as do PISA 2006 permitiu, nesta investigação, a recolha de dados em
dois manuais escolares certificados, que cursam o currículo nacional e as
orientações curriculares. Os dados recolhidos segundo "Tipo de
Competência", "Tipo de Conhecimento" e "Tipo de
Questão" para as categorias ECPISA06 (Estrutura Conceptual do PISA 2006) e
CNCFN (Currículo Nacional de Ciências Físicas Naturais) encontram-se resumidos
no Quadro_3 e resultam da análise de 37 situações de aprendizagem (atividades
de aprendizagem e de avaliação formativa) dos manuais A e B, as quais encerram
um total de 319 questões (190 questões do manual A e 129 do manual B).
A existência de questões que mobilizam mais do que uma competência implica
presença destas em duplicado e explica um total de questões por manual superior
(ver Quadro_3). O mesmo se verifica para o "Tipo de Questão", onde os
diferentes formatos podem corresponder a uma exigência semelhante.
A leitura do Quadro_3 informa que as competências "Explicação científica
de fenómenos" e "Conhecimento", associadas ao "Conhecimento
de ciências" e "Conhecimento substantivo", exprimem um
predomínio (184 questões no manual A e 124 questões no manual B) que se
manifesta, nas duas categorias, em questões de resposta curta ou fechada (172
no manual A e 118 no manual B) onde o estudante é solicitado à leitura e
transcrição de informação relacionada com o contexto. Os dados mostram ainda
(ver Quadro_3) a existência de um número reduzido de questões para as
competências "Identificação de questões científicas",
"Raciocínio", "Utilização de evidências científicas" e
"Comunicação".
O retrato evidenciado pelos resultados podia ser imputado à exclusão, nesta
análise, das atividades experimentais ou laboratoriais propostas nos manuais.
Contudo, situações de aprendizagem que descrevam a sequência de uma atividade
de investigação laboratorial assentes em questões de natureza investigativa,
associadas a estratégias de leitura, discussão, exposição oral e/ou pesquisa
podem ser consideradas promotoras destas competências (Bybee, 2010). Este tipo
de situação de aprendizagem está pouco presente nos manuais. Também as questões
PISA que as avaliam, cuja exigência material é "papel e lápis",
mostram que a obrigatoriedade de uma atividade de investigação experimental ou
laboratorial não é condição única para o desenvolvimento e a avaliação destas
competências.
Como explicar então, nos manuais escolares A e B, o predomínio de situações de
aprendizagem que desenvolvem as competências "Conhecimento" e
"Explicação de fenómenos científicos" e a ausência ou presença
diminuta das outras competências?
A análise da atividade de aprendizagem de um dos manuais, presente na Figura_2,
ajuda a clarificar os dados expostos. A atividade representada na Figura_2
mostra que as questões 1, 2, 4, 5 e 6 são dirigidas à leitura e transcrição da
informação sobre o contexto em que o estudante está a ser questionado, estão
assentes em resposta do tipo curta ou fechada, visível nos enunciados das
questões, e são comprovadas pelas soluções apresentadas no manual do professor.
Nestas questões, o professor regista apenas a compreensão da informação do
contexto por parte do estudante. Já o enunciado da pergunta 3 (ver Figura_2)
exige uma resposta restrita ou aberta onde a utilização dos factos do contexto
deve ser feita para explicar ou concluir. Enunciados com esta exigência de
resposta são em número reduzido e as soluções propostas ao professor são vagas.
Quando a resposta é restrita ou aberta, a solução é do tipo "poderá
aceitar qualquer resposta desde que bem fundamentada" ou "o programa
sugere este tipo de pergunta e propõe como solução uma discussão
orientada". Contudo, os argumentos que sustentam a explicação nem sempre
são apresentados na solução e, quando o são, não estão necessariamente
relacionados com os factos. A ausência de uma solução exata para este tipo de
questão, por parte do manual, pode conduzir ao seu afastamento da prática
letiva.
Este tipo de questão é pouco frequente nas atividades de aprendizagem, razão
pela qual, neste estudo, os resultados manifestam, para as competências
"Utilização de evidências científicas" ou "Comunicação",
uma presença ténue. Uma questão que exija ao estudante a construção de uma
resposta escrita relativamente extensa pode envolver vários processos
cognitivos, como o raciocínio indutivo e/ou dedutivo, raciocínio crítico e
integrado, construção e comunicação de argumentos, utilização de matemática e
outros conhecimentos (OCDE, 2007). O treino nestas respostas não é realizado
com questões de resposta curta ou fechada, cuja exigência é apenas compreender
informação adequada a um determinado contexto.
Este dado remete-nos para a discussão do processo de ensino e aprendizagem
veiculado pelas atividades de aprendizagem dos manuais. Sabemos da importância
da memorização na aquisição de conhecimento, que não há competências sem
conhecimento e que estas não se ensinam, desenvolvendo-se através da criação de
situações de aprendizagem com as quais o estudante é confrontado (Perrenoud,
2003). Assim sendo, dar a mesma ênfase aos conceitos e aos factos significa
realizar a aquisição de conceitos em complementaridade com os factos de um
determinado contexto (Bybee, 2010). A falta desta complementaridade explica,
nos resultados, o isolamento das questões que se iniciam pela palavra
"Define". A resposta a estas questões exige recorrer ao texto de
desenvolvimento do conteúdo. Ora, um conceito deverá ser aprendido ou adquirido
a partir de um raciocínio lógico que utiliza evidências ou factos,
complementaridade referida por Bybee (2010).
O predomínio das competências "Conhecimento" e "Explicação
científica de fenómenos" (consoante a categoria CNCFN e ECPISA2006)
significa, assim, que o desenvolvimento de competências dá ênfase ao
conhecimento factual assente em questões que remetem para a exigência de saber
ler e compreender factos e ideias expressas num determinado contexto. O convite
para definir, indicar, referir, mencionar, identificar e explicar, com base na
identificação dos factos do contexto, justifica este modelo onde a preocupação
com a aquisição dos conteúdos sobressai. Por esta razão, a maioria das questões
das atividades, ao protagonizar a leitura e compreensão de informação adequada
ao contexto em que o aluno está a ser questionado, surge associada a questões
do "Tipo Fechada ou Curta" onde a construção da resposta é: correta
ou incorreta. Os enunciados destas questões iniciam-se maioritariamente pelas
palavras "Indica", "Refere", "Menciona",
"Identifica/Aponta", "Explica por que razão" e
"Define". Neles, a exigência é a de transcrever os dados do contexto.
Já as palavras "Justifica", "Conclui", "Comenta"
e " Prevê" surgem nos dois manuais menos vezes (ver Quadro_4).
Manifestam uma exigência de resposta do "Tipo Restrita ou Aberta" que
pode ser comprovada pela solução proposta pelo manual (ver Figura_2). Parece,
assim, registar-se um desequilíbrio na relação entre o "Tipo de
Competência" com o "Tipo de Conhecimento" e o "Tipo de
Questão", que, nesta investigação, expõe a ênfase do desenvolvimento de
competências dos manuais A e B.
Os enunciados das questões classificadas como "Outras" (ver Quadro_4)
exigem uma resposta do "Tipo Fechada ou Curta", pelo que se incluem
no tipo de competência e de conhecimento dominantes.
Nos testes PISA, a distribuição por tipo de questão é de 8% para "Resposta
Fechada ou Curta", 40% para "Resposta Aberta ou Restrita" e 52%
para as questões de "Escolha múltipla complexa" (OCDE, 2008). A
distribuição destas percentagens está relacionada com a escala de proficiência,
cujos níveis caracterizam o grau de complexidade de cada competência. Este,
associado às questões, avalia o nível de desempenho ou proficiência (OCDE,
2009). O aumento do grau de dificuldade de uma questão manifesta-se pela
exigência na utilização das três competências na resposta. O corretor deverá
verificar a progressão do estudante entre elas, a par do grau de conhecimento
necessário à resposta (OCDE, 2009), desde a "identificação de questões
científicas", passando à "utilização de evidências científicas"
e, por fim, a "comunicação e apresentação de uma solução" (OCDE,
2009). Este procedimento do PISA expõe situações de aprendizagem onde as
questões possuem níveis de desempenho para as competências de modo a avaliar o
grau de literacia de um estudante. Associar as questões ao contexto, às
competências e ao tipo de conhecimento é seguir uma estrutura conceptual, neste
caso do PISA e do currículo, essencial ao desenvolvimento de competências. Nos
manuais estudados, esta associação é parcial.
Conclusões
Os resultados desta investigação permitem concluir que existe sintonia nos
princípios que regem as estruturas conceptuais do currículo português das
Ciências Físicas e Naturais do ensino básico e o enquadramento conceptual do
PISA 2006, mas que esta sintonia não se traduz nos manuais que serviram de
objeto a esta investigação. As atividades de aprendizagem e de avaliação
formativa dos manuais escolares seguem, de forma incompleta, a estrutura
conceptual do PISA 2006, ao nível da associação do tipo de conhecimento com o
tipo de competência e desta com o tipo de questão.
O modelo pedagógico de desenvolvimento de competências nos manuais A e B é
semelhante: dá ênfase ao conhecimento factual, como verificação da capacidade
de ler e compreender o contexto, desligado das ideias e conceitos que o
complementam e das competências. A ausência de situações de aprendizagem que
promovam o conhecimento e a compreensão das características de uma investigação
("Identificação de questões científicas") é outro dos aspetos
evidenciados.
Esta investigação apresenta limitações que decorrem principalmente da
metodologia utilizada. O quadro conceptual do currículo, do desenvolvimento
curricular, e os conceitos de competência e de literacia científica em que se
debruça conferem-lhe carácter teórico. Apresenta-se, ainda, centrada no
investigador, pelo que a recolha e análise dos dados podem, por estas razões,
expor desvios resultantes da subjetividade inerente a este processo. É oportuno
um estudo exploratório que inclua a observação de aulas e a realização de
questionários a professores e autores dos manuais, com o objetivo de averiguar
as motivações, por parte dos professores, para a seleção de um manual e, por
parte dos autores, as razões que fundamentam o modelo pedagógico que
apresentam.
Por fim, o estudo incidiu apenas sobre as atividades de aprendizagem e de
avaliação formativa de uma unidade curricular, não permitindo a generalização
dos resultados obtidos. Contudo, o seu objetivo último é promover a reflexão
sobre as atividades de aprendizagem dos manuais escolares, tendo como ponto de
comparação as situações de aprendizagem promovidas pelas unidades de avaliação
em literacia científica do PISA 2006.
A avaliação do currículo revogado parece-nos crucial, não só pela reflexão que
suscita, mas também como fonte de conhecimento sobre os resultados portugueses
em literacia científica no PISA 2006 (GAVE/ ME, 2007). Serve ainda como meio de
compreensão da forma como foi interpretado em documentos de avaliação interna
do currículo (testes intermédios, exames nacionais) que, à semelhança dos
manuais escolares, exercem influência direta na prática do ensino e
aprendizagem das ciências.
A realidade educacional do PISA, como instrumento de regulação, é aceite pela
comunidade científica, que manifesta recetividade aos dados e resultados por
entender que a sua utilização noutros contextos de pesquisa pode ser importante
(Costa, 2009; Duit & Treagust, 2010). Por este motivo é considerado um
instrumento de investigação produtor de conhecimento em educação. Neste
contexto, a estrutura conceptual do PISA 2006, sustentada pela investigação,
pode constituir um contributo na organização e comunicação dos conteúdos
presentes no currículo. Este contributo pode estender-se à construção das
atividades de aprendizagem dos manuais, que, segundo Millar (2011), são quem
define, dentro da escolaridade obrigatória, a forma como os conteúdos são
comunicados e avaliados.
A avaliação institucionalizada pelos sistemas educativos é aceite e concebida,
segundo Whitehead (2007), para ajudar os professores a testarem o seu ensino.
Millar (2011) aponta a avaliação sumativa como uma das armas mais poderosas
dentro da sala de aula. Segundo o autor, providenciar aos estudantes uma vasta
coleção destes exercícios é a forma mais eficaz de alcançar bons resultados e
de encorajar os professores através deles. Este aspeto é relevante se tivermos
em conta que os manuais são acompanhados por cadernos de exercícios e, também,
que as editoras publicam, por ano de escolaridade, livros de exercícios e/ou de
testes e exames dirigidos à avaliação sumativa, utilizados por professores e
estudantes. A investigação destes materiais pode contribuir para o conhecimento
do ensino da ciência. Do mesmo modo, o estudo comparativo de manuais escolares
pertencentes a vários países europeus pode contribuir para a reflexão sobre os
modelos pedagógicos dos manuais escolares portugueses.
Por fim, e conforme decorre dos resultados desta investigação, cujo enfoque é a
Educação em Ciência dentro da escolaridade obrigatória, mais concretamente a
que compreende os níveis de escolaridade de estudantes até aos 15 anos de
idade, investigar qual o entendimento do conceito de literacia científica junto
dos professores de ciências contribui para o conhecimento da perceção deste
conceito por parte da comunidade que tem a cargo a prática do ensino da
ciência.