Currículo e práticas pedagógicas: Uma análise sociológica de textos e contextos
da educação em ciências
Introdução
A reforma educativa do Ensino Básico, que foi implementada em 2001/2002, teve
como objetivo unificar por temáticas e competências os três ciclos de ensino e
como princípio orientador a gestão flexível do currículo consignada na Lei de
Bases do Sistema Educativo Português, de 1986. A flexibilidade curricular tem
como propósito a procura das respostas mais adequadas aos contextos e alunos
reais com os quais os professores trabalham e assume que as escolas devem ter
um maior poder de decisão no que concerne ao desenvolvimento e gestão das
diversas componentes do currículo.
O currículo do Ensino Básico está expresso em dois documentos fundamentais:
Competências Essenciais e Orientações Curriculares. O primeiro documento possui
um carácter geral, referindo-se às competências que deverão ser desenvolvidas
no nível de ensino em questão; o segundo documento, de cariz mais específico,
pretende providenciar as orientações relativas a cada uma das disciplinas.
Embora os documentos curriculares devam ser os elementos orientadores das
decisões pedagógicas dos professores e autores de recursos pedagógicos (caso
dos manuais escolares e software educativo), a autonomia que lhes foi
possibilitada pelo contexto de gestão flexível cria um significativo espaço de
recontextualização dos princípios contidos nesses documentos. Considerando que
as práticas pedagógicas dos professores influenciam diretamente a aprendizagem
dos alunos, reveste-se de grande importância a análise e problematização da
direção e do grau dessa recontextualização.
O presente estudo faz parte de uma investigação mais abrangente (Alves, 2007),
a qual se focou no contexto das Ciências Naturais para o 3º Ciclo do Ensino
Básico e onde se analisou a mensagem sociológica transmitida: (a) pelo Discurso
Pedagógico Oficial (DPO) do Currículo de Ciências Naturais; (b) pelo Discurso
Pedagógico de Reprodução (DPR) de software didático construído com base no
currículo; e (c) pela prática pedagógica de professores de ciências. Foram,
também, analisados os processos de recontextualização ocorridos entre os três
níveis de análise (Figura_1). Este artigo foca-se, em particular, no seguinte
problema: Em que medida a mensagem sociológica transmitida pela prática
pedagógica de professores de Ciências Naturais representa uma
recontextualização do Discurso Pedagógico Oficial? De acordo com este problema,
estabeleceram-se as seguintes questões de investigação: 1) Qual a mensagem
sociológica presente no DPO?; 2) Qual a mensagem sociológica presente nas
práticas pedagógicas dos professores de Ciências Naturais?; e 3) Qual o sentido
e a extensão da recontextualização que os professores de Ciências Naturais
fazem do DPO?
A análise do discurso pedagógico teve em consideração o que e o como da
aprendizagem científica. No que diz respeito ao que, o estudo foi baseado no
conhecimento metacientífico (construção da ciência), no conhecimento científico
e nas competências científicas. No que concerne ao como, baseou-se nas relações
entre discursos ' relações entre conhecimentos científicos e metacientíficos e
entre diferentes conhecimentos científicos ' e nos critérios de avaliação
inerentes à explicitação destas relações e dos conhecimentos e competências
metacientíficos(as) e científicos(as) a serem focados/explorados. O nível de
exigência conceptual foi outra importante dimensão em análise.
A seleção destas características esteve diretamente relacionada com os
resultados de investigações prévias. No que respeita à importância de uma
integração contextualizada da construção da ciência no processo de ensino-
aprendizagem, vários estudos nesta área (por exemplo, McComas, Clough, &
Almazroa, 1998) mostraram que a educação científica deve conter uma perspetiva
metacientífica, a qual, de acordo com Ziman (1984), se expressa em várias
dimensões (filosófica, histórica, psicológica e sociológica interna e externa).
Estudos anteriores (Domingos, 1989; Morais & Neves, 2001; Morais, Neves,
& Pires, 2004) vieram sugerir que a promoção de um elevado nível de
desenvolvimento científico implica uma prática pedagógica que, entre outros
atributos, seja caracterizada por um elevado nível de exigência conceptual,
pela existência de intradisciplinaridade e pela explicitação dos critérios de
avaliação. Um elevado nível de exigência conceptual é também apontado por
Vygotsky (1978), quando salienta a importância do desenvolvimento de processos
mentais elevados, e é ainda baseado na estrutura hierárquica do conhecimento
científico (Bernstein, 1999). Estas ideias suportam, igualmente, um elevado
grau de intradisciplinaridade, o qual "pode ser alcançado quando se estabelecem
relações fortes e complexas entre os temas organizadores e ainda quando se
unifica a aprendizagem dos conhecimentos em torno de uma ideia estruturadora de
grande abrangência e complexidade conceptual" (Neves & Morais, 2006, p. 8).
No que concerne ao grau de explicitação dos critérios de avaliação, a
investigação tem mostrado que critérios de avaliação explícitos são o aspeto
mais crucial para uma aprendizagem científica efetiva, particularmente nos
casos de exigência conceptual elevada e no caso de alunos socialmente
desfavorecidos (ex. Morais, Neves, & Pires, 2004). Neste estudo, as
características mencionadas serão, seguidamente, referidas como modelo teórico.
O modelo da Figura_1 contém as características e as relações que foram
selecionadas para o estudo.
Enquadramento teórico
O presente estudo é genericamente baseado em teorias das áreas da psicologia,
da epistemologia e, fundamentalmente, da sociologia. Em termos sociológicos, a
teoria do discurso pedagógico de Bernstein (1990, 2000) constituiu a principal
base conceptual do estudo. Selecionou-se a teoria de Bernstein como quadro
conceptual de referência pelo facto de esta teoria possuir um forte poder
explicativo, pois é caracterizada por uma forte linguagem de descrição que
permite analisar, descrever, comparar, diferenciar situações e acontecimentos.
De acordo com Bernstein, e fazendo referência aos objetos deste estudo, o texto
de qualquer currículo representa o Discurso Pedagógico Oficial (DPO) produzido
no campo de recontextualização oficial (Ministério da Educação) e é resultado
de múltiplas influências dos campos de Estado, controlo simbólico e económico,
assim como de tendências internacionais. Na perspetiva sociológica desta
investigação, a prática pedagógica dos professores traduz uma
recontextualização do discurso pedagógico oficial (programa),
recontextualização que, de acordo com o modelo do discurso pedagógico de
Bernstein, é influenciada, em maior ou menor grau, pelos campos da economia e
do controlo simbólico e será representativa do Discurso Pedagógico de
Reprodução (DPR).
A implementação de determinada prática pedagógica requer que o professor possua
uma orientação específica de codificação para o contexto dessa prática. A
orientação específica de codificação (OEC) contém dois princípios: as regras de
reconhecimento, que criam os meios necessários para a distinção entre contextos
e, consequentemente, para o reconhecimento da especificidade de determinado
contexto; e as regras de realização, que criam os meios para a seleção dos
significados adequados ao contexto (componente passiva) e para a produção do
texto legítimo nesse contexto (componente ativa). O desempenho do sujeito,
neste caso o desempenho do professor, requer também a posse de disposições
socioafetivas favoráveis (motivações, aspirações, valores) para o contexto da
prática pedagógica em causa. As regras de reconhecimento estão relacionadas com
a classificação (C) que aprecia as relações de poder, isto é, o grau de
manutenção das fronteiras entre categorias (sujeitos, discursos e espaços), no
âmbito da dimensão organizacional da educação. A classificação assume valores
fortes quando há uma nítida separação entre as categorias e assume valores
fracos quando há um esbatimento das fronteiras entre essas categorias. As
regras de realização estão relacionadas com o enquadramento (E) que aprecia as
relações de controlo, ou seja, a comunicação entre sujeitos, no âmbito da
dimensão interacional da educação. O enquadramento é considerado forte quando a
categoria superior tem o controlo na relação e é considerado fraco quando a
categoria inferior tem alguma forma de controlo na mesma relação. Valores
específicos de classificação e de enquadramento definem contextos específicos
e, como tal, formas específicas de aquisição e de transmissão.
No âmbito do enquadramento teórico descrito, as práticas pedagógicas dos
professores podem ser analisadas como contextos de aprendizagem científica que
geram textos, os quais representam determinados níveis do desempenho dos
professores, ou seja, determinados níveis de orientação específica de
codificação para a implementação de práticas pedagógicas com certas
características sociológicas (Morais & Neves, 2005).
Finalmente, é de referir que a Teoria de Bernstein (Bernstein, 1990, 1996,
1999, 2000) constitui um vasto campo conceptual com poder explicativo que
permite interpretar sociologicamente o fenómeno educativo a nível
macroestrutural (Sociedade/sistema educativo) e a nível microinteracional
(Escola/sala de aula). No âmbito do seu quadro conceptual, e de acordo com
Morais (2002), torna-se possível estabelecer uma relação entre a linguagem
interna de descrição, constituída por uma teoria ou conjunto de teorias, e a
linguagem externa de descrição. Esta última é constituída por proposições e
modelos derivados do confronto entre a linguagem interna de descrição e os
dados empíricos. A linguagem externa de descrição é, portanto, o meio pelo qual
a linguagem interna é ativada, funcionando como a interface entre os dados
empíricos e os conceitos da teoria (Bernstein, 2000). Considera-se que o
presente estudo poderá contribuir para o desenvolvimento de uma linguagem
externa de descrição, baseada na relação dialética entre as proposições
teóricas e os dados empíricos, uma vez que houve a construção de modelos e
instrumentos conceptuais, assim como o desenvolvimento de metodologias
fundamentadas no presente quadro teórico.
Metodologia
Aspetos gerais
Este estudo é interpretativo e situa-se no âmbito de uma metodologia mista,
onde se combinam as abordagens quantitativas e qualitativas (Tashakkori &
Creswell, 2007; Morais & Neves, 2009a). A abordagem quantitativa foi usada
quando, na construção dos instrumentos, se definiram categorias de análise com
base em teorias e conceitos de áreas educacionais. A abordagem qualitativa foi
usada na análise de textos, entrevistas e registos de observações em sala de
aula, assim como no processo de redefinição de categorias. O sistema de
categorias e indicadores resultou de uma relação dialética entre o teórico e o
empírico.
Ao seguir uma metodologia mista, o estudo teve em consideração uma perspetiva
teórica explícita, onde os dados empíricos foram analisados com base num forte
quadro conceptual teórico. Seja de forma explícita ou não, todas as
investigações são teoricamente guiadas e os princípios teóricos são essenciais
para conferir coerência à recolha e análise dos dados (Bogdan & Biklen,
1994). Segundo Burkhardt e Schoenfeld (2003), um bom modelo de investigação em
educação deve conter, entre outras características, uma base teórica
relativamente estável. Para estes autores, é fundamental que a investigação em
educação contribua para o aparecimento de "teorias mais robustas e mais
abrangentes e para a compreensão de que aspectos de que teorias se aplicam
melhor em cada contexto" (p.10).
No que respeita à análise do currículo, enquanto o documento Competências
Essenciais foi analisado na íntegra, a análise das Orientações Curriculares foi
limitada ao subtema "O Organismo Humano em Equilíbrio", do tema "Viver melhor
na Terra", o qual corresponde ao 9º ano de escolaridade. A análise da prática
pedagógica dos professores, ao nível de sala de aula, foi focada na unidade
temática "Alimentação e Sistema Digestivo", que faz parte do referido subtema.
A seleção da amostra de professores foi limitada pelo uso, em sala de aula, das
tecnologias de informação e comunicação, e a amostra foi composta por duas
professoras: a professora Sofia e a professora Carla. A professora Sofia
ensinava num colégio privado nos arredores de Lisboa e a professora Carla
lecionava numa escola pública da zona litoral-centro de Portugal. De forma a
analisar o currículo e a prática pedagógica das professoras, foram elaborados,
pilotados e aplicados instrumentos de análise. Estes instrumentos foram
baseados em modelos e instrumentos desenvolvidos em investigações anteriores
(ex. Castro, 2006; Morais & Neves, 2001; Morais, Neves, & Afonso, 2005;
Neves & Morais, 2001a) mas constituem um passo em frente na investigação,
ao alcançarem níveis mais elevados de conceptualização, abrangência e precisão.
Os instrumentos para análise do currículo e da prática pedagógica dos
professores focaram-se em quatro características pedagógicas selecionadas para
o estudo: construção da ciência, exigência conceptual, intradisciplinaridade e
critérios de avaliação. Para a análise dos documentos curriculares, foram
elaborados os seguintes instrumentos1: dois para a construção da ciência (1 -
Conhecimentos e competências; 2 - Complexidade do conhecimento metacientífico);
dois para a intradisciplinaridade (3 - Relações entre conhecimentos científicos
e metacientíficos; 4 - Relações entre diferentes conhecimentos científicos);
três para os critérios de avaliação (5 - Critérios de avaliação para o
conhecimento metacientífico; 6 - Critérios de avaliação para as relações entre
conhecimentos científicos e metacientíficos; 7 - Critérios de avaliação para as
relações entre diferentes conhecimentos científicos). A exigência conceptual
foi analisada através do uso do instrumento 4 e de dois outros instrumentos (8
- Complexidade das competências cognitivas científicas; 9 - Complexidade dos
conhecimentos científicos).
O instrumento 1 continha uma lista de competências e de conhecimentos relativos
à construção da ciência. Para os instrumentos 2, 8 e 9 usou-se uma escala de
graus de crescente complexidade. Nos instrumentos para análise da
intradisciplinaridade usou-se uma escala decrescente de graus de classificação
(C++, C+, C-, C- -) e nos instrumentos de análise dos critérios de avaliação
usou-se uma escala decrescente de graus de enquadramento (E++, E+, E-, E--). De
forma a analisar o nível de exigência conceptual do conhecimento científico,
foi concebido um índice compósito, o qual implicava a conjugação de três
fatores: a intradisciplinaridade entre diferentes conhecimentos científicos, a
complexidade das competências científicas e a complexidade dos conhecimentos
científicos.
A prática pedagógica dos professores foi analisada em termos da sua orientação
específica de codificação (OEC), ou seja, a sua posse (ou não) das regras de
reconhecimento e de realização para o contexto específico da aprendizagem
científica, no que concerne às mesmas características que foram usadas na
análise do currículo: construção da ciência, exigência conceptual,
intradisciplinaridade e critérios de avaliação. Para tal, foi elaborado,
pilotado e aplicado um guião de uma entrevista semiestruturada e um instrumento
para caracterização da prática pedagógica. A entrevista2 possibilitou a
aquisição de dados acerca das regras de reconhecimento, realização passiva e
realização ativa ao nível da argumentação e o instrumento para a caracterização
da prática pedagógica3 permitiu a aquisição de dados sobre as regras de
realização ativa ao nível da implementação. O nível de argumentação refere-se à
capacidade de o professor explicar como atuaria na sua prática, quanto a uma
determinada característica pedagógica, e o nível de implementação refere-se à
sua capacidade de, efetivamente, atuar em conformidade4.
Análise do currículo
De forma a realizar a análise dos dois documentos curriculares, foram criadas
unidades de análise, as quais foram organizadas em quatro secções:
Conhecimentos, Finalidades, Orientações Metodológicas e Avaliação. Cada unidade
de análise ' excerto do texto curricular com determinado valor semântico ' foi
analisada através da utilização dos vários instrumentos. Para uma melhor
compreensão da análise efetuada, apresenta-se, seguidamente, para duas das
características em estudo ' Intradisciplinaridade entre diferentes
conhecimentos científicos e Complexidade dos conhecimentos científicos ', um
excerto do respetivo instrumento (Tabelas_I e II) e algumas unidades de análise
classificadas de acordo com as escalas do instrumento.
A primeira unidade parece valorizar a intradisciplinaridade, mas a omissão do
conceito de homeostasia no currículo limita essa possível
intradisciplinaridade. A segunda unidade contém conhecimentos de ordem complexa
(ex. processos físicos e químicos do tratamento de água) relacionados com
conhecimentos de ordem simples (ex. transporte de água), dentro do mesmo tema.
A primeira unidade envolve conceitos de segunda ordem, visto que a compreensão
dos mesmos pressupõe a compreensão de conceitos de primeira ordem. A segunda
unidade envolve conceitos de terceira ordem referentes a temas unificadores,
neste caso generalizações acerca do corpo humano.
Análise da OEC das professoras ' Entrevista
Para cada uma das características pedagógicas em análise, o guião da entrevista
seguia os mesmos princípios. Inicialmente (Questão 1), solicitava-se ao
professor que selecionasse uma de três opções (sendo que uma das opções
continha a característica pedagógica que a investigação tinha mostrado como
sendo mais favorável à aprendizagem científica), de forma a se obter os
primeiros dados referentes às regras de reconhecimento. A entrevista prosseguia
com a realização de duas questões relacionadas com a questão 1, ou seja,
solicitava-se que o professor fornecesse as razões/argumentos para a opção que
havia selecionado (Questão 2) e que apresenta-se justificações para que
determinada opção fosse a considerada mais próxima do modelo teórico em causa
(Questão 3). Estas respostas permitiriam obter dados relativos à posse (ou não)
das regras de realização passiva, assim como resolver ambiguidades ou decisões
pendentes quanto à posse (ou não) das regras de reconhecimento. Uma última
questão (Questão 4) focava a forma de atuação, em sala de aula, no que concerne
a cada uma das características pedagógicas em estudo e permitia a aquisição de
dados quanto à posse (ou não) de regras de realização ativa ao nível da
argumentação (ver Figura_2).
Os excertos da entrevista que se seguem dizem respeito à característica
Critérios de Avaliação.
Questão 1: O sucesso e o insucesso na aprendizagem científica estão
relacionados com várias causas. Das seguintes situações, em contexto de sala de
aula, selecione aquela com que mais se identifica.
1) Ao abordar um conteúdo científico ou metacientífico, o professor fornece
explicações pormenorizadas, mas não realiza momentos de síntese, deixando essa
tarefa ao critério dos alunos, respeitando a individualidade dos mesmos.
2) Ao abordar um conteúdo científico ou metacientífico, o professor fornece
explicações pormenorizadas e realiza, sempre que oportuno, momentos de síntese,
de modo a explicitar os aspetos essenciais das atividades.
3) Ao abordar um conteúdo científico ou metacientífico, o professor fornece
explicações pormenorizadas e realiza, apenas no final da unidade temática, um
momento de síntese de modo a explicitar a ideia geral da mesma.
Questão 2: Por que razão escolheu a opção 1 (ou 2 ou 3)?
Se o professor selecionou a opção 1 na Questão 1, fornecer o excerto seguinte.
Se tal não tiver sido o caso, a entrevista prossegue para a Questão 3.
"Os critérios de avaliação constituem uma característica crucial da prática
pedagógica. Quando os critérios de avaliação são explícitos, tal significa que
o professor deixa claro, para os seus alunos, qual é o texto adequado a ser
produzido, em determinado momento, como resultado da aprendizagem" (Morais,
2002).
Após a análise deste excerto sente a necessidade de alterar a escolha feita na
Questão 1?
Questão 3: Para as perspetivas actuais do ensino das ciências, a opção mais
aceite é a 2 (pode-se facultar essa opção ao professor para que ele a leia
novamente, se necessário).
Qual a justificação que encontra para este facto?
Questão 4: Costuma ter a preocupação de, nas suas aulas, dinamizar um processo
de ensino-aprendizagem em que clarifica o texto correto que quer que os alunos
aprendam ou que produzam?
No caso de a resposta ser afirmativa, perguntar: Como é que faz? É capaz de
exemplificar?
No caso de a resposta ser negativa, perguntar: Como é que faria para
explicitar, claramente, nas suas aulas, aquilo que pretende que os alunos
aprendam ou que produzam, por exemplo, num dado trabalho?
Análise da OEC das professoras ' Observação na sala de aula
De forma a caracterizar a prática pedagógica dos professores, em termos das
suas regras de realização ativa ao nível da implementação, as suas aulas foram
observadas, gravadas em registo áudio e transcritas. O instrumento usado para
esta caracterização contém, para cada uma das características em estudo, vários
indicadores e, para cada indicador, vários descritivos que correspondem aos
graus das escalas elaboradas, em termos da natureza da característica em
questão.
A Tabela_III mostra um excerto do instrumento referente à característica
Complexidade das competências cognitivas científicas, para o indicador
"Exploração/discussão dos temas em estudo"5. Segue-se um excerto de um caso de
interação na sala de aula que ilustra um dos graus da escala do instrumento.
Os estudantes interpretam os resultados, inferindo relações simples entre as
características das enzimas e a sua ação, em diferentes situações.
A posse (ou não) de regras de realização ativa ao nível da implementação foi
analisada através da aplicação do instrumento de caracterização da prática
pedagógica, tendo-se determinado uma escala para medir os resultados obtidos,
onde o valor de 50% foi definido como valor de referência. Exemplificando para
o caso dos Critérios de avaliação: consideraram-se os critérios de avaliação
explícitos (situação concordante com o modelo teórico) quando a frequência de
unidades de análise classificadas com os graus E++ ou E+ era superior a 50%.
Este procedimento permitiu ainda a clarificação de eventuais situações ambíguas
que haviam ficado pendentes na entrevista (ex.: dúvida quanto à posse de regras
de realização ativa ao nível da argumentação). Finalizando, é importante
referir que os dados obtidos quanto às regras de realização ativa ao nível da
argumentação e implementação possibilitaram clarificar situações ambíguas
quanto à posse (ou não) das regras de realização passiva.
A Figura_2 representa o modelo de análise da OEC dos professores, o qual
permite uma sistematização dos dados obtidos aquando da entrevista (no que diz
respeito às regras de reconhecimento, regras de realização passiva e regras de
realização ativa ao nível da argumentação) e aquando da aplicação do
instrumento de caracterização da prática pedagógica (relativo às regras de
realização ativa ao nível da implementação). A aplicação completa deste modelo
só se verifica, efetivamente, quando se analisam todos os níveis em estudo.
A partir da análise dos dados obtidos através das entrevistas e da observação
em sala de aula, verificou-se que podiam ocorrer as situações que se seguem.
A' Relativamente à escolha da opção com que a professora mais se identificava,
de entre as três apresentadas:
Possibilidade 1. Quando seleciona a opção discordante do modelo teórico, a
professora mostra não possuir regras de reconhecimento. Nesta situação, a
entrevista prosseguiria no sentido de fornecer à entrevistada as regras de
reconhecimento. Posteriormente, poder-se-ia observar uma das situações
seguintes: se a professora, ao escolher novamente a opção com que mais se
identificava, escolhesse a situação parcialmente de acordo com o modelo
teórico, a professora passaria a ter, à partida, regras de reconhecimento Grau
1; se a professora, ao escolher novamente a opção com que mais se identificava,
escolhesse a situação totalmente de acordo com o modelo teórico, a professora
passaria a ter, à partida, regras de reconhecimento Grau 2.
Possibilidade 2. Quando seleciona a situação parcialmente de acordo com o
modelo teórico, a professora manifesta possuir, à partida, regras de
reconhecimento Grau 1. Para o confirmar, há que analisar as razões/argumentos
(Parte 1) e as justificações (Parte 2) que fundamentam a opção escolhida e que
explicam o motivo pelo qual determinada opção é considerada a mais aceite pelas
perspetivas atuais do ensino das ciências, respetivamente.
Possibilidade 3. Quando seleciona a situação totalmente de acordo com o modelo
teórico, a professora manifesta possuir, à partida, regras de reconhecimento
Grau 2. Para o confirmar, há que analisar as razões/argumentos (Parte 1) e as
justificações (Parte 2) que fundamentam a opção escolhida e que explicam o
motivo pelo qual determinada opção é considerada a mais aceite pelas
perspetivas atuais do ensino das ciências, respetivamente.
B ' Relativamente às razões/argumentos apresentadas/os pelas professoras para a
escolha de determinada opção e às justificações apresentadas para que certa
opção seja a considerada mais aceite pelas perspetivas atuais do ensino das
ciências:
Possibilidade 1. Caso a professora não apresente razões/argumentos nem
justificações concordantes com o modelo teórico, tal significa que a professora
não tem regras de realização passiva para o contexto em causa. Perante este
novo dado já é possível tirar as dúvidas relativamente à eventual posse, ou
não, de regras de reconhecimento, nos casos em que essa posse não podia ser,
determinantemente, tida como certa. Nesses casos, quando a professora não
apresenta explicações em nenhuma das partes (1 e 2) concordantes com o modelo
teórico, pode-se concluir que não tem regras de realização passiva e também não
tem regras de reconhecimento.
Possibilidade 2. Caso a professora apresente razões/argumentos e ainda as
justificações de acordo com o modelo teórico, tal significa que a professora
tem regras de realização passiva para o contexto em causa. Perante este facto,
pode-se concluir que a professora também possui regras de reconhecimento para a
situação em questão.
Possibilidade 3. Caso a professora não apresente razões/argumentos, mas, pelo
contrário, justifique de acordo com o modelo teórico, ou vice-versa7, também se
podem esclarecer as dúvidas pendentes relativamente à posse das regras de
reconhecimento e concluir que a professora as possui. No entanto, como apenas
uma das partes estava correta, conclui-se que a professora pode possuir, ou
não, regras de realização passiva. Para esclarecer as dúvidas pendentes, há que
analisar o modo como o professor exemplifica certas situações da sua prática
pedagógica e, eventualmente, caso as dúvidas subsistam, como põe em prática as
mesmas.
C ' Relativamente ao modo como o professor exemplifica certas situações da sua
prática pedagógica e como as põe em prática:
C1 ' Nível da argumentação, o qual pressupõe a compreensão da prática
pedagógica:
Possibilidade 1A. No caso em que a professora exemplifica o modo como
implementaria determinada prática pedagógica de forma discordante do modelo
teórico, pode-se concluir que a professora não possui regras de realização
ativa ao nível da argumentação. Caso esta situação ocorra, já é possível tirar
ilações quanto à eventualidade de a professora ter regras de realização passiva
para o contexto em causa, nos casos em que subsistiram ambiguidades: quando não
há regras de realização ativa ao nível da argumentação, não há regras de
realização passiva.
Possibilidade 1B. No caso em que a professora exemplifica o modo como
implementaria determinada prática pedagógica de forma concordante com o modelo
teórico, pode-se concluir que a professora possui regras de realização ativa ao
nível da argumentação. Caso esta situação ocorra, já é possível tirar ilações,
nos casos em que existiam dúvidas, quanto à eventualidade de a professora ter
regras de realização passiva para o contexto em causa: quando há regras de
realização ativa ao nível da argumentação, há regras de realização passiva.
C2 ' Nível da implementação:
Possibilidade 2A. No caso em que a professora implementa uma prática pedagógica
com características diferentes das do modelo teórico, pode-se concluir que a
professora não possui regras de realização ativa ao nível da implementação.
Quando as possibilidades 1A e 2A se verificam em simultaneidade na prática
pedagógica da professora, podemos concluir que a professora não tem regras de
realização ativa. Quando as possibilidades 1B e 2A existem simultaneamente na
mesma prática pedagógica, pode-se concluir que a professora possui regras de
realização ativa Grau 1 ' nível da argumentação.
Possibilidade 2B. No caso em que a professora implementa uma prática pedagógica
com as mesmas características do modelo teórico, pode-se concluir que a
professora possui regras de realização ativa ao nível da implementação. Quando
as possibilidades 1A e 2B existem simultaneamente na mesma prática pedagógica,
pode-se concluir que a professora possui regras de realização ativa Grau 1 '
nível da implementação. Quando as possibilidades 1B e 2B existem
simultaneamente na prática pedagógica da professora, pode-se concluir que a
professora possui regras de realização ativa Grau 2 ' nível da argumentação e
da implementação.
De forma a ilustrar a aplicação do modelo, seguem-se exemplos de respostas
dadas na entrevista por uma das professoras e sua interpretação em termos de
regras de reconhecimento, de realização passiva e de realização ativa ao nível
da argumentação, para a característica Critérios de avaliação.
A professora começou por selecionar a opção totalmente concordante com o modelo
teórico. Assim, a professora manifestou que, à partida, possuía regras de
reconhecimento Grau 2 (Possibilidade A.3).
No que é referente às razões/argumentos (Parte 1) defendidos pela professora,
constatou-se que ela valorizava os momentos de síntese como uma forma de tornar
mais explícito o texto legítimo que pretendia que os alunos aprendessem. Além
disso, a professora defendeu a necessidade de haver um fio condutor na
lecionação dos temas que permita aos alunos compreender os fenómenos
científicos de forma significativa. Pelo exposto, considera-se que as razões/
argumentos (Parte 1) apresentadas/os são concordantes com o modelo teórico.
Excerto: " (...) Estes momentos de síntese, em determinados pontos, permitem-me
ter o feedback, se realmente eles estão a seguir, a acompanhar, ou não. Se
deixamos para o final da unidade, um conteúdo, qualquer coisa que eles não
entenderam bem, pode impedir a aprendizagem da fase seguinte. Para mim, o ideal
é ser sempre esta" [refere-se à opção que escolheu] (Professora Carla,
entrevista).
No que concerne às justificações (Parte 2), a professora não apresentou de
forma clara a importância que representa, para um processo de ensino-
aprendizagem efetivo e significativo, a realização das sínteses e de outras
estratégias de clarificação do texto legítimo que os alunos devem aprender.
Contudo, como na Parte 1 a professora respondeu de forma concordante com o
modelo teórico, considerou-se que as justificações (Parte 2) eram parcialmente
concordantes com o modelo teórico, carecendo de clarificação aquando da análise
das regras de realização ativa ao nível da argumentação (Possibilidade B.3).
Excerto: "( ) e nós partimos do pressuposto que tudo isto tem um fio condutor,
que tudo isto é uma construção, então ( ) por exemplo, eu na casa não posso
começar o telhado se não souber que o resto está muito bem sustentado, não é?
Eu penso que ao nível da teoria é a mesma coisa ( ) Porque se falhou ali uma
parte, como é que depois se vai construir em cima daquilo que não é seguro?"
(Professora Carla, entrevista).
No que diz respeito ao modo como a professora exemplificou a forma de realizar
sínteses e de clarificar o texto que os alunos deverão aprender, considerou-se
que ela tinha algumas dificuldades em verbalizar o modo como executava tais
procedimentos, tendo salientado apenas a realização dos mapas de conceitos.
Contudo, salientou a importância de se realizar intradisciplinaridade, o que é
também uma forma de clarificar o texto legítimo da aprendizagem em ciências.
Considerou-se, assim, que a professora possuía regras de realização ativa ao
nível da argumentação (Possibilidade 1B).
Excerto: "( ) dentro de algum ponto em que eu acho que é importante irmos
parando ' serem sempre eles a ir fazendo, claro, com a minha ajuda; com a
construção dos ditos mapas de conceitos, por exemplo ( ) no caso dos aparelhos,
eles ligam o órgão aos processos físicos e químicos que acontecem aqui e ali,
pronto, tentar fazer essa ligação para ver se eles conseguem fazer, ou não"
(Professora Carla, entrevista).
Perante os dados recolhidos para a posse das regras de reconhecimento, de
realização passiva e de realização ativa ao nível da argumentação, verificou-se
que a professora tinha regras de reconhecimento grau 2, regras de realização
passiva e regras de realização ativa ao nível da argumentação (grau 1). A
análise dos dados relacionados com a posse de regras de realização ativa ao
nível da implementação mostrou, no caso da mesma professora, que a frequência
de unidades de análise classificadas com os graus E++ e E+ era inferior a 50%,
o que sugeriu que ela não possuía regras de realização ativa ao nível da
implementação.
Análise dos resultados
Análise do Currículo
Os resultados da análise do currículo, no que concerne às características
pedagógicas relacionadas com o que do DPO ' conhecimentos metacientíficos
(construção da ciência) e competências e conhecimentos científicos ' estão
representados, resumidamente, no gráfico da Figura_3.
Os resultados representam a frequência de unidades de análise (UA) do currículo
' Competências Essenciais (CE) e Orientações Curriculares (OC)', classificadas
de acordo com cada uma das escalas (de níveis crescentes de complexidade) dos
respetivos instrumentos de análise. Para a análise do gráfico deve-se ter em
consideração que os conhecimentos metacientíficos e as competências científicas
foram avaliados numa escala de 4 graus e que os conhecimentos científicos foram
avaliados numa escala de 3 graus.
A análise do DPO do currículo, quando se consideram os dois documentos oficiais
(Competências Essenciais e Orientações Curriculares), mostra que o nível de
complexidade dos conhecimentos metacientíficos é baixo (71,7% das UA das CE e
72,5% das UA das OC foram classificadas com o nível mais baixo da escala). O
nível de complexidade dos conhecimentos científicos e das competências
cognitivas é, no total, relativamente mais elevado do que o nível de
complexidade do domínio metacientífico; contudo, segue um padrão que depende da
mensagem contida em cada um dos documentos curriculares. De facto, e no que diz
respeito às competências cognitivas, enquanto as Competências Essenciais contêm
60,8% de UA com o nível mais elevado de complexidade e apenas 3,9% de UA com o
nível mais baixo, as Orientações Curriculares contêm apenas 12,5% das UA com o
nível de complexidade mais elevado e 77,1% das UA com o nível mais baixo de
complexidade. No que concerne à complexidade dos conhecimentos científicos,
verifica-se, claramente, que as Competências Essenciais apresentam níveis mais
elevados de complexidade (39% das UA foram classificadas com grau 3) do que as
Orientações Curriculares (apenas 12,8% as UA registaram uma classificação de
grau 3). Neste último documento, a grande maioria das UA foi classificada com o
grau 1, ou seja, conceitos de primeira ordem. Esta discrepância veio apoiar
estudos prévios (Neves & Morais, 2001a, 2006), os quais dão visibilidade
aos processos de recontextualização existentes entre documentos produzidos no
campo de recontextualização oficial8.
A Figura_4 representa, de forma resumida, os resultados da análise do currículo
quanto às características pedagógicas relacionadas com o como do DPO ' relações
intradisciplinares entre conhecimentos científicos e metacientíficos e relações
intradisciplinares entre diferentes conhecimentos científicos. Os resultados
representam, tal como referido, a frequência de unidades de análise do
currículo (Competências Essenciais e Orientações Curriculares) classificadas de
acordo com cada um dos quatro graus das escalas (níveis crescentes dos valores
de classificação) dos respetivos instrumentos de análise.
Os resultados sugerem relações intradisciplinares, entre conhecimentos
científicos e metacientíficos, muito fracas, em ambos os documentos (64,3% das
UA das Competências Essenciais e 55,2% das UA das Orientações Curriculares
foram classificadas com valores de C++). As relações intradisciplinares entre
diferentes conhecimentos científicos são um pouco menos fracas (apenas 29,6%
das UA das Competências Essenciais e 16,7% das UA das Orientações Curriculares
foram classificadas com valores de C++), mas, no entanto, são ainda
insuficientes para o alcance de níveis elevados de literacia científica.
Quanto à outra característica relacionada com o como do DPO ' Critérios de
avaliação no domínio da relação transmissor-aquisidor (grau de explicitação das
relações intradisciplinares e das competências e dos conhecimentos científicos
e metacientíficos) ', os resultados mostram que o currículo é caracterizado por
um grau de explicitação muito baixo, ou seja, as diretrizes para o texto a ser
transmitido/adquirido são, predominantemente, subjetivas e pouco claras,
especialmente no caso das Orientações Curriculares. Todas as unidades de
análise foram classificadas com E- e E-- em ambos os documentos curriculares e
em todas as dimensões de análise dos critérios de avaliação.
Análise da prática pedagógica das professoras
A Tabela_IV apresenta uma síntese dos resultados (em termos da orientação
específica de codificação) da análise das práticas pedagógicas das professoras.
Os resultados sugerem que a professora Sofia não possui regras de
reconhecimento, regras de realização passiva e regras de realização ativa quer
ao nível da argumentação quer ao nível da implementação, isto é, a sua
orientação específica de codificação é, para todas as características
pedagógicas em estudo, muito limitada. A professora Sofia foi incapaz de
reconhecer a especificidade do contexto relativo a cada uma das características
e de selecionar o texto legítimo que deveria produzir nesse contexto. Não
mostrou ainda capacidade para apresentar as razões/argumentos/justificações que
fundamentariam esse texto. Não soube também dizer como faria para implementar
uma prática pedagógica com as características do modelo teórico do estudo, e
foi ainda incapaz de implementar essa prática em sala de aula.
A orientação específica de codificação da professora Carla varia, consoante as
características em estudo. Para as características construção da ciência',
relações intra-disciplinares entre conhecimentos científicos e
metacientíficos' e critérios de avaliação', a professora Carla evidenciou a
posse de regras de reconhecimento de nível elevado (Grau 2), a posse de regras
de realização passiva e regras de realização ativa no nível mais baixo (Grau
1). No caso da construção da ciência', esta situação foi uma consequência da
importância reconhecida por esta professora para a introdução da construção da
ciência no processo de ensino-aprendizagem, assim como das razões/justificações
dadas na entrevista (onde mostrou possuir regras de reconhecimento e de
realização passiva). A professora Carla também conseguiu exemplificar como
faria para introduzir as dimensões da ciência na sua prática, evidenciando
regras de realização ativa ao nível da argumentação; contudo, foi incapaz de
implementar os princípios que dissera valorizar (não possui regras de
realização ativa ao nível da implementação).
Quanto à situação de ausência de regras de realização ativa ao nível da
implementação, no caso da Intradisciplinaridade C-M, é uma consequência do
facto de a professora nunca ter estabelecido uma relação entre o conhecimento
científico e metacientífico, em nenhuma das unidades de análise. Contudo, a
professora Carla revelou ser capaz de estabelecer relações entre conhecimentos
científicos e apelar a competências associadas às dimensões da ciência, algo
que, apesar de válido, não é suficiente para uma eficaz aprendizagem
científica. No que concerne aos critérios de avaliação, a professora Carla, nas
aulas observadas, deixava implícitos, para os alunos, os aspetos relacionados
com as características selecionadas no estudo sempre que essas características
estavam presentes no seu processo de ensino-aprendizagem. A professora Carla
usava, frequentemente, fichas de trabalho para orientar a aula e escrevia notas
no quadro, de forma a enfatizar o texto legítimo por ela valorizado. Contudo, o
texto com maior enfoque era limitado ao conhecimento científico e, dentro
deste, a conhecimentos de nível conceptual baixo. Esta situação torna-se
evidente quando se considera a característica complexidade dos conhecimentos
científicos', onde a professora Carla não evidenciou regras de reconhecimento,
regras de realização passiva nem regras de realização ativa ao nível da
argumentação e da implementação.
Quanto à característica complexidade das competências científicas', a
professora Carla evidenciou a posse de regras de reconhecimento de nível
elevado (Grau 2), posse de regras de realização passiva e ausência de regras de
realização ativa ao nível da argumentação e implementação. De facto, embora a
professora tenha referido que valorizava a importância de um elevado nível de
exigência conceptual das competências científicas e tenha procedido à devida
justificação, nesse sentido, ela foi incapaz de exemplificar como faria para
colocar em prática tais princípios na sua prática letiva e, naturalmente, não
os conseguiu implementar. No que diz respeito à característica
intradisciplinaridade entre diferentes conhecimentos científicos', esta
professora evidenciou regras de reconhecimento de nível elevado, mas não
mostrou possuir nem regras de realização passiva nem regras de realização
ativa.
É de salientar que, analisando a OEC das professoras que participaram na
investigação, se verificam diferenças evidentes ao nível das várias
características de aprendizagem em estudo. Contudo, algo que é comum às duas
professoras é a falta de regras de realização ativa ao nível da implementação,
para todas as características. É, portanto, a parte da OEC das professoras que
mais interfere com a aprendizagem dos alunos ' a implementação dos princípios
pedagógicos nas aulas lecionadas ' aquela que mais lacunas apresenta.
Conclusões
Considerando a totalidade do estudo, a investigação sugere a existência de
processos de recontextualização em dois níveis: dentro do campo de
recontextualização oficial, quando se passa do documento geral do currículo
para o dos princípios específicos do currículo; e entre o campo de
recontextualização oficial e o campo de reprodução pedagógica, quando se passa
do currículo para a prática pedagógica das professoras.
A análise dos princípios gerais do currículo (Competências Essenciais) mostrou,
no geral, um nível muito baixo de conceptualização do conhecimento
metacientífico e das competências associadas à construção da ciência, um nível
de conceptualização elevado das competências científicas, um nível médio de
conceptualização dos conhecimentos científicos, fracas relações
intradisciplinares entre conhecimento científico e metacientífico, fortes
relações intradisciplinares entre diferentes conhecimentos científicos, e
critérios de avaliação implícitos quanto ao texto legítimo a ser transmitido-
adquirido. Com exceção do nível de conceptualização das competências
científicas e das relações intradisciplinares entre diferentes conhecimentos
científicos, a secção geral do currículo contém características que, de acordo
com investigações prévias (Morais, Neves, & Pires, 2004; Morais &
Neves, 2009b), não promovem o desenvolvimento de uma efetiva aprendizagem
científica.
A recontextualização que ocorreu entre os princípios gerais e os princípios
específicos do currículo, em termos de aprendizagem científica, processou-se no
sentido do reforço de características menos positivas, como é o caso dos
critérios de avaliação implícitos, e no sentido do decréscimo da ênfase dado às
características positivas (menor nível de conceptualização das competências e
dos conhecimentos científicos). Estes processos de recontextualização são mais
evidentes e extensíveis a outras características quando se considera a
totalidade do currículo do 9º ano de escolaridade (Calado & Neves, 2012), e
não apenas uma unidade temática, como foi o caso do presente estudo
As práticas pedagógicas das professoras mostraram diferenças, consoante as
características pedagógicas em estudo, e a sua análise evidenciou processos de
recontextualização do currículo que seguiram uma tendência similar ao processo
verificado entre os dois documentos do currículo. Por exemplo, quando se
considera a característica complexidade dos conhecimentos científicos', os
dados mostraram que, apesar do nível de conceptualização relativamente elevado
das Competências Essenciais, ambas as professoras valorizaram e implementaram
um processo de ensino-aprendizagem com um nível baixo de conceptualização
(mostraram não possuir regras de reconhecimento e regras de realização passiva
e ativa para este microcontexto da aprendizagem científica).
No que diz respeito à característica complexidade das competências
científicas', cujo nível de conceptualização era, também, elevado no documento
Competências Essenciais do currículo, uma das professoras mostrou reconhecer e
compreender a sua importância para a aprendizagem científica (possuía regras de
reconhecimento e de realização passiva), mas nenhuma das professoras
implementou tal princípio nas suas aulas (não possuíam regras de realização
ativa).
Quanto às restantes características em estudo, as professoras mostraram-se
incapazes de recontextualizar, nas suas práticas, os princípios do currículo no
sentido de minimizar as características menos positivas do mesmo. Por exemplo,
no que concerne às características construção da ciência',
intradisciplinaridade entre conhecimentos científicos e metacientíficos',
intradisciplinaridade entre diferentes conhecimentos científicos' e critérios
de avaliação', ambas as professoras implementaram uma prática, ao nível da sala
de aula, em que: o conhecimento metacientífico e a sua relação com o
conhecimento científico estava ausente; o nível das relações intradisciplinares
entre diferentes conhecimentos científicos era muito baixo; e os critérios de
avaliação, quanto ao texto a ser aprendido pelos alunos, ficavam implícitos.
Apesar disso, uma das professoras mostrou ter capacidade para reconhecer e
compreender a importância, para a aprendizagem científica, da exploração de
conhecimentos metacientíficos e da sua relação com os conhecimentos
científicos, e também da explicitação dos critérios de avaliação quanto ao
texto a ser apreendido pelos alunos (possuía regras de reconhecimento e de
realização passiva). Essa professora era ainda capaz de reconhecer a
importância de uma forte intradisciplinaridade entre diferentes conhecimentos
científicos (possuía regras de reconhecimento).
O sentido dos processos de recontextualização verificados levanta sérias
preocupações quanto à forma como os professores interpretam e implementam as
direções curriculares, particularmente quando o currículo a ser implementado é
desenvolvido num contexto de flexibilidade curricular. Visto que este contexto
visa dar aos professores um maior espaço de intervenção ao nível da
implementação do currículo, seria extremamente importante que os professores
usassem esse espaço para melhorar os aspetos menos conseguidos na mensagem do
currículo e desenvolvessem uma prática pedagógica em concordância com os
resultados da investigação em educação em ciências. Pelo contrário, como é
visível neste estudo, as professoras envolvidas na investigação usaram o seu
espaço de intervenção para empobrecer, ainda mais, a mensagem presente nos
documentos curriculares.
Seguindo o quadro conceptual que guiou a análise das práticas pedagógicas das
professoras, é possível afirmar que um dos fatores responsáveis pela direção
tomada na recontextualização do currículo é a ausência de regras de
reconhecimento e/ou regras de realização passiva e/ou regras de realização
ativa para as características em estudo. Esta ausência pode ser vista como uma
consequência da formação de professores recebida, especialmente se tivermos em
consideração a aquisição de orientação específica de codificação em termos de
regras de reconhecimento e de realização passiva. No caso das regras de
realização ativa, consideramos, também, que a formação de professores pode ter
um papel decisivo na aquisição das mesmas. Contudo, pode-se também pensar, como
hipótese, que as professoras do estudo poderiam ter falta de disposições
socioafetivas favoráveis à implementação de uma prática pedagógica com as
características em estudo. As dimensões pessoais, sociais e profissionais de um
professor podem ter uma influência negativa no seu desempenho profissional.
Estudos anteriores (Pires, 2001; Rosa, 2002) mostraram que certas
características, tais como o compromisso, o dinamismo, a autoconfiança e as
disposições socioafetivas, são determinantes para a implementação de uma
determinada prática pedagógica.
As conclusões deste estudo são particularmente relevantes no âmbito do contexto
de flexibilidade curricular que existe, atualmente, em Portugal. Se tivermos em
consideração que a flexibilidade curricular, princípio base da presente
reorganização curricular, pretende "assegurar que todos os alunos aprendam mais
e de um modo mais significativo" (Departamento da Educação Básica, 1999, p. 6),
então os resultados desta investigação deixam-nos certas dúvidas quanto à
consecução desse propósito. A grande autonomia que está a ser dada aos
professores, na sua relação com o Ministério da Educação, pode levar ao sucesso
de apenas alguns alunos, visto que nem todos terão acesso a uma educação que
promova níveis elevados de literacia científica. É, portanto, urgente a
implementação de uma eficiente formação de professores e a promoção de um
significativo desenvolvimento profissional para que, em contextos de maior
autonomia pedagógica (e científica), os professores possam proceder a uma
recontextualização do currículo na direção da promoção da literacia científica
de todos os alunos.
Em termos metodológicos, o estudo assegura um passo em frente na investigação,
através do aumento do rigor e da abrangência das linguagens externas de
descrição anteriormente desenvolvidas para a análise das práticas pedagógicas
dos professores e dos materiais curriculares (Castro, 2006; Morais, Neves,
& Afonso, 2005; Neves & Morais, 2001b).
Deve ser enfatizado que as conclusões deste estudo não poderão ir no sentido de
teorizar sobre processos de recontextualização desenvolvidos com base na
análise das práticas de apenas duas professoras. Pretende-se, sim, suscitar
questões quanto à formação dos professores e ao uso que os professores fazem do
seu espaço de mudança, na promoção de uma melhor educação. O estudo tem
limitações, não apenas no que concerne à reduzida amostra de professores, mas
também no que diz respeito às características selecionadas para análise do
currículo e da prática pedagógica, as quais deverão ser ampliadas em futuras
investigações.