O Instituto de Coimbra e o Ensino Secundário em Portugal na Primeira República:
O caso particular das Ciências Físico-Químicas
Introdução
A implantação em Portugal do regime republicano, em 5 de outubro de 1910,
desencadeou um conjunto vasto de reformas no ensino público. O afã reformista
não foi, porém, muito lesto na organização do ensino secundário, tendo
decorrido alguns anos até ocorrer uma mudança profunda neste nível de ensino.
Tal poderá ser atribuído à forte influência que várias personalidades
republicanas tinham exercido na última reforma da monarquia constitucional, que
tinha tido lugar em 1905.
Um dos mais importantes veículos usados para divulgar pontos de vista sobre
assuntos educativos foi O Instituto, revista literária e científica publicada
pela sociedade académica coimbrã com o mesmo nome. O Instituto de Coimbra (IC),
fundado em 1852, congregou não só um vasto leque de académicos nacionais, a
maior parte professores da Universidade de Coimbra (UC), mas também alguns
académicos estrangeiros, numa atividade desenvolvida ao longo de quase século e
meio (Leonardo, Martins & Fiolhais, 2009a; Saraiva, 1993). O Instituto, com
141 volumes publicados desde 1852 até 1981, foi o produto mais visível do labor
desta academia1.
Muitos artigos publicados nessa revista tiveram como tema o ensino público,
sobressaindo o ensino secundário. A relevância que têm para a história da
educação é comprovada pela inclusão de O InstitutonoRepertório Analítico da
Imprensa de Educação e Ensino (Nóvoa, 1993a, pp. 527-533). Nóvoa considera
quatro momentos respeitantes à publicação de artigos relativos ao ensino n'O
Instituto, a saber: até 1860, onde surgem os relatórios e conferências do
Conselho Superior de Instrução Pública (CSIP) e vários artigos sob a epígrafe
de Instrução Pública; entre 1860 e 1880, um período de acentuado decréscimo no
tratamento desse tipo de questões devido à ausência do CSIP; entre 1880 e 1930,
que pode ser considerado um "período áureo" da atenção aos problemas
educativos, não tanto pela quantidade mas mais pela qualidade dos artigos
publicados (ver Tabela 1); e, finalmente, a partir de 1930, quando diminuiu
bastante o número de artigos sobre o tema2.
Tabela 1
Noutro artigo, analisámos o ensino na monarquia constitucional visto pel'O
Instituto (Leonardo, Martins & Fiolhais, 2009b). Neste, com base no corpus
de artigos sobre o ensino publicados na referida revista durante a Primeira
República, assim como no período imediatamente anterior, descreveremos as
principais reformas efetuadas na educação em Portugal, os fatores que terão
condicionado as decisões políticas neste quadro e as propostas que foram sendo
discutidas, ao mesmo tempo que aferimos o grau de desenvolvimento deste nível
de ensino na opinião de membros do IC que foram protagonistas das políticas de
educação nacional e também de alguns analistas externos, como foi o caso da
portuguesa, residente em Espanha, Alice Pestana e do espanhol Rubén Landa.
Daremos, na nossa análise, uma atenção particular à evolução do ensino das
Ciências Físico-Químicas, como um bom exemplo da atenção que nessa altura
começou a ser dada ao ensino experimental das ciências.
A pedagogia das ciências em Portugal no início do século XX
No último quartel do século XIX surgiram em Portugal várias ideias pedagógicas,
algumas delas arrojadas para a época. Os ideais republicanos repercutiam-se na
área educativa, tendo sido propostas várias reformas no modo de ensinar todas
as disciplinas, mas mais em particular as disciplinas científicas. Durante a
monarquia, personalidades associadas às ideias e ao movimento republicano, como
Teófilo Braga, Francisco José Teixeira Bastos3, José Augusto Coelho, etc.,
foram destacados proponentes da chamada pedagogia positivista, que considerava
o método científico o verdadeiro meio de alcançar a verdade (Proença, 2002, pp.
42-43). No ideário republicano, a ciência vinha, de certo modo, ocupar o lugar
que antes era ocupado pela religião, não admirando por isso que propugnasse o
total laicismo do Estado. Por outro lado, o ensino deveria ter por função a
educação para a cidadania, defendendo-se a liberdade do homem e a necessidade
da instrução pública para o progresso da sociedade (Catroga, 2000, pp. 131-134;
Fernandes, 1979).
Neste quadro, são de destacar as ideias de Bernardino Luís Machado Guimarães
(1851-1944), professor de Antropologia na Universidade de Coimbra e por duas
vezes Presidente da República. Tendo desempenhado as funções de presidente do
IC entre 1896 e 1908, Bernardino Machado privilegiou O Instituto na publicação
dos seus artigos. Alguns deles incidiram sobre o ensino e a pedagogia,
revelando neles as suas ideias que se dirigiam principalmente ao ensino das
ciências (Leonardo et al., 2009b; e, em especial, Leonardo, Martins &
Fiolhais, 2011). Argumentou que o ensino secundário deveria possuir uma "ampla
base cultural, sem cunho profissional mas voltado para a realidade" (Fernandes,
1978, pp. 120-121). Opôs-se vigorosamente ao ensino abstrato e formal, em favor
de um ensino moderno "firmado numa coerente lógica curricular, hierarquizada
segundo as conceções científicas do tempo e tendo na realidade viva os seus
fulcros de aplicação" (idem). Queria que os liceus fossem escolas ativas,
escolas em que os alunos participassem no processo educativo, considerando que
estes "não têm amor nenhum a soluções científicas que não lhes custaram
esforço, e defendem-nas como bonitas frases" (Fernandes, 1985, p. 123). Achava
essencial a substituição do estilo psitacístico, no qual se repetiam as frases
dos mestres, por uma reelaboração crítica e consciente dos conteúdos cognitivos
através da valorização pedagógica do aluno como sujeito da aprendizagem (idem,
p. 152). Contudo, não propôs práticas baseadas nas tendências tecnocratizantes
da pedagogia, reduzindo o ensino a aspetos tecnodidácticos, preferindo antes
realçar a relação entre o ensino e a prática e os laços entre professor e
aluno, sempre numa perspetiva humanista da educação. O professor tinha a
obrigação de exemplificar o respeito que votava à ciência, devendo inspirar
esse mesmo respeito no aluno. A exposição do professor, combinada com a
ilustração dos objetos e instrumentos, mas, sobretudo, com a própria realidade
das coisas experimentadas ou observadas, teria de atrair os educandos e fazê-
los "inventar para si a [ciência] que os outros já possuem" (idem). A
proximidade com as ideias construtivistas é evidente neste trecho.
Em 1900, Bernardino Machado apresentou cinco lições no IC, que intitulou Curso
de Pedagogia, ao longo das quais dissertou sobre esse tema. A primeira dessas
lições, publicadas n'O Instituto, incidia sobre a importância do ensino e da
formação pedagógica dos candidatos ao magistério liceal. Nas seguintes
discorreu sobre algumas ideias pedagógicas avulsas, invocando por exemplo a
necessidade de ter professores que, para além de bem preparados no plano
científico, se destacassem no plano moral, sendo radicalmente intransigentes
com a corrupção ou outro mal (Machado, 1900, p. 132).
As ideias pedagógicas defendidas por Bernardino Machado haveriam de se refletir
nos programas de Física e de Química de 1905 e no surgimento da disciplina de
"Trabalhos práticos" em 1914.
A Revolução Republicana e as suas implicações no Ensino Secundário
A 2 de novembro de 1910, não tinha ainda decorrido um mês após a revolução
republicana, já o ministro do Interior do Governo provisório tinha nomeado uma
comissão de nove membros4 para formular um novo plano geral de reorganização
dos estudos portugueses. Embora o objetivo fosse executar os princípios
pedagógicos que serviram de propaganda política na última fase da monarquia
(Proença, 2002, p. 44), as condições socioeconómicas do país condicionaram o
cumprimento deste desiderato.
No caso do ensino secundário, os ânimos dos políticos e pedagogos encontravam-
se apaziguados desde a reforma de 19055. Com efeito, o diploma que a instituiu
gerou um largo consenso entre os pedagogos republicanos (Brás & Gonçalves,
2009, p. 108), uma vez que atendeu a muitas das pretensões que eles defendiam,
designadamente a introdução da educação física e o maior relevo dado ao ensino
das ciências e das línguas vivas, modernizando o ensino e reforçando o seu
caráter utilitário.
A reforma de 1905, da autoria de Eduardo José Coelho (1835-1913), traduziu-se
num conjunto de ajustes à reforma de 1884/85, elaborada por Jaime Moniz com o
apoio de Adolfo Coelho, ambos professores do Curso Superior de Letras de
Lisboa, sendo João Franco ministro do reino. Justificou-se, entre outros
motivos, pelo peso exagerado do ensino clássico da reforma original de Jaime
Moniz, na qual a disciplina de Latim era a que tinha maior carga horária6,
prolongando-se pelos sete anos do curso completo, mas também como resposta à
"campanha de protesto popular" a que esta última vinha sendo sujeita (Valente,
1973, p. 73). Não tendo por base uma nova orientação pedagógica, a reforma de
Coelho procurou corrigir alguns defeitos da anterior. Desta maneira, foi
retirado o Latim dos primeiros três anos e bifurcou-se o ensino nos últimos
dois anos nos cursos complementares de Letras e Ciências. Foi também aumentada
a carga horária das disciplinas científicas no curso geral (Ciências Físicas e
Naturais), surgindo a Física, a Química e as Ciências Naturais como disciplinas
independentes no curso complementar de Ciências. As chamadas línguas vivas
(Inglês, Francês ou Alemão) adquiriram maior peso horário. Assim, esta reforma
constituiu um verdadeiro progresso no sentido de tornar o ensino secundário um
meio de preparação para a vida ativa e não, como acontecia antes, um mero
patamar intermédio entre a escola primária e a escola superior. Tal situação,
em que a escola surgia "como um novo saber e poder", teve alguma longevidade
(Brás & Gonçalves, 2009, p. 116).
Os programas de Física e Química, integrados na disciplina de Ciências Física e
Naturais do curso geral, parecem decalcados de muitas das ideias pedagógicas de
Bernardino Machado, em particular o facto de o programa de Física se assumir
como meramente "indicativo e não taxativo", ficando ao "prudente arbítrio do
professor a fixação dos methodos e processos que sejam precisos" (Decreto de 3
de novembro de 1905). O programa considerava que as demonstrações experimentais
eram o único fim do curso, devendo a disciplina ter um caráter prático e
experimental, e devendo os conteúdos de Física ser intuitivos e descritivos.
Em 1911, Francisco Adolfo Coelho (1847-1919) iniciou a publicação n'O Instituto
de um artigo, em várias partes, intitulado Questões Pedagógicas. Adolfo Coelho
foi um erudito filólogo, professor do Curso Superior de Letras em Lisboa
(Fernandes, 1973) e sócio correspondente do IC, que já tinha intervindo na
reforma protagonizada por Jaime Moniz de 1894-95: foram da sua autoria os
programas das disciplinas de Geografia, Francês e Inglês (Leonardo et al.,
2009b). Foi, também, um reconhecido pedagogo, tendo lecionado a cadeira de
Pedagogia do Ensino Secundário, criada no Curso Superior de Letras de Lisboa
(Coelho, 1911, p. 134). Numa parte do seu artigo, intitulada O plano geral do
ensino público, Coelho renovou uma proposta que já tinha apresentado na
Sociedade de Geografia, 18 anos antes, no sentido de realizar um "congresso
nacional para a discussão e o estudo da situação da ciência portuguesa nos seus
diversos ramos, aplicações, necessidades e progressos, congresso em que as
questões de ensino teriam lugar predominante" (Coelho, 1911, p. 72).
Considerando que "as reformas educativas são das mais difíceis de realizar",
reiterou as Bases Gerais de uma Reforma do Ensino Público Português, que tinha
publicado sob a forma de opúsculo sob os auspícios da Sociedade de Geografia em
1894. Deste projeto destacamos dois aspetos em relação ao ensino secundário: a
divisão da instrução em clássica (que incluía o estudo das línguas clássicas) e
moderna (que excluía esse estudo); e a disposição dos programas não por
disciplinas, mas por partes relacionadas entre si, fazendo suceder os
conhecimentos numa ordem adequada ao desenvolvimento psicológico dos alunos. A
ambos os cursos, moderno e clássico, seriam comuns cadeiras de índole
científico-natural (Geografia, Física, Elementos de Química, História Natural e
Matemática) (idem, pp. 131-133). Adolfo Coelho presidiu à nova comissão,
nomeada em 26 de junho de 1911, encarregada de organizar um projeto de reforma
deste grau de ensino7. No relatório elaborado por esta comissão ficaram
plasmadas as ideias de Adolfo Coelho, designadamente a existência de dois
cursos no ensino secundário, servindo o clássico, que incluía o Latim e o
Grego, de preparação aos cursos superiores das Faculdades de Letras e Direito,
e o moderno, com as ciências e as línguas vivas, direcionava os alunos para as
Faculdades de Ciências, Medicina e escolas e institutos técnicos8 (Carvalho,
1986, pp. 683; Fernandes, 1973, pp. 435-442). Estes trabalhos não foram
aproveitados, ficando por aplicar estas medidas, provavelmente por restrições
de ordem financeira e contenção dos governos perante uma reforma radical, que
atribuía ao curso liceal oito anos de duração.
Com vista à formação de professores para os ensinos primários e liceal, foram,
por decreto de 21 de maio de 1911, criadas Escolas Normais Superiores, anexas
às Universidades de Coimbra e Lisboa (esta última acabada de criar), que
deveriam desempenhar um papel relevante na transformação pretendida9. O acesso
a estas escolas exigia o grau de licenciado ou bacharel, podendo os candidatos
optar pelos cursos de habilitação para os magistérios liceal, normal primário e
primário superior. Cada curso tinha a duração de dois anos, sendo o primeiro
dedicado à preparação pedagógica e o segundo à iniciação à prática pedagógica.
A habilitação para o ensino das ciências incluía uma disciplina sobre a
metodologia geral das Ciências Matemáticas e das Ciências da Natureza (Valente,
1973, pp. 129-132).
Em 1913, Adolfo Coelho voltou a publicar um artigo n'O Instituto, onde analisou
os programas e planos do ensino secundário de várias nações. Neste ensaio,
centrou-se no perfil do professor, considerando que havia muitos professores
"lentos, pachorrentos, soporíferos, gastando muito tempo e moendo o seu
programa" (Coelho, 1913, p. 403). Sobre a metodologia a adotar na lecionação
dos novos programas, baseada nos sistemas vigentes em países europeus como a
Alemanha, salientou as contradições que estes revelavam apesar de serem
evidentes traços comuns, designadamente as novas regras pedagógicas, que
mandavam avançar do fácil para o difícil, do simples para o composto e do
próximo para o remoto (idem). Acentuou a necessidade de só se apresentar aos
educandos aquilo que estes estivessem preparados para entender e de lhes dar
liberdade de escolha entre algumas disciplinas de opção nas classes superiores
do ensino secundário. Finalmente, refletiu sobre as diferenças de
"inteligência" dos alunos, defendendo a divisão entre os melhores e os
"medíocres", devendo a estes ser proporcionado um ensino mais geral.
Em 26 de setembro de 1914, num governo liderado por Bernardino Machado, foram
aprovados os "trabalhos práticos individuais" no curso complementar do
secundário, que previam a realização autónoma por parte dos alunos de problemas
de investigação, sob a direção de um ou mais professores10. Esta medida
pretendeu pôr em prática um ensino mais ativo, levando o aluno a desenvolver as
suas "faculdades de investigação e habituá-lo à prática dum método de estudo e
de trabalho" (Decreto 896 de 26 de setembro de 1914). As instruções
determinavam que estes trabalhos não deveriam "ter a feição de mera execução de
receitas", devendo o professor comportar-se como "companheiro de trabalho"
(Portaria 239 de 26 de setembro de 1914).
Só em 1917 foi reformulado o ensino secundário com base na proposta da comissão
nomeada para esse fim. O decreto n.º 3091, de 17 de abril, regulamentou o
ensino secundário inspirado na experiência do Liceu Pedro Nunes de Lisboa
(Landa, 1927, p. 215). No essencial mantiveram-se as disposições da legislação
anterior, sendo introduzidas as Ciências Físicas e Naturais no curso
complementar de Letras e a Filosofia no curso complementar de Ciências.
Verifica-se que as maiores alterações incidiram na regulamentação
administrativa dos liceus. As críticas de que este decreto foi alvo por parte
dos estudantes conduziram à suspensão das aulas liceais durante alguns meses. A
contestação prendia-se com a alegada sobrecarga dos programas dos cursos
complementares, que penalizavam fortemente os alunos. Em virtude da fragilidade
política do governo, este optou por revogar este projeto, tentando amenizar o
novo foco de descontentamento na sociedade (Landa, 1927, pp. 215-216; Valente,
1973, pp. 83-84).
Em dezembro de 1917 ocorreu a revolta que colocou no poder Sidónio Pais (1872-
1918), professor de Matemática de Coimbra que acumulou o cargo de Presidente da
República com a chefia do governo e as pastas da Guerra e dos Negócios
Estrangeiros. Outro professor de Matemática de Coimbra, amigo de Sidónio Pais,
Francisco de Miranda de Costa Lobo (1864-1945), então presidente do IC, foi
então nomeado presidente da Comissão da Reforma de Ensino. A 14 de julho de
1918 foi aprovado o decreto que reformou a instrução secundária, tendo a 8 de
setembro desse mesmo ano sido ratificado o novo regulamento. Manteve-se a
duração do curso geral em cinco anos, surgindo a disciplina de Ciências Físico-
Químicas, separada das Ciências Naturais, no 3.º ano (2.ª secção). Conservaram-
se também os cursos complementares de Letras e Ciências, com a duração de dois
anos, aparecendo no curso de Letras uma disciplina de Ciências Físico-Naturais
e no curso de Ciências a cadeira de Matemática e, em separado, as de Física, de
Química e de Ciências Naturais. Ambos os cursos tinham em comum as disciplinas
de Português e Literatura Portuguesa, Inglês ou Alemão, e Geografia. Segundo a
nova lei, o curso complementar de Ciências só poderia ser ministrado em liceus
com gabinetes e laboratórios equipados com material para os trabalhos práticos
individuais de Química, Física, Mineralogia, Geologia, Ciências Biológicas e
Geografia.
Cerca de duas semanas antes do assassinato de Sidónio Pais, o decreto n.º 5002,
de 27 de novembro de 1918, aprovou os novos programas do ensino secundário. Nos
programas de Física e de Química foram retiradas muitas das instruções
constantes nos programas de 1905. Contudo, manteve-se a intenção de fornecer
aos alunos o conhecimento acerca dos principais fenómenos de Física, que
deveriam ser induzidos da observação e experimentação. Por seu lado, a Química
deveria versar as propriedades diretamente observáveis, postas em evidência
através de experiências simples (Decreto n.º 5002 de 27 de novembro de 1918).
Mantiveram-se os trabalhos práticos, com a mesma orgânica, que se estenderam a
todos os liceus com o curso complementar de Ciências.
Após o assassinato do Presidente Sidónio Pais, Costa Lobo abandonou a política
ativa. Contudo, no ano seguinte, publicou n'O Instituto um artigo sobre a
reforma da instrução secundária apresentando um plano radicalmente diverso do
aprovado em 1918 (Lobo, 1919). Para começar, Costa Lobo entendia a instrução
secundária não como um fim em si mesma, mas como uma passagem para estudos
superiores ou para estudos técnicos. A educação geral secundária deveria
dividir-se em dois graus, o primeiro, de três anos, para alunos entre os 11 e
os 14 anos, e o segundo, de dois anos, para alunos dos 14 aos 16 anos, em
paralelo com uma Educação Especial: agrícola e de artes e ofícios (alunos dos
9-14 anos) e escolas agrícolas, industriais e comerciais (alunos dos 11 aos 15
anos). Ao nível da avaliação, classificou os exames como um "espetáculo inútil
para escangalhar os organismos", defendendo antes provas sucessivas durante o
ano, tornando-se a prova final uma "formalidade sem surpresa ( ) e de rápida
execução" (idem, p. 184). Como forma de reduzir o número excessivo de horas,
Costa Lobo propôs o limite de três cadeiras anuais, estabelecendo no 3.º ano
(3.ª classe) as disciplinas de Elementos de Física e Química, Botânica e
Zoologia, Mineralogia e Geologia, e no 3.º ano (4.ª classe) a cadeira de Física
e Química. O ensino das ciências deveria ser feito "à vista de exemplares ou
aparelhos", devendo partir-se das experiências ou exercícios precisos para a
sua compreensão (idem, p. 187). Aconselhou o uso, nas aulas, de projeções. Os
professores deveriam ser agrupados por secções (secção 5.ª ' Ciências Físico-
Químicas e História Natural), devendo ser concedida, a cada secção, uma viagem
ao exterior de seis meses.
As relações entre Portugal e Espanha
É digno de realce o intercâmbio pedagógico que se realizou nessa altura entre
Portugal e Espanha, em particular porque vai permitir o estudo do ensino
secundário realizado em Portugal por Rubén Landa.
O interesse da Espanha pela evolução do sistema educativo português foi
confirmado pela deliberação do então ministro da Instrução Pública e Belas
Artes espanhol, Francisco Bergamín (1855-1937), em outubro de 1914, na qual
pedia informações sobre a educação em Portugal à Junta para Ampliación de
Estúdios da Instituición Libré de Enseñanza (ILE). Esta solicitação desencadeou
um estudo que ficou a cargo de Alice Pestana del Blanco (1860-1929), então
secretária da instituição, com o título La Education en Portugal (Pestana,
1915). Pestana era uma destacada feminista portuguesa que já tinha participado
no Congresso Hispano-português-americano de Pedagogia11 de 1892 (Leonardo et
al., 2009b; Machado, 1896b), apresentando uma comunicação intitulada O que deve
ser a instrução secundária da mulher? Foi aí que conheceu o pedagogo espanhol
Francisco Giner de los Rios (1839-1915), amigo pessoal de Bernardino Machado.
Quando, em 1898, Pedro Blanco Suarez, professor na ILE, escreveu a Bernardino
Machado, na altura professor da Faculdade de Filosofia da UC, revelando o seu
interesse pela questão feminista em Portugal, este último indicou-lhe o nome
dela. Em 1901, Suarez e Pestana casaram-se, tendo Machado por testemunha. Após
o matrimónio, esta rumou a Espanha onde ingressou, também, como professora da
ILE (Martinez, 1996, p. 101).
Apesar da proximidade geográfica entre os dois países, o intercâmbio educativo
entre Portugal e Espanha foi escasso durante todo o século XIX. Nos artigos d'O
Instituto não surgiram, nessa época, muitas referências ao ensino secundário
espanhol. Em 1866, António Santos Viegas (1835-1914), professor de Física na
Faculdade de Filosofia da UC e mais tarde presidente do IC, descreveu o
funcionamento das escolas secundárias espanholas, designadas por Institutos, no
seu primeiro relatório (Viegas, 1867) relativo à viagem científica que efetuou
nesse ano a instituições de ensino europeias para estudar o ensino experimental
da Física (Leonardo et al., 2009b). Os principais contactos luso-espanhóis
foram estabelecidos por professores conotados com o republicanismo, como
Bernardino Machado, Adolfo Coelho, Teófilo Braga e Alice Pestana. Esses
contactos privilegiaram a ILE, instituição espanhola considerada modelar no que
respeita ao estudo e concretização das novas correntes pedagógicas.
Inclusivamente, alguns artigos da autoria dos autores referidos foram
publicados no Boletín de la Institución Libré de Enseñanza (BILE): Pestana (27
artigos), Coelho (12 artigos) e Machado (8 artigos) (Hernandez Diaz, 1998, p.
304). Machado destacou em 1930, durante o seu exílio em Baiona, França, o
interesse da ILE sobre a evolução social e política em Portugal, afirmando:
A Institución Libre de Enseñanza era um centro cordial de
estreitamento dos laços de visinhança e d'amizade entre Portugal e
Espanha. ( ) A Institución converteu-se para mim numa segunda
família: creio ter hoje o decanado d'idade dos professores
honorários. ( ) Ali convivi de perto com as primeiras personalidades
da arte, sciência, pedagógia e política d'Espanha, todas cheias de
simpatia pelas nossas reivindicações democráticas (Hernandez Diaz,
1998, p. 313).
Após 1910, o interesse espanhol pela instrução pública portuguesa intensificou-
se. Na sua análise do estado da educação portuguesa, publicada em livro
(Pestana 1915), Pestana referiu a criação do Ministério da Instrução Pública,
em 7 de julho de 1913, e descreveu, em pormenor, a nova legislação e o
funcionamento das escolas do ensino primário, ensino técnico, ensino agrícola e
ensino superior. Dedicou também um capítulo à instrução secundária, onde expôs
as principais reformas, elogiando a que foi empreendida por Jaime Moniz e João
Franco, com enfoque na legislação em vigor (de 1905). Descreveu exaustivamente
o funcionamento dos quatro liceus de Lisboa (Pedro Nunes, Passos Manuel, Camões
e Maria Pia) elogiando o seu espaço físico, estrutura e organização, e dando
grande relevância aos novos métodos pedagógicos de ensino ativo, direto e de
trabalho individual dos alunos, aplicados às disciplinas científicas. Estas
novas metodologias só eram possíveis graças à qualidade de laboratórios e
gabinetes de ciência e materiais com que estavam apetrechados os liceus de
Lisboa. Pestana concluiu:
Todo esto parece indicar que el momento actual, de laboriosa
transformación, prepara a la generación venidera en Portugal una
segunda enseñanza que garantice el fortalecimiento de la raza y su
integración en el valor total de la civilización (Pestana, 1914, p.
91).
É, no mínimo, estranho verificar que um estudo semelhante não tenha sido
comissionado pelo governo português de então, optando-se antes por criar
"comissões de sábios", na maioria dos casos professores do ensino superior com
conhecimentos limitados do funcionamento dos liceus nacionais. Já em 1890
Adolfo Coelho tinha apresentado à Sociedade Portuguesa de Geografia um
"programa de um inquérito ao estado hodierno físico, moral, intelectual e
artístico do povo português, do qual devia ser dado lugar importante à
instrução pública" (idem), o qual, todavia, não foi levado a cabo.
Apesar dos vários contactos que republicanos portugueses estabeleceram com a
ILE, somos forçados a deduzir que o interesse espanhol pela instrução pública
portuguesa, especialmente na década de 1910, foi mais acentuado do que o
português pelo ensino espanhol. Uma razão para este facto terá a ver com algum
atraso do ensino em Espanha em relação a Portugal desde o início do século XX
até ao final da Primeira República portuguesa. Mas a isso acresceu uma certa
tendência anti-ibérica revelada por alguns pensadores portugueses da época
(Adão, 2003, p. 5). Esta situação derivou também do modo como as relações entre
os dois países eram transmitidas aos alunos desde tenra idade, fazendo-se crer
aos jovens que existia uma perigosa ambição de Castela em retomar a ideia de um
só estado ibérico (Hernandez Diaz, 1998, pp. 295-295). Este medo fundamentava-
se na fragilidade do regime republicano português, numa altura em que ele
procurava uma legitimação tanto nacional como internacional.
Rubén Landa e o ensino secundário em Portugal
Uma das mais completas análises do ensino secundário em Portugal durante a
Primeira República foi publicada n'O Instituto pela pena do espanhol Rubén
Landa Vaz (1890-1978) (Fernandes, cit. em Nóvoa & Berrio, 1993, p. 165).
Este pedagogo, filho de um espanhol e de uma portuguesa, cedo contactou com os
ideais da ILE, tendo lido durante a sua infância o Boletín de la Instituición
Libré de Enseñanza (BILE), que era assinado pelo seu pai. Após terminar o
ensino secundário, Landa ingressou na ILE em 1906, em Madrid, concluindo os
seus estudos em Filosofia e Direito em 1912, e doutorou-se em Direito.
A ILE era uma academia privada de ensino secundário e ensino superior, fundada
em 1876 por Francisco Giner12 e colegas, onde foram postas em prática ideias
reformadoras que o ensino oficial não tolerava (Jiménez-Landi, 1996; Mayoral,
2006, p. 77). No quadro do pensamento pedagógico subjacente à ILE, os alunos
não eram meros recetáculos de conhecimento, mas sim, e em primeiro lugar,
destinatários de uma formação como pessoas livres, e só depois como instruendos
a dotar com conhecimentos de matérias específicas. Para atingir este objetivo,
a espontaneidade e a criatividade deviam ser estimuladas nos alunos, a fim de
que eles fossem agentes ativos da sua aprendizagem. A educação devia ser
integral, desenvolvendo tanto o espírito como o corpo, devia ser neutra e
isenta no que respeita a correntes religiosas, filosóficas e políticas, devendo
ainda ser unificada, eliminando-se a sua divisão em etapas, e em conjunto para
rapazes e raparigas. Apostava-se também na colaboração da família no processo
educativo.
Tendo concluído os estudos, Landa ocupou vários cargos de responsabilidade na
ILE, como bolseiro, nomeadamente o de auxiliar da secretaria da Junta para
Ampliación de Estúdios e Investigaciones Científicas (JAE), criada em 1907 com
o objetivo de reformar a Universidade espanhola e promover um sistema de
bolseiros enviados ao estrangeiro para se formarem como professores e
investigadores. Habitava a Residência de Estudantes, criada em 1910 como um
colégio universitário. Para além destes centros, a ILE também proporcionou o
surgimento de outras instituições como: o Museu Pedagógico Nacional, fundado em
1882 para formar professores do ensino primário; o Centro de Estudos
Históricos, criado por decreto real em 1910; o Instituto-Escola, instituído em
1918 como uma escola totalmente concebida com base nos princípios pedagógicos
da ILE para crianças desde o infantário até aos 17 anos; e o Instituto Nacional
de Ciências Físico-Naturais, que, em 1910, incorporou instituições já
existentes como o Museu Nacional de Ciências Naturais, o Museu de Antropologia,
o Jardim Botânico Real e o Laboratório de Investigações Biológicas, entre
outros (idem, pp. 87-92). A JAE terá influenciado, em Portugal, a fundação de
uma instituição similar, apenas concretizada em 1929 com a criação da Junta de
Educação Nacional (mais tarde chamada Instituto para a Alta Cultura).
Rubén Landa foi enviado a Portugal, em 1918, com o estatuto de bolseiro. A sua
escolha para vir ao nosso país teve por base não só a sua fluência na língua
portuguesa, mas também as suas ligações familiares a Portugal (que já havia
visitado em várias ocasiões). Resultou também, segundo o próprio, da leitura do
livro de Pestana (que foi também sua professora) sobre o ensino em Portugal.
A investigação que Landa realizou em Portugal destinava-se a obter o
certificado de proficiência que lhe daria acesso a cadeiras de âmbito restrito.
Anexa à sua candidatura, numa pequena nota, Landa resumiu assim a sua viagem:
Duração: de 10 de maio a 29 de julho de 1918;
Estabelecimentos visitados: Liceus de Passos Manuel, Pedro Nunes,
Camões, Gil Vicente e Maria Pia, Colégio Militar, Escola Normal
Superior, Casa Pia, Faculdade de Letras, Jardim-Escola João de Deus,
Escola Pública da Tapada da Ajuda (estes em Lisboa); Liceu de
Coimbra, Escola Nacional de Agricultura e Universidade (em Coimbra);
Liceu de Évora e Casa Pia (em Évora); Liceu de Santarém e Liceu de
Leiria.
Contactos estabelecidos: João de Barros (Chefe da Secretaria Geral do
Ministério da Instrução), Fidelmio de Figueiredo (director da
Biblioteca Nacional), Queiroz Veloso (director da Escola Normal
Superior de Lisboa e chefe da Secção de Ensino Universitário do
Ministério), Adolfo Coelho, José Leite de Vasconcelos, e Manuel
d'Oliveira Ramos (professores da Faculdade de Letras de Lisboa e da
Escola Normal Superior), António Sérgio (professor e publicista),
Xavier d'Acunha (antigo director da Biblioteca Municipal), Braga
Paixão (secretário do Ministério da Instrução Pública), Mendes dos
Remédios (Reitor da UC) e Eugénio de Castro (professor da UC) (idem,
pp. 116-117).
Rubén Landa apresentou uma memória à JAE intitulada Estado atual de la segunda
enseñanza en Portugal(Landa, 1922). Esta, com algumas reformulações e incluindo
dados relativos à nova legislação, que ia até ao plano de estudos aprovado em
18 de junho de 1921, foi publicada n'O Instituto a partir de 1927 (Landa,
1927). Em 1925, Landa esteve presente no congresso conjunto das Associações
Portuguesa e Espanhola para o Avanço das Ciências, realizado em Coimbra de 14 a
19 de junho, onde apresentou uma conferência sobre o ensino secundário em
Portugal, integrada na 6.ª secção das ciências históricas, filosóficas e
filológicas.
Logo na primeira página do seu artigo, Landa elogiou o ensino secundário
português, o qual, segundo ele, apresentava na altura resultados melhores do
que o espanhol. Demonstrou, desta forma, a necessidade de melhor conhecer o
ensino em Portugal, um país tão próximo na história e na geografia e numa
situação tão semelhante à espanhola que exigia, tal como o país vizinho, "su
incorporación á la corriente de la cultura europea" (Landa, 1927, p. 44).
Referiu, inclusivamente, que algumas novas instituições espanholas tinham sido
inspiradas no exemplo português, como o Protetorado del niño delicuente'
fundado por Alice Pestana (idem, p. 45).
O atraso da instrução secundária em Espanha foi relatado no discurso do
Ministro da Instrução Pública, José de Prado y Palacio, no congresso de Bilbau
da Associación Española para el Progresso de las Ciencias', proferido em
setembro de 1919, onde este referiu o seu caráter marcadamente universitário e
clássico. Neste discurso, publicado n'O Instituto, Palacio defendeu, também, o
envio de pessoal docente ao estrangeiro, em particular os professores mais
jovens, para que estudassem as instituições de ensino secundário (Prado y
Palacio, 1919, p. 528), e salientou a importância do ensino científico, opondo-
se àqueles que "no entienden que un descubrimiento científico puede ejercer los
más importantes efectos en sus negócios" (idem, p. 533).
No artigo de Landa, seguiu-se uma descrição da história do ensino secundário em
Portugal, desde a fundação do país até 1921, com destaque para a reforma de
1894-95 que, apesar de alguns defeitos pontuais ' nomeadamente: o
"esquecimento" ao nível da formação de professores; a redução da liberdade dos
professores, que ficaram sujeitos a um regime com muitos preceitos legais que
tinham de cumprir; o predomínio do caráter clássico; a ausência da educação
física, do canto e dos trabalhos manuais; e a proibição das associações
escolares ', foi considerada muito meritória, tendo a "virtud de rehabilitar la
enseñanza oficial que tan desprestigiada estaba ante la opinión pública"
(Landa, 1927, p. 83).
A parte essencial do artigo é a descrição, com algum pormenor, do modo como
eram ministradas as aulas e o respetivo funcionamento dos liceus, dando
particular ênfase ao Liceu Pedro Nunes, como, de resto, já havia feito Pestana.
Refira-se que os Liceus Pedro Nunes e Passos Manuel eram os mais modernos em
Portugal, tendo os respetivos edifícios sido inaugurados em 191113. Landa
dedicou um pequeno texto a cada área do ensino, expondo nele as suas conclusões
após ter assistido a várias aulas. Referimos aqui apenas a lecionação da Física
e da Química.
Landa confirmou que, no curso geral, o ensino das ciências era essencialmente
prático, realizando o professor várias experiências diante dos alunos. De
acordo com o programa de 1905 para a disciplina de Ciências Físicas e Naturais,
ainda em vigor em 191814, o estudo da Física iniciava-se no 3.º ano de
escolaridade (3.ª classe), tendo por objetivo familiarizar o aluno com a
observação dos fenómenos físicos e proporcionar conhecimentos acerca do
manuseamento de instrumentos e aparelhos usados na economia doméstica e
industrial. Nas classes seguintes (4.º e 5.º anos) a Física tornava-se
descritiva, incluindo noções teóricas sobre as transformações energéticas,
descrevendo-se os factos para se induzirem as leis, mas sem entrar em grandes
explicações teóricas a prioribaseadas em cálculos e procurando sempre revestir
os conteúdos de um caráter experimental e prático. A Química iniciava-se também
na 3.ª classe com algumas noções elementares, o estudo elementar de gases, do
ar e água, e experiências com aparelhos simples, iniciando-se os alunos no
manuseamento do material do laboratório, dando-se continuidade a estas
atividades nos anos seguintes. Na 5.ª classe introduzia-se a química orgânica.
No curso complementar, o ensino científico era o que tinha "alcanzado una
realización más perfecta" (idem, p. 209). Na disciplina de Física, estavam
previstas uma revisão geral e síntese dos conteúdos lecionados, com a resolução
de problemas teóricos e exercícios práticos. Na Química, introduzia-se no 6.º
ano a hipótese atómica e a determinação de pesos atómicos e moleculares,
surgindo no 7.º ano a geometria molecular e a química orgânica. Para além das
aulas expositivas, lecionadas sempre com base em objetos ou experiências, os
alunos tinham uma hora e meia semanal dedicada aos trabalhos práticos
individuais de Física, Química, História Natural e Geografia, oficialmente
instituídos em 191415. Segundo Landa, os alunos demonstravam muito interesse
por eles, pedindo, com frequência, autorização para trabalhar nos laboratórios
em períodos fora das horas regulamentadas (idem). No Liceu Pedro Nunes existia
um laboratório destinado ao ensino da Física, uma sala de eletricidade, um
anfiteatro com mesa para experiências (seguindo o modelo alemão) e uma pequena
oficina para reparações; para o ensino da química havia laboratórios, um
anfiteatro disposto para a realização de experiências e uma sala de fotografia.
Todas as instalações estavam adequadas ao trabalho dos alunos e os aparelhos
eram simples, permitindo aos alunos entender o seu funcionamento e o seu modo
de manipulação. Era estimulado o trabalho em grupo, incitando os alunos a
adotar uma postura ativa na sua aprendizagem.
O Liceu Pedro Nunes possuía também uma associação escolar muito ativa, com
pequena ou nenhuma intervenção do corpo docente, que tinha uma secção literária
e científica dedicada a organizar "lecturas, conferencias, discusiones
cientificas y publicationes" (idem, p. 437). No final de cada ano era realizada
uma exposição escolar, aberta a toda a comunidade local, onde os alunos exibiam
e explicavam aos visitantes e familiares os trabalhos realizados ao longo do
ano. Os restantes liceus visitados por Landa apresentavam um funcionamento
semelhante, apesar de aparentarem menor dinamismo. Os liceus de província,
incluindo os de Coimbra e Porto, eram inferiores aos de Lisboa, nomeadamente
devido ao facto de os seus edifícios não estarem adaptados às exigências do
trabalho experimental (idem, p. 444). O artigo de Landa termina com um anexo
(Tabela 2) elencando os trabalhos práticos do curso complementar nos liceus de
Lisboa.
Tabela 2
Como já foi referido, Landa examinou também algumas das reformas que ocorreram
nos anos seguintes à sua visita, que foram incluídas no artigo publicado n'O
Instituto, nomeadamente a reforma de 1919, que se seguiu à de Sidónio Pais e
apenas afetou a distribuição das disciplinas no ensino secundário, mantendo as
linhas gerais da reforma anterior. As Ciências Físico-Naturais no curso
complementar de Letras foram substituídas pela Matemática e no curso geral, a
partir da 3.ª classe, voltou a existir uma só disciplina de Ciências Físico-
Naturais (juntando as Ciências Físico-Químicas e as Ciências Naturais) (idem,
pp. 221-222). A 18 de junho de 1921, um novo decreto estabeleceu um novo
regulamento da instrução secundária, contendo pequenas alterações no plano de
estudos. Landa realçou algumas determinações, designadamente os artigos 23.º e
24.º, segundo as quais, no exame de ingresso, fosse exigida uma leitura correta
assim como uma boa análise do sentido das palavras e das frases. Até ao termo
da I República, em 1926, nada mais se legislou sobre o ensino secundário.
Em 1921, a JAE atribuiu a Landa um novo subsídio para estudar o ensino
secundário em França e Inglaterra. Em 1922, Landa enviou um primeiro relatório
de França, onde mencionou as discussões então em voga sobre o ensino clássico e
o ensino moderno e salientou a importância de uma escola única, acessível a
todas as classes sociais. Nunca chegou a elaborar qualquer artigo sobre o
ensino secundário na Inglaterra. Em 1939, com o fim da guerra civil espanhola
(1936-39), exilou-se no México, nunca mais regressando à Península Ibérica.
Apesar de na revista O Instituto não existirem referências ao trabalho de
Pestana, o artigo de Landa mereceu o devido destaque, sendo inclusivamente
editado em separata. Também Giner publicou um artigo nesta revista e Bernardino
Machado dedicou uma memória à Escola Nueva/ILE (Machado, 1896a).
Comparativamente, nas revistas espanholas que se dedicavam à educação,
publicadas no período estudado, para além da referida BILE, com 53 estudos de
autores portugueses, apenas a La Revista Crítica de Historia y Literatura
españolas, portuguesas e hispano-americana contém referências aos problemas da
instrução pública em Portugal. Nas restantes, este tema encontra-se
praticamente ausente (Hernandez Diaz, 1998, pp. 300-304).
A partir de 1928 reduziu-se significativamente o número de artigos dedicados à
instrução pública na revista O Instituto. Apesar de não transparecerem
quaisquer dados sobre censura prévia, a larga maioria dos professores que
ocupavam lugares nos corpos diretivos do IC estavam conotadas com o Estado
Novo, pelo que haveria decerto algum cuidado em publicar artigos que
contivessem críticas às reformas educativas do novo regime. Assim se poderá
explicar que as profundas reformas realizadas a partir de 1926 não tenham
merecido qualquer menção nas páginas d'O Instituto. Os tempos eram de forte
condicionamento à liberdade de expressão, quer nos jornais académicos, através
da seleção dos académicos, quer nos jornais não académicos.
Considerações Finais
A revolução republicana, embora não tenha produzido alterações, no imediato, na
instrução secundária, teve uma enorme repercussão no ensino em Portugal, com a
instituição das Escolas Normais Superiores de Lisboa e Coimbra, em 1911, para a
formação da classe docente. Passaram a coexistir nos liceus nacionais três
tipos de professores: os mais antigos, que careciam de formação pedagógica;
aqueles que, por sua iniciativa, tinham adquirido formação ao longo dos vários
anos de prática; e os que se haviam formado numa Escola Normal Superior.
Segundo Landa, os segundos seriam, na altura, os melhores, em resultado da
falta de experiência demonstrada pelos últimos (Landa, 1927, p. 203).
A demora em intervir no ensino secundário não será alheia à qualidade atingida
com as reformas de Jaime Moniz de 1884/85 e com a reforma de 1905. Destarte, os
programas de 1905 mantiveram-se até 1918 (Programas dos Liceus, 1914). É, no
entanto, essencial enfatizar a introdução dos trabalhos práticos individuais no
curso complementar, uma medida pedagogicamente revolucionária e que cumpria os
objetivos de um ensino livre e ativo.
No que respeita à Física e Química, o seu ensino no regime republicano (desde
1905) foi marcadamente experimental e de caráter utilitário, repudiando-se a
instrução "memorista" e "livresca" (Valente, 1973, p. 83). Esta asserção é
facilmente corroborada pela análise do programa de trabalhos práticos do curso
complementar, no qual, para além de atividades experimentais para consolidar
aspetos teóricos tratados nas aulas, surgem outros em que se privilegia a
aquisição de competências, pelos alunos, para realizarem atividades no
quotidiano tais como ligar fios elétricos, telefonar, telegrafar, usar
geradores e motores elétricos, detetar falsificações em géneros alimentares,
determinar o teor alcoólico do vinho, etc.
Não será difícil concordar com o elogio de Landa, que considerou muito bom o
ensino científico no curso complementar de 1918, onde era estimulada a
iniciativa individual dos alunos e a sua participação ativa na aprendizagem
através da realização, de forma autónoma, de trabalhos práticos e a sua
apresentação ao público numa exposição final. Convém, porém, acentuar que o
número de alunos de então era extremamente reduzido, medido em percentagem da
população juvenil, estando quase limitado a jovens provenientes das famílias
mais abastadas, uma classe social reduzida. Em 1920 estavam matriculados nos
liceus portugueses 10.159 estudantes (7697 alunos e 2462 alunas) ' o que
correspondia a menos de 4% da população escolar16 ', um número que, apesar de
diminuto face aos padrões europeus da época, se pode considerar resultado de
uma evolução positiva, pois em 1900 havia apenas 2868 alunos (Valente 1973, p.
101). O ensino secundário português, neste período, poderia, nalguns
estabelecimentos mais avançados, ser moderno do ponto de vista pedagógico, mas
era para muito poucos. Havia ainda grande espaço para desenvolvimentos futuros,
que infelizmente foram mais lentos do que seria de desejar.