Brotar Educação: História da Brotéria e da Evolução do seu Pensamento
Pedagógico (1902-1996)
Nota de Leitura
Franco, José Eduardo (1999). Brotar Educação – História da Brotéria e da
Evolução do seu Pensamento Pedagógico (1902-1996). Lisboa: Roma Editora, 498
pp.
Esta obra reveste um inegável interesse na história da pedagogia e das ideias
pedagógicas em Portugal, uma vez que a Brotéria é uma revista importante do
panorama educativo e cultural português, que conta já com mais de cem anos de
publicação. Como refere o professor Luís Archer em um dos prefácios nela
incluídos no livro em apreço, "Quase cem anos volveram sobre o lançamento
da revista Brotéria. Iniciada em 1902, viveu os tempos da Monarquia, da Iª
República, do Estado Novo, do Socialismo pós-25 de Abril e da Democracia. Ao
longo de épocas tão desencontradas, com pessoas e estratégias tão diferentes,
foi sempre um só o anseio da Revista: servir a cultura e a ciência numa
perspectiva cristã" (p. 17). Fundada por J. S. Tavares, C. Mendes e C.
Zimmermann, em momento algum deixou de ser dirigida por homens consagrados da
Companhia de Jesus, cuja influência na educação e na cultura em Portugal e no
mundo se reveste de uma extrema importância.
A mentalidade pedagógica e cultural de finais do século XIX e inícios do século
XX, essencialmente laica e de ataque cerrado aos interesses das Congregações
religiosas, que ganhou uma força nova com o dealbar da República em 1910, um
pouco atenuada no Estado Novo e novamente acirrada no período pós-
revolucionário de 1974, fazem ainda hoje clamar a muitos intelectuais, como fez
Antero de Quental e tantos outros em tempos passados, que o atraso de Portugal
é em grande parte devedor da excessiva influência jesuítica, nomeadamente do
ensino e instrução pelo qual, em várias fases, foram os máximos responsáveis.
Ao longo dos tempos, a designada sociedade civil tem sido levada a acreditar
que, se não fossem os jesuítas, Portugal teria tido uma pedagogia
verdadeiramente moderna e, consequentemente, teria caminhado lado a lado, com
os outros países europeus, até aos níveis de desenvolvimento que hoje
invejamos.
Esta obra que é o resultado da dissertação de mestrado em História da Educação/
Educação Comparada, apresentada à Faculdade de Psicologia e Ciências da
Educação da Universidade de Lisboa em 1997 pelo seu autor, contou com a devida
orientação do Professor António Nóvoa e traz para um domínio mais vasto as
ideias pedagógicas e a sua evolução, plasmadas na Brotéria, mesmo que, como
recorda no prefácio o professor António Nóvoa "os artigos sobre educação,
ensino e pedagogia não ultrapassem cerca de 6% do corpus da revista […] são
particularmente importantes para o seu estudo e para a compreensão do
pensamento pedagógico no século XX" (p. 15).
Esta obra, para além dos dois prefácios já citados, conta com uma introdução
onde se explica o objecto da investigação e a metodologia a seguir.
O essencial da investigação ocupa duas partes: a primeira intitulada Ensaio de
história da imprensa, onde se conta a génese e a evolução da Brotéria, dando-se
a conhecer toda a problemática que envolveu o seu surgimento. O leitor fica
assim a saber que o primeiro volume desta revista saiu em 1902 e tinha como
título Brotéria — Revista de Sciencias Naturaes do Collegio de S. Fiel, sendo,
por isso, a sua primeira fase dominada pelas questões científicas, fase esta
que se manteve durante cinco anos (cf. p. 55 ss.). Como o público português de
então era esmagadoramente inculto e ignorante, pouco ou nada aderiu às questões
científicas e então, os seus directores "ao entrar no sexto ano dividiram
as matérias tratadas na Brotéria em três grandes secções ou séries
independentes. Duas delas conservaram o carácter de especialização, publicando
artigos originais: a "Série Botânica" e a "Série Zoológica"
[…]. A terceira "Série de Vulgarização Científica" passou a publicar
artigos na área da física, química, fisiologia, micrologia, microbiologia,
arboricultura, história das ciências naturais em Portugal e outros assuntos ao
alcance das pessoas de cultura média" (pp. 61-63).
Estas modificações editoriais mantiveram-se até 1925, altura em que a
"Série de Vulgarização Científica" passa a incorporar no seu título a
tríade "Fé-Ciência-Letras", 2ª série, cognominada Série Cultural (cf.
p. 69 ss.), que desde então e até à actualidade sofreu pequenas alterações no
sub-título e que a partir de 1936 começou a imprimir temas diversificados
ligados à política, à economia, à arte…
Foi, ainda, a Brotéria que, no ano de 1945, lançou as bases da Revista
Portuguesa de Filosofia, sedeada no Instituto de Filosofia a funcionar na
cidade de Braga e que ao longo dos seus anos de existência tem inserido em
diversos números textos dedicados à problemática do ensino e da educação.
O segundo grande título desta parte designa-se A Função Pedagógica e o lugar da
reflexão educativa na Brotéria. Neste ponto ficamos a saber que, pese o facto
de a educação e o ensino ocuparem cerca de 6% na totalidade dos artigos
inseridos na Série de Vulgarização Científica e na Série Cultural da Brotéria,
os mesmos, para além de outros méritos, permitem "aceder a uma compreensão
bastante representativa e qualificada de alguns aspectos significativos da
evolução da orientação pedagógico-educativa do pensamento católico ao longo do
século XX" (p. 116).
Ao longo desta investigação também ficamos a saber que "à medida que as
ciências pedagógicas se foram afirmando na sociedade e na cultura portuguesa, a
Brotéria começou a conceder um lugar habitual à produção da reflexão
pedagógica" (p. 117).
Na segunda parte, então, o autor analisa a Evolução do Pensamento Pedagógico da
Brotéria, tratando, num primeiro ponto, da inserção desta revista no quadro do
pensamento pedagógico católico e jesuítico, realçando que o interesse da Igreja
e dos Jesuítas pelas questões pedagógicas surgiu como uma reacção natural à
progressiva laicização do ensino e da educação no mundo moderno e contemporâneo
e tinha como objectivo tornar visível a um público cada vez mais vasto os
pilares da pedagogia cristã.
A seguir, em nove pontos, são analisadas e esquematizadas as diversas áreas
temáticas ligadas à educação e ao ensino que a Brotéria consagrou, a saber: 1.
Pensar a escola e a pedagogia escolar (p. 143 ss); 2. História da educação (p.
162 ss); 3. Pedagogia missionária (p. 176 ss.); 4. Teoria da educação/reflexão
pedagógica (p. 193 ss.); 5. Ensino particular (p. 212 ss.); 6. Educação de
fronteira (p. 226 ss.); 7. Reformas do ensino (p. 243 ss.); 8. Ensino das
humanidades clássicas (p. 261 ss.); 9. Ética e educação (p. 273b ss.). Em cada
área o autor resume os seus propósitos, fazendo uma análise sistemática dos
artigos aí inseridos, dando-nos, também, a conhecer os seus autores. É de
destacar que estas áreas vêm contando com a impressão de trabalhos de
especialistas não consagrados, mas de reconhecido mérito no panorama
pedagógico-educacional português, tais como Miller Guerra, Pedro d’Orey da
Cunha, Joaquim Gomes Ferreira, Manuel Ferreira Patrício, Roberto Carneiro,
entre outros.
Para lá da conclusão e da extensa bibliografia, esta obra contém, ainda, dois
anexos: o Anexo I onde se inserem as biografias pedagógicas (cf. pp. 353-480)
dos directores da Brotéria, 11; dos pedagogos jesuítas, 17; dos pedagogos
leigos, 11, contendo, ainda, uma série de gráficos que plasmam a análise
quantitativa dos articulistas de educação/pedagogia/ensino (cf. pp. 471-480).
No Anexo II (pp. 481-491), dá-se notícia de outras revistas internacionais da
Companhia de Jesus.
A História da Pedagogia e das Ideias Pedagógicas em Portugal, não pode ser
feita sem um profundo conhecimento, ao longo dos tempos, do ideário pedagógico
que se impôs na formação da mentalidade portuguesa. Neste campo, este é um
trabalho de um interesse extremo. Com a sua divulgação queremos, também,
alertar os investigadores das ciências da educação para a cada vez maior
necessidade de conhecer o passado das nossas ideias pedagógicas, guindá-las
para a actualidade e com elas reconstruir um ideário pedagógico de interesse
nacional, que simultaneamente inclua a tradição e seja capaz de antecipar o
futuro. Como Séneca fazia saber há muitos séculos atrás, "A vida é muito
curta para aqueles que se esqueceram do passado, negligenciam o presente e
receiam o futuro". Da minha parte, não gostaria de contribuir para
encurtar a vida colectiva do nosso povo no ostensivo esquecimento da sua
história e das bases da sua pedagogia.
Artur Manso
Universidade do Minho
Centro de Investigação em Educação
Instituto de Educação
Universidade do Minho - Campus de Gualtar
4710 Braga - Portugal
rpe@iep.uminho.pt