Emoções em contexto académico: Relações com clima de sala de aula, autoconceito
e resultados escolares
Introdução
A compreensão do processo educativo envolve não só a análise de práticas,
estratégias e ambientes de aprendizagem, mas também de aspetos motivacionais e
afetivos. Neste sentido, o estudo das emoções em contexto académico permite
introduzir mais uma vertente de análise que poderá conduzir a uma melhor
compreensão da complexidade dos processos envolvidos já que as emoções,
decorrendo das interações desenvolvidas, poderão ser indicadores importantes
das motivações e cognições subjacentes (Meyer & Turner, 2006).
Segundo Schutz, Hong, Cross e Osbon (2006) as emoções são construídas
socialmente e ativadas pessoalmente. A construção social resulta do facto de
não existirem como caraterísticas exclusivas de uma pessoa ou de um meio, pois
implicam uma transação entre pessoa-meio que, por sua vez, conduzirá a uma
ativação pessoal de uma determinada forma emocional de estar. Estas transações
pessoa-meio ocorrem durante tentativas de se atingirem objetivos, em diversos
tipos de atividades. Assim, para se compreenderem as emoções, elas têm de ser
analisadas face ao contexto de atividade onde as interações pessoa-meio
ocorrem, devendo as experiências emocionais, ser vistas de um modo holístico
considerando aspetos diversos tanto fisiológicos, como psicológicos ou
comportamentais. As emoções podem assim ser consideradas 'formas de
estar' resultando dos julgamentos de sucesso, mais ou menos conscientes,
face aos objetivos a atingir e às crenças dos sujeitos nos contextos
específicos onde decorrem as transações (Schutz et al., 2006).
Ao longo dos anos, as emoções foram o objeto de estudo das mais variadas áreas
científicas desde a Filosofia, à Psicologia, Sociologia, Antropologia entre
outras (Schutz & DeCuir, 2002). Apesar de ser unânime a ideia de que as
emoções se encontram presentes no dia-a-dia, até há pouco tempo não eram muitos
os estudos que se referiam às emoções no meio escolar, com exceção dos
direcionados para a ansiedade em situação de teste (Pekrun, Frenzel, Goetz,
& Perry, 2007; Weiner, 2007). Contudo, nos últimos anos, tem havido um
crescente interesse na investigação sobre o papel das emoções na educação,
sendo analisadas considerando os diferentes intervenientes e relacionando-as
tanto com as tarefas escolares como com os contextos e as relações
interpessoais aí estabelecidas (e.g., Goetz, Cronjaeger, Frenzel, Lüdtke, &
Hall, 2010; Pekrun, Elliot, & Maier, 2009; Schutz & DeCuir, 2002).
Entre estes contextos o mais frequentemente abordado é a sala de aula onde
professores e alunos podem experienciar diferentes emoções dependendo da
natureza da atividade específica e das transações aí estabelecidas.
Pekrun, Goetz, Titz e Perry (2002) consideram que o contexto escolar se assume
com uma grande importância para professores e alunos, não só pelo muito tempo
que lá passam e pelas relações que aí estabelecem, como também por ser central
para os objetivos académicos e de vida dos estudantes e professores (Pekrun et
al., 2007). Assim, os contextos educativos são marcados por intensas vivências
emocionais reconhecidas por diferentes autores como capazes de influenciar
processos de ensino e de aprendizagem, o desenvolvimento pessoal, a motivação e
a autorregulação (Pekrun et al., 2002, 2007; Pekrun, Elliot, & Maier, 2006;
Schutz & DeCuir, 2002; Schutz & Lanehart, 2002; Schutz et al., 2006).
Emoções em contexto escolar
Segundo Pekrun e colaboradores (Pekrun, 2006, 2009; Pekrun et al., 2007;
Pekrun, Goetz, Frenzel, & Perry 2011) muitas das emoções vivenciadas em
contexto académico são emoções de realização pois estão diretamente
relacionadas com atividades de realização ou com os resultados decorrentes
dessas atividades, que vão ser julgados e avaliados face a determinados padrões
de qualidade. De forma a analisar os antecedentes e os efeitos das emoções de
realização em ambientes académicos, Pekrun (2006, 2009) propõe a teoria de
controlo-valor que apresenta uma estrutura integrativa ao incorporar os
pressupostos de diferentes abordagens às emoções em contextos de realização,
pois considera que estes se complementam e que podem assim, permitir uma visão
mais integrada e abrangente desta problemática (Pekrun et al., 2007). A teoria
de controlo-valor de Pekrun e colaboradores (Pekrun, 2006, 2009; Pekrun et al.,
2007, 2011) apresenta uma constituição tridimensional na forma como agrupa as
emoções de realização. Assim, para além de contemplar uma dimensão referente ao
seu foco (atividade vs. resultado), considera ainda a distinção face à sua
valência (positiva vs. negativa ou agradável vs. desagradável) e ao seu grau de
ativação (ativa vs. desativa).
Esta teoria considera que as emoções específicas que os sujeitos vivenciam
dependem, da perceção do controlo ou falta dele face às atividades e resultados
que são considerados importantes. Deste modo, as avaliações de controlo e de
valor são consideradas os determinantes diretos das emoções. Para além destes,
são equacionados outros níveis de determinantes mais indiretos que estão
ligados a aspetos diversos como o tipo de crenças e objetivos do sujeito, as
suas caraterísticas genéticas e de personalidade e as interações na sala de
aula e relações sociais (Pekrun et al., 2007).
Segundo os autores, esta teoria diferencia-se das posições mais tradicionais
pois considera que as emoções, determinadas pelo controlo e valor, são
específicas a cada domínio e não são traços gerais de personalidade (Pekrun et
al., 2007).
Clima de sala de aula e emoções
O ambiente de aprendizagem da sala de aula pode ser analisado e caraterizado a
partir de diferentes perspetivas e facetas. Estas passam pelos aspetos
materiais e físicos, mas ultrapassam-nos pois, sendo estes contextos
marcadamente relacionais, levam a que as relações com o saber e a sua
apropriação sejam muitas vezes mediadas por interações com os outros, quer eles
sejam pares ou professores. Assim, para se compreender o ambiente da sala de
aula, para além da observação direta das suas várias facetas, é importante
considerar as perceções de professores e alunos (Frenzel, Pekrun, & Goetz,
2007). Esta ênfase nas perceções subjetivas dos ambientes de aprendizagem está
presente na definição de clima de sala de aula referida por Abrami e Chambers
(1994) onde este é considerado como o conjunto de atitudes generalizadas,
respostas afetivas e perceções relacionadas com os processos desenvolvidos na
sala de aula. Deste modo, para além da componente descritiva destaca-se uma
componente valorativa e afetiva a considerar nas perceções dos ambientes de
aprendizagem. Direcionando-se especificamente para esta componente afetiva, a
teoria de controlo-valor procura caraterizar as emoções associadas aos
contextos de aprendizagem (e.g., Pekrun, 2006, 2009; Pekrun et al., 2007).
Segundo esta teoria, o impacto dos ambientes de aprendizagem nas emoções de
realização é mediado pelas avaliações de controlo-valor, considerando-se que os
fatores do meio que afetam as avaliações dos estudantes são importantes para as
suas emoções. Neste sentido, a qualidade cognitiva dos ambientes de
aprendizagem e objetivos subjacentes, aliados ao desafio, estruturação dos
conteúdos e interesse que estes despertam, vão influenciar o valor atribuído à
matéria a aprender, assim como às suas competências e perceção de controlo,
aspetos que são determinantes para as emoções específicas experienciadas em
cada momento e contexto (Pekrun et al., 2002, 2007). Através de diferentes
meios, incluindo mensagens verbais e não-verbais, decorrentes das interações em
geral e com outros significativos, os ambientes moldam os interesses e valores
que estão subjacentes às emoções (Pekrun et al., 2007). Também o suporte à
autonomia ou o controlo da aprendizagem do aluno, assim como as expetativas e
objetivos de realização subjacentes aos ambientes de aprendizagem e as
interações estabelecidas com outros significativos, podem ser fatores que
interferem com as avaliações de controlo-valor dos estudantes e
consequentemente condicionar as emoções vivenciadas (Pekrun et al., 2002).
Meyer e Turner (2002) consideram que ambientes que levem os alunos a sentir
confiança, a serem perseverantes e curiosos, levam-nos geralmente a evidenciar
perfis emocionais mais positivos. Contudo, segundo os autores, um outro aspeto
central para as emoções percecionadas na sala de aula é o suporte afetivo do
professor, tanto nas primeiras aulas, como nas interações ao longo do ano
letivo. Para Meyer e Turner (2002) é impossível, nos processos de ensino na
sala de aula, separar as emoções, das cognições e das motivações, considerando
ainda que a consistência ou ambivalência do suporte emocional ao longo do tempo
é um elemento central para o clima de sala de aula. O clima afetivo vai
enquadrar o processo de avaliação, o estabelecer de objetivos, a escolha de
estratégias e o início da ação. Ambientes de sala de aula positivos e
considerados motivantes refletem, em grande parte, experiências emocionais
positivas decorrentes, entre outros aspetos, do suporte emocional prestado e de
interações verbais que demonstrem apoio e interesse (Meyer & Turner, 2002).
Vão neste sentido os resultados do trabalho de Abril e Peixoto (2012) onde se
encontraram associações entre a perceção do suporte do professor e dos colegas
e as emoções vivenciadas, verificando-se associações positivas com o Orgulho e
negativas com a Vergonha, o Aborrecimento, o Desânimo ou a Zanga.
Emoções e autoperceções
Uma vez que as avaliações sobre o controlo e o valor são consideradas como
antecedentes diretos das emoções de realização, decorre da teoria de controlo-
valor que as crenças relacionadas com o controlo, como é o caso do
autoconceito, podem afetar essas avaliações e consequentemente as emoções
(Pekrun et al., 2007). Assim, se um aluno desenvolve perceções favoráveis de
controlo sobre os seus resultados numa disciplina, isso pode levá-lo a
considerar as tarefas desafiantes como exequíveis e a desenvolver emoções
positivas. Deste modo, as perceções de competência pessoal ou controlo
académico, encontram-se relacionadas com as experiências emocionais no domínio
académico (Pekrun et al., 2007). Depreende-se que, quando os alunos apresentam
altos níveis de controlo percebido, apresentarão também emoções positivas
(e.g., satisfação, esperança e orgulho). Inversamente, quando apresentam baixos
níveis de perceção de controlo pessoal verificar-se-ão emoções negativas (e.g.,
ansiedade, zanga e desespero) (Pekrun et al., 2007).
Tal como vimos anteriormente, as perceções de controlo são influenciadas também
pelas dinâmicas interativas desenvolvidas na sala de aula, podendo estas
determinar as emoções sentidas. Neste sentido, Cubero e Moreno (1990) salientam
que o comportamento ou as expetativas que o professor demonstra perante o
aluno, e a perceção destes por parte do aluno, se revelam como determinantes
para o autoconceito. Assim, uma atitude por parte do professor que demonstre
uma alta expetativa sobre o desempenho e êxito, promove no aluno uma maior
confiança em si mesmo e leva à redução da ansiedade perante situações de
potencial fracasso (Cubero & Moreno, 1990). Pelo contrário, uma atitude de
desconfiança sobre as capacidades do aluno e/ou surpresa no seu êxito,
fomentará no aluno sentimentos de insegurança e incapacidade associados a
emoções negativas. Também a autoestima surge ligada a muitos estados
emocionais, verificando-se que os sujeitos que apresentam uma elevada
autoestima, tendem a sentir-se seguros e a ter uma visão positiva de si mesmos,
apresentando mais emoções positivas (Greenwald, Belleza, & Banaji, 1988;
Harter, 2012; Leary, Tambor, Terdal, & Downs, 1995). Já os sujeitos que
apresentam uma baixa autoestima, tendem a manifestar um sentimento de
insegurança sobre de si mesmos e a ter uma visão negativa de si próprios,
apresentando mais emoções negativas. Este tipo de associações foi evidente no
trabalho de Abril e Peixoto (2012) com um grupo de estudantes de 7º e 8º anos
de escolaridade onde se encontraram associações significativas entre as emoções
percecionadas pelos estudantes e a sua autoestima, com a autoestima a
relacionar-se positivamente com o Orgulho e negativamente com o Aborrecimento,
a Zanga, a Vergonha, o Desânimo e a Ansiedade.
Emoções e desempenho académico
Pekrun et al. (2002) consideram que os efeitos das emoções sobre os resultados
dos estudantes são bastante complexos pois dependem de diferentes mecanismos
motivacionais e cognitivos e das interações entre estes mecanismos e os pedidos
face à tarefa. Para uma melhor compreensão destas associações seria necessária
investigação sistemática e consistente o que, segundo os autores, não existe,
sendo esta muitas vezes direcionada somente para o estudo das relações entre
ansiedade e desempenho (Pekrun et al., 2009).
Apesar desta complexidade, é possível identificar algumas caraterísticas sobre
o tipo de associações encontradas (Daniels et al., 2009; Pekrun et al., 2002,
2009). Globalmente verifica-se que as emoções positivas de ativação (e.g.,
prazer, orgulho) podem afetar positivamente o desempenho, pois fortalecem a
motivação e promovem a aprendizagem (Daniels et al., 2009; Pekrun et al., 2002,
2009). Em contraste, emoções negativas de desativação (e.g., Aborrecimento,
Desânimo) podem ter um efeito contrário no desempenho e na aprendizagem, pelo
seu efeito negativo na motivação e na focalização na tarefa (Pekrun et al.,
2002). Por sua vez, as associações do desempenho com as emoções positivas de
desativação (e.g., alívio) e negativas de ativação (e.g., zanga, ansiedade) não
são claras, presumindo-se que poderão ter impactos diferenciados uma vez que se
verifica alguma inconsistência dos resultados em diferentes estudos. Neste
sentido é ainda necessário aprofundar o estudo destas relações, não só
diversificando as emoções como os contextos específicos em análise (Pekrun et
al., 2009). Contudo, refletindo globalmente sobre um conjunto de investigações
que se debruçaram sobre as relações entre desempenho e emoções Pekrun et al.
(2002) concluem que estas, de um modo geral, estão associadas aos resultados
académicos, aconselhando, no entanto, alguns cuidados relativamente a
conclusões acerca de relações de causalidade entre estes aspetos. Consideram
que, embora sejam preditoras do desempenho, não implicam que as relações se
estabeleçam somente num sentido, podendo as emoções, aprendizagem e resultados
estar associados por causalidades recíprocas, onde, por exemplo, as emoções
influenciariam os resultados, mas o feedback destes, por sua vez, afetaria as
emoções.
O conjunto dos trabalhos apresentados realça, por um lado, o papel dos
ambientes de aprendizagem na génese das emoções específicas vivenciadas pelos
alunos em contexto escolar. Por outro lado, é evidente a necessidade de se
considerarem, em simultâneo e de modo sistemático, algumas variáveis inerentes
ao sujeito que poderão estar associadas às suas emoções. Conscientes de que a
aquisição de competências a matemática se revela atualmente como indispensável
para a integração dos indivíduos na sociedade e no meio laboral (Fontaine &
Ventura, 2002), e que a disciplina de matemática é considerada de natureza
difícil e emocionalmente intensa para os alunos (Kleine, Goetz, Pekrun, &
Hall, 2005), é de nosso interesse compreender as caraterísticas das emoções
vivenciadas na aula e perceber o papel de variáveis contextuais, como o clima
de sala de aula, ou pessoais como o desempenho escolar, o autoconceito e
autoestima, na diferenciação dessas emoções.
Método
Participantes
Participaram no presente estudo 717 alunos do 7º e 8º anos de escolaridade de
escolas públicas da região de Lisboa, sendo 355 do sexo masculino (49.5%) e 362
do sexo feminino (50.5%). As idades dos participantes variavam entre os 12 e os
16 anos (M=12.8; SD=.94).
Instrumentos
Neste estudo foram utilizados três instrumentos de modo a avaliar o
autoconceito e autoestima, o clima de sala de aula e as emoções vivenciadas em
contexto educativo.
Para caraterizar o autoconceito e autoestima dos alunos recorreu-se à Escala de
Autoconceito e Autoestima de Peixoto e Almeida (1999). A escala é constituída
por dez subescalas, sendo uma de autoestima (AE) que avalia o grau de
satisfação que o indivíduo tem consigo próprio de uma forma global e as
restantes nove avaliam a autoperceção do individuo referente a domínios
específicos: Competência Escolar (CE), Aceitação Social (AS), Competência
Atlética (CA), Aparência Física (AF), Atração Romântica (AR) Comportamento (C)
Amizades Íntimas (AI), Competência a Língua Materna (CP) e Competência a
Matemática (CM). Devido à sua estrutura hierárquica, a escala permite
caraterizar níveis intermédios de autoconceito que resultam da associação de
domínios específicos: Autoconceito Académico (CE, CP, CM), Autoconceito Social
(AI, C, AS) e Autoconceito de Apresentação (AF, CA, AR). A escala é constituída
por um total de 51 itens, sendo estes afirmações face às quais o aluno se deve
posicionar com base numa escala de quatro pontos que varia de
'Completamente diferente de mim'e 'Exatamente como eu'.
A consistência interna de cada uma das dimensões específicas variou entre .71 e
.90, com exceção da subescala de Competência a Língua Materna (.66), que embora
não tenha atingido valores tão elevados, se encontra dentro dos limites
considerados aceitáveis (Nunnaly, 1978). Para os níveis intermédios a
consistência interna foi de .86 para o Autoconceito Académico, .79 para o
Autoconceito Social e .87 para o Autoconceito de Apresentação.
Para avaliar a perceção de clima de sala de aula na disciplina de matemática
foi utilizada uma parte da Escala de Clima de Sala de Aula proposta por Mata,
Monteiro e Peixoto (2014). Para este trabalho foram utilizadas as dimensões
direcionadas, quer para a relação com o professor e com os colegas -
Suporte Social do Professor (SSP), Suporte Social dos Colegas (SSC) -
quer para as Atitudes face aos trabalhos desenvolvidos na aula (AT). Os itens
foram apresentados sob a forma de afirmações sobre as quais os alunos se
pronunciaram com uma escala de resposta tipo Likert de 6 pontos variando entre
'Nunca' e 'Sempre'. Os valores de consistência interna
variaram entre os .81 e .90 indicando valores ajustados (Nunnaly, 1978).
Por forma a avaliar as emoções vivenciadas na sala de aula de matemática foi
utilizada a versão da escala direcionada para a sala de aula, do questionário
das emoções de realização - AEQ, de Pekrun, Goetz e Perry (2005) adaptado
por Peixoto, Mata, Monteiro, Sanches e Pekrun (2015). Este instrumento é
constituído por um total de vinte e quatro itens referentes a seis emoções
vivenciadas na sala de aula: Aborrecimento, Desânimo, Zanga, Ansiedade, Prazer
e Orgulho e sobre os quais os alunos se têm que posicionar numa escala de
resposta tipo Likert de 5 pontos que varia entre o 'Discordo
Totalmente' e o 'Concordo Totalmente'. Os valores de
consistência interna das diferentes dimensões do AEQ oscilaram entre .70
(ansiedade) e .92 (aborrecimento).
A partir das notas obtidas a matemática foram criados três grupos, um com
desempenho Negativo (notas de 2 ou 1), outro Médio (nota 3) e outro de Bom
desempenho (notas 4 ou 5).
Procedimento
Após obtida autorização das escolas e dos encarregados de educação dos alunos,
procedeu-se à recolha dos dados, tendo esta decorrido de modo articulado com os
professores, de modo perturbar minimamente o normal funcionamento das aulas.
Devido à sua dimensão, os instrumentos foram administrados em dois momentos,
tendo a sua ordem de apresentação sido alternada nas várias turmas.
A análise dos dados foi realizada com recurso ao programa SPSS versão 22.
Resultados
Desempenho académico e emoções
Um dos objetivos deste trabalho era caraterizar o tipo de emoções vivenciadas
na sala de aula. Considerando globalmente Emoções Positivas (EP) e Negativas
(EN), para a totalidade dos alunos participantes, pudemos verificar que estes
apresentavam valores mais elevados para as Emoções Positivas (M=3.47) do que
para as Negativas (M=2.38) (t(720)=19.371, p<.001). A análise do modo como os
alunos com diferentes níveis de desempenho se caraterizavam face às emoções
vivenciadas na aula de Matemática está apresentada na Tabela_1. Como podemos
constatar as EP são mais experienciadas pelos alunos com melhores notas,
diminuindo gradualmente à medida que os níveis de desempenho vão baixando.
Verifica-se o inverso face às EN que são mais vivenciadas pelos alunos de
desempenho Negativo e quase não são sentidas pelos de Bom desempenho.
A análise estatística mostrou serem significativas estas diferenças tanto na
vivência das EP [F(2,715)=50.449, p<.001, η2
=.124] como das EN [F(2,715)=99.625 p<.001, η2
=.218] em função do desempenho académico dos alunos.
A comparação na identificação de emoções Positivas e Negativas na aula de
Matemática dentro que cada grupo de desempenho a matemática (Negativo, Médio,
Bom) também se mostrou significativa, sendo que, independentemente do seu
estatuto escolar as EP apresentam sempre valores mais elevados do que as EN
[Negativo - t(282)=3.835, p<0.001; Médio - t(261)=16.336, p<.001;
Bom - t(175)=21.534, p<.001].
Para uma análise mais específica das emoções vivenciadas na aula de matemática,
o gráfico da Figura_1 apresenta-nos os valores médios considerando cada uma das
emoções analisadas, em função desempenho dos alunos. Como podemos verificar
pela sua análise, entre as emoções positivas, o Orgulho é o que apresenta
valores mais elevados independentemente do estatuto escolar do aluno. Entre as
emoções negativas as mais presentes são o Aborrecimento e a Ansiedade e as
menos vivenciadas são a Zanga e o Desânimo.
Podemos constatar que os valores médios das várias emoções negativas surgem
superiores para os alunos com pior desempenho a matemática enquanto se verifica
o inverso para as duas emoções positivas. Estas diferenças de médias
verificaram-se como estatisticamente significativas tanto globalmente
[Pillai's Trace=.293, F(12,1420)=20.308, p<.001, η2
=.147] como para as várias emoções específicas [Prazer - F(2,714)=38.566,
p<.001, η2
=.097; Orgulho - F(1,714)=47.566, p<.001, η2
=.118; Zanga - F(1,714)=48.311, p<.001, η2
=.119; Ansiedade - F(1,714)=39.104, p<.001, η2
=.099; Desânimo - F(1,714)=122.410, p<.001, η2
=.255; Aborrecimento - F(1,714)=46.951, p<.001, η2
=.116]. As comparações entre os grupos usando o teste de Tukey, mostraram-se
significativas para todas elas (p<.001) evidenciando que os alunos com Bom
desempenho referem como mais presentes as duas emoções positivas e menos
sentidas as quatro negativas, comparativamente aos alunos de desempenho Médio
ou Negativo. Também os alunos de Médio desempenho diferem dos de desempenho
Negativo para todas as emoções específicas consideradas.
Relação entre emoções e a perceção do clima de sala de aula a matemática
A Tabela_2 apresenta as correlações entre as várias componentes da escala de
Clima de Sala de Aula e as diferentes emoções analisadas. Pode verificar-se
que, na sua maioria, as correlações são significativas. Contudo, estas de um
modo geral, são relativamente fracas, com exceção das que se referem às
relações das diferentes emoções com as Atitudes e o Suporte Social do
Professor. Entre as associações significativas podemos constatar um padrão de
associações positivas com as emoções positivas e de associações negativas com
as emoções negativas.
Relação entre emoções, autoconceito e autoestima
Os valores das correlações entre as dimensões do autoconceito e as emoções
encontram-se apresentados na Tabela_3. Podemos constatar que todas as dimensões
do autoconceito se associam de forma positiva com as emoções positivas (Prazer,
Orgulho) e de forma negativa com as emoções negativas (Zanga, Ansiedade,
Desânimo, Aborrecimento). De um modo geral, as associações identificadas são
fracas, à exceção das relacionadas com o Autoconceito Académico que se
apresentam moderadas.
As associações entre emoções e autoestima também se mostraram todas
significativas, com a mesma orientação, embora com uma magnitude inferior à
verificada para o Autoconceito Académico. A relação mais forte surgiu com a
Ansiedade, sendo esta negativa, mostrando haver uma tendência para que, quando
a autoestima é mais elevada a ansiedade na aula de Matemática é menor e vice-
versa.
Variáveis explicativas das emoções positivas e negativas
As análises parcelares anteriores mostraram-nos algumas associações entre
diferentes variáveis e as emoções vivenciadas na aula de Matemática. Contudo,
de modo a obtermos uma visão mais global e completa destas associações
considerando em simultâneo os diferentes tipos de variáveis: pessoais, dos
contextos de aprendizagem, e as emoções (Positivas e Negativas), desenvolvemos
uma análise de regressão hierárquica considerando 4 blocos de variáveis
(Tabelas 4 e 5). O 1º bloco considerou variáveis que denominámos de Background
e onde integrámos o Género dos estudantes e as suas notas anteriores à
disciplina. A opção por considerar o género prende-se com o facto de a
matemática ser uma disciplina sobre a qual, por vezes a literatura tem
identificado diferenças de género tanto no que se refere à motivação e
atitudes, como ao autoconceito e desempenho (Asante, 2012; Hyde, Fennema, Ryan,
Frost, & Hopp, 1990). O 2º bloco integrou variáveis relacionadas com o
autoconceito e a autoestima (AC Académico, AC Social, AC Apresentação,
Autoestima). O 3º bloco integrou as Atitudes face à matemática, por
considerarmos que esta dimensão da escala de Clima de sala de Aula é de um
âmbito mais pessoal e até motivacional do que as restantes dimensões. O 4º
bloco integrou as dimensões da escala de clima associadas à perceção de suporte
de professores e colegas (SSC - Suporte Social dos Colegas, SSP -
Suporte Social do Professor). Pela análise dos resultados das Tabelas 4 e 5
podemos constatar que o conjunto destas variáveis explica 41.2% da variância
das Emoções Positivas (EP) face às aulas de matemática e 47.3% das Emoções
Negativas (EN).
Verifica-se que o contributo das variáveis introduzidas em cada bloco traz
sempre valor acrescido significativo na explicação das emoções positivas e
negativas, exceto para as EP com a introdução das variáveis do suporte (SSC e
SSP).
Entre as variáveis do Background, o Género só apresenta efeito explicativo
significativo para as EN no 1º Modelo, pois quando são introduzidos os outros
blocos de variáveis este deixa de ser significativo. Contudo, as Notas a
Matemática, apesar da relação com as emoções ir enfraquecendo com a adição de
novas variáveis, apresentam em qualquer um dos Modelos efeitos significativos,
tanto para as EP como para as EN. No que se refere ao autoconceito e autoestima
verifica-se que somente o Autoconceito Académico introduz valor explicativo na
compreensão das EP e EN, e que a Autoestima só contribui significativamente na
compreensão das EN. As Atitudes face à matemática evidenciaram-se também como
uma variável com peso significativo na compreensão das emoções da aula de
matemática, introduzindo um acréscimo de 19.2% da variância explicada nas EP e
de 6.7% nas EN. Quanto ao suporte percecionado na sala de aula, o aumento da
variância explicada é relativamente baixo (Emoções Positivas - 0.5%;
Emoções Negativas - 2.9%) sendo este resultante do contributo do Suporte
Social do Professor (SSP) nos dois tipos de emoções (β=.075 e β=-.195, p<.05
respetivamente) e do SSC nas Emoções Negativas (β=.063, p<.05).
Discussão dos resultados
O objetivo principal do nosso trabalho foi compreender as caraterísticas das
emoções vivenciadas na aula de matemática e analisar o papel de variáveis
contextuais e pessoais na compreensão dessas emoções. Como pudemos verificar,
independentemente do estatuto escolar dos alunos, as Emoções Positivas (EP)
vivenciadas na aula de matemática apresentam valores mais elevados do que as
Emoções Negativas (EN). Este aspeto parece-nos bastante positivo, pois as
emoções são elementos centrais a considerar quando se pretende compreender as
dimensões do processo educativo que potencialmente interferem com a eficácia
dos contextos de aprendizagem. As experiências emocionais dentro da sala de
aula têm-se mostrado associadas com as crenças, objetivos e identidades dos que
se envolvem no processo educativo (Schutz, Cross, Hong, & Osborn, 2007).
Estas crenças, objetivos e identidades influenciam os julgamentos individuais e
a motivação para atingirem os objetivos (Schutz et al., 2007). Havendo uma
maior prevalência das emoções positivas estas podem indiciar uma facilitação
nos processos de aprendizagem. Esta prevalência verificou-se independentemente
do estatuto escolar, uma vez que em média, para qualquer um dos grupos de
desempenho considerados neste estudo (Negativo, Médio, Bom), as EP foram
significativamente superiores às EN.
Contudo, apesar de prevalecerem emoções positivas na sala de aula, o estatuto
escolar mostrou introduzir diferenças na perceção das emoções vivenciadas. Os
alunos de Bom desempenho percecionam mais emoções positivas na sala de aula,
que os de Médio, ou que os de desempenho Negativo, tendo-se verificado o
inverso em relação às EN. Este aspeto transparece bem quando analisamos a
magnitude das diferenças de médias de EP e EN dentro de cada grupo. É evidente
uma grande proximidade da vivência de EP e EN nos alunos de desempenho negativo
(diferença de .34) aumentando esta diferença com o estatuto escolar dos alunos
(Médio: diferença de 1.27; Bom: diferença de 2.02). Estes resultados,
referentes à performance académica e emoções vêm na linha do que já tinha sido
verificado em estudos anteriormente desenvolvidos em vários contextos
culturais, com alunos de diferentes níveis de ensino (e.g., Daniels et al.,
2009; Lichtenfeld, Pekrun, Stupnisky, Reiss, & Murayama, 2012; Pekrun et
al., 2002, 2011). A análise destes dados permite-nos ainda realçar dois aspetos
importantes. Por um lado, as emoções positivas, apesar de serem predominantes
aparecem de um modo geral próximas de valores médios (3) indiciando que mesmo
assim, não estão tão presentes nas vivências da sala de aula dos diversos
alunos. Mesmo para os alunos com Bom desempenho a média global para as EP não
chega ao ponto 4 numa escala de 5 pontos. Por outro lado, os níveis da
Ansiedade sentida na sala de aula, também parecem evidenciar que muitos destes
alunos poderão não ter a estabilidade e equilíbrio emocional desejáveis para
uma boa aprendizagem.
Sabe-se que as emoções associadas às experiências e ações, em parte emergem das
avaliações que cada um faz desses acontecimentos. Estes julgamentos são
influenciados pelos objetivos e metas pessoais assim como pelas crenças sobre
si e a sua posição em determinado contexto de atividade (Schutz et al., 2007).
Neste sentido, procurámos também analisar as relações entre emoções e
autoconceito. Pudemos constatar que foi com o Autoconceito Académico que
surgiram as associações mais fortes, sendo estas positivas com as EP e
negativas com as EN. As associações entre emoções e Autoconceito Social embora
mais fracas foram também significativas. Uma vez que as emoções aqui analisadas
foram emoções relativas a situações académicas, nomeadamente às aulas de
matemática, faz sentido que estas associações sejam mais fortes com o
Autoconceito Académico pois este decorre das crenças de controlo que cada um
tem, indo estas afetar as suas autoavaliações, a avaliação da situação e
consequentemente as emoções (Pekrun et al., 2007). Assim, altos níveis de
controlo percebido nos alunos, conduzem a emoções positivas (e.g., satisfação,
orgulho) enquanto baixos níveis de perceção de controlo pessoal levam a emoções
negativas (e.g., ansiedade, zanga). Tal como Pekrun et al. (2007), referem as
perceções favoráveis de controlo sobre os seus resultados numa disciplina,
neste caso a matemática, podem levar os alunos a sentirem-se desafiados perante
as tarefas propostas, sendo esse desafio adequado para as considerarem
exequíveis e paralelamente desenvolverem emoções positivas. Este equilíbrio
entre a dificuldade percebida da tarefa e os julgamentos de competência do
sujeito têm sido reconhecidos como elementos centrais em diferentes teorias da
motivação e associados a emoções positivas, nomeadamente o prazer e a
satisfação pela realização da tarefa (e.g., Csikszentmihalyi &
Csikszentmihalyi, 1988; Deci & Ryan, 2000).
Como Pekrun e colaboradores afirmam (e.g., Pekrun, 2006; Pekrun et al., 2002,
2007) um outro fator determinante nas perceções de controlo, e consequentemente
nas emoções vivenciadas na sala de aula, prende-se com as dinâmicas interativas
desenvolvidas nesse contexto. Os nossos resultados evidenciaram, de um modo
geral, associações positivas significativas entre as dimensões da Escala do
Clima de Sala de aula associadas ao suporte social (SSP e SSC) e as emoções
positivas (Prazer e Orgulho) e associações negativas com as emoções negativas
(Desânimo, Ansiedade, Zanga, Aborrecimento). Este padrão de associações
explica-se pelo facto de interações pouco calorosas, hostis, de rejeição ou
coercivas na sala de aula, com pares e/ou professores, minarem sentimentos de
segurança e aceitação, conduzindo a ansiedade e angústia tal como tem sido
referido na literatura (Furrer, Skinner, & Pitzer, 2014). Também neste
sentido Skinner, Zimmer-Gembek e Connell (1998) verificaram que os alunos que
percecionavam os seus professores como calorosos, apresentavam elevados níveis
de perceção de controlo, levando-os a envolver-se mais, em contraste com os que
percecionavam os seus professores como menos apoiantes, apresentando estes
maior descontentamento e desagrado pela escola. Por outro lado, interações mais
calorosas por parte do professor que demonstrem uma alta expectativa sobre o
desempenho e êxito do aluno, induzem neste uma maior confiança em si mesmo e a
redução de ansiedade (Cubero & Moreno, 1990).
As análises de regressão que desenvolvemos considerando todas as variáveis, mas
introduzindo-as em blocos diferenciados, permitiu-nos, por um lado, perceber o
valor explicativo de cada bloco de variáveis e o contributo de cada uma delas
e, por outro lado, evidenciou que existem algumas especificidades na explicação
das emoções Positivas (EP) e Negativas (EN) na sala de aula.
Apesar de a Matemática ser uma disciplina tradicionalmente associada a
diferenças de género tanto na performance como nas atitudes dos alunos, os
estudos, incluindo algumas meta-análises têm vindo a relativizar esta questão
não encontrando diferenças ou sendo estas consideradas residuais (Hyde,
Fennema, Ryan, Frost, & Hopp, 1990; Lindberg, Hyde, Petersen, & Linn,
2010; Ma & Kishor, 1997; Mata, Peixoto, & Monteiro, 2012; Scafidi &
Bui, 2010). Neste sentido apontam também os resultados deste nosso estudo, onde
o género quase nunca introduz valor explicativo significativo na compreensão
das emoções sentidas nas aulas de matemática. Somente para as Emoções Negativas
aparece um valor significativo de β no 1º modelo quando se introduziram
unicamente as variáveis de Background, mas que, com a introdução das outras
variáveis, acaba por se diluir e anular. Surge assim, consonante com a
literatura mais recente, sobre as atitudes e performance em matemática, esta
ausência de papel do género na explicação das emoções (Hyde et al., 1990;
Lindberg et al., 2010; Ma & Kishor, 1997; Mata et al., 2012; Scafidi &
Bui, 2010). Parece-nos também interessante que o pouco valor explicativo surja
somente para as EN, uma vez que alguns trabalhos têm mostrado que, no que se
refere a emoções e motivação, algumas das poucas diferenças de género
identificadas recaem sobre a ansiedade, apresentando as raparigas níveis
superiores aos dos rapazes (Marsh, Martin, & Cheng, 2008). Por sua vez, tal
como era esperado, o desempenho dos alunos aparece significativamente associado
tanto a EP como a EN em qualquer dos modelos testados. Tal como referimos
anteriormente, diversos estudos constataram a associação entre resultados
académicos e emoções e procuraram explicar os seus efeitos recíprocos (Daniels
et al., 2009; Pekrun et al., 2002, 2009). Assim, as emoções poderão, em
determinadas circunstâncias e situações, influenciar os resultados, mas o
feedback destes, a forma como são interpretados e vividos irão por sua vez,
afetar as emoções (Pekrun et al., 2002).
O 2º Modelo testado na análise de regressão, para além das variáveis de
Background considerava as do autoconceito e autoestima, podendo-se constatar
que estas variáveis introduziam valor explicativo adicional significativo tanto
para as EP como para as EN. De entre as várias facetas do autoconceito, a
Académica assumiu-se como a mais determinante na compreensão das emoções, quer
positivas quer negativas, e o valor de β manteve-se sempre entre os mais
elevados nos vários modelos. Nem o Autoconceito Social nem o de Apresentação,
se evidenciaram como variáveis importantes na compreensão das emoções face à
matemática, o que faz sentido uma vez que se tratam de áreas mais relacionais,
transversais a outros contextos de vida dos estudantes e com pouco significado
para as aulas de matemática. O facto de a Autoestima surgir somente com valor
explicativo significativo, embora baixo, para as EN negativas parece-nos
importante. Apesar de não haver investigação específica que nos permita
explicar sustentadamente esta associação, a literatura nesta área relata
trabalhos diversos onde a relação entre AE, motivação, emoções e desempenho não
é simples nem linear, pois o insucesso pode ter consequências diferentes para
diferentes alunos sendo umas mais adaptativas do que outras (Peixoto &
Almeida, 2010; Turner, Husman, & Schallert, 2002). Mesmo os sujeitos com
insucesso e baixa motivação para as tarefas, podem manter atitudes positivas
face à escola e níveis positivos da AE, até porque esta reflete uma apreciação
geral do seu valor enquanto pessoa (Nascimento & Peixoto, 2012; Peixoto
& Almeida, 2010; Turner et al., 2002). No entanto, para alguns alunos o
insucesso pode ter outro tipo de impacto conduzindo a níveis baixos de
autoestima, a sentimentos negativos e muitas vezes atitudes negativas face à
escola e às tarefas escolares. Sujeitos que apresentam uma baixa autoestima,
são normalmente mais inseguros e apresentam mais emoções negativas sendo este
tipo de associações evidentes no trabalho de Abril e Peixoto (2012), onde se
encontraram associações significativas negativas da AE com emoções negativas
tais como o aborrecimento, a Zanga, a Vergonha, o Desânimo e a Ansiedade.
No 3º Modelo estudado foram introduzidas as Atitudes face à Matemática, para
além das variáveis anteriormente referidas, acrescentando, esta variável, valor
explicativo significativo ao modelo (19.2% para EP e 6.7% para EN). Sabendo que
as atitudes face à matemática se podem considerar como uma disposição que o
sujeito desenvolveu com base nas suas crenças e experiências (Eshun, 2004) e
que uma atitude positiva reflete uma disposição emocional positiva face a essa
matéria enquanto uma atitude negativa se associa a estados emocionais negativos
(Zan & Martino, 2008) este contributo das Atitudes pode então ser
justificado devido a esta clara componente emocional a elas associada.
Nos últimos modelos testados foram introduzidas as variáveis relacionadas com o
clima de sala de aula que, globalmente, só introduziram mais valor explicativo
significativo adicional para as EN (2.9%). Sabendo que o clima de sala de aula
é função tanto da atuação do professor como do grupo específico e das relações
estabelecidas entre os diferentes participantes (Marsh et al., 2008),
considerámos dois indicadores do clima, o Suporte Social dos Colegas (SSC) e o
Suporte Social do Professor (SSP). Pudemos constatar que o SSP assumia valores
significativos de βtanto para as EP como para as EN, enquanto o SSC somente
para as EN. A abordagem de Furrer et al. (2014) quanto ao papel da relação com
o professor na forma como o aluno se sente na aula e ao seu envolvimento,
centrando-se na teoria da autodeterminação, reafirma a necessidade de se
considerarem três vertentes na forma de atuação do professor: proximidade,
competência e autonomia. Consideram que, quando o professor é uma boa base de
suporte emocional, os alunos sentem-se próximos deste e consequentemente
seguros na escola. Por outro lado, o suporte à autonomia decorre de interações
baseadas no respeito, escuta ativa e valorização pessoal enquanto que para a
competência, entre outras coisas, os alunos necessitam de interações positivas
estruturadas, expetativas claras e positivas (Furrer et al., 2014). Todos estes
aspetos estão na base da motivação intrínseca suportada pelo desafio, prazer e
satisfação na realização das tarefas, ou seja claramente sustentada por uma
orientação emocional positiva. Quando estes aspetos não são considerados, esta
motivação intrínseca poderá ser minada, conduzindo a ansiedade, desinteresse e
até aborrecimento. Analisando os itens da escala do SSP (Mata et al., 2014)
como por exemplo "Na aula de Matemática, conto com o apoio do meu
professor", "Na aula de Matemática, o meu professor quer que eu dê
o meu melhor" ou "Na aula de Matemática, quando temos um problema,
o professor ajuda-nos a pensar sobre ele", podemos considerar que estes
aspetos foram, de algum modo, considerados pois os itens reenviam para
proximidade, escuta ativa, disponibilidade e expetativas positivas. Assim, uma
elevada perceção de SSP poderá reenviar para a conclusão de que a sua atuação é
percecionada como estando a contribuir para a satisfação dos três aspetos
(proximidade, autonomia, competência) decorrentes da teoria da autodeterminação
e centrais segundo Furrer et al. (2014) na relação do professor com os alunos.
Complementarmente, pudemos verificar que, no modelo final para as EP as
variáveis que assumiam valores significativos de β eram, para além do SSP, o
desempenho (Notas), o Autoconceito Académico e as Atitudes. As notas de algum
modo refletem a satisfação da necessidade de Competência e um elevado
Autoconceito Académico decorre de perceções favoráveis de controlo sobre os
seus resultados na disciplina (Pekrun et al., 2007), sendo o controlo e a
autonomia elementos centrais para a motivação intrínseca, o prazer e satisfação
na realização das tarefas (Deci & Ryan, 2000). Por outro lado, as atitudes
refletem estados emocionais que decorrem também das crenças de competência e
experiências do sujeito (Eshun, 2004). Assim, os dados encontrados para as EP,
são consonantes com os elementos avançados pela teoria da autodeterminação como
necessários para se promover a motivação intrínseca (Deci & Ryan, 2000) e
as emoções a ela associadas (prazer e a satisfação) e vêm também no sentido dos
avançados na literatura sobre as atitudes face à matemática (e.g., Mata et al.,
2012).
Quando analisamos o modelo final para as EN, constatamos que para além das
Notas, Autoconceito Académico, Atitudes e SSP, também a Autoestima e o SSC são
variáveis significativas. A Autoestima, tal com avançámos anteriormente,
enquanto apreciação geral sobre o valor como pessoa, pode em situações em que
esta é mais baixa, estar associada a estados emocionais mais negativos,
transversais aos diversos contextos de vida do sujeito, e também ao contexto
académico, conduzindo a níveis maiores de ansiedade e à vivência de outras
emoções negativas (Greenwald et al., 1988; Harter, 2012; Leary et al., 1995).
No que se refere ao SSC este é um elemento importante para a caraterização do
clima de sala de aula, e parece que, no que se refere às emoções vivenciadas na
aula, é mais determinante para a compreensão das EN do que das EP.
Provavelmente isto prende-se também com o conjunto das outras variáveis que
explicam as EN (Modelo 4, Tabela_5). Tendo baixo desempenho, baixo
Autoconceito, Atitudes menos positivas face à Matemática, é natural que o fato
de não sentir suporte nem apoio por parte dos colegas vá ainda conduzir a
estados emocionais mais negativos, associados a Ansiedade, Vergonha, etc. Um
aluno com elevado desempenho e níveis altos de Autoconceito, mesmo não sentindo
apoio por parte dos colegas, pode continuar a gostar das aulas de matemática, a
sentir prazer na realização dos exercícios e orgulho com a sua prestação. A
turma e as suas caraterísticas, assim como as dinâmicas estabelecidas (Marsh et
al., 2008) são elementos importantes para a motivação e o envolvimento. Um
baixo suporte percecionado por parte dos colegas, pode estar associado a
dinâmicas mais competitivas que poderão conduzir, em alunos com mais
dificuldades, a estados emocionais mais negativos.
Conclusão
Este trabalho permitiu-nos analisar as emoções percecionadas nas aulas de
matemática considerando tanto variáveis pessoais como contextuais. Concluímos
que todas elas são importantes para uma compreensão global dos estados
emocionais vivenciados e que poderão adquirir algumas especificidades para as
Emoções Positivas e Negativas.
Constatámos que o género não é uma variável importante, mas que, se queremos
compreender as EP e as EN, temos que considerar um conjunto de outras
variáveis, tais como: a experiência anterior do sujeito (desempenho), as
crenças de competência (e.g., Autoconceito Académico), o desenvolvimento de
Atitudes face à disciplina, e também as perceções sobre o ambiente de sala de
aula e ao suporte do professor e dos colegas (SSP e SSC). Estas variáveis no
seu conjunto permitiram-nos ter uma visão mais completa do contributo de cada
uma delas. Embora as crenças pessoais tenham surgido como variáveis com valores
mais significativos para a explicação das emoções nas aulas de matemática,
pudemos concluir que as variáveis mais relacionais associadas ao apoio dos
colegas e professor não podem ser descuradas.
Embora importantes, estes dados apresentam algumas limitações que deverão
introduzir cuidado na sua interpretação e generalização. Por um lado, foram
usadas quase exclusivamente medidas de autorrelato (com exceção das Notas a
matemática). Embora esta fosse a metodologia mais exequível para este estudo, é
importante em situações futuras complementar este tipo de dados com outros
recolhidos através de fontes diferentes (professores, colegas) e usando outras
metodologias (e.g., entrevistas).
Por outro lado, estes dados foram recolhidos num dado momento, não permitindo
uma leitura longitudinal sobre a vivência das emoções. Seria assim importante
perceber se as emoções sentidas no início, são semelhantes às do final do ano,
ou o que se passa em anos diferentes com níveis de exigência diferentes ou
mesmo com avaliações externas, tais como os exames finais.
As emoções foram analisadas na perspetiva dos alunos, mas sendo as salas de
aula contextos marcadamente relacionais em que o professor assume um grande
protagonismo, seria também importante analisar a forma como as emoções
vivenciadas na sala de aula são percecionadas pelo professor e a importância
que este lhes atribui para o processo de ensino e para a aprendizagem dos
alunos.