Envelhecer no concelho de Oeiras: Estudo numa população institucionalizada
Introdução
Com o aumento da esperança média de vida e a diminuição do número de
nascimentos, Portugal tem vindo a tornar-se um país envelhecido, o que impõe
equacionar medidas adequadas para responder às necessidades da pessoa idosa.
O envelhecimento é um processo que ocorre ao longo do tempo, atingindo todas as
áreas do funcionamento humano, implicando perdas não só na autonomia e
independência, no funcionamento corporal e intelectual, mas também ganhos,
existindo processos de adaptação, otimização e compensação (Giro & Paúl,
2013). A aceitação e o ajustamento às mudanças que ocorrem possibilitarão que
este processo seja bem-sucedido, correspondendo a um estado saudável e ativo
nas dimensões física, cognitiva e social (Teixeira & Neri, 2008). A
dinâmica entre fatores internos ou genéticos, e externos ou ambientais, à qual
o sujeito é exposto ao longo da sua vida, explica a diversidade no
envelhecimento, dependendo as diferentes formas de envelhecer dos padrões
comportamentais do idoso e dos contextos nos quais viveu, ou seja da sua
história de vida (Paúl, Fonseca, Martin & Amado, 2005).
Os idosos tendem a apresentar uma conceção física do envelhecimento,
associando-a à crescente dependência funcional. Esta contempla as limitações
físicas que a doença crónica pode gerar nas atividades pessoais e instrumentais
da vida diária, nomeadamente na alimentação, higiene pessoal e mobilidade,
tarefas domésticas, assuntos administrativos ou toma de medicamentos.
Nos idosos dependentes e muito dependentes, o bem-estar e a qualidade de vida
estão mais facilmente diminuídos, quer pela idade quer pela funcionalidade,
existindo limitações no seu quotidiano, nomeadamente na relação com os outros.
Os idosos apresentam o receio de que a institucionalização aumente a sua
dependência e dificulte a manutenção da autonomia.
Os idosos institucionalizados têm tendencialmente uma conceção do
envelhecimento emocional, associando a velhice a sentimentos de tristeza,
designadamente pelo isolamento (Pires, 2009).
A institucionalização pode criar condições de ocorrência de violência sobre os
idosos, tornando-se por isso importante conhecer não só, as condições em que
ocorre esta violência, mas também os fatores de risco que lhe estão associados,
para que possamos estabelecer uma estratégia de prevenção/intervenção neste
domínio.
Apesar de estar satisfeito com as instalações e cuidados institucionais
prestados, o idoso pode apresentar insatisfação e tristeza quer pela falta de
autonomia, quer pela existência de doenças e outras limitações físicas
(Carvalho & Dias, 2011). O meio de onde provêm os idosos tem influência no
processo de adaptação, considerando os autores existir uma ligação forte entre
o ambiente familiar e a adaptação à instituição, sendo o primeiro determinante
para uma integração bem-sucedida.
Se assim não for, a institucionalização pode constituir-se como fator
desencadeador de estados depressivos no idoso, designadamente pela sua falta de
autonomia funcional e pela perceção que tem da dificuldade do controlo do seu
quotidiano (Salgueiro, 2007). A depressão enquanto problema psicológico pode
influenciar negativamente um envelhecer ativo (Maurício, 2010). Os estudos
epidemiológicos sugerem, que a taxa de morte está quatro vezes mais aumentada
em sujeitos que têm mais de 55 anos e Perturbação Depressiva Major. No caso dos
idosos institucionalizados, portadores desta perturbação, a probabilidade de
morte é acentuadamente maior durante o primeiro ano. Na realidade, 15% das
pessoas com idade superior a 60 anos padecem de algum tipo de perturbação
psiquiátrica, ocorrendo a depressão em 7% dos casos (Organização Mundial de
Saúde, OMS, 2013).
Embora a depressão seja apontada como um fator preditor da violência, é
possível que a institucionalização e o envelhecimento não estejam
necessariamente ligados a estados patológicos, como no caso do estudo de
Carrilho, Gameiro, Pereira e Espanca (2012), com idosos de idades compreendidas
entre 52 e 96 anos, a residir em Centros de Apoio Social, a quem foi
proporcionado um certo número de atividades e apoios no seu quotidiano, que
apresentavam um grau de dependência ligeiro, alguns sinais de deterioração
cognitiva e sintomatologia depressiva ligeira.
A vulnerabilidade física e psicológica desta população, associa-se a situações
de violência, as quais se registam de forma inquietante no nosso país, quer no
contexto familiar quer institucional (Gil & Fernandes, 2011), tendendo a
ampliar-se e a ter maior visibilidade com o aumento do envelhecimento
populacional (Gil & Santos, 2012).
Entre os múltiplos aspetos que podem contribuir para a qualidade de vida dos
idosos, encontra-se a prevenção e combate a situações de violência. Ainda que
as diferentes opções conceptuais e operacionais possam dificultar a análise
sobre a extensão do fenómeno da violência contra pessoas idosas, é hoje
reconhecido em vários estudos a existência do fenómeno (Gil, Santos, Kislaya,
& Nicolau, 2014). A nível nacional regista-se, contudo, uma prevalência da
violência contra as pessoas idosas mais baixa, quando comparada com estudos
europeus.
De salientar que a maioria destes estudos aborda a violência contra as pessoas
idosas, inseridas na esfera familiar, enquanto o nosso estudo foi efetuado com
idosos institucionalizados em lares.
Ainda que o conceito de violência seja amplo, podendo integrar maus-tratos,
abuso e negligência, no nosso estudo o conceito adotado é o da OMS que na
declaração de Toronto (2002) define violência e maus-tratos a pessoas idosas
como "qualquer ato isolado ou repetido, ou a ausência de ação apropriada,
que ocorre em qualquer relacionamento, em que haja uma expectativa de
confiança, e que cause dano, ou incómodo a uma pessoa idosa. Estes atos podem
ser de vários tipos: físico, psicológico/emocional, sexual, financeiro ou,
simplesmente, refletir atos de negligência intencional, ou por omissão"
(United Nations 2002; World Health Organization, 2002, in Gil e col. 2014).
As diferentes formas de violência referidas ao longo do nosso estudo, violência
física, psicológica, sexual, financeira e negligência, constituem-se como atos
e condutas que causam dano à integridade física e à saúde dos indivíduos, no
caso da violência física, ou como ameaças ou condutas que visem a humilhação,
prejudicando a saúde psicológica, a autodeterminação e o desenvolvimento
individual, no caso da violência psicológica. No que diz respeito à violência
sexual, contempla as ações destinadas a obrigar alguém a manter contacto sexual
com outrem, contra a sua vontade, recorrendo quer à intimidação ou à ameaça,
quer a outra forma que diminua ou anule a vontade individual. A violência
financeira refere-se a situações cujas condutas têm como objetivo a obtenção de
um determinado benefício ilegítimo, financeiro ou patrimonial. Quanto à
negligência, resulta da omissão de ação de alguém que não agindo provoca lesão,
mau estar, dor, ou sofrimento ou a morte a outrem que se encontra ao seu
cuidado ou guarda (Decreto-Lei nº 48/95).
Segundo o relatório de estatísticas anuais da Associação Portuguesa de Apoio à
Vitima de 2013, no referente às pessoas idosas de 65 e mais anos de idade, 774
idosos foram vítimas de crime, representando 8.9% do total de vítimas
registadas nesta Associação. A faixa etária superior aos 65 de idade ocupou o
4º lugar em vitimação.
Bogalho, Lima e Ferreira-Alves (2010), no seu estudo sobre maus-tratos em
utentes idosos do serviço de urgência de um hospital central, verificaram que a
maioria dos indivíduos apresentou pelo menos um indicador de violência, sendo a
negligência e o abuso emocional os tipos mais referidos. Como fatores de risco
para o abuso na pessoa idosa, foram identificados o género feminino, a
existência de depressão, viver sozinho e ter uma perceção negativa da
suficiência dos meios de subsistência. Vergueiro e Lima (2010), num estudo
sobre idosos inseridos em comunidade verificaram que a maioria dos sujeitos
apresentou pelo menos um indício de abuso. O abuso mais prevalente foi o
emocional, seguido da negligência e do financeiro, não se tendo registado casos
de abuso físico. Porém, Pires (2009) havia concluído que para além de maus-
tratos emocionais, também os físicos registaram maior número de ocorrências,
tendo sido referidos como principais agressores os cônjuges. A exploração
financeira dos bens económicos, que tem como principais autores da ocorrência
os filhos e respetivos cônjuges, não foi tão referenciada. Neste estudo foi
considerada a violência sobre as pessoas idosas como uma violência de género,
na medida em que se constatou que o maior número de ocorrências foi praticado
sobre mulheres.
No Projeto sobre Envelhecimento e Violência realizado por Gil e col. (2014) em
território português, os autores concluíram ser a violência física perpetrada
por cônjuges e filhos a que tem maior visibilidade social no nosso país. A
negligência e a violência financeira surgem com frequências mais reduzidas, o
que traduziria a invisibilidade destas formas de violência na sociedade
portuguesa.
De salientar as situações de polivitimização que ocorrem, tendo os idosos
portugueses, segundo este estudo, experienciado múltiplos tipos de violência. A
maioria dos idosos foi vítima de duas a três condutas de violência, sendo que
em 93.1% das situações de polivitimização uma das condutas vivenciadas era de
natureza psicológica.
No referido estudo a prevalência da violência global foi superior no sexo
feminino, na população solteira e na viúva. Verificaram os autores existir uma
associação estatisticamente significativa entre o nível de escolaridade e a
ocorrência de violência global. Os sujeitos sem escolaridade apresentaram a
estimativa de prevalência mais elevada.
Relativamente ao estado de saúde física e mental, observaram uma maior
prevalência da ocorrência de violência para os indivíduos que referiram sofrer
de doença crónica. Na população com sintomas depressivos a prevalência da
violência foi superior ao dobro da estimada para a população que não apresentou
sintomas.
No referente ao nível de funcionalidade os autores identificaram uma associação
estatisticamente significativa entre a funcionalidade e a ocorrência de
violência global. Os sujeitos com necessidades de ajuda das Atividades de Vida
Diária (AVD) apresentaram uma taxa de prevalência de ocorrência de violência
superior aos sujeitos totalmente independentes. De salientar ainda que os
sujeitos que necessitavam de ajuda nas AVD apresentaram uma possibilidade de
serem vítimas 2.19 vezes superior aos sujeitos independentes.
Assim, as variáveis "idade", "precisar de ajuda nas
AVD" e "escolaridade" estão significativamente associadas a
se ser vítima de algum tipo de violência em idosos no contexto familiar, e a
variável "ter uma doença crónica" é marginalmente significante.
A escolaridade por seu turno constitui-se como fator protetor face à violência.
Os sujeitos escolarizados tinham menor possibilidade de serem vítimas de
violência comparativamente aos sujeitos sem escolaridade.
No que se refere ao grupo etário e sexo, concluíram os autores que as mulheres
do grupo etário (60-69 anos) reportaram mais a violência do que os homens do
mesmo grupo etário. Já no grupo etário dos 80+ anos, esta situação inverte-se
evidenciando os homens uma estimativa superior à das mulheres. Os autores
consideram que a diferença de género começa a atenuar-se a partir dos 70 anos.
No referente à violência doméstica o (ex) cônjuge/companheiro foi identificado
como agressor em 50% dos atos, enquanto os filhos foram identificados como
agressores em 25% dos atos de negligência.
Destaque ainda para os atos de violência cometidos em espaços públicos,
nomeadamente na rua, aldeia, bairro ou estabelecimentos comerciais e em
contexto institucional com foco para os serviços de saúde e para os lares de
idosos. Efetivamente, talvez em nenhum contexto o idoso esteja mais vulnerável
como nos lares, onde recebe cuidados médicos e apoio social, sendo as
estatísticas sobre situações de violência de idosos institucionalizados
sombrias e o respetivo combate uma meta distante (Weinmeyer, 2014). Nas
instituições como lares ou residências, estas situações têm sofrido agravamento
face aos cortes orçamentais, à redução de recursos humanos, à falta de formação
para cuidar de idosos e ao stresse burnouta que os recursos humanos estão
sujeitos (Carvalho, 2013).
De salientar que a estimativa de prevalência da violência psicológica, foi
superior entre as mulheres, no grupo etário dos idosos com mais de 80 anos e
nos idosos com idades compreendidas entre 60 e 69 anos. A violência psicológica
contra idosos é ainda associada à presença de sintomas depressivos. Neste tipo
de violência os (ex) cônjuges/companheiros representam quase um terço dos
agressores (Gil & Col., 2014).
O combate à violência é uma questão de justiça social que necessita de uma
teoria global unificadora (Harbinson et al., 2012), que transcende a saúde
pública e os limites da medicina, uma vez que também diz respeito às esferas
social e criminal.
Os idosos institucionalizados podem, em particular, correr um risco superior de
serem vítimas de violência, tendo em conta a sua dependência e debilidade
física, bem como o desconhecimento que manifestam dos seus direitos legais, o
que vem associado ao receio de retaliações em caso de denúncia (Dias, 2005).
Como referem Sibbald e Holroyd-Leduc (2012), se é verdade que alguns cuidadores
que maltratam os idosos, são sem dúvida oportunistas ou sociopatas, outros
podem simplesmente estar em situação de sobrecarga de trabalho, o que se vem
verificando cada vez mais no nosso país.
Os fatores de risco para situações de violência, parecem pois existir em todos
os níveis do contexto ecológico do desenvolvimento humano, incluindo
interpessoal/psicológico, interpessoal/familiar, rede social, institucional,
comunitário/social, cultural e histórico, sendo por isso fulcral, como medida
de prevenção, fomentar a comunicação entre a família do idoso e os cuidadores,
combatendo-se desta forma situações de isolamento social e de abuso (Schiambeg
et al., 2011).
Da revisão de literatura sobre os estudos de prevalência da violência em idosos
nas últimas décadas, Santos, Nicolau, Fernandes e Gil (2013) concluíram
estarmos perante um problema multifatorial, complexo de conceptualizar e
operacionalizar, que abrange fatores de risco inerentes ao idoso, ao mal
tratante, ao relacionamento e ao ambiente. Embora a evidência atual suporte
esta etiologia multifatorial, Johannesen e Logiudice (2013), recomendam alguma
prudência, considerando a necessidade de mais pesquisa para testar a força e
independência destes fatores de risco.
Existe pouca evidência científica que suporte a prevenção de violência/maus-
tratos sobre os idosos, e poucos estudos sobre a intervenção nesta problemática
que facilitem o desempenho dos profissionais de saúde (Daly, Merchant, &
Jogerst, 2011). Na complexidade de avaliação deste fenómeno, são de assinalar
as dificuldades na sua definição e metodologia que prejudicam a comparação de
dados de vários países. Por outro lado, a falta de consciencialização familiar
e social, o isolamento de alguns idosos, os maus-tratos enquanto problema
escondido, que geralmente ocorre na privacidade do lar e é visto como um
assunto de família (Lowenstein, 2009), bem como o acesso limitado a contextos
institucionais, ou a falta de inquéritos nacionais representativos e de
medição, têm-se constituído como entraves à investigação nesta área.
As situações de violência podem ter efeitos profundos e a longo prazo nas
pessoas idosas, sendo necessário que a par do desenvolvimento de um sistema
externo de comunicação, ocorram mudanças internas no contexto clínico, que
facilitem a queixa das vítimas (Schmeidel, Daly, Rosenbaum, & Schmuh,
2012).
A violência é uma importante causa de morbilidade e mortalidade em adultos mais
velhos para a qual, os técnicos de saúde têm de estar atentos (Yaffe &
Tazkarji, 2012). Conhecer os estereótipos presentes na população portuguesa bem
como a prevalência e a natureza fenomenológica dos episódios de violência é
fundamental para combater estas situações (Vergueiro & Lima, 2010). Como
sugerem Clancy, Mcdaid, O'Neill e O'Brien (2011) é fundamental a
criação de um banco nacional de dados, encaminhamentos de casos de suspeita de
violência sobre idosos, e a conjugação desses dados entre Estados Europeus, no
sentido de serem criados procedimentos de classificação e acompanhamento das
situações.
Tendo subjacentes as teorizações anteriores, tendo em conta que o fenómeno da
violência sobre esta faixa etária tem aumentado, e as recomendações do Plano
Estratégico Municipal para as Pessoas Idosas: 2013-2015 (CMO, 2013) que apontam
para a necessidade de correção de determinadas situações, como os lares da
terceira idade e as estruturas de apoio à população residente no concelho de
Oeiras, não se encontrarem perto dos serviços ou da comunidade, terem
instalações habitualmente de difícil acesso para pessoas com limitações na
mobilidade, os autores do estudo que agora se apresenta, centraram-se na
realidade da população idosa do referido concelho, residente em lares2 dada a
necessidade premente de estabelecer um diagnóstico das suas particularidades.
Assim, acederam ao contexto institucional, despistando nos idosos
institucionalizados sem défice cognitivo, quadros depressivos, de dependência
funcional e situações de violência. De salientar ainda que o referido Plano
(CMO, 2013), considera ser primordial a implementação de medidas promotoras de
segurança da população idosa no concelho.
O presente estudo visa identificar e caracterizar as situações de violência
física, psicológica, financeira, sexual e negligência a que estiveram sujeitos
os idosos institucionalizados em lares, localizados no concelho de Oeiras, que
fazem parte da nossa amostra, tendo em conta que as cinco formas de violência
referidas são transversais aos estudos mais recentes.
Fomos avaliar a prevalência da violência global e dos diferentes tipos de
violência nos sujeitos que constituíram a nossa amostra. Posteriormente os
resultados foram analisados por grupos específicos como o sexo, a idade, a
escolaridade e o estado civil, saúde mental/depressão e capacidade funcional,
bem como, a perceção que os idosos da nossa amostra tinham sobre o fato de
terem ou não sido vítimas de violência.
Método
Tomando como referência a Carta Social do Concelho de Oeiras de 2012, foram
contactados todos os lares que constam deste documento, no sentido de obter a
sua colaboração no estudo. Verificou-se que algumas instituições não faziam
parte da referida Carta Social, o que não constituiu óbice a que participassem
no nosso estudo. Dos lares contactados apenas dois estabelecimentos se
recusaram a participar. Num outro lar, embora tenha sido autorizada a recolha
dos dados, os utentes não reuniram critérios de inclusão no estudo, de acordo
com a avaliação breve do estado mental.
Em cada um dos lares que manifestou disponibilidade em aderir ao estudo, foi
efetuada uma reunião prévia com os representantes, no sentido de serem
explicados os objetivos do referido estudo, responder a questões e enfatizar a
importância da sua adesão ao processo. Após as respetivas autorizações,
procedeu-se à recolha dos dados. Os idosos com condições clínicas para
responder, foram indicados pelas instituições e posteriormente triados por uma
avaliação breve do estado mental. Após obtenção de consentimento informado, a
aplicação dos instrumentos foi realizada exclusivamente por psicólogos, num
espaço facultado pelas próprias instituições, garantindo assim a privacidade
dos idosos.
O tratamento e análise estatística foram desenvolvidos com recurso ao programa
SPSS (Statistical Package for Social Sciences). A análise estatística incidiu
sobre aspetos descritivos dos dados, baseando-se no cálculo de frequências,
apresentadas na forma de percentagem. Para testar a associação entre a
ocorrência da violência e variáveis tais como sexo, idade e escolaridade foi
utilizado o Qui-quadrado. O nível de significância dos testes foi estabelecido
em 5%.
Instrumentos
Com a aplicação presencial dos questionários, pretendeu-se caracterizar os
aspetos sociodemográficos, o estado de saúde mental, a capacidade funcional e
as experiências de violência psicológica, financeira, sexual, física e
negligência, a sua frequência e o tipo de denúncia, quando efetuada.
Foram utilizados os seguintes instrumentos na recolha de dados:
Exame Breve do Estado Mental(Mini Mental State Examination/MMSE; Versão
Portuguesa de Guerreiro, Silva, Botelho, Leitão, Castro-Caldas, & Garcia,
1994 in Grupo de Estudos de Envelhecimento Cerebral e Demências GEECD (2008):
utilizado fundamentalmente para rastreio cognitivo, abrangendo a orientação,
atenção, memória, linguagem e capacidade visuo-construtiva. Neste estudo
permitiu triar os idosos sem défice cognitivo a incluir na amostra, variando a
sua pontuação entre 0 e 30.
Escala de Depressão Geriátrica(Geriatric Depression Scale/GDS, Yesavage et al.,
1983; Versão Portuguesa de Barreto, Leuschner, Santos, & Sobral, 2003 in
Grupo de Estudos de Envelhecimento Cerebral e Demências GEECD (2008): versão de
30 itens que permitiu caracterizar a sintomatologia depressiva, variando a sua
pontuação entre 0 e 30. Este é um instrumento de autorrelato de avaliação de
sintomas depressivos em pessoas idosas.
Escala de Dependência de Barthel (Barthel ADL Index,1965, versão Portuguesa de
Araújo, Pais-Ribeiro, Oliveira, & Pinto, 2007): avalia o nível de
dependência do indivíduo, variando a sua pontuação entre 0 e 100.
Questionário de Violência: elaborado para este estudo foi constituído por uma
pergunta inicial fechada (Alguma vez depois de estar nesta instituição foi
vítima de violência por um cuidador/familiar?), com a qual se pretendia saber
genericamente se o idoso de forma espontânea era capaz de identificar o
fenómeno da violência, anotando-se a sua opção de resposta (sim vs.não), e
perguntas fechadas com igual estrutura sobre diferentes indicadores de
violência: (a) Física (e.g., episódios de ter sido trancado no quarto, ter sido
batido, agarrado com força excessiva); (b) Psicológica (e.g., episódios em que
lhe gritaram, insultaram, ignoram frequentemente); (c) Económica/Financeira
(e.g., roubo de objetos pessoais, usurpação da reforma, obrigaram a fazer
transferências/doações contra a sua vontade); (d) Sexual (e.g., toques/carícias
que considerou inadequados sem o seu consentimento, alvo de comentários com
conteúdo sexual); (e) Negligência (e.g., falta de cuidados na higiene pessoal,
falta de cuidados de saúde, falta de ajuda nas idas à casa-de-banho).
Se o idoso respondesse positivamente a qualquer um dos itens e descrevesse o
episódio, era-lhe questionado se tinha feito queixa, solicitando-se para
especificar o tipo de queixa.
Questionário Sociodemográfico: aplicado na entrevista, incluiu parâmetros tais
como sexo, idade, escolaridade, estado civil, nº de filhos, residência,
concelho prévio à institucionalização e periodicidade de visitas.
Caraterização demográfica da amostra
O concelho de Oeiras pertence à grande área metropolitana de Lisboa, ocupa uma
área de 46km2e tem cerca de 168.500 habitantes, sendo constituído à altura por
dez freguesias: Algés, Barcarena, Carnaxide, Caxias, Cruz Quebrada-Dafundo,
Linda-a-Velha, Oeiras e São Julião da Barra, Paço de Arcos, Porto Salvo e
Queijas, hoje reorganizadas3. Segundo os Censos de 2011 (Instituto Nacional de
Estatística, 2012), Oeiras tem uma população idosa que ultrapassa os 33.200
residentes, (19.3% da população total do concelho) demonstrando um crescimento
de mais de 9% desta população desde 1991. De salientar que alguns dos lares
onde recolhemos a nossa amostra, embora acolham idosos, não possuem alvará, não
têm técnicos qualificados e não ocupam os seus idosos com atividades. As
condições que encontrámos nos diferentes lares, bem como os preçários, são
muito díspares. Todavia, como este estudo não pretende fazer uma análise das
condições de funcionamento dos lares no concelho de Oeiras, optámos por não
abordar aqui essa matéria.
Participantes
O universo populacional integrou idosos institucionalizados sem sinais de
défice cognitivo, de ambos os sexos e com condições clínicas para participar no
estudo. A amostra foi recolhida em diferentes freguesias do concelho, com
idosos indicados de acordo com os critérios referidos, triados ulteriormente
pela aplicação do Exame Breve do Estado Mental e que aceitaram participar.
A amostra integrou um total de 136 idosos, provenientes de 30 lares das
diferentes freguesias do concelho, sendo que 67.6% dos idosos eram do sexo
feminino e 32.4% do sexo masculino. Relativamente à faixa etária, 36.0% tinham
idade igual ou inferior a 80 anos e 64.0% uma idade superior a 80 anos. O
sujeito mais novo tinha a idade de 58 anos e o sujeito mais velho 104 anos,
sendo a média de idades 82.16 anos (sd=8.47). Assim, a maioria dos idosos foi
do sexo feminino, com uma idade superior a 80 anos (cf. Tabela_1).
No referente ao nível de escolaridade, a maioria dos idosos tinha uma
escolaridade compreendida entre o 1º e o 3º Ciclo (55.1 %). Atendendo ao nível
etário dos idosos, é de assinalar que ao contrário do que se verifica
atualmente, não havia à época escolaridade obrigatória até ao 12º ano, daí que
se tenha verificado maior representatividade de habilitações literárias mais
baixas. Dos restantes idosos, 21.3% eram analfabetos ou não completaram o
ensino básico, 11.0% realizaram estudos superiores, 5.1% tinham escolaridade
compreendida entre o 10º e o 12º ano e 7.4% não especificaram a sua
escolaridade.
Quanto ao tempo de institucionalização, 36.8% residiam no contexto de lar num
período superior a 1 ano, mas inferior a 3 anos, 29.4% estavam a residir em lar
há menos de 1 ano, 14.0% habitavam o lar há mais de 3 anos mas menos de 5,
12.5% estavam na instituição entre 5 e menos de 10 anos e 7.3% num período
igual ou superior a 10 anos. Como se pode verificar, a maioria dos idosos
referiu residir na instituição entre 1 e 3 anos. Faziam parte de uma minoria os
idosos que estavam institucionalizados há mais de 10 anos. No que diz respeito
ao estado civil, a maioria da amostra, 63.3% era viúva. Dos restantes idosos,
15.4% eram solteiros, 13.2% eram casados/união de facto e 8.1% eram divorciados
(cf. Tabela_2).
Previamente à institucionalização, 55.1%, habitavam casa própria, estando os
restantes em casa alugada (38.2%), em casa dos filhos (2.9%), numa outra
instituição (1.5%), em casa de outros familiares (1.5%) ou noutro contexto
(8%). Os diferentes contextos habitacionais situavam-se sobretudo no concelho
de Oeiras (53.7%), sendo Lisboa o segundo concelho mais representado (25.7%).
A maioria dos idosos (64.8%) tinha filhos, sendo que destes 56.6% tinha entre 1
a 2 filhos.
A maioria dos idosos (73.5%), encontrava-se em situação de reforma, sendo a
gestão monetária realizada principalmente com ajuda (80.9%) geralmente dos
filhos (48.5%) e de outros familiares (19.1%).
A maioria dos idosos (87.5%) recebia visitas, tendo as mesmas periodicidade
usualmente semanal (50.0%) ou sem frequência definida de acordo com a
disponibilidade dos familiares ou amigos (16.2%). Na sua maioria os idosos
recebiam visitas exclusivas da família (74.9%). Apenas uma minoria não recebia
visitas na instituição, ficando numa situação de maior vulnerabilidade e
isolamento, constatando-se que maioritariamente os idosos tinham suporte,
sobretudo familiar.
Resultados e discussão
Na sua maioria (86.0%), os idosos afirmaram gostar de residir na instituição,
tendo uma minoria (14.0%) verbalizado não gostar de estar neste contexto, sendo
as diferenças estatisticamente significativas (χ2
=70.618; g.l.=1; p=.001).
No seu quotidiano, 55.1% dos idosos tinham passatempos e 44.9% referiram não
ter qualquer atividade individual, não sendo as diferenças encontradas
estatisticamente significativas (χ2
=1.441; g.l.=1; p=.230). Os passatempos referidos pelos idosos foram vários,
nomeadamente a leitura (14.0%), ver televisão (8.1%), fazer costura (8.1%) e
ocupar o tempo com jogos (5.1%).
No referente à distribuição dos níveis de Depressão dos idosos resultante da
aplicação da Escala de Depressão Geriátrica, observou-se que 55.1% dos idosos
apresentavam sinais de depressão ligeira, 10.3% sinais de depressão grave, e
34.6% não apresentavam sintomatologia depressiva (cf. Tabela_3). Encontraram-se
diferenças estatisticamente significativas (χ2
=41.132; g.l.=2; p=.001). De salientar que não se encontraram diferenças
estatisticamente significativas por sexo (χ2
=1.160; g.l.=1; p=.282), idade (χ2
=0.001; g.l.=1; p=.980) ou estado civil (χ2
=6.227; g.l.=3; p=.101). De acordo com os resultados, constatou-se que a
maioria dos idosos (65.4%) apresentava sinais de depressão, o que pode
constituir um fator de risco, na medida em que podem ser mais vulneráveis às
situações de violência. Gil e col. (2014) observaram uma associação
estatisticamente significativa entre o estado de saúde física e mental e a
ocorrência de violência global (p=0.002). Na população com sintomas depressivos
a prevalência de violência (17.5%) foi superior ao dobro da estimada para a
população que não apresentou sintomas (8.3%).
No que se refere à distribuição dos níveis de dependência funcional dos idosos
e de acordo com os resultados obtidos na aplicação da Escala de Barthel, as
diferenças encontradas foram estatisticamente significativas (χ2
=43.632; g.l.=4; p=.001). Na funcionalidade, observou-se que a maioria dos
idosos apresentou um nível de dependência significativo (58.8%). Nos idosos
mais dependentes, foi superior a dependência média (22.1%), seguida da moderada
(14.7%) e por fim da severa e total, ambas com 11.0%. Apresentaram um grau de
dependência mínima 41.2% dos idosos (cf. Tabela_4).
Refira-se que não se encontraram diferenças estatisticamente significativas na
funcionalidade quanto ao sexo (χ2
=.872; g.l.=4; p=.929), idade (χ2
=7.398; g.l.=4; p=.116) e estado civil (χ2
=19.368; g.l.=12; p=.080).
Também em relação ao nível de funcionalidade Gil e col. (2014) identificaram
uma associação estatisticamente significativa entre o nível de funcionalidade e
a ocorrência de violência global (p<0.001). Assim, os idosos com necessidades
de ajuda das AVD apresentaram uma taxa de prevalência de ocorrência de
violência de 24.3% comparativamente aos sujeitos totalmente independentes com
10.1%. Os idosos do nosso estudo apresentam também este fator de risco no
referente a ser vítima de algum tipo de violência.
No que diz respeito à perceção que os idosos manifestaram sobre terem ou não
sido vítimas de violência, perpetrada por um familiar ou cuidador, a maioria
dos idosos (95.6%) respondeu negativamente e 4.4% indicaram que já haviam sido
vítimas deste fenómeno. As diferenças encontradas foram estatisticamente
significativas (χ2
=113.059; g.l.=1; p=.001).
Quando se particularizou as respostas e se apresentou aos idosos múltiplos
indicadores de violência (cf. Tabela_5), esta percentagem subiu para os 33.1%,
tendo-se encontrado diferenças estatisticamente significativas (χ2
=15.559; g.l.=1; p=.001).
As situações de polivitimização que ocorrem são patentes no nosso estudo. Dos
45 idosos vítimas de violência, 35 sofreram um tipo de fenómeno e 10 foram
vítimas de dois ou mais tipos de violência. Uma vez que dos 45 idosos vítimas
de violência, 10 sofreram mais de um tipo, registou-se um total de 58 queixas
de violência. No estudo de Gil e col. (2014) 82.8% dos idosos reportaram 2 a 3
condutas de violência de que foram vítimas.
Nas queixas, a violência económica/financeira foi a mais representada, já que
do total da amostra, 22.8% destas situações foram sinalizadas, envolvendo
sobretudo desaparecimento de objetos/valores pessoais dentro da instituição.
Por outro lado, 8.8% dos casos incluíram violência psicológica, 8.1% situações
de negligência e 2.9% episódios de violência física. Não foi identificado
qualquer tipo de violência sexual, tendo todos os idosos respondido
negativamente a qualquer um dos possíveis indicadores. Contrariamente a outros
estudos não é a violência psicológica a que surge como mais prevalente, ainda
que ela se apresente em segundo lugar (cf. Tabela_5). A violência financeira e
a psicológica constituem efetivamente os dois principais tipos de violência
relatados pela população portuguesa com mais de 60 anos.
Estes resultados alertam para a necessidade de consciencializar esta população
dos direitos que tem, dando-lhe voz e incentivando-a a identificar indicadores
de violência. O apoio social pode, nestes casos, representar um fator chave na
redução e prevenção da vulnerabilidade e isolamento das pessoas idosas, bem
como o risco de maus-tratos (Melchiorre et al., 2013). De salientar que não se
verificaram diferenças estatisticamente significativas no referente à
escolaridade (χ2
=18.828; g.l.=11; p=.064), sexo (χ2
=0.030; g.l.=1; p=.864), idade (χ2
=1,119; g.l.=1; p=.290) e estado civil (χ2
=3.153; g.l.=3; p=.369), contrariamente a outros estudos, nomeadamente o de Gil
e col. (2014) em que os autores encontraram estimativas de prevalência de
violência para as mulheres do grupo etário (60-69 anos) com 17.5%
comparativamente aos homens do mesmo grupo etário com 6.3%. Invertendo-se estes
resultados no grupo etário superior a 80 anos, em que os homens evidenciaram
uma estimativa de 23.1% e as mulheres 21.5%. No referido estudo a prevalência
da violência global foi superior no sexo feminino (F=15.0% e M=8.8%).
Relativamente às participações das ocorrências de situações de violência,
verificou-se ter havido por parte dos idosos uma atitude passiva, não tendo a
maioria das situações chegado ao conhecimento dos responsáveis das
instituições. Dos 45 idosos que sofreram violência, 13 (28.9%) apresentaram
queixa, sobretudo interna, como por exemplo à direção técnica do lar (84.6%).
Verificou-se também que os idosos não apresentaram queixa à sua família de
situações ocorridas na instituição, optando por relatar as situações apenas
internamente ou junto de outras entidades. Estes resultados vão na mesma linha
de outros estudos, sendo que 13.5% da população vítima de violência, no estudo
de Gil e col. (2014) recusou identificar o agressor, o que segundo os autores
pode indicar sentimentos de inibição para a denúncia, e 64.9% das vítimas de
crime e violência não falou, nem contactou ou apresentou queixa sobre a
situação vivida. Não podemos esquecer a fragilidade em que se encontram estes
idosos, normalmente sem a possibilidade de recorrerem a outros, que não os que
com eles lidam no quotidiano. De salientar que uma percentagem importante dos
agressores coabita com a vítima, sendo os laços afetivos com o agressor um dos
motivos para a não apresentação de queixa.
Considerações finais
Os resultados obtidos sugerem que nos idosos do concelho de Oeiras
institucionalizados, sem défice cognitivo, há satisfação relativamente à
integração no contexto de lar. Os idosos que participaram neste estudo, com
idades compreendidas entre os 58 e os 104 anos, na sua maioria viúvos, com
escolaridade maioritariamente compreendida entre o 1º e o 3º ciclo, e
institucionalizados na sua maioria entre 1 a 3 anos, afirmaram (86.0%) estar
satisfeitos com a instituição na qual se encontravam. À semelhança de estudos
já referidos, com resultados idênticos, também estes idosos, apesar de
satisfeitos com a instituição, apresentaram sintomatologia depressiva. Ainda
que a depressão possa ter sido desencadeada pela institucionalização nalguns
casos, nomeadamente pela falta de autonomia funcional que afetava 58,8% dos
idosos, as referências ao apoio familiar através das visitas, com diferentes
periodicidades, feitas por 87.5% sugere que a institucionalização na maioria
dos casos não terá conduzido a situações de isolamento e exclusão social.
Efetivamente se a resposta social tiver qualidade, poderá, indo ao encontro das
necessidades do idoso, possibilitar-lhe ter uma representação da instituição
que não seja a de resposta de último recurso, mas sim um novo contexto
habitacional, no qual se estabelecem novas relações sociais, se combate a
solidão, e se tem assistência com humanização, aos mais diversos níveis.
A nível de ocupação de tempos livres, as referências feitas pelos idosos foram
muito heterogéneas. Alguns atribuem importância à ocupação dos tempos livres,
praticando diferentes atividades, enquanto outros não. Assim, verificou-se que
nem todos os idosos ocupam o seu tempo, pelo que urge dinamizar mais estes
contextos e fomentar a iniciativa do idoso na manutenção de hábitos e rotinas,
desenvolvidas individualmente e/ou em grupo, combatendo-se situações de apatia
e desinvestimento na realidade circundante. Considera-se importante
sensibilizar os idosos designadamente, para os benefícios da estimulação
cognitiva, bem como motivá-los para um envelhecer ativo.
Os níveis de depressão sinalizados em 65.4% dos idosos, a dependência funcional
em 58.8% e as situações de violência em 33.1%, não podem ser ignorados, pois
como referimos, nos idosos institucionalizados portadores de depressão, os
riscos de morte aumentam e, por outro lado, os idosos com dependência
funcional, pelas limitações no seu quotidiano, terão o seu bem-estar e a
qualidade de vida diminuídos. O fator funcionalidade pode também contribuir
para os níveis de depressão encontrados na nossa amostra.
Ainda que não se tenham obtido resultados que possam apontar fatores de risco
ou protetores em relação à violência contra idosos, com os mesmos níveis de
confiança que outros estudos referem, ao que não será eventualmente estranho
estarmos perante uma população institucionalizada e não em contexto familiar,
como nos diferentes estudos referidos, nalguns idosos institucionalizados,
sinalizaram-se expressivos sinais de depressão, dependência e vitimização de
violência, estando este último fenómeno envolto em desconhecimento e
passividade, à semelhança do referido na literatura.
No que se refere aos processos de vitimização, constatou-se que os idosos
identificaram com maior facilidade, ter sido vítimas de violência, mediante a
apresentação concreta de indicadores, do que através de uma pergunta geral
sobre este fenómeno, o que vem ao encontro da literatura, e sugere que ainda
existe desconhecimento nesta população sobre os seus direitos em geral e sobre
esta temática em particular.
A violência financeira referenciada por 22.8% dos idosos pode tornar-se mais
grave atendendo a que a gestão monetária é assegurada principalmente com ajuda
(80.9%) geralmente dos filhos (48.5%). À semelhança de outros estudos, também
neste se encontrou maioritariamente passividade face às ocorrências, com apenas
uma minoria dos idosos (28.9%) a apresentar queixa.
Tratando-se de dados agrupados, as conclusões deste estudo não se referem a
lares específicos, pelo que os resultados obtidos não devem ser atribuídos a
nenhuma das entidades em particular.
Estes fenómenos isolados, mas sobretudo interagindo em simultâneo, podem
comprometer um envelhecimento com bem-estar e qualidade. Alguns idosos
continuam a desconhecer os seus direitos de uma forma geral, pelo que,
situações de violência ocorrem e podem ocorrer sem que o idoso faça queixa, não
só por receio de represálias, como também por falta de identificação da própria
situação de abuso/maltrato. Quando sinalizados no contexto institucional, devem
ser monitorizados e tomadas ações preventivas, enquanto boa prática no âmbito
da saúde, com instrumentos de rastreio, mas também de avaliação mais exaustiva,
sendo fulcrais no delineamento do plano de intervenção com o idoso.
Uma das preocupações do nosso estudo foi a de contribuir para uma reflexão
sobre questões ligadas à terceira idade, nomeadamente no que se refere à
institucionalização em lares, no caso vertente, numa amostra recolhida no
concelho de Oeiras. Com a apresentação destes resultados têm os autores a
expectativa de que possam ser tomadas medidas corretivas e preventivas,
nomeadamente no concelho de Oeiras, no sentido de obviar situações que se
constituem como de extrema gravidade, para uma população cujas defesas são no
limiar da vida muito exíguas.
A violência é uma importante causa de morbilidade e mortalidade em adultos mais
velhos, como foi referido. Assim, seria importante que os técnicos,
designadamente os médicos de família, em virtude do seu contacto privilegiado e
forte relação de confiança estabelecida ao longo do tempo, estivessem atentos a
esta problemática. Conhecer a prevalência e a natureza fenomenológica dos
episódios de abuso, bem como definir uma linguagem comum de identificação da
violência nas pessoas idosas, é fundamental para desenvolver os meios de
prevenção primária deste género de situações.
Neste sentido, considera-se importante como foi referido, a criação de um banco
nacional de dados sobre encaminhamentos de casos de suspeita de violência sobre
idosos, bem como a conjugação desses dados entre Estados Europeus, no sentido
de fornecer informações valiosas sobre abuso de idosos.
Só quando se assumir que a prevenção da dependência, depressão e violência nas
pessoas idosas, são questões prioritárias, que não podem mais ser descuradas e
carecem de uma resposta multidisciplinar - urgente e articulada -
poderemos pedir às pessoas idosas que identifiquem e exijam melhores cuidados,
denunciando a sua falta, garantindo que podem envelhecer em segurança. Têm esse
direito e devemos-lhes isso.