Sugestionabilidade em pessoas idosas: Um estudo com a Escala de
Sugestionabilidade de Gudjonsson (GSS 1)
INTRODUÇÃO
No início das investigações em psicologia do testemunho ocular, diversos
autores começaram por se centrar na evocação, por parte da vítima, de ações e
acontecimentos (Wells, Memon, & Penrod, 2006). Nos trabalhos desenvolvidos
nos anos 70, a atenção dos investigadores passou também a direcionar-se para a
identificação ou reconhecimento de pessoas. Durante esse mesmo período, na
recolha de relatos de acontecimentos e factos, a influência de variáveis ditas
mais sociais, tais como a sugestionabilidade interrogativa foi considerada um
tema relevante na investigação. Este tipo de sugestionabilidade refere-se à
aceitação de informação que surge num contexto de interação próxima envolvendo
a colocação de perguntas conduzindo, subsequente- mente, à modificação de
respostas por parte do indivíduo interrogado (Gudjonsson, 1997). Reconheceu-se,
ainda, que diversas capacidades podem afetar o comportamento na sala de
interrogatório como, por exemplo, a tomada de decisão, perceção, capacidade de
julgar, conheci- mento e perceção dos procedimentos legais (Cauffman &
Steinberg, 2000; Modecki, 2008). No que diz respeito à sugestionabilidade
interrogativa, Gudjonsson (2003) defende que no seu estudo se deva seguir uma
abordagem que considere as diferenças individuais, englobando diferentes
fatores cognitivos e de personalidade, ao invés de se centrar num único
mecanismo explicativo (Bruck, Ceci, & Hemmbrooke, 2002).
Considerando a importância demográfica, social e humana da população idosa e de
um número muito reduzido de estudos publicados específicos no âmbito forense
sobre esta faixa etária, procurou-se implementar um estudo empírico sobre a
sugestionabilidade interrogativa nesta população. É conhecido que situações
como violência física, psicológica, sexual, negligência e abusos de diversa
natureza contra as pessoas idosas estão a aumentar e/ou vão sendo mais
participadas, engrossando o rol de investigações e trâmites criminais que
envolvem este tipo de população. Estas situações ocasionam custos elevados de
natureza individual (nomeadamente, ao nível do funcionamento psíquico), social
e económica, sejam os sujeitos vítimas de violência ou testemunhas (Krug,
Mercy, Dahlberg, & Zwi, 2002). Ainda a este respeito, é expetável que, nos
próximos anos, os idosos se tornem também as testemunhas mais frequentes de
crimes e acidentes (cf. Mueller-Johnson & Ceci, 2007).
Destarte, torna-se cada vez mais importante avaliar a testemunha idosa e
determinar a validade e veracidade do seu depoimento. Atualmente, ainda
persiste um conhecimento muito limitado sobre este tipo de testemunhas, havendo
poucas investigações publicadas sobre como, e em que grau, os idosos são
vulneráveis a questões capciosas ou sugestivas (Cohen & Faulkner, 1989;
Karpel, Hoyer, & Toglia, 2001; Loftus, Levidow, & Duensing, 1992;
Mitchell, Johnson, & Mather, 2003).
A literatura revela, também, que na sociedade em geral existem vários esquemas
mentais sobre os idosos que incluem quer crenças positivas, quer negativas
(Kwong See, Hoffman, & Wood, 2001). O aumento da idade dos adultos é muitas
vezes percebido como associado a qualidades positivas, por exemplo, a
honestidade, sinceridade (Ryan, Szechtman, & Bodkin, 1992) e negativas,
como a fraca memória (Guo, Erber, & Szuchman, 1999). Estereótipos
semelhantes foram ainda revelados por estudos que analisaram as atitudes
perante as testemunhas idosas (Ross, Dunning, Toglia, & Ceci, 1990).
Contudo, várias investigações indicam que existem variáveis de natureza
cognitiva que não são necessariamente afetadas pelo processo de envelhecimento
(Crawford, Parker, & Besson, 1988), apontando também para diferenças
reduzidas entre adultos mais novos e idosos, relativamente a determinadas áreas
cognitivas (Craik, 2000; Pinto, 1999) como, por exemplo, o conhecimento de
vocabulário e outros aspetos da memória semântica.
Até aos dias de hoje, a investigação sobre esta faixa etária no contexto
forense, concentrou-se sobretudo, e quase exclusivamente, nas perceções dos
juízes sobre as testemunhas idosas (Brimacombe, Jung, Garrioch, & Allison,
2003; Kwong See, Hoffman, & Wood, 2001). Contudo, é igualmente importante
considerar as atitudes dos órgãos de polícia criminal, já que são eles a
primeira autoridade a estar em contacto com as testemunhas e a interrogá-las.
Reppucci, Meyer e Kostelnik (2007) concluíram junto de profissionais de polícia
que estes não reconhecem que o uso de questões sugestivas tem efeitos
diferenciados em função da idade, no que diz respeito à probabilidade de obter
respostas pouco precisas ou até mesmo falsas. Por exemplo, se um polícia
acreditar que uma testemunha idosa não pode fornecer um testemunho fidedigno,
então esta crença poderá ter um impacto negativo no rumo da investigação
forense. Neste âmbito, Yarmey e Jones (1982) analisaram os fatores (idade,
ansiedade, raça/etnia) que influenciam os depoimentos de testemunhas, tendo
solicitado a polícias canadianos, psicólogos peritos, advogados, juízes,
estudantes e pessoas da população em geral, que considerassem as capacidades de
uma testemunha idosa para fazer a descrição de um crime. Concluíram que a
população em geral, bem como a maior parte dos intervenientes judiciais, tinham
um maior número de perceções negativas sobre a competência de uma testemunha
idosa para prestar um testemunho fidedigno.
Apesar de existir pouca investigação sobre os fatores sociais e
interindividuais relacionados com a sugestionabilidade dos idosos, há algumas
razões que poderão justificar o facto das pessoas nesta faixa etária poderem
ser mais sugestionáveis do que os adultos mais novos. É que, à medida que a
idade aumenta, o desempenho da memória episódica diminui (Balota, Dolan, &
Duchek, 2000; Haaland, Price, & Larue, 2003; Lieberman, 2002; Pinto, 1999;
Verhaeghen & Salthouse, 1997), bem como a capacidade de memória de trabalho
(Gaonac`h & Larigauderie, 2000) e as funções executivas (Ardila, Pinela,
& Rosselli, 2000; Rodríguez-Aranda & Martinussen, 2006). Note-se que as
diferenças observadas na memória episódica dependem das estratégias de
recuperação utilizadas: quando a memória é avaliada através do reconhecimento,
o decréscimo do desempenho nos idosos é pequeno comparativamente ao que sucede
com a evocação livre (e.g., Craik, Byrd, & Swanson, 1987). Mas, os relatos
de testemunhas oculares, além de se basearem, sobretudo, na memória episódica,
ocorrem num formato de evocação livre. Foi mostrado que a sugestionabilidade
está negativamente correlacionada com a memória do item, ou seja, a memória que
diz respeito à informação sobre o conteúdo de um episódio (Liebmann et al.,
2002). Também a memória da fonte da informação recordada, a qual é parte
integrante da memória episódica, diminui com a idade (Hashtroudi, Johnson,
& Chrosniak, 1989). Assim, comparativamente com os adultos mais novos, os
idosos revelam mais incorreções de memória quando tomam uma decisão sobre se um
determinado facto foi apresentado visual ou oralmente (McIntyre & Craik,
1987), em vídeo ou em fotografia (Schacter, Koutstaall, Gross, Johnson, &
Angell, 1997) ou, quando ouviram um discurso discordante de uma pessoa
relativamente ao de uma outra, quem disse o quê (Ferguson, Hashtroudi, &
Johnson, 1992). Neste seguimento, considerando os resultados na literatura que
indicam que os idosos cometem mais erros (de omissão e de intrusão) na evocação
baseada na memória episódica e que a sua competência para identificar a fonte
de informação é menor quando comparados com os adultos mais novos, poder-se-ia
concluir que eles seriam mais sugestionáveis do que estes últimos. Neste
seguimento, conclui o estudo de Roediger e Geraci (2007) que os idosos, devido
ao aumento da idade ou a doenças neurodegenerativas, tornam-se mais suscetíveis
à sugestão.
Considere-se ainda que, alguns estudos (Gudjonsson, 1983, 1988; Kizilbash,
Vanderploeg, & Curtis, 2002) revelaram que a presença da ansiedade como
traço de personalidade faz com que as pessoas se tornem apreensivas diante de
várias situações, apresentando baixa autoestima e vulnerabilidade. Indivíduos
ansiosos possuem menor capacidade de atenção para tarefas e, portanto,
apresentam um pior desempenho em atividades que envolvam grande sobrecarga da
memória de trabalho (Kizilbash et al., 2002).
Vários estudos têm apontado que as condenações injustas podem resultar de
falsas confissões e de vulnerabilidades psicológicas e, neste contexto, Corre
(1995) defende a importância de se considerar, no âmbito de um processo
judicial, as questões da sugestionabilidade, condescendência, aquiescência e
perturbação da personalidade, como fatores que podem tornar uma confissão
duvidosa e pouco fiável. De acordo com Gudjonsson (1991), a vulnerabilidade à
sugestão pode não resultar necessariamente numa confissão falsa. Além disso,
este tipo de confissão não decorre apenas de um único fator considerado
isoladamente. As características psicológicas e o estado mental de um indivíduo
interagem com muitas outras variáveis, incluindo a gravidade e a natureza da
alegada ofensa, as circunstâncias e a natureza do interrogatório (Bain, Baxter,
& Ballantyne, 2007; Bain, Baxter, & Fellowes,2004), as experiências
subjetivas e a interpretação feita pelo sujeito. Um contexto de entrevista
distante e confrontativo, aumenta a pressão social, a distância interpessoal
(Gudjonsson, 2003; Gudjonsson & Clark, 1986), incrementando os níveis de
sugestionabilidade (Bain, Baxter, & Ballantyne, 2007; Bain, Baxter, &
Fellowes,2004; Baxter & Boon, 2000).
No estudo de Cohen e Faulkner (1989), os autores concluíram que os adultos
idosos são mais afetados pela informação capciosa do que os adultos com menos
idade. Contudo, existem outros estudos que não encontraram diferenças ao nível
da sugestionabilidade entre adultos mais novos e idosos (Coxon & Valentine,
1997; Gabbert, Memon, & Allan, 2003; Searcy, Bartlett, & Memon, 2000).
Os poucos resultados de estudos com as Escalas de Sugestionabilidade de
Gudjonsson (Gudjonsson Suggestibility Scales: GSS 1 e 2; Gudjonsson, 1997) com
idosos são, também, contraditórios. Polczyk et al. (2004) verificaram que os
adultos idosos eram mais influenciados pela formulação sugestiva das questões
colocadas do que os adultos mais novos; contudo, esta diferença entre os dois
grupos não foi observada após coerção decorrente de feedback negativo. No
entanto, Mueller-Johnson e Ceci (2007), com o mesmo instrumento de avaliação da
sugestionabilidade, não encontraram quaisquer diferenças nos resultados entre
idosos e adultos mais novos. Já no estudo de Pires (2011), os adultos idosos
mostraram-se mais sugestionáveis do que os adultos com menos de 65 anos, em
todos os escores da GSS 1, exceto para Mudança (número de respostas que o
indivíduo altera a seguir à apresentação de feedback negativo).
O presente trabalho teve como principal objetivo identificar e analisar
diferenças entre adultos e idosos ao nível da sugestionabilidade interrogativa,
bem como conhecer alguns dos fatores que podem influenciar a sugestionabilidade
interrogativa nas pessoas idosas, designadamente a memória, inteligência e
ansiedade. No que respeita a estes fatores, é esperada uma relação positiva
entre a memória e a inteligência, por um lado e a sugestionabilidade, por
outro, e uma relação negativa entre a ansiedade e a sugestionabilidade.
MÉTODO
Participantes
Neste estudo são analisados os resultados de 52 idosos, sem demência, com
idades entre os 78 e os 83 anos (M=79.96, DP=1.77) e o mesmo número de adultos
mais novos, com uma amplitude de idade entre os 42 e os 52 anos (M=47.54,
DP=3.63). Os participantes adultos mais novos (67% mulheres e 33% homens), com
escolaridade equivalente ao 4º ano, foram predominantemente recrutados em
cursos de formação profissional de dois centros de formação profissional da
Delegação Centro do Instituto de Emprego e Formação Profissional. Os
participantes idosos (76% mulheres e 24% homens) foram recrutados em duas
Instituições Privadas de Solidariedade Social, também da zona centro do país,
tendo 90,4% 4 anos de escolaridade e 9,6% frequência do 4º ano. A amostra foi
recolhida no primeiro trimestre do ano de 2008.
Instrumentos
No grupo de idosos foi administrado, além da Escala de Sugestionabilidade de
Gudjonsson 11 (Gudjonsson, 1997), o Mini Mental State Examination ' (MMSE;
Folstein, Folstein & McHugh, 1975; normas para a população portuguesa de
Guerreiro, 1998), Fluência Verbal (fluência de categorias: animais e
profissões), Subteste de Vocabulário e Memória de Dígitos (Escala de
Inteligência de Wechsler para Adultos ' 3ª edição; WAIS ' III; Wechsler, 1997,
2008), Inventário de Ansiedade Estado-Traço para Adultos (STAI; Spielberger,
1983, adaptação portuguesa de Silva & Campos, 1999), Matrizes Coloridas de
Raven (MPCR; Raven, 1956; aferição portuguesa de Simões, 2000, 2004). No grupo
de adultos mais novos foram administrados os mesmos instru- mentos, exceto o
MMSE e em vez das MPCR aplicaram-se as Matrizes Estandardizadas de Raven (MER;
Raven, 1958; Raven, Court, & Raven, 1996). Descreve-se brevemente cada um
destes instrumentos.
Escala de Sugestionabilidade de Gudjonsson
A Escala de Sugestionabilidade de Gudjonsson (GSS) é um instrumento de relato-
memória que avalia as diferenças individuais ao nível da sugestionabilidade
interrogativa (Gudjonsson, 1984), existindo em duas formas paralelas: a GSS 1
(usada neste estudo) e a GSS 2. Este instrumento implica a audição de uma
história, que depois tem de ser evocada, imediatamente e depois de um
determinado intervalo de tempo (cerca de 50 minutos). Por último, o examinando
responde a 20 questões das quais 15 são capciosas. Seguidamente, diz-se ao
examinando que este cometeu alguns erros e que lhe vão ser colocadas de novo as
questões, supostamente para a obtenção de uma maior correção e rigor, tratando-
se assim, da aplicação de feedback negativo.
No que concerne à cotação da GSS 1, o número de evocações 1 e 2, evocação
imediata e diferida, respetivamente, diz respeito ao número de aspetos/
acontecimentos que o sujeito é capaz de recordar. O número de distorções
refere-se a enviesamentos relacionados com os aconteci- mentos relatados e
fabricações aos aspetos fantasiados e produzidos pelo sujeito. Quanto ao número
total de confabulações, o valor é obtido pela soma das distorções e
fabricações, em cada um dos dois momentos de evocação. No que diz respeito à
sugestionabilidade interrogativa propriamente dita, a GSS permite obter os
seguintes resultados: Cedência 1 (respostas de aceitação de informação
incorreta contida nas 15 questões sugestivas colocadas pela primeira vez),
Cedência 2 (respostas de aceitação de informação incorreta incluída nas 15
questões sugestivas quando colocadas pela segunda vez, após feedback negativo),
Mudança (respostas que foram alteradas, independentemente de passarem a ser ou
não corretas, após feedback negativo; refere-se à totalidade das questões
colocadas, isto é, às 20 perguntas) e Sugestionabilidade Total (somatório dos
resultados obtidos em Cedência 1 e em Mudança).
Vários estudos foram realizados no sentido de avaliar as propriedades
psicométricas da GSS. Numa análise global, estes estudos verificaram que esta
escala apresenta suficiente consistência interna e estabilidade teste-reteste
(Gudjonsson, 1992).
Mini Mental State Examination
O Mini Mental State Examination (MMSE; Folstein, Folstein, & McHugh, 1975)
é uma medida breve do estado cognitivo em sujeitos com idade superior a 65
anos. É usado na avaliação do grau de deterioração cognitiva, de severidade de
défices cognitivos e evolução das mudanças cognitivas que ocorrem num indivíduo
ao longo do tempo.
Este instrumento demonstra validade e fidelidade em populações psiquiátricas,
neurológicas e geriátricas. É composto por 5 testes com as seguintes
designações: orientação, atenção e cálculo, evocação, retençãoe linguagem. Tem
no total 30 questões e comporta tarefas que implicam compreensão, orientação
temporal, orientação espacial, fixação, atenção e cálculo, memória, nomeação,
repetição, compreensão, leitura, escrita e desenho.
De acordo com os estudos de Guerreiro, Silva e Botelho (1994), considera-se que
um sujeito apresenta um défice cognitivo nas seguintes condições: pontuação
total inferior ou igual a 15, se for analfabeto; menor ou igual a 22, se a
escolaridade for de 1 a 11 anos e até 27 pontos inclusive, no caso do nível de
escolaridade ser superior a 11 anos.
Fluência Verbal Semântica
Esta prova retirada da BANC (Bateria de Avaliação Neuropsicológica de Coimbra),
que habitualmente é considerada no âmbito do estudo das funções executivas
(Ardila et al., 2000) e/ou da memória de trabalho (Gaonac'h & Larigauderie,
2000), consiste na evocação por parte do sujeito, do maior número possível de
vocábulos das categorias animais e profissões, num período temporal de 1
minuto. Com a aplicação deste teste, pode-se avaliar, de um modo mais
abrangente, alguns aspetos do desempenho cognitivo mais especificamente, número
de vocábulos de cada categoria, número de palavras repetidas, média de cada
agrupamento e alternância em cada uma das categorias.
Subtestes Memória de Dígitos e Vocabulário
Estes subtestes pertencem à WAIS-III (Wechsler Adults Intelligence Scale '
Wechsler, 1997/2008). A Memória de Dígitos consiste numa tarefa simples de
memória importante na avaliação de sujeitos mesmo com baixa escolaridade e
constitui uma medida rápida do fator não intelectivo nomeadamente, atenção,
concentração ou resistência à distração. Avalia também a memória auditiva
imediata ou memória a curto prazo. Esta prova é constituída por dois tipos de
tarefas: dígitos em ordem direta e dígitos em ordem inversa. O examinando
repete oralmente duas séries de dígitos, uma em ordem direta (nove séries de
dígitos) e outra em ordem inversa (oito séries de dígitos).
O subteste Vocabulário consiste na definição de palavras e avalia a
familiaridade do sujeito com as palavras bem como a sua capacidade para se
expressar, sendo deste modo um elemento importante na avaliação da inteligência
verbal. É um dos subtestes da WAIS-III com melhor fiabilidade e é constituído
por 33 palavras com grau crescente de dificuldade, sendo que cada uma das
definições do sujeito é pontuada com 0, 1 ou 2 pontos, consoante a completude
da resposta dada. A pontuação obtida pelo sujeito pode ir até aos 66 pontos.
Inventário de Ansiedade Estado-Traço
O Inventário de Ansiedade Estado-Traço (STAI ' Forma Y) de Spielberger
(Spielberger, Gorsuch, Lushene, Vagg, & Jacobs, 1983) é constituído pelos
itens que permitiram uma melhor diferenciação entre a depressão e a ansiedade.
Neste estudo utilizou-se a forma Y do STAI na adaptação portuguesa (Silva &
Santos, 1997).
Esta escala de autoavaliação composta por 40 itens é constituída por duas
subescalas: escala Y1 ' que avalia a ansiedade-estado (o modo como o indivíduo
se sente no momento ' 20 itens); e escala Y2 que avalia a ansiedade-traço (o
modo como o indivíduo se sente habitualmente ' 20 itens). No que respeita à
cotação, cada item é avaliado numa escala de 4 pontos (1=ausência de ansiedade
estado; 2=presença de ansiedade estado; 3=ausência de ansiedade traço e
4=presença de ansiedade traço), sendo a pontuação final proporcional ao nível
de ansiedade do sujeito.
As pontuações de cada escala, ansiedade-estado e ansiedade-traço, variam entre
os 20 e os 80 pontos. Para cada item existe uma pontuação correspondente a cada
afirmação: nada (1), um pouco (2), moderadamente (3) e muito (4) para a escala
de ansiedade-estado (Y-1) e quase nada (1), algumas vezes (2), frequentemente
(3) e quase sempre (4) para a escala de ansiedade-traço (Y-2). A cada categoria
corresponde a pontuação referida para cada item, pela ordem descrita
(Spielberger et al., 1983).
As qualidades psicométricas da versão portuguesa revelaram uma consistência
interna elevada estando o alfa de Cronbach no intervalo de 0.89 a 0.95. A
correlação teste-reteste, com um intervalo de 7 a 10 dias, apresentou valores
altos na escala de Ansiedade-Traço e valores moderados na escala de ansiedade-
estado (Spielberger, 1983, como citado em Virela, Arbona, & Novy, 1994).
Matrizes Progressivas Coloridas e Estandardizadas de Raven
Os testes das Matrizes de Raven (1956, 1958) constituem um instrumento de
avaliação da inteligência não verbal, no qual os sujeitos têm de selecionar uma
de entre várias opções de resposta, de modo a completarem a sequência lógica
apresentada. Trata-se de um instrumento de crucial importância na avaliação do
desempenho cognitivo ao nível não verbal, pressupondo complementarmente,
competências mnésicas e de raciocínio não verbal. Por outro lado, a resposta a
estas provas pode assumir um carácter lúdico, o que se tornou uma mais-valia na
aplicação ao tipo de participantes envolvidos neste estudo.
As MER (Raven et al., 1996) incluem em 60 itens organizados em cinco grupos de
objetos similares de alguma forma (A, B, C, D e E) com 12 itens cada um
enquanto os itens das MPCR (Simões, 2000, 2004) estão divididos por três
séries: A, AB e B. Em cada item falta um objeto e, no final da página, uma peça
deve ser escolhida como a que melhor completa a figura.
A análise dos itens mostra que as Matrizes Progressivas Coloridas de Raven
(MPCR) e as Matrizes Estandardizadas de Raven (MER) contêm itens com boas
qualidades psicométricas, pois a maioria deles apresenta a denominada validade
do item, isto é, constituem uma boa representação do constructo a que se
referem, o que é expresso pela sua carga fatorial no respetivo fator.
Procedimento
Após autorização expressa dos provedores das Casas da Misericórdia de Águeda e
Oliveira do Bairro e dos diretores dos Centros de Formação Profissional de
Águeda e Aveiro, onde decorreu a recolha de dados, foi explicado aos
participantes a natureza e o procedimento deste estudo, tendo-se obtido, um
consentimento informado por parte destes.
Todos os participantes foram avaliados individualmente, pela primeira autora,
tendo sido, no caso dos idosos, aplicados, num primeiro momento, os
instrumentos de avaliação da capacidade cognitiva e de ansiedade estado e traço
e, num último momento (cerca de duas semanas depois) foi aplicada a GSS 1.
Entre as duas fases de evocação da história que integra a GSS 1 administrou-se
o MMSE.
No grupo dos adultos mais novos, como já referido, foram aplicados os mesmos
instrumentos de avaliação, com exceção do MMSE e a versão utilizada das
Matrizes foi a Estandardizada (MER). Estes participantes responderam a todas as
provas numa única sessão.
Na administração da GSS 1, a história sobre um roubo foi previamente gravada e
ambos os grupos escutaram-na através de uns auscultadores. No final da audição,
foi pedido aos participantes que evocassem a história que tinham acabado de
ouvir. Decorridos cerca de 50 minutos, foi-lhes novamente solicitado que
descrevessem o acontecimento anteriormente escutado (evocação diferida). Depois
de concluída esta evocação, foram colocadas as 20 questões, 15 das quais
sugestivas, tendo o participante de responder sim (caso considerasse que o
conteúdo da questão estava correto), não (quando o conteúdo fosse reconhecido
como errado ou não correspondente ao que de facto tinha sucedido/escutado) ou
não sei (na situação de já não se recordar ou da informação pedida pela
questão não ter sido referida durante a audição da história).
Após as respostas a cada uma das 20 questões foi introduzido o feedback
negativo quanto à prestação dos participantes, que consistiu em dizer-lhes, de
modo afirmativo, que estes tinham cometido vários erros, sendo então necessário
prestar mais atenção às 20 questões que já tinham sido colocadas e que iriam
ser, de novo, repetidas.
Concluída a aplicação da GSS 1, foi comunicado aos participantes, qual o
verdadeiro objetivo da investigação (no início tinha-lhes sido dito que se
tratava de uma prova de avaliação da memória), tendo sido explicada a razão do
feedback negativo (submeter a pessoa a uma situação de pressão, sendo que esta
condição faz parte integrante da aplicação da escala). Foi ainda solicitado aos
participantes para não comentarem com outros os objetivos reais e orientações
da investigação, para um maior controlo de fatores externos.
RESULTADOS
Apresentam-se, em primeiro lugar, os resultados2 das análises relativas às
diferenças entre os grupos no que diz respeito às medidas de sugestionabilidade
interrogativa, cognição e ansiedade, e, a seguir, os resultados respeitantes ao
cálculo de correlações.
Diferenças na sugestionabilidade interrogativa
Para comparar os dois grupos de participantes no que diz respeito aos escores
Cedência 1, Cedência 2, Mudança e Sugestionabilidade Total na GSS 1, procedeu-
se ao cálculo da ANOVA univariada obtendo-se os seguintes resultados: F
(1,102)=6.60, p=.01, MSe=84.96, ?2=.06 para Cedência 1 (M=7.63, DP=4.02 e
M=5.83, DP=3.09, respetivamente para o grupo de idosos e para o grupo de
adultos); F(1,102)=2.20, p=.14, MSe=30.15, ?p2=.02 para Cedência 2 (M=8.77,
DP=3.87 e M=7.69, DP=3.53, para idosos e adultos, respetivamente); F
(1,102)=5.07, p=.03, MSe=38.16, ?2=.05 para Mudança (M=3.31, DP=2.7 e M=4.52,
DP=2.8, respetivamente idosos e adultos) e F(1,102)=0.79, p=.38, MSe=16.16,
?2=.01 para a Sugestionabilidade Total. Portanto, apenas foram registadas
diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos nos resultados
Cedência 1 e Mudança.
Diferenças na cognição e ansiedade
No que diz respeito aos desempenhos de ambos os grupos nos testes de Fluência
Verbal de categorias foram encontradas diferenças estatisticamente
significativas, [t(102)=5.94, p<.001, d=1.18; M=16.06, DP=4.22 e M=24.29,
DP=4.75, respetivamente, para o grupo de idosos e para o grupo de adultos],
Memória de Dígitos em sentido direto [t(102)=6.71, p<.001, d=1.33; M=7.06,
DP=1.45 e M=8.98, DP=1.48, respetivamente para o grupo de idosos e para o grupo
de adultos], Memória de Dígitos em sentido inverso [t(102)=3.45, p=.001, d=.68;
M=4.44, DP=1.65 e M=5.52, DP=1.53, grupo de idosos e grupo de adultos,
respectivamente], STAI ansiedade-estado [t(102)=4.29, p<.001, d=.85; M=31.33,
DP=4.66 e M=31.21, DP=4.57, para idosos e adultos, respectivamente] e STAI
ansiedade-traço [t(102)=4.75, p<.001, d=.94; M=31.06, DP=5.28 e M=35.75,
DP=4.77, respetivamente para o grupo de idosos e para o grupo de adultos].
Relativamente ao teste de Vocabulário, não foram observadas diferenças
estatisticamente significativas entre o grupo de idosos e adultos [t
(92,922)=.38, p=.705, d=.08, respetivamente M=33.75, DP=7.71 e M=34.25,
DP=5.58].
Os resultados obtidos nas duas formas das Matrizes de Raven (formas Colorida e
Estandardizada) foram convertidos em valores z, não tendo sido encontrada uma
diferença estatisticamente significativa entre ambos os grupos [t(51)=.014,
p=.99, d=.04]. Também não foram encontradas diferenças significativas, do ponto
de vista estatístico, entre os grupos no que diz respeito à evocação imediata
da história da GSS 1 [t(102)=1.09, p=.279, d=.04; respetivamente M=13.50,
DP=3.60 e M=14.33, DP=4.14] e à evocação diferida da mesma [t(102)=1.63,
p=.107, d=.32, respetivamente M=11.48, DP=3.47 e M=12.73, DP=4.31].
Correlações com a sugestionabilidade interrogativa
No Quadro_1 encontram-se os valores do cálculo do coeficiente de correlação de
Pearson da Sugestionabilidade Total com a cognição e com a ansiedade, para cada
um dos grupos de participantes.
Quanto a valores de correlação significativos do ponto de vista estatístico da
Sugestionabilidade Total na GSS 1 com as restantes variáveis foram observados
os seguintes (ver Quadro_1): evocação no MMSE [(r(50)=-.30, p=.030],
Vocabulário [r(50)=-.35, p<.001], Fluência Verbal total [r(50)=-
.39, p=.004], pontuação total nas MER [r(50)=-.39, p=.005], tempo de desempenho
nas MER [r(50)=.40, p=.003] no grupo de adultos mais novos; Memória de Dígitos
em sentido inverso [r(50)=-.32, p=.002], pontuação total nas MPCR [r(50)=-.28,
p=.045], tempo de desempenho nas MPCR [r(50)=.42, p=.002] no grupo de idosos.
Em ambos os grupos foram encontradas as seguintes correlações significativas:
evocação imediata [r(50)=-.35, p=.011] e evocação diferida na GSS 1 [r
(50)=-.31, p=.027], para os idosos e também evocação imediata na GSS 1 [r
(50)=-.33, p=.017] e evocação diferida na GSS 1 [r(50)=-.32, p=.019], para o
grupo de adultos mais novos.
DISCUSSÃO
Como referimos anteriormente, a literatura a respeito da sugestionabilidade
interrogativa nos idosos apresenta resultados que, para além de escassos, não
são consensuais. Tal como no presente estudo, também Mueller-Johnson e Ceci
(2007) não encontraram diferenças estatisticamente significativas entre idosos
e adultos mais novos no resultado global da GSS 1. Considerando os resultados
dos componentes desta escala, observa-se que as diferenças entre ambos os
grupos para Cedência 1 e Mudança são estatisticamente significativas, tendo-se
registado em Cedência 1 uma superioridade dos idosos relativamente ao observado
nos adultos mais novos e o inverso (resultado mais baixo nos idosos) no caso de
Mudança. Esta inversão nos resultados poderá estar subjacente à não deteção de
diferença significativa no que diz respeito à Sugestionabilidade Total, dado o
seu modo de cálculo (somatório de Cedência 1 com Mudança).
Ainda relativamente a este aspeto, considere-se que as circunstâncias e a
natureza de um interro- gatório (Bain et al., 2007; Bain et al., 2004), bem
como com o modo de comunicação do feedback negativo poderem ter influência nos
escores da GSS. Assim, levantou-se a hipótese de que a não observação de
significância estatística dos valores da Sugestionabilidade Total entre adultos
e idosos se poder dever, pelo menos em parte, ao facto de vários participantes
conhecerem previamente a investigadora que procedeu à administração da GSS, o
que poderá ter ocasionado, sem a entrevista- dora se aperceber, menor firmeza
na comunicação do feedback negativo. Sabe-se que um entrevistador que assume
uma postura distante, com comportamentos que apresentam alguma agres- sividade
ou atitudes do tipo confrontativo, esse modo de presença gera uma pressão
social mais forte e aumenta a distância interpessoal relativamente ao
entrevistado (Gudjonsson, 2003; Gudjonsson & Clark, 1986), inflacionando,
consequentemente, os seus níveis de sugestionabilidade interrogativa (Bain,
Baxter, & Ballantyne, 2007; Bain, Baxter, & Fellowes,2004; Baxter &
Boon, 2000).
Foi então averiguado no presente estudo se existiria uma diferença nos
resultados da Sugestio- nabilidade Total consoante os participantes conhecessem
ou não a investigadora. A diferença encontrada revelou-se marginalmente
significativa [t(50)=1.96, p=.056, d=.55; com M=9.89, DP=4.35 e M=12.48,
DP=5.18, para investigadora conhecida e investigadora desconhecida,
respectivamente] no grupo de idosos. No grupo de adultos mais novos, o teste
Ude Mann-Whitney mostrou que os participantes que conheciam (M=8.4, DP=3.78) ou
não (M=11.14, DP=4.05) previamente a investigadora diferiam quanto à
Sugestionabilidade Total: z=-2.19, p=.03. Observaram-se, portanto, neste grupo,
valores de sugestionabilidade mais baixos quando a investigadora era conhecida
dos participantes, o que poderá ser indicativo de que a comunicação do feedback
negativo poderá ter sido menos firme ou percecionada como tal, pelo que, em
estudos futuros, este problema deverá ser acautelado.
Relativamente às variáveis estudadas de natureza cognitiva, a não observação de
diferenças estatisticamente significativas entre ambos os grupos relativamente
ao desempenho no subteste de Vocabulário da WAIS-III está de acordo com a ideia
segundo a qual esta medida não seria afetada pelo processo de envelhecimento e
daí ser sugerida a sua utilização como um indicador de inteligência pré-mórbida
(Crawford et al., 1988). No que respeita a avaliação da memória a curto prazo
(Memória de Dígitos em sentido direto e em sentido inverso), os resultados
encontrados indicaram a existência de diferenças significativas entre os idosos
e os adultos mais novos apresentando menor desempenho os primeiros. Os
resultados na literatura, nem sempre concordantes, apontam, de um modo geral,
para diferenças reduzidas entre adultos e idosos, relativamente à memória a
curto prazo (Craik, 2000; Pinto, 1999). O desempenho mais baixo dos idosos no
teste de Fluência Verbal de categorias, considerado, por alguns autores, como
um instrumento de avaliação da memória de trabalho, mais especificamente do
componente executivo central (Gaonac'h & Larigauderie, 2000) e, por outros,
como teste das funções executivas (Ardila et al., 2000) está em consonância com
alguns resultados obtidos em diversos estudos (Rodríguez- Aranda &
Martinussen, 2006). Na análise do desempenho de memória a longo prazo (evocação
imediata e diferida da história incluída na GSS 1) não foram encontradas
diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos de
participantes. Este resultado não era esperado, pois este tipo de memória é
afetado no envelhecimento normal (Balota et al., 2000; Haaland et al., 2003;
Lieberman, 2002). No entanto, há a considerar que se trata da evocação de uma
história, em que a recordação do tema desta pode servir como pista para
auxiliar a evocação do conteúdo que lhe está associado. Além disso, os
participantes poderão também ter recorrido a esquemas presentes na memória
semântica para recordar a história e este tipo de memória não sofre declínio
com o aumento da idade dos adultos (Pinto, 1999). O valor significativo das
correlações entre evocações imediata e diferida e o valor de
sugestionabilidade, embora fraco, é concordante com a tendência referida por
vários autores, nomeadamente, Gudjonsson (1997), segundo a qual quanto maior
for o número de evocações, menor a vulnerabilidade à sugestão. Esta tendência é
ainda reforçada com a existência de uma relação negativa entre a evocação no
MMSE e o valor de sugestionabilidade apresentado pelos adultos idosos.
Quanto às medidas de ansiedade (STAI), os adultos idosos obtiveram pontuações
médias significativamente inferiores. Refira-se a este propósito, o facto de
vários dos participantes adultos mais novos se encontrarem numa situação de
desemprego, em cursos de formação profissional, o que poderá ter contribuído
para a existência de um nível mais elevado de ansiedade.
Atendendo apenas aos valores de correlação moderados (entre .40 e .69; cf.
Pestana & Gageiro, 2003), estes foram encontrados entre a
Sugestionabilidade Total e os tempos de realização nas medidas de inteligência
não verbal (MPCR e MER), podendo sugerir que a maior rapidez nestas provas
estaria relacionada com maior suscetibilidade para aceitar informação
sugestiva.
Desta forma, considerando que a todos os participantes idosos foi aplicado um
instrumento de rastreio de avaliação de estado mental (MMSE) integrando o
estudo apenas os que obtiveram desempenho considerado normal e que a maioria
dos participantes do grupo de adultos mais novos se encontrava num contexto de
desemprego, poder-se-ão melhor compreender as diferenças observadas entre os
grupos, na medida em que os níveis de ansiedade nos idosos seriam mais baixos e
a cognição necessária ao desempenho das tarefas seria semelhante à dos adultos
mais novos.
CONCLUSÕES
Tal como afirmaram Wells e Olson (2003), a psicologia tem um papel de relevo no
estudo e prevenção de condenações injustas, nomeadamente ao investigar a
memória de testemunhas oculares, esperando-se que proponha procedimentos para
minimizar o erro. A admissão em tribunal da prova testemunhal trouxe a
necessidade de validar e atestar os relatos das testemunhas combinada com uma
preocupação na forma de obtenção da prova. Perante os dados sobre a evolução
demográfica, é previsível que nos próximos anos os idosos estejam entre as
testemunhas mais frequentes de crimes e acidentes. O estudo da
sugestionabilidade interrogativa em idosos contribuirá, certamente, para
melhorar a avaliação da exatidão dos seus depoimentos e identificar aqueles
sujeitos que exigem um cuidado especial, durante os interrogatórios, dada a sua
vulnerabilidade a informação sugestiva.
O presente estudo centrou-se na tentativa de contribuir para o conhecimento
sobre a temática da sugestionabilidade interrogativa na população geriátrica,
procurou identificar e analisar a existência de diferenças entre estes e os
adultos mais novos. No que concerne aos principais resultados obtidos com a GSS
1 foram observadas diferenças estatisticamente significativas para Cedência 1 e
Mudança, embora não tivessem sido detetadas diferenças entre os grupos quanto à
Sugestionabilidade Total. Para este resultado global, como foi indicado, poderá
ter contribuído a inversão destes escores no grupo de idosos em relação ao
grupo de adultos mais novos e, em parte, o facto de a entrevistadora ser
conhecida de alguns dos participantes neste estudo.
Quanto à relação entre funcionamento cognitivo e sugestionabilidade (resultado
Sugestiona- bilidade Total da GSS 1), os resultados encontrados em ambos os
grupos etários apresentaram alguma similaridade. Assim, foram significativos os
resultados das correlações com o Vocabulário, Fluência Verbal e pontuação total
nas MER, bem como o tempo de realização nas mesmas, para o grupo de adultos
mais novos. Para o grupo de idosos, mostraram-se significativos os resultados
das correlações entre Sugestionabilidade Total, evocação do MMSE, Vocabulário,
Memória de
Dígitos (sentido inverso e direto) e Memória Dígitos pontuação total, e
pontuação total e tempo de realização nas MPCR.
Entre as limitações do presente estudo, além das amostras serem de
conveniência, salientamos a influência da comunicação do feedback negativo nos
resultados obtidos com a GSS 1. Neste contexto, é fundamental adoptar um
procedimento de firmeza. A circunstância deste poder não se ter verificado nos
casos em que os participantes eram conhecidos da entrevistadora poderá ter
influenciado de forma diferencial a comunicação do feedback negativo, a
experiência ansiógena e, consequentemente, o grau de sugestionabilidade total.
Este aspeto permite também sublinhar a sensibilidade dos resultados obtidos com
a GSS, por via do papel fulcral que estas escalas concedem à forma de
comunicação do feedback negativo e das circunstâncias de entrevista, em geral,
conforme já referido.
Neste estudo, vem reiterado o facto de a população idosa poder proferir
depoimentos credíveis, tal como a população adulta com menos idade. Contudo,
releva-se aqui a importância do controlo das circunstâncias de entrevista, das
quais poderá depender a veracidade e validade do testemunho do idoso cada vez
mais frequente, quer numa perspectiva de vítima quer de testemunha. Neste
âmbito, são necessários mais estudos nesta área, que permitam alicerçar
melhores práticas forenses.