Regulação emocional em adolescentes e seus pais: Da psicopatologia ao
funcionamento ótimo
INTRODUÇÃO
Os indivíduos não são agentes passivos que simplesmente experienciam emoções
(Kashdan, 2007). Diariamente são capazes de influenciar que tipo de emoções
têm, quando as têm e como as experienciam e expressam (Gross, Richards, &
John, 2006). Nas últimas três décadas, tem-se verificado um aumento do
interesse científico na emocionalidade humana e na importância da regulação das
emoções para a definição de trajetórias desenvolvimentais (Bariola, Gullone,
& Hughes, 2011; Morris, Silk, Steinberg, Myers, & Robinson, 2007).
Segundo a Psicologia Clínica e a Psicologia do Desenvolvimento uma das
componentes essenciais do desenvolvimento bem- sucedido é aprender a regular as
respostas emocionais e comportamentos relacionados de formas socialmente
adequadas e adaptativas (Morris et al., 2007).
Apesar da capacidade de regulação emocional constituir, sobretudo, objeto de
investigação em crianças e adultos, a adolescência constitui uma fase do ciclo
de vida de particular importância para avaliação dos seus processos e
correlatos (Bariola et al., 2011; Silk et al., 2003; Yap et al., 2007). As
diferentes alterações experienciadas no domínio cognitivo, emocional, e
neurológico contribuem para uma maior capacidade e necessidade de utilização de
estratégias de regulação emocional com eficácia (Jaffe, Gullone, & Hughes,
2010; Steinberg, 2005). Para além disso, neste período os pais constituem-se
como importantes agentes de socialização no desenvolvimento emocional dos seus
filhos, desempenhando um papel crucial no sentido da sua promoção e facilitação
(Bariola et al., 2011; Yap et al., 2007).
A investigação existente acerca da importância das competências de regulação
emocional para o desenvolvimento de adolescentes tem avaliado, sobretudo, a sua
associação com a psicopatologia (Silk et al., 2003). Comparativamente, a sua
importância para o desenvolvimento psicológico saudável e funcionamento ótimo
tem sido menos estudada teórica e empiricamente (Freire & Tavares, 2011).
Contudo, tal como defendido por Steinberg (2005) quer a psicopatologia quer o
funcionamento ótimo devem ser estudados na sua relação com a regulação
emocional, pois a reorganização dos sistemas regulatórios característica da
adolescência pode constituir-se como risco ou por outro lado como oportunidade
de desenvolvimento.
Neste artigo pretende-se clarificar o conceito de regulação emocional e a sua
importância para o desenvolvimento de adolescentes. Serão apresentados
inicialmente os construtos de emoção e regulação emocional, em termos das suas
definições e conceptualizações. Apesar da existência de diferentes abordagens
teóricas, será destacado o modelo de regulação emocional de Gross (1998) pela
sua evidência empírica. O autor defende a utilização de estratégias para
regular a experienciação e expressão das emoções, as quais apresentam
diferentes implicações para o funcionamento diário. Finalmente, pretende-se
apresentar evidência teórica e empírica como fundamentação para o aumento do
estudo e compreensão dos processos de regulação emocional na adolescência,
tendo em conta fatores de socialização parental e as suas consequências para o
desenvolvimento de trajetórias individuais. Uma melhor compreensão da regulação
emocional poderá ajudar a compreender diferenças individuais ao nível da saúde
mental nesta fase desenvolvimental, com implicações clínicas ao nível da
intervenção individual ou na elaboração de programas de prevenção, promoção e/
ou tratamento.
EMOÇÃO E REGULAÇÃO EMOCIONAL
O estudo da regulação emocional pressupõe necessariamente uma compreensão da
definição de emoções e os processos através dos quais estas podem ser
reguladas. As emoções definem-se como tendências de resposta comportamentais,
experienciais e fisiológicas que em conjunto influenciam a forma como os
indivíduos respondem a situações significativas (Gross, 2002; Gross &
Thompson, 2007; Thompson, 1991). Apresentam importantes funções expressivas e
comunicativas e sob uma perspetiva funcionalista orientam e motivam o
funcionamento adaptativo (Gross & Thompson, 2007; Morris et al., 2007;
Thompson, 1991). De um momento para outro, as emoções influenciam a atenção,
tomada de decisão, memória, respostas fisiológicas, e interações sociais. Da
mesma forma que influenciam processos intra e interpessoais, as emoções também
se constituem em si mesmas como alvo de modificação (Gross & Thompson,
2007).
Assim, a regulação emocional refere-se aos processos intrínsecos (e.g.,
cognições) e extrínsecos (e.g., suporte dos pais) através dos quais os
indivíduos influenciam a experienciação e expressão de emoções (Gross &
Thompson, 2007) de forma a atingir os seus objetivos (Thompson, 1991). Em
específico, os mecanismos de regulação emocional modulam a expressão de emoções
específicas, positivas e negativas, e as dinâmicas emocionais (e.g.,
intensidade, duração, labilidade), uma vez que as emoções se constituem como
processos multidimensionais que ocorrem ao longo do tempo (Gross &
Thompson, 2007; Morris et al., 2007; Thompson, 1991). Finalmente, destaca-se
uma outra componente da regulação emocional, os processos cognitivos e
comportamentais específicos envolvidos na modulação e manutenção das
experiências emocionais, sendo referidos na literatura como estratégias de
regulação emocional.
Duas estratégias de regulação emocional: Reavaliação cognitiva e supressão
emocional
Um dos principais desafios presentes no estudo da regulação emocional em
crianças e adolescentes tem sido a sua conceptualização teórica de forma a
organizar as diferentes estratégias utilizadas na vida diária. Aliás, muita da
investigação tem sido realizada na ausência de um amplo quadro teórico
(Gullone, Hughes, King, & Bruce, 2010). Uma exceção, embora relacionada com
a investigação em adultos, é o modelo processual de regulação emocional de
Gross (1998), aplicado de forma crescente na investigação com adolescentes
(e.g., Freire & Tavares, 2011; Gullone et al., 2010; Jaffe et al., 2010). O
modelo distingue diferentes conjuntos de estratégias de regulação das emoções
de acordo com o momento em que exercem o seu impacto no processo emocional:
estratégias focadas nos antecedentes e estratégias focadas na resposta.
Enquanto as estratégias de regulação emocional focadas nos antecedentes se
referem às ações realizadas antes das tendências de resposta emocional terem
sido completamente ativadas, as estratégias de regulação emocional focadas na
resposta são adotadas uma vez que a emoção está a ser experienciada (Gross,
1998; Gross & Thompson, 2007; John & Gross, 2004).
Entre as diferentes possíveis estratégias utilizadas para a regulação das
emoções, até ao momento, apenas duas foram operacionalizadas segundo o modelo
processual de Gross: a reavaliação cognitiva e a supressão emocional. As duas
estratégias apresentam uma utilização comum na vida diária e constituem,
respetivamente, um exemplo de estratégias focadas nos antecedentes e na
resposta. A reavaliação cognitiva é uma forma de modificação cognitiva que se
caracteriza pela alteração do significado de uma situação potencialmente
elicitadora de uma emoção de forma a alterar o seu impacto emocional. Por sua
vez, a supressão emocional é uma forma de modulação da resposta emocional, que
envolve a inibição do comportamento emocional expressivo (Gross & Thompson,
2007; John & Gross, 2004). Com base em investigação com jovens adultos,
Gross e John (2003) identificaram diferentes consequências decorrentes da
utilização destas estratégias ao nível do funcionamento psicossocial.
Especificamente, a utilização da reavaliação cognitiva está associada à
diminuição da experienciação e expressão de emoções negativas, enquanto aumenta
a experienciação e expressão de emoções positivas. Em contraste, indivíduos que
utilizam a supressão emocional diminuem a expressão comportamental de emoções
negativas e positivas. Ao nível da experienciação das emoções, esta estratégia
parece ter pouco impacto nas emoções negativas, enquanto diminui a
experienciação de emoções positivas. Em termos de resultados associados com o
bem-estar, os indivíduos que habitualmente utilizam a reavaliação demonstram
menos sintomas depressivos, mais satisfação com as suas vidas, otimismo e
autoestima. Em específico, ao nível do bem-estar psicológico apresentam níveis
mais elevados de crescimento pessoal, autoaceitação, autonomia e melhores
relações com os outros. Em contraste, o uso habitual da supressão está
associado a um menor bem-estar, satisfação com a vida, autoestima e otimismo em
relação ao futuro (Gross, 2002; Gross & John, 2003; Gross et al., 2006;
John & Gross, 2004).
Neste sentido, a investigação empírica acerca da natureza funcional destas
estratégias tem fornecido evidência da reavaliação cognitiva como uma
estratégia adaptativa e a supressão emocional como uma estratégia não
adaptativa (John & Gross, 2004). Contudo, também é defendido que o fator
mais importante para a regulação emocional bem sucedida é a utilização flexível
destas diferentes opções de regulação, com uma clara apreciação dos custos e
benefícios relativos da sua utilização nas situações específicas (Gross, 2002).
REGULAÇÃO EMOCIONAL NA ADOLESCÊNCIA
A adolescência tem sido descrita como um período desenvolvimental caracterizado
pela presença de alterações biológicas características da puberdade,
psicológicas e sócio contextuais manifestadas por uma reestruturação do
ambiente social e dos outros significativos (Gilbert, 2012; Helsen,
Vollebergh, & Meeus, 2000; Morris et al., 2007). Em conjunto, estas
alterações contribuem para um paradoxo observado ao nível da saúde em que se
verifica que este período é um dos mais saudáveis do ciclo de vida, com um
rápido desenvolvimento de competências (físicas, cognitivas e emocionais),
porém as taxas de mortalidade são 200% superiores às verificadas na infância
(Gilbert, 2012). Alguns dos resultados negativos que contribuem para este
paradoxo (e.g., desenvolvimento de perturbações psicopatológicas, envolvimento
em comportamentos de risco) resultam das diferentes alterações e exigências da
adolescência que podem provocar dificuldades na experienciação e regulação
emocional (Gilbert, 2012; Steinberg, 2005; Yap et al., 2007).
De facto, a investigação tem demonstrado que as transformações físicas,
psicológicas e sociais podem conduzir a novas experiências de ativação
emocional e respostas emocionais mais extremas e intensas constituindo
oportunidades para utilizar e aperfeiçoar as competências de regulação
emocional que permitem assegurar o funcionamento adaptativo (Gilbert, 2012;
Larson & Richards, 1994; Silk et al., 2003). Segundo Hall (1904), a
adolescência é a idade de rápidas flutuações de humor. Os adolescentes
relatam experienciar maiores flutuações nos estados emocionais diários e
apresentam tempos de reação mais rápidos na resposta a estímulos emocionais em
comparação com crianças e adultos (Gilbert, 2012). Experienciam ainda mais
afeto negativo, verificando-se um aumento linear da experienciação de emoções
negativas ao longo da adolescência e uma diminuição no relato diário de emoções
positivas (Gilbert, 2012; Larson, Moneta, Richards, & Wilson, 2002).
Todas estas experiências desenvolvimentais que exigem uma maior capacidade de
regulação dos estados emocionais são acompanhadas por uma maior complexificação
dos processos regulatórios (Yap et al., 2007). Por exemplo, muitos dos sistemas
hormonais, neurológicos (e.g., desenvolvi- mento dos lobos frontais), e
cognitivos (e.g., maior compreensão dos estados emocionais) associados à
regulação emocional desenvolvem-se durante a adolescência (Gross &
Thompson, 2007; Silk et al., 2003, Steinberg, 2005).
As mudanças psicossociais características da adolescência também contribuem
para este processo de desenvolvimento de competências regulatórias (Steinberg,
2005). Os adolescentes têm de lidar com novos stressores associados com as suas
relações sociais, como realização académica, pressões para corresponderem às
expectativas dos adultos, assim como uma maior autonomia face ao apoio dos pais
na regulação emocional (Bariola et al., 2011). De facto, durante a
adolescência, uma das principais tarefas desenvolvimentais é a individuação, um
processo que requer por parte do adolescente uma negociação entre maior
autonomia dos pais enquanto permanece ainda emocionalmente próximo da família
(Gunlicks-Stoessel & Powers, 2008). Para isso, os adolescentes têm de
aprender a regular o afeto de forma crescente sem orientação dos adultos
(Bariola et al., 2011; Morris et al., 2007).
A regulação emocional parental na adolescência
As emoções têm sido conceptualizadas como produtos e processos das relações
sociais (Morris et al., 2007) e, consequentemente, a eficácia dos seus
processos regulatórios depende das exigências sociais e das interações com os
outros (Bariola et al., 2011). Neste sentido, tem sido destacada a importância
da família, concretamente dos pais, como principais agentes de socialização no
desenvolvimento da capacidade de regulação emocional (Bariola et al., 2011;
Morris et al., 2007). É na interação familiar que as crianças aprendem a
expressar as emoções, a compreender as mensagens que transmitem e os seus
vários processos regulatórios (Larson et al., 2002). Além disso, a frequência,
intensidade, e valência das emoções expressas pelos pais criam um clima
emocional familiar onde as crianças podem aprender formas adaptativas de
modelar os estilos de regulação emocional (Bariola et al., 2011; Morris et al.,
2007).
Apesar do reconhecimento teórico e empírico da importância da família para o
desenvolvimento emocional das crianças, a sua importância para o
desenvolvimento de adolescentes não é consensual. A investigação defende uma
diminuição da influência parental neste período, um aumento do conflito com os
pais e a importância crescente de agentes extrafamiliares (e.g., pares,
professores) (Helsen et al., 2000; Morris et al., 2007). Contudo, evidência
empírica atual demonstra que a família é um dos contextos sociais mais
importantes na vida de adolescentes. Em específico, os pais continuam a ser
importantes agentes de socialização emocional e desempenham um papel crucial no
sentido de facilitar ou promover o desenvolvimento (Bariola et al., 2011;
Morris et al., 2007). Por exemplo, comparativamente com o afeto experienciado
noutros contextos de vida, quando os adolescentes estão com os membros da
família, relatam mais afeto positivo e menos ansiedade, irritação e humor
deprimido (Schneiders et al., 2006). Investigação acerca do suporte social
percebido na adolescência demonstra que embora se verifique um aumento do
suporte dos pares em relação ao suporte parental, este último permanece como um
melhor indicador do desenvolvimento positivo dos adolescentes que o suporte dos
pares. Maior suporte parental percebido está associado ao relato de menos
problemas emocionais pelos adolescentes (Helsen et al., 2000).
Também abordagens teóricas destacam a importância da família para o
funcionamento emocional dos seus membros. Segundo a teoria dos sistemas
familiares de Bowen os indivíduos têm menos autonomia no seu funcionamento
emocional do que é comummente pensado. Os pensamentos, sentimentos, e
comportamentos de cada membro da família contribuem e refletem o que está a
ocorrer na família (Kerr & Bowen, 1988, p. 9). Segundo esta teoria, um
estudo de Larson e Richards (1994), avaliou a transmissão de emoções entre os
membros da família, numa amostra com cinquenta e cinco tríades de adolescentes
e seus pais. Os autores verificaram que os pais transmitem as suas emoções aos
filhos e filhas, mas também são influenciados pelas emoções das suas filhas.
Quer os filhos e filhas, mas especialmente as filhas, transmitem as suas
emoções às suas mães. Verificou-se ainda associação entre as emoções dos
adolescentes e dos seus pais quando não estavam juntos. Em relação à
transmissão de emoções entre o casal verifica-se um efeito de transmissão
apenas quando os elementos estão juntos, sendo o marido quem influencia o
estado emocional da esposa. Investigação nesta área tem verificado que a mãe/
esposa é o principal recetor das emoções da família, sendo o elemento mais
afetado emocionalmente pelas experiências dos outros membros. O pai/marido é o
principal elemento emissor de emoções, sendo a principal origem destas emoções
o seu contexto laboral (Hektner, Schmidt, & Csikszentmihalyi, 2007).
Para além disto, a investigação acerca da transmissão das estratégias de
regulação emocional tem reforçado o impacto do contexto familiar no
desenvolvimento de adolescentes (Morris et al., 2007). Por exemplo, Yap,
Schwartz, Byrne, Simmons e Allen (2010) verificaram que adolescentes cujas mães
invalidaram a expressão de afeto positivo nas suas interações apresentam mais
estratégias de regulação emocional não adaptativas e sintomatologia depressiva.
Um outro estudo verificou que a utilização da supressão emocional pelas mães
constitui um preditor da sua utilização pelos filhos com idades compreendidas
entre os 9 e 19 anos (Bariola, Hughes, & Gullone, 2012). Os resultados
estão de acordo com a literatura e investigação acerca da socialização da
regulação emocional em crianças, que identifica efeitos distintos dos pais e
das mães. A emocionalidade das mães está mais associada com os processos de
regulação emocional adotados pelos filhos do que variáveis dos pais. Para além
de que, as mães parecem apresentar um maior envolvimento no processo de
socialização emocional, em particular na expressão emocional dos filhos durante
a adolescência, em contraste com os pais cuja influência parece ocorrer
sobretudo durante a infância (Bariola et al., 2011).
Para além da investigação acerca da transmissão das emoções e estratégias de
regulação emocional entre os membros da família, um outro construto que tem
sido estudado é o clima emocional familiar, também designado por Emoção
Expressa (EE; Vaughn & Leff, 1976). A sua avaliação é realizada através de
cinco dimensões: comentários críticos, hostilidade, calor afetivo, comentários
positivos e sobreenvolvimento emocional. A investigação tem demonstrado que EE
familiar caracterizada por comentários críticos se revela associada à presença
de psicopatologia nos filhos adolescentes. Em específico, a presença desta
dimensão constitui um preditor de sintomas de externalização (Nelson, Hammen,
Brennan, & Ullman, 2003) assim como se revela associada ao envolvimento em
pensamentos e comportamentos de ferimentos autoinfligidos nos adolescentes
(Wedig & Nock, 2007).
REGULAÇÃO EMOCIONAL: DA PSICOPATOLOGIA AO FUNCIONAMENTO ÓTIMO
A literatura apresenta a capacidade de regular as emoções como uma componente
central para a saúde mental (Gross & John, 2003; Suveg, Southam-Gerow,
Goodman, & Kendall, 2007). A desregulação emocional, definida como a
ausência ou dificuldade na utilização de estratégias adaptativas para regular
as respostas emocionais (Gross, 1998), é identificada como uma característica
presente em mais de metade das perturbações mentais descritas no Manual de
Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (Jazaieri, Urry, &
Gross, 2013).
Evidência empírica significativa tem demonstrado a importância da desregulação
emocional no desenvolvimento e manutenção de diversos problemas de
internalização e externalização na adolescência (Gilbert, 2012; McLaughlin,
Hatzenbuehler, Mennin, & Nolen-Hoeksema, 2011; Silk et al., 2003; Zeman,
Klimes-Dougan, Cassano, & Adrian, 2007).
Entre as perturbações de internalização mais estudadas, destaca-se a depressão,
uma vez que por definição envolve défices na regulação de emoções negativas
(e.g., tristeza) ou a dificuldade em manter estados emocionais positivos (Yap
et al., 2007). A experiência mais frequente e intensa de emoções negativas,
assim como uma maior labilidade destas emoções, têm sido associadas a um
aumento dos sintomas depressivos (Schneiders et al., 2006; Silk et al., 2003).
Além disso, poucos relatos diários de felicidade e emoções positivas em
amostras comunitárias de adolescentes preveem sintomas depressivos um ano mais
tarde (Neumann, Lier, Frijns, Meeus, & Koot, 2011). Em conjunto, o aumento
da experienciação de emoções negativas e diminuição das emoções positivas
constituem alterações normativas na adolescência, o que leva Yap e
colaboradores (2007) a considerar que o aumento da incidência da depressão
durante este período pode estar relacionado com o aumento desenvolvimental da
vulnerabilidade à desregulação da experienciação e expressão emocional.
Evidência emergente sugere que a desregulação emocional em adolescentes em
risco ou com depressão pode estar relacionada com défices nas estratégias que
usam para responder a estados emocionais negativos. Adolescentes com depressão
apresentam um repertório mais restrito de estratégias de regulação emocional,
usam estratégias menos eficazes (e.g., supressão emocional), ou deixam de usar
estratégias adaptativas (e.g., reavaliação cognitiva) e acreditam menos na sua
eficácia (Gilbert, 2012; McLaughlin et al., 2011; Yap et al., 2007). Uma meta
análise recente acerca da relação entre as estratégias de regulação emocional e
psicopatologia (ansiedade, depressão, perturbações do comportamento alimentar e
de abuso de substâncias) verificou que, em geral, a utilização de estratégias
não adaptativas (e.g., supressão emocional) está mais associada com o
desenvolvimento de psicopatologia do que a utilização de estratégias
adaptativas (e.g., reavaliação cognitiva). O que pode indicar que a presença de
estratégias de regulação emocional não adaptativas é mais prejudicial para o
funcionamento individual do que a relativa ausência da utilização de
estratégias de regulação emocional adaptativas (Aldao, Nolen-Hoeksema, &
Schweizer, 2010).
Para além da depressão, uma grande variabilidade na experienciação de emoções
negativas no funcionamento diário é também preditiva de sintomas de ansiedade
(Neumann et al., 2011). Evidência recente sugere que a ansiedade, tal como a
depressão, também está associada a défices nas emoções positivas e sua
regulação (Gilbert, 2012; Kashdan, 2007).
Em contraste com a investigação que suporta a relação entre desregulação
emocional e o desenvolvimento de perturbações de internalização, pouca
investigação tem sido realizada no desenvolvimento de perturbações de
externalização, apesar de também se caracterizarem por uma desregulação do
afeto, em especial da raiva, para além da desregulação comportamental (Silk et
al., 2003). Apenas tem sido verificado que uma maior intensidade de afeto
negativo, níveis mais elevados de raiva e impulsividade estão associados a
problemas de comportamento e que estes jovens apresentam estratégias de
regulação emocional menos adaptativas (Gilbert, 2012; McLaughlin et al., 2011;
Silk et al., 2003; Suveg et al., 2007).
Apesar da associação comprovada entre os défices de regulação emocional e a
maioria das perturbações psicopatológicas, a direção desta relação tem sido
menos estudada. Na tentativa de ultrapassar esta limitação, um estudo
prospetivo de McLaughlin e colaboradores (2011) avaliou a relação recíproca
entre desregulação emocional e sintomatologia psicopatológica (depressão,
ansiedade, comportamento agressivo e perturbações do comportamento alimentar).
Os autores verificaram que os défices de regulação emocional preveem alterações
subsequentes em sintomas de ansiedade, comportamento agressivo, e perturbações
do comportamento alimentar, mas não ao nível da sintomatologia depressiva. Em
contraste, a existência de psicopatologia não prevê alterações subsequentes ao
nível da desregulação emocional. Estes resultados suportam o papel da
desregulação emocional como um importante fator transdiagnóstico que aumenta a
o risco de desenvolvimento de diversas perturbações na adolescência (Gilbert,
2012; Gross & John, 2003; Suveg et al., 2007).
A investigação ao nível das dinâmicas emocionais também fornece evidência da
regulação emocional como um fator transdiagnóstico. Adolescentes com reações
emocionais mais instáveis, uma regulação menos eficaz de uma variedade de
emoções intensas, e uma maior variabilidade emocional apresentam níveis mais
elevados de problemas de internalização e externalização (Neuman et al., 2011;
Silk et al., 2003). Finalmente, a labilidade emocional apresenta-se relacionada
sobretudo com a comorbilidade entre perturbações de internalização e
externalização e não com cada um dos tipos de perturbações por si só
(Stringaris & Goodman, 2008).
A investigação acerca dos processos sociais e familiares sugere que a
desregulação emocional que ocorre em contextos interpessoais pode ter um papel
etiológico importante no desenvolvimento de psicopatologia na adolescência
(Morris et al., 2007). A regulação emocional tem sido considerada um mediador
da relação entre o temperamento e processos familiares e o início de
perturbações depressivas (Yap et al., 2007; Yap et al., 2010). Também Morris e
colaboradores (2007) consideram que embora se verifiquem efeitos diretos do
contexto familiar no funcionamento dos filhos (e.g., ao nível do
desenvolvimento de psicopatologia de internalização e externalização), muitos
dos efeitos no desenvolvimento psicossocial ocorrem através do impacto da
família na regulação emocional. Os autores defendem ainda que a socialização
parental na regulação emocional é particularmente importante na adolescência.
Verifica-se que adolescentes que permanecem muito dependentes dos pais para
apoio na regulação de emoções podem estar em risco de desenvolvimento de
perturbações de internalização, enquanto os adolescentes que recusam orientação
emocional dos pais apresentam risco mais elevado de desenvolvimento de
perturbações de externalização. Para além disso, famílias em que há depressão
parental apresentam maior desregulação nas interações, com efeitos adversos na
regulação emocional e desenvolvimento de depressão dos filhos adolescentes.
Até ao momento, a identificação dos fatores associados à competência emocional
de adolescentes tem sido associada sobretudo com as consequências
desenvolvimentais da desregulação emocional com o propósito de prevenção e
tratamento de psicopatologia. Contudo, tal como defendido pela abordagem da
Psicologia Clínica Positiva (Wood & Tarrier, 2010), é importante um foco no
funcionamento negativo e positivo em todas as áreas de investigação e
intervenção. Numa recente revisão da literatura, estes autores sublinham ser
demasiado redutor estudar apenas o funcionamento positivo ou negativo, uma vez
que ambos interagem na previsão de resultados importantes e o bem estar é
definido como um contínuo desde o extremo mal-estar até ao funcionamento ótimo.
Neste sentido, e no âmbito de estudo da regulação emocional, evidência recente
tem defendido que a capacidade de uma regulação emocional bem sucedida também
promove o funcionamento emocional e psicossocial saudável e adaptativo (John
& Gross, 2004). Adolescentes que experienciam emoções positivas diárias
durante períodos de stress parecem apresentar maior desenvolvimento de recursos
mentais (e.g., maior capacidade de pensamento crítico e flexibilidade
cognitiva), físicos e aumento da resiliência face ao desenvolvimento de
psicopatologia (Gilbert, 2012). A capacidade de regulação emocional está ainda
relacionada com o desenvolvimento de competências sociais, como o
estabelecimento de relações de qualidade com os pares e maior envolvimento em
comportamentos pró-sociais (McLaughlin et al., 2011).
Um estudo de Freire e Tavares (2011) com adolescentes verificou a importância
das estratégias de regulação emocional propostas por Gross (1998) para o bem-
estar subjetivo e psicológico de adolescentes. Os resultados demonstram que os
jovens que usam a reavaliação cognitiva no processo de regulação emocional são
mais felizes e satisfeitos com as suas vidas. Por sua vez a utilização da
supressão emocional apresenta uma associação negativa com todas as medidas de
bem-estar.
Estes resultados vêm de encontro à conceptualização de Steinberg (2005) de que
a adolescência constitui um período com riscos e oportunidades em termos do
desenvolvimento da regulação emocional. Ou seja, as dificuldades e défices ao
nível da regulação emocional podem apresentar um impacto negativo nas
trajetórias de vida a longo prazo estabelecidas durante este período (e.g.,
comportamentos e hábitos saudáveis, competências sociais, desenvolvimento de
psicopatologia). Contudo, o desenvolvimento das competências de regulação
emocional e a sua utilização de forma adaptativa também se podem traduzir em
oportunidades para a definição de um desenvolvimento positivo e funcionamento
ótimo (e.g., estabelecimento de relações de qualidade com os pares,
envolvimento em comportamento pró-sociais, maior satisfação com a vida e
autoestima) (Gilbert, 2012; Yap et al., 2007).
AVALIAÇÃO E MEDIDA DA REGULAÇÃO EMOCIONAL
Dada a multiplicidade de processos envolvidos na regulação das emoções (e.g.,
expressões comportamentais, avaliações cognitivas e objetivos intra e
interpessoais) (Gross et al., 2006; Thompson, 1991) um dos maiores desafios da
investigação tem sido o desenvolvimento e utilização de métodos de avaliação
apropriados (Cole, Martin, & Dennis, 2004).
Um dos métodos mais utilizados para estudar a regulação emocional tem sido os
questionários de autorrelato retrospetivos. Para além da conceptualização
teórica da regulação emocional, Gross e John (2003) desenvolveram uma medida de
avaliação das diferenças individuais ao nível da utilização das estratégias de
regulação emocional (reavaliação cognitiva e supressão emocional) ' o Emotion
Regulation Questionnaire(ERQ). Este instrumento de autorrelato encontra-se
validado para a população portuguesa na sua versão para adultos (Vaz &
Martins, 2009) e para adolescentes (Teixeira, Silva, Tavares, & Freire,
2014).
Na maioria dos estudos com medidas retrospetivas os adolescentes devem imaginar
que uma determinada experiência emocional ocorreu ou nomear uma experiência que
tenha ocorrido na última semana ou mês. A partir daí respondem a um conjunto de
questões acerca de como responderiam ou responderam a tal situação. Contudo,
com esta metodologia não é claro se as estratégias e processos regulatórios
reportados pelos adolescentes refletem adequadamente os seus comportamentos em
situações reais, uma vez que podem refletir o que sabem que devem fazer, em vez
do que realmente fariam ou fizeram num determinado momento (Silk et al., 2003).
Na tentativa de ultrapassar esta limitação, estudos recentes têm destacado a
importância da utilização de métodos de recolha de dados em tempo real, os
quais poderão fornecer informação mais contextualizada e imediata acerca da
utilização das estratégias regulatórias nas experiências subjetivas diárias
(Freire & Tavares, 2011; Gilbert, 2012). O principal exemplo deste método é
o Experience Sampling Method (ESM)(Csikszentmihalyi & Larson, 1987), que
permite caracteri- zações ecologicamente válidas das experiências decorrentes
da vida diária, incluindo o contexto físico (e.g., período do dia, lugares),
contexto social (e.g., companhia), atividades, pensamentos e sentimentos
experienciados. A principal potencialidade deste método face aos métodos
retrospetivos é o registo das experiências dos indivíduos antes de serem
filtradas pela memória ou alteradas através da autorreflexão subsequente
(Hektner et al., 2007). Este método tem sido utilizado em estudos que
relacionam a experiência subjetiva diária de adolescentes com variáveis
psicológicas e fisiológicas (e.g., Freire, Fonte, & Lima, 2007; Matias,
Nicolson, & Freire, 2011).
Uma vez que a investigação tem verificado discrepâncias entre relatos
retrospetivos globais e medidas em tempo real, Scollon, Kim-Prieto e Diener
(2003), defendem a adoção de uma abordagem multimétodo, que se caracteriza pela
utilização de diferentes tipos de medidas, permitindo estudar os efeitos
decorrentes das mesmas. Nesta mesma perspetiva, as autoras deste artigo estão a
desenvolver uma investigação acerca da regulação emocional em que é utilizada
uma abordagem multimétodo através da combinação de medidas de autorrelato
retrospetivas e medidas em tempo real. De acordo com Larsen e Prizmic-Larsen
(2006) o uso de diferentes métodos não só aumenta a quantidade de dados
recolhidos como fornece evidência complementar que talvez não fosse tão
facilmente percebida através da utilização de apenas um método de recolha de
dados.
Esta estratégia justifica-se sobretudo na área de investigação da regulação
emocional, em que é defendida a utilização de múltiplos métodos para avaliar
processos relacionados com as emoções e sua regulação dado constituírem
construtos bastante abrangentes e multidimensionais inferidos a partir de
múltiplos indicadores (Cole et al., 2004; Zeman et al., 2007). Apesar do seu
reconhecimento teórico, ao nível dos estudos nem sempre se verifica a aplicação
desta abordagem multimétodo. Segundo uma revisão recente da literatura (Adrian,
Zeman, & Veits, 2011) acerca dos métodos de avaliação da regulação
emocional em crianças e adolescentes ao longo dos últimos 35 anos, para além de
existir uma grande diversidade de métodos e consequentes diferenças na
compreensão destes processos, verificou que 61.1% dos artigos publicados
utilizaram apenas um método de avaliação.
CONCLUSÃO GERAL
Embora ainda seja recente o foco de investigação da regulação emocional na
adolescência, verificam-se importantes contribuições dos estudos para a
compreensão da sua influência na definição de trajetórias desenvolvimentais.
Os vários estudos realizados têm permitido a introdução de novas abordagens e
conceitos para aumentar a compreensão destes processos assim como aperfeiçoar
os seus aspetos metodológicos. Destaca-se o reconhecimento da importância da
família, em especial dos pais, como agentes de socialização emocional na
adolescência e o seu papel na promoção do desenvolvimento bem- sucedido dos
filhos. A recente importância do estudo dos processos regulatórios na sua
associação com o funcionamento ótimo tem permitido complementar o tradicional
foco na desregulação emocional e psicopatologia numa perspetiva remediativa e
de intervenção, com uma perspetiva de promoção do desenvolvimento. Finalmente,
os avanços metodológicos com a inclusão de medidas de avaliação em tempo real e
a sua combinação com outros métodos têm contribuído para uma avaliação mais
rigorosa e completa dos diferentes processos regulatórios.
Apesar destes avanços significativos, investigações futuras deverão centrar-se
na integração e compreensão dos diversos fatores que contribuem para o
desenvolvimento de competências de regulação emocional nesta fase do ciclo de
vida. Este artigo traduz o quadro concetual subjacente à investigação a ser
desenvolvida através da abordagem multimétodo, onde se estuda a regulação
emocional na vida diária de adolescentes e seus pais, nas suas ligações à
psicopatologia e funcionamento ótimo. O conhecimento destes fenómenos poderá
ajudar a compreender diferenças individuais na saúde mental e funcionamento
ótimo, com as suas implicações na intervenção clínica e promoção do
desenvolvimento na adolescência.