A psicologia como neurociência cognitiva: Implicações para a compreensão dos
processos básicos e suas aplicações
INTRODUÇÃO
Como já há mais de 6 décadas reconhecia Donald Hebb (1949) em The Organization
of Behavior,os psicólogos não enfrentam, na sua demanda epistemológica, uma
tarefa simples. Com efeito, a procura das leis que possam permitir a validação
dos mecanismos de compreensão, predição e regulação do comportamento e da
actividade mental, é tarefa de grande complexidade. O quesito afigura-se, por
vezes, um verdadeiro trabalho de Sísifo, em que carregamos penosamente o nosso
precioso objecto (i.e., pedra de mármore) até ao cume da montanha para
constatar que, chegados ao topo, a pedra escorrega novamente pela encosta até
ao ponto de partida. Talvez seja este o nosso castigo por ousar desafiar Zeus
neste nosso projecto de nos substituirmos aquilo que ao longo dos milénios foi
unicamente desígnio do sagrado. No entanto, tal como o astuto Sísifo, temos ao
longo de século e meio de existência vindo a driblar o destino de uma morte
tantas vezes anunciada e, frequentemente, exagerada.
Um dos modos pelos quais a psicologia tem procurado sustentar um progresso
seguro até ao cume do conhecimento é recorrendo à parceria científica
transdisciplinar. Foi assim, logo desde a sua constituição, numa aliança
estratégica com a física dos finais do século XIX. Gustav Fechner sugeria ser
possível desenvolver uma nova ciência assente na formulação de regras exactas
acerca relações entre o mundo físico e o mundo psicológico, o corpo e a alma
(1860/1966, p. 7).
Voltou a ser assim quando James Watson (1913/1994) lançou o seu manifesto
defendendo a psicologia como uma ramo experimental das ciências naturais e
criticando o modo como a psicologia se sequestrou na natureza esotérica dos
seus métodos (i.e., introspecção). A proposta de Watson é, sobretudo, uma
proposta metodológica de aproximação às outras ciências da natureza. Trata-se
do reconhecimento de que o esclarecimento da natureza do objecto depende da
sofisticação e rigor de método ' nas outras ciências como a física e química,
sustenta, Watson, uma melhor técnica leva a resultados mais reprodutíveis
(1913/1994, p. 249).
É precisamente esta sofisticação metodológica ao permitir aceder, com níveis de
maior rigor, aquilo que até aí poderia ser unicamente inferido, vai conduzir à
revolução cognitiva da psicologia. É esta revolução que vai possibilitar, a
partir dos anos 50, a confluências de várias disciplinas no espaço
transdisciplinar conhecido como as ciências cognitivas. George Miller (2003)
vai ao ponto de situar um acontecimento, e até um dia, para a emergência das
ciências cognitivas. No dia 11 de Setembro de 1956, quando saía de um simpósio
organizado pelo Special Interest Group in Information Theoryno Massachusetts
Institute of Technology, George Miller confessa ter tido na altura a
convicção, mais intuitiva que racional, que a psicologia experimental, a
linguística teórica e a simulação computorial dos processos cognitivos eram
partes de um conjunto mais vasto e que o futuro assistiria a uma elaboração e
coordenação progressiva das suas preocupações comuns (2003, p. 142). Com
efeito, as décadas seguintes vão testemunhar um crescimento impressionante das
ciências cognitivas, sofisticando consideravelmente a nossa compreensão dos
processos psicológicos até à altura vistos como uma caixa negra.
No início dos anos 90 a psicologia enfrentava de novo os desafios de Sísifo.
Por um lado os novos desenvolvimentos metodológicos permitiam abordar recantos
do funcionamento mental até aí inacessíveis. No entanto, por outro lado, o modo
como estes processos psicológicos eram determinados e, por sua vez,
determinavam os processos neuronais, permanecia por esclarecer. Felizmente que,
durante este período, assistia-se a uma evolução paralela, e não menos
dramática, de áreas como a neurofisiologia, neuroanatomia e neurobioquímica.
Também aqui, a emergência de novas metodologias aos níveis genético, molecular,
celular e supracelular, permitiam começar a descodificar o funcionamento do
sistema nervoso. É precisamente esta confluência disciplinar, resultado de
sofisticação metodológica e tecnológica, que vai dar origem àquilo que hoje em
dia designámos de neurociências.
No entanto, para a psicologia, o desafio mais promissor resulta dos caminhos
abertos nos últimos anos pela confluência entre ciências cognitivas e
neurociências, as ciências da mente e as ciências do cérebro, permitindo o
desenvolvimento de um novo projecto transdisciplinar designado de
neurociências cognitivas (cf. Cowan, Hart, & Kandell, 2000). As
neurociências cognitivas, vêm assim dar corpo ao desígnio central da
psicologia. Um projecto que é, simultaneamente, de esclarecimento dos
mecanismos básicos do funcionamento mental mas, e não menos importante, das
aplicações destes conhecimentos aos mais diversos domínios do quotidiano (e.g.,
neuroeconomia; neuroantropologia; neuroestética).
No presente artigo procuraremos dar conta de como os desenvolvimentos nas
neurociências cognitivas poderão ajudar a compreender alguns dos processos
psicológicos básicos e, simultaneamente, ser traduzidos em importantes domínios
da psicologia aplicada. Acreditamos que grande parte destes desenvolvimentos
resulta das potencialidades abertas por importantes desenvolvimentos
metodológicos. Assim, ilustraremos a partir de algumas linhas de investigação
programática em diferentes subsecções do Laboratório de Neuropsicofisiologiada
Escola de Psicologia da Universidade do Minho. As potencialidades metodológicas
proporcionadas pela neurofisiologia, neuroimagiologia, neuromodulação,
psicofisiologia, neurobioquímica e neurogenética, serão exemplificadas nas suas
aplicações à linguagem (com implicações para a compreensão da esquizofrenia),
funcionamento sócio-cognitivo (com implicações para a compreensão das
perturbações do neurodesenvolvimento), funcionamento executivo (com implicações
para a compreensão das perturbações do espectro obsessivo), empatia (com
implicações para a compreensão da psicoterapia), mecanismos de stress (com
implicações para a compreensão das perturbações de ansiedade), e comportamento
animal (com implicações para o conhecimento dos sistemas sensoriais e
perceptuais.
NEUROFISIOLOGIA E LINGUAGEM: IMPLICAÇÕES PARA A COMPREENSÃO DA ESQUIZOFRENIA
No âmbito das Neurociências Cognitivas e Clínicas, a metodologia de potenciais
evocados (event-related potentials), baseada na electroencefalografia (EEG),
assume uma importância primordial ao possibilitar o estudo do curso temporal de
processos cognitivos, sensoriais e/ou motóricos (Pfefferbaum, Roth, & Ford,
1995). Devido à sua excelente resolução temporal, esta metodologia não-invasiva
é uma das ideais para o estudo de processos dinâmicos, tal como a linguagem
(Garnsey, 1993; Osterhout & Holcomb, 1995; Pinheiro, Galdo-Alvarez,
Sampaio, Niznikiewicz, & Goncalves, 2010; Pinheiro et al., 2011; Pinheiro,
Del Re, Nestor et al., 2013; Pinheiro, Del Re, Mezin et al., 2013). A linguagem
é uma das mais complexas capacidades humanas (Hickok & Poeppel, 2007).
Enquanto a metodologia comportamental (incluindo tempos de reacção e taxas de
acerto) proporciona importante informação sobre o processamento linguístico,
apenas permite examinar a etapa final do processamento, mas não os processos
neurocognitivos que conduziram a uma resposta. Por outro lado, metodologias
funcionais tais como a metodologia de potenciais evocados, permitem examinar os
processos neurocognitivos que ocorrem antes da realização de uma resposta
(e.g., decidir se uma frase é ou não válida, do ponto de vista semântico), ou
mesmo na sua ausência.
Vários componentes de onda foram identificados como sendo sensíveis a processos
de natureza linguística, tais como a N400 (uma negatividade observada
aproximadamente 400 milissegundos após o início de um estímulo visual ou
auditivo, que indexa processos semânticos) e a P600 (uma positividade observada
aproximadamente 600 milissegundos após o início de um estímulo visual ou
auditivo, que indexa processos sintácticos) (Kutas & Federmeier, 2011).
Nas últimas duas décadas, foi possível assistir a um número crescente de
estudos de potenciais evocados com o objectivo de investigar anomalias
sensoriais e cognitivas na esquizofrenia. A esquizofrenia é uma perturbação
psicopatológica complexa, caracterizada por anomalias cognitivas,
comportamentais, e emocionais, bem como por alterações cerebrais ao nível
estrutural e funcional (Wible, Preus, & Hashimoto, 2009). Em particular, as
anomalias no processamento semântico representam uma das características
centrais da disfunção cognitiva na esquizofrenia, incluindo associações
bizarras, tagencialidade e incoerência ao nível do discurso (Nestor et al.,
1997; Niznikiewicz, 2008; Niznikiewicz, Mittal, Nestor, & McCarley, 2010;
Niznikiewicz et al., 1997; Pinheiro, McCarley, Thompson, Goncalves, &
Niznikiewicz, 2012). Os estudos de potenciais existentes revelam anomalias no
componente de onda N400 em pacientes esquizofrénicos em comparação com sujeitos
controlo, nomeadamente uma menor amplitude (i.e., menos negativa) do componente
de onda N400 em estudos de priming com um breve intervalo entre o início dos
estímulos (stimulus onset asynchrony ' SOA), ou uma maior amplitude da N400
(i.e., mais negativa) em estudos com um longo intervalo entre o início dos
estímulos (e.g., Niznikiewicz et al., 1997; Niznikiewicz et al., 2010). Estes
resultados demonstram que processos anómalos na memória semântica podem estar
na origem da perturbação do pensamento e das alterações linguísticas associadas
à esquizofrenia.
Com o intuito de aprofundar o conhecimento existente acerca do processamento da
linguagem na esquizofrenia, os nossos estudos iniciais focaram dois aspectos da
linguagem que têm um papel fulcral no âmbito das interacções sociais: (a)
prosódia emocional (Pinheiro, Del Re, Mezin et al., 2013); (b) processos
semânticos e as suas interacções com processos afectivos (Pinheiro, Del Re,
Nestor et al., 2013).
Os resultados encontrados (Pinheiro, Del Re, Mezin et al., 2013) demonstraram
anomalias nos componentes de onda N100 e P200 em pacientes esquizofrénicos,
sugerindo alterações no processamento de prosódia nos três estádios de
processamento vocal emocional propostos por Schirmer e Kotz (2006) com base nos
dados de neuroimagem e neurofisiológicos existentes: (1) processamento
sensorial do sinal acústico (indexado pelo componente N100); (2) detecção de
pistas acústicas com saliência emocional (indexado pelo componente P200); e (3)
avaliação do significado emocional da informação vocal (indexado pela taxa de
erros no reconhecimento de prosódia emocional). Importa salientar que as
anomalias observadas foram mais proeminentes no caso de discurso com conteúdo
semântico inteligível, em comparação com discurso com conteúdo semântico
ininteligível.
Por sua vez, o nosso estudo sobre efeitos da indução afectiva (através de
imagens de valência neutra, positiva e negativa) no processamento semântico
indicou interacções anómalas entre humor, processamento de contextos de frase e
conexões na memória semântica na esquizofrenia, tal como indexado pelo
componente de onda N400 (Pinheiro, Del Re, Nestor et al., 2013). Neste estudo,
foram apresentadas frases cujo final era: (a) uma palavra esperada segundo o
contexto semântico precedente; (b) uma palavra inesperada pertencendo à mesma
categoria semântica da palavra esperada; (c) uma palavra inesperada pertencendo
a uma categoria semântica diferente da palavra esperada. Enquanto que, após
indução afectiva neutra e positiva, os pacientes esquizofrénicos processaram
diferentemente os finais esperados e inesperados (i.e., maior amplitude da N400
para finais inesperados vs. finais esperados), após indução afectiva negativa
este processamento diferencial não foi observado (i.e., amplitude da N400
similar para finais esperados e inesperados). Estes resultados sugerem o efeito
disruptivo do humor negativo em processos contextuais preditivos.
Estudos recentes têm sugerido o papel importante que as anomalias no
processamento de pistas com saliência emocional desempenham na sintomatologia
positiva que caracteriza a esquizofrenia. Em particular, vários estudos têm
demonstrado alterações na capacidade de pacientes com esquizofrenia de
distinguir entre discurso gerado interna e externamente (e.g., voz do self vs.
voz de outra pessoa), as quais tendem a ser mais pronunciadas perante material
verbal com conteúdo negativo. Estudos futuros deverão investigar de que forma
pacientes com esquizofrenia diferenciam discurso gerado pelo próprio vs.
discurso gerado por uma pessoa familiar ou não familiar, e qual é o papel de
processos afectivos (e.g., conteúdo semântico negativo vs. positivo) nessa
discriminação. No presente, a nossa equipa de investigação está a desenvolver
estudos que procuram responder a essas questões.
NEUROIMAGIOLOGIA DO FUNCIONAMENTO SÓCIO-COGNITIVO: IMPLICAÇÕES PARA A
COMPREENSÃO DAS PERTURBAÇÕES DO NEURODESENVOLVIMENTO
O desenvolvimento cerebral humano é um processo contínuo, caracterizado por um
conjunto complexo e dinâmico de processos geneticamente guiados em interacção
com o ambiente (Jernigan et al., 2011) que determinam um aumento de
especialização e diferenciação neuronais. De facto, alterações cerebrais
regionais específicas têm vindo a ser amplamente descritas (Barnea-Goraly et
al., 2005; Giedd et al., 1999; Lenroot & Giedd, 2006; Paus, 2005; Paus et
al., 1999; Reiss et al., 1996), reflectindo um processo contínuo de maturação e
remodelação do Sistema Nervoso Central SNC ao longo do desenvolvimento (Reiss
et al., 1996).
Nas últimas décadas, tem-se observado um interesse crescente na utilização de
metodologias de neuroimagem no estudo dos processos de maturação cerebral
normativos e atípicos e sua relação com o desenvolvimento sócio-cognitivo. Em
particular, os estudos de ressonância magnética (RM) estrutural permitiram, de
forma não invasiva, a criação de imagens cerebrais volumétricas com grande
detalhe anatómico. Adicionalmente, nos últimos 15 anos, assistiu-se a um avanço
de novas técnicas e aquisições de imagem, utilizando sequências de pulso
rápidas, que permitiram não só facilitar a localização anatómica das regiões
cerebrais específicas de interesse (ROIs, do inglês Regions of Interest), mas
também contribuir para uma compreensão mais alargada da fisiologia e
funcionamento cerebral in vivo. Assim, vários métodos de mapeamento cerebral,
utilizando RM, têm sido desenvolvidos e adaptados para satisfazer esta
necessidade. Concretamente, a ressonância magnética funcional (fMRI, do inglês
functional Magnetic Resonance Imaging) e, mais recentemente, a Imagem por
Tensão de Difusão (DTI, do inglês Diffusion Tensor Imaging) contribuíram,
respectivamente, para um mapeamento de áreas cerebrais específicas (fMRI)
relacionadas com processos cognitivos e motores, bem como para uma compreensão
detalhada de como estas áreas comunicam entre si através do estudo da
integridade dos circuitos de substância branca (DTI) mediante tractografia
(Johansen-Berg & Behrens, 2006).
Com efeito, um dos principais contributos destas ferramentas de neuroimagem
reside na potenciação do campo das neurociências cognitivas, ao permitir o
estabelecimento de paralelos entre os mecanismos de desenvolvimento cerebral
pós-natal e desenvolvimento sócio-cognitivo associado (Johnson & Munakata,
2005). De facto, desde muito precocemente, as crianças são capazes de
evidenciar comportamentos sociais direccionados, nomeadamente, distinguir
diferentes faces e expressões emocionais, reconhecer sons de discurso, imitar,
descodificar as acções humanas, detectar movimento biológico e envolver-se em
tarefas de atenção partilhada (Blasi et al., 2011; Grossmann & Johnson,
2007; Hoehl & Striano, 2008; Nelson & De Haan, 1996), processos que
estão intimamente relacionados com a maturação de um conjunto de redes
neuronais distribuídas.
Especificamente, evidência combinada derivada de estudos lesionais, de
neuroimagem e de perturbações genéticas neurodesenvolvimentais descritas como
modelos naturais de dissociação sócio-cognitiva (e.g., síndrome de Williams
(SW) e autismo) têm fundamentado a existência de sistemas neuronais críticos
subjacentes à cognição social humana (Adolphs, 1999). Concretamente, evidência
de estudos lesionais e de neuroimagem funcional têm implicado a amígdala e a
sua conexão com o córtex pré-frontal ventromedial no processamento de emoções
sociais e avaliação social (Anderson et al., 1999; Forbes & Grafman, 2010).
Outros estudos de neuroimagem vieram não só corroborar a implicação destes
circuitos cerebrais no comportamento e cognição social, mas permitiram uma
compreensão mais alargada destas áreas cerebrais, incluindo-se a junção
temporo-parietal, ínsula, circunvolução temporal superior, bem como de outras
estruturas envolvidas na regulação emocional, como o córtex do cíngulo,
precuneus, áreas visuais associativas do lobo temporal, e estruturas como o
hipotálamo e tálamo foram implicadas na função social (Adolphs, 2001, 2003;
Amodio & Frith, 2006; Apperly et al., 2004; Gallese et al., 2004; Mitchell,
2008; Saxe & Wexler, 2005; Uddin et al., 2007; Van Overwalle, 2009).
Finalmente, dentro das perturbações genéticas do desenvolvimento mais
estudadas, o SW e o autismo emergem como os modelos mais salientes,
particularmente porque ambas são condições com base genética determinada,
associadas a fenótipos contrastantes, aparentando ser imagens de espelho uma da
outra ao nível sócio-cognitivo (Tager-Flusberg et al, 2006). Especificamente,
os indivíduos com SW possuem um fenótipo hipersocial que se reflecte no seu
comportamento (e.g., desejo intenso de envolvimento em interacções sociais;
interesse exacerbado por faces humanas) bem como na sua linguagem (e.g.,
modulação da prosódia, uso de mecanismos de envolvimento da atenção do
interlocutor) (Capitão, Sampaio, Fernandez, et al., 2011; Capitão, Sampaio,
Sampaio, et al., 2011; Gonçalves et al., 2010; Pinheiro et al., 2011). Em
contraste, os indivíduos com autismo apresentam um perfil oposto, evidenciando
um comprometimento da cognição social (e.g., ausência de interesse em
informação socialmente relevante; evitamento social; défices na percepção da
direcção do olhar, processamento emocional (ver Baron-Cohen & Belmonte,
2005; Riby & Hancock, 2008; Stieglitz Ham et al., 2011). Embora tais
características comportamentais tenham sido amplamente descritas na literatura,
incluindo por parte da nossa equipa de investigação, as evidências sobre os
possíveis correlatos neuronais subjacentes a estes perfis dissociativos '
particularmente no que diz respeito à cognição social ' são ainda relativamente
escassas. Estudos de neuroimagem no SW apontam para alterações estruturais
importantes em áreas associadas à cognição social, tais como a circunvolução
temporal superior (Sampaio et al., 2008) e a amígdala (Capitão et al., 2011b).
Os poucos estudos de neuroimagem funcional existentes mostram igualmente
alterações no padrão de activação amigdalar em resposta a estímulos ameaçadores
e no processamento de faces (Haas et al., 2009; Meyer-Lindenberg et al., 2005),
bem como alterações ao nível do córtex pré-frontal dorso-lateral em tarefas de
inibição comportamental (Mobbs et al., 2007). Relativamente ao autismo, estudos
estruturais apontam para a presença de reduzido volume amigdalar (Abell et al.,
1999; Critchley et al., 2000) e de redução cortical da circunvolução temporal
superior (Hadjikhani et al., 2006). Ao nível funcional, foi observada uma
reduzida activação da amígdala em tarefas que implicam cognição social, como a
inferência de estados mentais e o processamento de expressões emocionais
faciais (Baron-Cohen et al., 1999; Critchley et al., 2000), bem como uma
reduzida activação na circunvolução temporal superior em tarefas de
processamento da informação social (Castelli, Frith, Happé, & Frith, 2002;
Gervais et al., 2004).
Apesar de várias abordagens comportamentais e de neuroimagem terem sido
empregues no estudo do funcionamento sócio-cognitivo, um maior conhecimento
acerca dos mecanismos anatómicos e funcionais em contextos sociais mais
ecológicos torna-se um importante objectivo a atingir. Especificamente, quando
se analisam os paradigmas de cognição social utilizados pelos diversos estudos,
verificamos que os contextos sociais são dificilmente mimetizados,
particularmente em contexto de fMRI, uma vez que, frequentemente, o componente
interactivo das situações sociais (subjacente por exemplo a processos de
cooperação, altruísmo, coerção, decepção e manipulação), críticos para o
desenvolvimento e aprendizagem sociais, é negligenciado. Contudo, algumas
equipas de investigação têm progressivamente contribuído para colmatar esta
limitação, ao proporem métodos de interacção face a face em contextos de fMRI
(e.g., Redcay et al., 2010). Em simultâneo com paradigmas mais ecológicos, a
utilização de técnicas de neuroimagem multimodal (RM volumétrica, fMRI, DTI e
potenciais evocados) ' uma abordagem adoptada pela nossa equipa de investigação
' fornecerá uma visão mais eclética do mapeamento funcional dos circuitos
cerebrais subjacentes ao funcionamento sócio-cognitivo no desenvolvimento
típico e atípico.
NEUROMODULAÇÃO DO FUNCIONAMENTO EXECUTIVO: IMPLICAÇÕES PARA A COMPREENSÃO DAS
PERTURBAÇÕES DO ESPECTRO OBSESSIVO
A Neuromodulação é um termo lato que designa um conjunto de metodologias
capazes de alterar o funcionamento cerebral. Da neuromodulação constam métodos
cognitivos tais como a aprendizagem, a psicoterapia, reabilitação e métodos
físicos, através da aplicação de corrente eléctrica ou por recurso a
substâncias psicoactivas. O desenvolvimento de métodos de estimulação por
corrente directa, tais como a Estimulação Trancraniana por Corrente Contínua
(ETCC) (ou
Transcraneal Direct Current Stimulation (tDCS)) e a Estimulação Magnética
Transcranial (EMT) (ou Transcraneal Magnetic Stimulation), permite-nos
aprofundar o nosso conhecimento na área das neurociências clínicas. Estas duas
técnicas de neuromodulação são não invasivas (ou seja, não existe necessidade
de introdução de eléctrodos no interior do corpo), são usualmente muito bem
toleradas (indolores) e estão associadas a poucos sintomas secundários
adversos, quando utilizadas dentro dos parâmetros de segurança (Nitsche et al.,
2008; Rossi, Hallett, Rossini, & Pascual-Leone, 2009). Por isso torna-se
possível estudar com precisão a localização anatómica associada a uma
determinada função, a sua cronometria, bem como o circuito envolvido na
potenciação ou inibição de uma função cognitiva ou motora (Walsh & Cowey,
2000). Não é por isso de estranhar que nos últimos anos tenham-se multiplicado
os estudos onde a neuromodulação tem sido utilizada com sucesso na melhoria de
sintomas (e.g., Pascual-Leone, Rubio, Pallardó, & Catalá, 1996)
(reabilitação cognitiva e motora (ver Rossi & Rossini, 2004, para revisão).
Esta secção aborda a neuromodulação do córtex pré-frontal e as suas implicações
quer para a sintomatologia no espectro obsessivo, quer para o funcionamento
(dis)executivo.
A grande maioria dos estudos neuropsiquiátricos com neuromodulação foca-se
essencialmente na alteração do estado de humor, ou na diminuição de alucinações
(e.g., Abarbanel, Lemberg, Yaroslavski, Grisaru, & Belmaker, 1996). Existe
um menor foco da investigação na melhoria sintomática de pacientes com
perturbações do espectro obsessivo [como, por exemplo, a Perturbação Obsessivo-
Compulsiva (POC)]. No entanto a POC será porventura uma das perturbações ditas
de ansiedade com o maior número de correlatos neuropsicológicos (Carvalho,
Leite, & Goncalves, 2011). É então fácil encontrar sintomas típicos da POC
associados a desordens neurológicas, tais como a encefalite pandémica, a doença
de Parkinson pós-encefalite, ou mesmo sintomas resultantes do uso terapêutico
de levodopa (Hosier & Wald, 1989; Sacks, 1973; von Economo, 1931).
O estudo da POC assume particular relevância, uma vez que muitos pacientes
revelam-se refractários às primeira e segunda linhas de tratamento (e.g.,
Psicofarmacologia e Terapia Cognitivo-comportamental), sendo que em alguns
casos são consideradas opções neurocirúrgicas (como a Estimulação Cerebral
Profunda). No entanto, devido ao carácter invasivo das mesmas, é necessário
encontrar um método de tratamento intermédio, que permita afunilar ainda mais
os candidatos a psicocirurgia, ao mesmo tempo que se alarga o leque de
pacientes que vejam a sua qualidade de vida significativamente melhorada.
Neste sentido, diversos estudos têm procurado, de modo não invasivo,
neuromodular os circuitos neuronais disfuncionais em pacientes com POC
utilizando essencialmente rTMS, por recurso a diferentes desenhos
experimentais, durações e mesmo áreas cerebrais (Nauczyciel & Drapier,
2012; Rodriguez-Martin, Barbanoj, Perez, & Sacristan, 2003; Sachdev, Loo,
Mitchell, McFarquhar, & Malhi, 2007; Slotema, Blom, Hoek, & Sommer,
2010). Sendo o córtex orbitofronal a região por excelência, mas de difícil
acesso a métodos de estimulação não invasivos, alguns dos primeiros estudos
centraram-se na estimulação do cortex pré-frontal dorsolateral (DLPFC), com
resultados muito modestos (ou mesmo não significativos) quando comparados com a
estimulação placebo (e.g., Alonso et al., 2001). No entanto, estudos recentes
noutra região pré-frontal têm demonstrado que a normalização da
hiperexcitabilidade cortical (aplicando bilateralmente 1 Hz de rTMS sobre a
área suplementar motora ' ASM) parece conduzir a uma redução sintomática nestes
doentes (e.g., Mantovani, Simpson, Fallon, Rossi, & Lisanby, 2008;
Mantovani et al., 2006). Estes resultados, apoiados por dados preliminares do
nosso laboratório (não publicados) suportam a hipótese de existir um
desequilíbrio interhemisférico funcional (Gonçalves et al., 2011), muito
provavelmente devido a um processo de filtragem inadequada a nível talâmico
(Rossi et al., 2005). Sendo que as técnicas não invasivas de neuromodulação
parecem ser efetivas na restauração do equilíbrio, e que essa restauração é
correlativa com melhorias sintomáticas em pacientes com POC.
No entanto, o papel do córtex pré-frontal em pacientes com POC parece estender-
se para além da sintomatologia clínica. Frequentemente, pacientes com POC
exibem défices ao nível do planeamento, tomada de decisão e dificuldades de
inibição de resposta, associadas ao córtex pré-frontal; dificuldades na
modulação do arousal e de emoções intensas associadas a áreas paralímbicas;
problemas na filtragem automática de estímulos, motivação e mediação dos
comportamentos estereotipados a gânglios da base; bem como o envolvimento do
tálamo em diversos circuitos de retorno da informação a um nível cortical,
nomeadamente nos loops cortico-subcortico-talamico-corticais (CSTC) (Carvalho,
Leite, & Gonçalves, 2011). Estes défices neurocognitivos, bem como a
sintomatologia específica parecem derivar de circuitos complexos responsáveis
por défices de inibição quer a nível cognitivo (orbitofrontal), quer a nível
comportamental (fronto-estriatal) (e.g., Chamberlain, Blackwell, Fineberg,
Robbins, & Sahakian, 2005). Ambos os circuitos implicam estruturas que ou
são puramente subcorticais, ou que mesmo fazendo parte do córtice, a sua
localização é tão medial, que se tornam de difícil acesso através de métodos
não invasivos. Quer a ETCC, quer a rTMS possuem como locus primordial efeitos a
nível cortical (Kobayashi & Pascual-Leone, 2003), podendo apresentar séries
limitações a nível de eficácia, numa patologia predominantemente cortico-
subcortical, como é a POC (Pujol et al., 2004; Rauch et al., 1994; Saxena et
al., 2008).
No entanto, talvez não seja esse o caso. Em termos de redução sintomática, a
rTMS sobre a ASM, parece ser eficaz. Por outro lado, em termos neurocognitivos,
existem indícios claros da neuromodulação de funções dependentes de redes
cortico-subcorticais. Uma dessas funções, é a de mudança de cenário (set
shifting), que é um componente do comportamento dirigido a um objectivo (goal
directed behavior) e parte importante da flexibilidade cognitiva. Esta função
neurocognitiva encontra-se comumente alterada em pacientes com POC (e.g.,
Lawrence et al., 2006), mas também em pacientes com Sindrome de Tourette (e.g.,
Watkins et al., 2005), Huntington (e.g., Lawrence, Sahakian, Rogers, Hodges,
& Robbins, 1999) ou mesmo Parkinson (Owen, Roberts, Hodges and Robbins,
1993), sugerindo o claro envolvimento dos gânglios da base (Hayes, Davidson,
Keele, & Rafal, 1998). Neste sentido, o nosso grupo (Leite, Carvalho,
Fregni, & Gonçalves, 2011) demonstrou ser possível a utilização de ETCC
enquanto ferramenta neuromodulatória em tarefas cognitivas e motoras em
participantes saudáveis. Este efeito da ETCC na capacidade de set shifting
parece ser dependente da polaridade (a estimulação anodal aumenta a performance
enquanto que a catodal a diminui em ambas as tarefas), mas não do local (i.e.
córtex dorsolateral pré-frontal ou área motora primária com efeitos similares e
dependentes da polaridade) ' sugerindo que a ETCC possui efeitos proximais e
localizados, mas ao mesmo tempo, é capaz de elicitar efeitos distais e difusos
ao longo de todo o circuito neuronal, influenciando dessa forma o desempenho
nas tarefas.
Existem diversas implicações para estudos futuros a retirar. Em primeiro lugar,
apesar de existir um consenso acerca do papel dos circuitos fronto-subcorticais
na patogénese da POC, existem também evidências crescentes acerca do
envolvimento de regiões cerebrais posteriores (Menzies et al., 2008), sugerindo
a possibilidade de mecanismos funcionais compensatórios a nível cerebral
(Deckersbach et al., 2002). Seguindo este modelo, Gonçalves e colaboradores
(2010) propuseram uma hipótese, em que as ativações fronto-subcorticais
comummente encontradas em pacientes com POC seriam correlativas com
desactivações em áreas parieto-occipitais associadas ao processamento visuo-
perceptivo. Esta hipótese claramente sugere a possibilidade da existência de
alterações significativas ao nível sensorial/perceptivo, bem como a sua
potencial contribuição para o desenvolvimento e manutenção da POC.
Em segundo lugar, apesar da melhoria sintomática da rTMS em pacientes com POC,
é ainda necessário estabelecer o mecanismo funcional da estimulação bilateral,
testando a hipótese do desequilíbrio hemisférico, procurando estabelecer a
relação de causalidade entre a melhoria sintomática e alterações funcionais a
nível cerebral que derivam da melhoria dos sintomas, bem como dos ganhos
terapêuticos.
Em terceiro lugar, é preciso estabelecer protocolos de neuroreabilitação
cognitiva em pacientes com POC, testando os efeitos cumulativos de várias
sessões de neuromodulação não invasiva. Por último, estabelecer o modo como a
neuromodulação altera o CSTC, de que forma isso pode ser potenciado e qual a
região cortical capaz de maximizar os efeitos da neuroreabilitação pretendida.
PSICOFISIOLOGIA E EMPATIA: IMPLICAÇÕES PARA A COMPREENSÃO DA PSICOTERAPIA
Na vasta literatura relacionada com a empatia e os seus correlatos
neurofisiológicos, parece não existir um consenso ao nível da definição e dos
componentes usados para descrever o conceito. Contudo, de forma a responder a
esta diversidade conceptual, a estratégia mais coerente para caracterizar os
processos empáticos parece ser a de os compreender ao longo de um contínuo
(Decety, 2011), que inclui desde processos afectivos mais básicos (i.e.,
contágio emocional e a capacidade de partilhar estados afetivos evocados pelo
outro), até às componentes cognitivas mais complexas (i.e., a capacidade de
identificação e compreensão do estado mental do outro). Ainda mais desafiante
parece ser a compreensão da forma como a ressonância estabelecida entre duas
pessoas se traduz numa resposta empática que envolve comportamentos como ajuda
e altruísmo.
Recentemente as neurociências têm contribuído para a clarificação da
controvérsia em torno dos processos empáticos ao permitirem explorar os seus
correlatos neurobiológicos, quer ao nível do sistema nervoso periférico, quer
ao nível do sistema nervoso central. Por outro lado a psicofisiologia, enquanto
disciplina sustentada na inter-relação entre os aspectos fisiológicos e
psicológicos do comportamento, tem trazido maior objectividade a este campo,
onde tradicionalmente a empatia era avaliada através de sistemas de auto-relato
ou de observação.
Apesar de a empatia ser um fenómeno subjacente a um contexto interpessoal
específico (Levenson & Ruef, 1992), a forma como ela se manifesta no
próprio indivíduo reflecte-se no seu padrão de responsividade fisiológica. Este
é caracterizado pela resposta dos diferentes sistemas biológicos envolvidos,
entre os quais a atividade cardíaca, a atividade elétrica da pele, e o padrão
da frequência respiratória. Talvez a maior dificuldade associada à utilização
de metodologias psicofisiológicas seja a de compreender como os dois
subsistemas de controlo do sistema nervoso periférico, as divisões simpática e
parassimpática, se manifestam nas diferentes modalidades de registo. É através
de uma melhor compreensão da interação entre o simpático e o parassimpático que
poderemos clarificar as relações entre as variáveis cognitivas e/ou emocionais
e as funções fisiológicas. A atividade eletrodérmica corresponde a um grupo de
medidas sensíveis às mudanças elétricas da pele, registadas através de
elétrodos superficiais. Ela é um dos indicadores mais robustos de arousal
fisiológico pois tem como mecanismo biológico subjacente a ativação das
glândulas sudoríparas através da divisão simpática do sistema nervoso autónomo.
No que se refere ao significado psicofisiológico da atividade cardíaca, algumas
questões permanecem em aberto. Estudos recentes sobre a relação entre o padrão
de variação da atividade cardíaca, e os aspectos emocionais e cognitivos da
empatia, verificaram que este sistema parece sensível a diferentes componentes
empáticos, e não apenas à reatividade fisiológica. Essa maior sensibilidade tem
sido associada ao substrato anátomo-fisiológico do sistema cardíaco,
caracterizado pela dupla inervação via simpático e parassimpático, envolvendo
diferentes áreas cerebrais (Oliveira-Silva & Gonçalves, 2011). No estudo
acima mencionado realizado por membros da nossa equipa participantes saudáveis
foram submetidos a um paradigma de resposta empática, em que realizamos o
registo simultâneo dos índices eletrodérmicos e cardíacos. Verificamos que as
respostas mais empáticas estavam associadas ao aumento na frequência cardíaca,
sugerindo que a actividade cardíaca é potencialmente um dos melhores marcadores
biológicos da resposta empática (Oliveira-Silva & Gonçalves, 2011).
No mesmo sentido, tem sido demonstrado que o registo da frequência respiratória
em simultâneo com o da atividade cardíaca, pode permitir a diferenciação entre
a influência das duas divisões autonómicas, contribuindo para uma análise mais
clara de diferentes processos psicológicos envolvidos num determinado contexto
(Berntson, Cacioppo, & Quigley, 1993). Essa interpretação é baseada, em
parte, no facto de as alterações na frequência cardíaca serem moduladas pelo
padrão respiratório, que por sua vez possui uma alça de controlo voluntário
frequentemente aproveitada pela prática clínica (i.e., técnicas de
relaxamento).
Ao nível do sistema nervoso central sabe-se que a empatia se encontra ligada a
áreas cerebrais implicadas na cognição social tais como o córtex pré-frontal
ventromedial, temporal médio e o precuneus (Moll et al., 2002), bem como a
áreas implicadas no processamento afectivo tais como a amígdala, a ínsula e o
córtex cingulado anterior (Lamm, Batson, & Decety, 2007).
A empatia desempenha um papel central em todas as etapas do ciclo de vida,
nomeadamente na capacidade dos indivíduos estabelecerem relações interpessoais
adaptativas. Deste modo são claras as implicações clínicas da empatia para as
relações de ajuda tais como a psicoterapia e a relação médico-doente. Num
estudo clássico de 1955, DiMascio, Boyd, and Greenblatt concluíram que os
ritmos cardíacos dos psicoterapeutas e dos seus pacientes se moviam em
direcções opostas quando o cliente expressava insatisfação face ao terapeuta.
Mais recentemente, Marci, Ham, Moran e Orr (2007) verificaram que a sincronia
ao nível da condutância da pele estava associada à percepção por parte do
paciente de respostas empáticas do terapeuta. A noção de que a empatia se
reflecte em sincronia fisiológica entre os elementos de uma dada interacção é
sugerida por Decety e Jackson (2004) que afirmam que quando respondemos de
forma empática o nosso perfil de resposta autonómica tende como que a espelhar
o da outra pessoa. No entanto a empatia não se limita a esta simulação
daquilo que o outro está a sentir: para que ocorra uma resposta empática após a
fase de contágio emocional, processos de regulação de ordem superior,
nomeadamente de natureza cognitiva entram em jogo. São estes processos ao nível
do sistema nervoso central que fazem com que indivíduos mais empáticos sejam
capazes de modular os seus níveis de activação simpática e, dessa forma,
modular também os níveis de activação do outro, numa espécie de dança
autonómica. No contexto da psicoterapia por exemplo, tal permite aos terapeutas
mais eficazes a manutenção da distância afectiva necessária para introduzir
novidade na forma como o paciente experiencia o seu problema. As implicações
das bases psicofisiológicas da empatia são igualmente evidentes na terapia de
casal ou qualquer outro tipo de problemas relacionais trazidos para o espaço da
consulta. Numa sequência de estudos realizados por Levenson e Ruef (1992) para
explorar as capacidades empáticas em casais, verificou-se que os casais que
apresentaram maior congruência nas suas respostas fisiológicas, foram também os
que mostraram maior precisão na avaliação dos sentimentos negativos um do
outro.
Carl Rogers identificou a capacidade empática do terapeuta como uma das
condições necessárias e suficientes para facilitar a mudança terapêutica.
Acreditamos que a investigação sobre os correlatos psicofisiológicos da
empatia, apesar de estar ainda num processo relativamente incipiente tem
importantes implicações para a melhoria da performance dos psicoterapeutas. Uma
maior compreensão dos marcadores biológicos da resposta empática contribuirá
para respostas terapêuticas mais eficazes nos casos de perturbações
psicopatológicas caracterizados por défices empáticos, tais como as
perturbações do espectro autista e algumas perturbações de personalidade.
Podemos ainda colocar a hipótese de que futuro estratégias de biofeedback
centradas nos marcadores centrais e periféricos da empatia possam ser incluídas
nos programas de treino dos psicoterapeutas.
A estratégia mais utilizada no estudo de constructos psicológicos
multidimensionais, como a empatia, tem sido a de estudar as suas dimensões
isoladamente. Tal permite a utilização de estímulos simples e paradigmas
experimentais controlados, que forneçam resultados facilmente interpretáveis
(Walter, 2012). Contudo, apesar de esta estratégia ter sido necessária para
fundar as bases do conhecimento sobre a empatia, evitando a sobreposição dos
diferentes componentes, os seus resultados não revelam a natureza complexa das
interacções entre os mesmos. O desafio que agora se coloca às neurociências
sociais é o de integrar os resultados empíricos relacionados com as diferentes
dimensões empáticas, e investir em paradigmas experimentais mais complexos que
se aproximem das experiências reais. Este desafio prende-se assim com o
desenvolvimento de quatro aspectos principais: (1) construção de estímulos com
maior validade ecológica (e.g., vídeos, interações sociais reais, o
envolvimento de pessoas próximas, etc.); (2) construção de paradigmas onde as
diferentes componentes empáticas estejam presentes; (3) desenvolvimento de
metodologias quantitativas capazes de identificar mais directamente a
intensidade do estímulo; e finalmente, (4) inclusão de variáveis moduladoras
dos processos empáticos, tais como a capacidade de regulação emocional e a
própria natureza do estímulo empático, como por exemplo, o papel da prosódia e
da capacidade de processamento facial.
A NEUROBIOQUÍMICA DO STRESS:
IMPLICAÇÕES PARA A COMPREENSÃO DAS PERTURBAÇÕES DE ANSIEDADE
O estudo da neurobioquímica do stress teve como grande impulso os estudos
pioneiros de Hans Selye nos anos 30 do século XX que introduziu pela primeira
vez o conceito de Síndrome de Adaptação Genérico, como uma resposta do
organismo a estímulos nocivos não-específicos (Selye, 1936). Posteriormente, a
descoberta dos receptores dos Mineralocorticóides (MR) e dos Glucocorticóides
(GR) (receptores para a hormona do stress ' cortisol) em áreas específicas do
cérebro (Gerlach & McEwen, 1972; McEwen, Weiss, & Schwartz, 1968) viria
a revelar-se outro avanço importante para a compreensão do impacto do stress no
sistema nervoso central. No entanto, e apesar da grande expansão da
investigação nesta área, o papel do stress como factor etiológico da
psicopatologia, e em particular de perturbações de ansiedade, é ainda um tópico
de intensa investigação.
A resposta ao stress caracteriza-se pela activação do eixo hipotálamo-
pituitária-adrenal (HPA), também conhecido como o eixo límbico-hipotálamo-
pituitária-adrenal (LHPA) devido à influência crítica do sistema límbico na sua
actividade. Simplisticamente, estímulos de natureza físiológica e/ou
psicológica são capazes de elicitar neurónios parvocelulares da região medial
do núcleo paraventricular (mpPVN) do hipotálamo, levando à produção do fator
libertador de corticotropina (CRF) e arginina-vasopressina (AVP). Embora o CRF
seja a principal hormona secretada, ambos actuam em sinergia para estimular a
libertação da hormona adrenocorticotrópica (ACTH) na hipófise anterior. Ao
entrar na circulação sistémica, a ACTH liga-se aos seus receptores localizados
no córtex das glândulas supra-renais, levando à síntese e libertação de
corticosteróides (corticosterona nos roedores e cortisol nos humanos), que por
mecanismos de feedback negativo adequam a sua própria produção às necessidades
do agente stressor (Plotsky, Otto, & Sapolsky, 1986). Esta resposta, que
promove a adaptação a situações de stress é decisiva para a sobrevivência, ao
facilitar a mobilização de substratos energéticos e mediadores químicos (tais
como catecolaminas), que levam à resposta de luta ou fuga. A regulação deste
sistema é crucial, uma vez que a falha na sua activação vulnerabiliza o
organismo para perda de homeostasia, enquanto que respostas excessivas e/ou
prolongadas aumentam a susceptibilidade à doença em geral, e à psicopatologia
em particular (Bessa et al., 2009; Dias-Ferreira et al., 2009; Ehlert, Gaab,
& Heinrichs, 2001).
É importante ressaltar que vários fatores intrínsecos (genéticos) e extrínsecos
(estocásticos) determinam a capacidade de responder adequadamente a situações
de stress, podendo esta resposta ser programada precocemente na vida. Vários
laboratórios têm focado a sua investigação nos mecanismos envolvido no
controlo/programação da resposta ao stress (sendo já amplamente consensual que
o eixo HPA é altamente susceptível à programação durante o período fetal e
neonatal, com consequências para a vida adulta ' (ver Mesquita et al., 2009;
Oliveira et al., 2006).
Muitas destas evidências vêm de estudos animais em que a manipulação do
ambiente perinatal é, do ponto de vista ético, mais fácil quando comparado com
a investigação em humanos. Estudos pioneiros de Seymour Levine demonstraram o
impacto de diferentes manipulações pós-natais no funcionamento do eixo HPA
(Levine, Chevalier, & Korchin, 1956). De facto, crias de roedores removidas
da mãe por breves períodos de tempo (3 a 15 minutos), nas primeiras semanas de
vida, apresentavam diminuição da reatividade ao stress na vida adulta, (Levine,
1967; Meaney, Aitken, Viau, Sharma, & Sarrieau, 1989; Viau, Sharma,
Plotsky, & Meaney, 1993). Contrariamente, separações maternas repetidas por
períodos mais longos (3 a 6 horas diárias) comprometem o desenvolvimento físico
e motor a curto prazo (Mesquita et al., 2007) e tornam os animais mais
vulneráveis ao stress quando adultos (Liu, Caldji, Sharma, Plotsky, &
Meaney, 2000; Plotsky & Meaney, 1993).
Estes protocolos de perturbação da relação mãe/cria têm sido usados como
modelos que pretendem mimetizar o abandono e negligência, particularmente
presentes em crianças institucionalizadas. De facto, estudos com estas crianças
mostram alterações do perfil de produção diurna de cortisol, com perda do pico
matinal, quando comparadas com crianças não institucionalizadas (Dozier et al.,
2006; Tarullo & Gunnar, 2006). Algo que foi também demonstrado em crias de
macacos Rhesus(Coplan et al., 2006; Sanchez et al., 2005). Recentemente, Fries
e colaboradores mostraram também que crianças previamente institucionalizadas
apresentavam, alguns anos mais tarde, maiores níveis de cortisol em resposta a
um stressor do que crianças que sempre viveram com os seus pais (Fries,
Shirtcliff, & Pollak, 2008). Paralelamente, idêntico fenótipo foi observado
em animais adultos submetidos a stress físico, que haviam sofrido longas
separações maternas nas primeiras semanas de vida (Uchida et al., 2010). Quer
nos modelos animais, quer nos estudos em crianças, estas alterações
neuroendócrinas têm sido apontadas como os principais mediadores para o
desenvolvimento, a longo prazo, de condições neuropsiquiátricas (Cicchetti
& Manly, 2001; Heim, Newport, Mletzko, Miller, & Nemeroff, 2008).
Efectivamente, a hiperatividade do eixo HPA tem sido fortemente relacionada com
estados depressivos e de ansiedade. A emergência destas condições tem sido
explicada por uma reprogramação da regulação do eixo HPA, particularmente em
regiões neuronais com elevada densidade de receptores dos corticosteróides,
induzida por eventos adversos, durante períodos críticos do desenvolvimento
(Ehlert et al., 2001). De facto, estudos realizados em modelos animais
mostraram já a existência de mecanismos de programação epigenética
influenciados pelo comportamento materno. Especificamente, Weaver e
colaboradores (2004) mostraram que défices no comportamento maternal (em
roedores) levam ao aumento do padrão de metilação dos receptores GR no
hipocampo das crias, traduzindo-se na diminuição da expressão destes receptores
nesta região. A diminuição da densidade dos GR tem como consequência a
alteração dos mecanismos de feedback negativo do eixo HPA, associados a estados
de hipercortisolemia e a um perfil de maior ansiedade. Semelhantes resultados
foram descritos no hipocampo post-mortemde suicidas vítimas de abuso infantil,
evidenciando uma regulação epigenética da expressão dos GR no hipocampo,
semelhante à encontrada em roedores (McGowan et al., 2009).
Em resumo, a literatura tem mostrado, a partir de dados humanos e de modelos
animais, que a exposição a elevados níveis de glucocorticóides (cortisol ou
corticosterona, respectivamente) em janelas temporais específicas do
desenvolvimento pós-natal aumentam o risco para a psicopatologia na idade
adulta associada a alterações do funcionamento do eixo HPA. A evidência de que
o stress é capaz de reprogramar um fenótipo determinado geneticamente é agora
aceite como um dos possíveis mecanismos para a etiologia da ansiedade e
depressão. Mais intrigante, é a evidência de que algumas dessas alterações
adquiridas epigeneticamente podem ser transmitidas às novas gerações
(Champagne, 2008). A compreensão destes mecanismos é hoje um dos grandes
desafios dos investigadores nesta área, podendo sustentar avanços promissores
para a psicoterapia.
NEUROGENÉTICA E COMPORTAMENTO ANIMAL: CONTRIBUIÇÕES PARA A COMPREENSÃO DOS
SISTEMAS SENSORIAIS
Até ao presente o cérebro continua a ser a melhor ligação funcional entre genes
e comportamento, e a neurogenética enquanto análise genética da estrutura e
função cerebrais, e sua relação com o comportamento. A maioria da investigação
em neurogenética foi conduzida utilizando mutações disponíveis, especialmente
na Drosophila e em roedores, com o propósito de analisar funções cerebrais
específicas.
Dois tipos de comportamento, utilizando modelos animais, têm sido
extensivamente estudados na neurogenética: (1) ritmos circadianos, e (2)
aprendizagem e memória. Assim têm sido identificados,vários genes que afectam
os relógios internos por exemplo (e.g., os genes Period(per 1, 2, e 3),
Timeless(tim), Clock(clock)). A investigação neurogenética em mamíferos revelou
que estes genes afectam o pacemaker do cerebro: o núcleo supraquiasmático do
hipotálamo (Moore, 1999, 2007). Foram identificadas até 30 mutações na
Drosophila, associadas a disfunções de memória e que são usadas em estudos de
neurogenética da aprendizagem e memória (Berger et al., 2008; Dubnau &
Tully, 1998). Algumas dessas mutações comprometem a memória imediata, ao passo
que outras (e.g., dCREB2-b) afectam a memória a longo-prazo.
Com modelos animais em ratinhos, a investigação neurogenética usa mutações de
genes alvo para inactivar funcionamento de genes específicos relacionados com a
memória e aprendizagem. O knockout ou inactivação de genes específicos é uma
importante ferramenta que se refere ao processo através do qual um gene é
modificado de uma forma específica, quer seja para o inactivar completamente,
ou para modificar a sua função aumentando ou diminuindo a sua expressão. Por
exemplo a expressão aumentada do gene NMDA (NMDA receptor 2B) promove a
aprendizagem e memória de ratinhos em diferentes tarefas (Tang et al., 1999;
Jiao et al., 2008).
Outra metodologia importante em neurogenética é a psicofarmacogenética, que
estuda respostas comportamentais com uma base genética, a diferentes fármacos/
drogas. Um exemplo seria o uso de modelos knockout para genes que alteram a
preferência para o álcool (Crabble et al., 1996) e os efeitos da nicotina na
dor (Marubio et al., 1999). Outros comportamentos estudados através da
utilização de modelos animais knockout incluem a manipulação de genes
associados ao comportamento agressivo, à emoção e ao comportamento reprodutor
(Flint, 2000; Nelson et al., 1995; Ogawa et al., 1996).
Uma outra ferramenta importante na investigação neurogenética é a capacidade de
analisar a expressão de milhares de genes em simultâneo. Análises de
microarraysou chips de ADN são usados para avaliar o grau em que um
determinado gene é expresso. Esta metodologia permite assim a medição do nível
de expressão de fragmentos de ADN ou genes de amostras de tecidos, em condições
experimentais específicas. Um estudo com ratos envelhecidos (Lee et al., 1999)
comparou a expressão de mais de 6000 genes em ratos controlo e ratos que foram
expostos a restrição calórica. A maioria dos genes cuja expressão estava
aumentada foram classificados como genes de resposta ao stress, e os que
apresentaram uma expressão diminuída como genes metabólicos.
A investigação transgénica é também considerada actualmente uma das
metodologias mais promissoras em neurogenética. Com DNA inserido a partir de
uma espécie diferente, com o propósito de exibir uma nova propriedade e
transmitir essa nova proprieade para a sua descendência, os organismos
transgénicos estão a ser amplamente usados na tentativa de aperfeiçoar as
metodologias e ferramentas neurogenéticas actualmente disponíveis
Na nossa investigação realizada na Universidade da California Irvine e na
Universidade do Minho, com a ajuda da tecnologia actual, nós criamos moscas
transgénicas que transportam o gene humano superóxido dismutase (SOD1), com o
propósito de estudar e medir os seu comportamentos sensório-motores. Usando a
Drosophila como um sistema modelo, os nossos resultados desafiam os pontos de
vista actuais da teoria dos radicais livres (dano oxidativo) sobre o
envelhecimento. A teoria actual sugere que o ciclo de vida de um único tipo de
célula, o neurónio motor, estabelece os limites do ciclo de vida de um
organismo (i.e., morte por envelhecimento). Evidência a favor desta teoria é a
de que sobrexpressão selectiva do gene humano SOD1 nos neurónios motores da
Drosophila extende o ciclo de vida, equanto que a expressão global do SOD1 não
tem efeito na longevidade. O nosso trabalho mostra que a sobrexpressão do SOD1
nos neurónios motores afecta de forma positiva comportamentos complexos durante
os primeiros estádios de vida, quando o dano oxidativo cumulativo não teve
ainda tempo para causar disfunção sistémica. A expressão do SOD1 confere assim
uma vantagem adaptativa durante os primeiros períodos de reprodução, para além
da extensão da longevidade dos neurónios motores, iniciando possivelmente uma
cascata de alterações nos processos de transdução de sinal através do sistema
neuroendócrino que regulam os padrões de expressão genética noutros tipos de
células que não os neurónios motores.
Os nossos resultados têm importantes implicações para a saúde humana. De facto,
a mutação do SOD1 humano desencadeia uma perturbação neurodegenerativa dos
neurónios motores que é fatal ' a esclerose amiotrófica lateral familiar (ELAF
ou doença de Lou Gehrig's). Ao mostrar que a sobrexpressão do SOD1 melhora a
coordenação sensório-motora em organismos jovens, os nossos resultados sugerem
possíveis estratégias terapêuticas para a ELAF em humanos.
Desafios futuros para a nossa investigação incluem: (1) determinar de que forma
os resultados actuais de uma melhoria da função sensório-motora na Drosophila
podem ser extendidos aos estudos clínicos e translacionais em ELAF com humanos;
(2) investigar se a Drosophila geneticamente afectada com disfunção motora
(através do uso de mutantes sem o gene Sod) podem ser recuperadas com SOD1
através de um agente externo, quer seja usando transgenes ou produtos
farmacêuticos (e.g., drogas alimentares), e (3) se intervenção antioxidante
usando o SOD1 pode interagir construtivamente com factores ambientais. Ou seja,
se a exposição precoce a stress oxidativo durante períodos desenvolvimentais
pode levar à resistência à disfunção neuromotora no adulto.
Desafios futuros para a investigação neurogenética incluem mais considerações
acerca de variação genética que ocorre naturalmente (entre e dentro das
espécies), ao invés das mutações artificialmente criadas; análise de como os
genes funcionam a todos os níveis, ou seja, neurónios sistema nervoso '
comportamento (genómica comportamental). Um desafio adicional para a
investigação nesta area é a integração de metodologias comportamentais e
moleculares de modo a aperfeiçoar as tecnologias existentes utilizadas nesta
área. Um outro desafio ainda será o de compreender a ligação entre os
mecanismos genéticos e neuronais que estão subjacentes à cognição humana
normal. Colamatar esta lacuna será um dos principais objectivos da
neurogenética, pelo menos para as próximas décadas.
CONCLUSÃO
Imaginemos por um momento um cenário de ficção em que um cientista resolve
introduzir um gene de uma proteína foto-sensível em células do cérebro de um
animal. Seguidamente o mesmo cientistas procura verificar o que acontece com a
estimulação por laser destas células. Surpreendentemente, o cientista conseguia
controlar os circuitosneuronais do animal e, deste modo, manipular o seu
comportamento a sua bel prazer. Este que parece ser um cenário de ficção com
implicações inimagináveis para a compreensão e manipulação do comportamento e
funcionamento mental, é já uma realidades em muitos laboratórios de
neurociências graças à genialidade do psiquiatra e neurocientista de Stanford,
Karl Deisseroth. A optogenética desenvolvida por Deisseroth ilustra de modo
paradigmático os caminhos que se abrem a uma psicologia que se procura situar
no horizonte programático e metodológico das neurociências cognitivas (ver
Deisseroth, 2012).
Talvez seja ainda cedo para o afirmar com segurança, mas quem sabe se não será
neste terreno de transdisciplinar das neurociências cognitivas que a psicologia
consiga finalmente afirmar o seu projecto como hub-science(Cacioppo, 2007)
dando por terminadas as inglórias de Sísifo, permitindo a este astuto mortal o
acesso ao Monte Olímpico e ao fogo de Zeus.
AGRADECIMENTO
Este trabalho foi financiado, na sua componente FEDER pela Comissão Diretiva do
COMPETE, e na sua componente nacional pela Fundação para a Ciência e a
Tecnologia, através dos seguintes projectos ' PTDC/PSI-PCL/115316/2009, PTDC/
PSI-PCL/116626/2010, PTDC/PSI-PCL/116897/2010, PTDC/PSI-PCO/116612/2010, PTDC/
MHN-PCN/3606/2012; e pela Fundação BIAL -BIAL87/2012.