Delinquência juvenil no feminino: Um estudo comparativo de raparigas
institucionalizadas
Delinquência juvenil no feminino: Um estudo comparativo de raparigas
institucionalizadas
Pedro Pechorro*; Ana Paula Gama**; Maria Manuela Guerreiro***; João Marôco****;
Rui Abrunhosa Gonçalves*****
*Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias;
**Centro de Investigação em Ciências da Saúde e Comportamentais, INUAF;
***Direcção-Geral de Reinserção Social e Serviços Prisionais;
****ISPA - Instituto Universitário;
*****Escola de Psicologia, Universidade do Minho
Correspondência
ABSTRACT
The objective of the present study was to analyze the role played by
psychopathic traits, behavior problems, delinquent behaviors and self-esteem in
female juvenile delinquency. With a total of 249 female participants,
subdivided in forensic group (n=93) and school group (n=156), the results
showed that youths from the forensic group scored higher on psychopathic
traits, psychopathic taxon membership, conduct disorder, behavior problems and
delinquent behaviors. No differences were found regarding self-esteem and
social desirability. A binary logistic regression model confirmed the
importance of psychopathic traits and psychopathy membership as predictor
variables.
Key-words:Behavior problems, Delinquent behaviors, Female juvenile delinquency,
Psychopathic traits, Self-esteem, Social desirability.
O estudo dos traços psicopáticos em crianças e adolescentes, que era um tópico
quase ignorado até há alguns anos atrás (Verona & Vitale, 2006), tem levado
a um interesse renovado pelo estudo do constructo da psicopatia. O trabalho dos
investigadores neste campo, que têm vindo a modificar este constructo
originalmente concebido tendo em mente adultos do sexo masculino, tem
proporcionado o desenvolvimento de instrumentos de avaliação apropriados a
outras populações, nas quais se inclui o sexo feminino. Acumulam-se evidências
de que os traços psicopáticos em jovens estarão associados a uma maior
estabilidade e frequência dos comportamentos anti-sociais, a comportamentos
delinquentes mais graves e violentos, a um início precoce das actividades
criminais, a detenções precoces pela polícia e a condenações precoces pelos
tribunais (e.g., Forth & Book, 2010; Kruh, Frick, & Clements, 2005; Van
Baardewijk, Vermeiren, Stegge, & Doreleijers, 2011). Todavia, a adaptação
do constructo da psicopatia a menores de idade continua a ser um tema ainda
bastante controverso (Seagrave & Grisso, 2002), especialmente no que
concerne ao sexo feminino.
Geralmente a psicopatia é conceptualizada como uma síndrome que se mantém ao
longo da vida e que engloba uma constelação categorial de traços extremos a
nível interpessoal, afectivo, comportamental e de estilo de vida. Os sujeitos
psicopáticos tendem a demonstrar comportamentos violentos proactivos com mais
frequência, motivados por razões instrumentais como ganhos materiais e vingança
(e.g., Serin, 1991). Os traços psicopáticos, que podem ser definidos desde o
ponto de vista dimensional, referem-se a um padrão manipulador, enganador,
insensível e sem remorsos que tem vindo a ser associado a um tipo de
comportamento anti-social mais persistente, grave e de início precoce, com
preferência por actividades excitantes e perigosas (e.g., Andershed, Gustafson,
Kerr, & Stattin, 2002; Frick, Kimonis, Dandreaux, & Farrel, 2003;
Vitacco, Neumann,Robertson, & Durrant, 2002).
Recentemente tem-se vindo a modificar a rede nomológica da psicopatia e a
adaptar os instrumentos de investigação existente sobre a psicopatia a menores
de idade de ambos os sexos. Alguns autores (e.g., Frick, 1998; Lynam, 1996,
1997) defendem que os menores que exibem uma combinação de impulsividade,
hiperactividade e défice de atenção, bem como de perturbação do comportamento,
teriam uma variante especialmente nefasta de perturbação de comportamento que
os tornava similares aos psicopatas adultos. Através de medidas de psicopatia,
de comportamento anti-social e de tarefas laboratoriais construídas para
avaliar a modulação de respostas (e.g., dificuldade em adiar a gratificação),
estes menores poderiam ser identificados.
Até este momento, a investigação efectuada sugere que o constructo da
psicopatia poderá ter uma estrutura factorial bi-dimensional ou tridimensional.
A literatura tem salientado o papel dos traços calosos/não emocionais (também
designados por insensibilidade ou frieza emocional), definidos como um estilo
afectivo (e.g., ausência de culpa, restrição da emoção demonstrada) e
interpessoal (e.g., falta de empatia) que emerge como uma dimensão distinta;
este tipo de traços têm sido referenciados como tendo a capacidade de
diferenciar um tipo de jovens delinquentes especialmente mais graves e
agressivos (Caputo, Frick, & Brosky, 1999; Kruh, Frick, & Clements,
2005) de uma forma que outras facetas do constructo não conseguem.
Os traços psicopáticos e os comportamentos anti-sociais (Forth & Book,
2010) têm em comum a sua forte associação mútua e a sua grande estabilidade da
infância à idade adulta (Farrington, 1989; Huesmann, Eron, Lefkowitz, &
Walder, 1984; Moffitt, 1993). A co-morbilidade dos traços psicopáticos com
outras perturbações é alta, podendo até ser considerada a regra (Frick, 1998).
Cada vez mais se têm acumulado evidências de que os menores diagnosticados com
combinações co-mórbidas das Perturbações Disruptivas do Comportamento e de
Défice de Atenção (DSM-IVTR) exibem um tipo de comportamento anti-social
particularmente grave e agressivo semelhante ao dos adultos com psicopatia
(Barry, Frick, DeShazo, McCoy, Ellis, & Loney, 2000; Leistico, Salekin,
DeCoster, & Rogers, 2008; Lynam, 1996, 1998).
Salekin, Leistico, Neumann, DiCicco e Duros (2004) analisaram a relação entre
psicopatia juvenil e psicopatologia externalizante definida em termos de
comportamentos disruptivos, tendo concluído pela existência de correlações
moderadas altas (r=.36 - .49) entre as ambas. Sevecke e Kosson (2010)
evidenciaram existência de uma ligação retrospectiva entre psicopatia no adulto
e perturbações do comportamento na infância, tais como início precoce de
comportamentos antisociais, violência crónica, delitos diversificados e
impulsividade. Myers, Burket e Harris (1995) estudaram a relação entre
psicopatia e certas formas de psicopatologia em adolescentes hospitalizados,
tendo encontrado correlações positivas e estatisticamente significativas da
psicopatia com Perturbação do Comportamento e com comportamentos anti-sociais.
Frick, Barry e Bodin (2000) encontraram correlações fortes e significativas
(R=.52 - .65; p≤ .001) entre as dimensões do APSD (Impulsividade,
Narcisismo e Traços Calosos/Não-emocionais) e a Perturbação do Comportamento.
A auto-estima é outro constructo associado frequentemente à delinquência
juvenil. Desde há muito que psicólogos, sociólogos e criminologistas consideram
que esta se correlaciona de forma importante com o comportamento anti-social
(Caldwell, Beutler, Ross, & Silver, 2006; Mason, 2001). A baixa auto-estima
pode levar o jovem a relacionar-se com outros jovens com comportamentos anti-
sociais dado que estes satisfazem as necessidades afectivas em termos de
amizade e de apoio afectivo. Barnow, Lucht e Freyberger (2005) demonstraram
como os adolescentes com baixa auto-estima são mais frequentemente rejeitados
pelos seus pares e como esta rejeição produz um ciclo vicioso que amplifica o
comportamento violento. Outras evidências empíricas (e.g., Baumeister, Smart,
& Boden, 1996; Toch, 1993) demonstram que os jovens com baixa auto-estima
tendem a envolver-se em comportamentos anti-sociais com mais frequência e que a
sua auto-estima sai aumentada como consequência desse envolvimento anti-social.
A presente investigação pretendeu contribuir para o estudo da delinquência
juvenil feminina em Portugal, tema escassamente investigado na literatura da
especialidade. Tendo em mente a revisão de literatura efectuada anteriormente
colocámos duas hipóteses: (a) as jovens institucionalizadas em Centros
Educativos apresentam valores significativamente mais elevados em traços
psicopáticos, categoria psicopática, perturbação de comportamento, problemas de
comportamento e comportamentos delituosos, além de valores mais baixos de auto-
estima; (b) é possível predizer a pertença das jovens aos grupos forense e
escolar a partir dos valores obtidos nas medidas de traços psicopáticos e
categoria psicopática.
MÉTODO
Participantes
O grupo total final ficou constituído por 249 participantes do sexo feminino,
sendo que desse total 93 participantes (M=15.78 anos; DP=1.30 anos;
amplitude=13-18 anos) foram provenientes dos Centros Educativos do Ministério
da Justiça e constituíram o grupo forense, e 156 participantes (M=15.87 anos;
DP=1.45 anos; amplitude=13-20 anos) foram provenientes de estabelecimentos
públicos de ensino da grande Lisboa e constituíram o grupo escolar.
Na tabela seguinte podem observar-se os dados relativos a proveniência, número
e percentagem de participantes (ver Tabela_1).
Relativamente à caracterização de tipo criminal do grupo forense as
participantes tiveram o seu primeiro envolvimento em actividades criminais aos
12 anos (M=12.38 anos; DP=1.71), o seu primeiro problema com a lei aos 13 anos
(M=13.13 anos; DP=1.51), a sua primeira entrada em Centro Educativo aos 15 anos
(M=15.09 anos; DP=1.2), haviam sido condenadas a 19 meses de internamento
(M=19.15; DP=5.17), na sua maioria (85.7%) estavam internadas devido a crimes
considerados graves e/ou violentos, haviam sido condenadas a medida de
internamento (60.7%) e estavam em regime semi-aberto (67.9%).
Medidas
O Dispositivo de Despiste de Processo Anti-social versão de auto-resposta
(Antisocial Process Screening Device- APSD-SR; Frick & Hare, 2001;
Pechorro, Marôco, Poiares, & Vieira, 2011a) é uma medida psicométrica
multi-dimensional de 20 itens projectada para avaliar traços psicopáticos em
jovens. Originalmente chamado Psychopathy Screening Device(PSD), foi modelado a
partir da Psychopathy Checklist - Revised(PCL-R; Hare, 2003). Cada item é
cotado numa escala ordinal de 3 pontos (Nunca=0, Algumas vezes=1,
Frequentemente=2), sendo que pontuações mais altas significam a elevação da
presença dos traços em questão. A pontuação total e as pontuações de cada
dimensão são obtidas somando os respectivos itens. Alguns estudos (e.g., Frick,
O'Brien, Wootton, & McBurnett, 1994; Pechorro, 2011) evidenciam a
existência de dois factores: traços calosos/não-emocionais (CU; que explora
dimensões interpessoais e afectivas da psicopatia como a falta de culpa e a
ausência de empatia) e impulsividade/problemas de comportamento (I-CP; que
explora aspectos comportamentais a nível de problemas de comportamento e
controlo de impulsos). Outros estudos (e.g., Frick, Barry, & Bodin, 2000)
evidenciam a existência de três factores: traços calosos/não-emocionais (CU),
narcisismo (Nar) e impulsividade (Imp). Pontuações mais elevadas indicam a
presença das características associadas a cada factor. A consistência interna
por alfa de Cronbach obtida no presente estudo foi: APSDSR total=.75; APSD-SR
I-CP=.77, APSD-SR CU=.56.
A Escala Taxonómica para Crianças e Adolescentes (Child and Adolescent Taxon
Scale- CATS; Pechorro, 2011; Quinsey, Harris, Rice, & Cormier, 2006)
é uma rating scaleactuarial desenvolvida a partir de oito variáveis
relacionadas com conduta anti-social e agressiva na infância e adolescência que
permitem discriminar os indivíduos pertencentes à categoria anti-social dos que
não pertencem (psicopatas versusnão-psicopatas). A escala tem 8 itens
dicotómicos (Não=0; Sim=1). Devido a ser uma medida actuarial não foi calculada
a consistência interna.
O Questionário de Capacidades e Dificuldades na versão de auto-resposta
(Strengths and Difficulties Questionnaire - Self-report- SDQ-SR;
Goodman, Meltzer & Bailey, 1998; Pechorro, Poiares e Vieira, 2011) é um
questionário comportamental curto, dirigido a pré-adolescentes e adolescentes,
composto por 25 itens em escala ordinal de 3 pontos (Nunca=0, Por vezes=1,
Muitas vezes=2). O SDQ tem uma estrutura de cinco dimensões: Sintomas
emocionais (ES), Problemas de comportamento (CP), Hiperactividade (H),
Problemas com os pares (PP) e Comportamento pró-social (P). As consistências
internas por alfa de Cronbach para o presente estudo foram: ES=.51; CP=.46; H
.52; PP .43; P=.61. Estes resultados são baixos, mas mesmo assim aceitáveis
para fins de investigação.
A Escala de Auto-Estima de Rosenberg (Rosenberg Self-Esteem Scale- RSES;
Pechorro, Marôco, Poiares, & Vieira, 2011b; Rosenberg, 1979, 1989) é uma
medida breve de auto-resposta que avalia a auto-estima em adolescentes e
adultos. A RSES pode ser cotada simplesmente somando os dez itens em escala
ordinal de 4 pontos (Discordo fortemente=0, Discordo=1, Concordo=2, Concordo
fortemente=3), após se ter efectuado a reversão dos itens apropriados
(nomeadamente os itens 2, 5, 6, 8 e 9). Pontuações mais altas indicam níveis de
auto-estima mais altos. A consistência interna por alfa de Cronbach obtida no
presente estudo foi de .79.
A Escala de Delinquência Auto-reportada Adaptada (Adapted Self-reported
Delinquency Scale- ASRDS; Carroll, Durkin, Houghton, & Hattie, 1996;
Pechorro et al., no prelo a) é uma medida de auto-resposta adaptada constituída
por 38 itens que mede o envolvimento dos adolescentes em actividades ilegais e
anti-sociais. A ASRDS pode ser cotada somando os itens em escala ordinal de 3
pontos (Nunca=0, Algumas vezes=1, Frequentemente=2), sendo que pontuações mais
altas significam indicam maior envolvimento em actividade criminal. A
consistência interna por alfa de Cronbach obtida no presente estudo foi de .96.
A Escala de Desejabilidade Social de Marlowe-Crowne (Marlowe-Crowne Social
Desirability Scale- MCSDS; Crowne & Marlowe, 1960) na versão curta
compósita foi desenvolvida por Ballard (1992) a partir da escala original de
Marlowe-Crowne. Esta versão curta ficou conhecida como MCSDS-SF (Pechorro et
al., no prelo b), sendo provavelmente a mais utilizada de todas as subescalas
derivadas da original. A consistência interna por Kuder-Richardson obtida no
presente estudo foi de .60.
Adicionalmente foi construído um questionário sócio-demográfico e criminal para
descrever as características sócio-demográficas das participantes e analisar o
efeito moderador dessas variáveis. Este questionário incluiu questões como a
idade das participantes, a sua nacionalidade, grupo étnico, o sexo, a
proveniência rural versus urbana, os anos de escolaridade completados, o nível
sócio-económico dos pais e o estado civil dos pais. O questionário focou-se
também na caracterização criminal do grupo forense, incluindo questões como
idade do primeiro problema com a lei. Utilizou.se também o diagnóstico de
Perturbação de Comportamento da DSM-IV-TR (American Psychiatric Association,
2002).
Procedimentos
O leque etário para participação das jovens na investigação foi previamente
fixado entre os 12 anos e os 20 anos dado ser esse o intervalo etário abrangido
pela Lei Tutelar-Educativa no sistema judicial português. Cada questionário
aplicado foi precedido por um termo de consentimento informado, em que era dado
conhecimento do carácter voluntário e confidencial de participação no estudo.
A recolha dos questionários em meio forense decorreu individualmente após se
ter obtido autorização por parte da Direcção-Geral de Reinserção Social (DGRS),
Ministério da Justiça. Foram feitas aplicações em todos os Centros Educativos
existentes a nível nacional. Nem todos as jovens concordaram ou puderam
participar, sendo que a não participação incluiu motivos como recusa em
participar, impossibilidade de participar devido a não entendimento da língua
portuguesa e impossibilidade de participar devido a questões de segurança. A
taxa de participação foi de cerca de 90%. Todos os questionários dos jovens que
participaram foram considerados válidos.
A recolha dos questionários em meio escolar decorreu após se ter obtido
autorização por parte da Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento
Curricular (DGIDC), Ministério da Educação. Foram aleatoriamente seleccionadas
doze escolas básicas/secundárias da região da grande Lisboa, das quais quatro
concordaram em participar. Os motivos da não participação incluíram ausência
sistemática de resposta ao pedido de colaboração efectuado pelo investigador,
alegadas questões relativas à organização interna das escolas que
impossibilitaram a colaboração, além de recusa em colaborar devido ao conteúdo
forense do questionário. As escolas que aceitaram participar solicitaram que a
participação de cada aluna fosse previamente autorizada através de um termo de
consentimento assinado pelo encarregado de educação. No final, foram excluídos
cerca de 13% das participantes devido a estarem fora do intervalo etário
estabelecido ou a motivos como terem entregado questionários não preenchidos,
incompletos ou ilegíveis.
Os dados relativos aos questionários considerados válidos foram inseridos e
posteriormente tratados em SPSS v19 (IBM SPSS, 2010). Após a inserção dos dados
ter sido feita foram aleatoriamente seleccionados 10% dos questionários
inseridos, de forma a avaliar a qualidade de inserção dos mesmos. A qualidade
foi considerada muito boa dada a quase ausência de erros de inserção.
Relativamente às comparações entre grupos utilizaram-se técnicas paramétricas
quando se estava perante uma distribuição normal (assimetria e curtose entre -
2 e 2), recorrendo-se à correcção de Welch em caso de ausência de homogeneidade
de variâncias. Quando não se estava presente perante uma distribuição normal
optou-se pelas técnicas não paramétricas, nomeadamente o teste Ude Mann-
Whitney. Foram calculadas a dimensão do efeito e a potência do teste (Marôco,
2010). Utilizou-se também regressão logística binária (codificação da variável
dependente: grupo escolar=0; grupo forense =1).
RESULTADOS
Na fase inicial do tratamento de dados foram analisadas as variáveis
moderadoras incluídas no questionário sócio-demográfico. Os resultados
demonstraram que as participantes do grupo forense tinham menos anos de
escolaridade completos (F=388.658, p≤.001), mais progenitores com baixo nível
sócio-económico (U=3726.5, p≤.001), mais progenitores divorciados/separados ou
falecidos (χ2=48.789, p≤.001), maior número de co-habitantes no agregado
familiar (U=5435, p≤.05), maior quantidade de irmãos/meios-irmãos (U=3386.5,
p≤.001), tinham proporcionalmente mais outras nacionalidades (χ2=14.356,
p≤.01), tomavam mais medicamentos psiquiátricos (χ2=19.112, p≤.001) e eram
proporcionalmente mais diagnosticadas com Perturbação do Comportamento
(χ2=194.097, p≤.001). Não foram encontradas diferenças estatisticamente
significativas entre o grupo forense e o grupo escolar relativamente à idade
dos participantes, à etnia e à proveniência rural versusurbana.
Relativamente aos instrumentos, na comparação dos grupos quanto ao APSD-SR e
CATS foram encontradas diferenças estatisticamente significativas (ver Tabela
2). No caso do APSD-SR I-CP a dimensão do efeito por Eta parcial ao quadrado
(ηp2) foi de .71 e a potência de 1. Na dimensão APSD-SR CU o ηp2foi de .75 e a
potência de 1. Na CATS o ηp2foi de .45 e a potência de 1.
Na comparação dos grupos quanto às escalas do SDQ-SR foram encontradas
diferenças estatisticamente significativas nas escalas CP, H e PP (ver Tabela
3). No caso da escala ES o ηp2foi de .83 e a potência de 1. Na escala CP o
ηp2foi de .69 e a potência de 1. Na escala H o ηp2foi de .81 e a potência de 1.
Na escala PP o rfoi de -.20 e a potência de .95. Na escala PP o rfoi de -.05 e
a potência de .95.
Na comparação dos grupos quanto a ASRDS, RSES e MCSDS-SF foram encontradas
diferenças estatisticamente significativas apenas na ASRDS (ver Tabela_4). Na
ASRDS o ηp2foi de .54 e a potência de 1. Na RSES o ηp2foi de .95 e a potência
1. Na MCSDS-SF o ηp2foi de .98 e a potência de 1.
Para avaliar a significância dos traços psicopáticos e da pertença à categoria
psicopática na predição da pertença ao grupo forense ou ao grupo escolar
recorreu-se à regressão logística binária pelo método Enter(Tabachnick &
Fidell, 2007). Utilizou-se a Tolerância e o VIF para comprovar a inexistência
de multicolinearidade (Leech, Barrett, & Morgan, 2008). As variáveis
apresentadas na Tabela_5, quando consideradas em conjunto, prediziam de forma
estatisticamente significativa ou marginalmente significativa a pertença aos
grupos forense e escolar.
O modelo foi também utilizado para classificar os sujeitos que participaram no
estudo, tendo-se observado uma percentagem de classificação geral correcta de
98.4%, o que demonstra a utilidade do modelo para classificar novas
observações. O modelo obteve ainda uma excelente sensibilidade (97.8%) e
especificidade (98.7%).
DISCUSSÃO
Na comparação dos participantes do sexo feminino do grupo forense com o grupo
escolar relativamente às variáveis sócio-demográficas constatámos a existência
de diferenças estatisticamente significativas em muitas das variáveis
analisadas. Todavia, não foram encontradas diferenças estatisticamente
significativas nas variáveis à idade dos participantes, à etnia e à
proveniência rural versusurbana, que são geralmente consideradas importantes
variáveis moderadoras a ter em conta.
Na comparação das participantes do grupo forense com o grupo escolar
relativamente aos instrumentos foram encontradas diferenças estatisticamente
significativas na maioria das escalas e respectivas dimensões analisadas. O
grupo forense obteve valores mais altos no APSD-SR I-CP, APSD-SR CU e CATS.
Estes resultados foram na sua maioria de encontro às hipóteses formuladas de
que o grupo forense obteria valores mais elevados no constructo de psicopatia
(e.g., Andershed et al., 2002; Frick et al., 2003; Vitacco et al., 2002).
Encontrámos, portanto, evidências da utilidade da aplicação do constructo da
psicopatia relativamente à população forense juvenil feminina.
No SDQ-SR o grupo forense obteve valores mais altos em Problemas de
Comportamento (CP), em Hiperactividade (H) e em Problemas de Relacionamento com
os Colegas (PP). Apenas relativamente a Sintomas Emocionais (ES) e a
Comportamento Pró-social (P) não foram encontradas diferenças significativas.
Estes resultados foram na sua maioria ao encontro das nossas hipóteses, dada a
ligação que é sabido haver entre os comportamentos disruptivos / défice de
atenção e os comportamentos anti-sociais que caracterizam o grupo forense
(e.g., Barry et al., 2000; Lynam, 1996; Salekin et al., 2004).
Na ASRDS o grupo forense obteve valores mais altos em delinquência auto-
relatada; estes resultados foram consonantes com o que era esperado,
nomeadamente no maior envolvimento das jovens do grupo forense em actividades
de tipo criminal (e.g., Thornberry & Krohn, 2000). Na RSES não foram
encontradas diferenças estatisticamente significativas; estes resultados não
foram ao encontro do que era esperado, dada a ligação que é referida na
literatura entre delinquência e auto-estima baixa (e.g., Donnellan,
Trzesniewski, Robins, Moffitt, & Caspi, 2005; McCarthy & Hoge, 1984;
Wooldredge, Harman, Latessa, & Holmes, 1994). É possível que estejamos
perante uma variação relacionada com o sexo feminino. Na MCSDS-SF não foram
encontradas diferenças estatisticamente significativas a nível de
desejabilidade social (i.e., não se encontraram diferenças na forma como os
participantes se retratavam a si próprios em termos de exagerarem os seus
aspectos positivos ou minimizarem os aspectos negativos), pelo que se assume
que não houve enviesamentos relacionados com esta variável.
Podemos concluir que existe heterogeneidade na caracterização sócio-demográfica
e criminal nas jovens pertencentes aos dois grupos, que também ocorre ao nível
dos constructos medidos pelos instrumentos psicométricos. As variáveis
estudadas, na sua maioria, permitem diferenciar entre os dois grupos a nível
psicológico e relacional. Existem, portanto, evidências que permitem corroborar
a hipótese inicialmente colocada de que as jovens do grupo forense apresentam
valores significativamente mais elevados traços psicopáticos, pertença à
categoria psicopática, perturbação do comportamento, problemas de comportamento
e comportamentos delituosos. Relativamente à faceta da auto-estima, a essa
parte da hipótese não foi confirmada.
No modelo de regressão logística binária da variável dependente grupos forense
e escolar duas das variáveis independentes obtiveram valores estatisticamente
significativos e a terceira foi marginalmente significativa. Os resultados
obtidos no modelo de regressão reforçam a importância do constructo da
psicopatia (e.g., Verona & Vitale, 2006) no estudo da população de
delinquentes juvenis do sexo feminino. Também neste caso, portanto, existem
evidências que permitem corroborar maioritariamente a hipótese colocada de que
é possível predizer a pertença das jovens aos grupos forense e escolar a partir
dos valores obtidos nas medidas de psicopatia.
Em termos de limitações da presente investigação devemos apontar alguns
aspectos menos bem conseguidos. O grupo forense ficou constituído por menos
participantes relativamente ao grupo escolar devido a que as
institucionalizações de raparigas em Centro Educativo são relativamente pouco
frequentes em Portugal, apesar de terem tendência a aumentar. Outra limitação
está relacionada com a baixa consistência interna de algumas escalas utilizadas
(e.g., APSD-SR Traços calosos/não-emocionais, MCSDS-SF), recomendando-se que em
investigações futuras se utilizem medidas destes constructos que apresentem
melhor fiabilidade.