Tornar-se Psicólogo para além das aulas: Grupo de desenvolvimento com
estudantes de Psicologia
(Estudante participante, 2010)
Nas últimas décadas, o desenvolvimento profissional (DP), especialmente no
domínio da Psicologia, tem vindo a ser reconhecido como um elemento crítico na
formação e no desempenho profissional por variadas instituições, dando origem
um pouco por todo o mundo à redacção de artigos e capítulos, bem como à
constituição de comités científicos dedicados à temática e à realização de
actividades promotoras do mesmo, ainda que não integradas no plano de estudos
(Ducheny, Allezhauser, Crandell, & Schneider, 1997). Em Portugal, esta não
parece ser ainda uma prática corrente, não obstante o interesse pelo DP do
Psicoterapeuta patente na recente proliferação de investigações no domínio
(ex., Carvalho & Matos, 2011a,b; Ferreira, 2010; Magalhães, 2008; Vasco,
1992).
Na verdade, o estudo do DP do Psicólogo tem estado bastante associado ao do
Psicoterapeuta. Após décadas de investigação acerca da eficácia da
Psicoterapia, despoletadas pelo questionamento de Eysenck, em 1952, a
investigação direccionou-se para os factores comuns da Psicoterapia,
especificamente para a preponderância da relação estabelecida e, portanto, para
a pessoa do Psicoterapeuta (Mahoney, 1991; Norcross & Lambert, 2011; Sales,
2009; Sousa, 2006; Wampold, 2001). Provavelmente pela ausência de
questionamento o mesmo não se sucedeu de uma forma sistemática noutros domínios
da Psicologia relativamente à figura do Psicólogo. Assim, conferir relevância e
mover o foco também para o Psicólogo e para o seu DP a par de colocar termo ao
divórcio entre a investigação e a intervenção, considerado uma das principais
prioridades actuais (Sales, 2009), são dois dos objectivos do presente
trabalho.
Tal como Skovholt (2005), consideramos que a essência das profissões que
prestam ajuda/apoio, entre as quais se insere a de Psicólogo, é o processo
relacional inerente, sendo a componente relacional transversal ao DP do
Psicólogo independentemente do seu campo de intervenção. Pois trabalhar
relações não é uma tarefa exclusiva do Psicoterapeuta na medida em que também o
Psicólogo é um "especialista das relações", cujo desenvolvimento
das suas componentes intra e interpessoal é essencial. Um estudo junto de
estudantes de Psicologia, no ramo da consulta psicológica, parece corroborar
esta perspectiva já que os factores relacionais foram os mais valorizados no DP
(Ducheny et al., 1997). No entanto, a liberdade inerente à nossa interpretação
do conceito certamente se explicará ainda por estarmos perante um conceito
pouco claro e consensual, até na sua terminologia (idem; Elman, Illfelder-Kaye,
& William, 2005).
Elman, Illfelder-Kaye e William (2005), que constituíram o Professional
Development Work Group, definiram DP como um processo desenvolvimental no qual
se adquire, amplia e refina o conhecimento, a competência e a proficiência
necessários a um funcionamento profissional competente que tem, por sua vez,
como resultado o profissionalismo. Segundo os autores, este é constituído por
duas componentes: (i) a intrapessoal referente à clarificação dos objectivos
profissionais e à cristalização da identidade profissional (para os quais o
auto-conhecimento, a auto-confiança e a capacidade de reflexão são
fundamentais); e (ii) a interpessoal/social que diz respeito ao desenvolvimento
de aspectos interpessoais e à internalização de padrões inerentes ao
funcionamento profissional e à autonomização. O grupo ressalva ainda a
continuidade processual como característica do DP, tal como Skovholt e
Ronnestad (1992, 1995) que, conferindo um maior enfoque ao papel do
desenvolvimento pessoal no DP, afirmam que este se trata de um longo, lento e
errático processo no sentido da individuação profissional, que implica a
integração do self profissional e do self pessoal. De facto, ao DP parece estar
sempre associado o desenvolvimento pessoal, especialmente na profissão de
Psicólogo, pelo que, por uma questão de parcimónia, passamos a referirmo-nos
também a este na expressão DP.
As definições tecidas acerca do DP remetem-nos para a natureza empírica do
próprio conceito de desenvolvimento que está estruturado em três princípios
teóricos: mudança, estrutura e continuidade. Isto é, o desenvolvimento implica
sempre uma mudança de alguma espécie, que se organiza sistematicamente ao longo
do tempo com continuidades e descontinuidades (Lerner, 1986). Estes princípios
estão subjacentes ao corpo de conhecimento construído acerca do desenvolvimento
do Psicoterapeuta e da supervisão, donde se ressalta os modelos de DP e
vocacional, que têm procurado responder às questões: o que muda? Como se
estrutura e muda o Psicoterapeuta/Psicólogo? (Skovholt & Ronnestad, 1995).
Dada a concepção de Psicólogo já exposta e a lacuna de modelos de
desenvolvimento do Psicólogo na literatura, este programa de intervenção, muito
embora se destine a estudantes de Psicologia, tem por base, em grande parte, o
DP do Psicoterapeuta explanado em alguns destes modelos, que foram
desenvolvidos maioritariamente no contexto da supervisão/formação (Marshall,
2000), e sobre os quais passaremos a discorrer.
TORNAR-SE PSICÓLOGO NO FINAL DA FORMAÇÃO ACADÉMICA
: MODELOS DE DESENVOLVIMENTO
Como se processa e se caracteriza o DP dos estudantes de Psicologia, no período
final da sua formação académica de base? À semelhança de outros profissionais
de saúde, parece certo que o seu desenvolvimento é acelerado (Mahoney, 1991) e
que num momento inicial é especialmente desafiador (Ronnestad & Skovholt,
2003), o que terá levado a que muitos dos modelos de desenvolvimento do
Psicoterapeuta se tenham centrado exclusivamente nesta fase. Skovholt e
Ronnestad (1992, 1995), criando um ponto de ruptura, formularam inicialmente,
com base no primado de Super (1957) que perspectivou o desenvolvimento
vocacional ao longo da vida, um modelo com oito estádios que, em 2003,
reduziram para seis aquando de uma revisão mais parcimoniosa (ajudante
convencional, estudante iniciado, estudante avançado, profissional novato,
profissional experiente e profissional estabelecido) (Ronnestad & Skovholt,
2003).
Dadas as diferenças estruturais no percurso académico formal do sistema
português que o tornam mais diversificado e idiossincrático, consideramos não
ser possível realizar uma transposição integral deste modelo. Ainda assim,
observamos empiricamente semelhanças no que respeita à vivência dos
Psicoterapeutas portugueses e os primeiros estádios do modelo (Carvalho &
Matos, 2011a,b; Magalhães, 2008;), que passamos a apresentar numa síntese
integrativa. Na fase final do seu percurso académico, o estudante de Psicologia
está a ter as suas primeiras experiências práticas quer no estágio, cuja
importância é crítica (Magalhães, 2008), quer na observação participativa em
intervenções da responsabilidade de um orientador.
Portanto, a sua principal função é agir a um nível profissional básico, o que
acarreta um distanciamento das experiências e soluções pessoais e também uma
vivência emocional intensa que começa por oscilar entre o entusiasmo e a
ansiedade (Magalhães, 2008; Ronnestad & Skovholt, 2003; Skovholt &
Ronnestad, 1992, 1995). A dificuldade em lidar com a sua ansiedade e em regular
as emoções intensificadas por uma tendência para a sobre-identificação é uma
das características mais prementes, a par da sua excessiva auto-centração e
dependência externa não só de Psicoterapeutas modelo que procura imitar e que
coincidem frequentemente com a figura do Supervisor, cuja influência e feedback
são primordiais, mas também de técnicas e modelos teóricos que procura adoptar
à medida que tenta ainda esconder as suas características pessoais. No entanto,
a tendência para simplificar, característica dos primeiros momentos, vai dando
gradualmente lugar a uma maior capacidade de complexificação, tal como a
excitação inicial é suprida por um sentimento de desilusão com a profissão que
advém da dificuldade em compreender os limites da intervenção psicoterapêutica
e da excessiva e incorrecta auto-responsabilização (Carvalho & Matos,
2011a,b; Magalhães, 2008; Skovholt & Ronnestad, 1992, 1995; Ronnestad &
Skovholt, 2003).
É uma fase particularmente crítica do seu desenvolvimento, pelo que Skovholt e
Ronnestad (2003) sintetizam as suas principais fontes de stress: ansiedade e
medo do fracasso intensos, padrões de avaliação ambíguos, fronteiras emocionais
pobres ou rígidas, percepção de um self profissional frágil e incipiente, mapas
conceptuais inadequados, expectativas idealistas acerca da profissão e uma
forte necessidade de apoio de um mentor. Com efeito, parece haver uma
exacerbada necessidade de absorver um modelo (teórico e de Psicoterapeuta) por
parte do estudante que age de forma pouco espontânea e experiencia elevados
níveis de ansiedade de realização e, por vezes, sintomas depressivos (Kuyken,
Peters, Power, Lavender, & Rabe-Hesketh, 2000), enquanto, explorando-se,
procura o seu self de Psicoterapeuta. Este evolui, por conseguinte, de um foco
externo para um interno.
Skovholt e Ronnestad (1995), inspirados por Erikson (1968) e Marcia (1966)
afirmam que o desenvolvimento se processa através de momentos de exploração,
reflexão e abertura, nos quais o Psicoterapeuta poderá usufruir de moratórias;
e que a estagnação se relaciona com uma defensividade e um enclausuramento
prematuro cujo fito é diminuir a ansiedade, mas que resultará ora num pseudo-
desenvolvimento, ora num abandono da profissão. Na verdade, vários autores
fazem referência à construção da identidade profissional associada ao DP e a
esta fase desenvolvimental que corresponde à adaptação à transição de papéis,
dada a incongruência entre o self pessoal e o self exigido no contexto
profissional de estágio, nomeadamente (Ducheny et al., 1997; Elman, Illfelder-
Kaye, & William, 2005; Fouad, 2003; Ibarra, 1999, 2003; Ibarra &
Barbulescu, 2010; Kottler & Swartz, 2004).
A este respeito, Ducheny e colaboradores (1997) afirmam que a identidade
profissional é o mecanismo organizador do DP e Ibarra (1999) advoga que é
através de três tarefas básicas (observação, experimentação e avaliação a
partir do feedback externo e interno) que o estudante experimenta selves
provisórios que mais não são do que tentativas de uma identidade profissional
ainda não completamente construída e que este vai avaliando e refinando de
acordo com os seus contextos de desenvolvimento. A autora e Barbulescu (2010)
acrescentam que o resultado destas tarefas é organizado pelo estudante numa
auto-narrativa, enquanto um poderoso instrumento no estabelecer a ponte durante
a transição de papéis e a implícita construção da identidade. Pois, a auto-
narrativa é uma história construída com a participação dos outros que procura
ser coerente e legítima, permitindo uma percepção de autenticidade e validade
(2010), aquilo a que certamente Skovholt e Ronnestad (1995) se referiam na
expressão "integração do self profissional e do self pessoal" e
também Savickas (2001) quando menciona a construção narrativa como elaboração
de um propósito e de um sentido uno de si, assim como Erikson (1968) ao
postular um sentido único, uno e fiel de si como produto da construção da
identidade.
Todavia, segundo Orlinsky e Ronnestad (2005), o DP do Psicoterapeuta, para o
qual esta construção parece ser estruturante, não se processa de forma linear,
por oposição ao que proclama a maioria dos modelos (Marshall, 2000). De acordo
com os autores, o desenvolvimento processase sequencialmente a partir do
balanço interligado entre duas espirais que actuam em concomi tância,
representando uma, um ciclo de desenvolvimento positivo, que tem por base a
experiência de crescimento e resulta na remoralização, e a outra um negativo,
que tem por base a experiência de esgotamento e resulta na desmoralização. Com
base nesta assumpção, os autores questionam o que leva a que um estudante, sem
nenhuma experiência, inicie o seu desenvolvimento num ciclo predominantemente
positivo, remoralizando, e outro num ciclo predominantemente negativo,
desmoralizando. As competências relacionais básicas, que reflectem uma
maturidade social para a qual são fundamentais a capacidade de reflexão, a
capacidade de comunicação e de empatia genuína e a identidade profissional,
foram a resposta encontrada.
Com efeito, a capacidade de reflexão é o factor mais comummente ressaltado como
preponde rante na literatura (Carvalho & Matos, 2011a,b; Ducheny et al.,
1997; Elman et al., 2005; Ferreira, 2010; Magalhães, 2008; Mahoney, 1991;
Marshall, 2000; Orlinsky & Ronnestad, 2005; Skovholt & Jennings, 2005;
Skovholt & Ronnesdad, 1995, 2003). A reflexão contínua a par da valorização
da complexidade e ambiguidade humana, do auto-conhecimento, de uma postura
aberta e nãodefensiva, da competência cultural, bem como da maturidade
(integração dos selves) e da saúde mental, sem descurar a importância da
experiência, têm sido as características encontradas nos Psicoterapeutas
especialistas e, portanto, associadas ao desenvolvimento (Jennings &
Skovholt, 1999; Jennings, Goh, Skovholt, Hanson, & Banerjee-Stevens, 2003;
Skovholt & Ronnestad, 1995). Relativamente à saúde mental, Skovholt e
Ronnestad (1995) ressalvam a importância dos motivos da escolha da profissão,
na medida em que a excessiva focalização em si quer do ponto de vista do
desenvolvimento pessoal e da cura, quer do da resposta a necessidades
narcísicas que passam por sentir poder e percepcionar alguma omnipotência no
apoio que prestam, influenciam negativamente o desenvolvimento. Assim, o auto-
conhecimento no que concerne estes motivos, através da reflexão, é crucial já
que os mesmos não são, muitas vezes, conscientes e estão camuflados no desejo
de ajuda ao outro (Norcross & Farber, 2005). Todavia, se as variáveis
individuais associadas ao Psicoterapeuta têm sido alvo de um escrutínio na
investigação no domínio, também as variáveis que se prendem com a interacção
com o meio têm sido salientadas como estruturantes no DP.
CONTEXTOS RELACIONAIS DE DESENVOLVIMENTO: PROMOVER O DP
Nenhum desenvolvimento, independentemente da sua natureza, ocorre em isolamento
e no que diz respeito ao DP o contexto de formação é capital (Skovholt &
Ronnestad, 1995). Por isso, a literatura, num movimento baseado nas assumpções
ecológicas que salienta a importância dos factores externos no DP (Elman et
al., 2005; Ibarra, 1999, 2003; Ibarra & Barbulescu, 2010; Orlinsky &
Ronnestad, 2005; Skovholt & Ronnestad, 1995), tem ressaltado a importância
do contexto de formação criar oportunidades de equilibração nos processos de
assimilação e acomodação piagetianos, suficientemente desafiantes e apoiantes
(Skovholt & Ronnestad, 1995).
Tal como noutros estudos (Elman et al., 2005; Mahoney, 1998; Orlinsky &
Ronnestad, 2005), em Portugal, um conjunto de investigações tem ressaltado a
importância de se criar e/ou integrar nos curricula experiências que promovam
uma postura reflexiva, uma abertura à incerteza e à ambiguidade e proporcionem
o autoconhecimento e a integração de experiências pessoais (Carvalho &
Matos, 2011a,b; Ferreira, 2010; Magalhães, 2008; Vasco, 1992), num contexto
securizante de exploração e construção da identidade profissional (Ibarra,
2003). A intervenção em grupo, pela relevância da experiência interpessoal
(Orlinsky & Ronnestad, 2005) e da participação social por parte de pares e
mentores na construção da identidade e, consequente, elaboração narrativa
(Ibarra & Barbulescu, 2010), parece ser bastante profícua na promoção do DP
(Elman et al., 2005) perspectivado numa lógica que mais do que tecnicista se
pretende humana e humanizada. Foi neste âmbito que surgiu com uma natureza
bastante exploratória a construção, implementação e avaliação de uma
intervenção que visa a promoção do DP dos estudantes de Psicologia e que será
objecto de exploração e análise.
MÉTODO
Participantes
Esta intervenção dirigiu-se a estudantes do 2º ciclo do Mestrado Integrado em
Psicologia (MIP) da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da
Universidade do Porto (FPCEUP). Constituíram-se 2 grupos de 15 estudantes (um
de 10 e outro de cinco participantes), do sexo feminino, a frequentar
maioritariamente o 4º ano do curso de MIP (apenas 3 estudantes eram do 5º ano)
e o ramo de Psicologia Clínica e da Saúde (apenas 3 estudantes estavam no ramo
da Psicologia do Comportamento Desviante e da Justiça). Na formação dos grupos,
tentou-se que estes fossem o mais heterogéneos possíveis, pretendendo-se assim,
para além da densificação das redes sociais de apoio, que o confronto com
diferentes perspectivas provocasse desequilíbrios dinâmicos e se constituísse
um estímulo ao desenvolvimento, à luz das teorias do conflito sociocognitivo.
Programa de intervenção "Tornar-se Psicólogo para além das aulas"
A construção desta intervenção tem como base, para além dos aspectos teóricos
acima mencionados, uma avaliação de necessidades prévia junto de estudantes e
professores do curso de MIP da FPCEUP. Foram realizados questionários junto de
73 estudantes do 3º e 4º ano do curso, assim como uma entrevista semi-
estruturada ao presidente da associação de estudantes, enquanto representante
dos mesmos, e a professores do MIP, no sentido de se perceber quais seriam as
suas percepções acerca da pertinência de uma intervenção intencionalizada para
o DP dos estudantes de Psicologia e quais seriam as temáticas mais relevantes a
considerar. Estudantes e profissionais foram unânimes na relevância que
atribuíram à criação de um grupo de desenvolvimento dirigido a estudantes, na
fase final do curso, para abordar questões que se prendiam essencialmente com a
identidade profissional e com a transição para o mercado de trabalho. A par da
opinião destes, considerámos ainda as reflexões da equipa de 15 Psicólogos do
Serviço de Psicoterapia da FPCEUP, que contactam com os estudantes enquanto
orientadores dos mesmos, em experiências de observação. A equipa de psicólogos
que interveio era supervisionada e constituída por três profissionais,
organizados em pares, participando, portanto, uma das psicólogas nos dois
grupos.
Eixos estruturantes e objectivos do programa de intervenção
Assim, o programa de intervenção tem como objectivo primordial promover num
contexto seguro à exploração o DP, desenvolvendo-se, para este efeito, segundo
dois eixos estruturantes: (i) exploração do seu self e (ii) exploração do papel
de Psicólogo e dos seus padrões de funcionamento profissional; ambos
considerados fundamentais para a construção narrativa referente à identidade
profissional (componentes intra e interpessoal do DP, segundo Elman et al.,
2005). Portanto, com esta intervenção intenta-se que o estudante, no confronto
com as diferentes perspectivas apresentadas no grupo, explore, avalie e refine
a sua identidade profissional (provisória), organizando-a numa narrativa que
potencie a vivência de um ciclo de desenvolvimento predominan temente positivo
no início do seu percurso profissional e a remoralização, em detrimento de um
pseudo-desenvolvimento ou de um desinvestimento na profissão.
Planeamento das sessões.O programa de intervenção é composto por oito sessões,
cada uma centrada numa temática específica do DP do estudante de Psicologia,
não obstante o trabalho transversal dos aspectos já referidos (ver estrutura
descrita no Quadro_1).
A sessão introdutória do programa serve para apresentar os objectivos do mesmo
aos estudantes e para se negociar aspectos funcionais da sua aplicação. Para
além disso, é pedido aos participantes para preencherem um questionário acerca
do desenvolvimento do estudante de Psicologia (ver instrumento).
Cada uma das restantes sete sessões aborda aspectos relacionados e
interdependentes, cada uma assente em estratégias e actividades específicas e
adequadas aos objectivos propostos. De uma forma geral, cada uma das sessões é
constituída por 3 fases: (1) Início - reflexão sobre a sessão anterior;
(2) Corpo da sessão - iniciado com uma actividade de "quebra-
gelo" relacionada com a temática a ser trabalhada; apresentação,
experimentação e discussão dos conteúdos da sessão, a partir de estímulos como
excertos de filmes, textos, frases, role-play. Estas actividades visam,
sobretudo, a promoção da reflexão, da sensibilização dos participantes
relativamente à importância do auto-conhecimento e DP para a prática
psicológica; (3) Fim - no final de cada sessão é fornecido aos
participantes um pequeno questionário para estes registarem opiniões e
sentimentos relativamente aos conteúdos das sessões.
Na sessão final, potencia-se a integração dos principais aspectos do DP
promovidos ao longo da intervenção e realiza-se a avaliação final formal e
informalmente (ver procedimento), entregando-se também um certificado de
participação.
Instrumento
Uma vez que não existem medidas objectivas para avaliar o DP e que pela sua
natureza processual é difícil definir padrões de desenvolvimento (Elman et al.,
2005), desenvolveu-se um instrumento para avaliar a eficácia do programa de
intervenção, mas que se pretende também que se constitua um importante ponto de
partida para a construção de um instrumento de avaliação do DP de estudantes de
Psicologia ou Psicólogos no início do percurso profissional.
Este instrumento foi apelidado de "Questionário de Desenvolvimento de
Estudantes de Psicologia" (QDEP) e foi desenvolvido com base na
entrevista semi-estruturada de Skovholt e Ronnestad (1995) e de Magalhães
(2008), e também no Development of Psychotherapists Common Core Questionnaire
(Orlinsky & Ronnestad, 2005). Na construção do QDEP foi tida em conta a
importância da construção narrativa no processo de construção da identidade,
pelo que é composto sobretudo por questões abertas, apresentando, no total, 22
questões (15 questões abertas e sete de resposta em escala de likert de cinco
pontos) que avaliam as seguintes dimensões:
- Representação e importância do DP (três questões);
- Escolha da Psicologia (motivação e satisfação com a escolha)
(duas questões);
- Exercício da Psicologia (Expectativas, Vantagens e
desvantagens, e Impacto na vida pessoal e relacional) (quatro
questões);
- Início do exercício da Psicologia (Afecto predominante e
Recursos percepcionados) (duas questões);
- Papel de Psicólogo (Crenças associadas, Competências básicas,
Modelo ideal, Vulnerabilidades e potencialidades pessoais, Mapa
conceptual) (nove questões);
- Transição Universidade - Mercado de Trabalho (Afecto
predominante e Recursos percepcio nados) (duas questões).
Procedimento (de implementação e de avaliação)
Após a revisão da literatura e da avaliação das necessidades, procedeu-se à
divulgação do grupo de desenvolvimento que foi efectuada com a colaboração da
associação de estudantes da FPCEUP.O grupo decorreu ao longo de 8 sessões
quinzenais, com duração de cerca de 90 minutos. A avaliação formal da
intervenção foi realizada através de um desenho de pré-teste e pós-teste com o
objectivo de avaliar o DP dos participantes. Assim, o QDEP foi aplicado no
início (primeira sessão) e no fim do programa (última sessão). Os dados
recolhidos nas questões abertas foram analisados segundo a técnica de análise
de conteúdo (Bardin, 2008), existindo previamente algumas categorias e temas
esperados, sem, no entanto, descurar a possibilidade de se explorarem
categorias que emergiram das respostas. Os dados recolhidos nas questões de
resposta em escala de likertforam analisados com o softwareestatístico PASW
Statistics 18. Realizou-se ainda uma avaliação informal do programa na última
sessão, na qual se solicitou aos estudantes feedback específico relativamente
ao programa e sugestões para a reformulação do mesmo.
ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Avaliação formal do programa de intervenção
Análise das questões abertas.A avaliação formal da intervenção tem
por base a análise das diferenças perceptíveis a partir do QDEP,
entre o início e o final desta. Do processo de análise de conteúdo
das questões abertas resultou uma árvore com cinco categorias, que
correspondem essencialmente às dimensões do instrumento, e 15
subcategorias, cujos dados, por uma questão de espaço e compreensão,
passamos a apresentar e discutir apenas os mais relevantes,
ilustrando-os com as narrativas dos participantes.
Representação do DP
Pré-teste: "DP é um desenvolvimento global (cognitivo,
emocional, social, etc.) para nos tornarmos para além de mais
competentes, melhores pessoas."
Pós-teste: "DP do Psicólogo é um crescimento/maturação do nosso
self enquanto profissional. É um caminho inacabado que nos permite
crescer e adquirir competências a vários níveis para que possamos
depois ajudar os outros mais eficazmente."(Participante 2)
Como está patente na narrativa apresentada, os participantes parecem apresentar
uma represen tação de DP mais abrangente e completa que vai de encontro às
concepções de Skovholt e Ronnestad (1992, 1995) e de Elman e colaboradores
(2005), enquanto um processo contínuo que passa pela integração entre os
selvesprofissional e pessoal, mas também por um desenvolvimento global de
competências. Corroborando também Skovholt e Ronnestad (2003), parece ter
ocorrido nos estudantes uma mudança para um foco mais interno. Pois, estes
parecem, por um lado, encontrar-se mais auto-focalizados e, por outro lado,
valorizar o DP como uma variável influente na eficácia da sua intervenção tal
como o auto-conhecimento que emerge também como um meio importantíssimo para o
próprio DP.
Escolha da Psicologia
Pré-teste: "A escolha pela Psicologia surgiu pela curiosidade
que sempre tive pela compreensão do comportamento e do ser humano em
geral."
Pós-teste: "A minha escolha foi motivada por várias razões
pessoais. Desde sempre fui uma pessoa muito cuidadora e sentia que a
escolha vocacional teria de ir nesse sentido. Esta escolha foi também
motivada pela vivência de uma depressão num familiar próximo que me
despertou para estas temáticas."(Participante 9)
Se no momento inicial a escolha da Psicologia surge justificada principalmente
pela compreensão do comportamento humano e pela ajuda ao outro, no final
associados à escolha da Psicologia emergem a pessoa do participante e a sua
história de desenvolvimento, em detrimento dos primeiros motivos que, embora
denotem uma propensão para a reflexão e complexificação, correspondem às
características da profissão muitas vezes socialmente estereotipadas e que
parecem ter camuflado motivos mais idiossincráticos e menos conscientes, como
sugere a literatura (Norcross & Farber, 2005; Skovholt & Ronnestad,
1995). No que concerne os motivos baseados em acontecimentos de vida, ganham
particular relevo as experiências interpessoais e a influência de figuras
emocionalmente significativas. De facto, são notórias as respostas mais ricas e
completas, que evidenciam um maior auto-conhecimento a este respeito,
considerado fundamental por autores como Skovholt e Ronnestad (1995). Na
verdade, a partir da diversidade de motivos, ora focados na profissão, ora na
pessoa do estudante de Psicologia, tal como no estudo de Magalhães (2008),
continua claramente a ser possível verificar uma intersecção complementar entre
o que a profissão pelas suas características permite vivenciar e o que os
estudantes necessitam pela sua personalidade, influenciada pela sua história de
vida.
Exercício da Psicologia
Pré-teste: "Penso que poderei ter dificuldade em separar o lado
profissional da vida pessoal, levando as preocupações dos casos
"para casa" e prejudicando a vida pessoal e
relacional."
Pós-teste: "Continuo com receio de não conseguir separar a vida
profissional da pessoal, mas acho que vou aprendendo a lidar com as
implicações ao longo do tempo e a "desvalorizar" este
medo."(Participante 17)
Os participantes parecem apresentar, no final da intervenção, um maior
conhecimento sobre o exercício da Psicologia e do próprio papel de Psicólogo,
que exploraremos seguidamente, bem como expectativas mais ajustadas sobre
estes, parecendo ter iniciado a internalização de padrões de funcionamento
profissional importantes. Com efeito, parecem ter uma representação menos
idealizada da profissão, pois se não foram notórias mudanças nas expectativas
positivas relativamente ao exercício da Psicologia que continuam a prender-se
sobretudo com o prestar ajuda, no que respeita as expectativas negativas surge
uma nova subcategoria que comporta os limites da intervenção, parecendo ter
também aumentado o receio de desilusão com a profissão, como expectável aquando
da exploração do papel de Psicólogo, de acordo com a literatura (Ronnestad
& Skovholt, 2003; Skovholt & Ronnestad, 1995). Todavia, note-se que a
desilusão é normal e fundamental no processo de DP, pois reflecte o ajustamento
das expectativas do estudante e potencia, com base no novo conhecimento acerca
dos limites da intervenção e da ajuda que podem prestar, a definição de padrões
de auto-avaliação menos ambíguos e essenciais para o ajuste da sua auto-
responsabilização, comummente excessiva (Carvalho & Matos, 2011a,b;
Ronnestad & Skovholt, 2003).
O conhecimento mais alargado acerca do exercício da Psicologia, importantíssimo
enquanto dissipador de mitos acerca do mesmo (Marshall, 2000), também parece
estender-se ao impacto da profissão na vida pessoal e relacional, especialmente
no que respeita o desgaste psicológico, implicação bastante salientada na
literatura acerca do DP (Carvalho & Matos, 2011a,b; Mahoney, 1991; Orlinsky
& Ronnestad, 2005; Ronnestad & Skovholt, 2003; Skovholt &
Ronnestad, 1995) e que desperta maior receio por parte dos estudantes. Contudo,
não obstante este, na avaliação final, são evidentes quer uma maior confiança
na capacidade para lidar e prevenir as implicações negativas como ilustra a
participante 17, quer uma maior valorização das implicações positivas da
profissão na vida pessoal e relacional.
De facto, a mudança nos afectos dominantes despoletados pelo início do
exercício da Psicologia está bem patente nos seus discursos e ocorre no sentido
de uma maior segurança e confiança em si próprio e na sua capacidade de lidar
com as dificuldades e de se desenvolver. Esta mudança parece poder explicar-se
em parte pelo maior conhecimento da profissão, mas também pela normalização e
aceitação do seu processo de DP e, assim, das suas dificuldades, emoções e
medos vivenciados. Fouad (2003) partilha que quando apresentou o modelo de
Skovholt e Ronnestad (1995) aos seus alunos, estes experienciaram uma intensa
identificação com o mesmo, tranquilizando-se relativamente às suas vivências, o
que levou o autor a discorrer sobre a relevância da normalização do processo de
DP. A intervenção parece também potenciar esta reacção, pois embora o medo do
fracasso predomine ainda, este surge no final como natural, próprio da fase
desenvolvimental e como uma dificuldade que será ultrapassada. Esta
normalização e representação processual do DP emerge também como um recurso
para lidar com as dificuldades características do início da prática
profissional, a par da identificação de uma panóplia de recursos que surge mais
diversificada no final do programa e da qual se destaca a partilha com pares e
com profissionais mais experientes, parecendo que a própria partilha potenciada
no grupo é significativa. Apesar do maior conhecimento do exercício da
Psicologia e do papel de Psicólogo, com as repercussões já explanadas, não são
perceptíveis mudanças claras relativamente às vantagens/desvantagens da
profissão, sendo as identificadas as que a própria classe reconhece, em
detrimento da identificação de vantagens/desvantagens idiossincráticas, pelo
que concluímos não se ter verificado um maior auto-conhecimento a este nível.
Papel do Psicólogo
Pré-teste: "Não existe nenhuma receita para ser um bom
Psicólogo. Cada um tem a sua forma de aprender, de interiorizar as
coisas e as pôr em prática, de acordo com as suas experiências e
personalidade."
Pós-teste: "Não penso que seja possível haver um modelo de
Psicólogo porque cada um tem as suas experiências, a sua forma de
interpretá-las e de sentir-se mais ou menos bem com elas. Por isso,
cada Psicólogo é diferente e inimitável e então cada um tem de
procurar ser o seu próprio modelo."(Participante 10)
No que concerne o papel do Psicólogo, a acrescentar a uma perspectiva menos
idealizada do mesmo, é perceptível, no final, uma auto-focalização na
construção de um estilo pessoal, que suplanta o reconhecimento da
idiossincrasia na forma como se exerce o papel de Psicólogo, patente na
narrativa inicial dos estudantes. Pois, na sua narrativa final o estilo pessoal
surge mais do que como um resultado, como um processo idiossincrático no qual
as características pessoais devem influir e que, por conseguinte, nos remete
para os selves provisórios aquando da construção da identidade exigida pela
transição entre o papel de estudante e o de Psicólogo (Ibarra, 1999, 2003), mas
também para a integração entre os selves profissional e pessoal (Skovholt &
Ronnestad, 1992, 1995). Neste sentido, os participantes parecem também
apresentar um maior auto-conhecimento relativamente as suas potencialidades e
dificuldades, que se prendem maioritariamente com autoregulação emocional e que
se mantiveram na avaliação final, pelo que será profícuo reflectir sobre a
necessidade de se intencionalizar uma intervenção que vise a promoção de
competências de auto-regulação emocional.
Ainda neste domínio, especificamente no mapa conceptual que orienta a prática
psicológica, a mudança pontua-se na valorização da importância de se construir
uma mapa conceptual como grelha de leitura e de orientação da prática
psicológica, ainda que este seja flexível, característica que assim como o
ecletismo é já valorizada inicialmente pelos participantes e pela literatura
(Orlinsky & Ronnestad, 2005).
Transição Universidade - Mercado de trabalho
Pré-teste: "Informar-me e partilhar os meus receios e
anseios."
Pós-teste: "Conversar com outras pessoas e tranquilizar-me: eu
tenho ferramentas, competênciaspessoais, projectos e planos… Tudo
para concretizar, nada para arquivar, pelo menospor agora!"
(Participante 4)
Tal como no que diz respeito ao início do exercício da Psicologia, os
participantes parecem revelar um maior auto-conhecimento, em particular dos
traços de personalidade que poderão ser essenciais para uma transição bem
sucedida para o mercado de trabalho, mas também um maior reconhecimento dos
recursos disponíveis, pelo que as suas narrativas são mais completas e ricas. A
predominância de afectos negativos (angústia, ansiedade) relacionados com o
medo do desem prego e com o medo de falhar mantém-se, porém também
relativamente a esta transição parecem emergir mais afectos positivos
(esperança, confiança), como exemplifica a participante 4.
Análise das questões de resposta em escala de likert.Uma vez violado o
pressuposto da normalidade (verificado através do teste Kolmogorov-Smirnov com
correção de Lilliefors), foram utilizados testes não paramétricos (teste de
Wilcoxon) para avaliar eventuais diferenças nas respostas das participantes no
pré e pós teste.
Relativamente às duas primeiras questões "Importância do DP do
Psicólogo" e "Satisfação com a escolha do curso", as
respostas mantiveram-se quase exclusivamente no ponto da escala "5 -
Muito", não se verificando qualquer variabilidade no início e fim do
programa de intervenção (relembramos que é uma escala de 5 pontos de 1 -
Nada até 5 - Muito), particularmente no que diz respeito à Importância do
DP (100% afirmaram ser "Muito" importante no início e no fim do
programa). No que diz respeito à satisfação demonstrada pela escolha do curso,
apesar da não existência de diferenças significativas, verificou-se um pequeno
acréscimo do número de participantes que referiram estar "Muito"
satisfeitas com a escolha do curso de Psicologia no final do grupo de
desenvolvimento (53% no início e 80% no final, com M=4,5, DP=0,5 no início e
M=4,8, DP=0,4 no fim do programa). Este grupo de estudantes, para além de se
manter bastante satisfeito com a escolha profissional efectuada, considera
muito importante o DP do Psicólogo para a sua actividade profissional, mesmo
antes da sua participação no grupo. Na verdade, o facto de se mostrarem
predispostos a fazer parte de um grupo desta natureza, será indicador de que
seriam pessoas mais sensibilizadas para a importância da reflexão e para as
questões relacionadas com o DP.
No que concerne às cinco crenças analisadas no questionário, os testes não
paramétricos de Wilcoxon para amostras relacionadas não revelaram diferenças
significativas nas respostas dadas no início e no fim do programa,
nomeadamente; "Se tenho um problema ou questão pessoal por resolver na
minha vida pessoal não poderei ser um bom Psicólogo" (Z=-0,75; p=0,454),
"Se as mudanças não ocorrem a culpa é minha, sou um péssimo
Psicólogo" (Z=-1,63; p=0,102), "Se os clientes não voltam a culpa é
minha" (Z=-1,6; p=0,109), "Tenho que saber tudo e dominar todas as
temáticas para ser um bom Psicólogo" (Z=-1,73; p=0,083), "Os
Psicólogos não fazem juízos de valor" (Z=-1,81; p=0,07).
Uma das limitações encontradas nestas análises será, obviamente, a dimensão
bastante reduzida da amostra (15 participantes), para além da pouca
variabilidade encontrada nas respostas (a maioria centrou-se no ponto de
concordância "Nada" da escala). Neste sentido, optámos por
dicotomizar as respostas (0 - Nada e 1 - as restantes opções) para
explorar eventuais diferenças, continuando a não ser obtidos quaisquer
resultados significativos. No entanto, quando considerado o somatório do número
de crenças, no início e no fim da intervenção, foram encontradas diferenças
significativas (Z=-2,43, p=0,016) entre o início (M=3,6; DP=0,83) e o fim do
programa (M=2,6; DP=1,24). Assim, apesar das respostas se encontrarem nos
pontos mais baixos da escala, verificase a existência de um aumento de
respostas na opinião "Não concordo nada" no final do grupo de
desenvolvimento, tendo em conta o número total de afirmações analisado.
Avaliação informal do programa de intervenção
Na última sessão, bem como nos questionários passados no final das sessões, os
participantes expressaram encontrar-se globalmente satisfeitos com o grupo,
especialmente por terem podido explorar o papel de Psicólogo, segundo uma
perspectiva bastante distinta da das aulas, o que consideraram fundamental.
Salientaram a exploração da sua identidade profissional segundo novas
perspectivas pelo tempo para além das sessões que necessitavam para assimilar e
reflectir sobre as temáticas. A este respeito e já no domínio das sugestões
para a reformulação do programa, os participantes propuseram que fosse
dispensado mais tempo/sessões para algumas temáticas e que os momentos de
reflexão sobre a sessão anterior fossem maiores, o que denota que o tempo da
própria sessão não é suficiente para assimilar, acomodar e equilibrar os novos
conhecimentos e que, por isso, é importante que as temáticas sejam abordadas em
mais do que uma sessão, aproveitando-se a reflexão e a, consequente, construção
do conhecimento realizada no intervalo entre sessões, para a partilha e
discussão em grupo na sessão seguinte. Neste sentido, sugeriram também que, por
um lado, o número de sessões do programa fosse alargado e, por outro, que a
frequência das sessões fosse semanal, de forma a não se sentir uma interrupção
tão forte no processo de reflexão e construção de conhecimento, o que é também
ressaltado pela literatura dada a importância e a morosidade destes processos
(Skovholt & Ronnestad, 1995).
Relativamente ao planeamento específico das sessões, para além de momentos de
reflexão da sessão anterior maiores, os participantes gostavam que fossem
utilizadas mais dinâmicas de grupo de forma a potenciar mais a coesão grupal e
a tornar as sessões menos densas. No que concerne à avaliação da eficácia do
programa, referiram ser importante reformular o QDEP para uma versão mais curta
e mais clara, uma vez que efectivamente o preenchimento do mesmo demorou em
média 45 minutos e que algumas das respostas apresentadas pela maioria dos
participantes não cumpriram o objectivo com que algumas questões foram
colocadas, tendo-se verificado a repetição de informação em algumas respostas
(e.g., expectativas para o exercício da Psicologia e vantagens/desvantagens do
mesmo). Não obstante estas críticas, os participantes demonstraramse bastante
satisfeitos com o programa de intervenção, considerando que este, com as
reformulações necessárias, deveria ser estendido a outro anos do MIP, e que
deveria inclusivamente transformar-se numa intervenção contínua ao longo da
formação académica, parecendo ir de encontro à integração da promoção do DP no
plano de estudos, como advogam alguns autores (Elman et al., 2005).
CONCLUSÃO
De uma forma global, consideramos que os principais objectivos do presente
trabalho e do programa de intervenção "Tornar-se Psicólogo para além das
aulas" foram alcançados. Atraindo o foco para um domínio de investigação
e de intervenção - o DP do Psicólogo - ainda com pouco destaque,
especialmente no nosso país, construímos, implementámos e avaliámos um programa
de intervenção que parece ter promovido o DP dos estudantes de Psicologia
participantes.
Com efeito, parecem ter sido potenciados factores importantes para o seu DP e
para o início do seu percurso profissional num ciclo de desenvolvimento
predominantemente positivo. Foi possível avaliar mudanças significativas por
parte dos estudantes, especialmente no que diz respeito: (i) ao seu auto-
conhecimento e capacidade de reflexão/complexificação; (ii) à sua capacidade de
conceptualizar, aceitar e lidar com o seu próprio processo de DP,
especificamente com as dificul dades e fontes de stress características dos
estádios iniciais; (iii) ao seu conhecimento do papel de Psicólogo e, portanto,
à representação do mesmo que passou a ser menos idealizada, favorecendo padrões
de auto-avaliação e auto-responsabilização mais ajustados; (iv) à sua
capacidade para identificar recursos essenciais para a transição entre papéis e
contextos que vivenciam; (v) à coerência e riqueza da sua narrativa, ambas
fundamentais para a percepção de autenticidade e validade narrativa e,
portanto, para a vivência de um sentido uno, único e fiel de si enquanto pessoa
e profissional; (vi) às suas competências relacionais básicas; e (vii) a uma
diminuição de crenças absolutistas e negativas acerca do papel e
responsabilidade do Psicólogo.
De ressalvar que, tratando-se de um estudo exploratório, será importante em
futuras experiên cias considerar a hipótese de ser alargada a um maior número
de participantes e a constituição de um grupo de controlo para validar
eventuais diferenças encontradas aquando da aplicação do programa de
intervenção.
Efectivamente, "Tornar-se Psicólogo para além das aulas", não
obstante as reformulações neces sárias que, para além das acima mencionadas, se
prendem, essencialmente, com alterações no que respeita o número de sessões, o
planeamento das mesmas e o instrumento de avaliação (QDEP), parece revelar-se
um importante recurso para a formação de estudantes de Psicologia, especifica
mente para o DP destes, mas também um contributo para a intervenção e
investigação neste domínio, essenciais para a humanização da figura do
Psicólogo. Pois, tornar-se Psicólogo, mais do que desenvolver um conjunto de
competências técnicas, é tornar-se profundamente humano.