Que idade tem o trabalhador mais velho? Um contributo para a definição do
conceito de trabalhador mais velho
(Díaz & Luceras, citados por Blanch, 1996, p. 95)
TENDÊNCIAS DEMOGRÁFICAS E ENVELHECIMENTO DA POPULAÇÃO ACTIVA
O envelhecimento populacional tem colocado novos desafios à sociedade em geral,
na medida em que esta se tem deparado com dificuldades crescentes no
desenvolvimento de formas de lidar com as especificidades desta população e com
as disputas intergeracionais, principalmente no local de trabalho. No entanto,
este fenómeno não é recente. Segundo Pestana (2003), "os diversos estudos
demográficos realizados (...) permitem constatar que o aumento da população
idosa é um fenómeno que ocorre há já vários séculos, à escala global [que] tem
vindo a acentuar-se ao longo das últimas décadas no contexto do progresso
mundial, nomeadamente por efeito de avanços muito significativos nos domínios
da higiene, da nutrição e da medicina" (p. 17). Este fenómeno de
envelhecimento populacional é característico dos países mais desenvolvidos do
hemisfério norte (com excepção do Japão) nomeadamente, os europeus (Kinsella
& Velkoff, 2001). Nestes países nota-se ainda o facto de os idosos estarem
não apenas a aumentar como também, eles próprios, a envelhecer, verificando-se
um maior ritmo de crescimento da parcela da população idosa mais idosa
(Pestana, 2003). De facto, este autor refere que a população europeia se
encontra a envelhecer e o seu ritmo de crescimento a abrandar, tendência que
não tem sido, todavia, mais dramática por força do saldo migratório positivo
que tem vindo a registar-se nos últimos 15 anos.
No entanto, os fluxos migratórios não têm compensado a baixa natalidade, pelo
que países como a Grécia, Itália, Áustria, Suécia e Dinamarca apresentam já um
saldo natural não só descendente, como negativo (Pestana, 2003). Marcado pela
praticamente duplicação do contingente populacional nacional nos últimos 100
anos, o desenvolvimento demográfico de Portugal é no entanto caracterizado por
flutuações significativas. De facto, o ritmo de crescimento tem sido menos
ditado pelo saldo natural dos portugueses e mais pelos movimentos migratórios
que se registaram ao longo do século, como por exemplo, o fenómeno do retorno
das ex-colónias portuguesas em África (Barreto, 2000). Presentemente, e como
resultado desta evolução, a forma da estrutura etária portuguesa, deixou de ter
uma configuração piramidal para se assemelhar mais a um cogumelo. Segundo dados
do Instituto Nacional de Estatística (INE), durante as próximas décadas, os
cenários elaborados prevêem um ligeiro rejuvenescimento da população ou um
envelhecimento acentuado (cenário mais e menos optimista respectivamente). No
entanto, mesmo o primeiro caso, que prevê uma ligeira retoma do índice de
fecundidade, implica uma maior preponderância dos idosos face aos jovens.
Estas evoluções demográficas irão ter em breve, implicações importantes na
dimensão e estrutura da população activa, pois com a diminuição da população
jovem, a taxa de reposição da população activa irá decrescer. Ao nível
governamental, este facto poderá implicar uma nova forma de analisar a
realidade demográfica que se apresenta. Na verdade, para além da possibilidade
da importação de mão-de-obra estrangeira, e de uma maior integração das
mulheres no mercado de trabalho, só os estratos mais velhos da população ainda
em idade activa se apresentam como recursos viáveis para manter um nível
aceitável de produtividade e sustentabilidade social a longo prazo. Assim, e
"após largos anos a estimular a reforma antecipada dos trabalhadores mais
velhos, como meio de combater o desemprego juvenil e apoiar as empresas na
adaptação às mudanças estruturais da economia, os Governos europeus decidiram
inflectir as suas políticas e pretendem, agora, reter tais trabalhadores por
mais tempo no mercado de trabalho" (Pestana, 2003, p. 14). Em termos da
operacionalização dessas políticas, será importante, não só motivar as pessoas
a continuarem a sua actividade laboral durante mais anos, como também
providenciar condições de acesso ao emprego (Centeno, 2007).
ACESSO AO EMPREGO E DISCRIMINAÇÃO ETÁRIA
Se bem que a situação do acesso ao emprego possa ser considerada como
nominalmente positiva, uma vez que Portugal apresenta taxas de actividade de
trabalhadores com mais de 55 anos superiores a 50%, esta é também uma situação
complexa (Centeno, 2007). Verificamos assim que, para além dos problemas de
qualificação com reflexos significativos na empregabilidade e valorização
salarial que o mercado faz das suas competências e capacidades, a dinâmica para
a antecipação da saída do mercado de trabalho aparenta ser muito forte
(Centeno, 2007).
Um dos problemas que atinge os trabalhadores mais velhos, no que diz respeito
ao acesso ao emprego, é o facto de estes trabalhadores receberem muito menos
ofertas de emprego que os mais jovens (cerca de 1/3 das ofertas dos jovens
adultos) e possuírem apenas cerca de 10% das oportunidades de formação, sendo
que os salários que conseguem obter em novos empregos se encontram muito longe
da média para os mesmos níveis etários e de habilitações (Centeno, 2007).
Consciente de que esta discriminação etária ou etarismo (ageism) é considerada
pela União Europeia e pelos seus cidadãos como presente de forma generalizada
na sociedade (Special Eurobarometer 296), a Comissão Europeia tem definido
políticas de prevenção e combate à discri minação etária, intensificando a luta
contra o etarismo em todas as suas formas. A Comissão Europeia adoptou uma
definição ampla de etarismo, baseada nas crenças acerca do impacto do
envelhecimento biológico em pessoas de todas as idades, relacionando-se assim
com o preconceito ao longo do percurso de vida e abrangendo tanto a
discriminação face às gerações mais novas (e.g., falta de maturidade), como às
mais velhas (e.g., falta de flexibilidade, baixa motivação) (O'Cinneide,
2005).
Esta definição é relativamente diferente da utilizada pela investigação
efectuada no contexto da gerontologia, que de uma forma geral, tem adoptado
formulações mais estritas, familiares e directas, definindo o etarismo como uma
forma de discriminação contra pessoas mais velhas, fundamentada na idade.
Apesar das diferenças entre as formulações clássicas da definição estrita
(Butler, 1975; Comfort, 1977), ambas remetem para o pensamento estereotipado
das pessoas mais velhas, tratando-as como uma categoria distinta dos outros
seres humanos "normais", associando o etarismo ao conflito social e
estabelecendo um paralelismo com o racismo (Bytheway, 2005).
Apesar de caracterizado por um grande número de adjectivos negativos (ver Kite
& Johnson, 1988 para uma metanálise), tal como o sexismo, o estigma face à
idade possui uma natureza mista (Richeson & Shelton, 2006), sendo que, de
acordo com os estereótipos predominantes, os idosos são considerados como
debilitados mas queridos (Fiske & Taylor, 2008), e alvo de preconceitos
como a pena e a simpatia (Cuddy, Norton, & Fiske, 2005). Este paternalismo
é normalmente reservado a grupos com resultados negativos aos quais não possa
ser imputada culpa (Fiske, Cuddy, Glick, & Xu, 2002). Podemos observar
algumas semelhanças ou paralelismos com as outras formas de discriminação mais
conhecidas. Assim, podemos verificar que, tal como nas categorias de género e
raça, o estereótipo da pessoa mais velha possui subcategorias representativas
de subgrupos respeitados, odiados e inofensivos (Brewer, Dull, & Lui, 1981;
Hummert, Garstka, Shaner, & Strahm, 1994, 1995), que a idade é uma das três
primeiras categorias a serem mais rapidamente percepcionadas por outra pessoa
1
(Fiske, 1998), que tal como o género, a idade divide as pessoas entre famílias,
mas que tal como a raça, diferentes grupos etários vivem em circunstâncias
segregadas (Fiske & Taylor, 2008). No entanto, e de forma díspar da raça ou
do género, o etarismo lida com uma linha divisória intergrupal maleável que a
maioria das pessoas tem esperança de ultrapassar durante a sua vida, mas em que
ao mesmo tempo, temem a implicação da sua própria mortalidade no conceito
(Fiske & Taylor, 2008). Ou seja, as pessoas querem chegar a velhas, mas têm
medo da implicação que isso trás: estar perto da sua morte. Verificamos também
que os adultos mais velhos são vistos como sendo incompetentes social,
cognitiva e fisicamente (e.g., Pasupathi, Carstensen, & Tsai, 1995) pelo
que as pessoas não têm qualquer pressa de se verem como "velhas".
De facto, embora as pessoas reconheçam a sua idade cronológica, estas vêm a
"velhice" como um alvo em movimento que recua à medida que a pessoa
se aproxima dessa "linha imaginária" (Seccombe & Ishii-Kuntz,
1991). Esta fronteira imaginária pode ser perpetuamente deslocada à medida que
as pessoas resistem à sua entrada no grupo das pessoas mais velhas, utilizando
por exemplo, uma mais rápida auto-atribuição de termos estereotípicos jovens do
que termos estereotípicos associados à velhice (Hummert, Garstka,
O'Brien, Greenwald, & Mellott, 2002). Esta deslocação está ligada com
a construção de defesas face às agressões que os conteúdos estereotípicos
provocam à auto-estima, construindo para si, "amortecedores
cognitivos". Estas agressões ocorrem de forma comum, pelo menos na
cultura americana, onde não é aplicado o conceito de politicamente correcto no
que diz respeito ao etarismo, ao contrário do que acontece com o sexismo ou o
racismo (Levy & Banaji, 2002), pelo que se verifica que as pessoas não
inibem a manifestação de conteúdos estereotípicos como nos outros tipos de
discriminação. A existência de amortecedores cognitivos que auxiliam as pessoas
a lidarem com este tipo de agressões e com os estereótipos associados à velhice
(e directamente relacionados com a morte) é proposta por Fiske e Taylor (2008),
quando referem que a Terror Management Theory(TMT), teoria que tenta estudar os
processos através dos quais as pessoas lidam com o conhecimento da sua morte,
também se aplica aos estereótipos etários e à saliência da mortalidade
(Greenberg, Schimel, & Mertens, 2002).
Esta teoria refere que, as pessoas quando lembradas da certeza da sua própria
finitude, depreciam os exogrupos (grupo dos outros) (Fiske & Taylor, 2008).
A TMT sugere assim, várias defesas contra a saliência cognitiva da morte
colocada pelos adultos mais velhos, a saber, segregação física, tal como a
institucionalização (verificada junto das faixas etárias mais avançadas), e
segregação psicológica, caracterizada pelos estereótipos e epítetos atribuídos
aos mais velhos (Fiske & Taylor, 2008). Estes autores referem ainda que,
quando as tentativas de distanciamento falham, a exposição a adultos mais
velhos podem resultar nas respostas previstas pela TMT, ou seja, esforços de
compensação da auto-estima, depreciação de exogrupos e favorecimento de
endogrupos (grupo próprio ou de pertença).
Constatamos assim que, o etarismo envolve um alvo em movimento, em que as
pessoas anseiam e temem juntar-se a este exogrupo de fronteiras flexíveis.
Apercebemo-nos também que levanta questões sobre a mortalidade e distanciamento
emocional, que pode levar pessoas mais novas a adoptar estereótipos negativos
face a adultos mais velhos de modo a afastarem-se, protegendo-se a si mesmos
(Snyder & Miene, 1994). Esta activação dos estereótipos negativos, poderá
estar na origem da exclusão social e económica no mercado de emprego, ou
impedir o acesso dos trabalhadores mais velhos à obtenção de novas
qualificações por via da formação ou promoção dentro das organizações (para uma
análise mais detalhada, ver Maurer, Wrenn, & Weiss, 2003). No entanto, uma
questão subsiste: quem é este trabalhador mais velho, alvo de actos
discriminatórios, e quais são as características que o definem?
DEFINIÇÃO DE TRABALHADOR MAIS VELHO
Quando é efectuada uma referência a trabalhador mais velho, entendemos por
trabalhador (de forma genérica), alguém que exerce uma actividade que é objecto
de uma remuneração, negligenciando aqui outras considerações sobre as
diferenças - existentes - entre trabalho e emprego. No entanto,
esta definição permanece dúbia, no que concerne ao significado de "mais
velho". Ao procurar por uma definição ao nível institucional, através de
uma pesquisa por políticas ou programas dirigidos aos trabalhadores mais
velhos, detectamos que este termo parece não estar claramente definido. Assim,
em Portugal, talvez por não existirem programas específicos para trabalhadores
de uma faixa etária mais avançada, não se nos apresenta uma definição para a
idade do trabalhador mais velho.
Já noutros países europeus, se bem que estes programas existam, na descrição
das diferentes medidas e iniciativas, a definição de idade pode variar entre
mais de 45 anos (e.g., Espanha), e mais de 50 (e.g., Bélgica, Reino Unido),
sendo que a Holanda possui já programas para pessoas com mais de 40 anos (De
Man, Soir, Shanahan, Ribeiro, & Santamarta, 2003). Esta última definição é
partilhada pelos Estados Unidos da América, país em que o trabalhador mais
velho é definido legalmente como toda a pessoa na força de trabalho com idade
igual ou superior a 40 anos (Age Discrimination in Employment Act of 1967).
No que diz respeito à produção científica sobre o tema, também não se nos
apresenta uma definição concreta, questão esta que foi de alguma forma
levantada por Maurer et al. (2003), destacando a relevância deste assunto nas
investigações sobre a idade "because there is no universal
operationalization of the term" (p. 257). Na literatura científica, as
definições são igualmente variadas, desde os 35 anos e mais (Downs, 1967;
Newsham, 1969), dos 36 aos 60 (Caplan & Schooler, 1990), dos 55 aos 67
(Elias, Elias, Robbins, & Gage, 1987), e dos 58 aos 84 (Zandri &
Charness, 1989). A confusão aumenta quando muitos destes estudos estabelecem
estes critérios sem qualquer razão lógica ou argumentação coerente (e.g.,
Downs, 1967; Elias et al., 1987; Zandri & Charness, 1989), enquanto outros
usam uma separação através da mediana para separar os participantes em grupos
mais novos e mais velhos (e.g., Caplan & Schooler, 1990). Numa revisão de
105 estudos que definiam o termo "trabalhador mais velho" (older
worker), Ashbaugh e Fay (1987) verificaram que a idade cronológica média para
as operacionalizações do conceito era de 53.4 anos. Maurer et al. (2003)
consideraram esta idade como uma idade razoável para definir o valor mais baixo
do termo "trabalhador mais velho", mas que esta deveria ser
considerada em relação com o contexto. Mas a questão poderá não ser tanto do
contexto como sugerido em Maurer et al. (2003), referindo-se ao contexto
cultural ou organizacional, mas mais ao grupo de pertença do indivíduo num
determinado momento, ou dizendo-o de outra forma, recorrendo à sua imagem
identitária ou selfpercebido.
O SELF COMO PONTO DE REFERÊNCIA
O conceito de self é importante não só para o entendimento de como as pessoas
se percepcionam a si mesmas e regulam o seu comportamento, mas também para
providenciar uma lente através da qual seja possível interpretar as qualidades
e comportamentos de outras pessoas (Fiske & Taylor, 2008). A construção do
real é efectuada a partir do nosso ponto de vista, algo que começa a ser
comprovado por evidências advindas do estudo das bases neuronais do
comportamento, que apontam para o facto de que informação auto-relevante é
preferida a informações não relevantes para o próprio (Fiske & Taylor,
2008).
Mas esta ideia de que o self será utilizado como ponto de referência é apontada
por outros estudos. Enquanto que alguns autores (Campbell, 1986; Mullen &
Goethals, 1990; Suls & Wan, 1987) apontam para o facto de que as pessoas
assumem que os outros partilham das suas fraquezas mas que as suas qualidades
são únicas, outros (e.g., Schimel, Pyszczynski, Greenberg, O'Mahen, &
Arndt, 2000), sugerem que as pessoas se distanciam de outras pessoas que
acreditam que partilham das suas fraquezas. Verificamos ainda que existe uma
tendência para atribuir as nossas qualidades a alvos atraentes (Granberg &
Brent, 1980; Miller & Marks, 1982) e projectar os nossos atributos
indesejados em alvos pouco atraentes ou desfavoráveis (e.g., Sherwood, 1979).
Na verdade, até a utilização de estereótipos pode ajudar a invalidar a perícia
(expertise) daqueles que nos vêem negativamente, desacreditando um avaliador
para minimizar os efeitos negativos da crítica à auto-estima, servindo assim um
propósito de auto-aprimoramento (self-enhancement) (Fiske & Taylor, 2008).
Isto implica que o self "actively constructs the social world, to a large
degree, in its own image" (Fiske & Taylor, 2008, p. 130), avaliando
positivamente tudo o que lhe é semelhante, e afastando tudo o que lhe é
desagradável ou ameaçador.
Este facto pode de alguma forma explicar algumas diferenças no fenómeno de
discriminação etária, em que se verifica, se bem que não de forma consensual,
que os jovens discriminam mais os mais velhos, demonstrando um tratamento
diferenciado ancorado nas diferenças intergrupais.
Os diferentes resultados obtidos nos estudos efectuados levam-nos a esperar que
respondentes mais velhos possuam avaliações mais positivas da velhice do que
pessoas mais novas (Kite, Stockdale, Witley, & Johnson, 2005), e que
pessoas mais novas e homens, possuam atitudes mais discriminatórias face a
pessoas mais velhas (Rupp, Vodanovich, & Credé, 2005).
Tendo em consideração o exposto, somos levados a considerar a hipótese de que a
idade do conceito de trabalhador mais velho é definida não só a partir de
crenças socialmente partilhadas, mas também a partir da própria idade
percebida. Dito de outro modo, o conceito de trabalhador mais velho será
definido com recurso a uma linha imaginária que recuará no tempo de modo a
proteger a auto-estima e auto-imagem positiva.
Este estudo tentará assim investigar qual é a idade que comummente é associada
ao conceito de trabalhador mais velho através da estatística descritiva
associada, bem como tentar perceber quais são as variáveis que influenciam a
atribuição de uma idade a esse conceito. Para esboçar uma tentativa de resposta
a esta segunda questão de investigação, com base na revisão de literatura
efectuada, elaborámos as seguintes hipóteses.
Devido às implicações para a sua mortalidade associadas ao grupo dos mais
velhos (Fiske & Taylor, 2008), a pessoa vai diferenciar-se desse grupo de
modo a proteger a auto-estima e manter uma identidade social positiva (Tajfel,
1983), recuando uma linha imaginária que define a sua pertença (Seccombe &
Ishii-Kuntz, 1991), manifestada por uma associação positiva entre a idade do
participante e a média de idades atribuída ao conceito de trabalhador mais
velho.
Decorrente do fenómeno de conhecimento do grupo de atribuição (Quattrone &
Jones, 1980), a idade do participante está negativamente associada com a
amplitude das idades atribuídas ao conceito de trabalhador mais velho.
E finalmente, uma vez que as pessoas se auto-atribuem mais traços jovens
(Hummert et al., 2002) (positivos) do que idosos, fará sentido que a categoria
"jovem" se estenda de modo a comportar a idade do participante, e
que logo, possua um comportamento inverso no que diz respeito à amplitude mas
semelhante relativamente à média.
MÉTODO
Participantes
Uma vez que não se pretendia aceder a uma classe de indivíduos com
características específicas, mas sim, alcançar uma boa amplitude etária dos
participantes, a amostra em estudo foi seleccionada de forma não-
probabilística, por conveniência. Este estudo contou com a participação de 177
pessoas de ambos os sexos (58 do género masculino, 115 do género feminino e 4
de género desconhecido), com idades compreendidas entre os 17 e os 76 anos, com
uma idade média de 37.4 anos (DP=13.4). Em termos de ocupação
2
, 142 participantes trabalhavam, 49 eram estudantes e 11 eram reformados. Dos
177 questionários inicialmente recolhidos, 3 foram rejeitados por não se
encontrarem devidamente preenchidos.
Instrumento
De modo a poder aceder às idades atribuídas a cada uma das expressões em
estudo, nomeada mente a expressão trabalhador mais velho, foi desenvolvida uma
escala de notação. Apesar da idade poder ser inquirida através de valores
puramente numéricos, procurou-se levar os participantes a entender a questão
como enquadrada numa perspectiva da idade como um contínuo, iniciando a escala
no 1 e terminando-a no 100.
Procurou-se desenvolver uma escala de simples preenchimento, em que os
participantes pudessem assinalar a sua resposta sem imposição de limites de
precisão. De facto, este instrumento procurou dificultar respostas baseadas em
números precisos, utilizando para isso uma escala decimal.
Para além de procurar explorar alternativas a classes etárias pré-concebidas,
este instrumento procurou também explorar um conjunto de outros conceitos
ligados à expressão principal em estudo, que de alguma forma pudessem fornecer
algumas pistas sobre esta temática. Foram assim incluídos no instrumento as
expressões estímulo Jovem, Jovem Licenciado, Trabalhador, Trabalhador Mais
Velho, Reformado, Maturidade e Aprendizagem ao Longo da Vida. Estes conceitos
foram obtidos através de uma pesquisa em jornais de grande tiragem.
Este instrumento possui duas alternativas de respostas, a saber, as respostas
precisas ou completas e as respostas vagas. As respostas precisas ou completas
são fornecidas através de uma amplitude de idades, com a sinalização da idade
mínima e máxima, dando uma interpretação relativamente clara do seu
significado. As respostas vagas são assim denominadas por serem fornecidas
através da sinalização de apenas uma idade, sem que seja dada qualquer
orientação à resposta. Esta orientação refere-se à interpretação da resposta
dada. Por exemplo, ao atribuir a idade "55" à expressão
"trabalhador mais velho", podem existir, pelo menos, três
interpretações, a saber, (a) só as pessoas com 55 é que são trabalhadores mais
velhos, (b) a partir dos 55 anos uma pessoa pode ser considerada como
trabalhador mais velho, ou ainda, (c) 55 anos é a idade média dos trabalhadores
mais velhos.
Para este estudo, serão tratadas como variáveis independentes a idade, o género
e o tipo de ocupação dos participantes, e como variáveis dependentes, as idades
atribuídas ao conceito de trabalhador mais velho, bem como as idades atribuídas
aos outros conceitos apensos.
Procedimento
Os inquéritos foram entregues aos participantes e recolhidos posteriormente,
fornecendo instruções idênticas em todas as situações. Em seguida, foi
efectuada uma análise estatística simples, verificando as médias de idades
obtidas, as amplitudes, correlações entre as médias de idades atribuídas aos
conceitos e as idades dos inquiridos, correlações entre a amplitude das idades
atribuídas e as idades dos inquiridos. As associações entre variáveis foram
estudadas com recurso à separação de casos entre respostas precisas e vagas, de
forma a minimizar enviesamentos decorrentes da forma de cotação do instrumento.
Para evitar efeitos de precedência nas expressões estímulo, os questionários
foram contrabalanceados, através da criação de duas versões, em que a ordem das
expressões foi invertida.
RESULTADOS
Resultados globais
Neste estudo são analisados os casos na sua totalidade, analisando de forma
descritiva, cada variável como um intervalo. Concebemos aqui cada conceito,
tomando por exemplo o conceito de trabalhador mais velho, como possuindo uma
idade mínima - seguindo o exemplo, a idade em que uma pessoa começa a ser
considerada como velha para trabalhar - e uma idade máxima - a
idade em que é suposto a pessoa deixar de trabalhar - definindo assim um
intervalo de idades para cada um dos conceitos em estudo. Para nos referirmos
aos extremos de cada variável, utilizamos os valores médios do valor mínimo
assinalado e os valores médios do valor máximo. Em seguida, utilizamo-nos do
valor médio obtido com o conjunto das observações (respostas precisas e vagas)
para centrar o nosso intervalo. A variabilidade do intervalo é estudada através
da medida de amplitude.
Da observação dos dados descritivos apresentados na Tabela_1, destacam-se os
valores obtidos para as variáveis Jovem e Jovem Licenciado. Considerando os
limites encontrados, o conceito de Jovem Licenciado parece estar incluso no
conceito anterior de Jovem, não só na sua dimensão semântica, mas também pelos
valores encontrados.
No entanto, não se verifica a mesma situação nos conceitos de Trabalhador e
Trabalhador Mais Velho. De facto, constatamos que o intervalo que corresponde à
variável Trabalhador Mais Velho não se encontra em união com o intervalo
referente à variável Trabalhador, ao contrário do encontrado para as variáveis
Jovem e Jovem Licenciado.
Resultados referentes às respostas precisas
De modo a poder efectuar a análise às respostas precisas dadas pelos
participantes à expressão estímulo Trabalhador Mais Velho, foram seleccionados
os casos que possuíam uma amplitude superior a zero na variável Trabalhador
Mais Velho Amplitude, calculada através da subtracção do valor mínimo observado
pelo valor máximo. Após essa selecção de casos, foram efectuadas as respectivas
estatísticas descritivas e as correlações que permitiram testar as hipóteses
propostas.
A amostra ficou composta por 126 participantes (82 mulheres e 44 homens), com
idades compreendidas entre os 17 e os 74 anos (MD=35.9, DP=11.9). Em termos de
ocupação, e de forma não exclusiva, 104 eram trabalhadores, 36 eram estudantes
e 5 eram reformados.
No que diz respeito aos resultados obtidos, relativamente à variável
Trabalhador Mais Velho Mínimo, verificámos valores entre 10 e 71 anos, com um
valor médio de 51.7, relativamente aproximado dos valores globais.
Relativamente à variável Trabalhador Mais Velho Máximo, verificou-se um valor
mínimo de 40 e um valor máximo de 100, limitado pelo valor máximo da escala
utilizada, tendo apresentado uma média de 68.5 anos, valor ligeiramente acima
dos resultados globais. A média da variável Trabalhador Mais Velho Média situa-
se nos 60.1 anos. Os valores oscilam entre os 30 e os 85 anos, sendo de uma
forma global, bastante aproximados dos resultados para a totalidade das
respostas. Relativamente à variável Trabalhador Mais Velho Amplitude, podemos
verificar que este varia entre o 1 e os 62 anos de amplitude, sendo que o valor
médio da variação se situa nos 16.8. Verifica-se aqui um valor mais acentuado
do que o observado para os resultados globais. Para testar a existência de uma
associação positiva entre a idade dos participantes e a média do intervalo das
idades atribuídas à expressão Trabalhador Mais Velho, foi utilizado o
coeficiente de correlação de Spearman, uma vez que as variáveis não seguem uma
distribuição normal.
Tal como podemos observar na Tabela_2, os valores indicam uma correlação
positiva muito baixa mas significativa, entre a média do intervalo e a idade
dos participantes (p=.039). Quando analisamos os valores obtidos segundo o
género (Tabela_3), podemos observar que não existe correlação entre a média do
intervalo e a idade dos participantes masculinos, e que a associação entre as
duas variáveis é mais acentuada nas mulheres apesar de não significativa para
um alphade .05 (p=.052). Relativamente à ocupação dos participantes, os
resultados obtidos indicam uma associação moderada entre a idade média
atribuída à expressão Trabalhador Mais Velho, e a idade dos participantes que
declararam ser trabalhadores e estudantes (n=23, rs=.490, p=.018). Nas
restantes possibilidades verificamos que essa correlação é nula ou não
analisável devido às características da amostra recolhida. Podemos verificar
que a associação entre a idade e o limite mínimo do intervalo da idade
atribuída aos Trabalhadores Mais Velhos é mais acentuada (p=.001), mas
praticamente nula entre a idade e o limite máximo atribuído.
Novamente, ao analisarmos as diferenças entre géneros, podemos verificar que
existe uma correlação positiva significativa entre o limite mínimo e a idade
nas mulheres, mas que o mesmo não ocorre para os homens. Não foram detectadas
associações significativas entre o limite máximo e a idade para ambos os sexos.
Relativamente à ocupação dos participantes, pode-se verificar uma correlação
moderada entre o limite mínimo e a idade dos participantes trabalhadores-
estudantes mas não nos participantes apenas trabalhadores ou ocupados de outras
formas. Essa associação não se verifica entre o limite máximo do intervalo e a
idade dos participantes para qualquer uma das ocupações.
Relativamente à segunda hipótese em estudo, observando os resultados obtidos
(Tabela_2), verificamos que existe uma correlação baixa negativa entre a
amplitude do intervalo e a idade dos participantes. Podemos verificar na Tabela
3, que essa correlação existe tanto para os participantes do género masculino
como para o género feminino.
Relativamente aos resultados obtidos por ocupação, verificamos que existe uma
associação negativa significativa entre a idade e a amplitude do intervalo para
os trabalhadores (rs=-.236, p=.035). Esta associação é mais acentuada para os
trabalhadores-estudantes (rs=-.679, p>.001), mas nula para os apenas estudantes
(n=13, rs=-.092, p=.766).
Para verificar o comportamento da variável Jovem, foi igualmente efectuada uma
selecção dos casos em que a variável apresentava uma amplitude superior a zero,
de modo a poder efectuar o mesmo tipo de cálculos que foram operados para a
variável Trabalhador Mais Velho. A amostra ficou assim composta por 136
participantes (89 mulheres e 47 homens), com idades compreen didas entre os 18
e os 76 anos (MD=35.9, DP=12.7). O limite mínimo da variável Jovem situa-se nos
15.8 anos e o limite máximo nos 33 anos, valores relativamente próximos dos
observados nos resultados globais, tal como a média do intervalo observada
(MD=24.4, DP=8.8). Já a amplitude observada nesta amostra (MD=17.2) é
relativamente superior da verificada nos resultados globais. Relativamente a
esta variável, não foram detectadas quaisquer associações significativas com a
idade dos participantes, verificando-se que na maioria dos casos, as
correlações encontradas assumiam valores próximos de zero.
Resultados referentes às respostas vagas
Para efectuar a análise às respostas vagas dadas pelos participantes à
expressão estímulo Trabalhador Mais Velho, foram seleccionados os casos que
possuíam uma amplitude igual a zero na variável Trabalhador Mais Velho
Amplitude. Após essa selecção de casos foram efectuadas a respectiva descrição
dos casos e as correlações que permitiram testar as hipóteses em estudo. Esta
amostra é composta por 47 participantes (33 mulheres e 14 homens) com idades
compreendidas entre os 18 e os 76 anos (MD=41.4, DP=16.2).
No que diz respeito aos resultados obtidos, na variável Trabalhador Mais Velho
verificámos valores entre os 33 e os 80 anos, com um valor médio de 58.3 anos,
valores equivalentes aos registados nos resultados globais e nas respostas
precisas, referentes à variável Trabalhador Mais Velho Média. Na ausência do
pressuposto da normalidade das distribuições amostrais, foi utilizado mais uma
vez o coeficiente de correlação de Spearman, para testar a existência de uma
associação entre as variáveis em estudo.
Relativamente à primeira hipótese em estudo, podemos verificar que não existe
qualquer associação entre a variável Trabalhador Mais Velho e a idade dos
participantes (rs=-.078, p=.602). Quando analisamos essa relação por género,
verificamos a existência de resultados semelhantes, encontrando uma relação
nula relativamente ao género feminino (rs=-.037, p=.838), e uma correlação
negativa não significativa para o género masculino (rs=-.318, p=.268). Devido à
dimensão da amostra, não será possível efectuar a análise correlacional por
ocupação dos participantes. Estes dados não replicam de forma nenhuma os
verificados nas respostas precisas, não dando suporte às hipóteses em estudo.
Para a variável Jovem, foi novamente efectuada uma selecção dos casos em que a
variável Jovem Amplitude assumia um valor igual a zero. A amostra ficou
composta por 37 participantes (26 mulheres e 11 homens) com idades entre os 20
e os 76 anos (MD=43, DP=14.5). A variável apresentou uma média de 29.9 anos,
valor um pouco superior à média do intervalo verificada nas respostas precisas.
Novamente, não foram encontradas quaisquer associações significativas entre a
variável Jovem e a idade dos participantes, mesmo analisando a variável por
género e por ocupação.
DISCUSSÃO
O conceito de trabalhador mais velho surge operacionalizado de forma diversa,
não só na investigação sobre discriminação etária no local de trabalho (Maurer
et al., 2003), mas também nos programas vocacionados para diminuir os efeitos
do etarismo no acesso ao emprego por parte de pessoas mais velhas (De Man et
al., 2003). Esta dificuldade de operacionalização do conceito dificulta, não só
a investigação, mas também a definição de programas de intervenção adequados.
Conforme já foi referido anteriormente, o cerne desta questão não residirá
tanto na componente laboral do conceito, que remete claramente para facto de
que o trabalhador mais velho é alguém que desenvolve uma actividade laboral no
mercado de emprego, mas sim na definição do que é "mais velho".
De modo a encontrarmos uma definição para este conceito, desenvolvemos um
questionário que, concebendo a idade como um contínuo, e atribuindo ao conceito
de trabalhador mais velho associado, não uma idade específica, mas antes a um
intervalo de idades, procurou revelar a(s) idade(s) do trabalhador mais velho.
Este estudo revelou antes de mais, uma convergência entre o limite mínimo do
intervalo do conceito de trabalhador mais velho (53.5 anos) e o valor
encontrado (53.4) por Ashbaugh e Fay (1987), facto que sugere uma inexistência
de diferenças culturais na definição deste conceito.
Já os restantes resultados obtidos denotam uma certa associação com a realidade
objectiva, na medida em que alguns dos valores verificados, se aproximam
bastante dos observados na população portuguesa. Verificamos assim, que o
limite máximo do conceito de trabalhador mais velho (65.7 anos) parece ancorado
na idade legal de reforma em Portugal, e que o limite mínimo do conceito de
reformado (62.2 anos) se aproxima muito dos 62.9 anos, idade média de reforma
verificada de facto em Portugal (Centeno, 2007).
Verificamos ainda que o valor da esperança média de vida à nascença (78.5 anos)
verificado em Portugal (INE, 2007a) é bastante semelhante aos valores máximos
encontrados para o conceito de reformado (78.3 anos) e para o conceito de
aprendizagem ao longo da vida (79.9 anos). Também a idade referida para o
limite máximo do conceito de trabalhador (56 anos) reflecte de alguma forma os
resultados encontrados por Centeno (2007), em que se verificou "uma clara
tendência dos indivíduos para que a antecipação da idade da reforma seja um
objectivo dos seus ciclos de vida" (p. 127). É ainda de referir que a
amplitude do intervalo do conceito de trabalhador (32.2 anos), se encontra
claramente de acordo com o tempo necessário de carreira contributiva para
aceder legalmente à reforma em Portugal.
Relativamente às variáveis relacionadas com a juventude, notamos, não só que o
intervalo de idades para o conceito de jovem licenciado (22.6 - 30.2
anos) se assemelha ao intervalo de idades que compreende a maioria dos
diplomados do ensino superior (22 - 26 anos) (INE, 2007b), mas também que
este conceito parece estar incluso no conceito de jovem. Este último dado, não
será surpreendente, na medida em que já a dimensão semântica das expressões
indica essa ligação ou sobreposição.
No entanto, notamos também que um conceito muitas vezes associado às pessoas
mais velhas - a maturidade (O'Cinneide, 2005) - surgiu neste
estudo afastado das pessoas mais velhas. O intervalo encontrado para o
conceito, limitado entre os valores de 28.1 e os 51.7 anos, exclui o intervalo
de idades definido para os trabalhadores mais velhos. Verificamos assim que
este conceito não se sobrepôs ao conceito de trabalhador mais velho, mas antes
a um intervalo não explorado, que se inicia quando a pessoa começa a deixar de
ser Jovem e termina quando começa a ser (Trabalhador) Mais Velho.
Constatamos também que, apesar da sua dimensão semântica apontar para um
resultado semelhante ao encontrado com as variáveis ligadas à juventude, o
conceito de trabalhador se sobrepõe de alguma forma, mas não totalmente, ao
conceito de trabalhador mais velho, diferenciando-se assim dos resultados
encontrados com as variáveis Jovem e Jovem Licenciado. Neste caso, o conceito
de trabalhador não contém o conceito de trabalhador mais velho, parecendo antes
existir uma transição de um conceito para outro, em que se verifica a
possibilidade de o conceito de trabalhador mais velho poder existir de forma
independente do conceito de trabalhador ou de reformado, talvez como fase
transitória entre estes.
Os resultados obtidos relativamente à associação entre a idade dos
participantes e a definição do conceito de trabalhador mais velho apontam para
a existência de variações significativas entre as idades atribuídas ao limite
inferior do conceito, mas não relativamente ao limite superior. Enquanto este
último parece estar ancorado na idade legal para a reforma, o limite inferior
parece flutuar consoante a idade de alguns participantes. De facto, foram
verificadas diferenças na magnitude das associações relativamente ao género e à
ocupação dos participantes, proporcionando alguma heterogeneidade aos
resultados obtidos.
O facto de os dados apontarem para a não existência de uma associação entre o
limite máximo da idade do trabalhador mais velho parece indiciar uma menor
dependência de factores internos para a caracterização do conceito através da
idade. Dito de outro modo, enquanto o limite inferior parece ser definido
tendo-se a si como ponto de referência, o limite superior do conceito parece
ser definido externamente, presumivelmente com recurso à idade legal de reforma
socialmente reconhecida.
Ainda assim, apesar de não se ter verificado uma associação relativamente ao
limite superior do conceito de trabalhador mais velho, as associações positivas
encontradas no limite inferior revelaram-se suficientemente fortes,
influenciando os valores médios, permitindo encontrar correlações positivas
entre a idade dos participantes e a média de idades atribuída à expressão
"trabalhador mais velho", e correlações negativas entre a idade e a
amplitude do intervalo de idades para a mesma expressão.
Existiram no entanto, diferenças nos resultados encontrados nas respostas
precisas e vagas, sendo que os dados obtidos através das respostas vagas não
deram suporte às hipóteses em estudo. Estes resultados contraditórios podem
surgir da possibilidade de as respostas vagas poderem ter sido escolhidas por
pessoas que não tenham compreendido o questionário. Seria necessária uma maior
recolha de informação, de modo a explicar as diferenças encontradas.
Considerando os resultados observados e a magnitude das associações
encontradas, somos levados a confirmar parcialmente que a idade do participante
está positivamente associada com a média de idades atribuída ao conceito de
trabalhador mais velho, na medida em que factores ligados com a identidade
social e a pertença grupal dos participantes parecem estar ligados com a
atribuição de uma idade ao conceito de trabalhador mais velho. Esta confirmação
é feita de forma parcial pois seria expectável um igual comportamento nas
respostas precisas e vagas, facto que não se verificou, sendo que os dados
obtidos nas respostas precisas vão de encontro ao esperado, mas não é
encontrado suporte para esta hipótese quando analisados os resultados
referentes às respostas precisas.
Os resultados obtidos parecem suportar a hipótese de que a idade do
participante está negativamente associada com a amplitude das idades atribuídas
ao conceito de trabalhador mais velho. No entanto, estes resultados poderiam
ser apenas reflexo da utilização de um limite superior para a idade do
trabalhador mais velho por referência a factores externos. Ou seja, a
diminuição da amplitude do intervalo à medida que a idade avança, poderia ser
devida ao recuo da "linha imaginária" indiciada pelas associações
encontradas entre o limite inferior do conceito de trabalhador mais velho e a
idade dos participantes. Mas uma vez que, relativamente à amplitude, os
resultados são semelhantes entre homens e mulheres, algo não verificado na
variável Trabalhador Mais Velho Mínimo, e que os resultados obtidos revelam uma
magnitude diferente ao nível da ocupação dos participantes, parecem existir
suficientes indícios para que um maior conhecimento do exogrupo, influencie
negativamente a amplitude do intervalo de idades atribuído ao conceito.
Confirmamos assim a hipótese de que a idade do participante está negativamente
associada com a amplitude das idades atribuídas ao conceito de trabalhador mais
velho, decorrente do fenómeno do conhecimento do grupo de atribuição.
No entanto, não encontramos suporte nos dados que permitissem a confirmação de
que a categoria "jovem" se comportasse de forma inversa ao conceito
de trabalhador mais velho relativamente à amplitude, e de forma semelhante a
este relativamente à média. A inexistência de associações entre esta variável e
a idade dos participantes foi um facto surpreendente, na medida em que outros
estudos (Hummert et al., 2002) fariam prever essa associação. Somos assim
levados a infirmar a hipótese de que a categoria "jovem" se expanda
de modo a comportar a idade do participante, assumindo um comportamento inverso
à categoria de "trabalhador mais velho" no que diz respeito à
amplitude, mas semelhante a este relativamente à média.
De forma mais explícita, os resultados deste estudo apontam para que o
trabalhador mais velho seja uma pessoa entre os 53 e os 65 anos de idade, sendo
que essa categoria é atribuída de forma passageira, a pessoas que se encontram
numa fase transitória, perto do final da sua vida activa e da entrada na
reforma. No entanto, a idade de entrada nesta categoria é definida por uma
linha imaginária que vai recuando mediante o avanço da idade de quem a atribui.
Uma das razões para as pessoas a resistirem à sua identidade como idosas é a
implicação que essa identificação possui: a proximidade com a morte. A outra
razão está ligada com o facto de o poderem fazer. A diferença é clara: enquanto
a raça e o género são atribuídos à nascença, a pessoa vai adquirindo a sua
idade gradualmente. Isto possibilita que, à medida que a pessoa envelhece, não
tenha necessariamente de internalizar os estereótipos associados.
Devemos no entanto ressalvar que, embora este estudo procure oferecer um
modesto contributo para a definição do conceito de trabalhador mais velho, não
subscrevemos a premissa de o definir em tão latos critérios. A adopção de um
conceito que assenta em dois únicos pressupostos, a saber, a actividade laboral
(existência ou não) e a idade cronológica dos indivíduos, que ao mesmo tempo
que categoriza um conjunto demasiado heterogéneo de indivíduos, remete para
dimensões e atributos pouco favoráveis aos mesmos, é, não só discriminatória,
como atentatória aos direitos dos indivíduos que se vêem indevidamente
caracterizados (Bytheway, 2005).
Se bem que a definição de uma idade para o conceito possa auxiliar na definição
de estratégias de intervenção mais focalizadas e eficazes, dever-se-á ponderar
a existência um conjunto de dimensões ligadas com a experiência profissional e/
ou com o percurso de carreira e/ ou com o contexto laboral presente, que poderá
levar certos indivíduos a comportarem-se de forma menos aceite pelos restantes
actores organizacionais (que pode estar a ser indevidamente ligada à questão da
idade cronológica).
Este trabalho colocou alguns desafios metodológicos, nomeadamente ao nível da
escala utilizada. Os resultados contraditórios obtidos relativamente às
respostas precisas e vagas necessitam de ser investigados em maior detalhe, uma
vez que não seria previsível uma diferença daquela magnitude nas respostas.
Também a verificação de uma maior associação positiva entre a idade atribuída
ao conceito de trabalhador mais velho e a idade nas participantes do sexo
feminino e para os trabalhadores-estudantes de forma recorrente, merece ser
estudada em maior detalhe, possivelmente através das teorias ligadas à cognição
social.