A construção mediática do tráfico de seres humanos na imprensa escrita
portuguesa
O crime e as actividades associadas à indústria sexual, frequentemente
conotadas com o desvio, constituem, em regra, matérias consideravelmente
apelativas para os media(Bindel, 2006; Simões & Peça, 2009), dado o seu
potencial para despoletar fortes reacções no público. Todavia, o TSH, apesar de
se constituir como um fenómeno criminal que, com frequência, combina as duas
dimensões (no caso do tráfico sexual), tem revelado um potencial mediático
relativamente modesto. Paralelamente, tem-se mostrado um terreno fértil para
uma produção noticiosa estereotipada e com cunho sensacionalista, alarmista e
pandémico (United Nations Global Initiative to Fight Human Trafficking, 2008),
saturada de imprecisões na definição e delimitação de conceitos e fenómenos,
bem como de explicações pobres acerca das relações entre o TSH e factores
macrossociais, tais como a globalização, as políticas migratórias, a violência
contra as mulheres ou as desigualdades de género.
Nesta linha, os resultados do trabalho desenvolvido pela organização ASTRA
- Anti-Trafficking Action (2006) sobre a cobertura das situações de TSH
pela imprensa escrita sérvia desde 1998 até 2005 demonstraram que, embora os
jornalistas reconhecessem o TSH como um problema social importante, os textos
publicados sobre a matéria eram esporádicos. Em paralelo, muitos dos artigos
estavam escritos de modo sensacionalista e a maioria limitava-se à publicação
de casos isolados, geralmente descritos numa perspectiva policial, descurando
reflexões úteis para a prevenção de novas situações ou da sua reincidência.
Todavia, numa análise da imprensa efectuada entre 2001 e 2004 na Estónia
(Meigs, 2005), foi salientada uma mutação no discurso jornalístico, alterando-
se a representação do TSH enquanto consequência de uma escolha individual para
um fenómeno potenciado por factores de natureza sociológica.
A presença de representações estereotipadas e preconceituosas torna-se
particularmente evidente nos textos que aludem à prostituição e ao tráfico de
mulheres para fins de exploração sexual, registando-se uma tendência de
sobrevalorização por parte dos mediaface a este tipo de tráfico (Santos et al.,
2008; Simões & Peça, 2009). Em 2006, Bindel notou que a imprensa britânica
estaria a favorecer uma distinção problemática no que respeita à
conceptualização destas mulheres, ao difundir a noção de que as traficadas
seriam "escravas sexuais", logo, vítimas verdadeiras, enquanto as
que se prostituíam teriam optado por este "estilo de vida" e, como
tal, seriam desmerecedoras da empatia do público face à eventualidade de serem
alvo de situações de violência. Porém, se as traficadas eram descritas como
"imigrantes ilegais", logo, infractoras da lei, eram igualmente
desvalorizadas, apesar da subsistência da sua condição de escravidão. Por fim,
Bindel sublinhou que a procura masculina da prostituição feminina, quer esta
seja alimentada pelo TSH ou não, era amplamente ignorada pelos jornalistas.
Em Portugal, o primeiro estudo efectuado sobre o TSH (Peixoto et al., 2005)
comportou uma análise da imprensa escrita entre 2001 e 2004. Em linha com os
estudos internacionais, constatou-se a sua fraca visibilidade mediática,
assumindo-se, com frequência, como um sub-tema dentro do tema maior das
migrações. O tráfico laboral foi o mais citado nas notícias, emergindo muitas
vezes associado a detenções relacionadas com o auxílio à imigração ilegal; por
sua vez, o tráfico de mulheres surgia com maior visibilidade em pequenas
notícias sobre rusgas em bares de alterne, reforçando a ideia da prostituição
enquanto actividade privilegiada das mulheres em situação ilegal no país,
particularmente das de nacionalidade brasileira, da Europa de Leste e África;
finalmente, o tráfico de crianças foi o menos noticiado, destacando-se apenas
algumas conexões com situações de pedofilia e pornografia infantil.
Para além do número relativamente restrito de notícias sobre a matéria, estas
não eram especialmente detalhadas nos jornais diários, predominando descrições
referentes à actividade policial e/ou judicial, normalmente relacionadas com
casos particulares (Peixoto et al., 2005). Todavia, em alguns semanários e
revistas eram explorados aspectos como a caracterização dos agentes e do
funcionamento das redes criminosas, bem como histórias de vida de algumas
vítimas. A este nível, destaca-se a ênfase no elevado nível de organização,
hierarquização e violência das redes, particularmente das oriundas da Europa de
Leste, bem como a referência ao envolvimento frequente de cidadãos portugueses
como agentes exploradores. A actuação dos grupos criminosos era descrita de
forma semelhante, independentemente da sua origem ou finalidade, com processos
de recrutamento baseados em falsas promessas de trabalho e de exploração/
controlo assentes na violência, mobilidade geográfica e sonegação de
documentos.
Vários destes resultados foram, posteriormente, reiterados no estudo de Simões
e Peça (2009) acerca da produção da imprensa nacional sobre o tráfico de
mulheres para fins sexuais e a prostituição. Adicionalmente, as autoras
confirmaram que, em contraste com as instâncias que exercem o controlo da lei e
da ordem, os restantes actores (prostitutas, vítimas, traficantes e clientes)
não tinham um papel activo no discurso mediático, situação que, para Kantola e
Squires (2004), se justifica pelo facto de o TSH ter pouco impacto na esfera
pública, na medida em que não atinge directamente uma grande percentagem dos
leitores. Em particular, as duas classes de mulheres identificadas como
dominantes, as "traficadas" e as "prostitutas", eram
relegadas para um papel passivo, reproduzindo um modelo cultural de mulher
inábil, reduzindo-as à condição de mercadoria transaccionada no mercado do sexo
(Simões & Peça, 2009). A característica mais evidente nestas mulheres era a
nacionalidade, quer estas fossem classificadas como estrangeiras ou
brasileiras, sendo especialmente relevante a sua associação à imigração ilegal
quando estas eram descritas como "prostitutas" e menos como
"traficadas".
Em síntese, da análise da produção científica desenvolvida no domínio do TSH
realça-se que o discurso da imprensa exibe traços de uma cobertura mediática
que fomenta o pânico moral (Berman, 2003; Cohen, 1972; O'Neill, Campbell,
Hubbard, Pitcher, & Scoular, 2008; Saar, 2010; Schaeffer-Grabiel, 2010;
Simões & Peça, 2009; Weitzer, 2007) e o preconceito, sobretudo através da
catastrofização das estatísticas relativas ao fenómeno e da amplificação da
participação de estrangeiros e minorias em situações de desvio.
MÉTODO
Objectivos e questões de partida
No sentido de compreender melhor os mecanismos inerentes à construção mediática
e social do TSH, foi efectuada uma análise dos conteúdos difundidos por dois
jornais nacionais diários no ano de 2008. Procuraram-se indicadores de resposta
para as seguintes questões:
1) Quais os conteúdos veiculados nos textos produzidos sobre o TSH, em comparação
com aqueles que, não sendo específicos do tráfico, surgem nas peças com fortes
associações ao tema?
2) Que actores são mobilizados nas histórias e quais os significados dos seus
discursos?
Amostra e processo de amostragem
A amostra foi constituída por 85 peças recolhidas dos 730 jornais que
compuseram as edições diárias dos jornais Público e Correio da Manhã durante
2008. A selecção das peças respeitou dois critérios essenciais, a saber, o
facto de abordarem explicitamente a questão do TSH e o facto de, embora não
incidindo expressamente sobre o TSH, tornarem plausível a sua presença pela
conjugação de várias circunstâncias e consequentes indicadores nos textos, dos
quais foram considerados1 : em primeiro lugar, a referência a situações de
exploração sexual; em segundo lugar, a referência a vítimas de uma situação de
escravidão ou do envolvimento forçado ou involuntário na prostituição ou noutra
forma de trabalho sexual (e.g., alterne); e, por fim, a referência à presença,
envolvimento ou actuação de redes de crime organizado.
Dos textos analisados, 58 abordavam explicitamente a questão do TSH (11
recolhidos do Público e 47 do Correio da Manhã) e 27 configuravam cenários
aproximados ao TSH (2 do Público e 25 do Correio da Manhã). A escolha dos
jornais enunciados prendeu-se com o facto de interessar analisar textos
provenientes de diferentes perfis de publicação, optando-se por contrastar um
jornal considerado como sendo de referência (Público) com um entendido como
mais sensacionalista (Correio da Manhã).
Análise, codificação, tratamento e validação dos dados
Os textos foram consultados, recolhidos e transcritos a partir das fontes
originais. Dadas as características do material em apreço, geralmente curto, a
unidade de análise seleccionada foi a frase. Como referência metodológica, e no
sentido de permitir uma estratégia sistemática e exaustiva de codificação dos
conteúdos, foi adoptada a grounded analysis(Strauss & Corbin, 1994, 1998),
tendo sido considerados princípios orientadores vulgarmente implicados nesta
abordagem metodológica, designadamente o princípio indutivo, o da parcimónia, o
da teorização e o da codificação inclusiva (Huberman & Miles, 1998). Foi
também adoptado o modelo de hierarquização de categorias proposto por Hill,
Thompson e Williams (1997, citados por Machado, 2004) e utilizado o programa
informático QSR NVivo, Versão 7.0 (Qualitative Solutions & Research, 2007)
para o tratamento qualitativo dos dados.
Para assegurar uma maior credibilidade dos resultados, e tendo em conta a
natureza essencialmente descritiva do estudo, foram adoptados dois
procedimentos específicos de validação: a "descrição densa"
(Geertz, 1973, citado por Vidich & Lyman, 1994, p. 41) dos significados
identificados, com uma apresentação detalhada dos mesmos e ilustração textual
de cada categoria; e o recurso a um co-codificador na análise do material,
tendo sido obtido um índice de fidelidade (Vala, 1986) de 0.95, considerado um
valor de acordo substancial.
RESULTADOS
Na sequência dos princípios que orientaram metodologicamente este estudo,
segue-se uma descrição densa dos resultados, através das categorias de natureza
descritiva, no sentido de proceder a uma exposição sistemática da representação
do TSH emergente no discurso mediático. De seguida, é efectuada uma análise
transversal destes resultados, orientada pelas questões anteriormente
formuladas, permitindo, por um lado, estabelecer a interligação entre as
diferentes categorias e, por outro, fundamentar a leitura conceptual e teórica
dos dados.
Salvaguardando-se as diferenças quanto ao número de notícias recolhidas de cada
fonte, e embora ambas registem uma frequência baixa e descontinuada na
publicação e com pouco destaque visual dos textos, os conteúdos centrais
apurados são essencialmente comuns.
CARACTERÍSTICAS CENTRAIS DO TSH
Caracterização e dinâmicas do crime
Da análise efectuada ressalta um vasto conjunto de elementos textuais que
dominam as mensagens veiculadas sobre o TSH, estando presentes em 93.1% das
peças, e que, quando relacionados entre si, constituem dimensões que permitem
caracterizar as dinâmicas do crime.
O primeiro aspecto relevante nesta categoria relaciona-se com a espacialização
do TSH, verificando-se, todavia, uma inversão das dimensões quando analisados
os textos específicos sobre o TSH e aqueles que não se reportam explicitamente
a ele. Quanto aos primeiros, os espaços onde os eventos reportados se
desenvolvem remetem, sobretudo, para territórios internacionais, e
particularmente para Espanha, onde se destacam espaços físicos geralmente
enquadráveis na esfera dos estabelecimentos de diversão nocturna; nos segundos
predomina o território nacional e as referências a estabelecimentos de diversão
nocturna no Norte, embora surjam, esporadicamente, menções à rua e a
apartamentos ou residências enquanto locais onde a exploração acontece (e.g.,
"As mulheres acabam por ser espalhadas por diversos países da Europa
Ocidental, colocadas em estabelecimentos nocturnos", Público, 15-11-
2008).
Surgem, também, indicações sobre as rotas do TSH, com identificação dos países
de origem, particularmente o Brasil e países do continente africano e da Europa
de Leste, de trânsito e destino, onde, vulgarmente, figuram Portugal, Espanha e
Itália (e.g., "As 'meninas' eram (...) trazidas do Brasil
para o Algarve e obrigadas, sob sequestro e mediante ameaças, a prostituírem-se
em apartamentos de Portimão e Albufeira", Correio da Manhã, 14-02-2008).
O segundo aspecto prende-se com a saturação dos textos com dados relativos à
natureza crimi nógena do TSH, em detrimento da sua conceptualização enquanto
fenómeno social e culturalmente construído, fazendo gravitar em seu redor
dimensões relacionadas com a sua conexão a outros crimes, particularmente o
lenocínio, a associação criminosa, o auxílio à imigração ilegal e sequestro
(e.g., "Ambos respondem por lenocínio agravado, quatro crimes de
sequestro, tráfico de pessoas e associação criminosa", Correio da Manhã,
14-02-2008). Trata-se, todavia, de um indicador esperado no contexto da
produção noticiosa de um crime entendido como "organizado" e que
quase sempre envolve a prática de outros ilícitos.
Paralelamente, surgem fortes conexões com outros fenómenos ou sectores da
indústria sexual conotados com o desvio, particularmente a prostituição e o
alterne, favorecendo uma construção discursiva híbrida que activa outros
linkstemáticos e alguma confusão conceptual. Assim, apesar de serem fenómenos
teórica e juridicamente distintos, invoca-se novamente o debate sobre a relação
entre o tráfico de mulheres para fins sexuais e a prostituição, uma vez que
este último conceito está presente em 41.2% das peças analisadas, sendo
frequentemente usado como sinónimo de exploração sexual, vitimação e
inabilidade femininas (e.g., "Grande parte das mulheres acaba em bares de
alterne e na prostituição, incapazes de saírem das redes de tráfico",
Correio da Manhã, 13-06-2008). Quanto ao alterne, verifica-se também alguma
confusão, embora esta seja menos aguerrida, uma vez que, face à ausência de
regulamentação da prostituição em Portugal, os clubes ou bares de alterne
assumem-se como contextos físicos propícios à existência de situações que se
enquadram na actividade prostituitiva, pelo que, naturalmente, são convocados
para os textos onde se narram histórias de exploração sexual.
Em terceiro lugar, foi identificado um conjunto de propriedades relativas às
formas de organi zação e dinâmicas do TSH, presentes em 68.2% das peças,
permitindo identificar várias dimensões, a saber: a estrutura e o sistema de
funcionamento em rede, a transnacionalidade, os mecanismos de recrutamento e de
transporte, os processos de exploração e de controlo.
De facto, na maioria dos textos analisados surgem referências à estruturação
dos agentes criminosos, quer em termos de hierarquia, quer de funções,
qualificando a sua acção como fortemente especializada, organizada e lucrativa,
aspectos particularmente presentes no tráfico de âmbito transnacional (e.g.,
"A estrutura tinha uma hierarquia de chefes e recrutadores que faziam a
angariação ilegal de mão-de-obra", Correio da Manhã, 24-04-2008). Surgem,
ainda, referências a esquemas ardilosos de camuflagem e desenvolvimento da
actividade criminosa, nomeadamente o recurso a fachadas empresariais,
frequentemente relacionadas com negócios de exploração de casas de diversão
nocturna ou nas áreas da construção civil e agricultura.
No que respeita aos mecanismos de recrutamento ou angariação de vítimas, é
realçada a persuasão através de ofertas de trabalho apelativas, normalmente
apresentadas por pessoas que seriam, à partida, dignas de confiança. Existem,
porém, referências a estratégias ardilosas de publicidade nos media,
designadamente através de anúncios na imprensa escrita. Por sua vez, o processo
de transporte é distinto tendo em conta a origem e o destino das vítimas: nas
peças onde figuram vítimas oriundas do Leste Europeu, o transporte é
normalmente feito por via terrestre (e.g., "A forma de actuação desta
rede (...) consiste em recrutar mulheres através de anúncios (...). Viajando em
carrinhas e pequenos autocarros, mas também dissimuladas entre mercadorias
transportadas em camiões, (...) são orientadas para dizerem, caso sejam
interpeladas, que são turistas", Público, 15-11-2008); quanto às vítimas
de nacionalidade brasileira, as indicações remetem para a sua entrada em
Portugal e na Espanha por via aérea.
Os mecanismos de exploração e controlo dizem respeito às estratégias utilizadas
pelos elementos das redes de TSH no sentido de manter o funcionamento da
actividade criminosa e a subordinação das vítimas. Nas peças analisadas, estes
aspectos traduzem-se, sobretudo, em referências a espaços desprovidos de
condições elementares de sobrevivência onde as vítimas são forçadas a
subsistir, em simultâneo com o recurso, por parte dos exploradores, à violência
física (e.g., agressões, tentativa de atropelamento) e/ou psicológica (e.g.,
ameaças de violência e morte às próprias vítimas ou a pessoas significativas,
privação de descanso e da liberdade de movimentos, vigilância permanente),
sendo a primeira mais referenciada nos textos sobre o TSH e a segunda naqueles
que não se reportam explicitamente a ele (e.g., "(...) as mulheres eram
tratadas como mercadoria, para obtenção de lucros e viviam em condições
deploráveis", Correio da Manhã, 08-04-2008; "Vigiavam-nas e
agrediam-nas quando elas pensavam em desistir. Algumas eram forçadas a
trabalhar 12 horas seguidas", Correio da Manhã, 23-10-2008). São, também,
mencionadas outras formas de controlo, designadamente a subordinação económica,
através da responsabilização pelo pagamento de avultadas dívidas relativas a
custos com a viagem e subsistência (e.g., "As vítimas são vinculadas às
redes através de um 'sistema de dívida' (...)", Correio da
Manhã, 13-06-2008) e a sonegação de documentação pessoal.
No seguimento das dimensões anteriormente mencionadas, surge um novo conjunto
de dados que se prende com as finalidades da exploração. Nas peças onde estas
são identificadas, cerca de metade consiste no tráfico de mulheres para
exploração sexual e um quinto no tráfico de crianças para o mesmo fim. Foram
contabilizadas apenas seis peças em que a finalidade do tráfico é a exploração
laboral, a extracção de órgãos ou a adopção ilegal, traduzindo uma clara
sobrevalorização da explora ção sexual face às restantes.
Por último, no acervo de dados que caracterizam o TSH, importa analisar o
conjunto de referências alusivas aos indicadores estatísticos sobre o crime.
Salienta-se, desde logo, que a maioria dos textos não identifica qualquer fonte
oficial; porém, naquelas em que tal acontece, prevalecem dados avançados pelos
órgãos de polícia criminal (e.g., "Um total de 151 pessoas foram
indiciadas no ano passado pelo crime de tráfico de seres humanos em Portugal e
'78 foram detidos', revelou (...) um coordenador de investigação
criminal da PJ", Público, 31-01-2008). Esporadicamente, são citadas
estimativas sobre o número global de vítimas, o tipo de vitimação que envolve,
bem como o lucro gerado pelo crime (e.g., "Número da ONU. Todos os anos,
cerca de 2,5 milhões de pessoas são vítimas de tráfico internacional para
exploração sexual e trabalho forçado", Público, 17-10-2008). Embora este
seja um fenómeno oculto por natureza, são raras as referências ao
desconhecimento da sua dimensão, não deixando, porém, de ser retiradas
conclusões mais ou menos "plausíveis" ou "consensuais"
a partir dessa lacuna (e.g., "Apesar de não haver números, é consensual
que a exploração de mulheres para fins sexuais é a face mais visível do tráfico
de seres humanos em Portugal", Público, 17-10-2008).
Sociedade, política criminal e acção dos sistemas de controlo policial e penal
A segunda categoria de análise emergente dos textos concentra em si várias
dimensões que permitem enquadrar o TSH em termos sociopolíticos, jurídico-
penais e, sobretudo, ao nível da investigação criminal, comportando 89.4% das
peças em apreço.
Verifica-se, desde logo, um claro predomínio de textos em que o tema central
circunda na acção fiscalizadora dos órgãos de polícia criminal, denotando-se,
dentro desta dimensão, uma prevalência de notícias cujo núcleo informativo
assenta em descrições de procedimentos de investigação adoptados pelas forças
policiais, destacando-se as rusgas em estabelecimentos de diversão nocturna,
sendo escassas as referências a denúncias como ponto de partida para essas
operações. Não raras vezes surgem alusões à cooperação entre diversas forças
policiais, nacionais e/ou estrangeiras, tipicamente associadas a peças que
noticiam o desmantelamento de redes com maior grau de organização (e.g.,
"Intitulada Operação Bagdad, mobilizou 1300 agentes e foi coordenada em
conjunto pela Europol e Eurojust", Público, 24-06-2008).
Aliada a esta dimensão surgem considerações sobre trâmites judiciais que,
geralmente, incidem sobre audições, julgamentos e sentenças, particularmente de
processos fortemente mediatizados (e.g., Passerelle, Máfia da Noite, Noite
Branca); aliás, o processo Passerelle é responsável, por si só, por 10.6% dos
textos analisados, situação que se justifica atendendo a que o seu desenvolvi
mento foi seguido em permanência pelos media. Estão ainda presentes propostas
de alteração legislativa, no sentido de ajudar a ultrapassar obstáculos que
subsistem no combate ao crime (e.g., "Maria José Morgado defende maior
protecção às testemunhas e apreensão de todos os rendi mentos das redes que
traficam pessoas para evitar a impunidade ou que o crime compense",
Correio da Manhã, 13-06-2008).
Em 40% das peças explicitamente relacionadas com o TSH surgem, ainda,
referências a uma dimensão de acção política e social, de onde sobressaem
orientações de política criminal, valorizando-se a investigação do crime, o
financiamento de estruturas de apoio às vítimas e o desenvolvimento de acções
de informação e sensibilização comunitárias (e.g., "Foi anunciada pelo
Governo a criação (...) de um refúgio para mulheres e crianças vítimas de
tráfico de pessoas", Correio da Manhã, 01-06-2008; "(...) o Governo
vai lançar uma campanha nacional de sensibilização (...), cujo objectivo é
(...) 'apelar à consciência social e pedir a todas as pessoas que fiquem
atentas ao fenómeno e o denunciem'", Público, 17-10-2008). Veicula-
se, assim, a mensagem do combate ao TSH como prioridade do Governo, apelando a
uma maior cooperação entre a sociedade civil, as autoridades nacionais e
internacionais neste propósito.
Estes reptos são também lançados por entidades da sociedade civil, no sentido
de, por um lado, informar o público, favorecendo um movimento solidário e
proactivo em relação às vítimas, e sensibilizar o poder político para as
necessidades de actuação face às exigências do fenómeno e, por outro lado,
reiterar o seu compromisso de denúncia do problema (e.g., "Os bispos
portugueses e dos restantes países lusófonos denunciaram ontem o aumento do
tráfico de mulheres e de crianças e pediram aos governos (...) para tomarem
medidas 'concretas e eficazes para acabar com este inaceitável
flagelo'", Correio da Manhã, 29-09-2008).
As medidas de apoio às vítimas enunciadas nas peças focam, sobretudo, a
intervenção proporcionada pelo Centro de Acolhimento e Protecção, enquanto
única estrutura específica de apoio no país, possibilitando o seu acolhimento,
protecção, apoio jurídico, psicológico e médico. No âmbito das medidas
previstas no I Plano Nacional Contra o TSH, surgem ainda notícias que focam a
autorização especial de residência para algumas vítimas (e.g., "(...) o
coordenador Manuel Albano adiantou (...) que outras cinco vítimas de tráfico
aguardavam por autorização especial de residência", Público, 17-10-2008).
Não existem, porém, informações relativas à possibilidade de apoio às vítimas
no processo de retorno ao seu país de origem.
Nas peças que não se reportam especificamente ao TSH, conceptualiza-se a
prostituição enquanto risco para a saúde pública, pelo que a intervenção é
orientada para a distribuição de material contraceptivo, numa lógica de
prevenção das doenças sexualmente transmissíveis.
Actores mobilizados e significação discursiva
A análise dos textos permitiu identificar a presença de cinco grupos centrais
de actores: as vítimas, os traficantes/exploradores, os clientes, os
representantes políticos e da sociedade civil e, por último, os órgãos de
polícia criminal. Porém, a consideração destes elementos não se traduz numa
presença equitativa dos espaços discursivos2, isto é, existem discrepâncias
quanto ao peso relativo das vozes dos diferentes grupos nas histórias,
verificando-se um claro predomínio dos dois grupos mencionados em último lugar
face aos restantes. Assim, e apesar do papel central desempenhado pelas
vítimas, traficantes/exploradores e clientes no TSH, são também estes os
agentes que menos "se fazem ouvir".
Caracterização e discursos das vítimas
No conjunto das peças que veiculam informação sobre as vítimas do tráfico
(81.2%), a sua caracterização é dominada pelos atributos "sexo" e
"nacionalidade", com o sexo feminino e a nacionalidade brasileira
claramente destacados, com 62.3% e 34.8% das referências nestas dimensões,
respectivamente. De facto, a referência a vítimas do sexo masculino surge
apenas em quatro peças, todas elas relativas a outras finalidades que não a
exploração sexual. Quanto às restantes origens, predominam as vítimas
provenientes da Europa de Leste e africanas.
Nas peças onde se identificam mulheres brasileiras, o conceito da prostituição
está mais presente do que o do tráfico, algo que já não acontece relativamente
às pessoas oriundas da Europa de Leste, reforçando-se, assim, a ideia de que as
mulheres brasileiras sabem que irão trabalhar no mercado do sexo, sendo, por
via dessa consciência, percepcionadas como estando menos sujeitas à exploração.
Quando não expressa claramente, a questão da nacionalidade é evidenciada
através do recurso a conceitos inespecíficos, tal como "estrangeiro/
a", que, em 30.6% das peças, se associam à condição de ilegalidade da
situação migratória das vítimas.
Da intersecção destas dimensões resultam as três categorias de mulheres
presentes nos textos analisados: as traficadas, as prostitutas e as ilegais.
Quanto à idade das vítimas, 18.8% dos casos envolvem adultos, tipicamente
mulheres entre os 20 e os 30 anos. Paralelamente, em 17.4% das situações, os
dados revelam vítimas menores, aspecto especialmente significativo em termos da
gravidade percebida do problema por parte do público, dado que quanto mais
jovem for a vítima, maior alarme será suscitado.
Apesar de a origem socioeconómica assumir um peso limitado nos textos, esta
remete, invariavelmente, para cenários de precariedade (e.g., "Romenas,
muito jovens, algumas ainda crianças, de famílias pobres do seu país, eram
aliciadas com melhores condições de vida", Correio da Manhã, 23-10-2008),
favorecendo uma relação de causalidade linear entre pobreza e TSH. De facto,
quando apontados os motivos para a emigração, torna-se preponderante a questão
da sua vulnerabilidade socioeconómica no país de origem e a tentativa de
melhorar essa situação noutro local. As mulheres e as crianças surgem como os
elos mais fracos de uma sociedade desigual, voltada para o consumo e para a
concorrência dos mercados, ainda que não se auto-percepcionem como vítimas
(e.g., "A maioria não reconhece que é explorada", Correio da Manhã,
13-06-2008).
Em quatro peças são aludidas estratégias adoptadas pelas vítimas no sentido de
lidar com o tráfico, consistindo na denúncia da situação de exploração às
autoridades e na tentativa de fuga, podendo esta ser realizada com o auxílio de
terceiros, sobretudo clientes, e implicar uma retaliação por parte dos
exploradores. Ainda assim, esta dimensão representa o único domínio onde é
possível denotar sentido de agência por parte destas vítimas, uma vez que, em
termos discursivos, a sua "voz" está presente em apenas 2.4% dos
textos e restringe-se à explanação de dois aspectos centrais: as condições de
exploração a que estiveram sujeitas e as potenciais consequências de uma
denúncia da situação às autoridades (e.g., "'Armazéns de
pessoas' (...) chegavam a estar 13 mulheres num só quarto", Correio
da Manhã, 08-04-2008).
Caracterização e discursos dos traficantes/exploradores
No conjunto dos textos que apresentam informação sobre os agentes perpetradores
do crime, representando 70.6% do total, e de forma parcialmente divergente do
que sucede com as vítimas, os atributos demográficos dominantes são o
"sexo", a "ocupação profissional" e, só depois, a
"nacionalidade". Assim, prevalecem histórias em que os traficantes/
exploradores são do sexo masculino, surgindo, depois, as mulheres nesta
posição, presentes em 28.3% dos textos desta categoria. No que diz respeito à
nacionalidade e profissão, sublinha-se a elevada presença de cidadãos
portugueses, tipicamente proprietários/exploradores de estabelecimentos de
diversão nocturna ou pensões. Todavia, o envolvimento de elementos das forças
policiais, políticos e profissionais de saúde nas redes de TSH e prostituição
também é comum (e.g., "Entre os implicados na rede estão médicos e
enfermeiras", Correio da Manhã, 31-01-2008; "António Frazão é um
destacado militante do Partido Nacional Renovador (...) que seria já
responsável pelo funcionamento de quatro casas de prostituição (...) onde eram
exploradas cerca de três dezenas de mulheres ilegalmente imigradas em
Portugal", Público, 31-10-2008). Em 28.3% dos casos, os agentes
perpetradores surgem identificados pelos seus nomes.
A maioria das mulheres, ao contrário do que acontece com os homens, são
estrangeiras. No seu conjunto, são sobretudo mencionados(as) cidadãos(ãs)
oriundos(as) dos países da Europa de Leste, Brasil, África e Espanha. Contudo,
ao contrário das vítimas, os elementos das redes têm, por norma, a sua situação
migratória regularizada para minimizar as probabilidades de detecção (e.g.,
"Os condutores das viaturas que transportam as mulheres são, regra geral,
ucranianos que possuem autorização de residência em Portugal", Público,
15-11-2008).
As indicações relativas à idade destes agentes são escassas; no entanto, são
tipicamente identificadas pessoas com idades entre os 30 e os 50 anos. De
resto, constata-se a presença de relações de parentesco ou proximidade afectiva
entre alguns elementos das redes (e.g., "Um professor (...) e a mulher
foram detidos sob suspeita de dirigirem uma rede de prostituição com mulheres
oriundas do Leste da Europa", Correio da Manhã, 02-01-2008).
Por fim, surgem aspectos relacionados com a posição ou funções que estes
assumem na estrutura criminosa, bem como informações sobre os antecedentes
criminais destes agentes e relativas à acusação de pessoas colectivas por este
crime (e.g., "Do total de 26 detidos em Portugal e em Espanha, dois
portugueses, considerados elementos das chefias da organização, ficaram em
prisão preventiva", Correio da Manhã, 24-04-2008; "O processo
Passarelle (...) tem 24 arguidos - 15 em nome individual e nove
empresas", Correio da Manhã, 05-12-2008).
A presença dos traficantes/exploradores na arena discursiva é visível em apenas
11.1% dos textos que apresentam alguma conexão com o TSH e em apenas 3.5% da
totalidade das peças analisadas, limitando-se a frases muito curtas e que
versam essencialmente sobre duas dimensões particulares: a exposição de
argumentos de auto-defesa face ao seu envolvimento na actividade criminosa
(e.g., "Em tribunal, Carlos M. G. acusou o "xerife" de ter
"arrastando todos os polícias" para a trama de corrupção e extorsão
de fundos a prostitutas", Correio da Manhã, 17-05-2008) e relatos que
espelham as percepções individuais sobre as vítimas (e.g., "'Essa
era especial, porque era muito inocente', ironizou", Correio da
Manhã, 18-01-2008).
Caracterização e discursos dos clientes
Assumindo um peso modesto comparativamente com as restantes, contemplando
apenas 18.8% dos textos examinados, a análise desta categoria afigura-se,
todavia, muito relevante face aos objectivos delineados para o estudo, dado que
a quase ausência da figura do cliente é, por si só, sintomática das
dificuldades de acesso aos intervenientes no TSH. São os clientes que, pela sua
procura, fomentam a oferta de vítimas no mercado do sexo; todavia, continua a
mitigar-se a sua presença na complexa rede de relações edificada entre os
actores envolvidos.
Nos textos explicitamente relacionados com o TSH, as referências à figura do
cliente são absolutamente indiscriminadas em relação ao género, embora se possa
depreender, pelo conteúdo das histórias e pela utilização de artigos no
masculino, tratarem-se de homens (e.g., "A polícia britânica desmantelou
ontem uma rede de prostituição que angariava clientes através da internet e era
alimentada por tráfico de pessoas", Correio da Manhã, 21-04-2008).
Nas restantes peças, aplica-se o mesmo princípio, havendo, no entanto, notícias
onde a identificação do sexo masculino é clara, caracterizando-os também ao
nível da sua ocupação profissional e eventual envolvimento nas redes de tráfico
(e.g., "quatro polícias da cidade e vários políticos (...) seriam os
principais responsáveis pela criação do esquema e (...) clientes das crianças e
adolescentes aliciados para a prostituição", Correio da Manhã, 14-01-
2008).
Nos textos que se reportam ao tráfico para fins sexuais são dirigidos alertas
para quem procura estes serviços, invocando medidas de responsabilização
criminal (e.g., "alguém que recorra aos serviços de uma prostituta,
sabendo que esta é vítima (...) de exploração sexual, arrisca-se a uma pena de
prisão que vai até aos cinco anos", Público, 17-10-2008).
Embora as referências forneçam, quase sempre, uma imagem passiva dos clientes,
não existindo textos com referências discursivas na 1ª pessoa, verifica-se uma
postura diferente numa das peças analisadas. Nesta, os clientes são os agentes
que ajudam a resgatar as vítimas, assumindo uma dupla posição: por um lado, de
"exploradores", na medida em que procuram e/ou usufruem dos
serviços efectuados por elas; e, por outro lado, de "protectores",
ajudando a retirá-las da situação de exploração em que se encontram
("Esta terá sido agredida com um sprayde gás pimenta e alvo de tentativa
de atropelamento (...) depois de ter conseguido fugir, com o auxílio de um
cliente, da casa onde estava retida", Correio da Manhã, 14-02-2008).
A voz do poder político e da sociedade civil
A produção discursiva de estruturas políticas e de organizações da sociedade
civil cuja acção visa o apoio às vítimas de TSH, também assume algum relevo. As
indicações reportam-se, essencialmente, à necessidade de fomentar a cooperação
na prevenção e combate ao TSH (e.g., "(...) a mulher de Durão Barroso
considerou que 'é indispensável o envolvimento da sociedade' nesta
problemática, apelando também ao 'estreitamento da relação entre a
polícia e as organizações não governamentais'", Correio da Manhã,
06-04-2008).
Surgem, em paralelo, reflexões à volta da necessidade de aplicação e revisão da
lei penal, da criação e financiamento de estruturas e/ou serviços de apoio, bem
como dados que traduzem certas percepções externas face à situação do TSH em
Portugal ("Apenas oito das 49 pessoas condenadas em Portugal em 2006 por
tráfico de seres humanos cumpriram pena de prisão, segundo um relatório do
Departamento de estado norte-americano que classifica como 'inadequadas
as punições impostas pelos tribunais portugueses'", Público, 06-06-
2008).
No entanto, e apesar das interpelações aos cidadãos comuns, no sentido de
denunciarem o crime e contribuírem para o seu combate, tentando fomentar um
sentido de responsabilidade colectiva na resolução do problema, não se verifica
qualquer contribuição do público anónimo nos textos analisados.
O sistema de justiça criminal e o discurso dominante sobre o TSH
A participação discursiva dos órgãos de polícia criminal e do aparelho judicial
verifica-se, de forma directa, em 9.4% dos textos. Do conjunto das forças
policiais, a mais citada é o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, revelando
circunstâncias inerentes à própria organização dos serviços de investigação
criminal no país. A presença de forças internacionais, apesar de habitual, não
é, na maioria dos casos, especificada pelos nomes (e.g., "a polícia
britânica").
A maior parte das intervenções destes órgãos serve propósitos informativos em
relação a resultados de operações policiais e divulgação de estatísticas
criminais (e.g., "Pedro Felício adiantou que, das 78 pessoas detidas no
ano passado, 'cerca de trinta ficaram em prisão preventiva'",
Público, 31-01-2008). Esporadicamente surgem relatos sobre as dinâmicas do
crime e as condições de exploração a que as vítimas estariam sujeitas (e.g.,
"(...) as crianças estavam com fome e não tinham documentos",
Correio da Manhã, 31-01-2008).
As restantes referências são atribuídas a outras personagens da arena da
justiça (e.g., magistrados, advogados), sobretudo focadas na tramitação
processual dos casos denunciados.
Deste modo, se no discurso indirecto predominam as categorias e dimensões
relativas à acção dos sistemas de controlo policial e penal, também no discurso
directo esta presença se sobrepõe em relação aos restantes actores,
contribuindo para a sua dominância narrativa.
DISCUSSÃO
Embora o TSH tenha sido alvo de uma maior exposição mediática nos últimos anos,
e apesar da restrição temporal da análise efectuada e das fontes consultadas
- que impedem a generalização dos resultados -, a primeira
conclusão que poderá ser extraída é a de que, ainda assim, a sua valorização
por parte dos medianão tem sido suficientemente forte ao ponto de justificar
uma publicação assídua e a sua presença nas primeiras páginas dos jornais ou em
géneros jornalísticos mais aprofundados, nomeadamente reportagens e
entrevistas, limitando o conhecimento público sobre o fenómeno e a complexidade
de relações que este envolve.
Os resultados revelam a emergência de categorias cujos significados convergem
em temas mais ou menos centrais e mediatizados, favorecendo um entendimento
público do TSH enquanto fenómeno amplamente organizado, violento e
estreitamente coligado com outros crimes e fenómenos conotados com o desvio
social, particularmente a imigração ilegal e a prostituição (Peixoto et al.,
2005; Simões & Peça, 2009), justificando uma atenção crescente por parte do
sistema de justiça. Ora, se é certo que as actividades praticadas pelas
mulheres prostituídas e pelas exploradas sexualmente são semelhantes, existe,
todavia, uma diferença essencial entre estas realidades, assente no pressuposto
da ausência de auto-determinação por parte das últimas (Santos et al., 2008),
pelo que concebê-las como prostitutas significa, desde logo, retirar-lhes a
condição central de vitimação, desvirtuando o sentido dessa experiência.
Efectivamente, para além de uma postura pautada pela inércia e desvalorização
social, tal (con)fusão de conceitos contribui para a "não desocultação
dos diferentes fenómenos, para o adensamento das ideias moralizantes sobre a
prática prostitutiva e para o estabelecimento de relações causais entre
prostituição e tráfico" (Associação para o Planeamento da Família, 2007,
p. 2). Tal não significa, contudo, que a exposição mediática do TSH e da
prostituição, frequente mente misturados na narrativa jornalística, seja
puramente moralista, na medida em que a imprensa também reconhece a indústria
do sexo enquanto mercado legítimo de trabalho, traduzindo resultados similares
aos obtidos por outros autores (e.g., Simões & Peça, 2009).
Os actores centrais mobilizados nas histórias não assumem um peso homogéneo,
dado que, embora haja referências que sustentam a presença das vítimas,
traficantes/exploradores e clientes, estas são subalternizadas face às
descrições cujo vector central atravessa a acção dos órgãos de polícia criminal
(ASTRA, 2006; Kantola & Squires, 2004; Meigs, 2005; Peixoto et al., 2005;
Santos et al., 2008), verificando-se uma presença ainda menos significativa na
arena discursiva. Aliás, como defendem Simões e Peça (2009), o ideário
discursivo tende a gravitar em torno de histórias cujos temas convergem na
acção das instituições de maior poder social, e em particular daquelas que
exercem o controlo da lei e da ordem, enfatizando uma leitura institucional do
TSH e arredando do palco as narrativas dos actores principais e do público
anónimo, o que reflecte a forte inacessibilidade destes intervenientes ao
espaço mediático.
Dado o predomínio de histórias de TSH para fins de exploração sexual, as
vítimas são tipicamente qualificadas pela sua condição de mulher e imigrante
ilegal. Apela-se, assim, à misoginia, reiterando imagens de subalternização
feminina e fazendo oscilar a opinião pública entre valores de moralidade
(mulher construída como vítima) e imoralidade (concebida como prostituta), de
legalidade (ênfase na protecção dos direitos humanos) e ilegalidade (ênfase na
transgressão migratória). Fruto de uma cultura onde persistem discriminações
baseadas no género, o TSH será, assim, construído como mais um produto dessas
desigualdades.
A centralidade das questões associadas à nacionalidade das vítimas requer uma
análise acerca das concepções e estereótipos associados à sexualidade feminina
e, em particular, das mulheres brasileiras. Estas são, com frequência,
percepcionadas como mais disponíveis para o envolvimento sexual, favorecendo a
construção de que a prostituição das mulheres brasileiras é essencialmente uma
opção laboral migratória (Santos et al., 2008), o que poderá resultar numa
maior negligência de situações de exploração que envolvem estas mulheres.
Por outro lado, apesar de figurarem como actores inclusos no discurso, a
participação discreta dos clientes nas histórias é, para Simões e Peça (2009),
reflexo de uma cultura de género assente em cenários de interacção humana e em
normativos desiguais erigidos para a sexualidade feminina e masculina,
obscurecendo a verdadeira natureza da indústria do sexo, isto é, a de mulheres
e homens que se polarizam nos papéis de procura e oferta.
Embora ocasional, a presença de actores da esfera pública permite clarificar
medidas de apoio às vítimas, apelar à mobilização da sociedade civil e à
responsabilização do Governo no combate ao crime. De resto, a reduzida presença
deste tipo de dados poderá ser sintomática da falta de atenção a que este
fenómeno foi votado no país até muito recentemente e do número limitado de
intervenções técnicas específicas levadas a cabo em território nacional.
No que respeita à organização das redes criminosas, as dinâmicas enunciadas
coincidem com as que outros autores (e.g., Hodge & Lietz, 2007; Peixoto et
al., 2005; Santos et al., 2008) referem, isto é, o recrutamento baseado em
ofertas de trabalho apelativas, na indústria sexual ou outra, transmitidas por
pessoas com algum grau de familiaridade com a vítima, e os mecanismos de
exploração e controlo assentes, tipicamente, na utilização de violência física
e/ou psicológica.
Quanto aos espaços, é possível analisá-los a partir de duas dicotomias: o
espaço público versusprivado e o território nacional versusinternacional.
Contudo, quer em Portugal, quer em território internacional, predominam os
estabelecimentos de diversão nocturna enquanto locais de explora ção, podendo
estes ser conceptualizados como espaços híbridos, na medida em que conjugam o
domínio público com o privado, sendo o seu acesso determinado por via de uma
moralidade que legitima a sua frequência apenas por parte dos homens. Por seu
turno, dado o período normal de funcionamento destes espaços, há um claro
predomínio do tempo nocturno nas histórias, também ele socialmente mais
associado a actividades desviantes.
Os indicadores causais para o TSH traduzem factores que impulsionam a
generalidade dos movimentos migratórios, ou seja, condições de privação
socioeconómica ou pobreza das popula ções, também estas estreitamente
associadas ao género. De facto, vários autores (e.g., Hodge & Lietz, 2007;
Meigs, 2005; Peixoto et al., 2005; Santos et al., 2008) têm indicado que o TSH
se alimenta das condições de vulnerabilidade socioeconómica, principalmente
sentidas pelas mulheres, forçando-as a emigrar. Porém, as restrições impostas à
passagem de fronteiras têm vindo a remeter estes processos de mobilidade para a
clandestinidade, contribuindo para a emissão de mensagens de alarme social e
para o desenvolvimento de um ambiente pautado pelo "pânico moral"
(Cohen, 1972; Welch et al., 1997). Tal cenário é, ainda, favorecido pela
catastrofização das estatísticas publicadas, pela exasperada imagem de
violência difundida e pela amplificação da participação de estrangeiros em
crimes ou actividades conotadas com o desvio (Peixoto et al., 2005; Saar, 2010;
Simões & Peça, 2009). Autores como Berman (2003) e Schaeffer-Grabiel (2010)
têm, aliás, denunciado a utilização estratégica das preocupações vitimológicas
com o objectivo de justificar uma vigilância social cerrada, uma campanha
reaccionária contra a imigração e uma "cruzada moral" (Weitzer,
2007) contra a prostituição.
CONCLUSÃO
O TSH é um crime complexo e que envolve, por norma, múltiplos actores,
estratégias, dinâ micas e associações com outros ilícitos, bem como, em
determinadas situações, elevados níveis de organização, sofisticação e
mutabilidade, ingredientes que despoletaram o interesse dos media, contribuindo
para que este tivesse, nos últimos anos, alcançado maior visibilidade.
Esta, no entanto, é uma situação que tem tido resultados paradoxais, na medida
em que se, por um lado, estes meios, devido ao elevado poder de que se
revestem, assumem um papel crucial na informação, sensibilização e denúncia de
situações de exploração, por outro lado, também têm promovido, pela publicação
de notícias imprecisas e sensacionalistas, a falta de empatia, o preconceito e
a estigmatização por parte do público (Santos et al., 2008), sobretudo em
relação às mulheres traficadas para fins sexuais, curvando-se ao imperativo da
informação breve e imediata e alheando-se de um aprofundamento analítico sobre
os processos sociais.
Na medida em que o discurso não é apenas um instrumento de exercício do poder,
mas também uma representação que, em simultâneo, se constitui como realidade
(Foucault, 1970), a sobreposição do sector político com o mediático congrega o
potencial de modificação da percepção da sociedade sobre o TSH (Simões &
Peça, 2009). Paralelamente, os significados discursivos arquitectam a opinião
pública, não sendo o discurso jornalístico uma excepção, apesar da sua
presunção de imparcialidade ou isenção. De facto, para além da sua função
informativa, ao descrever os problemas de forma selectiva, exagerada e obscura
(Saar, 2010), os mediaassumem um papel central na criação de cenários de pânico
moral, com impacto ao nível do fortalecimento de políticas migratórias
restritivas (O'Neill et al., 2008) e da ideologia abolicionista face à
actividade prostitutiva.
No contexto do TSH, os requisitos da objectividade, imparcialidade e veracidade
que devem nortear a acção dos jornalistas são frequentemente postos à prova,
dado que se trata de um crime em que as fontes são duvidosas, de difícil acesso
ou mesmo de abordagem perigosa. Como tal, a investigação e produção noticiosa
exige o cumprimento escrupuloso de códigos de conduta parte dos media
stakeholders(Bindel, 2006) em relação à credibilidade das fontes e material
publicado. Paralelamente, a investigação do TSH tem sido largamente
"inspirada", comissionada e desenvolvida pelos Estados (Kelly,
2005, citado por Nieuwenhuys & Pécoud, 2007), restando pouco espaço para
perspectivas críticas sobre políticas estabelecidas e que colocam em pólos
opostos a prevenção do TSH e a repressão da imigração irregular, a vitimização
e a emancipação das vítimas, a segurança das nações e a supremacia dos direitos
humanos.
Atendendo ao potencial dos mediapara construir e transformar a opinião das
massas, bem como para favorecer o debate político, salienta-se, também, a
necessidade de investir no jornalismo de investigação e de formar os agentes
mediáticos para noticiar o tema com rigor e no respeito pelos direitos humanos,
incorporando, além da função informativa, uma estratégia de educação pública
(Saar, 2010), onde o direito à informação, à liberdade de expressão e as
pressões comerciais que afec tam os mediapossam ser reconciliadas com o
interesse público e a responsabilidade ética e social.