TEITOK@C-I   |   Corpora@C-I   |   CELGA-ILTEC   |   Contacto

EN | PT

Text view

EuPTHUHu0870-82312012000100013

National varietyEu
Year2012
SourceScielo

Javascript seems to be turned off, or there was a communication error. Turn on Javascript for more display options.

Vitimação por stalking: Preditores do medo

Em relação à idade, verificou-se existirem diferenças significativas ao nível do medo [t(234)=2.60, p<.05], sendo que as vítimas que reportaram tal reacção são mais jovens do que aquelas que o não experienciaram, respectivamente: M=36.39 anos (d.p.=15.55) vs. M=42.33 anos (d.p.=17.98).

Medo e características do stalkerConsiderando as características do stalker, verificou-se existir uma relação significativa entre o sexo daquele e o medo [χ2(1)=22.471, p<.001], tal como se pode observar na Tabela_3. Assim, a maioria das vítimas que sentiu medo foi alvo de stalkingpor parte de um homem.

TABELA 3 Medo e características do stalker

    Sem Com relato relato       de de medo medo χ2(1)     (%) (%) --------------------------------

------ ------ --------- Sexo (N=222) Feminino Masculino 15.3 14 14.4 56.3 22.471*** Relação com a vítima (N=234) (Ex) parceiro íntimo Não (ex) parceiro íntimo 6 23.1 22.6 .67     45.3   --------------------------------     --------- ------ ------

Nota.***p<.001.

Medo e dinâmicas de stalking Tal como se ilustra na Tabela_4, a experiência de medo relaciona-se significativamente com diferentes comportamentos de stalking, nomeadamente perseguir [χ2(1)=15.114, p<.001]; ameaçar a vítima e/ou a pessoas próximas [χ2 (1)=14.433, p<.001]; vasculhar, roubar ou apoderar-se de objectos pessoais [χ2 (1)=4.21, p<.05]; invadir a propriedade da vítima [χ2(1)=7.245, p<.01]; aparecer em locais habitualmente frequentados por aquela [χ2(1)=4.561, p<.05]; ameaçar fazer mal a si próprio/a [χ2(1)=4.95, p<.05]; vigiar [χ2(1)=16.303, p<.001]; agredir ou prejudicar pessoas próximas da vítima [χ2(1)=8.041, p<.01]; e agredir a vítima [χ2(1)=8.59, p<.01]. Em qualquer dos casos, apenas uma minoria dos participantes que afirmaram ter sido alvo destes comportamentos não relataram medo face à campanha de stalking.

TABELA 4 Medo e dinâmicas de stalking

    Sem Com relato relato       de de medo medo χ2(1)     (%) (%)

--------------------------------------   ------ ------ --------- Duração (N=235) Até 1 mês (inclusive) Mais do que 1 11.5 21.7 .392 mês 20.4 46.4 Frequência (N=236) Diária ou semanalmente Mensalmente ou 24.6 59.3 3.507 menos 7.2 8.9 N.º de stalkers(N=236) Apenas por uma pessoa Por mais do que uma pessoa 14.4 25.8 1.179 Perseguiu-me(N=235) Sim Não 8.1 36.2 15.114*** 23.4 32.3 Tentou entrar em contacto comigo(N=236) Sim Não 26.7 52.5 1.516 5.1 15.7 Ameaçou e/ou ameaçou pessoaspróximas(N=236) Sim Não 3.4 23.3 28.4 44.9 14.433*** Filmou ou tirou-me fotografias sem autorização Sim Não 1.3 3 65.3 .015a (N=236) 30.5 Vasculhou, roubou ou apoderou-se de objectos Sim Não 3.4 14.8 (N=236) 28.4 53.4 4.210* Invadiu a minha propriedade(N=236) Sim Não 2.1 14.0 7.245** 29.7 54.2 Apareceu em locais que costumo frequentar(N=236) Sim Não 15.3 42.8 4.561* 16.5 25.4 Ameaçou fazer mal a si próprio/a(N=236) Sim Não 3.0 14.4 4.950* 28.8 53.8 Vigiou ou pediu a alguém para me vigiar(N=236) Sim Não 5.9 31.4 16.303*** 25.8 36.9 Agrediu ou prejudicou pessoas próximas(N=236) Sim Não 1.3 11.9 30.5 56.4 8.041** Agrediu-me física e/ou sexualmente(N=235) Sim Não 0 31.9 7.2 8.590**

  60.9   --------------------------------------     --------- ------ ------

Nota.+p<.10; *p<.05; **p<.01; ***p<.001; aMais de 20% das células apresentaram uma frequência esperada inferior a 5, sendo utilizado como referência o valor de significância de Fisher.

Por sua vez, existe uma relação marginalmente significativa entre o medo e a frequência dos comportamentos, sendo que a maioria das vítimas que referiu ter sido alvo de stalkingnum registo diário ou semanal reportou sentimento de medo.

PREDITORES DO MEDO Com base numa análise de regressão logística1 (método Enter), procedemos à previsão da variância do sentimento de medo a partir das variáveis que, nas análises anteriores, se mostraram significativamente relacionadas com este. Os preditores foram inseridos em três blocos, tal como se ilustra na Tabela_5: no primeiro bloco introduziram-se as características da vítima, no segundo introduziram-se as características do stalkere, no terceiro bloco, introduziram-se as dinâmicas do stalking. Desde logo, importa destacar que o modelo se revelou estaticamente significativo em todos os momentos da análise.

TABELA 5 Preditores do sentimento de medo face à experiência de vitimação por stalking

           95% I.C. para     OR --------------             Odds     Bloco   B S.E. Wald df p Ratio InferiSuperior Modelo ----- ------- -------- -------- ------ -- ---- ----- ----- -------- -------------- 1 Sexo da -1.512 .337 20.161 1 .000 4.535 2.344 8.774 χ2 vítima (3)=30.195*** Idade da -.016 .011 2.089 1 .148 .984 .963 1.006 vítima Estado -.683 .360 3.603 1 .058 1.981 .978 4.011 civil 2 Sexo da -.812 .486 2.800 1 .094 2.254 .870 5.837 χ2 vítima (4)=34.246*** Idade da -.019 .011 2.809 1 .094 .981 .960 1.003 vítima Estado -.630 .363 3.011 1 .083 1.877 .922 3.825 civil Sexo do .999 .496 4.055 1 .044 .368 .132 .974 stalker 3 Sexo da -1.763 .669 6.945 1 .008 5.829 1.571 21.626 χ2 vítima (14)=95.853*** Idade da -.047 .015 9.540 1 .002 .954 .925 .983 vítima Estado -.344 .458 .564 1 .453 1.410 .575 3.457 civil Sexo do 1.200 .654 3.362 1 .067 .301 .084 1.086 stalker Frequência dos comportam -.502 .544 .854 1 .355 1.652 .569 4.795 Perseguiu .793 .459 2.992 1 .084 .452 .184 1.111 me Ameaçou-me e/ou ameaçoupessoas próximas .862 .622 1.923 1 .166 .422 .125 1.428 Vasculhou, roubou ou apoderou- se de objectos pessoais 4.014 .681 .370 1 .543 .661 .174 2.510 Invadiu a minha propriedade ou forçou aentrada em minha casa -1.302 .886 2.159 1 .142 3.675 .648 20.857 Apareceu em locais que costumo frequentar -.027 .438 .004 1 .951 1.027 .436 2.422 Ameaçou fazer mal a si próprio/a .805 .793 1.030 1 .310 .447 .094 2.116 Vigiou ou pediu a alguém para me vigiar 1.812 .596 9.252 1 .002 .163 .051 .525 Agrediu ou prejudicou pessoas próximas 2.304 1.244 3.431 1 .064 .100 .009 1.143   Agrediu-     ----- me 19.300 7723.282 .000 1 .998 .000 .000 --------- -------------- fisicament------ -------- ------ -- ---- ----- ---- ---------

Nota.Variável a predizer: Sentimento de medo (0=Sem medo, 1=Com medo); Preditores dicotómicos: Sexo da vítima (0=Fem., 1=Masc.); Estado civil (0=S/relação formalizada; 1=C/relação formalizada); Sexo do stalker(0=Fem., 1=Masc.); Frequência dos comportamentos (0=Mensalmente ou menos, 1=Diaria ou semanalmente); Ocorrência dos diferentes comportamentos (0=Não, 1=Sim); ***p<.001.

O modelo com as características da vítima explicou entre 13.3% e 19.1% da variância (Cox & Snell R Squaree Nagelkerke R Square, respectivamente) e classificou correctamente 74.4% dos casos. Neste caso, apenas o sexo da vítima revelou uma contribuição individual estatisticamente significativa na predição do sentimento de medo, sendo que as vítimas mulheres evidenciaram maior probabilidade de relatar aquele efeito face ao stalkingde que eram alvo.

A introdução do sexo do stalkerno segundo bloco contribuiu para aumentar ligeiramente o poder preditivo do modelo, quer ao nível da variância explicada (de 15% a 21.1%, Cox & Snell R Squaree Nagelkerke R Square, respectivamente), quer ao nível da percentagem de casos correctamente classificados (76%). Aliás, o sexo do stalkerassumiu destaque neste modelo (único preditor estatisticamente significativo), com os stalkersdo sexo masculino a evidenciarem maior probabilidade de despoletar apreensão nas respectivas vítimas.

As variáveis incluídas no terceiro bloco, relativas às dinâmicas do stalking, vieram acrescentar um contributo ainda mais importante na predição do sentimento de medo, tendo o modelo passado a explicar de 36.5% a 52.4% da variância (Cox & Snell R Squaree Nagelkerke R Square, respectivamente) e a classificar correctamente 82% dos casos. Neste caso, três preditores exerceram uma contribuição individual estatisticamente significativa na predição do sentimento de medo: o sexo da vítima (preditor mais forte), a idade da vítima e o ser-se alvo de vigilância pelo stalker. Pudemos, assim, concluir que as vítimas do sexo feminino, mais novas e aquelas que relataram ter sido vigiadas pelo stalkerou por alguém em seu nome tinham maior probabilidade de sentir medo face à campanha de stalkingsofrida.

DISCUSSÃO Tendo em consideração os resultados descritos, é importante compreender de que modo estes se articulam com as conclusões de outros estudos e como poderão ser interpretados atendendo às perspectivas actuais sobre o medo.

Em primeiro lugar, importa reflectir acerca do requisito da experiência de medo para a definição e reconhecimento da vitimação por stalking. Neste estudo, quase 70% dos participantes referiu ter sentido algum medo decorrente da experiência de stalking, valor que se assemelha ao verificado por Dietz e Martin (2007), que concluíram que cerca de três quartos das vítimas relataram medo. Assim, mesmo perante a adopção de um critério mais restrito na identificação desta forma de viti mação, conclui-se que o stalking, para além de consistir numa experiência prevalente na sociedade portuguesa, traduz-se geralmente num impacto negativo para as suas vítimas. Este dado alertanos para a necessidade de incluir o stalkingna agenda pública, no sentido da implementação de medidas concretas face a esta forma de violência interpessoal, que permanece ainda oculta ou dissi mulada nos planos de acção política contra a violência (e.g., legislação adequada, planos nacionais de intervenção e prevenção). Importa ainda estabelecer que, caso o medo tivesse sido previamente adoptado como critério de definição, cerca de 30% dos participantes que se auto-identificaram como tendo sido alvo de stalking,em algum momento da sua vida, teriam sido excluídos a priorido grupo de vítimas. É igualmente relevante considerar as experiências desses participantes, ainda que o medo não tenha sido experienciado. Fazer depender a vitimação de um critério de impacto implicaria assumir o medo como uma experiência objectiva e não como um construto social (cf. Dietz & Martin, 2007). Esta assumpção revela-se de extrema importância no contexto nacional uma vez que o não reconhecimento desta forma de vitimação alimenta a interpretação desta conduta à luz de mecanismos de legitimação da conduta, minimização da gravidade e desresponsa bilização dos ofensores, por exemplo, através da romantização de certos comportamentos (cf.

Grangeia et al., 2008). Para além disso, o impacto da vitimação por stalkingnão se esgota no medo; pelo contrário, a panóplia e diversidade de reacções possíveis, quer ao nível do impacto negativo, quer do positivo, está amplamente documentada pela literatura (cf. Cupach & Spitzberg, 2004 para uma revisão). Assim sendo, é provável que alguns dos participantes identificados como vítimas possam ter sofrido outras repercussões decorrentes da experiência de vitimação que não o medo.

Apesar de ser compreensível o esforço de operacionalizar a definição de stalkingrecorrendo ao critério de medo, este pode tornar-se altamente limitador - que promove a eliminação preliminar de potenciais vítimas - e até mesmo segregador - na medida em que não atende, nem valida igualitariamente todas as experiências de vitimação.

De modo a aprofundar estes resultados, entendemos ser elucidativo atentar aos preditores da experiência de medo.

No que concerne às características da vítima, o sexo parece desempenhar um papel crucial, sendo que o grupo das vítimas que relatam ter experienciado medo é constituído sobretudo por mulheres (52.1% vs.16.1%). Esta tendência vai de encontro com os resultados encontrados noutros estudos (cf. meta-análise de Spitzberg et al., 2010).

Apesar das mulheres apresentarem, neste estudo, uma taxa de vitimação superior que os homens (67.8% e 32.2%, respectivamente), interessa compreender os processos e mecanismos mais complexos - nomeadamente sócio-culturais - que parecem estar envolvidos na diferenciação entre homens e mulheres no que concerne ao medo. Numa outra investigação, Sutton e Farral (2005) exploraram a associação entre a desejabilidade social e a experiência de medo e concluíram que os homens que se mostraram mais sensíveis à desejabilidade social relatavam menores níveis de medo, o que não acontecia nas mulheres; além disso, quando a variável "desejabilidade social" era controlada, homens e mulheres apresentavam valores idênticos no que concerne ao medo. Neste sentido, a desejabilidade social deve ser considerada para a análise dos resultados (especialmente no caso dos homens vítimas), uma vez que não relatar medo não significa necessariamente que não o tenham experienciado. A confirmar- se esta tendência em estudos futuros, importa considerar as implicações decorrentes da dificuldade dos homens vítimas de stalkingem assumir as consequências negativas da sua experiência. Por exemplo, Thompson, Dennison e Stewart (2010) alertam para o facto de ocorrer um menor recurso à ajuda policial nos casos em que os homens minimizam o medo e desvalorizam as acções de uma mulher stalker. Dessa forma, para além de contribuir para a negação da vitimação, minimização da gravidade e para a protelação da denúncia e procura de apoio, a sua experiência poderá permanecer oculta e não validada socialmente.

O género, enquanto mecanismo social, parece contribuir significativamente para a construção diferenciada das experiências de medo vivenciadas por homens e mulheres. Neste sentido, segundo Hollander (2001), a feminilidade (no sentido da sua representação hegemónica) associa-se a imagens de fragilidade, delicadeza e indefesa, que legitimam não sentir (como também expor) a experiência de medo; por outro lado, a masculinidade pressupõe bravura, força e moderação nas manifestações emocionais, o que desfavorece a expressão do medo.

Este autor acrescenta a estas características as noções de vulnerabilidade e de perigosidade face à violência; segundo o autor, a primeira é parte integrante da construção de feminilidade, enquanto a segunda se integra na construção da masculinidade. De facto, estas imagens do que é ser homem e mulher podem repercutir-se ao nível quer do impacto psicológico e social (aquele que confere maior visibilidade à vitimação e que parece ser mais permitido à mulher), quer das respostas (esperando-se que a mulher reaja com maior passividade e evitamento e assim condicionando a percepção de vulnerabilidade), influindo significativamente no relato de medo. Em suma, sendo o stalkinguma experiência de violência e percepcionando-se as mulheres como mais vulneráveis, fará sentido que experienciem e reportem com mais facilidade o sentimento de medo.

Quando se analisam exclusivamente as características da vítima note-se que, contrariamente ao estudo de Dietz e Martin (2007), o estado civil não se revelou preditor da experiência de medo. Contudo, importa referir que estes autores privilegiaram uma análise por pares sucessivos, o que condiciona a comparação. Não obstante, verifica-se que as vítimas sem uma relação formalizada aparecem significativamente mais associadas ao relato da experiência de medo, quando comparadas com aqueles que tinham uma relação formalizada (47.2% vs.20.9%). Estes dados poderão ser explicados pelo facto da ausência de uma relação de intimidade poder contribuir para uma maior percepção de vulnerabilidade, contrariamente à existência de relações percepcionadas como securizantes.

Quando se exploraram de forma conjunta as características da vítima e do stalker, verificou-se que o sexo do stalkerera o único preditor significativo do medo. Interessa lembrar que, na amostra de vítimas que relataram medo como consequência da vitimação, 56.3% foram perseguidas por alguém do sexo masculino, enquanto que para 16% a stalkerera mulher. Uma vez mais, importa referir as questões da identidade de género, mais especificamente a ideia de perigosidade associada à masculinidade (hegemónica) (Hollander, 2001). Neste sentido, o facto de o sexo da vítima perder influência neste bloco pode ser sintomático da percepção do perigo em função do sexo do perpetrador, isto é, quando a conduta de stalkingé levada a cabo por um indivíduo do sexo masculino é percepcionada como mais ameaçadora. Neste sentido, para Grangeia e Matos (2009), as percepções sobre a experiência de stalkingreflectem diferenças de género, o que reforça a natureza cultural deste tipo de fenómeno. No seu estudo com 3381 estudantes universitários portugueses, as mulheres vítimas de stalkingidentificaram a sua experiência como mais assustadora e avaliaram a conduta do ofensor como mais grave do que as vítimas do sexo masculino.

Enquanto ofensoras, as mulheres revelaram também maior censura da sua conduta do que os homens ofensores, avaliando-a como mais grave. Também de acordo com Davis e Frieze (2002), homens e mulheres apresentam percepções diferenciadas do mesmo acontecimento, sendo que quando o perpetrador é homem as acções são avaliadas pelas mulheres como mais sérias e indutoras de medo. Uma vez mais, o género parece influenciar a forma como se avalia o perigo e a segurança envolvida nas situações. Segundo um estudo realizado por Madriz (1997) que, através de focus groupe de entrevistas, explorou as imagens ideais de vítima e de criminoso numa amostra constituída por 140 mulheres, verificou-se que a maioria das participantes descreveu "o criminoso ideal" como um homem com uma figura física corpolenta, imoral, cruel, irracional, violento e com dificuldades sérias no controlo dos impulsos; por outro lado, "a vítima ideal" era apresentada como uma mulher com uma figura física frágil, inocente, passiva, vulnerável e inofensiva.

Por fim, a análise conjunta das características quer da vítima, quer do stalker, bem como das dinâmicas de vitimação permitiu superar o poder preditivo dos blocos anteriores, classificando correctamente mais de 80% dos casos, o que sugere que a experiência de medo decorre de uma interacção complexa de variáveis de diferentes índoles. Assim, quando se atentam às variáveis que integram o bloco, verifica-se que o maior preditor é o sexo da vítima, sendo que quando a vítima é mulher a probabilidade de ter relatado medo é quase seis vezes superior, comparativamente aos participantes masculinos. No terceiro bloco, a idade da vítima apresentase também como um preditor significativo da experiência de medo, o que corrobora os resultados verificados por Dietz e Martin (2007). Desta forma, parece que as vítimas mais novas parecem experienciar um grau de medo superior. De acordo com os mesmos autores, esta vulnerabilidade decorrente da idade poderá explicar-se quer por efeitos de cohorte(i.e., maior sensibilidade e consciencialização face a estas questões), bem como devido às experiências anteriores, sugerindo que a exposição a este tipo de vivências permite desenvolver um conjunto de competências e recursos que inibiriam o sentimento de medo. Outro motivo subjacente a esta tendência poderá prender-se com aspectos associados aos rituais de cortejamento que poderão legitimar uma postura mais permissiva e aos quais os participantes mais jovens, pela fase desenvolvimental em que se encontram, poderão estar mais expostos.

Quanto aos comportamentos de stalking, saliente-se que apenas a vigilância pelo/a stalkerou por terceiros incumbidos por este/a é um preditor significativo da experiência de medo. Atendendo ao carácter proeminentemente intimidatório, predatório e intrusivo do acto, este resultado era expectável.

De facto, a vigilância enquadra-se nas "acções subtis capazes de funcionar como lembretes constantes da vulnerabilidade" (Keane, 1995, p.

451). Curiosamente outros comporta mentos percepcionados pelo senso-comum como geradores de medo - tais como a presença de ameaça explícita ou a ocorrência de agressão - não se revelaram factores discriminantes da experiência de medo. Ora, uma vez mais, este dado problematiza o critério de medo, sobretudo quando compreende a perspectiva de um juízo externo incorporado no conceito de pessoa "razoável", na medida em que os actos que as pessoas poderão percepcionar como geradores de medo poderão não corresponder à realidade e percepções da vítima. De facto, num estudo desenvolvido por Dennison (2007), junto de uma amostra da comunidade (N=868), com o propósito de identificar, entre outras variáveis, a influência da intenção (presença e ausência de ameaça) na antecipação da experiência de medo em casos de stalking, verificou-se que nos cenários em que a ameaça era explícita os participantes percepcionavam como superior a probabilidade de sentir medo. Por tudo isto, defende-se, à semelhança de outros autores (e.g., Kamir, 2001), que uma avaliação das experiências de stalkingassente exclusivamente num juízo externo negligencia quer as idiossincrasias, quer as influências sócio-culturais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS Desconhecendo-se a existência de estudos anteriores acerca dos preditores do medo em vítimas de stalkingde ambos os sexos, este estudo assume um carácter pioneiro e, por isso, os resultados deverão ser encarados com cautela. Neste sentido, carecem quer de replicação, quer de aprofundamento através de estudos de índole qualitativa, que permitam explorar com mais detalhe as circunstâncias, experiências e trajectórias que potenciam ou inibem o relato de medo pelas vítimas.

Uma das limitações do estudo prende-se com a constituição dos grupos, na medida em que as vítimas que sentiram "pouco" ou "muito" medo foram aglomeradas num único grupo ("com experiência de medo"). Uma análise comparativa destes grupos permitiria destrinçar variáveis comuns e específicas envolvidas nos diferentes graus de medo.

Espera-se, no entanto, que este estudo contribua para o reconhecimento e consciencialização social de um fenómeno de vitimação interpessoal que afecta de modo expressivo a população portuguesa e que é percepcionado, na maioria dos casos, como uma experiência indutora de medo. Naturalmente, o medo acarreta custos pessoais significativos, repercutindo-se em diferentes esferas da vida da vítima mas também socialmente. Evidenciou-se também que os efeitos da vitimação por stalkingnão dependem apenas da conduta do ofensor. Pelo contrário, resultam da intersecção de factores que, na sua complexidade, devem ser compreendidos e localizados no contexto sociocultural. O stalkingé, assim, uma experiência subjectiva e deve ser encarado como um problema social relevante. Urge pois a implicação social e política de forma a prevenir a sua ocorrência e revitimação, responsabilizar os/as ofensores/as e diminuir as dificuldades das vítimas.


Download text