Caracterização do uso do preservativo em jovens adultos portugueses
Caracterização do uso do preservativo em jovens adultos portugueses
Alexandra Gomes*e Cristina Nunes**
*Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais,
Universidade do Algarve
Correspondência
ABSTRACT
HIV infection rates have increased among Portuguese young adults, as in Europe
and United Stated of America. Considering the pertinence of this fact this
study aimed to characterize condom use among Portuguese young adults. The 1138
young adults that answered to the questionnaire disclosed an inconsistent use,
more usual among older individuals with a steady partner. Sexual behaviors and
condom use are identical among men and women, despite other studies indicate
otherwise. Although having a condom use high intention, there is a gap between
intention and behavior. More studies are necessary to understand condom use in
a way to promote individual as social health, in the scope of sexual
transmitted infections.
Key-words:Condom use, HIV/AIDS, Young adults.
INTRODUÇÃO
Os jovens adultos são, neste momento, um dos maiores grupos de risco
relativamente ao VIH e a outras infecções sexualmente transmissíveis. Tem-se
verificado um aumento sistemático de infectados com VIH entre os indivíduos
jovens adultos, devido a contactos sexuais desprotegidos (Instituto Nacional de
Saúde [INS], 2009; UNAIDS, 2008).
Actualmente, em Portugal e de acordo com o último relatório do Instituto
Nacional de Saúde (2009) conhecem-se 34 888 casos de infecção por VIH nos
diferentes estádios, dos quais 40% se devem a infecção por contacto
heterossexual. A maior parte dos casos está compreendida entre os 20 e os 39
anos de idade. Verifica-se que, desde 2004, a tendência para novos casos de
infecção é relativa a jovens heterossexuais.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (2009), o uso do preservativo de
forma consistente e correcta, será um dos meios primários para garantir a saúde
individual e colectiva. No entanto, a sua utilização de forma consistente,
continua aquém do necessário para prevenir o alastramento de infecções como o
VIH.
Os diversos relatórios e estudos desenvolvidos em Portugal, nos últimos anos,
evidenciam uma utilização inconsistente, por parte de toda a população. Parece
existir uma prevalência da pílula face ao preservativo, pela sua vertente anti-
concepcional que não interfere com o prazer durante a relação sexual.
O Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (2004) observou que cerca
de 69% da população portuguesa utiliza o preservativo de forma inconsistente.
No entanto, o relatório do estudo não permite observar diferenças
estratificadas pelo grupo etário.
O Ministério da Saúde (2005), no relatório nacional sobre o estado do VIH/SIDA,
verificou que os indivíduos com idades compreendidas entre os 15 e os 19 anos
utilizam o preservativo de forma relativamente consistente (55%). No entanto,
há uma percentagem semelhante de indivíduos que o fazem com inconsistência.
Este mesmo relatório verifica uma redução no consumo de preservativos entre os
anos de 2004 e 2005 na ordem do milhão e meio de unidades.
O Instituto Nacional de Estatística (2007) conduziu, nos anos de 2005 e 2006, o
4º Inquérito Nacional de Saúde. Este relatório permitiu observar que o
preservativo não é a opção mais utilizada pelas mulheres. A frequência de não
utilização nas idades compreendidas entre os 15 e os 19 anos é cerca de 80%, e
de 39% entre os 20 e os 24 anos. É de observar que este relatório apenas se
preocupou com a medição da utilização, não focando a sua consistência.
Alguns estudos realizados em Portugal sugerem uma utilização inconsistente do
preservativo (Amaro, Frazão, Pereira, & Teles, 2004; Muñoz-Silva, Sánchez-
García, Martins, & Nunes, 2009; Muñoz-Silva, Sánchez-García, Nunes, &
Martins, 2007).
O preservativo é o método mais utilizado entre as camadas mais jovens dos
estudantes universitários, tendência que decresce com o aumento da idade e que
é mais comum entre homens (Reis & Matos, 2008; Reis, Ramiro, & Matos,
2009). Porém, não foi realizada uma análise da consistência com que este é
utilizado nas suas relações sexuais. Esta tendência observa-se igualmente no
resto da Europa e nos Estados Unidos da América.
De acordo com o relatório global da UNAIDS (2008) Portugal é um dos países da
Europa onde se verificam mais novos casos de infecção de VIH. Na Europa, como
em Portugal, o contacto sexual desprotegido é, neste momento, uma das causas
mais comuns de infecção pelo VIH.
Herida e colaboradores (2007) observaram que na Europa, em geral, o contacto
heterossexual é agora a forma mais comum de infecção, sendo que 10% dos novos
casos surgem nas idades compreendidas entre os 15 e os 24 anos.
Os Estados Unidos da América são igualmente flagelados por um aumento anual de
casos de VIH. Cerca de um terço destes novos casos devem-se a contactos
heterossexuais desprotegidos, sendo a segunda causa de infecção, a seguir aos
contactos homossexuais desprotegidos (UNAIDS, 2008). Observa-se, igualmente,
que cerca de 40% dos jovens americanos não utilizaram o preservativo na última
relação sexual (CDC, 2008). Para Collins, Ellickson, Orlando e Klein (2005), o
aumento de infecções entre os jovens adultos poderá ser responsável por um
aumento exponencial de infecções de VIH entre a população dos Estados Unidos da
América.
Apesar destes dados, observa-se que em Portugal há poucos estudos que analisem
de forma sistemática o uso do preservativo. A inclusão da necessidade de uso do
preservativo nas medidas de protecção contra a pandemia do VIH/SIDA pela
Organização Mundial de Saúde (2009) torna pertinente a existência de estudos
que tenham como objectivo central a medição do uso do preservativo, mais
precisamente entre os jovens adultos.
Como tal, foi nosso objectivo desenvolver um estudo que permitisse verificar
qual o estado da utilização do preservativo pelos jovens adultos portugueses.
MÉTODO
Este estudo tinha como objectivo medir e descrever o uso do preservativo pelos
jovens adultos portugueses. Para realizar este objectivo desenhou-se um estudo
descritivo, transversal, em que se pretendeu abranger uma amostra
representativa da população de jovens adultos.
Amostra
A amostra foi recolhida de forma não probabilística, recorrendo às
universidades, escolas profis sionais e centros de formação profissional.
Procurou-se abranger os jovens adultos portugueses de forma alargada. De forma
a serem elegíveis para a amostra, os participantes deveriam ter entre 18 e 25
anos. Os participantes que não cumpriam este requisito foram excluídos das
análises realizadas.
A amostra final, na qual se baseia este estudo, é de 1138 participantes, com
uma média de idade de 20,93 anos (±2,110), dos quais 33% são homens e 67% são
mulheres (ver Tabela_1). Cerca de 14,5% da amostra é trabalhador-estudante e
1,5% dos participantes são casados ou vivem em união de facto.
Medidas
Foram avaliados a história sexual e o comportamento de uso do preservativo dos
participantes.
História sexual
Foi questionado aos participantes se já tinham tido relações sexuais completas
(sim/não), com que idade tinha iniciado a sua vida sexual, a idade do primeiro
parceiro sexual, o tipo de relações sexuais praticadas (vaginais, orais, e/ou
anais), o número total de parceiros, o número de parceiros nos últimos três
meses, e ainda se tinham um parceiro estável de momento (sim/não).
Uso do preservativo
Foi questionado aos participantes com que frequência costuma utilizar o
preservativo nas suas relações sexuais e se utilizou o preservativo na última
relação sexual. Foram pedidas estimativas quanto à não utilização do
preservativo nos últimos 3 e 6 meses. Foram ainda utilizadas questões para
verificar a intenção de uso no futuro (em que medida tem a certeza que vai
utilizar preservativo na sua próxima relação sexual) e para avaliar o papel do
participante na decisão de utilização do preservativo (em que medida toma parte
na decisão de usar, ou não, um preservativo; e em que medida considera que a
decisão de utilizar preservativo é tomada em conjunto com o seu parceiro).
Todas as questões utilizaram uma escala tipo Likert, de 7 pontos (1 -
Nada; 7 - Totalmente), à excepção da utilização do preservativo na última
relação sexual (dicotómica) e da não utilização nos últimos 3 e 6 meses
(resposta aberta).
Procedimento
Foi obtida a autorização de recolha de dados junto dos Reitores da totalidade
das Universidades públicas Portuguesas, bem como aos Directores das Escolas
Profissionais e Centros de Formação Profissional, que realizassem cursos com
jovens adultos, com idades compreendidas entre os 18 e os 25 anos. Para
agilizar a recolha e reduzir os custos, foi criada uma página da internet com o
respectivo questionário.
Após a aprovação dos Reitores e Directores dos referidos organismos, foi
enviado um correio electrónico, por via institucional, que requeria a
participação voluntária dos estudantes num estudo que visava a observação do
comportamento sexual dos jovens adultos.
A primeira página do questionário pretendia que os participantes fornecessem o
seu consenti mento informado, pelo que aqueles que pretendessem participar no
estudo teriam que seleccionar a opção "pretendo participar". Caso
não pretendessem participar, existia uma opção análoga que fechava
automaticamente a página.
Após o preenchimento do questionário, era oferecida a possibilidade de
conhecerem os resultados do estudo. Para tal, era fornecido o correio
electrónico do investigador responsável, que daria resposta a esta solicitação
ou a esclarecimentos adicionais.
RESULTADOS
Os dados foram analisados estatisticamente através do software PASW (SPSS
v.18). Foi observado o comportamento geral da amostra e as diferenças patentes
entre sexos.
História sexual
A maioria dos participantes reportou já ter iniciado a sua vida sexual (72,9%).
Relativamente ao tipo de relações sexuais, a prática mais comum refere-se às
relações vaginais e orais (26,0%), seguido das exclusivamente vaginais (22,0%),
e do conjunto de todas as práticas, vaginais, orais e anais (20,1%). A média da
idade da primeira relação sexual situa-se nos 17,51±3,487 anos; a média de
idade do parceiro da primeira relação sexual é de 19,44±5,635. Relativamente ao
número total de parceiros a média da amostra geral é de 3,36±5,717, sendo que a
média de parceiros nos últimos 3 meses situa-se nos 1,126±3,518. Ao momento do
questionário 54,8% da amostra referia ter parceiro.
Observaram-se, igualmente, possíveis diferenças entre homens e mulheres
relativamente à história sexual dos participantes (ver Tabela_2).
Os dados sugerem que os homens e as mulheres não diferem significativamente em
nenhum dos aspectos da história sexual descrita.
Uso do preservativo
A média de utilização do preservativo, nesta amostra, foi de 4,86±2,207 com uma
mediana de 6. Cerca de 57,66% dos participantes que já iniciaram a sua vida
sexual, afirmaram ter utilizado preservativo na última relação sexual. Para
além destas medidas, procurou-se ainda apurar quantas vezes não terá sido
utilizado o preservativo, em dois espaços temporais: 6 meses e último mês. Em
média, nos últimos 6 meses, os participantes não utilizaram o preservativo
10,29±22,077 vezes, e no último mês teria sido uma média de 3,31±11,100.
Observa-se, portanto, alguma inconsistência ao nível da amostra geral.
Relativamente à intenção futura de uso do preservativo, observou-se uma média
de 5,29±2,24. Este valor, superior à média de utilização do preservativo,
indica uma intenção alta para a utilização do preservativo.
No que concerne à decisão de utilizar o preservativo, os participantes, em
geral, consideraram ser uma decisão mais individual (5,18±1,523), mas também a
classificaram como sendo uma decisão tomada em conjunto com o parceiro (6,13
±1,591).
Na Tabela_3 apresentamos as diferenças encontradas entre homens e mulheres.
Como podemos observar, homens e mulheres não diferiram ao nível da utilização
do preserva tivo, não apresentaram diferenças ao nível da intenção de uso, nem
ao nível da tomada de decisão.
Análise de clusters por história sexual e comportamento de uso do preservativo
De forma a analisar a possibilidade de existirem grupos de indivíduos, que se
diferenciam por padrões comportamentais distintos, foi realizada uma análise de
clusters. Na análise foram considerados todas as questões da história sexual (à
excepção do tipo de relações sexuais) como do comportamento do uso do
preservativo.
Optou-se pela utilização do método hierárquico de clusters para definir o
número de clusters, utilizando o R2como critério de decisão do número de grupos
a reter, de acordo com a sugestão de Maroco (2003). O método seleccionado para
agregar os sujeitos foi o de Ward, com a medida do quadrado da distância
euclidiana. Foram guardadas as soluções de 2 a 10 clusters. O critério do
R2mede, quão diferentes são os grupos formados em cada passo do algoritmo,
entendendo-se como a razão entre a soma dos quadrados dos grupos e a soma dos
quadrados totais para cada uma das variáveis usadas na análise (Maroco, 2003).
Neste caso procura-se um número de clusters que retenha uma percentagem
significativa da variabilidade total das variáveis consideradas. Os cálculos
foram efectuados, como sugerido pelo autor, através da ANOVA. O resultado está
sumarizado na Figura_1.
Procurou-se um número de clusters que retivesse uma percentagem significativa
da variabili dade das variáveis consideradas. A diferença entre a variabilidade
retida entre a primeira solução (2 clusters) e a segunda solução (3 clusters) é
evidente. A partir dessa solução a variabili dade aumenta, mas não de forma tão
ostensiva. Considerámos a solução de 3 clusters como sendo satisfatória, dado
que o aumento do número de clusters dividiria o grupo com menos elementos,
dificultando a interpretação dos resultados.
O resultado final evidenciou 3 clusters, ou grupos de sujeitos, com médias
significativamente diferentes ao nível do número de parceiros total, número de
parceiros nos últimos 3 meses, ao nível da utilização do preservativo, do uso
do preservativo na última relação sexual, do número de vezes que o preservativo
não foi utilizado nos últimos 6 meses e 1 mês, da intenção de uso, e ainda ao
nível da decisão individual no que concerne ao uso do preservativo (p<0,050).
Não foram encon tradas diferenças significativas ao nível das idades da
primeira relação sexual, quer do participante, quer do parceiro, nem ao nível
da tomada de decisão em conjunto com o parceiro (p>0,050).
Para ilustrar melhor as diferenças entre os grupos, foi elaborado um gráfico de
linhas, cujos pontos máximos representam as médias de cada variável,
distribuídas pelos 3 clusters formados. Dada a natureza nominal da utilização
do preservativo na última relação sexual e da existência de um parceiro ao
momento do questionário, foi realizado um teste de independência, de forma a
compreender a associação entre as respostas e os clusters. Nestes casos
particulares, surge o valor a que o cluster está significativamente associado.
O primeiro grupo parece ser formado por indivíduos com menor número de
parceiros, que não têm um parceiro actual e que mostram alguma constância de
parceiros nos últimos 3 meses. A utilização do preservativo é a mais
consistente dos 3 grupos, tendo utilizado preservativo na última relação
sexual, tendo uma média muito inferior a qualquer um dos outros grupos
relativamente à não utilização nos últimos 6 meses e no último mês. São também
os indivíduos que têm a intenção de utilização mais elevada, e que consideram a
utilização do preservativo como sendo uma decisão mais individual. Este cluster
reúne o maior número de participantes, com um total de 631 sujeitos.
O segundo e terceiro clusters têm totais inferiores. O segundo cluster agrega
82 sujeitos, que se diferenciam do primeiro cluster pelo uso inconsistente do
preservativo e por uma baixa intenção futura. Têm um maior número de relações
sexuais sem preservativo nos últimos 6 meses e 1 mês. Têm um maior número de
parceiros, têm parceiro actualmente e parecem ter cerca de 1 a 2 parceiros nos
últimos 3 meses. Consideram o uso do preservativo como sendo uma decisão menos
individual, quando comparado com o primeiro cluster.
O terceiro, e último, cluster resume 32 sujeitos com um comportamento quase
exclusivo de não utilização do preservativo, que também evidenciam um maior
número de parceiros, tanto no geral como nos últimos 3 meses. Revelam a menor
intenção de utilização dos três grupos.
Análise multivariada entre clusters e variáveis demográficas
Para evidenciar possíveis diferenças entre os clusters ao nível das restantes
variáveis demográficas, foi conduzida teste de independência para as variáveis
nominais e uma análise discriminante para as variáveis intervalares.
As variáveis consideradas na análise referem-se à idade dos participantes, à
religião (Não tem; Católico/Cristão, Budista, e Outras), à orientação política
(Bloco de Esquerda, CDU, PS, PSD, PP, Não tem, Outra), ao grau de
religiosidade, ao grau de actividade política, estado civil (Solteiro, Casado),
ao agregado familiar (Vive só; Vive com Família Directa - Pais; Vive com
Família Indirecta - Avós, tios, primos; Vive com Família Directa -
cônjuge e filhos) e à actividade profissional (Estudante ou Trabalhador-
estudante).
As variáveis nominais consideradas são independentes dos clusters, não
existindo uma associação significativa entre ambas (Religião p=0,603;
Orientação política p=0,067; Grau de Religiosidade p=0,601; Grau de Actividade
Política p=0,709; Estado Civil p=0,400; Agregado Familiar p=0,743; Actividade
Profissional p=0,162).
A análise discriminante classificou correctamente 79,7% dos casos originais, o
que poderá ser indicador que as variáveis introduzidas têm algum poder
discriminante. Relativamente à homogeneidade da matriz de variância-
covariância, pode-se afirmar que não devemos rejeitar H0[Mde Box=6,688, F
(12)=0,562, p=0,874], pelo que podemos supor que o pressuposto da homogeneidade
das variâncias está cumprido neste caso. Contudo, o teste para igualdade das
médias entre grupos apenas apresenta diferenças significativas ao nível da
idade dos participantes [λ=0,990, F(727)=3,693, p=0,025], pelo que apenas esta
variável tem poder discriminante entre grupos. A religiosidade e a actividade
política dos participantes não apresentam um efeito significativo que permita
considerar a existência de diferenças ao nível dos clusters (p>0,050). Da mesma
forma, a primeira função discriminante apresenta uma correlação canónica de
0,105, e não está significativamente associada à segunda função (χ2=8,554,
p=0,200). Como tal, é de notar que apesar de apenas a idade ter poder
discriminante, esta não será muito relevante na diferenciação dos grupos. Não
obstante, os indivíduos do 3º grupo apresentam uma idade superior aos
restantes.
Comparação com estudos referentes ao uso do preservativo
De forma a contextualizar os dados na literatura actual, foi ainda realizada
uma comparação entre diversos estudos que mediram a utilização do preservativo
em amostras de jovens adultos. Para tal, foi realizada uma pesquisa, tendo como
palavras base "uso preservativo" ou "condom use",
quando referenciadas no título e "jovem* adult*" ou "young
adult*" referenciadas nos tópicos ou palavras-chave. Os anos de pesquisa
centraram-se nos últimos 5, isto é, desde 2005 a 2010.
A pesquisa originou 6 artigos desenvolvidos em Portugal, através do motor de
pesquisa ScholarGoogle, com permissão de acesso a todos, e 31 artigos através
da base de dados da ISI - Web of Knowledge. Relativamente aos artigos
Portugueses, 4 eram adequados à comparação a este estudo. Dos artigos retirados
da Web of Knowledgeapenas 8 artigos reuniam as condições de acessibilidade e de
semelhança com este estudo.
TABELA_4
De forma a tornar mais ilustrativa as semelhanças entre os estudos,
representaram-se em gráfico os estudos com medidas mais semelhantes. Os dados
referentes ao uso do preservativo foram agrupados em três medidas: uso
consistente (7 na escala de Likert), uso inconsistente (6-2 na escala de
Likert) e não uso (1 na escala de Likert). Da mesma forma, dados como
"algumas vezes", "normalmente" ou
"ocasionalmente" foram considerados como um uso inconsistente. Os
dados são apresentados na Figura_3.
Como se pode observar, o uso do preservativo é inconsistente nas diversas
amostras. Os dados mais semelhantes ao deste estudo são referentes ao estudo de
Leigh e colaboradores (2008), que utilizaram uma amostra de jovens adultos
norte-americanos e cujos dados parecem ser muito semelhantes aos obtidos com a
nossa amostra portuguesa.
De forma semelhane, o estudo de Muñoz-Silva e colaboradores (2009) evidencia
médias de utili zação do preservativo muito semelhantes às reportadas pelos
homens e pelas mulheres neste estudo.
No entanto, parece existir uma grande dispersão de resultados, em parte devido
às diferentes medidas utilizadas pelos diferentes estudos. Os estudos
referentes à amostra brasileira e asiática revelam as maiores percentagens de
não uso, quando comparadas com as outras amostras.
DISCUSSÃO
O aumento de casos de VIH entre jovens adultos tem evidenciado a relevância de
estudos que se preocupam com a utilização do preservativo. Em Portugal, como na
Europa e nos Estados Unidos da América, a prevalência de infecções em jovens
adultos, por contacto heterossexual, cresceu nos últimos anos, tornando-se um
risco considerável para a população em geral (Collins et al., 2005).
Este estudo tinha como principal objectivo caracterizar a utilização do
preservativo nos jovens adultos portugueses. Foi conduzido um estudo
transversal, que contou com a participação de 1134 jovens adultos, de ambos os
sexos. Apesar de o objectivo contemplar a caracterização do comportamento de
uso do preservativo dos jovens adultos portugueses, não podemos deixar de
observar a existência de uma maioria expressiva de participantes universitários
(apenas cerca de 11% não são universitários). A dificuldade em recolher uma
amostra significativa de indivíduos que não façam parte do meio universitário
poderá ter enviesado os resultados obtidos.
De uma forma em geral, é sugerido na literatura que os estudantes
universitários utilizam mais o preservativo do que os estudantes não
universitários (Bailey et al., 2008). Esta amostra é constituída
maioritariamente por estudantes universitários, com um número muito reduzido de
participantes externos ao sistema universitário. Simultaneamente, os indivíduos
com uma escolaridade mais elevada têm uma maior probabilidade de utilizarem
métodos contraceptivos (Martin, 2005). Como tal, de ora em diante deverá
considerar-se que a denominação de jovens adultos pretende apenas designar
jovens adultos universitários ou estudantes universitários.
Os resultados apontam para uma utilização inconsistente do preservativo, o que
está de acordo com investigações anteriores (Amaro et al., 2004; Muñoz-Silva et
al., 2009; Reis & Matos, 2008). No entanto, não se verificou que os homens
utilizassem significativamente mais o preservativo do que as mulheres, como
indicam alguns estudos realizados em Portugal (Reis & Matos, 2007; Reis,
Ramiro, & Matos, 2009).
A utilização do preservativo parece obedecer a diferentes padrões. A análise de
clusters realizada evidencia três grupos diferentes. O grupo mais comum
representa os indivíduos que utilizam o preservativo de uma forma pouco
inconsistente, mas que parecem estar predispostos a utilizar o preservativo. O
segundo grupo parece diferenciar-se deste primeiro por ter um parceiro sexual
no momento da resposta e por uma utilização mais inconsistente do preservativo.
Finalmente, o terceiro grupo parece ser aquele que corre mais riscos,
evidenciando uma clara não utilização do preservativo. Os grupos não apresentam
diferenças ao nível das variáveis demográficas, à excepção da idade. O terceiro
grupo apresenta uma média de idades superior ao primeiro grupo. Este dado
parece sugerir que os indivíduos mais velhos têm menos probabilidade de
utilizar o preservativo, o que se verifica em estudos com amostras portuguesas
(Reis & Matos, 2008) como com amostras internacionais (Adefuye, Abiona,
Balogun, & Lukobo-Durrell, 2009).
A presença de um parceiro estável parece ser, igualmente, um indicador da
diminuição de utilização do uso do preservativo bem como da intenção da
utilização do mesmo, já que aos grupos de indivíduos que está associada a
existência de um parceiro está igualmente correlacionado uma utilização mais
inconsistente do preservativo. Este resultado é semelhante a outros encontrados
em estudos nacionais e internacionais (Bogart et al., 2005; Gomes & Nunes,
2008a,b). Os dados parecem validar o estudo de Muñoz-Silva e colaboradores
(2009), dado que os resultados de utilização do preservativo são muito
semelhantes, tanto para homens como para mulheres na amostra portuguesa.
Relativamente a outros aspectos da história sexual, homens e mulheres da
amostra em estudo parecem não diferir. Estudos anteriores apontam para a
existência de diferenças ao nível da idade em que se inicia a vida sexual, com
os homens a terem a primeira relação sexual mais cedo do que as mulheres (Reis
& Matos, 2008). Não obstante, o presente estudo indica um claro equilíbrio
entre homens e mulheres, que indicam que a média da primeira relação sexual se
situa entre os 17 e os 18 anos. Observa-se, igualmente uma média de parceiros
semelhante para homens e para mulheres, evidenciando-se até uma ligeira
superioridade para as mulheres. O número de homens e mulheres com parceiro, no
momento de resposta ao questionário, foi igualmente, semelhante.
As diferenças entre homens e mulheres nesta área têm conduzido continuamente a
resultados pouco consistentes. Enquanto alguns estudos sugerem a existência de
diferenças ao nível cognitivo e comportamental (e.g., Parsons, Halkitis, Bimbi,
& Borkowski, 2000), outros sugerem que homens e mulheres apresentam
comportamentos semelhantes (Boileau, Zunzunegui, & Rashed, 2009). Neste
estudo, vários factores podem ter interagido conduzindo a este resultado e a
sua conjunção parece ser bastante particular, pelo que estes resultados devem
ser interpretados com algumas reservas.
Seria de esperar que devido ao duplo padrão sexual que se considera activo nas
sociedades ocidentais, como a portuguesa, que os homens apresentassem uma menor
utilização do preservativo (Crawford & Popp, 2003; Saavedra, Magalhães,
Soares, Ferreira, & Leitão, 2007). Contudo, nesta amostra os participantes
parecem não se deixar afectar por este padrão sexual, aliás como se observa em
outros estudos (Marks & Fraley, 2005). Este facto poderá ficar a deverse,
não exclusivamente a uma aparente equidade entre homens e mulheres, mas sim a
uma maioria de mulheres na amostra. É ainda de considerar que as condições de
resposta ao questionário não foram controladas, devido à estratégia utilizada,
podendo os participantes ter sentido alguma pressão para responderem de
determinada maneira.
Parece também ser relevante que homens e mulheres descrevem comportamentos
idênticos, quer ao nível da história sexual, quer ao nível da utilização do
preservativo. A intenção de utilização do preservativo pode considerar-se
elevada para a amostra, o que poderá indicar que os jovens adultos estão
alertados para a necessidade de utilizarem protecção contra infecções
sexualmente transmissíveis. Consideram, também, que a decisão de utilizar o
preservativo é essencialmente pessoal. No entanto, o comportamento actual
mostra uma discrepância entre a utilização e a intenção de uso do preservativo.
Deverá ser considerado que os motivos que caracterizam a não utilização do
preservativo se devem maioritariamente à utilização de outros métodos
contraceptivos (Ministério da Saúde, 2005). O preservativo parece rivalizar com
a pílula, que surge como o método mais comum de contracepção entre mulheres
jovens adultas, e cuja utilização aumenta com a idade (Reis & Matos, 2008).
Apesar de os indivíduos reconhecerem a importância da SIDA, apenas uma parte
desses indivíduos considera este um problema pessoal, revelando ainda algum
desconhecimento face às formas de transmissão do VIH (ISCSP, 2004).
Efectivamente, os indivíduos parecem reconhecer o risco, mas esta percepção
diminui consideravelmente quando se considera o risco pessoal e as experiências
individuais (Amaro et al., 2004).
Por outro lado, a utilização da pílula é bastante expressiva nas amostras
portuguesas. O estudo de Muñoz-Silva e colaboradores (2009) revela que este
método é mais comum entre os indivíduos que têm um parceiro estável. No
entanto, este facto aumenta substancialmente o risco dos jovens adultos às
infecções sexualmente transmissíveis.
A estabilidade do parceiro poderá, portanto, ser vista como uma situação de
confiança, envolvendo heurísticas relativas ao VIH e à relação amorosa/sexual
que conduzem a uma menor utilização do preservativo. Alguns estudos evidenciam
que ideias relacionadas com a fidelidade, o amor e a confiança no parceiro
conduzem a uma diminuição da utilização do preservativo e a um enviesamento do
risco real de infecções sexualmente transmissíveis (Gebhardt, Kuyper, &
Greunsven, 2003; Vizeu Camargo & Biousfield, 2009).
Quando comparamos os resultados da amostra portuguesa com amostras de outros
países, observa-se que estes variam bastante de acordo com as culturas de
origem. O estudo actual parece indicar que em Portugal há mais indivíduos a
utilizar o preservativo do que em outros estudos com amostras da América do
Sul, Ásia e África do Sul (Hendriksen, Pettitfor, Lee, Coates, & Rees,
2007; Juarez & Martín, 2006; Ma et al., 2009) apesar de esta utilização ser
maioritariamente inconsistente. Os resultados mais semelhantes são às amostras
americanas (Leigh et al., 2008) evidenciando que Portugal poderá estar a seguir
a mesma tendência observada nos EUA, em que o risco de VIH está a deixar de ser
característica de grupos de risco, para passar a ser mais generalizada.
Efectivamente, a UNAIDS (2008) caracteriza o sexo desprotegido como sendo a
maior ameaça à saúde colectiva, colocando o VIH/SIDA numa perspectiva pandémica
também ao nível dos países desenvolvidos.
Como tal, os resultados deste estudo permitem concluir que os jovens adultos
universitários poderão estar em risco de contrair infecções sexualmente
transmissíveis, dada a uma inconsistência ao nível da utilização do
preservativo. Esta tendência parece ser comum a outros países, e permite
validar estudos anteriores com amostras portuguesas.
A utilização do preservativo parece diminuir consideravelmente com a existência
de um parceiro estável, tendência essa que aumenta com a idade do jovem adulto,
colocando os indivíduos mais velhos num risco maior.
A amostra em causa não evidencia diferenças comportamentais entre homens e
mulheres, que são muitas vezes focadas ao longo da literatura. A homogeneidade
dos comportamentos poderá validar a metodologia da recolha de dados por
computador, diminuindo o nível de desejabilidade social que é característico
dos estudos de auto-resposta com a presença de um investigador. Deveremos
sempre considerar que os estudos que utilizam esta metodologia de recolha de
dados podem acarretar erros de memória ou enviesamentos, que não são passíveis
de controlo, apesar de serem mais vantajosos (menos morosos e custosos) que as
entrevistas (Gomes & Nunes, 2008a,b).
O não equilíbrio entre o número de homens e mulheres poderá sempre ser
discutido como estando na origem dos dados verificados. Não obstante, os dados
são semelhantes a outros estudos realizados com amostras portuguesas e com
medidas idênticas de uso do preservativo (Muñoz-Silva et al., 2009), pelo que
se considera que não terá tido um impacto significativo nos resultados obtidos.
São necessários mais estudos que explorem a utilização do preservativo de forma
a aumentar a sua utilização, de forma consistente, em faixas etárias em que a
prevalência do VIH parece aumentar de forma considerável, contornando aspectos
como a idade e a existência de parceiros estáveis.