Explorando a psicogénese da demência na sua relação com a esquizofrenia:
Proposta psicodinâmica dum continuum estrutural
Existe uma tradição clássica em pensar que as perturbações neurológicas são
"orgânicas" e que as perturbações psiquiátricas são
"funcionais", causando tal dicotomia inúmeros debates ao longo dos
tempos (Steen, 2007). Para Damásio (2000) a distinção entre doenças do cérebro
e da mente, isto é, entre perturbações neurológicas e psicológicas, reflecte
apenas uma ignorância das relações entre cérebro e mente, sendo que estas são
indissociáveis. Evidencia-se uma extensa sobreposição de causas, sintomas e
tratamentos de perturbações que uma vez tomadas simultaneamente como
neurológicas e psiquiátricas/psicológicas revelarão, ao nível desta cooperação,
uma melhor e real compreensão das patologias (Steen, 2007). Tal como a
perturbação psiquiátrica, esquizofrenia, as doenças neurológicas/orgânicas
ilustram, igualmente, a interacção entre o cérebro e a mente, incluindo a
demência de Alzheimer, tida como a doença neurológica típica (Steen, 2007),
exemplificando assim as complexas inter-relações entre os vários aspectos
biopsicossociais da experiência do ser humano (Garner, 2004).
Apesar da esquizofrenia e da demência serem duas condições diferenciadas, por
vezes, tocam-se e sobrepõem-se, tanto ao nível cognitivo, orgânico, como ao
nível psicopatológico, funcional.
Dados convergentes sugerem que os prejuízos cognitivos na esquizofrenia não são
um epifenómeno desta, mas que são centrais nesta perturbação (Keshavan &
Jindel, 2010). Tanto o desenvolvimento como o perfil dos prejuízos cognitivos
na esquizofrenia, de início tardio, aparecem inconsistentes com a demência de
Alzheimer, todavia, é possível que o declínio cognitivo profundo em alguns
pacientes esquizofrénicos seja resultado da comorbilidade entre esquizofrenia e
demência de Alzheimer(Harvey, 2005). Mas, a prevalência da evidência
neuropatológica, nos estudos pos-mortem, consistente com a demência de
Alzheimer, demonstra-se essencialmente idêntica à esperada na população geral
(Harvey, 2005). Por seu turno, os sintomas neuropsiquiá tricos são comuns na
demência de Alzheimer, no entanto, esta sintomatologia psicótica pode diferir
dos sintomas psicóticos da esquizofrenia (Lautenschlager & Kurz, 2010).
Existe uma discussão actual em tentar perceber se os sintomas psicóticos
evidenciados na demência de Alzheimerrepresentam um subtipo nesta demência, ou
se os factores genéticos determinam uma vulnerabilidade para estes sintomas
psicóticos (Lautenschlager & Kurz, 2010). Mais recentemente, tem sido
sugerido que os sintomas psicóticos deverão estar presentes antes do
diagnóstico da demência, como parte de um sindroma prodómica ou, como parte
subsindromal de uma estrutura de personalidade (Lautenschlager & Kurz,
2010). A genética, a localização e a extensão do dano cerebral, os motivos e as
pulsões, a história individual, a prévia estrutura de personalidade e o estilo
de vinculação combinam-se e coalescem para influenciar a apresentação
idiossincrática da demência num indivíduo (Garner, 2004). Muitos reconhecem a
complexa interligação entre os défices cognitivos e emocionais, entre
perturbações orgânicas e afectivas, entre o funcionamento do cérebro e o da
mente. A questão não é somente de o cérebro afectar a mente, mas igualmente de
a mente afectar o cérebro (Waddell, 2007).
Relembra-se, que há cerca de 100 anos atrás, Kraepelin conceptualizou
inicialmente a esquizofrenia como dementia praecox, colocando a esquizofrenia
junto com as perturbações degenerativas, dando início a um debate controverso
na psiquiatria (Barak, Swartz, & Davidson, 1997). Parece existir um modelo
neuronal de modulação cortical da acetilcolina de base que é comum à
esquizofrenia e à demência, no entanto, deverão ocorrer desvios bi-direcionais
subsequentes a subjazer o desenvolvimento da esquizofrenia e demência, havendo
assim algumas evidências de uma genética com comunalidades (Barak et al.,
1997). Os marcadores patológicos e bioquímicos da demência não são
conclusivamente demonstrados nos esquizofrénicos gerontes e um acumular de
evidências tende a sugerir que a demência não é um resultado da esquizofrenia
(Harvey, 2005).
Depara-se, actualmente, com uma questão que tem originado muitas investigações
e que continua a gerar bastante interesse: o facto da distinção
"cortical" e "subcortical" da demência ser igualmente
aplicável à esquizofrenia (Hill, Ragland, Gur, & Gur, 2002; Turetsky,
Moberg, Mozley, Moelter, Agrin, Gur, & Gur, 2002). Isto é, evidencia-se
que, em termos neuropsicológicos e neuroanatómicos, a esquizofrenia poderá
corresponder ao padrão das demências "corticais" (ex., Alzheimer)
ou corresponder ao padrão das demências "subcorticais" (ex.,
Parkinson) (Turetsky et al., 2002). A referir, igualmente, a existência de
pacientes esquizofrénicos sem qualquer tipo de lesão neuropsicológica (Palmer,
Heaton, Paulsen, Kuck, Braff, & Harris, 1997). Parece que os mecanismos que
subjazem ao funcionamento neurocognitivo deverão ser distintos daqueles
envolvidos na produção da sintomatologia psiquiátrica (psicopatológica),
permanecendo actualmente esta questão científica em aberto (Palmer et al.,
1997; Steen, 2007).
Questiona-se, neste estudo, se factores da personalidade estarão envolvidos na
produção desta mesma sintomatologia.
Estudos relatam que é possível ter um envelhecimento saudável mesmo quando
existe patologia cerebral, existindo evidências post-mortemde patologia
neurodegenerativa em pessoas que viveram cognitivamente e mentalmente intactas,
resistindo ao efeito da doença através de mecanismos que permanecem
desconhecidos (Steen, 2007). Existem ainda indivíduos que mimetizam a demência
de Alzheimere não apresentam patologia neurodegenerativa no postmortem(Evans,
2008) e, quem coloque a seguinte questão: Serão as lesões neurológicas a
"causa" ou o "efeito" da demência? (Chevance, 2005).
Abraham e Walter (2008) questionam se é possível imaginar uma psicopatologia da
demência, defendendo que, em geral, um indivíduo perpetua o funcionamento pré-
mórbido. Segundo Myslinski (1994), a continuidade da problemática de um
indivíduo, através de uma apresentação sintomatológica particular, pode ser
legitimamente proposta; sendo que entre a senescência e a senilidade vislumbra-
se a permanência dos organizadores da vida mental adulta através da
apresentação da demência.
Através da recolha da anamnese e de observação clínica Vignat, Bragard e Suchet
(1987), referem que os pacientes com demência evidenciam características pré-
mórbidas interessantes do ponto de vista psicogenético: a frequência,
anormalmente, elevada de concordância mortenascimento (da morte de um parente
muito próximo por altura do nascimento do sujeito), das perdas e das separações
na infância - condicionando uma patologia do luto "da outra
parte". A expressão de dor/tristeza é bloqueada, interdita por um
mecanismo activo de inibição, por uma via de identificação narcísica (Vignat et
al., 1987). O trauma organiza-se no constante sofrimento narcísico do sujeito e
pela exigência da permanência dos objectos externos (Myslinski, 1994). Muitos
autores concordam, desta forma, em descrever a personalidade pré-demência como
traumatofóbica, existindo analogia ao nível sintomatológico entre a demência e
as síndromes póstraumáticas, que ocorreram ao longo da vida, para além da
infância (Hybler, 1998). Num estudo de Clement, Darthout e Nubukpo (2003), os
indivíduos com demência evidenciam traços de personalidade de dependência,
evitamento, sintomas obsessivos e alexitimia e, revelam maior número de
recordações/situações traumáticas ao longo da vida.
Se a velhice é a idade de eleição das separações definitivas e dos lutos, ela
pode tornar-se patogénica para os sujeitos que apresentem vulnerabilidades aos
processos de separação (Abraham & Walter, 2008; Myslinski, 1994). Por seu
turno, a angústia, na demência, evidencia um somatório de trabalhos de lutos
incompletos e de separações-individuações deficitárias - de um contínuo
investimento nos objectos perdidos - uma angústia da
"memória", da saudade nostálgica (Abraham & Walter, 2008). Os
factores psicopatológicos da demência reenviam à estrutura mental originária do
sujeito e à sua construção da relação de objecto (Pellerin & Boiffin,
2001). Os limites psíquicos vão-se esbatendo e é esta angústia reactivada de
abandono que o sujeito vai tentar colmatar através da procura desesperada de um
objecto externo, ao qual se possa apegar, a objectos equivalentes aos objectos
transicionais (Pellerin & Boiffin, 2001). De realçar, no entanto, que na
demência existe a conservação do investimento dos objectos internos, até uma
fase avançada da perturbação, enquanto na esquizofrenia, a existir, é uma perda
total e prematura (Abraham & Walter, 2008).
Há que referir que em Portugal, segundo dados da Direcção-Geral da Saúde para o
plano de 2004-2010, a prevalência da demência aumenta de 1% aos 65 anos, para
30% aos 85 anos de idade, duplicando, entre os 60 e os 95 anos, em cada cinco
anos e sobrevivendo as mulheres com demência mais tempo do que os homens com
esta doença, sendo maior a incidência da demência de Alzheimerno sexo feminino
(Direcção-Geral da Saúde, 2004). Segundo Myslinski (1994), existe uma
problemática psíquica específica subjacente à eclosão da síndrome demencial,
focando-se nos casos de demência de Alzheimernas mulheres, visto que estes se
demonstram com uma incidência mais elevada. Esta é uma problemática da
dependência, a natureza dessa angústia, é a incapacidade em mentalizar a
solidão, a separação, a ausência. Os comportamentos obedecem a uma lógica
"anti-abandono" e as relações de objecto são organizadas como
função paliativa a este risco. São marcados pela característica paradoxal da
necessidade de dependência e de independência, revelando uma, o anaclitismo, a
outra, o medo da perda do objecto (Garner, 2004). Evidencia uma oposição
insustentável entre o Eu Ideal e o Ideal do Eu, colocando esta oposição
simbólica a nu, a falha do fantasma original - "O que sou Eu, senão
o desejo do Outro?" (Vignat et al., 1987) ou "O Objecto pensa em
mim, logo Sou" (Myslinski, 1998). A demência é o produto final de uma
problemática abandónica e narcísica (Myslinski, 1998), sobretudo, uma psicopato
logia da dependência, da pregnância da angústia de abandono (Thomas, Thomas,
& Bouché, 2005). Na demência, o sujeito evidencia l'image de
l'object-zone complémentaire, adquirindo o objecto um papel de
complementaridade ao Eu (Chamond, 2000). A sintomatologia da demência expõe o
sujeito ao seu "originário" (Chamond, 2000).
Parecem haver múltiplas evidências no sentido da demência estar relacionada com
uma angústia e relação de objecto da ordem do anaclitismo e do medo do
abandono/perda do objecto (Abraham & Walter, 2008; Chevance, 2005; Gerardin
& Maheut-Bosser, 1998; Myslinski, 1998; Thomas et al., 2005), sendo estas
características patognomónicas da patologia borderline(Coimbra de Matos, 2002).
Relembra-se e chama-se a atenção, a propósito da indistinção e discussão
clássica entre a esquizofrenia e a demência (Barak et al., 1997), para um
paralelo curioso com o facto de igualmente o termo borderlineter sido pensado,
inicialmente, como uma forma atenuada de esquizofrenia ou como hebefrenia
(psicose) (Bergeret, 2004).
A angústia do psicótico é a de fragmentação - de retraimento e de morte,
da estranheza, do persecutório. É igualmente a angústia da aniquilação, da
despersonalização e da desrealização (Bergeret, 2004; Fernandes, 2003;
Grotstein, 1989; Spear & Sugarman, 1984; Steiner, 1991; Willick, 2001). A
angústia é invasiva, difunde-se pelo Eu, atingindo a totalidade do
funcionamento psíquico (Coimbra de Matos, 2002).
A angústia do borderlineé a angústia da perda do objecto (da incompletude
narcísica) - da depressão anaclítica, do desespero e do desamparo, medo
do abandono; situa-se no aquém da separação-individuação (Bergeret, 2004;
Fernandes, 2003; Masterson & Rinsley, 1975; Spear & Sugarman, 1984;
Tuttman, 1990; Westen, 1990).
A relação de objecto psicótica permanece fusional ao objecto, é parcial (Eu não
coeso/objecto parcial), de tipo narcísico integral; conduzindo à expressão da
sintomatologia negativa, ao desinvestimento dos objectos da realidade e a uma
neoconstrução objectal. Registo unipolar, em que existe uma indiferenciação
somatopsíquica, uma não delimitação entre o Eu e o objecto. Caracteriza-se pela
não superação do registo pré-objectal, mecanismos de "absorção" e
"difusão", indistinção entre o "dentro" e o
"fora" (Bergeret, 2004; Fernandes, 2003; Grotstein, 1989; Spear
& Sugarman, 1984; Steiner, 1991; Willick, 2001).
A relação de objecto do borderlinepermanece uma relação a dois, mas diferente
da díade primitiva própria da psicose; relação de objecto clivada/anaclítica
(Eu/objecto clivado). No anaclitismo existe separabilidade entre o Eu e o
objecto, ainda que os limites sejam perfurados ou permeáveis (Bergeret, 2004;
Fernandes, 2003; Masterson & Rinsley, 1975; Spear & Sugarman, 1984;
Tuttman, 1990; Westen, 1990).
Sistematizando, parece não existir exclusão recíproca entre a psicogénese e a
organogénese da demência, sendo a aproximação psicodinâmica indispensável,
considerando-se uma síndrome clínica sem prejuízo da sua organicidade, sendo os
factores da organização da personalidade fundamentais (Abraham & Walter,
2008; Myslinski, 1994; Vignat et al., 1987). O tipo de angústia na demência é
da ordem do abandónico, a angústia da perda do objecto (Abraham & Walter,
2008; Chevance, 2005; Gerardin & Maheut-Bosser, 1998; Myslinski, 1998;
Thomas et al., 2005). Supõe-se uma persona lidade pré-mórbida de organização
borderlineatravés de uma relação de objecto anaclítica (Abraham & Walter,
2008; Chevance, 2005; Gerardin & Maheut-Bosser, 1998; Myslinski, 1998;
Thomas et al., 2005). Por seu turno, a esquizofrenia situa-se ao nível de
organi zações com constelações numa tendência ainda mais precoce, encontra-se
ao nível das represen tações do pré-simbólico em que a identificação primária é
equivalente ao desejo de ser o Outro (Bergeret, 2004). Posição esquizo
paranóide, da equação simbólica, em que sujeito e objecto não se diferenciam
(Imbasciati, 2003).
No constructo psicodinâmico as relações objectais são consideradas como
estruturando a organização das experiências passadas e do futuro (Priel,
Kantor, & Besser, 2000). Existe um continuumentre a função representativa
dos objectos internos e as representações: um continuumna diacronia do
desenvolvimento infantil e um continuumnos processos inconscientes do
pensamento do adulto (Imbasciati, 2003).
Provavelmente existirá um backgroundgenético comum e inicial a ambas as
perturbações - esquizofrenia e demência - (Barak et al., 1997),
hipotetizando-se, neste estudo exploratório, que diferentes estruturas
psíquicas de personalidade - fruto de um desenvolvimento precoce
diferenciado (em interacção com os factores genéticos) - se associam ao
desenvolvimento da esquizofrenia e da demência. Para além de se retomar uma
problemática antiga, justifica-se a relevância desta questão, salientando-se o
aumento da esperança média de vida (sendo o género feminino quem alcança uma
maior longevidade) e, consequentemente, o aumento da taxa de demência e o
aumento de idosos com esquizofrenia - podendo-se controlar na actualidade
o factor idade, isto é, esquizofrenia e demência podem ser conjuntamente
estudadas nas idades avançadas. Hoje em dia existe um relançamento desta
temática, sendo analisada sobretudo ao nível das neurociências, nesta
investigação visa-se analisar com as "lentes" da psicologia
dinâmica esta mesma questão. Pretende-se aceder a uma análise exploratória da
estrutura de personalidade que subjaz à perturbação orgânica/neurológica
- demência - através de uma análise diferencial com a perturbação
psiquiátrica - esquizofrenia - e dos aspectos específicos
relacionados com a angústia e a relação de objecto. Apresenta-se a ideia que se
expressará uma esquizofrenia ou uma demência, se existir associada uma
estrutura psíquica de personalidade específica.
MÉTODO
Participantes
Amostra constituída por 58 participantes do sexo feminino, residentes em
hospital psiquiátrico, sendo que 30 participantes têm o diagnóstico de
esquizofrenia (51.7%) e 28 participantes o diagnóstico de demência (48.3%)
- estando excluídas situações de comorbilidade. De referir que em relação
às múltiplas etiologias da demência, a amostra é composta pelos diagnósticos de
demência vascular (75%), demência de Alzheimer(21.5%) e demência dos Corpos de
Lewy(3.5%), sendo no entanto de ressalvar que, para efeitos de análise todos os
diagnósticos foram agrupados no diagnóstico geral de demência.
As participantes com o diagnóstico de esquizofrenia apresentam idades
compreendidas entre os 60 e os 94 anos (M=68.83 anos, DP=8.13) e as
participantes com o diagnóstico de demência, idades compreendidas entre os 60 e
os 98 anos (M=83.36 anos, DP=7.51).
Instrumentos
Mini Mental State (MMSE)(Guerreiro, Silva, Botelho, Leitão, Castro-Caldas,
& Garcia, 1994). É aplicada a prova de rastreio de competências cognitivas
(avalia competências como a orientação, retenção, atenção e cálculo, evocação e
linguagem).
Ao pretender-se aceder à estrutura psíquica de personalidade toma-se em análise
dois factores: a angústia específica subjacente e a relação de objecto.
Avaliação da angústia. O instrumento de avaliação utilizado é a prova
projectiva Thematic Apperception Test(TAT) (Murray, 1973). São seleccionados
oito cartões sensíveis sobretudo às angústias pré-edipianas, de índole mais
primitiva, a reacção à separação e à perda e relacionados com a capacidade de
elaboração da posição depressiva. Os cartões escolhidos são designadamente o
3BM, 5, 7GF, 9GF, 11, 12BG, 13B e o 19. O tratamento do TAT segue a análise dos
processos feita de acordo com Shentoub (1999), incidindo ao nível de processos
rígidos/controlo (série A), labilidade (série B), evitamento do conflito (série
C) - processos de inibição de tipo fóbico, narcisismo, maníaco, condutas
agidas e processos factuais - e emergência em processo primário (série
E). De um ponto de vista exploratório, para avaliar do grau de simbiose
subjacente às narrativas do TAT, é utilizado o Manual for the Measurement of
Symbiosis in Human Relationshipde Summers (1978). Enfatiza-se que esta
definição é baseada na percepção das partes envolventes na relação e não na
interacção comportamental por si (Summers, 1978). É utilizado o sistema de
codificação específico para as provas projectivas, sendo que a codificação é
dicotómica (presente ou ausente), registando-se a frequência total
correspondente a cada grau de simbiose observado no conjunto global. Os graus/
níveis de simbiose avaliados são (Summers, 1978): (1) indiferenciação, (2)
intrusão comportamental, (3) intrusão não comportamental, (4) dificuldade de
separação para o Eu, (5) dificuldade de separação para o Outro, (6)
desaprovação da relação de Outros, (7) dependência, (8) ordens/injunções e (9)
cumprimento de ordens.
Avaliação da relação de objecto. Parâmetro avaliado com a Object Relations
Scale(Escala das Relações de Objecto) e, como forma complementar, com a Sense
of Reality of the Self and of the World Scale(Escala de Consciência da
Realidade do Eu e do Mundo Externo), ambas escalas que compõem o instrumento de
avaliação Ego Function Assessment(EFA) (Bellak, 1989; Bellak & Goldsmith,
1984). O instrumento de avaliação EFA é sobretudo um instrumento clínico que
permite a ligação entre a psiquiatria descritiva e a psicodinâmica, tendo por
backgrounda psicologia dinâmica (Bellak, 1989). O EFA permite avaliar doze
funções egóicas através de doze escalas que podem ser aplicadas
independentemente. A precisão e validade deste instrumento de avaliação
psicológica tem sido suportada e corroborada por uma grande variedade de
estudos (Bellak, 1989; Bellak & Goldsmith, 1984).
Os itens das duas escalas a serem utilizadas foram traduzidos e adaptados para
a Língua Portuguesa. A fiabilidade de cada uma das escalas do questionário foi
avaliada através do coeficiente de consistência interna alpha de Cronbach, para
o grupo esquizofrenia (Escala das Relações de Objecto, α=.64 e Escala de
Consciência da Realidade do Eu e do Mundo Externo, α=.67) e, para o grupo
demência (Escala das Relações de Objecto, α=.69 e Escala de Consciência da
Realidade do Eu e do Mundo Externo, α=.75) - considerando-se a
consistência interna das escalas adequada.
A Escala das Relações de Objecto tem como principais funções componentes de
análise: (A) grau e tipo de relação estabelecido com o Outro, grau de
aproximação-distância e de flexibilidade na escolha e manutenção das relações
de objecto, (B) primitividade-maturidade das relações de objecto, (C) grau no
qual o sujeito percebe e responde na relação com o Outro como entidade
independente em vez do Outro ser percebido como extensões dele próprio e, (D)
constância objectal, grau e tipo de internalização (Bellak, 1989). A Escala de
Consciência da Realidade do Eu e do Mundo Externo tem como principais funções
componentes de análise: (A) grau de desrealização, (B) grau de
despersonalização, (C) identidade e auto-estima e, (D) consciência da
delimitação entre o Eu e o Outro (Bellak, 1989). Cada escala é composta por 10
itens/questões, sendo cada um dos itens lido à participante e a resposta desta
enquadrada num tipo de resposta "Raramente", "Às
Vezes", "Frequentemente" ou "Não Sei". A partir
do manual de codificação/avaliação de respostas de Bellak e Goldsmith (1984)
avaliam-se cada uma das componentes de cada função egóica através de categorias
qualitativas correspondentes a graus de desenvolvimento psíquico (do grau 1 ao
grau 7). Cada um destes pontos stop (graus) estão cuidadosamente definidos e
validados a partir de dados empíricos, apresentando-se esta codificação,
segundo Bellak (1989), como o material apropriado para a avaliação do
funcionamento egóico com propósitos de investigação.
Procedimento
Amostra recolhida em duas instituições psiquiátricas específicas do género
feminino. Em relação à idade das participantes foi estabelecido a priorique a
faixa etária a ser avaliada seria dos 60 anos em diante, visto ser neste
período que a demência é maioritariamente diagnosticada. De ressalvar que
apenas são tidas em análise as demências de etiologia não exógena e que não
secundárias a múltiplas etiologias. Foi condição necessária, ao nível do MMSE
(Guerreiro et al., 1994), uma pontuação global que indicasse ausência de défice
cognitivo ou défice cognitivo ligeiro/demência ligeira. Constata-se, no grupo
esquizofrenia, uma pontuação global de M=22.07 pontos e DP=6.22 e no grupo
demência, uma pontuação global de M=22.14 pontos e DP=6.63.
A aplicação das provas de avaliação psicológica decorreu sempre face-a-face, em
duas entrevistas, sendo primeiramente aplicado o MMSE e o TAT e, noutra
entrevista, as duas escalas do EFA, perfazendo uma duração média de duas horas.
Análise dos dados. Em termos de analise estatística, após verificação da não
normalidade da distribuição e da não homogeneidade das variâncias, recorreu-se
ao teste não paramétrico Mann-Whitneypara a comparação dos resultados obtidos,
nas diferentes variáveis dependentes, pelos dois grupos. Para a análise
estatística dos dados recorreu-se ao software SPSS Statistics(v.15, SPSS Inc.
Chicago, IL). Consideram-se estatisticamente significativos os efeitos com
p<.05.
RESULTADOS
Avaliação da angústia
Constata-se, a partir do Quadro_1, diferenças entre o grupo esquizofrenia (GE)
e o grupo demência (GD) relativamente ao uso de alguns dos processos da série A
(controlo) em resposta aos cartões estímulo do TAT. Existe uma associação entre
os processos A11 (história construída próxima do tema banal) e A215 (isolamento
dos elementos ou das personagens) e o GE e igualmente uma associação entre os
processos A21 (descrição com fixação nos detalhes), A22 (justificação das
interpretações a partir desses detalhes), A23 (precauções verbais) e A28
(ruminação) e o GD.
Constata-se, a partir do Quadro_2, diferenças entre o grupo esquizofrenia (GE)
e o grupo demência (GD) relativamente ao uso de dois dos processos da série B
(labilidade), em resposta aos cartões estímulo do TAT. Existe uma associação
entre o processo B212 (acentuação de uma temática do estilo: correr, fugir,
cair, etc.) e o GE e, igualmente, uma associação entre o processo B28
(exclamações/comentários/digressões/referências pessoais) e o GD.
Constata-se, a partir do Quadro_3, diferenças entre o grupo esquizofrenia (GE)
e o grupo demência (GD) relativamente ao uso de alguns dos processos da série C
(evitamento do conflito) em resposta aos cartões estímulo do TAT. Existe uma
associação entre os processos de inibição de tipo fóbico CP5(necessidade de
colocar questões por parte do clínico), CP6(evocação de elementos ansiogénicos
seguidos ou precedidos de paragens no discurso) e o processo factual CF2
(acentuação do quotidiano, do factual, do actual, do concreto) e o GE e,
igualmente, uma associação entre os processos de narci sismo CN4(postura
significativa de afectos), CN6(insistência sobre a referência aos limites e aos
contornos) e os processos maníacos CM1(sobreinvestimento da função de apoio do
objecto), CM2(idealização do objecto) e o GD.
Constata-se, a partir do Quadro_4, diferenças entre o grupo esquizofrenia (GE)
e o grupo demência (GD) relativamente ao uso de alguns dos processos da série E
(emergência em processo primário), em resposta aos cartões estímulo do TAT.
Existe uma associação entre os processos E1(escotomização/omissão de objectos
manifestos), E2(percepção de detalhes raros e/ou bizarros), E6(percepção de
objectos fragmentados e/ou objectos deteriorados ou personagens doentes,
deformadas), E11(confusão das identidades; interpenetração de papéis), E14
(percepção do mau objecto/temas de perseguição) e E19(associações curtas) e o
GE.
Constata-se, a partir do Quadro_5, diferenças entre o grupo esquizofrenia (GE)
e o grupo demência (GD) relativamente ao grau de simbiose, demonstrado ao nível
das respostas do TAT. Existe associação entre o grau 1 (indiferenciação) e o GE
e, por seu turno, uma associação entre os graus 4 (dificuldade de separação
para o Eu) e o 7 (dependência) e o GD. Não se evidenciam diferenças
significativas entre os grupos relativamente aos graus 2 (intrusão
comportamental), 3 (intrusão não comportamental) e 5 (dificuldade de separação
para o Outro), não sendo registadas quaisquer respostas de tipo grau 6
(desaprovação da relação de Outros), 8 (ordens/injunções) e 9 (cumprimento de
ordens).
Avaliação da relação de objecto
Avaliação das respostas do grupo esquizofrenia (GE) e do grupo demência (GD) na
Escala das Relações de Objecto (Bellak & Goldsmith, 1984). Constata-se que
o diagnóstico das participantes as diferencia de forma estatisticamente
significativa nalguns aspectos da avaliação das relações de objecto. Os grupos
têm avaliações estatisticamente diferentes relativamente a A2 (distanciamento
relacional tipo esquizóide) (U=350.00, p<.02), B2 (relações do presente
caracterizadas pelas fixações precoces) (U=336.00, p<.01) e C2 (o Outro
raramente é percebido como entidade separada) (U=351.00, p<.05) sendo estas
mais frequentes no GE e em C3 (identidade dependente do externo) (U=288.00,
p<.01), C4 (o Outro é tomado em consideração em situações neutras ou que não
sejam potenciadoras de ansiedade) (U=250.00, p<.001) e D4 (sensível a
potenciais rejeições e abandonos) (U=303.00, p<.02) sendo estas mais frequentes
no GD. As avaliações respectivas ao nível 6 e 7 não foram observadas assim como
avaliações do nível 1, no GD.
Avaliação das respostas do grupo esquizofrenia (GE) e do grupo demência (GD) na
Escala de Consciência da Realidade do Eu e do Mundo Externo (Bellak &
Goldsmith, 1984). Constata-se que o diagnóstico das participantes as diferencia
de forma estatisticamente significativa nalguns aspectos da avaliação da
consciência da realidade do Eu e do mundo externo. Os grupos têm avaliações
estatisticamente diferentes relativamente a A3 (marcada desrealização mas
tendencial mente menos pronunciada do que a despersonalização) (U=295.00,
p<.002), B2 (marcada despersonalização, dissociação) (U=311.00, p<.02), C2
(sensação marcada de estranheza/grandiosidade) (U=322.00, p<.01), C3
(desvalorização) (U=286.00, p<.002), D2 (fenómeno de fusão proeminente, sem
total perda da distinção entre Eu e realidade externa) (U=252.00, p<.001) e D3
(identidade normalmente dependente do feedbackexterno) (U=338.00, p<.05), sendo
estas mais frequentes no GE e, em A5 (desrealização, excepcional) (U=283.00,
p<.002), B5 (despersona lização, muito rara) (U=209.00, p<.001), C4
(personalidades as-if) (U=261.00, p<.002), C5 (identidade mais ou menos
estável) (U=329.00, p<.01) e D4 (por vezes, dependente do feedbackexterno para
manter a identidade) (U=201.00, p<.001), sendo estas mais frequentes no GD. As
avaliações respectivas ao nível 6 e 7 não foram observadas, assim como,
avaliações do nível 1 no GD.
DISCUSSÃO
Parecem existir evidências no sentido das características da estrutura psíquica
tendencialmente psicótica, estarem relacionadas, em predominância, com o
diagnóstico de esquizofrenia e, as características da estrutura psíquica
tendencialmente borderline, estarem relacionadas, em predominância, com o
diagnóstico de demência. Salvaguarda-se que a interpretação dos dados e
possíveis generalizações que possam ser efectuadas apenas se confinam à amostra
limitada do estudo e ao género feminino.
Começa-se por analisar os processos psicológicos usados na elaboração das
narrativas aos cartões estímulo do TAT. Associados ao diagnóstico de
esquizofrenia, surgem processos que revelam a desestruturação e a problemática
psicótica, mas também defesas, recorrendo à banalização/ao concreto, como seja
o processo da série controlo, em que existe recurso à história construída,
próxima do tema banal, sem usufruir da fantasia ou da simbolização, mantendo-
se, contudo, adequada. No entanto, processos como a acentuação do quotidiano,
do factual, do actual, do concreto revelam a não recordação, a não associação e
a ausência de reacção afectiva, constatando-se um défice de ressonância
fantasmática (Brelet, 1986; Shentoub, 1999). Desta forma, parece ser neste
sentido que processos da série A (controlo), da série B (labilidade), processos
fóbicos da série C (evitamento do conflito) e as associações curtas da série E
(emergência em processo primário) revelam o desligamento relacional, o agir
corporal, o défice de ligação/conexão entre as representações, o encapsulamento
afectivo e, por vezes, a falência dos mecanismos de defesa. Relativamente aos
processos da série E, emergência em processo primário, existe, igualmente, no
grupo esquizofrenia, uma tendência para a escotomização/omissão de objectos
manifestos, não havendo deformação do real mas uma "manipulação do
percebido" com fins defensivos. A percepção de detalhes raros e/ou
bizarros e a percepção do mau objecto/temas de perseguição evidenciam o
mecanismo de projecção e da pregnância da relação dual (Brelet, 1986; Shentoub,
1999).
Por sua vez, associados ao diagnóstico de demência, evidenciam-se processos que
parecem indiciar sobre uma problemática posicionada entre a estrutura neurótica
e a estrutura psicótica. Surgem associados ao diagnóstico de demência processos
da série A (controlo), como a descrição com fixação nos detalhes, as
justificações das interpretações a partir desses detalhes, as precauções
verbais, a ruminação, e por seu turno, as exclamações/comentários/digressões/
referências/ /apreciações pessoais (série B, labilidade) e o processo narcísico
da série C (evitamento do conflito), através da postura significativa de
afectos. Todos estes processos tomados como um todo parecem ser indicadores de
um arranjo de sintomatologia neurótica, em que existe um apego aos pormenores
que reenviam para a utilização da realidade externa para lutar contra as
emergências da realidade interna, como por exemplo, o poder apoiar-se numa
realidade perceptiva para justificar o afecto ligado à separação, uma certa
capacidade para exprimir o conflito e um uso da fantasia, um apelo à relação,
existindo a noção de separabilidade entre o Eu e o Outro (Brelet, 1986;
Shentoub, 1999); igualmente como defesa contra o risco de um envolvimento
pessoal excessivo na resposta (Fernandes, 2003). Estes processos parecem também
evidenciar arranjos de tipo obsessivo compulsivo ou comportamentos fóbicos,
característicos em organizações borderline(Bergeret, 2004). De relembrar ainda,
Bergeret (2000), quando refere uma divisão do campo relacional nos borderline,
dois sectores distintos, um deles conservando uma correcta avaliação da
realidade, o outro funcionando de um modo menos realista - um sector
adaptativo e um sector anaclítico.
De salientar a associação de determinados processos da série E (emergência em
processo primário), como a percepção de objectos fragmentados (e/ou objectos
deteriorados ou de persona gens doentes, deformadas) e a confusão das
identidades (interpenetração de papéis) - com o grupo esquizofrenia.
Processos estes identificativos, por um lado, da angústia de fragmentação,
projecção e da identificação projectiva, pelo outro, da indistinção entre o Eu
e o objecto, sendo que as personagens do relato ficam confundidas, até mesmo
amalgamadas, numa única representação, da ordem do fusional (Shentoub, 1999).
Por seu turno, a salientar que ao grupo demência surgem associados determinados
processos da série C (evitamento do conflito) - o processo narcísico de
insistência sobre a referência aos limites e aos contornos e, os processos
maníacos de sobrein ves timento da função de apoio do objecto e de idealização
do objecto (valência positiva ou negativa). Processos estes, uns
identificativos da insistência à delimitação, do reforço dos limites da
fronteira "dentro/fora", interno/externo, outros da definição do
objecto, essencialmente, através da sua função anaclítica e de suporte e,
outros ainda, do investimento na representação de um objecto percebido como
idealmente bom/potente/belo, ou o seu contrário (Brelet, 1986; Shentoub, 1999).
Reflecte-se, da problemática comum a ambos os grupos - da perturbação da
relação precoce, das carências das relações de objecto, da desestabilização da
interacção entre mundo interno e externo, da colagem à realidade por
embotamento da vida psíquica.
Interessante o facto de estes resultados irem no sentido dos dados das análises
de TAT, em pacientes esquizofrénicos e borderlines, num estudo de Fernandes
(2003). Salienta-se, ao nível dos pacientes esquizofrénicos, o primado dos
processos de tipo factual e, ao nível da emergência dos processos primários, a
percepção de objectos fragmentados, a confusão de papéis e a percepção do mau
objecto. Por seu turno, ao nível dos pacientes borderline, Fernandes (2003)
salienta que as precauções verbais e a fixação nos detalhes são, igualmente, os
processos mais frequentes nos processos de controlo. Segundo dados deste mesmo
estudo, os processos de evitamento narcísicos são reveladores de um
funcionamento borderline, assim como os processos de tipo factual.
Relativamente aos processos maníacos, encontra-se, igualmente, com frequência,
o recurso à idealização do objecto, o sobreinvestimento da função de apoio e as
piruetas e viravoltas. Na emergência em processo primário, destaca-se a
representação maciça de uma problemática relacionada com a representação de
morte, ou suicídio.
Tais angústias subjacentes bem como os processos psicológicos específicos da
esquizofrenia e da demência ficam bem patentes do ponto de vista qualitativo,
em alguns extractos de histórias do TAT. Por exemplo, no cartão 11- apresenta
como conteúdo manifesto uma paisagem caótica, com vivos contrastes de sombra e
de claridade - uma paciente com esquizofrenia refere "Isto é o
apocalipse! Isto é uma destruição, horrível, que horror... Ai, aquilo parece-me
uma bilha, um vaso, a explodir e a derramar coisas... O fim do mundo!";
"(...) Dá a impressão de um esqueleto... dá a impressão de serem partes
de um esqueleto (silêncio). A cabeça... uma perna... aqui diversos ossos
(silêncio)"; e uma paciente com demência "(...) Vejo aqui uma
pessoa para servir de amparo a este que vai a cair..."; "(...) é
uma estrada com limites para as pessoas não caírem... um caminho
limitado...". No 12BG - apresenta como conteúdo manifesto uma
paisagem arborizada nas margens de um curso de água, com uma árvore e um barco
em primeiro plano - uma paciente com esquizofrenia "Isto é no campo
(...). Gostava de entrar no sobreiro, entrar, entrar, entrar... (aponta
interior da árvore)". No cartão 13B - apresenta como conteúdo
manifesto um rapazinho sentado à entrada de um casebre com tábuas mal unidas
- uma paciente com demência "Um garoto... sozinho... ou esperando
que o pai ou a mãe chegue... Isto dá aspecto de abandono... está num local
ermo, numa atitude de espera... esperando..."; "Acho que está
desesperada, mas não pode porque ainda é uma criança... mas está à espera de
algo!".
Desta forma, parece assim que existem dados no sentido de associar a angústia
do psicótico - angústia de fragmentação/morte, de um vazio objectal e
persecutório (Bergeret, 2004; Coimbra de Matos, 2002; Grotstein, 1989; Spear
& Sugarman, 1984; Steiner, 1991; Willick, 2001) - ao diagnóstico de
esquizofrenia. E por seu turno, associar a angústia do borderline-
angústia da perda do objecto (da incompletude narcísica) e da depressão
anaclítica, do desespero e do desamparo (Bergeret, 2004; Coimbra de Matos,
2002; Masterson & Rinsley, 1975; Spear & Sugarman, 1984; Tuttman, 1990;
Westen, 1990) - ao diagnóstico de demência. A reforçar esta ideia estão
os dados da avaliação da simbiose às narrativas do TAT, segundo uma análise
proposta por Summers (1978). Desta forma, o grau de simbiose correspondente à
Indiferenciação está associado ao diagnóstico de esquizofrenia, revelando da
indiferenciação sujeito/objecto, da não separabilidade entre "dentro/
fora" e da relação fusional. Os graus de simbiose correspondentes, à
Dificuldade de Separação para o Eu e, à Dependência, estão associados ao
diagnóstico de demência, revelando a angústia de abandono, o medo da perda do
objecto, a necessidade de uma ligação anaclítica.
Ao nível da avaliação das relações de objecto existem, igualmente, indicadores
das especifici dades do diagnóstico de esquizofrenia e do diagnóstico de
demência. Segundo uma abordagem de Bellak e Goldsmith (1984), identificam-se
diferenças entre as pacientes com esquizofrenia e as pacientes com demência, no
desenvolvimento psíquico de algumas das funções componentes da relação de
objecto. Desta forma, parece existir indicação no sentido da associação entre o
diagnóstico de esquizofrenia e: (A2) considerável distanciamento relacional
tipo esquizóide sem, no entanto, retirada da realidade, relações marcadamente
narcísicas, parasitas e simbióticas e, oscilação entre ligações simbióticas e
de desligamento, de um cariz infantil; (B2) as relações do presente são
caracterizadas pela transferência baseada em fixações precoces do
desenvolvimento e deverão reflectir a perturbação da relação primária e; (C2) o
Outro raramente é percebido como entidade separada. Responde ao Outro somente
numa perspectiva egocêntrica, obtendo prazer exercendo poder/manipulação. Por
seu turno, existe indicação da associação entre o diagnóstico de demência e as
seguintes funções componentes da relação de objecto: (C3) o Outro somente
ocasionalmente é percebido como existindo no seu pleno direito, muitas
"auto-referências" na relação com o Outro, sendo a identidade
extremamente dependente do externo, tentativas de "mudar" os outros
de forma a obter um sentimento de "cristalização" ao nível do Eu,
podendo explorar os outros de forma a satisfazer as suas necessidades, sem ter
em conta a outra parte; (C4) o Outro é tomado em consideração em situações
neutras ou que não sejam potenciadoras de ansiedade. Perante circunstâncias de
maior conflito tenta mudar o comportamento do Outro de forma a proporcionar
estabilidade individual; e (D4) sensível a potenciais rejeições e abandonos
quando não em relação com o Outro. A solidão não é eficazmente tolerada.
Reforçando alguns destes dados evidenciam-se, igualmente, diferenças entre as
pacientes com esquizofrenia e as pacientes com demência, no desenvolvimento
psíquico de algumas das funções componentes da consciência da realidade do Eu e
do mundo externo. Segundo a abordagem de Bellak e Goldsmith (1984), a avaliação
das componentes desta função sugere que associado à esquizofrenia parece
existir (A3) uma marcada desrealização mas tendencialmente menos pronunciada do
que a despersonalização; (B2) marcada despersonalização, dissociação; (C2)
sensação marcada de estranheza, não pertença, ou sentimentos de grandiosidade.
O externo, o Outro, não fornece relação securizante. Grande discrepância entre
a auto-imagem e o Ideal do Eu; (C3) desvalorização. Identidade fragmentada, não
unificada; (D2) o fenómeno de fusão é proeminente, sem no entanto, ocorrer
total perda da distinção entre Eu e realidade externa. Poderão ocorrer reacções
extremas de aversão à fusão na forma de reforçar a separação, reivindicando
independência; (D3) identidade normalmente dependente do feedbackexterno,
quando este feedbacké negativo ou ausente, a consciência do Eu como entidade
separada e delimitada falta. Por outro lado, os resultados da avaliação
associados à demência indicam a existência de (A5) desrealização, só
excepcionalmente; (B5) fenómenos de despersonalização, igualmente raros; (C4)
personalidades as-if, desempenhando um role-playingao nível da identidade.
Sentimentos de humilhação; (C5) identidade mais ou menos estável. O sentimento
de identidade poderá faltar quando as circunstâncias externas não são
familiares. Sente-se valorizado perante os elogios do Outro; (D4) por vezes,
dependente do feedbackexterno para manter a identidade. Perante situações muito
específicas e de relativa estabilidade consegue manter-se independente do
suporte externo.
Tomando, globalmente, em análise estes dados e a análise, anteriormente feita
ao nível da prova projectiva TAT, pressupõem-se indicadores no sentido da
associação entre a esquizofrenia e uma relação de objecto, tendencialmente,
fusional/parcial (Eu não coeso/objecto parcial), própria de uma estrutura
psicótica, de tipo narcísico integral, de desinvestimento dos objectos da
realidade e a uma indistinção entre o "dentro" e o
"fora" (Bergeret, 2004; Grotstein, 1989; Spear & Sugarman,
1984; Steiner, 1991; Willick, 2001). Igualmente, parecem haver indicadores no
sentido da associação entre a demência e uma relação de objecto,
tendencialmente, anaclítica/clivada (Eu/objecto clivado), própria de uma
estrutura borderline, permanecendo centrada numa dependência anaclítica ao
Outro, apoiando-se nele, sendo um suporte securizante à sua angústia de perda,
abandono. Relação de dependência que continua a ser jogada e vivida a dois, no
entanto, existe separabilidade entre o Eu e o objecto, ainda que os limites
sejam permeáveis (Bergeret, 2004; Masterson & Rinsley, 1975; Spear &
Sugarman, 1984; Tuttman, 1990; Westen, 1990).
Algumas das possíveis limitações deste estudo estão relacionadas com a amostra
não se encontrar devidamente estratificada e homogeneizada, e devido ao
diagnóstico de demência englobar três etiologias diferentes e, adicionalmente,
de carecer da avaliação específica aos mecanismos de defesa.
Como sugestões para futuras investigações apresenta-se como de interesse o
explorar possíveis "arranjos espontâneos", sobretudo de tipo
narcísico e obsessivo, subjacentes à demência. A análise comparativa entre as
diferentes etiologias da demência e a medida psicológica em causa teriam,
igualmente, interesse.
Relembra-se Freud "Se atirarmos um cristal ao chão, ele parte-se; mas não
em estilhaços ao acaso. Ele divide-se, ao longo das linhas de clivagem, em
fragmentos cujos limites, embora invisíveis, estão predeterminados pela
estrutura do cristal" (1933, p. 71). Nisto se baseia a ideia deste estudo
exploratório, hipotetizando-se que, para "adoecer do ponto de vista
funcional ou orgânico", de uma determinada forma, é necessária uma pré-
estrutura específica.