Nota de Abertura: Investigação em intervenção precoce
Nota de Abertura: Investigação em intervenção precoce
Júlia Serpa Pimentel; Maria Teresa Brandão
A investigação em Intervenção Precoce, assim como os conceitos e as práticas,
têm-se vindo a constituir como objecto de interesse crescente a nível nacional.
Tal é bem evidente através da quantidade de encontros científicos e
profissionais bem como de trabalhos de investigação como doutoramentos,
mestrados e outros projectos que têm sido produzidos no nosso país, nos últimos
20 anos. Muitos deles, no entanto, não se encontram ainda publicados, pelo que
a sua existência não se encontra amplamente difundida.
Deste modo, este número especial da Análise Psicológica pretende dar
visibilidade a alguma da investigação que se tem vindo a realizar em Portugal
no âmbito Intervenção Precoce. Foi organizado na sequência de um convite feito
a vários investigadores pertencentes às Instituições de Ensino Superior que
mais se têm destacado no ensino e investigação sobre estas temáticas. A pronta
adesão e resposta de todos permite-nos apresentar um número temático com
contribuições muito variadas quer ao nível dos temas abordados quer ao nível
das metodologias de investigação utilizadas, constituindo, estamos certos, um
estímulo para a continuidade do interesse e divulgação dos trabalhos nesta
área.
Os dois primeiros artigos estudam percepções de profissionais e famílias
relativamente às práticas de intervenção precoce e à importância do suporte
social para as famílias com crianças em situação de risco ou com deficiência. O
enquadramento teórico de ambos enfatiza conceitos fundamentais na IP,
dispensando, assim, a sua abordagem nesta nota introdutória.
Seguem-se dois artigos em que, numa perspectiva de estudo de caso, se analisam
práticas em diferentes programas de IP e diferentes contextos de intervenção
(domicílio e jardim-de-infância) e que, nos casos atendidos em JI, mostram as
dificuldades experimentadas pelos profissionais na implementação das práticas
internacionalmente recomendadas.
Dando resposta às lacunas na formação dos profissionais de IP, o artigo
seguinte apresenta um programa de formação e investigação, em que estão
envolvidas várias instituições de ensino superior, e que visa melhorar as
práticas, nomeadamente na implementação de programas que privilegiem a
intervenção centrada nos contextos naturais de aprendizagem e nas rotinas
diárias da criança e da família.
O conceito de envolvimento das crianças com necessidades educativas especiais
atendidas em contextos pré-escolares é abordado nos dois artigos seguintes. Em
ambos se salientam as dificuldades que as crianças com NEE experimentam nas
interacções com os seus pares sem incapacidade e o papel crucial que os
educadores têm para que essas interacções ocorram e sejam promotoras do
desenvolvimento.
Os resultados da implementação de um projecto de acompanhamento e apoio à
prática pedagógica dos educadores, abordado no artigo seguinte, mostram as suas
potencialidades na inclusão de crianças com dificuldades emocionais e de
desenvolvimento em contexto de JI.
Os dados do estudo exploratório de um instrumento de avaliação de
desenvolvimento recentemente introduzido em Portugal - Ages and Stages
Questionnaire - indicam que, após a sua validação do ASQ-2 para a
população portuguesa, este instrumento poderá contribuir para enriquecer o
portfólio de instrumentos de avaliação de que dispomos para o rastreio e
avaliação de desenvolvimento das crianças e vir a preencher uma lacuna
existente no momento da avaliação em IP.
O último artigo, de carácter mais teórico, apresenta as potencialidades da
investigação com desenho de caso único para a educação especial e evidencia a
escassez da utilização dessa metodologia de investigação em Portugal.
Esperamos que este número especial constitua um entre vários contributos para a
divulgação e enriquecimento do conhecimento científico sobre a investigação em
intervenção precoce realizada em Portugal.