Discurso das mães e participação das crianças na resolução de tarefas de
seriação: Impacto do desenvolvimento cognitivo e da linguagem das crianças e
escolaridade das mães
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, os psicólogos do desenvolvimento têm vindo a agrupar-se em
duas grandes correntes. Os neo-nativistas que defendem que a evolução dotou a
espécie humana de aptidões específicas para o conhecimento em áreas
específicas, incluindo a matemática, a linguagem, a biologia e a psicologia
(Fodor, 1992; Leslie, 2000). Noutra corrente situam-se aqueles que se centram
nos aspectos culturais do desenvolvimento, em que o contexto cultural é
considerado como a única condição que permite o desenvolvimento das estruturas
cognitivas do ser humano.
Porém, no quadro teórico que adoptámos não encaramos o desenvolvimento como uma
dicotomia entre individual e social, mas antes como a diferenciação Vygotskiana
entre duas linhas de desenvolvimento, a individual (natural) e a cultural. Tal
como é definida por Vygotsky (1934/1985), a linha individual de desenvolvimento
diz respeito àquilo que o organismo consegue fazer sem a interferência directa
do outro, enquanto a linha cultural de desenvolvimento consiste naquilo que o
organismo conhece mas que tem origem nas acções em que tenta ver as coisas pela
perspectiva do outro (Tomasello 1999, 2000), incluindo o uso de objectos, que
se tornam símbolos.
Mas à medida que o desenvolvimento vai decorrendo estas duas linhas ficam
interligadas de tal forma, que é difícil distinguir o que provem de uma ou de
outra. Por exemplo, a primeira vez que um bebé de 6 meses tiver contacto com
uma colher usá-la-á para bater ou qualquer outra actividade, que Piaget (1967)
designa como reacção circular secundária, adquirindo um conhecimento individual
sobre as suas propriedades, construindo classificações práticas. Usar a colher
para comer, isto é, na perspectiva do outro, só é possível na relação com
outros mais competentes do seu grupo cultural, através da comunicação, em que a
imitação tem um papel relevante.
O desenvolvimento da linguagem na criança estaria igualmente relacionado com o
tipo de apoio (scaffolding) verbal e não verbal proporcionado pelas mães
durante os jogos nos dois primeiros anos de vida (Bruner, 1983; Snow, 1972;
Rome-Flanders, Cronk, & Gourde, 1995), nomeadamente quanto à capacidade da
criança em inferir as regras da comunicação. O momento de transição para a
adaptação cultural humana dar-se-ia cerca dos 9/12 meses (Tomasello, 2000),
quando a criança começa a envolver-se em jogos que implicam também um adulto e
um objecto ou acontecimento externo, ao qual estão os dois intencionalmente
atentos (atenção conjunta), estabelecendo níveis de “intersubjectividade” ou
compreensão partilhada sobre a actividade (Rommetveit, 1971/1974). Mas nem
todos os estudos demonstram a existência de uma relação significativa entre
apoio materno e o nível de aquisição da linguagem nas crianças (Rome-Flanders
et al., 1995), fazendo-nos crer que essa relação é apenas significativa entre
os 12 e os 15 meses. Mais tarde os benefícios do apoio materno estendem-se a
diferentes aspectos do desenvolvimento, que não é possível desligar da
linguagem.
Conceito de mediação cognitiva e metacognitiva
O conceito de mediação é usado por Vygotsky (1934/1985) para explicar que todos
os processos especificamente humanos seriam realizados através de instrumentos
psicológicos, como a linguagem, os sinais e os símbolos, usados pelo adulto
para atingir a atenção conjunta (simultânea), apropriados pela criança durante
a actividade conjunta, posteriormente internalizados e usados autonomamente.
Karpov e Haywood (1998) distinguem em Vygotsky, dois tipos de mediação: a
mediação cognitiva e a mediação metacognitiva. A mediação metacognitva inclui a
facilitação de determinados processos de auto-regulação, utilizando
instrumentos semióticos, nomeadamente a linguagem, que permitem o auto-
planeamento, auto-controlo e auto-avaliação das acções em função do objectivo.
A mediação metacognitiva dos processos psicológicos tem origem na comunicação
interpessoal. O uso do discurso egocêntrico, ou privado, segundo Vygotsky
(1934/1985), teria essa função a nível individual, traduzindo a internalização
da função reguladora da linguagem, no início exercida pelo outro (Bruner, 1983;
Cole, 1985; Rogoff, 1990; Wertsch, 1985; Wood & Middleton, 1975; Wood,
Bruner, & Ross, 1976).
O segundo tipo de mediação, a mediação cognitiva, referir-se-ia à aquisição de
instrumentos específicos necessários à resolução de problemas num determinado
domínio e está mais relacionada com o conhecimento declarativo, verbalista, em
que se incluem os conceitos definidos (Vygotsky 1934/1985).
Se o desenvolvimento de um conceito se inicia quando a criança aprende o termo
ou significado da palavra que designa esse mesmo conceito (Vygotsky, 1934/
1997), a aquisição de instrumentos psicológicos, incluindo os conceitos
construídos ao longo da história do homem, implica não só a aquisição de algum
conhecimento verbal, mas também de procedimentos e estratégias relacionados com
esses conceitos, isto é, de mediação cognitiva e metacognitiva.
Bronckart (1992, 1995) considera, por seu lado, que a função ilocutória do
discurso é a primeira significação que podemos atribuir à noção de mediação
semiótica no sentido em que falar é agir no mundo externo e sobre o outro, para
obter resultados determinados, ou seja, a mediação metacognitva exerce-se
através de actos de linguagem. A mediação cognitiva teria que ver com o
conteúdo proposicional, ou tópicos dos enunciados, que podem diferir, para um
mesmo domínio de resolução de problemas, em função do conhecimento dos
conceitos e significado das tarefas. Esta seria a segunda significação da noção
de função semiótica, de acordo com o mesmo autor.
As expressões referenciais (Wertsch, 1985) utilizadas pelas mães para fazer
convergir a atenção conjunta sobre um determinado objecto, constituem um
indicador das características dos objectos consideradas cognitivamente
pertinentes para a resolução da tarefa, impondo uma perspectiva e uma atitude
sobre como as coisas devem ser vistas, constituindo oportunidades para a
introdução de conceitos. Mas a criança só consegue compreender completamente a
tarefa quando é capaz de ver o objecto pela perspectiva do adulto, sendo essa
partilha de significados igualmente conseguida através da linguagem (Callaghan
& Rankin, 2002; Tomasello 1999; Wertsch, 1985).
Resolução conjunta de problemas entre pais e crianças e área de desenvolvimento
potencial (ou proximal)
Nos anos que precedem a entrada para o ensino pré-escolar, e poucos meses após
o nascimento, a resolução conjunta de problemas, no contexto de situações
experimentais, ou quase experimentais, tem sido cada vez mais utilizada com o
objectivo de identificar a natureza dos processos instrucionais dos pais, em
particular da mãe, e, por outro lado, para explorar a relação entre esses
comportamentos e a participação e/ou desempenho das crianças, na aquisição de
novas estratégias e significados.
Entende-se por resolução de problemas a necessidade de atingir um objectivo
(goal). Uma definição restrita de objectivo pode ser um estado mental que
representa uma situação desejada no estado do mundo. Para compreender e
representar a estrutura de “um comportamento dirigido a um objectivo” é
necessário que a criança seja capaz de compreender as relações causais entre
pares de acções, ligar múltiplas acções numa estrutura coerente e organizada, e
finalmente atribuir um estatuto particular a um elemento específico, que será
usado como foco da representação (Travis, 1997). Para isso é necessário
ultrapassar vários obstáculos, o que pode ser dificultado pelas estratégias
adoptadas e/ou falta de conhecimento, que impedem igualmente a avaliação do
resultado do processo de resolução (DeLoache, Miller, & Pierroutsakos,
1998). Assim, a resolução de problemas inclui uma actividade, uma tarefa
concreta, e uma actividade cognitiva específica.
A apropriação de novas estratégias e significados, dar-se-ia na zona de
desenvolvimento proximal, constructo definido como a diferença entre o que a
criança é capaz de fazer sozinha e o que faz sob a orientação ou ajuda de um
adulto (Vygotsky, 1934/1985). Esta área de desenvolvimento proximal seria
construída na dinâmica da própria interacção, orientada para um objectivo
determinado, normalmente estabelecido pelo adulto, e negociado com a criança no
processo interactivo. A performanceindependente da criança dependeria
largamente do tipo de orientação oferecida pelo adulto.
Vários estudos põem em evidência que os objectivos e estratégias de
scaffoldingdesencadeados pelos adultos, qualquer que seja a idade das crianças,
consistem essencialmente em aumentar o seu conhecimento, facilitar a execução
de uma tarefa difícil e manter a atenção da criança, em função da percepção que
têm das suas competências (Wood & Midddleton, 1975; Wood, Bruner, &
Ross, 1976). Contudo o tipo e quantidade de scaffoldingpodem variar em função
da actividade em causa e da cultura (Martin & Reutzel, 1996). Os resultados
da ajuda dada pelas mães também não têm sempre o mesmo efeito, dependendo
também das competências das crianças em determinados domínios, e o seu efeito
pode não ser imediato.
Scaffoldinge conhecimento implícito
Karmiloff-Smith (1992) propõe um modelo de desenvolvimento, que contribuiria
para explicar os efeitos não imediatos da ajuda do adulto ou de outros mais
competentes, o RepresentationalRedescription Model (RR), ou Modelo Redescritivo
Representacional, em que o processo de passagem do conhecimento implícito para
conhecimento verbalmente explícito, na sua forma declarativa, consiste num
processo de auto-organização endógeno que envolve uma tendência interna
(internaldrive) para uma melhor compreensão e controle.
O modelo RR pretende explicar como as representações das crianças se tornam
progressivamente mais flexíveis. Este modelo envolve um processo cíclico em que
a informação existente com uma finalidade (purpose) específica, se torna
progressivamente disponível, “através de processos redescritivos” (Karmiloff-
Smith, 1992, p. 25), para outros domínios do sistema cognitivo. Karmiloff-Smith
distingue o conceito de domínio do conceito de modularidade (Fodor, 1992),
considerando como domínios a linguagem, a física, a matemática e ainda micro
domínios, enquanto subconjuntos dos grandes domínios do conhecimento. O RR
considera três fases em que o conhecimento pode ser re-representado, ou
recodificado: o conhecimento Implícito (1) e o conhecimento Explícito (2) e
(3). A fase de conhecimento explícito 3 envolve o relato verbal dos processos
cognitivos e entra, portanto, no domínio da metacognição. Na fase 2 as crianças
têm acesso consciente às representações, mas ainda não fazem o relato verbal. A
passagem de uma fase para outra implica uma recodificação da informação, que é
essencialmente um processo endógeno.
No conhecimento implícito as representações têm a forma de procedimentos para
analisar e responder a estímulos externos, são informação codificada sob a
forma procedimental, são “aglutinadas” e por isso não é possível estabelecer
ligações dentro do mesmo domínio ou entre domínios do conhecimento. Este
conhecimento é difícil de transferir para tarefas semelhantes, e é pouco ou
nada afectado pela informação externa. Pine e Messer (1998) afirmam que, de
facto, quando as crianças estão ainda ao nível do conhecimento implícito, têm
dificuldade em usar a informação e a ajuda externa.
Trata-se de um processo por fases (e não por estádios) que ocorrem num ciclo
repetitivo (Karmiloff-Smith, 1992) em diferentes domínios, sendo possível
passar directamente da fase 1 para a fase 3. Por outro lado, os comportamentos
da fase 1 e 3 podem ser semelhantes, sendo necessário distinguir a mudança
comportamental da mudança representacional.
Aparentemente este modelo opor-se-ia à perspectiva sócio-constructivista,
derivada das teses de Vygotsky, e explicaria, pelo menos em parte, os
resultados obtidos por Kontos (1983). Com efeito, Kontos (1983) e Kontos e
Nicholas (1986), sugerem igualmente que a auto-directividade e as tentativas
solitárias e repetidas para resolver um problema, teriam, pelo menos, tanta
importância como o apoio em cooperação.
Na perspectiva sócio-construtivista Rogoff e Gardner (1984), Freund (1990),
Gauvain (1995), Elllis e Gauvain (1992), Delgado-Gaitan (1993), por exemplo,
põem em evidência o papel do adulto na eficácia do ensino em cooperação na
posterior realização autónoma. Estes resultados são também confirmados por
Doise e Mugny (1997), que mostram que a interacção entre pares, tal como o
scaffolding do adulto, facilitam o desenvolvimento.
Também Murphy e Messer (2000), seguindo o modelo RR, mostraram que a maioria
(76%) das crianças envolvidas numa situação de scaffolding com adultos
obtiveram ganhos numa tarefa que não lhes era familiar, de equilíbrio/ /
flexibilidade de pequenas varas de madeira, em particular as crianças que se
encontravam no nível de conhecimento implícito, em comparação com as que
trabalharam sozinhas ou com pares. O que é igualmente consistente com a
abordagem sócio-construtivista. No entanto, no mesmo estudo, 100% das crianças
que trabalharam sozinhas e se encontravam no nível 2 de Abstracção progrediram.
Estes resultados implicam que haverá momentos e domínios do desenvolvimento em
que trabalhar sozinho será tanto, ou mesmo mais eficaz do que com a ajuda de um
tutor.
Tolmie, Thomson, Foot, Whelan, Morrison e McLaren (2005) confirmam estes
resultados. Constatando que a aprendizagem de cor das regras de trânsito não
contribuía para alterar os comportamentos das crianças (5 a 8 anos),
verificaram que sob a orientação do adulto, melhoraram bastante o seu
comportamento, e que este progresso ainda foi superior quando a interacção com
o adulto foi complementada com a discussão entre pares. Além disso, constataram
que esta melhoria era mediada pelo nível de representação (verbalmente
explícito ou metacognivo), demonstrado pelas justificações das crianças para as
tomadas de decisão. Este facto é atribuído ao tipo de scaffolding dado pelo
adulto: os adultos, à medida que as crianças iam dando mais respostas
correctas, aumentavam o número de explicações, aumentando assim o
inputconceptual. A discussão entre pares teria a função de desenvolver as
representações explícitas adquiridas na interacção com o adulto, isto é, o
efeito tutor.
Como já foi afirmado, os efeitos da mediação do adulto podem não ser imediatos
(Connor & Cross, 2003). Tenebaum, Snow, Roach e Kurland (2005) verificaram
apenas uma relação entre as conversas das mães com os filhos acerca de ciência
e a compreensão de textos sobre ciência quando as crianças tinham 9, não se
verificando esta relação com crianças de 5 anos. Estes resultados parecem
confirmar que as crianças precisam, de facto, de avançar cognitivamente num
domínio de conhecimento específico, para poderem beneficiar do inputconceptual.
Na mesma linha de investigação, Philips e Tolmie (2007) verificaram também o
impacto do scaffolding parental, em função do nível de explicitação
(completamente, parcialmente ou minimamente explícito e implícito) do uso
estratégias e explicação dos princípios, na performancee compreensão do
equilíbrio da balança, em crianças de 6 a 8 anos. Neste estudo, não é só a
linguagem enquanto reguladora da acção, mas também o seu conteúdo
proposicional/referencial que está em causa, considerando que as explicações e
inputconceptual podem, pelo menos, acelerar e facilitar a aprendizagem e o
desenvolvimento. Conclui-se que um apoio eficaz para que as crianças atinjam o
nível superior da Redescrição Representacional (RR) exige a combinação de
operacionalizações explícitas e explicações de nível conceptual superior. Por
outro lado, a mediação linguística tem efeitos diferentes em função do nível de
performanceanterior da criança na tarefa (Conner & Cross, 2003).
Se a interpretação dos diferentes estudos tem sido objecto de controvérsia, a
partir dos resultados obtidos podemos afirmar que também o modelo de
Redescrição Representacional é mediado pela linguagem, implicando igualmente a
capacidade de ter em conta a perspectiva do outro no seu próprio comportamento,
capacidade esta que é desenvolvida no diálogo entre a criança e o adulto e que
é provavelmente implicitamente continuado internamente nas tentativas e treinos
solitários da criança.
Scaffolding e diferenças individuais
A importância dos contextos de educação informal, como o contexto familiar, tem
sido cada vez mais posta em evidência enquanto promotora do desenvolvimento
cognitivo e metacognitivo da criança, preparando-a simultaneamente para a
colaboração e auto-regulação na educação formal. Mas os pais diferem na
quantidade e tipo de scaffolding que dão aos seus filhos (Grusec & Goodnow,
1994; Rogoff, 1990). O apoio que permite a passagem para níveis superiores de
autonomia, através da transferência da regulação pelo outro para a auto-
regulação, seria o resultado de diferentes variáveis da família, reflectindo as
características pessoais dos seus membros, objectivos e valores, partindo do
princípio de que todas as mães/pais ajustam constantemente o seu próprio
comportamento às competências dos filhos e à interpretação que fazem das suas
respostas, e das suas próprias atitudes em relação à tarefa (Fidalgo &
Pereira, 2005; Freund, 1990; Gauvain, 1995; Gauvain, de la Ossa, & Hurtado-
Ortiz, 2001; Ossa & Gauvain, 2001; Rogoff, 1990; St-Laurent & Moss,
2002; Wertsch, 1985; Wertsch & Sammarco, 1985).
Por seu lado, Tolmie et al. (2005), consideram que o tipo de scaffolding
exercido pelos pais depende mais das expectativas que têm em relação aos filhos
e, por isso, é consistente ao longo do tempo, e pouco contingente em relação ao
comportamento da criança durante a tarefa, contrariamente ao afirmado por Wood
(1990), Heckhausen (1987), Connor e Cross (2003), entre outros. Com efeito, o
scaffolding e as questões metacognitivas postas pelas mães são o resultado de
um conjunto complexo de interacções de ordem social e individual, incluindo os
estados emocionais (Thompson & Williams, 2006).
Outra questão em aberto, consiste ainda em perceber se o conceito de
scaffolding se aplica apenas quando as crianças já têm algum conhecimento no
domínio da tarefa. O próprio Wood (1990) defende que o conceito de área de
desenvolvimento proximal é o mais adequado para explicar a mediação do adulto
(ou de outro que saiba mais), quando o conhecimento e a competência da criança
estão mais afastados das exigências actuais, tendo este apoio que assumir
formas diferentes das inicialmente identificadas como as mais eficazes no
scaffolding (Wood, Bruner, & Ross, 1976).
O estudo de Mulvaney, McCartney, Bub e Marshall (2006), mostra também que as
características individuais da criança e das mães interferem no tipo de
interacção. Dentre as variáveis da mãe destacam a intrusividade, que deverá ser
distinguida de directividade, o conhecimento que a mãe tem do desenvolvimento
do seu/sua filho(a), anos de escolaridade da mãe, sentimentos de afecto em
relação à criança, o grau de estilo democrático e disponibilidade, e do modelo
interno da relação (Moss 1992). Além disso, Neitzel e Stright (2003)
encontraram igualmente correlações positivas e significativas entre os anos de
escolaridade da mãe e o tipo de regulação da dificuldade da tarefa,
disponibilidade de informação metacognitiva, encorajamento ou feedbackpositivo,
enquanto a rejeição dos comportamentos da criança (intrusividade) apresenta uma
correlação negativa.
No que respeita às variáveis das crianças, destacam-se o temperamento e o
género. Por seu lado as mães com baixa escolaridade tendem a percepcionar os
filhos como mais difíceis. A educação das mães aparece também com um efeito
moderador das relações entre tolerância das mães e o temperamento da criança, e
o regulamento da dificuldade da tarefa, e entre o temperamento das crianças e o
encorajamento para que estas se envolvam activamente na tarefa. Quando as
crianças são percepcionadas com temperamento difícil, os pais com níveis
educativos superiores usam um repertório mais alargado de estratégias,
acomodando-se com mais facilidade às dificuldades dos filhos.
No estudo de Mulvaney et al. (2006), quer a inteligência verbal das mães quer
dos filhos aparecem como preditores do tipo de apoio fornecido. Além disso, a
ajuda proporcionada pelas mães, conjuntamente com o desenvolvimento cognitivo
anterior dos filhos, aparecem como preditores da sua adaptação no primeiro ano
escolar, aumentando a receptividade das crianças à instrução formal.
No estudo de Wertsch, Minick e Arns (1984), foram observadas díades mãe-criança
(as mães só tinham 4 anos de escolaridade formal) e díades educadora-criança.
Os resultados mostraram que as mães usam mais a regulação directa e executam
mais frequentemente as acções do que as educadoras. Este facto seria devido a
uma orientação para a tarefa versusorientação para processo. Moss e Blicharski
(1986) e Renshaw (1992) mostraram que as mães orientadas para o processo também
são mais elaboradas e estruturantes, dando mais feedbackmetacognitivo.
Estes resultados aparecem confirmados por outros posteriores. Sigel (1997),
Palácios, Gonzalez e Moreno (1992), Mendonza (1995), Sorsby e Martlew (1991),
Deleau, Gandon e Taburet (1993), que analisaram o discurso regulador das mães
em termos de estratégias de distancing (Sigel, 1997), constatando que quanto
mais baixo era o nível de escolaridade das mães, mais baixos eram os níveis de
distancing utilizados. Verificaram também que os níveis de distancing variavam
em função da natureza da tarefa. Estes dados questionam a consistência das
estratégias dos pais, ao longo do tempo, quando analisadas independentemente
das tarefas, e contrariam a persistência de um mesmo tipo de scaffolding,como
afirmam Tolmie et al. (2005).
Outros autores argumentam que estes resultados seriam também explicados pelo
facto de as famílias de classe média incluírem no seu curriculum familiar mais
tarefas e estilos de comunicação próximos dos usados na educação formal
(Guberman & Greenfiel, 1991; Heath, 1986a,b; Rogoff, Mistry, & Göncü.,
1993; Tudge, Putman, & Sidden, 1994).
No entanto, um envolvimento social responsivo e sensível entre os pais menos
escolarizados e os seus filhos, funciona como um bom prognóstico para o
desenvolvimento, atenuando os efeitos de uma experiência escolar menos vasta,
podendo ser tão eficazes como os de classe média, em função da natureza das
tarefas (Haden & Fivush, 1996), da dificuldade que apresentam para as
crianças e do objectivo das mesmas (Delgado-Gaitan, 1993; Elllis & Gauvain,
1992; Gauvain, 1995). Por sua vez, o scaffolding das mães de nível de
escolaridade superior também varia em função de se tratar uma tarefa doméstica
ou de uma tarefa escolar. Nas tarefas domésticas (por exemplo, na cozinha a
fazer bolos) o apoio é mais variado, predominando a modelagem sem palavras,
sorrisos, tocar, enquanto nas tarefas escolares as mães usam estratégias mais
activas, como a redução de passos estratégicos, feedbackacompanhado de
comentários e correcções explícitas. Por sua vez, as crianças (3/4 anos), nas
tarefas domésticas respondem proporcionalmente com um nível superior de
linguagem (Kermani & Janes, 1999).
Quanto ao uso de questões metacognitivas na interacção com os filhos, Neitzel e
Stright (2003) encontraram igualmente uma correlação positiva entre o nível de
escolaridade das mães, a transferência de responsabilidade pela tarefa para os
filhos, o conteúdo metacognitivo dos seus enunciados e o suporte emocional.
Contudo, Tenenbaum et al. (2005) constataram que as mães de níveis mais baixos
de escolaridade formal são igualmente eficazes quando se envolvem em conversas
sobre questões científicas com os filhos.
Concluindo, entre as famílias de baixo nível sócio-económico e baixa
escolaridade podemos encontrar uma grande diversidade de técnicas de
scaffolding que, sendo mal conhecida, conduziu a considerar-se que estas
crianças estão menos expostas a desafios conceptuais através da linguagem,
desafios esses que precedem a consciência metacognitiva, tal como auto-
monitorização, planeamento e auto-avaliação. Esta diferenciação nos resultados
varia em função das culturas. Kermani e Brenner (2000), por exemplo, mostraram
que mães iranianas de classe média alta, vivendo nos Estados Unidos, foram tão
directivas como as mães de níveis sociais mais baixos, mas americanas. Contudo,
quando as crianças realizaram as tarefas de forma independente não mostraram
diferenças significativas. Já Huntsinger e José (1995) tinham encontrado uma
relação positiva entre o estilo directivo dos pais chino americanos e a aptidão
das filhas para a matemática.
O discurso de scaffolding das mães
Sendo a mediação verbal a principal componente do scaffolding das mães na
resolução conjunta de problemas com os filhos em idade pré-escolar, o discurso
nem sempre é a estratégia mais eficaz, podendo os comportamentos não verbais, e
em particular a execução da tarefa pela mãe, funcionar como comportamento a
imitar.
O scaffolding implica sempre da parte do tutor o envolvimento numa rotina de
instrução, em termos de intenções comunicativas. As mães usam actos de
linguagem (Searle, 1972/1996) para Iniciar a interacção, como as directivas, e
obter uma Resposta. Sempre que os pressupostos da directiva são conseguidos,
esta é seguida de uma Avaliação (Mehan, 1998), ou de um Comentário, que podem
tomar a forma de acto de linguagem expressivo ou assertivo, ou dos dois. Se o
acto de Iniciação não obtém a resposta esperada, a mãe pode simplesmente fazer
uma avaliação negativa, executar ela própria a acção acompanhada ou não de
explicações, ou ainda simplificar e explicitar o conteúdo da directiva (Fidalgo
& Pereira, 2005; Wertsch, 1985), até a criança ser capaz de lhe dar
cumprimento.
Esta função ilocutória do discurso (Searle, 1972/1996) constitui o primeiro
significado de mediação referido por Bronckart (1992, 1995), e estaria ligada à
mediação metacognitiva (Karpov & Haywood, 1998), e, portanto ao
fornecimento de estratégias de resolução e controle.
O conhecimento declarativo, ou informação conceptual, constitui a mediação
cognitiva, segundo Karpov e Haywood (1998). Este domínio da mediação teria que
ver com o conteúdo proposicional dos enunciados e é o segundo significado de
mediação para Bronckart (1992, 1995), sendo certo que estes dois aspectos da
mediação estão sempre presentes no scaffolding: o primeiro nas intenções
comunicativas, e o segundo no conteúdo dos actos de linguagem, mais ou menos
explícitos e sob a forma como são referidos ou descritos os objectos sobre os
quais as acções incidem, ou perspectiva referencial (Fidalgo & Pereira,
2005; Wertsch, 1985).
Objectivos e hipóteses
O presente estudo tem como objectivo aprofundar a relação entre o scaffolding
das mães e a transferência de responsabilidade para os filhos em duas tarefas
do domínio da seriação. A utilização de duas apresentações diferentes no mesmo
domínio, a construção de uma seriação de comprimentos, justifica-se pela
necessidade de pôr em evidência a mediação metacognitiva e a mediação
cognitiva.
De acordo com a revisão da literatura as diferenças nos discursos das mães,
nomeadamente quanto ao uso da linguagem na actividade conjunta e suas
consequências no desempenho dos filhos, têm sido muitas vezes atribuídas a
variáveis sociais das mães e das famílias (nível de escolaridade, por exemplo),
sem ter em conta o conhecimento prévio do domínio da tarefa pelas crianças e o
seu nível de desenvolvimento.
O nosso objectivo consiste em mostrar a relação entre o nível de escolaridade e
o discurso regulador das mães e a performancedos filhos em tarefas de seriação,
mas considerando simultaneamente as variáveis das crianças, nomeadamente idade,
desenvolvimento cognitivo e da linguagem.
Começámos por verificar se as características do discurso das mães variam, quer
na mediação metacognitiva, na função ilocutória, quer na mediação cognitiva,
parcialmente operacionalizada na perspectiva referencial, em função das
características das tarefas e num domínio do conhecimento que está fora das
competências das crianças entre os 3 e os 5 anos. Sendo o discurso das mães
diferente em função da tarefa, analisámos, para cada uma delas, a relação entre
as variáveis do discurso, o tipo de regulação, a escolaridade das mães, as
características das crianças e a transferência de responsabilidade.
A nossa hipótese geral é que a escolaridade das mães estaria correlacionada com
a transferência de responsabilidade, mas seria mediada pela sua idade e nível
de desenvolvimento dos filhos, e que uma vez controladas as variáveis de
desenvolvimento das crianças, não se verificará qualquer relação significativa
entre o nível de escolaridade das mães e a participação das crianças na
realização de cada uma destas tarefas específicas. Contudo, quando controlamos
a escolaridade das mães, verificar-se-á uma relação significativa entre as
variáveis de desenvolvimento e a participação das crianças na tarefa.
MÉTODO
Participantes
Participaram neste estudo 50 díades mãe-criança. O número de anos de
escolaridade das mães era, em média, de 11 anos (de 4 a 19 anos, d.p. 5,6),
sendo a sua média etária de 33 anos (de 23 a 44 anos, d.p.5,05), a média do
número de filhos é de 1,64 (de 1 a 3, d.p.0,66). A média de idades das crianças
era de 53,16 meses (de 36 a 71 meses, d.p.10,29), sendo igualmente distribuídas
pelos dois géneros. A origem sócio-económica das famílias era de nível baixo a
nível médio alto. As crianças frequentavam Jardins-de-infância privados e/ou
subsidiados pelo Estado, na zona central de Lisboa.
Procedimento e descrição das tarefas
Cada díade mãe-criança foi observada enquanto realizavam três tarefas que
exigiam diferentes estratégias de resolução, embora fossem todas tarefas de
seriação.
A primeira tarefaserviu como introdução e treino. Consistiu na introdução de
cinco círculos da mesma cor num encaixe, por ordem de dimensões.
A segunda (ou terceira tarefa) consistiu na construção de uma série de
comprimentos de 10 réguas de madeira com duas cores alternados, com dimensões
entre 20 e 1,2cm. Para a construção desta série, foi fornecido um modelo com
uma série já construída. A instrução foi dirigida à criança, pedindo-lhe para
fazer igual ao modelo com a ajuda da mãe. A construção da série com modelo teve
por objectivo pôr em evidência o uso dos aspectos metacognitivos do discurso
que integram a função do modelo enquanto mediador semiótico no processo de
resolução.
A terceira tarefatambém implicou a construção de uma série de comprimentos com
réguas de madeira, com as mesmas dimensões que a anterior, mas cada régua com
uma cor diferente e sem qualquer modelo. A instrução foi mais uma vez dirigida
à criança: “Tens aqui um montinho de réguas, e eu gostava que as arrumasses da
maior para a mais pequena ou da mais pequena para a maior, de modo a fazer uma
escadinha, e a tua mãe vai ajudar-te”.O objectivo desta tarefa era provocar uma
situação didáctica, em que as mães, devido à instrução dada pelo observador,
fossem induzidas a fazer referência às dimensões das réguas e relações
transitivas, e não às cores, isto é, pôr em evidência os aspectos do discurso
ligados à mediação cognitiva, com a introdução de novos conceitos. Não é de
esperar que as crianças nas idades observadas dominem, ou mesmo compreendam,
essas referências. Contudo, o nosso objectivo é observar como as mães
introduzem novos conceitos nas estratégias de resolução.
Estas duas tarefas de seriação foram experimentadas previamente em crianças de
5 anos que não participaram este estudo. A ordem de apresentação das séries foi
balanceada.
Estas tarefas foram realizadas numa única sessão, que durou entre 6 a 8
minutos, e foi gravada em vídeo.
Codificação
Os enunciados das mães e das crianças foram transcritos dos vídeos,
acompanhados com a descrição dos comportamentos não verbais relevantes, tais
como apontar ou a execução da acção pela mãe ou pela criança. No entanto,
apenas o discurso da mães foi codificado, verificando-se também que as crianças
pouco falaram.
Discurso regulador das mães (scaffolding)
Mediação metacognitiva e função ilocutória do discurso
O discurso das mães foi segmentado em enunciados, tendo em conta os seguintes
critérios: (1) mudança de conteúdo específico e/ou (2) pausa de, pelo menos, 2
segundos.
Seguidamente cada um enunciados foi codificado em função das suas intenções
comunicativas em (Searle, 1972/1996):
Directivas: são enunciados que induzem a criança a executar uma acção.
Considerámos directivas de regulação geral do comportamento da criança, de
encorajamento e de interdição. As primeiras solicitavam a participação activa
(“Vá, começa lá!”) enquanto as de interdição impedem a criança de prosseguir
uma acção (“Pára de brincar com isso!”).
Para codificar as directivas dirigidas especificamente à execução das operações
inerentes à tarefa adoptámos o conceito de abreviação de Wertsch (1985), por
sua vez inspirado na análise do discurso interno feita por Vygotsky. A
abreviação, neste contexto, é uma redução de uma representação linguística
completa e explícita de uma situação determinada, em que todos os aspectos da
situação podem ser integralmente ou explicitamente representados no discurso,
ou então são apenas representados apenas alguns. Codificadas (Fidalgo &
Pereira, 2005; Wertsch, 1985). Codificámos assim as directivas da mãe em
directivas abreviadas (DA) e não abreviadas (DNA), em função do nível de
implicatura das estratégias de resolução contidas nas directivas, sendo o nível
de concordância entre dois codificadores independentes de K=.82 (Cohen).
Segundo Wertsch, a abreviação é um dos mecanismos semióticos usados pelo
adultos para dar ordens de carácter metacognitivo de modo a estabelecer níveis
de intersubjectividade entre os adultos e as crianças, e assim favorecer a
transição do funcionamento inter-individual para o intra-individual.
Quando a criança consegue responder adequadamente a uma directiva abreviada da
mãe, quer dizer que partilha com esta o mesmo nível de intersubjectividade
(Rommetveit, 1971/1974; Wertsch, 1985) sobre as estratégias de resolução, visto
não precisar que estas sejam verbal e completamente explicitadas.
Expressivos: enunciados que comunicam o estado afectivo ou cognitivo (positivo
ou negativo) das mães sobre a acção das crianças (“Muito bem”; “Conseguiste”;
“Não é assim!”).
Assertivos: enunciados que representam o estado do mundo, dando explicações ou
descrevendo o resultado da acção (“Estão os dois iguais”– apontando para a
cópia e o modelo, na seriação com modelo; “Estás a ver, é uma grande e depois a
mais pequena a seguir”– apontando a série sem modelo já construída.
A combinação de dois actos de linguagem foi considerada quando o tópico era o
mesmo e os enunciados estavam separados por menos de dois segundos.
Doze transcrições foram codificadas de forma independente e os níveis de acordo
situaram-se entre .71 e .80 (K de Cohen).
Mediação cognitiva e perspectiva referencial
A forma como o locutor identifica o referente tem que ver com a perspectiva
conceptual que pretende introduzir na execução da tarefa. As expressões
referenciais utilizadas podem minimizar ou maximizar a informação sobre o
referente. Seleccionámos expressões que apresentam três níveis diferentes de
informação, que podem ser usadas isoladamente ou agregadas (Fidalgo &
Pereira, 2005; Wertsch, 1985): (1) deícticos,sinais indexicais verbais ou não
verbais, tais como apontar, “esta”, “aquela”, “aqui”, “ali”,que introduzem a
informação mínima para identificar o referente tal como deve ser percepcionada
na situação discursiva;(2) expressões comuns de referência,o nome ou
categorização mais comum para o objecto em questão, mas que pode ser usado
noutros contextos e não apenas no contexto específico da tarefa (Ex.: a
expressão “a verde”, pode ser usada para referir a régua que da dimensão
seguinte na série, mas não é específico da tarefa); e (3) as expressões
específicas do contexto, que introduzem mais informação na situação discursiva
que as duas anteriores, isto é, categoriza o referente na perspectiva em que o
adulto considera que deve ser considerado na situação específica (Ex.: a
expressão “o mais pequeno a seguir”), em que os deícticos e as expressões
comuns de referência não dão indicações específicas sobre a tarefa, a não ser
que a criança já a domine cognitivamente, o que não é manifestamente o caso.
Estes três tipos de expressões podem ser usados isoladamente ou agregados, e a
partir dessa agregação estabelecemos três níveis hierárquicos, de acordo com a
prevalência de uma função meramente instrumental para atingir a atenção
conjunta ou, se além disso, introduzem mais informação conceptual directamente
com o problema específico (Deleau, 1989, 1990; Fidalgo & Pereira, 2005;
Wertsch, 1985):
Nível 1:sinais indexicais verbais e não verbais (apontar, dar); expressões
comuns de referência acompanhadas de sinais indexicais verbais ou não verbais.
Nível 2: Expressões comuns de referência: expressões comuns de referência ou
sinais indexais não verbais acompanhados de expressões informativas do
contexto.
Nível 3: Expressões informativas do contexto sem qualquer outra expressão
referencial.
Os níveis de concordância (K de Cohen) obtidos por duas codificações
independentes foram os seguintes; sinais indexicais .98; expressões comuns de
referência .87; expressões informativas do contexto .88. Para os 3 níveis de
agregação os níveis de concordância foram os seguintes: nível 1: .90; nível 2:
.79, nível 3: .86.
Regulação directa e acções executadas pelas mães
As tarefas foram divididas em episódios, considerando-se um episódio, o
conjunto de todas as acções necessárias para colocar correctamente cada uma das
réguas no local adequado. Foram identificadas, para cada tarefa, as acções
executadas pela mãe, sem qualquer interferência física da criança, mas em que
esta mantinha a atenção focada na acção.
As acções realizadas pelas crianças, mas precedidas por directivas não
abreviadas (DNA), ou qualquer outra indicação não verbal, são consideradas sob
regulação directa.
Transferência de responsabilidade para a criança
Para a avaliar o nível de participação da criança durante a resolução das
tarefas foram consideradas todas as acções da criança realizadas sem qualquer
interferência da mãe, isto é, autonomamente, ou sob regulação indirecta.
Considera-se que uma acção é executada sob regulação indirecta quando é
precedida por uma directiva abreviada (DA). O somatório destas acções traduz o
nível de transferência de responsabilidade da tarefa para a criança.
Avaliação do desenvolvimento cognitivo e da linguagem das crianças
A fim de controlar a relação entre o desenvolvimento das crianças e o apoio
prestado pelas mães, na semana seguinte à observação foram aplicados às
crianças participantes as Matrizes Progressivas de Raven (versão caderno
colorido) e a Escala de Compreensão do teste de linguagem de Reynell.
RESULTADOS
O discurso das mães
Para que as crianças participem activamente na resolução da tarefa têm que
representar previamente o seu objectivo. Enquanto representações mentais os
objectivos das tarefas não são estritamente observáveis, tendo que ser
inferidos (Gattis, Beering, & Wohlschlager, 2002), no caso presente,
através do modelo, ou outro mecanismo semiótico como a observação do
comportamento da mãe. Na seriação sem modelo o objectivo da tarefa é inferido a
partir das acções executadas pela mãe e pela criança sob regulação directa, o
que lhe permite construir/ /antecipar a configuração da série: as mães ordenam
as primeiras réguas e a criança continua.
Mediação metacognitiva e função ilocutória do discurso
Foram aplicados testes não paramétricos, tendo sido utilizadas proporções, para
controlar o efeito quantidade de fala em função do modo de apresentação da
tarefa.
Com efeito os actos de linguagem (Searle, 1972/1996) emitidos pelas mães, em
particular o tipo de directivas dirigidas à execução da tarefa variam em função
da existência ou não de modelo.
Pudemos constatar, pelo teste de Wilcoxon (Tabela 1), que se verificam
diferenças significativas entre as duas seriações nas directivas abreviadas
(N=50, Z=-1,984, p=0,026), sendo estas mais frequentes na série com modelo
(N=50, Z=-2,731, p=0,005), enquanto as directivas não abreviadas são mais
frequentes na série sem modelo. Os actos expressivos positivos associados a
assertivos (N=50, Z=-1,965, p=0,027) e a directivas abreviadas (N=50, Z=-1,804,
p=0,042) são proporcionalmente mais frequentes na série com modelo. Porém,
considerando que as frequências observadas nestas categorias são marginais,
dada a sua dispersão, o resultado mais saliente consiste na inversão das
proporções de directivas abreviadas e não abreviadas nas séries com e sem
modelo (41% dos actos de linguagem proferidos pelas mães).
TABELA 1
Actos de linguagem por tarefa (proporções médias)
Mediação cognitiva – Perspectiva referencial
Quanto ao conteúdo proposicional, apresentamos a seguir as proporções médias
dos diferentes níveis da perspectiva referencial em por cada uma das tarefas.
TABELA 2
Perspectiva Referencial – Proporções médias por tarefa
Verificámos, utilizando o teste de Wilcoxon, a existência de diferenças
significativas nas expressões referenciais de nível 2 (N=46, Z=-4,745, p<0,001)
e nível 3 (N=46, Z=-3,422, p<0,001), sendo a série sem modelo que suscita o uso
mais frequente de palavras que referem as relações assimétricas (“mais pequeno
do que...”, “maior do que...”, “maior a seguir...”), sem qualquer outra
expressão referencial, enquanto na série com modelo são proporcionalmente mais
referidas a cor e a dimensão.
Em resumo, e a partir dos dados acima referidos, podemos dizer que a seriação
com modelo mobiliza mais desafios metacognitivos, acentuando os procedimentos
(directivas abreviadas), enquanto a seriação sem modelo evoca com mais
frequência a mediação cognitiva através da utilização do nível superior de
expressões referenciais (relações assimétricas).
Discurso, tipo de regulação, escolaridade das mães, variáveis nas crianças e
transferência de responsabilidade
Uma vez que a transferência de responsabilidade da tarefa para a criança, e o
tipo de regulação exercido pela mãe, decorrem dos mecanismos semióticos
utilizados durante a actividade conjunta, apresentamos a seguir as correlações
entre as categorias do discurso que variam em função das tarefas, a
transferência de responsabilidade e a regulação directa, considerando os actos
de linguagem directivos e os níveis 2 e 3 da perspectiva referencial.
Acrescentámos ainda as acções executadas pela mãe, passíveis de serem imitadas,
enquanto mecanismo semiótico.
O nível de escolaridade das mães está positiva e significativamente
correlacionado com o desenvolvimento cognitivo e da linguagem das crianças
(r=0,308 p<0,05 e r=0,447 p<0,01, respectivamente), mas apenas apresenta uma
correlação positiva com a transferência de responsabilidade para a criança, na
seriação com modelo (r=0,323 p<0,05). A transferência de responsabilidade pela
tarefa para a criança é também superior na série com modelo (N=50, Z=-3,045,
p<0,00).
Para separarmos os resultados derivados da escolaridade das mães e do
desenvolvimento e idade dos filhos, passámos à realização de correlações
parciais, para cada tarefa.
Seriação com modelo
Na primeira correlação parcial controlámos as variáveis relativas às crianças,
idade, desenvolvimento cognitivo e da linguagem (Tabela 3).
TABELA 3
Série com modelo – Correlações parciais, controlando as variáveis idade, scores
na Raven e Reynell das crianças, entre o discurso das mães, regulação
directa,escolaridade das mães e transferência de responsabilidade para a
criança
Quanto às variáveis de discurso das mães e o seu nível de escolaridade apenas
se constata que quanto mais elevado o nível de escolaridade das mães maior a
tendência para utilizar o nível 3 da perspectiva referencial (r=0,458, p<0,01),
o que não interfere significativamente na transferência de responsabilidade
para a criança (r=-,20).
A transferência de responsabilidade para a criança não apresenta correlações
significativas com a escolaridade da mãe (r=0,179, p=0,228), mas apenas uma
correlação negativa e significativa com as acções realizadas pelas mães
(r=-,668, p<0,01), como seria de esperar. Verifica-se uma tendência não
significativa para as mães com mais baixo nível de escolaridade usarem com mais
frequência as acções para imitar.
Na segunda correlação parcial controlámos a variável escolaridade da mãe, e os
resultados estão igualmente de acordo com a hipótese inicialmente colocada.
Assim, as variáveis do discurso e regulação das mães (Tabela 4) aparecem
negativa e significativamente correlacionadas com as transferência de
responsabilidade para a criança, enquanto a idade (r=0,646, p<0,01), os scores
da Raven (r=0,621, p<0,01) e Reynell (r=0,621, p<0,01) mostram correlações
positivas e elevadas com a transferência de responsabilidade para a criança.
TABELA 4
Série com modelo – Ccorrelações parciais, controlando a escolaridade das mães,
entre discurso das mães, regulação directa, idade, scores de Raven e Reynell
nas crianças e transferência de responsabilidade
A regulação directa apresenta uma correlação positiva e significativa com as
directivas abreviadas e não abreviadas (r=0,499, p<0,01 e r=0,757, p<0,01
respectivamente), e os níveis 2 e 3 da perspectiva referencial presentes no
discurso materno (r=0,590, p<0,01 e r=0,578, p<0,01, respectivamente), o que
mostra que a exposição da criança a directivas abreviadas, que depois são
desdobradas em directivas não abreviadas contendo expressões referenciais de
nível 3 (r=0,524 p<0,01) tem pouco impacto na transferência de responsabilidade
para a criança, visto não se verificar qualquer correlação significativa. Por
outro lado, a criança é confrontada com o inputconceptual que acompanha os
procedimentos.
Seriação sem modelo
Na correlação parcial com controlo das variáveis das crianças (idade, scores de
Raven e Reynell, Tabela 5), tal como na seriação com modelo, a transferência de
responsabilidade para as crianças não apresenta uma correlação significativa
com a escolaridade das mães (r=0,119, p>0,05).
TABELA 5
Série sem modelo – Correlações parciais, controlando os scores Raven e Reynell
nas criança, entre a escolaridade das mães, discurso das mães, regulação
directa, idade e transferência de responsabilidade pela tarefa para a criança
A escolaridade das mães apenas apresenta uma correlação positiva e
significativa com a utilização de expressões referenciais de nível 3 (r=0,289,
p<0,05: quanto mais elevada a escolaridade das mães mais utilizam a linguagem
das relações assimétricas, em particular no contexto das directivas não
abreviadas (r=0,364, p<0,05). Constata-se igualmente uma correlação positiva e
significativa entre a regulação directa e o uso de expressões de nível superior
(r=0,415, p<0,01), independentemente do nível de escolaridade das mães.
Constata-se uma correlação significativa entre a regulação directa e a inclusão
nas directivas não abreviadas de expressões referenciais de nível superior
(r=0,415, p<0,01).
Na segunda correlação parcial, quando controlamos a escolaridade das mães
(Tabela 6), verificam-se correlações positivas e bastante significativas entre
as variáveis idade (r=0,493, p<0,01), score da Raven (r=0,459, p<0,01) e da
Reynell (r=0,397, p<0,01), e transferência de responsabilidade para as
crianças.
TABELA 6
Série sem modelo – Correlações parciais, controlando a escolaridade das mães,
entre discurso das mães, regulação directa, idade, scores de Raven e Reynell
nas crianças e transferência de responsabilidade
Verificam-se correlações elevadas entre a utilização de expressões referenciais
de nível 2 e 3 (r=0,413, p<0,01 e r=0,402, p<0,01, respectivamente) no contexto
das directivas não abreviadas que constituem grande parte da regulação directa
exercida pelas mães (r=0,640, p<0,01), mas sem impacto na transferência de
responsabilidade para a criança: mais uma vez não se verifica qualquer
correlação significativa entre as directivas abreviadas e transferência de
responsabilidade para as crianças.
DISCUSSÃO
Os resultados globais da análise do discurso das mães mostram que estas
modificaram os seus comportamentos ao longo da resolução de duas tarefas do
mesmo domínio do conhecimento, mas apresentadas de forma diferente: a
construção de uma série de comprimentos, com e sem modelo. Verificámos que,
apesar das alterações na mediação metacognitiva e cognitiva, as mães mantêm o
scriptgeral (Iniciação, Resposta Avaliação) de uma interacção de resolução
conjunta entre um que sabe mais e outro que sabe menos, isto é, começa pelo uso
de actos de linguagem de iniciação e encorajamento, seguido de directivas para
obter uma Resposta, seguida de uma Avaliação, sob a forma de um acto
expressivo, com ou sem assertivo (Mehan, 1998).
No que respeita à função ilocutória do discurso, e à mediação metacognitiva,
podemos constatar que existe um efeito da tarefa, o que contraria alguns
estudos que defendem que a regulação exercida pelos pais é pouco contingente ao
comportamento da criança durante a interacção e é consistente ao longo do tempo
(Tolmie et al., 2005). Os nossos resultados vão no sentido de confirmar os
resultados e afirmações de Wood (1990), Heckhausen (1987), Connor e Cross
(2003) e Tenebaum et al. (2005).
Por outro lado, e dado que as tarefas propostas estão afastadas do conhecimento
e competências actuais da maioria das crianças, a mediação do adulto assume
formas diferentes, e nem sempre as mais indicadas para o que Wood, Bruner e
Ross (1976), consideram scaffolding eficaz, mas que são adequadas ao nível de
performancedas crianças, como por exemplo usar directivas abreviadas na
seriação com modelo, e as expressões que contêm apenas referências às relações
assimétricas mas a que as crianças não respondem, criando uma nova área de
desenvolvimento proximal, funcionando como estímulos externos. A existência do
modelo na série exige da parte da mãe o uso mais frequente de directivas
abreviadas, a partir das quais a criança tem que inferir qual a importância
deste, enquanto mecanismo semiótico, no desempenho da tarefa. Com efeito, para
que a criança compreenda a imagem ou o objecto protótipo enquanto dispositivo
semiótico específico, é necessário efectuar uma série de relações e
inferências, cuja natureza e ordem não estão indicadas, não bastando o processo
de percepção das semelhanças. Estas operações podem ser expressas de forma
figurativa, mas são necessários sinais indexicais e o estabelecimento de
relações verbais (deícticos) que permitam a semiotização do ícone a nível
pragmático.
No que diz respeito à mediação cognitiva (perspectiva referencial) é na série
sem modelo que se regista uma proporção significativamente mais elevada de
expressões de nível 3, isto é, expressões que referem as relações assimétricas
sem qualquer outra expressão referencial menos específica no contexto da
tarefa, como a cor. As mães interpretaram esta tarefa como didáctica, e embora
os filhos não respondessem às directivas que continham apenas estas expressões
de nível superior, as mães incluíram-nas directivas não abreviadas, nos actos
expressivos negativos acompanhados de directivas abreviadas, e utilizaram as
expressões referenciais de nível 2, expressões que incluíam simultaneamente a
cor e a relações assimétricas.
Quando relacionamos as variáveis de suporte das mães, incluindo as acções
executadas por estas, a regulação directa, as directivas não abreviadas e a
utilização de expressões referenciais, verificam-se correlações negativas com a
transferência de responsabilidade, o que quer dizer que as crianças realizam as
tarefas sem intervenção das mães, o que não implica necessariamente a
compreensão da operação em curso.
Assim, a transferência de responsabilidade para a criança não se apresenta
correlacionada com as directivas abreviadas e as expressões referenciais de
nível superior nas duas seriações. Esta constatação parece indicar que os
desafios semióticos contidos nas directivas abreviadas e o inputconceptual das
expressões referenciais, não tiveram impacto no processo de resolução das
crianças. Consideramos que tal se deve ao facto de ser a primeira (ou das
primeiras vezes) vez que as crianças mais novas entram em contacto com os
procedimentos e a linguagem própria das relações assimétricas em simultâneo, o
que constituiria uma iniciação ao conhecimento implícito, em que a ajuda do
adulto tem pouco ou nenhum impacto.
Os resultados obtidos apontam igualmente para a confirmação da nossa hipótese
inicial, segundo a qual a transferência de responsabilidade para a criança é
mediada pelo seu nível de conhecimento nestas tarefas específicas, podendo a
escolaridade das mães funcionar como variável moderadora. Com efeito, as mães
de nível superior de escolaridade mostram uma tendência para utilizar mais
vezes expressões referenciais de nível superior, podendo pró-activar mais
facilmente a articulação entre o procedimento da ordenação de comprimentos e o
conceito de relações assimétricas.
Os comportamentos observados podem igualmente ser interpretados segundo o
modelo de desenvolvimento proposto por Karmiloff-Smith (1992), o Modelo de
Redescrição Representacional (MRR). Em qualquer uma das tarefas as crianças
necessitam de construir um conhecimento implícito do que é uma seriação e dos
procedimentos para chegar à configuração (fornecida pelo modelo ou pela
ordenação das primeiras réguas pela mãe ou sob regulação directa).
Por outro lado, se a criança inicia a aprendizagem de um conceito a partir do
momento em que entra em contacto com a palavra que refere esse conceito (maior
do que e menor ou pequeno do que), o efeito do inputconceptual não é imediato,
como afirmam Connor e Cross (1983), além de que a mediação linguística tem
efeitos diferentes consoante o conhecimento anterior no domínio em causa.
Outro pressuposto do MRR, segundo o qual a passagem do conhecimento implícito,
de algum modo iniciado na interacção com as mães, precisa de um processo de
auto-organização interna, que articule procedimentos e conhecimento conceptual,
até chegar a um conhecimento verbal explícito (fase 3) não se verificou, o que
na situação apresentada seria fazer intercalações de réguas e/ou explicar
porquê, o que não aconteceu em qualquer das 50 díades observadas
Pelos dados obtidos neste estudo é possível afirmar que a relação entre o nível
de escolaridade das mães e os desafios metacognitivos, e o inputconceptual por
elas fornecido na resolução conjunta de um problema, tem que ter em conta uma
série de variáveis contextuais, que incluem os participantes e as
características das tarefas. Por outro lado, o facto de a transferência de
responsabilidade para as crianças não aparecer correlacionada com os mecanismos
semióticos mais desafiantes, põe em evidência a importância do Modelo de
Redescrição Representacional, em dois aspectos fundamentais, como já referimos,
o desencadear de um conhecimento implícito num domínio determinado durante a
actividade conjunta, em que a mediação combine simultaneamente
operacionalizações explícitas e inputconceptual, tendo em conta o nível de
conhecimento da criança. A este processo segue-se a necessidade de um processo
de auto-organização individual que radica na comunicação estabelecida durante a
resolução conjunta, em que procedimentos e conceitos são indissociáveis e
tornam possível que a criança codifique linguisticamente as representações das
relações espaciais.