Um viver feminino no interior rural português: Descrição analítica do tecer de
uma história individual
O espaço da singularidade
Quem sou eu? Por maior ou menor tempo, iniciativa ou disponibilidade que cada
um lhe dedique esta é uma questão firmemente arreigada à consciência colectiva
do mundo e culturas ocidentais. A vivência subjectiva da vida enquanto bailado
livre de um homem com o tempo histórico e cultural que o envolve, a sua
identidade percebida, tem inquietado e iluminado artistas das mais diversas
áreas e, estranhamente, permanecido como um campo pouco explorado pela
psicologia. Poderá e deverá uma ciência que aponta à compreensão das dimensões
psicológicas e comportamentais dos indivíduos ignorar de forma tão evidente a
percepção que os próprios têm de si mesmo e de quem são?
A adequação da psicologia a um modelo em que se procura a causalidade e se
valorizam formas de análise quantitativas na tentativa de gerar leis de base
universal, levou à sua credibilização e maior aplicação prática junto da
sociedade, mas diminuiu o seu potencial de compreensão do homem enquanto um
todo (Langenhove, 1996). O comportamento humano é um com significado e
intenção. O homem possui capacidades de antevisão, auto-conhecimento e uma
flexibilidade e interacção entre funções e objectivos que fazem dele um desafio
bem maior que qualquer outro sistema vivo (Allport, 1962; Langenhove, 1996).
Este balançar da psicologia entre “a incapacidade dos modelos positivistas para
acederem às dimensões da subjectividade, do vivido, dos sentidos e,
genericamente, a todas as dimensões processuais” (Santos, 1998, p. 503), e a
circunstância de que “por mais intensivo, prolongado, objectivo e bem
controlado que um estudo de caso seja, não se pode nunca ter a certeza da
extensão a que as regularidades nele encontradas podem ser generalizadas a
outras pessoas” (Holt, 1962, p. 397), não é novo. Já em 1937 Gordon Allport
defendia dois ramos separados para a psicologia: um, nomotético, encarregue da
procura de leis gerais de comportamento, e outro, idiográfico, apontado à
personalidade única de cada um e à captura da sua unicidade (Holt, 1962;
Thomae, 1999).
Recentemente, foram os próprios avanços no conhecimento propiciado pelo
paradigma científico vigente que levaram à identificação dos limites,
insuficiências estruturais e fragilidade dos pilares em que o mesmo se funda
(Santos, 2001). Semelhante processo desembocou num renovado e crescente
questionamento acerca da natureza, fronteiras e novos caminhos da psicologia,
com o surgimento de um leque de novas metodologias apontadas à compreensão de
como os homens se tornaram o que vieram a ser (Smith, Harre, & Langenhove,
1995, 1996).
Neste contexto, a visão subjectiva dos sujeitos sobre si mesmos adquire
justificada importância na busca de luz sobre esse esquivo e complexo objecto
científico que é o ser humano no seu singular percurso entre o nascimento e a
morte.
Uma visão integradora da personalidade
Em 2006, McAdams e Pals apresentam uma proposta integradora que se propõe ser
uma grelha estruturadora da pesquisa e teorização no campo da psicologia da
personalidade. Através da articulação de saberes provenientes de diversos ramos
da psicologia, os autores avançam cinco princípios gerais que evoluem da
generalidade para a singularidade humana. O primeiro relaciona-se,
necessariamente, com o nosso património evolutivo partilhado e com a noção de
que todas “as vidas humanas são variações individuais do mesmo designevolutivo
geral” (McAdams & Pals, 2006, p. 205), aperfeiçoado ao longo de milhares de
anos pela pressão selectiva de factores ambientais. O segundo princípio refere-
se a cinco traços disposicionais, de origem genética – extroversão,
afabilidade, determinação, neuroticismo e abertura à experiência – que se
constituem como “dimensões globais, testáveis, lineares e comparativas da
individualidade humana” (McAdams, 2001, p. 111), consistentemente identificados
em várias sociedades e diferentes línguas. O terceiro princípio diz respeito às
adaptações características: coloridos da individualidade psicológica,
contextualizados no tempo, situação e papel social, relacionados com
preocupações motivacionais, sócio-cognitivas e desenvolvimentais (McAdams,
2001; McAdams & Pals, 2006).
Avançando de um encarar descritivo para um mais complexo encarar compreensivo,
o quarto princípio assinala a singularidade humana como vislumbrada pelo
próprio, a procura reflexiva do sentido e identidade levada a cabo pelos
indivíduos nos contextos em que vivem e que os vivem. Esta procura é feita
através de histórias de vida (HV) integradoras, baseadas em factos biográficos,
mas indo além destes, porquanto as pessoas reconstroem passado e constroem
futuro a partir de narrativas em que se apropriam selectivamente das suas
experiências. É na unicidade da sua HV que cada pessoa é menos como as outras
pessoas e mais como si própria. As histórias, paisagens da vida humana, não se
desenham, porém, no vazio, antes tecem-se no pano de um contexto cultural,
social e histórico específico. “As histórias vivem na cultura. Elas nascem,
crescem, proliferam e eventualmente morrem de acordo com as normas, regras e
tradições prevalecentes numa dada sociedade” (McAdams, 2001, p. 114). É assim a
cultura, veículo de significados, práticas e discursos, quinto princípio
enunciado pelos autores, que fornece o cardápio de onde cada um, de acordo com
a sua própria percepção da existência, escolherá como viver e interpretar a
vida (McAdams, 2001; McAdams & Pals, 2006).
A identidade: Narrativa pessoal
Uma HV é, então, uma narrativa evolutiva do self, construção psicossocial, obra
conjunta do sujeito e sua cultura de pertença, cuja principal função é a
integração dos elementos dispersos do Meno tempo (Atkinson, 1998; McAdams,
1996, 2001; McAdams & Pals, 2006).
A possibilidade de apropriação por parte do selfde acções, pensamentos,
sentimentos e experiências como suas implica um processo de selfing, em que o
I, processo, origina o Me, produto. McAdams (1996), utilizando os termos
introduzidos por James (1950), avança o Mecomo produto primário do processo de
selfing, “é o selfque o selfingconstrói” (McAdams, 1996, p. 302), um conjunto
evolutivo de auto-atribuições, materiais, sociais e espirituais, sentido como
seu. É este processo que permite ao indivíduo viver o experienciado enquanto
seu e assim alcançar as noções de propriedade e alteridade. É no campo do Meque
as HV cumprem a sua função, potenciando a sua integração temporal ao conferir-
lhe unidade e propósito (McAdams, 1996).
Ao atribuir ao indivíduo a necessidade de fazer sentido da sua existência numa
narrativa identitária que integre as diferentes facetas do seu eu, McAdams
(2001) aprofunda o quinto estádio do modelo de desenvolvimento de Erikson
(1971). A emergência de um sentido de identidade, “identidade como configuração
integradora do selfno mundo dos adultos” (McAdams, 2001, p. 102), é enquadrada
por Erikson nas tarefas com que se deparam adolescentes e jovens adultos que,
empurrados por bruscas mudanças hormonais e corporais, bem como por exigências
sócio-culturais, se vêm obrigados a uma primeira exploração das ideologias,
ocupações e papéis sociais, culturalmente disponíveis, na procura de uma
renovada matriz identitária.
Enquanto que Erikson confina a formação da identidade ao período da
adolescência, McAdams estende o realizar do trabalho identitário a toda a vida
adulta. Apesar de ser na adolescência que emerge a necessidade de construir uma
identidade narrativamente estruturada (Erikson, 1971, 1980; McAdams, 1996,
2001), esta não se ergue a partir de terreno estéril, nem estagna para o resto
da vida. Para McAdams (1996), o desenvolvimento da identidade desenrola-se ao
longo de três eras distintas: uma era pré-narrativa, associada à infância e
primeiros anos da adolescência; uma era narrativa, que se estende da
adolescência ao fim da idade adulta; e uma pós-narrativa, que nem sempre ocorre
e se liga ao estádio de Integridade versusDesespero descrito por Erikson (1971,
1980).
Nas crianças não existe a necessidade de criar unidade e propósito na
apropriação do Me, de gerar identidade, ainda que comecem já a desenvolver-se
os embriões que a hão-de dar à luz. A era pré-narrativa é marcada pela recolha
de material. Este, proveniente do vivido, irá ser utilizado mais tarde quando
as crianças, já jovens adultos, construírem as suas próprias histórias. A
família, as relações significativas precoces, a vinculação, a escola, os
amigos, são campos que depois terão um impacto necessário na identidade criada
e percebida (McAdams, 1996, 2001).
A era narrativa propriamente dita inicia-se no fim da adolescência, primavera
da idade adulta, com a adopção de um dado settingideológico e reconstrução
ficcionada do passado num texto mnésico contendo episódios nucleares que o
Ipassa a entender como formativos do Me(Erikson, 1968; McAdams, 1996; St.
Aubin, Wandrei, Skerven, & Coppolillo, 2001). O desenrolar da idade adulta
traz novas ocorrências, novos desafios e, portanto, novas especificidades à
história que agasalha a identidade. Com o diversificar de papéis exigido pela
sociedade o indivíduo concentra-se na articulação, expansão e refinamento dos
mesmos, desenvolvendo diversas personagens, ou imagos, que protagonizam
narrativamente diferentes aspectos do Me(McAdams, 1996, 2001).
Ao nível do experienciado pessoal e do reconhecimento social, a meia-idade
corresponde para muitos adultos ao pico de vida com a exploração dos diferentes
imagosa atingir a sua máxima expressão ao nível do Me. A percepção de que
metade da vida já se findou e de que o tempo que se encontra para a frente é
necessariamente menor que o que ficou para trás, acarreta, no entanto, mudanças
no narrar da identidade. A possibilidade e necessidade de encontrar uma
determinada paz consigo e em si mesmo leva a um trabalho no sentido da
harmonia, do equilíbrio e conjugação de temas e tendências até aí divergentes,
conflituantes (McAdams, 1996, 2001). O explorar da uma linha generativa assume
então uma grande importância, no sentido de que ao final físico inevitável o
indivíduo procura contrapor uma imortalidade simbólica que lhe permita ter
sobre o mesmo uma palavra a dizer. O cuidar das novas gerações, a herança
positiva deixada ao futuro e a retribuição à sociedade são alguns temas que
começam a habitar as HV por esta altura, porquanto os sujeitos “começam a
definir-se a eles mesmos em termos das coisas, pessoas e ideias que geraram e
deixaram ficar” (McAdams, 1996, p. 312). A própria história pessoal começa a
sofrer a sua edição final, com a procura de uma coerência e causalidade
temporal (em termos de princípio, meio e fim) em que o término possa funcionar
como resolução (Erikson, 1971, 1980; McAdams, 1996, 2001).
Durante a era pós-narrativa, que não será atravessada por todos, o trabalho de
criação da identidade já praticamente não existe (McAdams, 1996). O indivíduo
encontra-se centrado na revisão, recapitulação e reorganização da sua vida,
tendo em vista sua adequação à realidade presente. A possibilidade de paz em
relação à situação de velhice, e desafios por esta levantados, é influenciada
pela coerência, unidade e resolução da história que construiu.
A identidade e o feminino
No acto criativo que pressupõe o esculpir da identidade, as especificidades
sociais e culturais são apropriadas pelo seu autor que as incorpora ao mesmo
tempo que nelas se integra (Erikson, 1971, 1980; Josselsson, 1996; McAdams,
1996, 2001).
Até há não muito atrás, os possíveis estilos de vida, no sentido em que a eles
se refere Giddens (2000), à disponibilidade das mulheres, não apenas se
encontravam claramente definidos e delimitados, como assim o pareciam estar
desde sempre. A mulher era um ser para o casamento e a progenitura, a sua
identidade, papel e valor social derivavam essencialmente do casamento
(Josselsson, 1996). Desde a Segunda Grande Guerra, no entanto, com especial
ênfase nas sociedades ocidentais, as mulheres puderam, mercê do rearranjo
social em relação ao que lhes era permitido, encarnar outros papéis e perseguir
outros objectivos. Ao afirmarem-se enquanto trabalhadoras, eleitoras
independentes, entes a considerar na tecedura social, o foco da investigação,
nomeadamente a psicológica, começa também a incidir sobre elas. Isto leva à
percepção e compreensão de que as lentes por que se olha a mulher, devem ser
diferentes das até aqui utilizadas, pois estas, ajustadas ao masculino, pouco
mais nos dão que uma realidade míope (Gilligan, 1994; Josselsson, 1996).
Para lá da “trama do casamento” (Josselsson, 1996, p. 32), percebeu-se que as
mulheres têm sempre construído e definido a sua identidade de forma diferente
da dos homens. Esta é definida, essencialmente, em termos relacionais e de
conexão ao outro (o que nem sempre é contemplado pelos modelos generalistas que
apontam o desenvolvimento no sentido da separação e ganho de independência), o
que é diferente e não implica a sua delimitação na redoma composta por marido e
filhos: “o amor é uma forma de delinear o self, não de perder o self, como
muitos erradamente concluíram” (Josselsson, 1996, p. 32). A identidade na
mulher encontra-se mais associada ao que ela é do que ao que consegue. A
consciência de si própria é principalmente alcançada nas relações que
estabelece com o mundo personificado nos outros e as suas HV orbitam, bastas
vezes, em torno de como se vê e sente nessas mesmas relações (Gilligan, 1994;
Josselsson, 1996). Isto, segundo Gilligan (1994), atribui à mulher uma
percepção mais difusa do seu self, bem como um entendimento e expressão social
marcados pela gentileza, compreensão dos sentimentos alheios, forte necessidade
de segurança e fácil demonstração de sentimentos terrenos. Esta vulnerabilidade
pode ser mapeada através dos séculos em que a vivência feminina se viu arredada
de uma participação directa na sociedade, existindo na dependência directa da
protecção e suporte masculino. O entendimento de que sociedade e cultura as
privam de caminhos identitários, reduzindo-lhes drasticamente as hipóteses de
escolha, leva-as a diminuírem-se a si próprias (e.g., leva-as a diminuírem-se a
si próprias, escusando-se muitas vezes a assumir responsabilidades quanto à
tomada de decisões e posições).
O PRESENTE ESTUDO
Animou-nos neste estudo a vontade de trazer a voz do indivíduo à liça
científica, de atribuir e perceber a importância de uma dimensão tantas vezes
menosprezada e, não obstante, tão central como é a da visão que temos de nós
mesmos.
Com este fito, adoptámos uma metodologia de índole qualitativa e exploratória,
procedendo à recolha da HV única, heterobiografia, de uma mulher, idosa, a
residir num lugar isolado do interior rural Português. Uma heterobiografia de
enfoque psicológico, psicobiografia, uma vez que o objectivo central, ainda que
não único, é a personalidade, imersa no social, mas interiorizando-o e
atribuindo-lhe a sua significação pessoal (Poirier, Clapier-Valladon, &
Raybaut, 1999; Santos, 1998). Acreditamos que esta opção nos dotará de uma
visão poderosa sobre o indivíduo e o seu percurso. O relato recolhido –
testemunho pessoal e subjectivo, rico em texturas e matizes, construção a
quatro mãos entre o indivíduo e a cultura envolvente – revelar-se-á, pensamos,
um documento aberto a diversos níveis, enfoques e profundidades de análise. A
partir deste, numa análise que se pretende clarificadora mas nunca
fragmentante, propomo-nos explicitar a urdidura da construção contínua que o
sujeito faz da maneira como se percebe. Explicitar o modo como se apropria
criativa e selectivamente das suas vivências num tempo e num espaço
específicos, integrando-as narrativamente em identidade.
MÉTODO
Apesar de um recente recrudescimento, inserido num renovado interesse pelas
metodologias de fácies idiográfico trazidas à superfície pela erosão dos
modelos experimentalistas e quantitivistas mais duros (Santos, 2001), a
utilização nas ciências sociais do material narrativo e, mais particularmente,
de HV pode ser seguida até ao século XIX e às práticas desenvolvidas por
etnógrafos e antropólogos (McAdams, 1988). Para Clapier-Valladon (1982), a
produção de HV enquanto ferramenta metodológica terá, ao longo do seu
desenvolvimento, conhecido quatro grandes impulsionadores: os trabalhos
desenvolvidos na década de 1920 pela Escola de Sociologia de Chicago, Freud e
os avanços na psicanálise, a tradição antropológica e a reflexão epistemológica
nas ciências sociais. Evidencia-se assim o carácter multidisciplinar da
metodologia das HV que, no seu duplo papel de método e objecto (Santos, 1998;
Poirier et al., 1999), se constitui “como uma ferramenta com tantas aplicações
quantas aquele que a está a usar conseguir descobrir” (Atkinson, 1998, p. 2).
A eclosão da modernidade e o abrandar do espartilho configurado pelo peso da
tradição e costumes, se conduziu a sociedades mais democráticas e livres nos
domínios de pensamento e comportamento, levou, também, pela quebra de linhas
orientadoras e de referência, à alteração das bases da identidade individual. A
consciência de quem somos, em contextos tradicionais, é significativamente
sustentada pela adequação ao estatuto social ocupado na comunidade. Assim, num
mundo onde nada é incontestado, onde todos os modelos têm falhas, onde a
multiplicidade e relatividade imperam e a verdade é parede e não mineral, o
tecer da identidade, verdadeira manta de retalhos, de forma coesa e
significativa, torna-se um trabalho de complexa resolução (Giddens, 2000;
McAdams, 1996, 2001).
Oferecendo ao indivíduo uma paleta díspar de possibilidades, exponenciada pela
globalização e coro mediático, mas poucas indicações dando sobre que cores
escolher e combinar, as culturas modernas actuais socializam-no no sentindo de
“encontrar o seu próprio caminho, engenhando um selfque seja verdadeiro a si
próprio” (McAdams, 2001, p. 115). A adopção de um determinado estilo de vida –
conjunto mais ou menos integrado de práticas em que o indivíduo embarca, não
apenas por razões utilitárias e funcionais, mas porque corporizam uma dada
narrativa identitária – torna-se neste contexto uma necessidade, algo que todos
são obrigados a fazer, face aos agora extenuados guiões tradicionais (Giddens,
2000; McAdams, 2001).
Neste contexto, depois várias décadas de pousio e esquecimento (Howard,
Maerlender, Myers, & Curtin, 1992) em que atraíam apenas os mais românticos
dos investigadores em psicologia (McAdams, 2001), seguindo as pisadas de homens
como Allport e Murray, citados por Atkinson (1998), as HV conhecem novo
desenvolvimento. Justificam-no a tentativa de preservação de um passado em
diluição pela quebra das correntes de transmissão oral entre gerações (Poirier
et al., 1999) e a necessidade de acompanhar e mapear o processo reflexivo e
individual de construção do selfdesenvolvido pelos indivíduos num contínuo de
busca de coerência (Giddens, 2000).
De facto, desde meados da década de 1980 as HV assumem um papel de destaque na
compreensão do viver subjectivo dos indivíduos. Há assim um virar para as
histórias não apenas como objecto metodológico mas também como grelha de
interpretação do vivido e se, para Bruner (1990), as narrativas são um
importante meio de abordar a forma como o indivíduo constrói a sua vida e,
logo, o desenvolvimento humano, já para McAdams (1996) é a identidade ela mesma
que toma a forma de história com cenas, enredo, personagens e tema.
Participante
De modo a proteger a identidade da participante, bem como a de todos os
sujeitos nomeados no relato por si feito, preceito ético com ela acordado à
partida, tomou-se a liberdade de alterar os nomes de todas as pessoas, bem como
os das localidades que, pela sua especificidade, foram consideradas demasiado
reveladoras.
A participante, do género feminino, sem qualquer tipo de escolaridade, D.
Palmira, conta à data do último encontro 88 anos. Habita sozinha uma pequena
casa, uma das duas únicas ainda ocupadas no Tojo, sendo viúva desde os 70 anos.
Teve dois filhos: um nado morto e outro, que morava desde há muito na zona de
Lisboa e veio a falecer durante as entrevistas, que lhe deu dois netos. Viveu
toda a sua vida na aldeia à excepção de dois pequenos períodos em que esteve
primeiro na casa do filho e depois na dos compadres. Actualmente sobrevive
essencialmente do que compra na aldeia vizinha do Rosmaninho e do que os
vizinhos lhe dão em troca de pequenas ajudas.
A D. Palmira é uma idosa de aspecto mirrado mas rijo, olhos claros já algo
deslavados, sempre de lenço e bordão na mão. Apresenta para a idade uma
autonomia considerável, não tomando medicação psicofarmacológica ou de qualquer
espécie, apesar de se queixar frequentemente das dores e sofrimentos por que
passa e que a impedem de levar e fazer a vida que gostaria. Ao nível cognitivo,
pelo que se pode perceber das entrevistas, é atenta, viva e perspicaz,
mostrando apenas dificuldades de memória que pareceram perfeitamente
congruentes com a sua idade.
O isolamento e a solidão que se poderiam prever pelas informações que antes
dela se tinham, e mesmo pela sua vida no Tojo, são em muitos sentidos apenas
aparentes. Afastada dos familiares mais próximos apresenta uma rede social
pequena mas presente, constituída pela vizinhança, que contribui para que a sua
existência, apesar da pobreza, conserve uma dignidade que a afasta claramente
do que poderia ser visto como miséria.
Procedimento e instrumentos
A recolha da HV realizou-se a partir de um conjunto de entrevistas repetidas,
entrevistas semi-directivas ou abertas, que ocorreram ao longo de onze
encontros, cinco dos quais com gravação de material, que se estenderam de 25/
02/07 a 28/12/07. Estes momentos, “conversas com um objectivo” (Burgess, 1997),
que deixam espaço à anedota e à divagação, são assentes numa necessária relação
interpessoal e de familiaridade narrador-narratário.
Assim, os primeiros encontros tiveram como objectivo o estabelecer de uma
relação de confiança – a relação biográfica de que falam Poirier e
colaboradores (1999) – bem como o ir desenvolvendo, a pouco e pouco,
familiaridade com uma visão geral da vida da D. Palmira, e do seu contexto, que
pudesse mais tarde ser usada como linha orientadora no processo de entrevista.
As entrevistas, cinco ao todo, decorreram num cenário familiar à participante:
a soleira da sua porta, uma pedra larga de xisto. Foi utilizado um gravador
digital de voz marca Olympus (modelo vn 2100 pc), cuja escolha se deveu à
facilidade de manuseamento e possibilidade de passar os documentos das
entrevistas directamente para o computador. A sua duração média, dependente das
interrupções que existiam sempre, situou-se entre a hora e a hora e meia,
seguindo o proposto por Burgess (1997).
Apesar de, na peugada do defendido por Atkinson (1998), Burgess (1997) e
Poirier e colaboradores (1999), se ter procurado dar às entrevistas o ar solto
de uma conversa, demonstrando à participante um interesse incondicional e
desprovido de julgamento e orientando as intervenções, gestos e comentários no
sentido de encaminhar o relato na direcção pretendida, interferindo o menos
possível no fluxo do discurso, desde cedo que a interacção com a D. Palmira
veio a mostrar que o recolher da sua HV não seria fácil. O seu estilo
comunicacional sempre se mostrou pouco expansivo e espontâneo, não entrando em
solilóquio e estando muito dependente dos estímulos apresentados. A informação
ia surgindo, mas sempre dispersa, compartimentada, factual e pouco
desenvolvida. Para além disto, tendo determinados períodos e conteúdos bem
presentes, outros havia em que se tornava praticamente impossível penetrar no
nevoeiro da memória. Esta dificuldade exigiu um exercício de flexibilidade e
capacidade de resposta, sempre necessárias numa metodologia em que o
entrevistador se encontra privado do controlo oferecido por um inquérito
objectivo. O equilíbrio foi encontrado num estilo totalmente coloquial de
partilha e troca em que no desenrolar dos diálogos, e perante certos estímulos,
as suas memórias e histórias se foram, a pouco e pouco, desenrolando como um
novelo. Não obstante nunca se estender muito na narrativa, foi possível ir
juntando peças, como se de um puzzle se tratasse, até se ter uma imagem, é
certo que desigual entre períodos, mas abrangente, da sua vida. Para isto muito
contribuíram os registos feitos num diário de campo (vd. Burgess, 1997;
Fernandes, 2002).
Tratando-se, a HV, de um documento íntimo e de carácter pessoal optou-se, como
defendido por Poirier e colaboradores (1999), pela transcrição integral do
material em bruto, procurando um texto que fizesse jus ao discurso registado
não apenas no conteúdo semântico mas também nos seus silêncios, erros, pausas,
suspiros, sorrisos. Completa a transcrição, procedeu-se a uma segunda audição
das entrevistas que permitiu aquilatar da qualidade e fiabilidade da mesma bem
como preencher, na medida do possível, as lacunas existentes no corpo
transcrito.
A partir do material transcrito em bruto, num trabalho de tecelagem sobre os
excertos da trama relacionados, foi impressa ao texto uma organização
cronológica, conferindo-lhe assim uma certa linearidade e tornando-o mais
legível e coeso. Simultaneamente, levou-se a cabo a adaptação da oralidade à
escrita. Erros correntes da linguagem oral, bordões da fala que sempre
parasitam os discursos, incongruências nos tempos verbais, dialectos e
regionalismos, foram tratados de forma a explicitar e facilitar o acesso ao
conteúdo com prejuízo mínimo da fiabilidade do relato.
O aspecto coloquial das entrevistas colocou grandes problemas à sua reunião e
organização. Se, de um modo abstracto, foram seguidas as linhas teóricas
propostas por Poirier e colaboradores (1999), grande parte das questões
práticas, pela sua especificidade, exigiram respostas próprias orientadas pelo
objectivo de construir um todo coerente. Destarte, as alterações feitas tendo
em vista o apresentar de um relato na primeira pessoa foram levadas a cabo com
o máximo tacto e, para quem privou com a D. Palmira, é ainda a sua voz que se
encontra no texto.
À fixação da história seguiu-se uma análise de conteúdo tendo por missão dar um
sentindo ao conjunto dos factos enunciados no relato sem, no entanto, diminuir
a sua significação. Este sentido foi procurado à luz de um quadro teórico
orientador, cuja definição foi prévia à análise em si, constituindo-se como o
primeiro passo da mesma (vd. Bardin, 1979; Krippendorf, 1980; Poirier et al.,
1999; Vala, 1986). No caso concreto, a análise serviu-se das categorias
propostas por McAdams (1996) para análise e compreensão das HV do adulto,
sumariamente definidas em seguida. (1) Tom narrativo: tom emocional geral, com
raízes na era pré narrativa e nas experiências e relações precoces do
indivíduo, que pode oscilar entre o pessimismo sem esperanças e o optimismo sem
fronteiras. (2) Imagética: fotografias verbais, sons, cheiros, sabores,
símbolos e metáforas que brotam dos anos pré-narrativos e emprestam à história
textura e paladar próprios. (3) Linhas temáticas: relacionadas com as
motivações humanas: o que as personagens querem, o que lutam por atingir e
evitar. Aglutinam-se em torno de duas temáticas base: comunhão (associada ao
amor e união com o meio) e iniciativa (associada ao poder e à individualidade).
(4) Settingideológico: refere-se às crenças religiosas, às convicções políticas
e éticas e ao quadro de valores do indivíduo. É a partir deste que indivíduo
avalia a qualidade da sua própria vida e da dos outros. (5) Episódio nucleares:
pontos relevantes na HV que são escolhidos e reconstruídos de modo a criarem um
nexo narrativo coerente entre passado presente e futuro. (6) Imagos:
personificações idealizadas do selfque tendem a reflectir os modelos da cultura
contemporânea do indivíduo e que este vai desenvolvendo e explorando ao longo
da vida. (7) Desenrolar generativo: surge pela meia-idade e associa-se à
necessidade de desenvolver um legado que assegure uma imortalidade simbólica.
(8) Avaliação narrativa: até ao fim da vida prossegue um trabalho de revisão e
arrumação da história tendo em vista a sua pacificação e adequação às
preocupações presentes.
Procedeu-se, então, à identificação e recorte no corpo do texto das unidades de
registo semântico e sua indexação às categorias correspondentes levando a uma
codificação do material, “representação simplificada dos dados em bruto”
(Bardin, 1979, p. 119), tendo em conta a chave teórica adoptada. Estando aqui
num campo de análise categorial em que “a história original é separada e
secções ou palavras pertencentes a uma determinada categoria são tomadas do
todo da história” (Lieblich, Tuval-Mashiack, & Zilber, 1998, p. 12),
parece-nos, ainda assim, que, quer pelo enfoque teórico, quer pelas
características da análise temática e das próprias categorias, não se abandona
a pretensão de manter um desejável holismo na sua abordagem.
Foi ainda elaborado um biograma (vd., e.g., Manita & Da Agra, 2002; Tinoco
& Pinto, 2001), que permitiu o contrastar dos episódios fundamentais da
vida da D. Palmira, cronologicamente ordenados, com as categorias de McAdams
(1996).
Para Stemler (2001), a validação de uma investigação qualitativa deve ser
procurada no triângulo: credibilidade da análise associada ao emprego de
estratégias múltiplas, confronto com outros investigadores e comparação dos
dados com a teoria que os sustenta. Na senda do rigor a que se aspira e da
validade e estabilidade das inferências feitas, foram aqui consideradas as
validades intra e inter-codificadores. A validade intra-codificadores procurou-
se na adopção de estratégias múltiplas de análise. Análise temática, biograma,
e o curso biográfico da história foram, assim, continuamente confrontados, no
que se mostraram consistente e coerentes. Como recomendado, entre outros, por
Krippendorf (1980), a validade inter-codificadores foi assegurada pelo recurso
a dois juízes independentes que se mostraram concordantes quanto aos itens
incluídos nas categorias.
RESULTADOS
Os sublinhados (itálico) presentes nos trechos retirados da HV para ilustrar as
categorias que a seguir se apresentam, referem-se a palavras ou frases
inseridas no texto tendo em vista a possibilidade e melhoria da legibilidade da
história. Em nenhum caso estes acrescentos inserem informação ou alteram o
sentido original das afirmações.
Tom Narrativo
O tom narrativo que atravessa a HV da D. Palmira é um de tonalidades
maioritariamente pessimistas.
“A pobre vida bem pensada é um romance dos melhores que pode haver. Os romances
é assim, é a gente a sofrer sabe Deus o quê. Queria para comer é como não o
tinha, queria para vestir não o tinha, queria para calçar não tinha, os
romances são estes.”
No entanto, o defini-lo simplesmente assim, como pessimista, parece
extremamente redutor para quem com ela privou. De facto, colorindo o atributo
pessimista, é um tom resignado e conformado de alguém que raramente encarou a
vida com esperança, não porque achasse que esta só lhe iria trazer coisas más,
mas porque poucas vezes teve a visão que realmente pudesse ter uma palavra a
dizer sobre os assuntos.
“Se fico triste por ver a terra desaparecer? Ah eu não, mas de que serve a
gente estar triste, mas de que serve? A gente não tira nada por estar triste.
Quem é que manda?”
Imagética
O estilo de comunicação da D. Palmira não é o mais propício a dar azo às
texturas e nuancesque relevam e denunciam a imagética própria de uma história.
Não surpreendentemente, os coloridos imagéticos mais visíveis surgem vestindo
as evocações de pobreza e miséria que associa à sua vida e que iluminam o tom
narrativo da história. O roto, o descalço, a fome, a comparação aos cães, são
particularmente evocativos desse facto.
“Miséria! Miséria! Fome! Descalços como os cães. É verdade a gente andava quase
sempre descalço, roto e esfarrapado...”
Linhas Temáticas
Uma constante na vida da D. Palmira, ou no modo como a vê, é a ênfase posta na
não existência de conflitos.
“Eu nunca vivi mal com minha Mãe, nem com meu pai, nem com os meus irmãos.
Nunca tivemos um azedo uns com os outros. (...) É bom, é bonito mas é a gente
viver bem umas com as outras. A família toda.”
A sua motivação principal é uma de união com o meio envolvente, de estar bem
com os que a rodeiam, mesmo que isso se faça pelo sacrifício da sua
individualidade e de desejos pessoais. Isto é particularmente evidente na
questão do casamento e da relação com a mãe.
“Ai játinha tidotantos pretendentes. Melhores do que a este. Fiquei com este
por causa de minha Mãe. Minha Mãe, para eu ficar aqui é que ela emburrou o pé à
parede: ‘porque este é melhor, porque este assim, porque este assado’. Pronto.
Queria-me à roda dela, para eu estar ao olhar dela.”
A linha temática predominante é assim de comunhão, estando a felicidade e o
sentindo da vida associados não à persecução de objectivos e iniciativas
pessoais, mas a uma vivência pacífica e isenta de conflitos com o meio
envolvente e as suas figuras significativas.
Setting Ideológico
O settingideológico que domina toda a história da D. Palmira, influenciando em
absoluto toda a sua visão do mundo, da vida, seus valores e moralidade, é um de
matriz católica. O estatuto de verdade única que apresenta faz com que a D.
Palmira não o refira ou pense directamente, sendo que este se vê essencialmente
na aplicação que faz dos seus princípios nos juízos em relação a si própria, e
em relação aos outros.
“Uma pessoa antes de falecer é que é preciso ouvir missa e é preciso dar
esmolas por aquela alma. Então se não der esmolas nenhumas o que é que a alma
há-de fazer...”
“Eu depois do meu marido morrernão quis cá homem nenhum, e se eu tinha muitos
apoquentos depois que ele morreu. Eu agora estou aqui, uma mulher que também
fiquei nova sem homem. Então se estivesse com outros, ai Jesus era uma porcada.
Era uma vergonha. (...) A minha vizinha dizia assim: ‘ó ti Palmira você faz
mal, você faz mal’. Porquê? Para andarem só a apontar para mim? Não apontam
não. Uma mulher quando tem vergonha e tem juízo não anda a dar que falar a este
e àquele. Nosso Senhor me conserve até morrer.”
Este settingreligiosamente ancorado mantém-se estável, como fiel da verdade,
durante toda a sua vida, não havendo indícios de qualquer outro tipo de fontes,
éticas, políticas ou filosóficas, que o influenciem.
Episódios Nucleares
O primeiro episódio nuclear que nos aparece no relato da D. Palmira, quer pela
força com que se encontra impresso no seu tecido mnésico, quer pelas
consequências reais para a sua vida futura, é o casamento e a sujeição que este
implicou à vontade da mãe.
“Mas depois minha Mãe começou-me a rolar, como eu lhe disse que... Se não lhe
tenho dito nada ela nada, eu disse-lhe que fazia o caso, disse-me que não:
‘olha filha este aqui é que tem a casinha, é que tem além a hortinha, é que tem
onde te meteres, e o outro não tem nada’. Tive que ir à boa, à boa, à boa,
pronto. Mas se fosse hoje não me levavam. Arrependi-me bastante, porque a
família dele era ruim, ainda hoje eles são maus, falavam para uns e para outros
mal de mim.”
Sucede a este episódio a morte do primeiro filho.
“O mais velho já mo tiraram morto. Morreu sexta-feira à noite e foi tirado
sábado depois do meio-dia. Tinha vontade, muita vontade de ter esse filho. Eu
não sentia nada, é como a que estava morta, estava toda inchada, toda inchada;
então o médico nunca me julgou viva, sempre pensou que morresse. Estive sete
semanas na cama sem nunca me mexer para lado nenhum.”
E depois, afastado no tempo sete anos o nascimento complicado do seu filho.
“Do outro, agora do mais novo, estive lá um mês. Nunca ninguém me julgou viva,
nem o médico.”
Ambas as situações, para além do seu forte impacto emocional, deixaram sequelas
ao nível físico.
“Mas o que eu tenho sofrido ai Jesus, ai Jesus, nem quero que me lembre. Nessa
altura e mesmo agora, mesmo agora ainda ando a sofrer. Porque eles cortaram-me
e eu não soldei, só ficou assim um pouco de um quase nadinha para mo cortar de
todo.”
Bem como ao nível das expectativas que a D. Palmira tinha em relação à sua
vida.
“Mas o que é que se há-de fazer? Paciência. Uma mulher ter só um filho é como
não ter nenhum, morre aquele pronto, e se tem dois... (...) Quem tem dois tem
um, quem tem só um não tem nenhum.”
Episódio que na altura em que ocorreu não terá sido tido como
extraordinariamente relevante, mas que depois, pelas suas consequências
futuras, acaba por tomar um papel de destaque no relato, é o casamento do
filho.
“Eu se soubesse o que sei hoje quando ele diz assim: ‘ó Mãe veja lá o que eu
vou fazer. Você já é mulher do mundo. Sabe mais do que eu’. Eu soubera o que
ela era não punha lá um pé. (...) Porque se ela fosse uma mulher de honra e de
vergonha eu não estava aqui, eu estava lá ao pé deles e assim estou aqui...
Estou aqui numa cabana.”
A ida para Lisboa, pouco depois da morte do marido, contém um corte drástico na
que até aí tinha sido a vida da D. Palmira.
“Quando fui para Lisboa deixei de ter animais. Naquele tempo já só tinha duas
cabritas. Abalei para lá, venderam-mas, e meteram o dinheiro ao bolso.”
A mudança representa ainda o quebrar de relações com a nora.
“Era uma besta ou não era!? Ah estafermo negro! Há noras que são boas há mas há
outras... Não venha cá para lho perdoar que não perdoo.”
E, acresce, a impossibilidade consequente de permanecer junto do filho.
“Eu não gosto de cá estar, dizia, eu não gosto de cá estar, não dizia lá porque
era. Eu não gosto de cá estar. E eu gostava de lá estar, naquele sítio...”
Este é um momento significativo e muito marcado na vivência e mágoa actual da
D. Palmira porque significou: primeiro o romper com a vida que até aí tinha
tido; segundo o não poder permanecer junto do filho, algo que muito gostaria.
Ambas estas situações em que se vê como vítima de processos que não controlou.
Imagos
Os imagos tendem à personificação dos principais modelos veiculados pela
cultura contemporânea ao indivíduo. Ora sendo a cultura envolvente da D.
Palmira hegemonicamente católica e o catolicismo pródigo no estabelecer de
modelos de moralidade e conduta, é natural que os imagos por si desenvolvidos
gravitem em volta destes modelos. Embora por vezes seja difícil destrinçá-los,
uma vez que todos apegados à mesma rocha mãe, estes podem dividir-se em três
grandes grupos.
A boa católica
“Então eu agora vou ao Rosmaninho, que mais dá estar lá mais uma hora ou menos
uma hora a ouvir a missa? Custa alguma coisa? Agora chegar lá e voltar logo,
então o que é que uma pessoa foi lá a fazer? Aqui esta minha vizinha vai lá mas
diz que também as não ouve, anda que ela lá achará o erro ainda, deixa lá que
ela achará o erro. A gente agora não encontra o erro, deixa lá que morra se
queres ver onde é que anda a alma por aí.”
A de boa virtude
“Eu agora estou aqui, uma mulher que também fiquei nova sem homem. Então se
estivesse com outros, ai Jesus era uma porcada. Era uma vergonha.”
A resignada
“Quem cala vence! Toda a vida assim foi, quem cala vence. É mais que a verdade
ainda!”
Este último não deriva de uma forma tão objectiva da pressão cultural exercida
pela religião, mas encontra-se também ligado à forma como o papel das mulheres
era encarado no seio da sociedade e a um viver muito próprio da D. Palmira, sem
ondas ou ruído, procurando o intervalo dos pingos de chuva na busca da comunhão
com o meio envolvente.
Desenrolar Generativo
Esta é uma dimensão que quase não é visível no relatado pela D. Palmira. Se
algo se pode encontrar que corresponda ao desejo de procura de um desenrolar
generativo para a vida é a sua vontade, depois frustrada, de estar junto da
família, filho e netos, tomando assim parte e contribuindo para um todo maior.
“Eu gostava de lá estar porque aquele coiso também era bom, à uma tinha por
onde me estender, ou a semear, ou a sachar, ou regar, tinha por onde me
estender. Já tinha aí uns 60 ou 70 anos, os meus netos ainda eram pequenotes, a
garota tinha oito anos e ele, o Sérgio, era mais atirado.”
Embora não se enquadrando totalmente na definição de desenrolar generativo
considerada para esta análise temática, parece justo considerar-se o seguimento
e adesão aos preceitos religiosos culturalmente hegemónicos como uma forma de
procura de um final generativo para a vida.
Avaliação Narrativa
Ao nível da avaliação narrativa, e apesar do tom geral de resignação conformada
com que ao longo da vida foi fazendo frente às vicissitudes e que aparece
transparente na sua história, a relação da D. Palmira com a vida que levou não
é pacífica.
“Eu nunca tive a ideia de chegar à idade que tenho, sempre tive ideia de chegar
só aos 84, 85, 86, vá lá já passou muito. Eu não me importo, porque me há-de
importar? Tanto me faz importar como não importar, é igual, fico na mesma.”
Há uma revolta silenciosa contra as dificuldades porque passou, visível no
confronto permanente que faz entre aqueles tempos e os de agora.
“Ali é que era uma tristeza, agora neste tempo... Agora têm o que querem, são
ricos. Basta dizer que só o abono, só o abono que se ganha dá para se governar.
(...) Governavam-se com fome. E agora não, agora é carne disto, carne daquilo,
é lambidela disto, lambidela do outro...”
Revolta extensível ao facto de não poder estar ao pé do filho.
“Se eu num tenho ninguém ao pé de mim, tenho o filho, o filho está longe, é
como a quem nem ata nem desata. Se estou mal fico pior, fico à mesma, fico à
mesma porque ele a mim não me faz cá nada e eu a ele também nada lhe faço. Às
vezes a viver com ele estava bem, e assim...”
Revolta, ainda, quanto à vida que, na sua idade e condições, tem que suportar
no Tojo.
“Só me lembra de passar mal, só me lembra de viver mal, não é de viver bem,
viver mal. Mais para a frente, mais mal ando, mais mal ando.”
Para organizar a discussão, procedeu-se à elaboração de um biograma (vd., e.g.,
Manita & Da Agra, 2002; Tinoco e Pinto, 2001) como técnica complementar de
análise. Com ele pretende-se contrastar o curso cronológico do relato e a
análise temática, explicitando a forma como a elaboração narrativa da vida se
foi dando ao longo do tempo e como foram para ela contribuindo as experiências
em diversas idades. O biograma (Tabela 1) é agora apresentado para auxiliar o
acompanhamento e compreensão da análise que se lhe segue.
TABELA 1
Biograma
DISCUSSÃO
Partimos para este estudo com a intenção primária de aceder ao vivido
subjectivo de um indivíduo e à maneira como este, no seio de um contexto
histórico e cultural específicos, se concebe construindo narrativamente a sua
identidade.
A abordagem metodológica escolhida tendo em conta esse objectivo, uma de índole
idiográfica e, portanto, apontada à compreensão profunda do sujeito, pareceu à
partida, como parece agora no fim, extremamente adequada. O relato na primeira
pessoa mostrou-se um documento multi-facetado, aberto a diversos níveis e
possibilidades de análise. Ao reflectir, e dependendo isto das palavras e do
engenho de cada um, a construção e narração de uma existência, a HV encerra em
si parte da riqueza extraordinária do ser humano e assim, tal como este, torna-
se passível de ser dissecada por uma grande quantidade de bisturis teóricos.
No presente trabalho, o quadro categorial de McAdams (1996) concedeu-nos uma
visão simultaneamente extensiva e profunda, o que demonstra, por um lado, a
qualidade e riqueza das HV enquanto método e, por outro, a abrangência e
flexibilidade da visão narrativa da construção da identidade enquanto
referencial teórico. Esta última, ao permitir a análise do trabalho identitário
de uma forma compreensiva, facilita a articulação com outros domínios do saber,
estendendo as suas possibilidades de aplicação a inúmeras realidades e
contextos culturais díspares.
A história aqui analisada dá disso fé. A realidade da D. Palmira enquadra-se
ainda num tempo em que as correntes de transmissão oral se encontravam intactas
e, por conseguinte, os tipos de Mepassíveis de ser assimilados pelo Ieram
padrões transmitido de geração em geração (McAdams, 1996; Poirier et al.,
1999). Isto não significa que não tenha existido um trabalho narrativo de
construção identitária, apenas que este terá sido menos intenso e menos
percebido pelo sujeito, uma vez que grandes pedaços da sua HV, mostruário
privilegiado da identidade, se encontravam já à partida preenchidos. A
metodologia adoptada mostrou-se perfeitamente adequada no lidar com esta
situação.
Atendendo ao biograma percebe-se como o settingideológico fornecido pela
religião é o único percebido, surgindo na história, como seria esperado, por
alturas da adolescência. É tão único que, de facto, as referências directas, ou
pensamentos, sobre o próprio são escassas. Existe como realidade, verdade, e,
portanto, subentende-se nos comportamentos, ideias e juízos desenvolvidos. Nas
palavras da própria, “Deus é que nos dá os sentidos e é que nos os tira”. A
forma como a D. Palmira construiu a sua identidade, bem como a visão
retrospectiva que apresenta em relação ao seu percurso, a maneira como se
percebe e o percebe, são, assim, clara e largamente influenciadas por uma
matriz de pensamento e concepção da existência judaico-cristãs.
A partir desta posição de charneira, o settingideológico católico estende os
seus ramos de influência a inúmeras áreas da vida da D. Palmira. É, desde logo,
nos seus valores, concepções morais e códigos de conduta que se vão fincar as
aspirações ideais do selfe o sentindo pretendido para a vida. Firmemente
ligados aos ditames católicos, e portanto intimamente relacionados entre si, o
que nem sempre tornou fácil destrinçá-los, os imagospresentes no relato da D.
Palmira – três (a boa católica, a de boa virtude, a resignada), estendendo-se
da adolescência à velhice, como visível no biograma – dão todos conta de uma
adesão quase total aos padrões de conduta e comportamento tidos como bons e
social e culturalmente valorizados. A estabilidade e coerência destes imagos,
quer ao nível temporal, quer do settingideológico a que se encontram
arraigados, é prova da força e preponderância do guião religioso, culturalmente
veiculado, na construção identitária da D. Palmira.
Através dos imagos, na persecução e personificação dos ideais católicos,
valorizados culturalmente como representantes do que é uma vida boa e
apropriada, a D. Palmira procura não só um sentido identitário mas, como a
própria religião lho indica, a salvação na vida para além da morte. Assim, a
busca de um fim apropriado para a HV, a necessidade que surge pela meia-idade
de encontrar um desenrolar generativo (McAdams, 1996, 2001) que assegure uma
imortalidade simbólica, encontra-se aqui parcialmente respondida pelo próprio
guião cultural. A necessidade de deixar um legado às gerações seguintes, de
explorar imagos alternativos, de criar um Meque sobreviva ao selfapenas pode
ser associada ao caminho religioso. É na adopção dos comportamentos,
culturalmente determinados, e que lhe foram transmitidos, que procura o seu
aperfeiçoamento enquanto mulher, e é com este aperfeiçoamento, e na transmissão
dos seus valores, que contribui para o melhorar e progredir da comunidade. Esta
parece, não obstante, uma opção “coxa”, uma vez que não se enxerta numa
construção pessoal, projecto reflexivo nascido do questionamento inerente à
meia-idade, mas advém de um dado cultural pré-existente ao indivíduo.
A busca de comunhão com os que se encontram à sua volta aparece no relato, bem
como no discurso normalmente apresentado pela D. Palmira durante os encontros,
como uma motivação sempre presente. De facto, a linha temática da comunhão,
ligada ao amor e à intimidade, e marcada por um desinvestimento na
individualidade assume uma absoluta preponderância na sua vida. Essencialmente,
esta evidencia-se na procura de vinculação afectiva com os outros, nomeadamente
com a família e, de grande proeminência no relato, pelo recente da questão e
consequências no presente, com o filho. Ela também é constatável na sua postura
de evitamento de situações conflituais, patente na submissão às ideias da mãe
em relação ao próprio casamento, ou no comentário sobre a relação com o marido:
“há criaturas que apanham porque querem, palram, palram, pronto apanham
porrada. Quem cala vence! Toda a vida assim foi, quem cala vence. É mais que a
verdade ainda”.
Na senda dos porquês desta linha de acção encontram-se várias questões que
podem confluir para a justificar. Desde logo o facto de a mulher tender a
definir a sua identidade essencialmente em termos relacionais e de conexão ao
outro, o que se liga aos papéis e modelos de submissão e exclusão social que
lhes são disponibilizados pelas culturas mais tradicionais e integrados na sua
identidade percebida (Gilligan, 1994; Josselsson, 1996). A esta questão, que
parece em perfeita consonância com o esboço que aqui tem vindo a ser traçado do
Tojo enquanto contexto histórico, social e cultural, bem como com a influência
deste mesmo contexto no tecer identitário da D. Palmira, há que acrescentar
outras de origem mais precoce e enfoque mais relacional.
De facto, a predominância das motivações associadas ao desejo de comunhão pode
encontrar-se associada a uma falta de esperança na sua possibilidade de agir e
de assumir posições mais assertivas e individualistas na interacção com os
outros e o mundo, evocando-se assim questões relativas à não existência de uma
confiança básica (Erikson, 1971, 1980) herdeira de relações significativas
precoces. Pode ainda resultar, ou encontrar-se relacionada, com uma má
resolução do conflito Iniciativa versusCulpa (Erikson, 1971, 1980) com esta
última a sobrepor-se à primeira truncando a possibilidade de comportamentos
mais independentes. Estas duas justificações remetem para períodos em que a
necessidade de forjar uma identidade é, ainda, inexistente. Apesar de estes
períodos se situarem numa era pré-narrativa, as suas características irão
influenciar, colorir, o tecer da trama identitária. São as experiências e
vivências deste período, preservadas no tecido mnésico, que mais tarde se
constituirão como material inicial a partir do qual o Iprocederá à construção
do Me. Directamente influenciado por estas vivências surge o tom narrativo
emprestado pelo indivíduo à sua história. Este corresponde à tonalidade
emocional global apresentada pelo relato e, para McAdams (1996), encontra-se
particularmente associado à qualidade das relações de vinculação.
O tom narrativo adoptado pela D. Palmira reveste-se de cores escuras, com o
pessimismo a combinar-se com a resignação e o conformismo. Na desigualdade do
seu relato, o período relativo à infância e à qualidade das relações aí
estabelecidas é escassamente investido. Deste modo, torna-se complicado, a
partir da sua simples análise, a percepção das especificidades pré-narrativas
por trás deste tom. No entanto, o enquadrar da infância da D. Palmira no seu
tempo histórico permite-nos lançar sobre o assunto alguma luz. As
características da organização familiar nas primeiras décadas do século XX no
interior rural português não podem ser comparadas com ideia de família hoje
existente. “Os filhos não eram tratados como indivíduos nem criados para dar
satisfação aos pais. (...). Não se tratava de falta de amor por parte dos pais,
mas estes estavam mais preocupados com a contribuição que os filhos davam no
trabalho comum do que com as próprias crianças”. Estas palavras de Giddens
(2001, p. 60) permitem, talvez, ter uma ideia da realidade vivida pela D.
Palmira enquanto criança e perceber que, pese embora ter crescido num meio
familiar coeso e estruturalmente estável, as vicissitudes inerentes à
instituição familiar à altura terão certamente tido influência na qualidade das
relações de vinculação por ela estabelecidas e imprimido no Ivivências e
sensações que terão influenciado a forma resignada e desesperançada com que
posteriormente esculpiu o Me.
Neste contexto, emergindo também dos anos pré-narrativos da infância, as poucas
imagens são os adereços sombrios vestidos pelo tom narrativo. A aspereza e
falta de confiança com que a D. Palmira encara o mundo, já patente na categoria
anterior, influenciam agora as imagens colhidas da infância e integradas no
processo de selfing.
Os momentos nucleares presentes na HV da D. Palmira apresentam-se, de certa
forma, como espelho de diversas das características da sua vida exploradas até
agora. Num relance abrangente sobre o texto percebe-se que este se organiza em
quatro momentos, episódios nucleares, marcados pelo conflito e o sofrimento,
pungentemente e largamente investidos (vd. biograma), entremeados por um narrar
disperso e desorganizado, quase desinteressado. Se isto, por um lado, nos
remete para uma certa dificuldade da D. Palmira em encarar a sua vida de uma
forma narrativa e, portanto, em se contar; por outro, o facto de todos os
momentos se referirem a momentos de sofrimento e conflito remete para a
importância dada a estas temáticas pela visão judaico-cristã, bem como para tom
pessimista do relato, influenciador dos momentos escolhidos como nucleares.
Devotando uma atenção mais pormenorizada aos momentos em si, dá-se conta de
como todos os quatro episódios se encontram associados a questões envolvendo
desígnios de comunhão, relacionados com a procura e manutenção de relações
familiares satisfatórias nem sempre atingidas. À luz da sua existência
presente, vivendo sozinha no Tojo em condições nem sempre fáceis, a obrigação
de ficar junto à mãe, a morte de um dos filhos e a impossibilidade de estar
junto do outro, pelo mau relacionamento com a nora aquando da ida para Lisboa,
surgem-lhe como responsáveis pela forma como o passado deu origem ao presente.
Assim, apesar do tom de resignação geral emprestado ao relato, nota-se nela um
certo descontentamento e revolta. Estes evidenciam-se na constante comparação
das dificuldades que atravessou com as que hoje as pessoas enfrentam, bem como,
e principalmente, no facto de, depois de uma vida dedicada a temas de comunhão,
não poder agora, no fim da mesma, estar junto a filhos e netos e receber o seu
suporte. Não havendo um medo evidente da morte, amortecido pelo enredo
cultural, que torna também injustificada a preocupação pelo pouco tempo para
criar novas significações, parece ainda assim que a D. Palmira não terá
atingido com sucesso absoluto a integridade do ego (Erikson, 1971, 1980).
Talvez que a roupagem emprestada à identidade pela cultura, por muito
agasalhadora que seja, não tenha nunca o tamanho certo da pessoa.