O Burnout como factor hierárquico de 2ª ordem da Escala de Burnout de Maslach
O Burnout como factor hierárquico de 2ª ordem da Escala de Burnoutde Maslach
INTRODUÇÃO
O burnoutdefine-se como uma resposta prolongada no tempo a stressores
interpessoais crónicos no trabalho, composta por três dimensões chave: exaustão
emocional, despersonalização e redução da realização pessoal (Maslach, 1993).
Por exaustão emocional entende-se uma sobre-solicitação ou esgotamento dos
recursos emocionais, morais e psicológicos da pessoa. A despersonalização
traduz uma distanciação afectiva ou indiferença emocional em relação aos
outros, nomeadamente àqueles que são a razão de ser actividade profissional
(pacientes, alunos, etc.). Finalmente, a redução da realização pessoal exprime
uma diminuição dos sentimentos de competência e de prazer associados ao
desempenho de uma actividade profissional.
Inicialmente considerou-se que esta síndrome psicológica era específica
daqueles que trabalhavam em profissões de "ajuda" ou apoio a outras
pessoas (por exemplo, médicos, advogados, psicólogos, professores, etc.).
O desenvolvimento das pesquisas sobre o burnoutmostrou não haver razão para
restringir esta síndrome aos domínios profissionais de apoio a outras pessoas,
alargando-a a todas as actividades profissionais (Leiter & Schaufeli,
1996). Este alargamento implicou mudanças nas designações das dimensões do
burnout. Fora das profissões de ajuda, a exaustão emocional passou a ser
designada simplesmente por exaustão, a despersonalização passou a chamar-se
cinismo e a realização pessoal transformou-se em eficácia profissional. O
conceito de burnouttem também sido aplicado a pessoas envolvidas em actividades
que, não sendo profissões propriamente ditas, partilham com elas alguns pontos
comuns, como é o caso de mães a tempo inteiro (Pelsma, Roland, Tollefson, &
Wigington, 1989) e de estudantes (Balogun, Helgemoe, Pellegrini, &
Hoeberlein, 1996; Koeske & Koeske,1991; McCarthy, Pretty, & Catano,
1990; Schaufeli,Martinez, Marques Pinto, Salanova, & Bakker, 2002).
A avaliação do burnouttem seguido uma evolução paralela à evolução do conceito.
Embora existam diversas escalas de avaliação de burnout(Schaufeli, Enzmann,
& Girault, 1993; Demerouti, Bakker, Vardakou, & Kantas, 2003), o
Maslach Burnout Inventory(MBI) é o instrumento utilizado em mais de 90% dos
trabalhos empíricos publicados sobre a síndrome (Schaufeli, Bakker, Hoogdoin,
Schaap, & Kadler, 2001; Tecedeiro, 2005). Trata-se de uma escala de
autoavaliação de tipo Likert em que é pedido ao sujeito que avalie, em sete
possibilidades que vão de "nunca" a "todos os dias",
com que frequência sente um conjunto de sentimentos expressos em frases
(Maslach, Jackson, & Leiter, 1996). Actualmente existem três versões
distintas em função da área profissional do respondente: uma versão com 22
itens para profissionais da área da saúde (MBI-HSS, de Human Services Survey),
uma versão com o mesmo número de itens adequada a quem trabalha em contextos
educacionais (MBI-ES) e uma versão de 16 itens adaptada à população
trabalhadora em geral (MBI-GS). Todas as versões possuem uma estrutura tri-
factorial, em linha com a conceptualização do burnoutproposta por Christina
Maslach, existindo correlações fracas a moderadas entre sub-escalas (Maslach,
Jackson, & Leiter, 1996). A escala não permite o cálculo de uma pontuação
global de burnout, recomendando os autores que a distribuição dos resultados de
cada subescala seja dividida em três partes iguais, correspondendo o terço
inferior a um resultado baixo, o terço médio a um resultado médio, e o terço
superior a um resultado elevado. Assim sendo, em todas as amostras existe um
terço de sujeitos com um resultado elevado em cada escala (independentemente do
seu valor absoluto), considerando-se que um sujeito tem burnout quando obtém
resultados elevados de exaustão e despersonalização e baixos de realização
pessoal.
O interesse pela avaliação do burnoutem estudantes requereu uma adaptação do
MBI às características desta população. Essa adaptação foi feita por
Schaufeli,Martinez, Marques Pinto, Salanova, e Bakker (2002), a partir de
trabalhos anteriores (Balogun et al., 1996; Gold & Michael, 1985) tendo por
base o MBI-GS. Recebendo o nome de Maslach Burnout Inventory-Student
Survey (MBI-SS), a escala ficou constituída por 15 itens, tendo a dimensão
despersonalização/ /cinismo passado a ser designada por Descrença (Schaufeli et
al., 2002). No estudo conduzido junto de amostras de estudantes de três países
europeus (Portugal, Espanha e Holanda), os autores mostraram a validade da
estrutura tri-factorial da escala, em linha com a conceptualização teórica de
Maslach, embora essa estrutura não seja invariante entre as três amostras,
devido à existência de variações na saturação dos três factores de país para
país. Como forma de ultrapassar a inexistência de critérios clínicos para o
burnout, Schaufeli, Bakker, Hoogdoin, Schaap, e Kadler (2001) propuseram a
definição de pontos de corte, recorrendo ao estudo da validade concorrente do
MBI-SS com critérios do ICD10 e do SCL90.
Embora a estrutura factorial das diversas versões do MBI tenha sido replicada
em múltiplas amostras (Maslach, Jackson, & Leiter, 1996; Schaufeli &
Taris, 2005; Schaufeli, Bakker, Hoogdoin, Schaap, e Kadler, 2001;
Schaufeli,Martinez, Marques Pinto, Salanova, & Bakker, 2002; Schutte,
Toppinen, Kalimo, & Schaufeli, 2000; Zhang, Gan, & Zhang, 2005),
algumas características métricas deste inventário têm sido muito questionadas.
Demerouti et al.(2003) chamaram a atenção para o facto de, no MBI-GS e à
semelhança das outras versões, os itens das subescalas de Cinismo e Exaustão
terem todos formulações negativas, enquanto que os itens de Realização pessoal
têm apenas formulações positivas o que, está demonstrado, afecta as qualidades
métricas das escalas assim construídas (Anastasi, 1988, citado por Demerouti,
Bakker, Vardakou, & Kantas, 2003). Kristensen, Borritz, Villadsen, e
Christensen (2005) argumentaram a favor de uma escala por si desenvolvida (o
Copenhagen Burnout Inventory, ou CBI) criticando o facto do MBI não contemplar
uma medida global de burnout, de ter alguns enviesamentos culturais associados
à formulação de alguns itens, de haver alguma falta de c larificação teórica em
relação às evolução das dimensões do burnoutcom o aparecimento das diversas
versões do inventário. De uma forma geral, e por outro lado, todos os estudos
têm sublinhado a adequada consistência interna das diversas versões do MBI. Por
exemplo, numa aplicação da MBI original (com 22 itens) a 55 estudantes de
fisioterapia, Balogun et al.(1995) observaram uma fiabilidade teste-reteste de
0.82, 0.60 e 0.80 para as dimensões da exaustão, descrença e realização
profissional, respectivamente.
Embora algumas destas críticas tenham sido contra-argumentadas (Schaufeli et
al., 2001), a inexistência um resultado global de burnoutno MBI, continua a ser
uma limitação não ultrapassada o que levou vários a autores a questionar o uso
desta escala (Demerouti, Bakker, Vardakou, & Kantas, 2003; Halbesleben
& Demerouti; Kristensen, Borritz, Villadsen, & Christensen, 2005).
Neste estudo, avaliámos a validade factorial e fiabilidade da escala MBI-SS
quando aplicada uma amostra de estudantes portugueses de Psicologia. A partir
da estrutura tri-factorial original, propusemos uma estrutura hierárquica de 2ª
ordem que permite estimar uma pontuação total de burnout.
MÉTODO
Participantes
Participaram no estudo 300 alunos, voluntários, do 2º ano da licenciatura em
Ciências Psicológicas do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, a quem foi
pedido que respondesse ao inventário de Burnoutde Maslach. A idade média dos
participantes foi de 22.7 anos (SEM=0.3), sendo 16% dos participantes do sexo
masculino e 84% do sexo feminino. A amostragem não-aleatória abrangeu os três
turnos de funcionamento lectivo (56% manhã, 17% tarde e 28% noite),
correspondente a uma taxa de amostragem de 64% da população do estudo. O
anonimato das respostas foi assegurado a todos os participantes e não houve
qualquer remuneração ou incentivo à participação.
Instrumento
A avaliação do estado de burnoutentre estudantes foi efectuada com a escala
Maslach Burnout Inventory - Student Survey(MBI-SS) de Schaufeli,
Martínez, Marques Pinto, Salanova, e Bakker (2002), presente no domínio
público, e que por sua vez é uma adaptação da Maslach Burnout Inventory -
General Survey(MBI-GS) de Schaufeli, Leiter, Maslach, e Jackson (1996).
A escala MBI-SS é constituída por 15 itens ordinais com pontuação de 0 (nunca;
nenhuma vez) a 6 (sempre; todos os dias). De acordo com os autores da MBI-SS,
os 15 itens distribuem-se por três factores (Exaustão, Descrença e Eficácia
Profissional) (Anexo I).
Procedimento
A versão portuguesa da escala MBI-GS (Tecedeiro, 2005) serviu de base à
adaptação para português da versão inglesa do MBI-SS (Schaufeli et al., 2002);
seguiu-se item a item a construção frásica do MBI-GS, traduzindo-se apenas os
conteúdos mais específicos do MBI-SS. O trabalho de tradução e adaptação foi
feito em paralelo por dois dos autores trabalhando independentemente, sendo a
versão final obtida por comparação e conciliação das duas versões.
A versão final foi aplicada sobre a forma de um questionário na Internet
disponível on-line durante o mês de Novembro de 2006. A base de dados foi
construída no SPSS (v. 15; SPSS Inc, Chicago, IL) e a validade factorial da
MBI-SS, bem como a estrutura hierárquica de segunda ordem foram avaliadas com o
software AMOS (v. 7; SPSS Inc, Chicago, IL). A sensibilidade dos itens foi
avaliada graficamente e por recurso aos coeficientes de assimetria (Sk) e
achatamento (Ku). Considerou-se que coeficientes de assimetria superiores a 3,
em valor absoluto, e coeficiente de achatamento superior a 7, em valor
absoluto, apresentavam problemas de desvio significativo da normalidade (Kline,
1998, p. 82) e consequentemente determinam a eliminação desses itens da escala.
A fiabilidade foi avaliada com o αde Cronbach estandar-dizado para cada um dos
3 factores, e com o αde Cronbach estratificado para o total da escala (Maroco
& Garcia-Marques, 2006). A validade factorial do modelo de medida tri-
factorial foi avaliada com uma análise factorial confirmatória usando-se como
índices de qualidade do ajustamento o χ2/df, CFI, GFIe RMSEAe P(rmsea≤0.05). A
qualidade dos modelos alternativos (estrutura factorial original e estrutura
factorial de 2ª ordem) foi ainda avaliada, em termos comparativos, por recurso
aos critérios de informação AIC, BICe BCC. Considerou-se que o ajustamento do
modelo aos dados era bom para valores de CFIe GFI superiores a 0.9, valores de
RMSEA inferiores a 0.05 e χ2/dfentre 1 e 2 (ver por exemplo, Schumacker &
Lomax, 1996; pp. 119-137). Relativamente aos critérios de informação, não
existem valores de referência para comparar modelos competitivos: o modelo com
menores valores de AIC, BICe BCCé o de maior parcimónia/qualidade de
ajustamento. O refinamento do modelo de medida foi efectuado com base em
critérios de validade de face e dos índices de modificação calculados pelo AMOS
(Arbuckle, 2006). Para evitar a capitalização dos erros de tipo I frequentes na
utilização dos índices de modificação, procedeu-se apenas à alteração das
trajectórias, e/ou eliminação de itens para índice de modificação superiores a
11 [χ2(1)=10.86; p=0.001]. A significância das diferenças nos scorestotais e
nas sub-escalas de burnoutforam analisadas com a ANOVA para o factor turno,
depois de validado o pressuposto da homogeneidade de variâncias com o teste de
Levene (p>0.1 para os scorestotais e scoresdas sub-escalas) e com uma ANOVA de
Welch para corrigir a heterocedasticidade do factor género. A avaliação do
pressuposto da normalidade, considerada a robustez da ANOVA a desvios à
normalidade e a sensibilidade dos testes de ajustamento à elevada dimensão da
amostra com o subsequente acréscimo do erro de tipo I, foi efectuada
graficamente e a partir dos valores de Ske Ku(que não se afastaram
excessivamente da distribuição normal de acordo com Kline, 1998).
RESULTADOS
Sensibilidade, validade e fiabilidade da MBI-SS
A Tabela_1 apresenta os valores medianos (Me), de assimetria (Sk), e
achatamento (Ku) bem como os respectivos rácios críticos (Sk/SDSke Ku/SDKu)
para os 15 itens que constituem a escala MBI-SS. Os itens que constituem a
dimensão Exaustão (it1 a it5) apresentam valores de assimetria e achatamento
próximos dos valores da distribuição normal (Me=2 e 3). Pelo contrário, os
itens da dimensão Descrença são leptocúrticos e enviesados a favor das
pontuações baixas (Me=1). Finalmente, para os itens que definem a dimensão
Eficácia Profissional os valores de assimetria e achatamento são próximos dos
valores da distribuição normal. Deste grupo, exceptua-se o item 13 que se
apresenta leptocúrtico e enviesado para pontuações elevadas (Me=5). Como se
pode constatar, nenhum item apresenta problemas de sensibilidade ou normalidade
relevantes.
TABELA_1
Sensibilidade dos 15 itens na escala MBI-SS
Item Me Sk Sk/SDSk Ku Ku/SDKu MínimoMáximo
It1 3.00 .137 0.97 -.297 -1.06 0 6
It2 3.00 .043 0.30 -.791 -2.81 0 6
It3 2.00 .418 2.96 -.627 -2.23 0 6
It4 2.00 .729 5.17 .326 1.16 0 6
It5 2.00 .344 2.44 -.353 -1.26 0 6
It6 1.00 1.516 10.75 2.011 7.16 0 6
It7 1.00 1.240 8.79 1.332 4.74 0 6
It8 1.00 1.367 9.70 1.390 4.95 0 6
It9 1.00 1.318 9.35 1.313 4.67 0 6
It10 4.00 -.269 -1.91 -.444 -1.58 0 6
It11 3.50 -.227 -1.61 -.402 -1.43 0 6
It12 4.00 -.388 -2.75 -.159 -0.57 0 6
It13 5.00 -1.232 -8.74 1.283 4.57 1 6
It14 5.00 -.571 -4.05 -.101 -0.36 1 6
It15 4.00 -.406 -2.88 -.357 -1.27 1 6
A validade factorial foi avaliada com uma análise factorial confirmatória. Os
índices de ajustamento revelam que a validade factorial proposta pelos autores
da MBI-SS é sofrível [χ2/df=2.9; CFI=0.902; GFI=0.899; RMSEA= 0.080; P
(rmsea≤0.05)<0.001] (ver Figura_1) ainda que os pesos factoriais de todos os
itens presentes sejam superiores ou iguais a 0.5.
FIGURA_1
Modelo de medida de primeira ordem da MBI-SS como proposto por Schaufeli et al.
(1996)
Nota:χ2(88)=255.739, p<0.001, N=300; χ2/df=2.9; CFI=0.902; GFI=0.899;
RMSEA=0.080; P(rmsea≤0.05)<0.001. AIC=319.7; BIC=438.3; BCC=323.4
A fiabilidade dos factores de primeira ordem foi avaliada pela medida de
consistência interna do αde Cronbach. Os factores Exaustão (5 itens), Descrença
(4 itens) e Eficácia Profissional (6 itens) aprestam valores de αestandardizado
de 0.815, 0.866 e 0.791 respectivamente. Na totalidade, a escala MBI-SS
apresenta um αestratificado de 0.789.
Validade e consistência da MBI-SS com factor de 2ª ordem
Uma vez que a validade factorial da MBI-SS apresenta valores de qualidade de
ajustamento sofríveis, procedeu-se ao refinamento do modelo original de acordo
com os índices de modificação obtidos com o AMOS. Numa primeira fase, eliminou-
se o item 4 da dimensão Exaustão e os itens 13 e 14 da dimensão Eficácia
Profissional uma vez que os seus índices de modificação sugeriam a correlação
dos respectivos erros de medida inter- e intra-dimensões. Relativamente à
dimensão Descrença, todos os itens apresentaram uma assimetria para
scoresbaixos (Me=1) com rácio crítico elevado (>3.1) mas valores absolutos de
assimetria e achatamento inferiores a 3. Assim, e atendendo aos elevados pesos
factoriais destes itens no factor Descrença (λ>0.7) optou-se por não eliminar
nenhum destes itens, uma vez que a assimetria positiva dos itens de Descrença é
expectável em alunos que se encontram no 2º ano da licenciatura. Por outro
lado, quer a validade factorial da sub-escala quer a sua consistência interna
(α=0.866) não é comprometida pela presença destes itens. A escala final
modificada apresenta assim, 3 dimensões equilibradas com 4 itens cada (Figura
2).
FIGURA_2
Modelo de medida da MBI-SS modificada
Nota:χ2(51)=96.742, p<0.001, N=300; χ2/df=1.9; CFI=0.964; GFI=0.949;
RMSEA=0.055; P(rmsea≤0.05)=0.302. AIC=150.5; BIC=250.7; BCC=153.2
Os factores Exaustão e Descrença apresentam-se positivamente correlacionados
(r=0.32; p<0.001). Pelo contrário, a Eficácia Profissional está correlacionada
negativamente com a Exaustão (r=-0.21; p=0.004) e com a Descrença (r=-0.41;
p<0.001). Estas correlações sugerem que existe um factor de 2ª ordem, o que
está em linha com o modelo teórico original de Maslach (1993) e Schaufeli et
al.(2002). Assim, propôs-se uma estrutura hierárquica com um factor de 2ª ordem
que designámos de "burnout". A Figura_3 ilustra o modelo da MBI-SS
modificado com o factor de 2ª ordem. Neste modelo, os valores de qualidade de
ajustamento são considerados bons, demonstrando a elevada validade factorial da
escala de MBI-SS modificada [χ2/df=1.9; CFI=0.964; GFI=0.949; RMSEA=0.055; P
(rmsea≤0.05)=0.302].
FIGURA_3
Modelo de segunda ordem da MBI-SS modificada
Nota:χ2(51)=96.742, p<0.001, N=300; χ2/df=1.9; CFI=0.964; GFI=0.949;
RMSEA=0.055; P(rmsea≤0.05)=0.302. AIC=159.7; BIC=250.7; BCC=153.2
Comparativamente com a escala MBI-SS original, a nova estrutura proposta
apresenta um ajustamento significativamente melhor [∆χ2(37)= 158.997; p<0.001]
e mais parcimonioso uma vez que os AIC, BICe BCCapresentam valores
consideravelmente menores na escala modificada com factor de 2ª ordem do que na
escala original (∆AIC=160.0; ∆BIC=187.6 e ∆BCC=170.2).
No modelo hierárquico de 2ª ordem, e para a amostra em estudo, os factores
Exaustão (4 itens), Descrença (4 itens) e Eficácia Profissional (4 itens)
aprestam valores de αestandardizado de 0.776, 0.866 e 0.769 respectivamente. Na
totalidade, a escala MBI-SS modificada apresenta um αestratificado de 0.831.
Recorrendo aos pesos dos scoresfactoriais calculados pelo AMOS, é possível
estimar numericamente o estado de burnout(valores estandardizados) com a
expressão:
Burnout= 0.047It1+ 0.020It2+ 0.013It3 + 0.339It5+ (1) + 0.150It6+ 0.095It7+
0.153 It8+ 0.141It9+
- 0.069It10- 0.043It11- 0.074It12 - 0.051It15
Sendo os scoresdas três sub-escalas dados, respectivamente, por:
Exaustão= 0.265It1+ .0116It2+ 0.076It3 + 0.060It5(2) Descrença= 0.225It6+
0.143It 7+ 0.230It8+ 0.213It9(3) Eficácia = 0.215It10+ 0.133It11+ 0.232It12+
0.160It 15(4)
A Figura_4 apresenta a distribuição de frequên-cias dos scores Exaustão
(M=2.09; SD=0.936), Descrença (M=0.94; SD=0.928) e Eficácia (M=2.77; SD=0.697).
Na amostra sob estudo, os scoresde descrença estão enviesados para valores
baixos (Sk=1.348) e são leptocúrticos (Ku=1.647), à semelhança do que se
observou nos itens que constituem esta dimensão. Em oposição, os scoresde
Exaustão (Sk=0.282; Ku=-0.140) e de Eficácia (Sk=-0.337; Ku=-0.312) apresentam
distribuições próximas da distribuição normal (Sk=0; Ku=0).
FIGURA_4
Histograma de frequências absolutas com curva normal para as dimensões
Exaustão, Descrença e Eficácia como calculado pelas equações (2), (3) e (4)
respectivamente
A distribuição dos valores globais de burnoutobtidos na amostra em estudo é
ilustrada na Figura_5. A dimensão burnoutapresenta, na presente amostra, um
valor médio de 0.11 com desvio-padrão de 0.785 sendo ligeiramente enviesada
para pontuações baixas (Sk=0.916; Ku=0.832) em virtude do considerável
assimetria positiva observado na dimensão Descrença.
FIGURA_5
Histograma de frequências absolutas com curva normal para a dimensão global de
burnoutcomo calculado pela equação (1)
Na Tabela_2 apresentam-se, a título exploratório, as médias e desvio-padrão das
sub-escalas e do total da escala de burnoutem função de várias variáveis socio-
demográficas. Recorrendo à análise de variância, não se observaram diferenças
estatisticamente significativas entre os dois sexos na escala total e nas sub-
escalas de Burnout(p>0.05), com excepção da sub-escala eficácia, onde contudo a
significância prática das diferenças é reduzida [FW(1,87.332)=9.033; p=0.003;
η2p=0.018]. Relativamente ao factor turno, observaram-se diferenças
significativas entre os turnos apenas nos scoresde eficácia [F(1,297)=3.521;
p=0.031; η2p=0.023] e exaustão [F(1,297)=4.192; p=0.016; η2p=0.027], apesar
destas diferenças estarem associadas a reduzidas dimensões de efeito (ver
Tabela_2). As diferenças nos scorestotais de Burnoutsão apenas marginalmente
significativas [F(1,297)=2.874; p=0.058; η2p=0.019], observando-se os
scoresmais elevados no turno da tarde.
TABELA_2
Valores médios (M) e desvio-padrão (SD) das sub-escalas e da escala global de
burnout em função do género e do turno dos estudos
______________________________________________________________________________________________
| Variável sócio- |Burnout[M (SD)] |Eficácia [M (SD)| Descrença [M |Exaustão[M (SD)]|
|______demográfica_____|________________|_________________|______(SD)]______|_________________|
|Sexo_|Feminino_(n=253)_|__0.11_(0.769)__|__2.73_(0.722)___|__0.91_(0.898)___|__2.12_(0.907)___|
| ___|Masculino_(n=47)_|__0.10_(0.879)__|__2.98_(0.494)___|__1.058_(1.08)___|__1.95_(1.084)___|
| | Estatística de | FW | FW | FW | FW |
|_____|______teste______|(1,59.77)=0.010;|(1,87.332)=9.033;|(1,58.358)=0.754;|(1,58.562)=0.983;|
| | p=0.921; | p=0.003; | p=0.389; | p=0.326; | |
|_____|____η2p<0.001___|___η2p=0.018___|____η2p=0.003___|____η2p=0.004___|_________________|
|Turno|__Manhã_(n=168)_|__0.10_(0.812)__|__2.76_(0.682)___|__0.879_(0.862)__|__2.07_(0.740)___|
| ___|__Tarde_(n=49)___|__0.34_(0.854)__|__2.57_(0.669)___|__1.188_(1.030)__|__1.85_(0.952)___|
| ___|__Noite_(n=83)___|__0.01_(0.785)__|__2.77_(0.697)___|__0.90_(0.983)___|__2.089_(0.937)__|
| | Estatística de |F(1,297)=2.874; | F(1,297)=3.521; | F(1,297)=2.195; | F(1,297)=4.192; |
|_____|______teste______|________________|_________________|_________________|_________________|
| |p=0.058;η2p=0.01| p=0.031; | p=0.113; | p=0.016; | |
|_____|_________________|___η2p=0.023___|____η2p=0.015___|____η2p=0.027___|_________________|
DISCUSSÃO
Os estudantes do ensino superior constituem-se como uma população relevante
para o desenvolvimento da síndrome de burnout,tais são as pressões sócio-
económicas, de relacionamento com os seus pares e com os docentes, testes e
trabalhos, a que geralmente estão submetidos. Por outro lado, preocupações com
a utilidade dos seus estudos e saídas sócio-profissionais facilitam o
desenvolvimento do burnoutem particular nos últimos anos do curso. Os estudos
sobre a ocorrência de burnoutem estudantes são incipientes, e incidem quase
exclusivamente sobre estudantes das áreas das ciências da saúde. Num destes
estudos, Jacobs e Dodd (2003) observaram que as ocorrências de níveis elevados
de burnoutem estudantes estavam associados a um temperamento negativo e a um
excesso de trabalho escolar subjectivo. Pelo contrário, baixos níveis de
burnoutestavam associados a um temperamento positivo, à participação em
actividades extra-curriculares e ao suporte social, em particular de amigos.
Apesar da importância que o diagnóstico e intervenção podem ter no desempenho
escolar e no ajustamento psico-social à escola e aos seus pares (McCarthy et
al., 1990; Koeske & Koeske, 1991), o estudo do burnouté limitado pelas
deficiências da instrumentação apropriada à avaliação desta síndrome em
estudantes. Alguns estudos efectuados sobre burnoutem estudantes têm recorrido
a escala de burnoutde Maslach adaptada para estudantes (MBI-SS) (Schaufeli et
al., 2005; Zhang et al., 2005) ou mesmo à versão original da escala (por
exemplo McCarthy et al., 1990; Balogun, Helgemoe, Pellegrini, & Hoeberlein,
1995). Contudo, na sua formulação original esta escala tem sido recebida com
algum criticismo, nomeadamente porque não apresenta um scoreglobal de burnout
(Demerouti et al., 2003; Kristensen et al., 2005).
A partir da adaptação inicial da Escala MBI (Maslach et al., 1996) proposta por
Schaufeli et al.(2002), para estudantes (MBI-SS), avaliámos as propriedades
psicométricas da versão portuguesa aplicada numa amostra de 300 estudantes. A
estrutura tri-factorial manteve-se na nossa amostra, à semelhança do que
ocorreu em outros estudos transnacionais (Schaufeli et al., 2005; Zhang, Gan,
& Zhang, 2005) mas, neste estudo, expandimo-la para uma estrutura
hierárquica de 2ª ordem. Os índices de qualidade de ajustamento demonstram que
este modelo apresenta um melhor ajustamento do que modelo original,
demonstrando maior validade factorial. Trata-se de um facto de particular
relevância, uma vez a maioria dos trabalhos sobre o modelo de burnoutde Maslach
(veja-se, por exemplo, Maslach, Jackson, & Leiter, 1996) nunca demonstra a
existência desta dimensão, embora a postulem. Ainda que os valores de
consistência interna das dimensões de primeira ordem tenham decrescido, os
valores encontrados (α>0.77) são indicadores de uma consistência interna dos
factores de primeira ordem aceitável e consistentes com outras medidas de
fiabilidade da MBI (por exemplo, Balogun et al., 1995) . É de referir porém que
a consistência interna é função do número de itens da escala (Maroco &
Garcia-Marques, 2006) e que, naturalmente, as reduções de consistência das
dimensões Exaustão e Eficácia podem dever-se mais à eliminação de itens do que
a uma perda de consistência da medida. Adicionalmente a consistência da escala
total, medida pelo αestratificado (que ao contrário do αnão subestima a
verdadeira consistência de escalas multifactoriais), apresenta um valor elevado
(0.83) e superior ao valor da escala original (0.79). A medição do nível global
de burnoutapresentou elevada fiabilidade na amostra do estudo.
A incidência da síndrome na população estudantil deverá representar uma
preocupação social e científica prioritária. Neste contexto, a escala MBI-SS
constitui-se como um instrumento de referência, e a possibilidade aqui
demonstrada de calcular um valor global de burnoutvem aumentar a sua relevância
em contextos tanto de investigação como clínicos, respondendo desta forma a uma
das mais relevantes críticas feitas às escalas desenvolvidas por Christina
Maslach (Kristensen, Borritz, Villadsen, & Christensen, 2005). Parece-nos
assim fundamental que o estudo aqui apresentado seja replicado noutras
amostras, de forma a confirmar a validade do modelo proposto, e que sejam
estabelecidos valores normativos e fixados critérios clínicos e de diagnóstico
úteis na prática clínica.
ANEXO 1
Adaptação da MBI-SS de Schaufeli et al. (2002)
Escala de burnoutde Maslach para Estudantes
As afirmações seguintes são referentes aos sentimentos/emoções de estudantes em
contexto escolar. Leia cuidadosamente cada afirmação e decida sobre a
frequência com que se sente da forma descrita e de acordo com o quadro
seguinte:
____________________________________________________________________________
| Nunca | Quase | Algumas |Regularmente| Bastantes | Quase | Sempre |
|________|_nunca__|___vezes___|____________|___vezes___|__sempre__|__________|
|___0____|___1____|_____2_____|_____3______|_____4_____|____5_____|____6_____|
|Nenhuma | Poucas |Uma vez por|Poucas vezes|Uma vez por| Poucas | Todos os |
| vez | vezes | mês | por mês | semana |vezes por | dias |
|________|________|___________|____________|___________|__semana__|__________|
______________________________________________________________________________________________
| _____________________________________________________________________|Nunca|_|_|_|_|_|Sempre|
| _____________________________________________________________________|__0__|1|2|3|4|5|__6___|
|Exaustão_emocional____________________________________________________|__O__|O|O|O|O|O|__O___|
|Os_meus_estudos_deixam-se_emocionalmente_exausto_______________________|__O__|O|O|O|O|O|__O___|
|Sinto-me_de_´rastos`_no_final_de_um_dia_na_universidade.______________|__O__|O|O|O|O|O|__O___|
|Sinto-me cansado quando me levanto de manhã e penso que tenho de | O |O|O|O|O|O| O |
|enfrentar_mais_um_dia_na_universidade._________________________________|_____|_|_|_|_|_|______|
|Estudar_ou_assistir_a_uma_aula_deixam-me_tenso.________________________|__O__|O|O|O|O|O|__O___|
|Os_meus_estudos_deixam-me_completamente_esgotado.______________________|__O__|O|O|O|O|O|__O___|
| _____________________________________________________________________|_____|_|_|_|_|_|______|
|Descrença_____________________________________________________________|_____|_|_|_|_|_|______|
|Tenho vindo a desinteressar-me pelos meus estudos desde que ingressei | O |O|O|O|O|O| O |
|na_universidade________________________________________________________|_____|_|_|_|_|_|______|
|Sinto-me_pouco_entusiasmado_com_os_meus_estudos._______________________|__O__|O|O|O|O|O|__O___|
|Sinto-me cada vez mais cínico relativamente à utilidade potencial dos| O |O|O|O|O|O| O |
|meus_estudos___________________________________________________________|_____|_|_|_|_|_|______|
|Tenho_dúvidas_sobre_o_significado_dos_meus_estudos.___________________|__O__|O|O|O|O|O|__O___|
| _____________________________________________________________________|_____|_|_|_|_|_|______|
|Eficácia_Profissional_________________________________________________|_____|_|_|_|_|_|______|
|Consigo resolver, de forma eficaz, os problemas que resultam dos meus | O |O|O|O|O|O| O |
|estudos._______________________________________________________________|_____|_|_|_|_|_|______|
|Acredito_que_participo,_de_forma_positiva,_nas_aulas_a_que_assisto.____|__O__|O|O|O|O|O|__O___|
|Sinto_que_sou_um_bom_aluno.____________________________________________|__O__|O|O|O|O|O|__O___|
|Sinto-me_estimulado_quando_alcanço_os_meus_objectivos_escolares.______|__O__|O|O|O|O|O|__O___|
|Tenho_aprendido_muitas_matérias_interessantes_durante_o_meu_curso.____|__O__|O|O|O|O|O|__O___|
|Durante a aula, sinto que consigo acompanhar as matérias de forma | O |O|O|O|O|O| O |
|eficaz.________________________________________________________________|_____|_|_|_|_|_|______|