Ajustamento conjugal: Características psicométricas da versão portuguesa da
Dyadic Adjustment Scale
O ajustamento conjugal(AC) constitui um conceito chave da literatura sobre a
família desde há décadas. Esta variável tem sido entendida como uma propriedade
interpessoal e não algo que os indivíduos carregam de uma relação para outra
(Johnson, Amoloza, & Booth, 1992), e como uma questão de 'grau'
num processo contínuo e sempre em mudança (Gurman, 1975; Dyer, 1983; Spanier,
1976). Contudo, o grau de felicidade ou sucesso de uma relação é influenciado
por uma diversidade de factores, o que tem colocado dificuldades de
clarificação conceptual e de avaliação nesta área (Crane, Middleton, &
Bean, 2000; Rosen-Grandon, Myers, & Hattie, 2004; Rossier, Rigozzi,
Charvoz, & Bodenmann, 2006). O AC tem sido definido em função da forma como
vai ser avaliado, não existindo uma definição consensual desta variável
(Fisiloglu & Demir, 2000). Esta limitação tem conduzido a alguma confusão
terminológica entre o conceito de AC e conceitos próximos, em particular o
conceito de satisfação conjugal; o primeiro é normalmente considerado como mais
inclusivo, mas os dois termos são usados de forma indiferenciada com frequência
(Sabourin, Valois, & Lussier, 2005).
Uma estratégia de avaliação nesta área tem sido tratar o AC como uma variável
unidimensional, geralmente através de índices breves que focam a avaliação
subjectiva global da relação (por ex., a Kansas Marital Satisfaction Scale
(Schumm, Scanlon, Crow, Green, & Buckler, 1983). Algumas destas medidas,
apesar de poderem apresentar validade facial, têm sido criticadas por incluírem
um número pequeno de itens redundantes (por ex., 'satisfação com a
relação' e 'satisfação com o/a parceiro/a') e terem fraco
poder preditivo (Sabourin et al., 2005). Uma segunda estratégia tem sido
desenvolver medidas multidimensionais que permitam diferenciar processos dentro
da relação que influenciam o nível de ajustamento geral (Hunsley, Pinsent,
Lefebvre, James-Tanner, & Vito, 1995; Rosen-Grandon et al., 2004). A
abordagem multidimensional tem o potencial de criar medidas mais informativas,
mas tem sido limitada pela dificuldade em definir a priorias dimensões do AC. A
estratégia, no desenvolvimento de medidas multidimensionais do AC, de submeter
uma poolinicial de itens a análise factorial exploratória tem produzido sub-
escalas híbridas na maioria dos casos (Busby, Christensen, Crane, & Larson,
1995). Por outro lado, poderá argumentar-se que a validade de constructo destas
medidas é limitada se o AC envolver outras componentes para além das
representadas (Sabourin et al., 2005). Tendo em conta que não há qualquer
solução fácil para as dificuldades que se colocam à avaliação da relação
conjugal, alguns investigadores têm feito notar que, dependendo de como os
resultados vão ser usados, a validade de critério ou discriminativa dos
instrumentos nesta área poderá constituir o indicador mais relevante (Busby et
al., 1995).
A DYADIC ADJUSTMENT SCALE
A Dyadic Adjustment Scale(DAS; Spanier, 1976) é frequentemente apontada como a
medida de avaliação da relação conjugal mais popular a nível internacional
(Dinkel & Balck, 2006; Hunsley, Best, Lefebvre & Vito, 2001). A escala
foi já adaptada para inúmeras línguas e culturas e tem sido extensivamente
usada quer na investigação quer em contextos clínicos (Shek, 1995; Touliatos,
Perimutter & Straus, 2001).
Spanier (1976) criou a DAS com o objectivo de introduzir uma medida do AC mais
informativa, que combinasse as pontuações subjectivas da relação com o efeito
de comportamentos e acontecimentos concretos. A escala foi testada numa amostra
total de 312 pessoas (homens e mulheres), das quais 218 estavam casadas ou a
viver conjugalmente em média há treze anos e 94 estavam separadas ou
divorciadas em média há dez meses. A versão final ficou constituída por 32
itens, dos quais trinta são cotados numa escala tipo-Likert com 5-7 opções de
resposta e dois são respondidos 'sim' ou 'não'; a
maioria dos itens tem seis opções de resposta, que são cotadas de 0 a 5 e
variam entre 'sempre em desacordo' a 'sempre em acordo'
ou desde 'sempre' a 'nunca'. (nota: os 32 itens são
apresentados na secção Resultados, no Quadro 1). Os resultados da análise
factorial exploratória permitiram apresentar um modelo multidimensional do AC
teoricamente consistente, de acordo com o qual os casais com níveis elevados de
AC caracterizam-se por elevado grau de consenso entre os dois parceiros em
questões que afectam a vida conjugal, como por ex., questões financeiras,
actividades recreativas ou formas de lidar com familiares (sub-dimensão de
Consenso; 13 itens); baixa frequência de conflitos e avaliação globalmente
positiva da relação e do futuro da relação (sub-dimensão de Satisfação; 10
itens); elevada frequência de interacções positivas e actividades partilhadas,
como por ex. rirem em conjunto ou terem uma troca de ideias estimulante (sub-
dimensão de Coesão; 5 itens); e elevada concordância em questões relacionadas
com demonstração de afecto e relações sexuais (sub-dimensão de Expressão de
Afecto - EA; 4 itens). Spanier reportou níveis satisfatórios de
consistência interna para as quatro sub-escalas (alfas de Cronbach entre .73 e
.94) e para a escala global (.96). O autor reportou ainda que os valores da
correlação com a nota no Marital Adjustment Test(MAT; Lock & Wallace, 1959)
variaram entre .86 e .88 e que as notas foram significativa-mente mais altas no
grupo de casados do que no grupo de separados [a nota global média foi 114.8,
(±17.8) no primeiro grupo e 70.7(±23.8) no segundo; os valores variam entre 0 e
151, sendo que notas mais altas indicam níveis mais elevados de AC].
A nota global tem sido usada na grande maioria dos estudos com a DAS (Crane et
al., 2000). Posteriormente ao estudo de Spanier, centenas de estudos
contribuíram para estabelecer a validade desta nota enquanto indicador do AC em
termos globais. As notas na DAS correlacionam-se fortemente com as de medidas
concorrentes para além da MAT (Fisiloglu & Demir, 2000; Kurdek, 1992;
Rossier et al., 2006), não diferem significativamente entre os dois parceiros
(Crane et al., 2000) e permitem classificar correctamente casais com e sem
dificuldades de ajustamento (Busby et al., 1995; Crane, Busby, & Larson,
1991). Os resultados com a DAS têm sido teoricamente consistentes também no que
respeita à associação do nível de AC com uma série de factores: por ex., os
níveis desta variável tendem a diminuir com o tempo de relação nos primeiros
anos de casamento e especialmente após o nascimento do primeiro filho (Delmore-
Ko, Pancer, Hunsberger, & Pratt, 2000; Narciso, 2001) associam-se
inversamente aos níveis de depressão e de ansiedade (Dimitrovsky, Levy-Shiff,
& Schattner-Zanany, 2002; O'Hara, Zekoski, Philipps, & Wright,
1990; Matthey, Barnett, Ungerer, & Waters, 2000); e, nos casais
heterossexuais com filhos, correlacionam-se positivamente com os níveis de
envolvimento paterno (Bonney, Kelley, & Levant, 1999; Levitt, Coffman,
Guacci-Franco, & Loveless, 1993, 1994) e com estilos parentais maternos e
paternos mais calorosos (Aluja, Barrío & Garcia, 2007).
Thompson e Spanier (1983) apresentaram uma revisão de estudos nos quais as
notas das sub-escalas foram usadas isoladamente, e cujos resultados suportam o
modelo multidimensional proposto. Contudo, a replicação exacta das quatro sub-
escalas mostrou-se problemática em análises factoriais posteriores, o que gerou
um debate sobre a estrutura dimensional da DAS (Crane, Busby, & Larson,
1991; Dinkel & Balck, 2006; Kazac, Jarmas, & Snitze, 1988; Kurdek,
1992; Shek, 1995). Sharpley e Cross (1982), num estudo frequentemente citado,
concluíram que os resultados consubstanciavam um modelo unidimensional do
ajustamento - embora uma solução de quatro factores tivesse sido
encontrada, o primeiro factor mostrou-se substancialmente mais forte do que os
restantes e alguns itens sobrepuseram-se em mais do que um factor ou não
obtiveram um peso factorial significativo no factor previsto. A maioria dos
autores encontrou apoio para um modelo de quatro dimensões, mas Dinkel e Balck
(2006) reportaram uma estrutura de apenas três factores com uma versão alemã da
escala. Alguns investigadores optaram por eliminar os itens problemáticos e
criar versões revistas da DAS (Busby et al., 1995; Crane et al., 2000; Hunsley
et al., 2001), mas nenhuma das várias versões já propostas tem 'feito
carreira' na literatura (Sabourin et al., 2005). A maioria dos autores
recorreu à análise factorial exploratória (AFE) para verificar o modelo. As
limitações da AFE
1
têm sido apontadas com um dos motivos que explicam a divergência nos resultados
reportados, particularmente considerando o tamanho da escala e questões de
hierarquia do constructo (Busby et al., 1995). A este respeito, Sabourin,
Lussier, Laplante, e Wright (1990) fizeram notar que a DAS assenta num modelo
hierárquico ou de ordem superior - quatro factores oblíquos (i.e.,
interrelacionados) de primeira ordem combinam-se para formar um factor geral de
segunda ordem; um modelo desta natureza provê uma explicação para a correlação
alta entre os factores primários (Byrne, 1995). Os estudos conduzidos com
análises factoriais confirmatórias (AFC), em vez de AFE, têm indicado que o
modelo original é empiricamente justificável (Sabourin et al., 1990; Vandeleur,
Fenton, Ferrero, & Preisig, 2003).
O objectivo do presente estudo foi analisar as características psicométricas de
uma versão portuguesa da DAS, já que esta é considerada uma das melhores
medidas de avaliação da relação conjugal. De acordo com a nossa revisão, a
adaptação da DAS à população portuguesa não foi feita anteriormente [num estudo
publicado na Análise Psicológica(Tavares, 1990), são apresentados resultados
com uma versão da DAS numa amostra de casais portugueses mas não é referida a
autoria da escala nem são apresentados quaisquer dados sobre o seu
desenvolvimento e propriedades].
MÉTODO
Desenvolvimento da versão portuguesa da DAS
No desenvolvimento da versão portuguesa da DAS procurou-se manter a escala o
mais equivalente possível em termos linguísticos e conceptuais à versão
original americana. De dois métodos principais no processo de tradução,
'tradução com retro-tradução' e 'controlo e avaliação numa
tradução unidireccional' (Fisiloglu & Demir, 2000), foi escolhido o
último tendo em conta limitações apontadas ao processo de retro-tradução,
especialmente o facto de prover pouca evidência de que a versão original e a
versão na língua pretendida são equivalentes (Hambleton, 2001). A DAS foi
traduzida para o português pela investigadora principal e por uma tradutora
separadamente. As duas traduções foram d epois comparadas e corrigidas nas
discrepâncias pontuais de vocabulário ou sintaxe. Finalmente, a versão final e
o original em inglês foram analisados por um grupo de Psicólogos
(investigadores e clínicos), de forma a confirmar-se a adequação da tradução e
validade facial dos itens.
Participantes
A amostra inicial foi constituída pelos dois elementos de 104 casais
heterossexuais, dos quais 60 se encontravam na fase de gravidez. Uma mulher foi
eliminada da amostra devido ao preenchimento incompleto da escala, pelo que a
amostra final incluiu um total de 207 pessoas (103 mulheres e 104 homens). A
idade média das mulheres era 30 anos (leque etário: 21-45 anos) e dos homens
era 32 anos (leque etário: 23-51 anos). A maioria das mulheres (78%) e dos
homens (61%) possuíam o grau académico de licenciado (dos restantes, 19% das
mulheres e 30% dos homens tinham o 12º ano de escolaridade, e 3% das mulheres e
9% dos homens apenas tinham completado o 9º ano). Os dois elementos do casal
estavam casados (68% dos casais) ou viviam em união de facto (32% dos casais)
em média há 49 meses (intervalo: 6-228 meses). Maioritariamente os
participantes não tinham filhos (74% das mulheres e 70% dos homens). De entre
aqueles com experiência parental, 62% tinham um filho, 34% tinham dois filhos e
4% tinham mais de dois filhos; a idade do filho mais novo era 1 a 5 anos em 78%
dos casos, 6 a 12 anos em 18% dos casos, 13 a 18 anos em 2% dos casos e mais de
18 anos para os restantes 2% dos casos. No grupo expectante, a DAS foi
preenchida em média às 26 semanas de gestação (intervalo: 11-40 semanas).
Procedimento e outro material
Os participantes estavam a colaborar num de dois estudos complementares na área
da parentalidade, ambos com uma amostra de casais expectantes e uma amostra de
casais não-expectantes. Para os dois estudos tinham sido definidos os seguintes
critérios de inclusão: que os participantes estivessem casados ou a viver
maritalmente há pelo menos seis meses; que tivessem pelo menos 18 anos; e, para
os casais não-expectantes, que não estivessem na fase de pós-parto (i.e.,
primeiros 12 meses depois do nascimento). O recrutamento foi feito com recurso
a colaboradores em contacto com casais elegíveis; no caso dos casais
expectantes, maioritariamente profissionais em serviços de obstetrícia; nos
restantes casos, colaboradores informais na comunidade. O consentimento
informado foi obtido pelos colaboradores na amostragem, mediante apresentação
de carta com a explicação dos objectivos e procedimento do estudo. Num dos
estudos, a DAS foi preenchida uma única vez, no fim de uma sessão experimental
em casa de cada casal. No segundo estudo, de natureza longitudinal, a escala
foi administrada duas vezes, sempre durante a gravidez para os casais
expectantes; os questionários foram entregues separadamente a cada elemento do
casal e devolvidos no prazo de uma semana através de deslocações da
investigadora principal (R.G.) a casa dos participantes; o tempo médio entre
avaliações foi 19 semanas (intervalo: 11-26 semanas). Neste sub-grupo de
participantes (n=73), o segundo preenchimento foi considerado como re-teste
para análise da estabilidade temporal das notas; nas restantes análises
consideraram-se as respostas da primeira avaliação.
Todos os participantes responderam também ao Inventário de Depressão de Beck
(BDI; versão original: Beck Depression Inventory,Beck, Ward, Mendelson, Mock
& Urbaugh, 1961; versão portuguesa: Vaz-Serra & Abreu, 1973
2
), que avalia o nível de sintomatologia depressiva, e ao Inventário de
Ansiedade Estado-Traço - Forma Y (STAI-Y; versão original: State-Trait
Anxiety Inventory,Spielberger, 1983; versão portuguesa: Silva, 2003), que
avalia o nível de ansiedade. Adicionalmente, 30 mulheres expectantes que
participaram no estudo longitudinal responderam à Escala de Confirmação das
Expectativas Maternas de Suporte (ECS; versão original: Expectancy Confirmation
Scale, Levitt, Coffman, Guacci-Franco, & Loveless, 1993, 1994; versão
portuguesa: Gomez & Leal, 2007) depois do nascimento dos bebés. A ECS mede
o nível de envolvimento paterno no pós-parto de acordo com a avaliação materna
e foi administrada em média 105 dias (intervalo: 89-141 dias) depois do
nascimento. A s informações socio-demográficas foram recolhidas através de um
questionário construído para o efeito, constituído por perguntas de resposta
curta ou alternativa.
A recolha do total de dados decorreu entre Abril de 2005 e Outubro de 2006.
Análise dos dados
As questões relativas à validade foram tratadas como um processo único (Eignor,
2001). De forma a verificar a estrutura dimensional da DAS na nossa amostra,
testaram-se, através de análises factoriais confirmatórias (ACF), os dois
principais modelos teóricos que foram propostos para a versão americana e que
têm estado em discussão na literatura (Busby et al., 1995; Vandeleur et al.,
2003): estrutura multidimensional hierárquica, de acordo com a proposta
original de Spanier (1976), e estrutura unidimensional posteriormente sugerida
por Sharpley e Cross (1982). O modelo multidimensional hierárquico foi
especificado restringindo a regressão dos itens ao respectivo factor e fazendo
regredir os quatro factores primários ao factor de segunda ordem (AC) (Byrne,
1995; MacCallum, 1995). Para o modelo unidimensional, fizeram-se regredir os 32
itens num único factor (AC). De forma a estabelecer uma escala de mensuração
dos factores primários nos modelos, o coeficiente de regressão não
estandardizado foi igualizado a 1 num dos itens para cada factor primário; no
modelo hierárquico, a variância do factor de segunda ordem foi igualizada a 1
(MacCallum, 1995). Os parâmetros foram estimados pelo método dos Mínimos
Quadrados não Ponderados (Unweighed Least Squares, ULS), dado que os itens da
DAS tendem a apresentar uma distribuição enviezada (Kurdek et al., 1992) e o
mesmo se observou na nossa amostra. Este método não assume a hipótese de
distribuição normal multivariada dos dados, ao contrário do método da Máxima
Verosimilhança (Maximum Likelihood, ML) (Curran, West, & Finch, 1996). Não
obstante, e de acordo com a recomendação de Hoyle e Panter (1995), apresentam-
se também os resultados estimados por ML, já que este método permite o teste
estatístico formal do modelo e constitui, de entre os vários métodos
disponíveis, aquele que tem sido mais largamente investigado. Para avaliar o
ajustamento dos modelos aos dados, foram considerados os seguintes indicadores:
- χ2e razão χ2/g.l. (qui-quadrado/graus de liberdade): O teste do
χ2constitui o teste formal da equivalência entre a matriz de covariância
implícita e a matriz de covariância observada (Hoyle, 1995; Curran, West &
Finch, 1996). A rejeição da hipótese nula (p<.05) significa que o modelo não se
ajusta aos dados. Contudo, o teste do χ2é largamente reconhecido como sendo
problemático, dada a forte sensibilidade desta estatística ao tamanho da
amostra, a desvios da normalidade e à complexidade (i.e., número de parâmetros
estimados) do modelo (Curran et al., 1996; Hoyle, 1995). A razão χ2/g.l. tem
sido aceite como um indicador menos enviezado. Para este quociente, valores
iguais ou inferiores a 5.0 ou, numa posição mais conservativa, a 3.0, são
considerados indicativos de um bom ajustamento (Byrne, 1990).
- Índice da Bondade do Ajustamento (Goodness of Fit Index, GFI) e Índice
da Bondade do Ajustamento Ajustado (Adjusted Goodness of Fit Index,AGFI): Tal
como outros índices subjectivos que assentam na mesma lógica, o GFI é um
indicador do incremento do ajustamento do modelo em relação a um modelo
hipotético independente ou nulo (i.e., no qual nenhuma relação entre as
variáveis existe); é referido como AGFI quando é ajustado em relação ao número
de variáveis observadas (Hoyle, 1995). Estas medidas variam entre 0 a 1. O
valor .90 é largamente aceite como ponto de corte a partir do qual se pode
concluir que o modelo é consistente com os dados, e valores acima de .95 são
considerados indicativos de um ajustamento muito bom (Hoyle, 1995; Tabachnik
& Fidell, 2001). Contudo, para valores estimados com métodos que pressupõem
a multinormalidade dos dados, como o ML, tem sido demonstrado que o critério d
e .90 como valor mínimo a atingir pode conduzir a erros Tipo I (i.e., rejeição
de modelos 'bons') perante desvios à normalidade ou amostras
relativamente pequenas (N<500) (Hu & Bentler, 1995).
- Média Quadrática Residual (Root Mean Square Residual, RMS): Esta medida
refere-se à equivalência entre a matriz de covariância residual implícita
(teoricamente nula, i.e., a média dos resíduos é igual a zero) e a matriz de
covariância residual observada. Considera-se que valores inferiores a .05
indicam um nível de equivalência bom, e entre .05 e .08 um nível de equiva-
lência razoável (Joreskög & Sörbom, 1989).
De forma a reunir dados adicionais sobre a validade da DAS, determinou-se
também a consistência interna das sub-escalas e da escala global através do
cálculo do coeficiente alfa de Cronbach (α), e foi analisada a inter-correlação
das notas. A estabilidade temporal foi avaliada na sub-amostra de participantes
que responderam duas vezes à DAS calculando a correlação entre os valores do
teste e do re-teste. As notas médias foram comparadas em função do estado
reprodutivo (expectante/não-expectante) e experiência parental (com ou sem
filhos) através de análises multivariadas de variância (MANOVA). Na amostra de
103 casais, a concordância entre as notas dos dois parceiros foi avaliada
através de análise correlacional. Avaliou-se ainda a correlação com as notas no
BDI, STAI-Y e ECE em cada género separadamente. Sete homens e oito mulheres
foram excluídos das análises com o BDI devido a preenchimento incompleto do
questionário. No cálculo de correlações foram utilizados testes Pearson.
As ACF foram realizadas com o programa estatístico AMOS v.16; as restantes
análises foram feitas com o SPSS v.15. O nível de significância estatística
considerado nas análises foi .05.
RESULTADOS
A mediana das notas situou-se acima do ponto médio da escala para os 30 itens
não-dicotómicos da DAS (i.e., todos os itens excepto os itens 29 e 30). Para a
maioria destes itens a opção com valor 0 (por ex., "sempre em
desacordo" nos itens 1-15 ou "muito infeliz" no item 31)
nunca foi escolhida, e para uma minoria apenas foram escolhidas as opções a
partir do ponto médio da escala. Estes resultados indicam um enviezamento das
notas para o extremo positivo da escala, o que era esperado tendo em conta as
características da amostra (constituída maioritariamente por casais nos
primeiros anos da relação e sem filhos) e a própria natureza do construto em
avaliação (no sentido em que não se espera que o casal mantenha a relação se o
nível de ajustamento conjugal for muito baixo).
Os resultados principais das análises factoriais confirmatórias (AFC) são
apresentados no Quadro_1 (peso factorial dos itens) e no Quadro_2 (índices de
ajustamento) para cada um dos modelos testados. Constata-se que o ajustamento
dos dois modelos foi sub-estimado com o método de estimação da Máxima
Verosimilhança (ML), em comparação com o método alternativo dos Mínimos
Quadrados não Ponderados (ULS), resultados que eram esperados dada a
distribuição assimétrica das notas. Como já referido, o primeiro método, ao
contrário do segundo, assume a hipótese de distribuição normal multivariada dos
dados. Os valores obtidos com o estimador ULS para os vários índices de
ajustamento alternativos ao teste do χ2indicam que o modelo multidimensional
hierárquico provê uma representação adequada dos dados, se assumirmos os
critérios de referência antes mencionados. Conforme a aceitação deste modelo
pressupõe, os valores respeitantes ao modelo unidimensional indicam também um
bom nível de ajustamento. Contudo, o modelo hierárquico produziu valores do χ2,
razão χ2/g.l. e RMR mais baixos, e valores do GFI e AGFI mais altos, o que
permite concluir que este modelo provê uma melhor representação dos dados do
que o modelo unidimensional (Curran et al., 1996). Os resultados apresentados
no Quadro_1, relativos aos coeficientes de regressão dos itens nos factores,
permitem duas observações adicionais que discutiremos na secção final
considerando o conjunto dos dados. Embora os valores sejam estatisticamente
significativos, os itens 3, 24, 28, 29 e 32 apresentam pesos factoriais baixos
(<.3) (Hattie, 1981) no factor geral de ajustamento conjugal (AC) (a este
respeito, note-se que o teste da estrutura unidimensional e o teste da
estrutura hierárquica geraram valores idênticos para a regressão dos itens no
factor de AC; por questões de economia de espaço, apenas são apresentados os
valores na solução unidimensional). No que respeita à regressão dos quatro
factores primários no factor de geral de AC, verifica-se que ela é máxima, e
bastante elevada, para o factor de Satisfação, o que indica o peso determinante
desta dimensão no nível global de AC; pelo contrário, o factor de Coesão surge
como o menos relevante, e relativamente pouco significativo em comparação com
os restantes três factores primários.
QUADRO_1
Estrutura interna da DAS: Pesos factoriais estandardizados
____________________________________________________________________________________________________________
| ________________________________________________________________________|_____________Modelo______________|
| ________________________________________________________________________|____Hierárquico___|Unidimensiona|
|Descrição_dos_Itens_____________________________________________________|Factor|ULS1|__ML1__|ULS1|__ML1___|
|(itens_1-15:_Grau_aproximado_de_concordância_em_relação_a)_____________| ____| __| _____| __| ______|
|1._Finanças_familiares___________________________________________________|__I___|.595|.590***|.561|.591***_|
|2._Aspectos_ligados_a_divertimentos_______________________________________|__I___|.569|.537***|.539|.513***_|
|3._Religião______________________________________________________________|__I___|.306|.325***|.286|.288***_|
|5._Amigos_________________________________________________________________|__I___|.564|.575***|.523|.529***_|
|7._Convencionalismo_______________________________________________________|__I___|.534|.568***|.491|.514***_|
|8._Filosofia_de_vida______________________________________________________|__I___|.687|.688***|.647|.663***_|
|9._Formas_de_lidar_com_familiares_________________________________________|__I___|.560|.587***|.518|.533***_|
|10._Objectivos_e_coisas_consideradas_importantes__________________________|__I___|.542|.560***|.509|.524***_|
|11._Quantidade_de_tempo_passado_em_conjunto_______________________________|__I___|.505|.489***|.480|.477***_|
|12._Tomada_de_decisões_importantes_______________________________________|__I___|.587|.598***|.549|.568***_|
|13._Tarefas_domésticas___________________________________________________|__I___|.549|.528***|.515|.533***_|
|14._Interesses_e_actividades_nos_tempos-livres____________________________|__I___|.555|.507***|.533|.517***_|
|15._Decisões_profissionais_______________________________________________|__I___|.553|.579***|.513|.533***_|
|16. Com que frequência fala sobre, ou tem considerado, o divórcio, a | II |.690|.737***|.627|.675*** |
|separação_ou_o_fim_da_relação_________________________________________|______|____|_______|____|________|
|17. Com que frequência você ou o seu companheiro(a) sai de casa depois d| II |.541|.564***|.498|.523*** |
|uma_discussão____________________________________________________________|______|____|_______|____|________|
|18. Considera que, de forma geral, as coisas com o seu companheiro(a) | II |.786|.760***|.726|.739*** |
|correm_bem________________________________________________________________|______|____|_______|____|________|
|19._Confia_no_seu_companheiro(a)__________________________________________|__II__|.540|.569***|.495|.524***_|
|20._Alguma_vez_lamenta_ter-se_casado_(ou_viver_junto)_____________________|__II__|.590|.612***|.542|.564***_|
|21._Com_que_frequência_você_e_o_seu_companheiro(a)_discutem_____________|__II__|.636|.607***|.589|.597***_|
|22. Com que frequência você ou o seu companheiro(a) deixa o outro com | II |.584|.573***|.539|.549*** |
|"os_nervos_à_flor_da_pele"_____________________________________|______|____|_______|____|________|
|23._Costuma_beijar_o_seu_companheiro(a)___________________________________|__II__|.453|.390***|.430|.404***_|
|31. Considerando a relação na globalidade ... o grau de felicidade que a| II |.652|.642***|.601|.609*** |
|caracteriza_______________________________________________________________|______|____|_______|____|________|
|32. Qual das seguintes afirmações descreve melhor o que sente sobre o | II |.247|.257***|.226|.240*** |
|futuro_da_sua_relação_conjugal__________________________________________|______|____|_______|____|________|
|24. Você e o seu companheiro(a) têm actividades e interesses fora de cas| III |.352|.368***|.229|.196*** |
|em_que_se_envolvem_juntos_________________________________________________|______|____|_______|____|________|
|(Itens_25-28:_Com_que_frequência_acontece)_______________________________|______|____|_______|____|________|
|25._Terem_uma_troca_de_ideias_estimulante_________________________________|_III__|.780|.796***|.495|.436***_|
|26._Rirem_em_conjunto_____________________________________________________|_III__|.721|.694***|.510|.436***_|
|27._Discutirem_calmamente_um_assunto______________________________________|_III__|.719|.677***|.469|.402***_|
|28._Trabalharem_juntos_num_projecto_______________________________________|_III__|.385|.398***|.240|.206***_|
|4._(Grau_de_concordância)_Demonstrações_de_afecto______________________|__IV__|.820|.790***|.606|.595***_|
|6._(Grau_de_concordância)_Relações_sexuais_____________________________|__IV__|.655|.675***|.485|.485***_|
|(Itens_29-30:_Tem_havido_problemas_relativamente_a)_______________________|______|____|_______|____|________|
|29._Ter_relações_sexuais________________________________________________|__IV__|.324|.332***|.221|.221***_|
|30._Falta_de_demonstração_de_amor_______________________________________|__IV__|.529|.488***|.397|.397***_|
|Consenso__________________________________________________________________|__AC__|.884|.895***|_-__|___-____|
|Satisfação______________________________________________________________|__AC__|.944|.938***|_-__|___-____|
|Coesão___________________________________________________________________|__AC__|.525|.527***|_-__|___-____|
|Expressão_de_Afecto_(EA)_________________________________________________|__AC__|.748|.741***|_-__|___-____|
Nota:1Método de estimação; **p<.01, ***p<.001 para o respectivo valor não-
estandardizado; I - Consenso; II - Satisfação; III
- Coesão; IV - Expressão de Afecto; AC - Ajustamento
Conjugal.
QUADRO_2
Estrutura interna da DAS: Índices de ajustamento
_________________________________________________________________________
| _____|_____________________________Modelo______________________________|
| _____|________Hierárquico________|___________Unidimensional___________|
|Índice|____ULS1_____|_____ML1______|_____ULS1______|________ULS1________|
| _____|___144.239___|___743.274____|____287.020____|______984.175_______|
|x2_____|___g.l.460___|__g.l.1.460___|___g.l.1.464___|_____g.l.1.464______|
| _____|______-______|___p<.0001____|_______-_______|______p<.0001_______|
|x2/g.l.|____0.314____|____1.616_____|_____0.619_____|_______2.121________|
|GFI____|____.965_____|_____.822_____|_____.930______|________.762________|
|AGFI___|____.960_____|_____.795_____|_____.920______|________.729________|
|RMS____|____.036_____|_____.038_____|_____.051______|________.053________|
Nota:1Método de estimação.
Uma vez que as AFC indicaram que o modelo multidimensional provê uma boa
representação dos dados, nas restantes análises prosseguiu-se assumindo este
modelo. O Quadro_3 mostra os valores da correlação inter-escalas. As
correlações entre as notas das quatro sub-escalas apresentam valores moderados,
o que sugere que os quatro factores, embora interrelacionados, são
relativamente distintos e ntre si. De forma a determinar a consistência interna
das escalas, calculou-se o coeficiente alfa de Cronbach (α); os valores obtidos
foram .849, .827, .720 e .655 para as sub-escalas de Consenso, Satisfação,
Coesão e EA respectivamente, e .897 para a escala global. No que respeita à
estabilidade teste-reteste das notas, obtiveram-se os seguintes coeficientes de
correlação (r): Consenso, r=.742; Satisfação, r=.800; Coesão, r=.541; EA,
r=.779; Escala Global, r=.754 (p=.000, n=73 para todas as notas).
QUADRO_3
Correlação inter-escalas
___________________________________________________________________________
| ________|__Total___|_Consenso__|_Satisfaçã|____Coesão___|_____EA______|
|Total_____|__________|__.896(*)__|__.857(*)___|___.625(*)____|___.658(*)___|
|Consenso__|_.896(*)__|___________|__.691***___|___.323***____|___.547***___|
|Satisfaç?_.857(*)__|__.691***__|____________|___.418***____|___.476***___|
|Coesão___|_.625(*)__|__.323***__|__.418***___|______________|___.289***___|
|EA________|_.658(*)__|__.547***__|__.476***___|___.289***____|_____________|
Nota:***p<.001, n=207.
No Quadro_4 apresentam-se as médias e d.p.das notas na amostra total e nos sub-
grupos relativos ao género, estado reprodutivo e experiência parental. Como era
esperado, as notas médias na amostra total revelam um enviezamento para o
extremo positivo da escala. Tendo-se definido as cinco notas como variáveis
depen-dentes e a experiência parental como variável independente, a MANOVA
indicou diferenças significativas entre participantes com e sem experiência
parental em todas as notas com excepção da nota de Expressão de Afecto (EA)
[teste multivariado: F(4,202)=3.781, p=.005; testes univariados: Consenso: F
(1,205)=8.486, p=.004; Satisfação: F(1,205)=10.290, p=.002; Coesão: F
(1,205)=9.022, p=.003; EA: F(1,205)= 1.801, p=.181; Escala Global: F
(1,205)=12.812, p=.000]; como pode verificar-se no Quadro_4, as notas foram
mais elevadas nos participantes que não tinham filhos. No que respeita ao
estado reprodutivo, a análise revelou que a diferença entre sub-grupos era
apenas estatisticamente significativa para a nota de EA, a qual foi mais alta
no grupo expectante do que no grupo não expectante [teste multivariado: F
(4,202)=3.087, p=.017; testes univariados: Consenso: F(1,205)= 0.001, p=.973;
Satisfação: F(1,205)=0.040, p=.842; Coesão: F(1,205)=3.314, p=.070; EA: F
(1,205)=4.471, p=.036; Escala Global: F(1,205)=0.025, p=.874)].
QUADRO_4
Estatísticas descritivas (média ±d.p.) das notas nos vários sub-grupos
_____________________________________________________________________________
|Grupo | n | Escala | Consenso |Satisfaç? Coesão | EA |
|___________|__________|_Global__|__________|__________|___________|__________|
|Expectantes| 120 | 118.43 |51.02±6.4|42.04±4.3| 15.64±3.4| 9.73±1.7|
|___________|__________|__±12.8_|__________|__________|___________|__________|
|Não- | 87 | 118.70 |51.05±5.9|41.93±3.4| 16.54±3.6| 9.18±1.9|
|Expectantes|__________|__±11.6_|__________|__________|___________|__________|
|Mulheres | 103 | 119.22 |51.60±5.8|41.99±3.8| 15.97±3.5| 9.66±1.8|
|___________|__________|__±11.8_|__________|__________|___________|__________|
|Homens | 104 | 117.87 |50.46±6.5|42.00±4.0| 16.07±3.6| 9.34±1.9|
|___________|__________|__±12.8_|__________|__________|___________|__________|
|Com EP | 58 | 113.78 |49.07±7.4|40.62±4.8| 14.86±3.9| 9.22±2.0|
|___________|__________|__±14.6_|__________|__________|___________|__________|
|Sem EP | 149 | 120.40 |51.79±5.4|42.53±3.4| 16.47±3.3| 9.60±1.7|
|___________|__________|__±10.8_|__________|__________|___________|__________|
|Total | 207 | 118.54 |51.03±6.2|42.00±3.9| 16.02±3.5| 9.50±1.8|
|___________|__________|__±12.3_|__________|__________|___________|__________|
Nota:EP - Experiência Parental.
Os coeficientes de correlação entre as notas dos dois parceiros foram .447,
.628, .517 e .580 para as sub-escalas de Consenso, Satisfação, Coesão e EA,
respectivamente, e .616 para a escala global, todos eles estatisticamente
significativos (p=.000 para todas as notas, n=103). No Quadro_5 apresentam-se
os resultados da correlação com as notas do BDI, do STAI-Y e da ECS,
separadamente para cada género. Conforme teoricamente esperável, as notas
associaram-se negativamente ao nível de sintomatologia depressiva e d e
ansiedade e positivamente ao nível de envolvimento paterno depois do
nascimento, embora a força destas associações apresente alguma variação com o
género. A força das correlações com as restantes medidas difere também entre as
sub-escalas da DAS, o que reforça a indicação de relativa independência entre
os sub-construtos avaliados pela DAS. Em convergência com os dados anteriores,
observa-se que as correlações são mais fracas para a nota de Coesão, a qual
apenas se correlaciona significativamente com as notas do STAI-Y nas mulheres e
com a nota do BDI nos homens.
QUADRO_5
Correlação entre as notas da DAS e as notas do BDI, STAI-Y e ECS
__________________________________________________________________________
| ________|___________Mulheres____________|____________Homens_____________|
| ________|___BDI___|__STAI-Y___|___ECS___|___BDI____|__STAI-Y__|___ECS___|
| ________|_(n=95)__|__(n=103)__|_(n=30)__|__(n=97)__|_(n=104)__|_(n=30)__|
|Escala | -.270** | -.457*** | .576** | -.414*** | -.461*** | .462** |
|Global____|_________|___________|_________|__________|__________|_________|
|Consenso__|_-.217**_|_-.360***__|_.596**__|_-.283**__|_-.455***_|_.442**__|
|Satisfaç?_-.254*__|_-.404***__|_.525**__|_-.445***_|_-.393***_|__.381*__|
|Coesão___|__n.s.___|__-.309**__|__n.s.___|_-.311**__|___n.s.___|__n.s.___|
|EA________|_-.281**_|_-.369***__|__n.s.___|_-.330**__|_-.373***_|_.483**__|
Nota:*p<.05; **p<.01; ***p<.001; n.s.- não-significativo (p>.05).
DISCUSSÃO
Os resultados deste estudo indicam que a versão portuguesa da DAS apresenta
características psicométricas equivalentes às da versão original. Os valores
médios obtidos para as várias notas da DAS foram semelhantes àqueles q ue têm
sido encontrados em amostras com características semelhantes (por ex., Dulude,
Bélanger, Wright, & Sabourin, 2002, reportaram uma nota média global de 117
numa amostra de mulheres no terceiro trimestre da gravidez; e no estudo de
Kurdek, 1992, o respectivo valor foi 120 numa amostra de 538 casais). Os
valores da consistência interna, correlações teste-reteste, correlações inter-
escalas e correlação entre as notas dos dois parceiros foram também
genericamente adequados e em conformidade com o que tem sido reportado na
literatura (por ex., no estudo de Kurdek, 1992, a correlação teste-reteste
variou entre .56 e .65 para as sub-escalas e foi .69 para a escala global; no
estudo de Rossier et al., 2006, a correlação entre parceiros variou entre .43 e
.71 para as sub-escalas e foi .64 para a escala global).
Como era esperado tendo em conta estudos prévios, observou-se ainda que os
participantes com filhos percepcionaram significativamente menos qualidade
conjugal do que os participantes sem experiência parental, e que as notas se
associaram negativamente aos níveis de sintomatologia depressiva e de ansiedade
e positivamente ao nível de envolvimento paterno. Estes resultados não são
contra-intuitivos e, no que respeita à escala global, convergem com os de
centenas de estudos prévios que indicam que a DAS pode ser considerada uma
medida válida para medir o nível de ajustamento conjugal (AC) em termos
globais.
Como referimos anteriormente, a possibilidade da DAS medir quatro sub-dimensões
conceptualmente distintas do AC tem sido menos consensual. Os estudos com
análises factoriais confirmatórias têm indicado que o modelo é empiricamente
válido, embora o loadingdos itens nos factores não seja perfeito. Neste estudo,
a estrutura de quatro factores foi claramente identificada nas análises
factoriais confirmatórias e mostrou-se mais satisfatória do que um modelo
unidimensional do AC. No entanto, à semelhança de análises anteriores,
constatou-se que alguns itens obtiveram pesos factoriais baixos e que
globalmente a nota de Coesão apresentou um comportamento menos sólido do que as
restantes notas (considerando que apresentou níveis mais baixos de estabilidade
temporal e concordância entre parceiros, bem como pior poder discriminativo; no
estudo de Kurdek, 1992, verificou-se também que esta era a única sub-escala que
não diferenciava entre casais casados e casais separados/divorciados).
É provável que o baixo peso factorial do item 3 (grau aproximado de
concordância em relação a religião) na nossa amostra reflicta características
associadas a menor religiosidade, nomeadamente idade relativamente jovem e
nível educacional alto. Será importante verificar a relevância deste item em
estudos futuros que incluam uma maior diversidade de participantes. No que
respeita aos itens 24 (Você e o seu companheiro(a) têm actividades e interesses
fora de casa em que se envolvem juntos) e 28 (Com que frequência acontece
trabalharem juntos num projecto), ambos pertencentes à sub-escala de Coesão, o
seu baixo peso factorial poderá reflectir também diferenças culturais
relativamente à amostra do estudo original de Spanier (1976); contudo, uma
explicação alternativa para os resultados obtidos é o facto do seu conteúdo não
ser completamente claro (trabalhar num projectoou ter actividades e interesses
fora de casanão define claramente o conteúdo da situação e pode ser entendido
de formas diferentes). Em coerência com esta explicação, verificou-se que o
item 14 (grau aproximado de concordância em relação a interesses e actividades
nos tempos livres), cujo conteúdo é próximo mas mais claro, obteve um peso
factorial mais significativo. Estes resultados sugerem que a eliminação
daqueles dois itens, ou a sua reformulação, poderia contribuir para melhorar o
comportamento psicométrico da sub-escala de Coesão. Quanto ao item 32 (Qual das
seguintes afirmações descreve melhor o que sente sobre o futuro da sua relação
conjugal), relacionado com o nível de compromisso e percepção subjectiva do
futuro da relação, pensamos que a sua baixa carga factorial resulta do facto
das duas primeiras opções de resposta poderem sugerir dependência ou auto-
sacrifício na relação (Kurdek, 1992). Em função deste aspecto, pensamos que a
DAS poderia ser melhorada também com a reformulação ou eliminação destas duas
opções de resposta (opção 1: Quero absolutamente que a minha relação tenha
sucesso e 'faria praticamente tudo o que fosse necessário' para
isso acontecer; opção 2: Quero muito que a minha relação tenha sucesso e
'farei tudo o que possa' para isso acontecer). Finalmente, o item
29 (Tem havido problemas na relação relativamente a relações sexuais), da sub-
escala de Expressão de Afecto (EA), obteve também um peso factorial pouco
significativo na nossa amostra. O mesmo tem sido reportado por outro autores,
bem como níveis relativamente baixos de consistência interna para a sub-escala
de EA (Graham, Liu, & Jeziorski, 2006) (nomeadamente, α<.70, embora não
exista a este respeito um critério estável de apreciação; Clark & Watson,
1995). Estes resultados parecem dever-se à restrição de variabilidade da
pontuação nesta escala, composta por apenas 4 itens, dois dos quais (incluindo
o item 29) são dicotómicos. É provável que o ajustamento destes dois itens, no
sentido de aumentar a variabilidade da sua pontuação, contribuísse para
aumentar a consistência interna da escala de EA, a qual, de resto, é
justificada neste estudo (considerando, por exemplo, que a nota média de EA foi
mais alta no grupo expectante do que no grupo não-expectante, observação que
não é contra-intuitiva se pensarmos que a redução da frequência de relações
sexuais é considerada normal durante a gravidez; Colman & Colman, 1991).
Enfim, os resultados sugerem que a DAS poderia ser melhorada com a reformulação
ou eliminação de alguns itens, mas a eficácia destas alterações à versão
original terá que ser testada empiricamente.
Como assinalaram Vitória, Almeida, e Primi (2006), as implicações da não
unidimensionalidade de um instrumento dependem de como ele é analisado e de
como os dados vão ser utilizados. Tendo em conta os resultados menos sólidos
obtidos neste e noutros estudos para a sub-escala de Coesão, recomendamos que
esta não seja usada isoladamente. Recordamos ainda que o uso de qualquer medida
de avaliação psicológica tem que ser precedido de uma consideração informada do
que ele pode e não pode fornecer; no caso da DAS, entrevistas clínicas e o uso
conjunto de outras medidas deverão ajudar a pôr em contexto os méritos e
limites da escala.
A observação de que a nota de Satisfação apresenta uma elevada correlação com a
nota global (.86 neste estudo) e forte poder discriminativo de forma
consistente ao longo dos estudos (e.g., Kurdek, 1992; Sabourin et al., 1990)
sugere-nos que esta sub-escala pode ser utilizada como versão curta da DAS
quando o objectivo for avaliar globalmente o AC. Esta sub-escala, com 10 itens
apenas, tem naturalmente maior capacidade discriminativa do que a chamada
single-item versionda DAS (i.e., o uso isolado do item 31 da escala, sugerido
por Sharpley & Cross, 1982, que verificaram que este item permitia
identificar correctamente os casais classificados como tendo ou não
dificuldades de ajustamento em 65% dos casos).
Para a população americana, Crane, Allgood, Larson, e Griffin (1990) concluíram
que a nota 107 na escala global equivale à nota 100 no MAT e pode ser usada
como ponto de corte para classificar casais com e sem dificuldades de
ajustamento. Embora a avaliação rigorosa do distressconjugal e do potencial de
divórcio não dispense o julgamento clínico (Whiting & Crane, 2003), estudos
futuros com grupos de pessoas recentemente separadas ou em terapia conjugal
poderão ajudar a estabelecer um ponto de corte para a versão portuguesa da DAS
e, assim, a torná-la mais informativa e útil.