A concordância entre medidas sociométricas e a estabilidade dos estatutos
sociais em crianças de idade pré-escolar
INTRODUÇÃO
A competência social das crianças, de acordo com a maioria das concepções,
implica a eficácia ao nível das relações com os pares, pelo que a popularidade,
o ser gostado pelos pares, tem sido frequentemente considerada uma boa medida
da competência social (Rose-Krasnor, 1997; Waters & Sroufe, 1983). A ampla
utilização de medidas sociométricas, como um instrumento fiável para avaliar o
ajustamento/ desenvolvimento social, sustenta-se em diversas investigações que
apontam para a existência de correlações estatisticamente significativas entre
a competência social e, por exemplo, o estatuto sociométrico, obtido através
destas medidas (Asher, 1985). Outros estudos sugerem, ainda, que o estatuto
sociométrico pode ser utilizado como um bom predictor do desenvolvimento social
futuro (Kupersmidt, Coie, & Dodge, 1990; Parker & Asher, 1987),
referindo que, comparativamente às crianças que são populares no seu grupo de
pares (i.e., as crianças com maior número de escolhas positivas), as crianças
impopulares tendem a abandonar a escola entre duas a oito vezes mais que as
primeiras (Asher & Parker, 1989). Do ponto de vista afectivo/emocional, as
crianças avaliadas como impopulares, referem, frequentemente, sentimentos de
solidão e insatisfação social (Cassidy & Asher, 1992), apresentando,
também, uma maior tendência para desenvolver problemas ao nível do
comportamento, tornando-se, por exemplo, excessivamente agressivas ou anti-
sociais (Sandstrom & Coie, 1999). Contudo, e apesar de, com relativa
frequência, o estatuto de rejeição estar associado a comportamentos de natureza
agressiva, algumas investigações (e.g., Coie & Cillessen, 1998), têm vindo
a demonstrar que esta associação nem sempre se verifica, ou seja, nem todas as
crianças rejeitadas manifestam agressividade e, uma vez comparadas com as
crianças simultaneamente rejeitadas e agressivas, estas últimas parecem estar
numa situação de risco, em termos de desajuste social, muito mais elevado.
Adicionalmente, alguns estudos evidenciam ainda que, quando avaliada como uma
estratégia social, igualmente válida na gestão/controlo dos recursos sociais
(e.g., brinquedos, espaço, atenção dos pares, etc.) a agressividade, durante o
período pré-escolar, não apresenta um perfil de associação regular, nem com a
aceitação social (i.e., a popularidade), nem com a competência social (Hawley,
2002, 2003; Rodkin, Farmer, Pearl, & Acker, 2000; Sandstrom & Coie,
1999; Vaughn & Santos, 2007). Contrariamente a uma concepção adulta
ocidentalizada (e, por vezes, moralista) do conceito de competência social,
durante este período de desenvolvimento, a utilização de comportamentos
agressivos, quando conjugada com comportamentos pró-sociais, surge
positivamente associada à competência social e à aceitação pelo grupo de pares,
como demonstram os estudos previamente citados.
Na investigação sobre o desenvolvimento cognitivo e social, durante a infância,
o recurso às escolhas sociométricas tornou-se um procedimento bastante comum a
partir do final da década de 1970, na sequência de diversos estudos (e.g.,
Kohlberg, Lacrosse & Ricks, 1972; Roff, Sells & Golden, 1972) que
vieram acentuar a importância dos pares, como fontes de informação
fundamentais, para uma boa avaliação do ajustamento social das crianças. Desde
então, as escolhas sociométricas têm sido correlacionadas com diversas
variáveis de natureza social, cognitiva e comportamental, designadamente, o
isolamento social, frequentemente associado a um estatuto social de rejeição e/
ou negligência (e.g., Harrist, Zaia, Bates, Dodge, & Pettit, 1997); a
adaptação/ajustamento sociale escolar, frequentemente mais difícil para
crianças com um estatuto social negativo (e.g., Buhs & Ladd, 2001; Coie
& Cillessen, 1993); o raciocínio morale o comportamento social, estando o
estatuto de rejeição positivamente associado a maiores dificuldades/défices no
raciocínio moral (Bear & Rys, 1994); o comportamento agressivo vs. pró-
social, associados à previsão do estatuto social de rejeição vs. aceitação,
respectivamente (e.g., Denham & Holt, 1993; Ladd, Price, & Hart, 1988;
Salmivalli, Kaukiainen, & Lagerspetz, 2000); as capacidades
sociocognitivas, que apontam para uma relação positiva e significativa entre as
competências de descentração afectiva, a descodificação das emoções a partir
das expressões faciais e um estatuto social positivo entre os pares (Spence,
1987).
Para além do estatuto social do indivíduo, relativamente ao seu grupo de pares
(i.e., o seu grau de popularidade, que em termos conceptuais é geralmente
classificado como popular, médio, controverso, rejeitadoe negligenciado, em
função das escolhas de todos os membros do grupo), existem outras abordagens
teóricas que atribuem uma menor importância a esta classificação, algo
inflexível, optando por compreender as preferências sociais (i.e., as escolhas
sociométricas), no contexto da natureza da relação que existe entre os
elementos da díade, ou seja, entre quem escolhe e quem foi escolhido (e.g.,
Santos, Vaughn, & Bonnet, 2000). Não obstante a existência de uma ligação
entre as relações de amizade e as relações com os pares, como um todo, a
pertinência desta diferenciação (i.e., analisar as escolhas sociométricas em
função da natureza da relação entre as crianças), resulta da possibilidade
destas serem, eventualmente, experiências de socialização distintas (Newcomb
& Bagwell, 1996).
Nesta linha de raciocínio, o conceito de popularidadeé, então, de natureza
unilateral, direccionado para o grupo, revelando as suas opiniões gerais sobre
o indivíduo; a amizade(preferência recíproca) implica, por sua vez, a
existência de uma relação diádica mútua entre dois indivíduos (Bukowski &
Hoza, 1989). Por consequência, o facto de uma criança, no geral, ser popular/
impopular, não implica, forçosamente, que essa mesma criança tenha ou não
amigos. Devido a esta distinção, em vez do estatuto social representar, por si
só, uma avaliação completa do desenvolvimento social e do ajustamento normativo
da criança, as suas implicações serão, eventualmente, mediadas por este segundo
elemento, designadamente, a existência (ou não), de relações de amizade
recíproca, identificadas, igualmente, através de medidas sociométricas.
Com base neste pressuposto, alguns estudos sobre as relações de amizade entre
as crianças têm utilizado as escolhas sociométricas para determinar, não
(apenas) o estatuto sociométrico, mas (também) o estatuto de amizade(e.g.,
Hartup, French, Laursen, Johnston, & Ogawa, 1993; Hartup, Laursen, Stewart,
& Eastenson, 1988; Vaughn et al., 2000). Tal como mostram estas
investigações, o recurso às medidas sociométricas, na avaliação do
desenvolvimento social, é um procedimento bastante comum. Contudo, não obstante
a sua popularidade, são raros os estudos que têm analisado a questão da
coerência entre as medidas, durante o pré-escolar (i.e., a correlação entre as
diferentes medidas avaliadas em diferentes momentos no tempo), eventualmente
devido à concepção, mais ou menos generalizada, de que as relações entre os
pares, durante este período de desenvolvimento, funcionam como precursoras das
verdadeirasrelações, que só deverão ter início já em idade escolar (Furman,
1982). Independentemente da sua natureza hipoteticamente provisóriaou mais
instável, estas relações precursorasparecem, todavia, ser suficientemente
importantes para que as diferenças entre as crianças que têm/não têm
amigossejam já evidentes, como mostram várias investigações sobre a amizade
durante o pré-escolar (Berndt, 2002; Dunn & Herrera, 1997; Hartup, 1989).
Utilizando como critério as frequências de interacção entre as crianças, para
determinar o estatuto de amizade (i.e., amizade mútua; unilateral; não amigos),
alguns estudos verificaram que entre crianças amigas (em idade pré-escolar),
tende a existir uma proporção significativamente maior de interacções positivas
e de verbalizações (Guralnick & Groom, 1988). Em consonância com estes
resultados, e tendo as escolhas sociométricas como critério, outros estudos
mostraram que as crianças que têm amigos mútuos, durante o pré-escolar, tendem
a ter mais sucesso na entrada para o grupo, a participar mais frequentemente em
jogos cooperativos e a demonstrar mais afecto positivo, comparativamente às
crianças que não têm uma relação deste tipo (Hartup, 1996).
Relativamente à questão da coerência entre diferentes medidas sociométricas (o
primeiro objectivo do presente estudo), os resultados obtidos por Wasik (1987),
apontam para a existência de elevada coerência, sobretudo entre as medidas de
preferência, escala de apreciaçãoe nomeações negativas, que apresentam as
correlações mais fortes ao longo do tempo. Neste estudo, o autor analisou a
coerênciaentre as avaliações obtidas através de duas medidas sociométricas
(nomeações e escala de apreciação), aplicadas duas vezes, num intervalo de
cinco meses, numa amostra de crianças em idade pré-escolar.
Quanto à questão da estabilidade das medidas sociométricas (i.e., a correlação
entre as medições da(s) mesma(s) amostra(s) em, pelo menos, dois momentos
temporais distintos), avaliada no segundo objectivo do presente estudo,
Maassen, Steenbeek e van Geert (2004) referem que o acordo entre duas
classificações deverá ser indicado através de uma medida de associação para
variáveis nominais (por tradição, o Kappa de Cohen). Numa revisão sobre a
estabilidade das classificações sociométricas, Cillessen, Bukowski e Haselager
(2000) verificaram que os valores Kappa variavam entre .01 e .44. Segundo
Maassen e colaboradores (2004), tais variações nos resultados não são
surpreendentes, na medida em que a estabilidade deste constructo depende
fortemente do contexto social onde decorre a avaliação e, por isso, as
condições em que os dados são obtidos podem alterar-se, mesmo num curto espaço
de tempo (e.g., mudanças na constituição dos grupos). Adicionalmente, os
autores referem que as preferências sociais, independentemente das mudanças na
estrutura do grupo, podem igualmente modificar-se, sobretudo, quando se trata
de crianças muito novas, o que remete, mais uma vez, para a ideia de
instabilidade das relações, como uma característica típica dos grupos sociais
de crianças entre os três e os cinco anos de idade.
Numa meta-análise sobre a estabilidade das medidas sociométricas, na avaliação
do estatuto social, Jiang e Cillessen (2005) verificaram que todas as medidas
consideradas (aceitação, rejeição, preferência social e escala de apreciação)
evidenciavam níveis satisfatórios de concordância teste-reteste (Kappa de
Cohen). Entre as quatro medidas, a preferência sociale a escala de apreciação
(.82 e .78, respectivamente), obtiveram correlações relativamente maiores que
as medidas da aceitaçãoe da rejeição(.72 e .70, respectivamente). De acordo com
os autores, estes resultados têm implicações importantes, dado que,
contrariamente ao que sugerem algumas investigações prévias (e.g., Asher &
Hymel, 1981), não se encontram evidências de uma primazia, em termos da
estabilidade, da tarefa sociométrica escala de apreciação(rating-scale), sobre
a tarefa nomeações.
Quanto à estabilidade das medidas, a longo termo, os resultados obtidos
mostraram correlações moderadas a elevadas, com valores médios próximos de
0.50.
Jiang e Cillessen (2005) salientam que a interpretação destes resultados deverá
considerar, antes de mais, a própria natureza, mais ou menos estável/ instável,
do constructo desenvolvimental s ubjacente, neste caso, o estatuto social no
grupo de pares. Assim, parte-se do pressuposto de que os coeficientes de
estabilidade, a curto prazo, não são influenciados por mudanças sistemáticas,
ao nível do constructo. Por consequência, estes coeficientes são interpretados
como indicadores purosda estabilidade. Contudo, quando se trata de avaliar a
estabilidade das medidas, a longo prazo, as duas fontes de instabilidade
- mudanças sistemáticas ao nível do desenvolvimento e mudanças não
sistemáticas da medição, em si mesma, podem sobrepor-se uma à outra, limitando
a validade das interpretações que daí decorrem. Por esta razão, os autores
advertem para que a interpretação dos coeficientes de correlação entre as
medidas sociométricas ocorra no sentido destes se tratarem apenas de
indicadores, em vez de equivalentes da estabilidade do constructo. No presente
estudo avaliaram-se (1) a coerência entre as diferentes avaliações obtidas
através de três medidas sociométricas e (2) a estabilidade dos estatutos
sociométricos.
MÉTODO
Participantes
Participaram neste estudo 263 crianças, 140 do sexo feminino e 123 do sexo
masculino, distribuídas por 11 grupos de crianças - três grupos de 3 anos
(67 crianças), quatro grupos de 4 anos (99 crianças) e quatro grupos de 5 anos
de idade (97 crianças). As crianças são provenientes de famílias com um
estatuto socioeconómico médio e frequentam instituições de ensino privadas no
Concelho de Oeiras. O número de crianças por sala variava entre os 20 e os 26.
Instrumentos
Medidas Sociométricas
A aceitação social foi avaliada através de três medidas sociométricas,
aplicadas por seis observadores (dois por ano), durante três anos lectivos. As
crianças foram entrevistadas individualmente.
Para a tarefa de Nomeação(McCandless & Marshall, 1957), uma medida
standardque consiste na selecção dos elementos do grupo, utilizando um
determinado critério (positivo ou negativo), pediu-se a cada criança que
escolhesse (a partir das fotografias de rosto dos colegas), os três colegas com
quem mais gosta de brincar(primeiras três escolhas positivas), os três colegas
com quem não gosta de brincar (três escolhas negativas) e, por fim, que
seleccionasse os restantes, um a um, em função do estímulo com quem gostas mais
de brincar. O procedimento decorria, até serem esgotadas todas as
possibilidades. As classificações de aceitação basearam-se nas três primeiras
escolhas (i.e., consideraram-se apenas as escolhas que ocorreram nas primeiras
três posições).
Para a tarefa de Escala de Apreciação(rating-scale), solicitou-se a cada
criança a classificação dos colegas, numa escala do tipo Likert, que variava
entre "1" (não gosta muito de brincar) e "3" (gosta
muito de brincar). Para facilitar a compreensão da classificação intermédia
(i.e., "2" - gosta mais ou menos de brincar), utilizaram-se
cartões com smiles(cara contente - gosta muito de brincar, cara triste
- não gosta muito de brincare cara séria - gosta mais ou menos de
brincar). O total de aceitação foi obtido através da divisão entre o resultado
total recebido por cada criança e o número de colegas que completaram a tarefa.
Por fim, para a tarefa de Comparações entre Pares(paired comparison), pediu-se
a cada criança que escolhesse um colega, utilizando novamente o critério com
quem gosta mais de brincar, para cada uma das díades possíveis no grupo (i.e.,
N.(N-1)/2). O total de aceitação para esta medida consiste no número médio de
escolhas em função do total de díades possíveis.
As médias de confiança teste-reteste para as tarefas sociométricas
(coeficientes Kappa de Cohen), têm variado entre .50, para a tarefa de Escala
de Apreciação e .75, para a tarefa de Comparações de Pares (Baldia, Punia,
& Singh, 2005; McCloskey, 1983; Vaughn & Waters, 1981).
Estatuto Sociométrico
O estatuto sociométrico das crianças foi determinado a partir da medida das
nomeações, anterior-mente descrita, seguindo os procedimentos descritos por
Coie e colaboradores (1982), que permitem a estimação do grau de popularidade
das crianças, tendo por base o princípio das duas dimensões - impacto
social e preferência social.
Em síntese, o método proposto pelos autores (Coie et al., 1982), descrito como
um modelo contínuo normativo, tem por base as frequências absolutas de
nomeações positivas e negativas, recebidas por cada criança. Estas frequências,
uma vez obtidas, são convertidas em resultados estandardizados (z scores) que
representam as medidas LM (like most) e LL(like least). A partir destes dois
resultados estandardizados (derivados a partir dos totais das nomeações
positivas e negativas recebidas), calculam-se, seguidamente, os resultados da
preferência social(P = LM - LL) e do impacto social(I = LM + LL).
A classificação num dado estatuto é determinada com base nestes últimos
resultados que representam as dimensões P (preferência) e I(impacto). Uma vez
calculados, obtém-se um sistema de classificação bidimensional dos estatutos,
baseado na distribuição normal, que resulta nos seis grupos seguintes: (a)
crianças populares- P>1.0, LM>0 e LL<0; (b) crianças rejeitadas-
P<1.0, LL>0 e LM<0; (c) crianças negligenciadas- I<1.0 e frequência
absoluta de nomeações positivas = 0; (d) crianças controversas - I>1.0,
LM e LL > 0; (e) crianças médias- P e I entre -0.5 e 0.5; e (f) outras,
todas as crianças que não são classificadas nas restantes categorias.
Para que a criança seja classificada num dos estatutos, ambas as condições
definidas para cada estatuto terão de ocorrer em simultâneo, ou seja, os
valores de P, I, LMe LL, devem estar compreendidos entre os limites acima
apresentados.
Procedimento
Os dados foram recolhidos durante três anos lectivos, por dois observadores
diferentes em cada ano. Durante o primeiro ano de recolha de dados foram
observados dois grupos de crianças de três anos e um grupo de quatro anos; no
segundo ano, foram observados um grupo de crianças de três anos, dois grupos de
quatro anos e dois grupos de cinco anos. À excepção do grupo de três anos, os
restantes grupos eram constituídos pelas crianças observadas no primeiro ano.
No terceiro e último ano de recolha de dados, foram observados dois grupos de
cinco anos, constituídos pelas mesmas crianças avaliadas no ano anterior, aos
quatro anos de idade.
Em cada ano, dois observadores entrevistaram individualmente cada criança,
correspondendo cada tarefa a um momento de observação. Para as crianças de três
anos foram necessárias, pelo menos, duas entrevistas para a tarefa de
comparação entre pares, potencialmente mais cansativa devido ao elevado número
de díades para as quais a criança teria de efectuar as suas escolhas. Por
consequência, sempre que a criança manifestava sinais de distracção,
interrompia-se a tarefa e retomava-se noutro momento.
As instruções dadas às crianças foram idênticas, bem como a ordem de
apresentação das tarefas (i.e., (1) nomeação, (2) escala de apreciação e (3)
comparação entre pares). Para além das instruções relativas à tarefa,
explicaram-se ainda, de forma relativamente simples, os objectivos do trabalho,
que foi apresentado como um estudo para nos ajudar a compreender melhor como é
que as crianças brincam umas com as outras e como é que fazem amigos.No início
da recolha de dados, pedia-se às crianças que identificassem todos os colegas
pelo nome, para assim garantir que existia o mínimo de conhecimento sobre quem
eram os seus colegas.
RESULTADOS
Uma vez normalizadas as variáveis (i.e., conversão em z scores), procedeu-se à
análise transversal das associações entre as três medidas sociométricas através
do calculo dos coeficientes de correlação de Pearson. Os resultados obtidos,
evidenciam a existência de correlações estatisticamente significativa entre as
três medidas, que aumenta de magnitude em função da idade das crianças.
A Tabela_1 apresenta a correlação global entre as medidas sociométricas
utilizadas. Tal como se pode verificar, à excepção da associação entre a medida
das nomeações negativas vs. escala de apreciação(-.17), observam-se correlações
significativas entre todas as medidas, que variam entre -.29 (nomeações
negativas vs. comparação entre pares) e .74 (comparação entre pares vs. escala
de apreciação).
TABELA_1
Correlação entre as medidas sociométricas
___________________________________________________________________________
| _____________________|__Escala_de_Apreciação|_Comparações_entre_Pares|
|Nomeações_Positivas__|__________.30*__________|__________.49**___________|
|Nomeações_Negativas__|__________-.17__________|__________-.29*___________|
|Comparações_entre_Par|_________.74**__________|__________________________|
Legenda: *p< .05; ** p< .01
Para analisar a coerência entre as medidas sociométricas nas diferentes idades,
procedeu-se a uma análise transversal dos dados, a partir da distribuição das
crianças num de dois grupos etários estabelecidos (3 anos vs.4/5 anos). A opção
por organizar os dados desta forma, resultou da tentativa para manter os grupos
equivalentes em termos de dimensão, e do facto de existir um menor número de
crianças de cinco anos, com avaliações independentes (i.e., que não foram
avaliadas nos anos anteriores).
Na Tabela_2 apresentam-se as correlações entre as medidas sociométricas para os
dois grupos etários. Para as crianças mais novas, verificaram-se correlações
estatisticamente significativas a medida das nomeações positivase as medidas
escala de apreciaçãoe comparação entre pares(.25 e .39 respectivamente). Entre
as crianças de 4/5 anos, todas as correlações entre as medidas foram
estatisticamente significativas, sendo o aumento de magnitude, bastante
evidente, sobretudo para a associação entre a medida comparação entre parese as
restantes medidas. Comparativamente às crianças mais novas, as crianças entre
os quatro e os cinco anos obtiveram, não apenas, correlações relativamente mais
fortes, entre a medida das nomeações negativas e as restantes medidas (-.27
para escala de apreciaçãoe -.40 para comparação pares) mas também mais próximas
das correlações entre as nomeações positivase as medidas escala de apreciação
(-.45) e comparação entre pares(-.56).
TABELA_2
Correlação entre as medidas sociométricas em função da idade
___________________________________________________________________________
| |Nomeações Positiv|Nomeações Negativ| Escala de |
|__________________|___________________|___________________|___Apreciação_|
|3_anos____________|___________________|___________________|________________|
|Escala de | .25* | -.07 | |
|Apreciação______|___________________|___________________|________________|
|Comparação entre| .39** | -.14 | |
|Pares_____________|___________________|___________________|________________|
|4/5_anos__________|___________________|___________________|________________|
|Escala de | .45** | 27* | |
|Apreciação______|___________________|___________________|________________|
|Comparação entre| .56** | -.40** | |
|Pares_____________|___________________|___________________|________________|
Legenda: *p<.05; **p<.01
A Tabela_3 apresenta as correlações entre as medidas sociométricas em função do
género. Como se pode verificar, à excepção da associação entre a medida escala
de apreciação vs. nomeações negativas, as restantes correlações são
estatisticamente significativas independentemente do género. As correlações
mais fortes observaram-se entre as nomeações positivase a medida comparação
entre pares(.49 para as raparigas e .51 para os rapazes).
TABELA_3
Correlação entre as medidas sociométricas em função do género
___________________________________________________________________________
| |Nomeações Positiv|Nomeações Negativ| Escala de |
|__________________|___________________|___________________|___Apreciação_|
|Feminino__________|___________________| _________________| ______________|
|Escala de | .23* | 18 | |
|Apreciação______|___________________|___________________|________________|
|Comparação entre| .49** | -.28* | |
|Pares_____________|___________________|___________________|________________|
|Masculino_________|___________________|___________________| ______________|
|Escala de | .38** | -.15 | |
|Apreciação______|___________________|___________________|________________|
|Comparação entre| .51** | -.36** | |
|Pares_____________|___________________|___________________|________________|
Legenda: *p<0.05; **p<0.01
Relativamente aos estatutos sociométricos, considerados no segundo objectivo
deste trabalho, procedeu-se a (1) uma análise da estabilidade/ concordância das
classificações sociométricas atribuídas a cada criança, dos três para os quatro
anos, dos três para os cinco anos e dos quatro para os cinco anos (através do
cálculo do coeficiente Kappa de Cohen); e, por fim, (2) uma análise da
associação entre a variável idade e a variável estatuto sociométrico,
utilizando o coeficiente de correlação V de Cramer.
A Tabela_4 apresenta a evolução da classificação dos estatutos sociométricos de
uma faixa etária para outra, ou seja, através da análise longitudinal dos
dados. Recorrendo ao coeficiente Kappa, uma medida da concordância entre as
classificações, verificou-se um nível de concordância muito baixo (K=0.07,
p>.05) indicativo de ausência de estabilidade nas classificações do estatuto
sociométrico, dos três para os quatro anos. A transição mais frequente entre os
estatutos, parece ocorrer na direcção da classificação médio, como se observa,
por exemplo, entre as nove crianças classificadas aos três anos, no estatuto
negligenciado, que passaram, aos quatro anos, a ser classificadas, sobretudo,
no estatuto médio(7 em 9 crianças). Aos quatro anos, nenhuma criança recebeu a
classificação no estatuto controverso.
Como se observa na Tabela_4, e à semelhança do que se verificou para os quatro
anos, nenhuma criança recebeu a classificação controversoaos cinco anos. Quanto
às mudanças mais evidentes nas classificações sociométricas, dos três para os
cinco anos, verifica-se, novamente, uma evolução do estatuto negligenciado para
o estatuto médio(i.e., das dez crianças, classificadas aos três anos como
negligenciadas, seis passam a receber a classificação médio, aos cinco anos).
No global, o número de crianças classificadas no estatuto médio parece tender a
aumentar entre estas duas idades (doze crianças aos três anos vs.dezanove
crianças aos quatro anos), contrariamente ao número de crianças classificadas
no estatuto negligenciado, que evidencia uma tendência de redução (dez crianças
aos três anos vs.cinco crianças aos cinco anos), equivalente ao que já se
verificou dos três para os quatro anos (nove crianças aos três anos vs.duas
crianças aos quatro anos). O valor do coeficiente Kappa foi de .22 (não
significativo), apontando para um nível de concordância baixo, pelo que, mais
uma vez, não existe estabilidade entre as classificações dos estatutos
sociométricos dos três para os cinco anos.
Tabela_4
Estabilidade dos Estatutos Sociométricos
Finalmente, dos quatro para os cinco anos a maioria das crianças tende a
receber uma classificação diferente, ao nível do estatuto sociométrico. À
semelhança do que se verificou para as transições 3-4 anos e 3-5 anos, também
dos quatro para os cinco anos o estatuto médioparece ser a classificação
tendência, isto é, as mudanças de estatuto tendem a ocorrer na direcção deste
estatuto, embora, neste último de caso, o total global para o estatuto médio,
não aumente. O valor de Kappa (.04) não é estatisticamente significativo
indicando, novamente, um nível de concordância muito baixo entre as
classificações, que atesta a ausência de estabilidade entre as classificações
do estatuto sociométrico dos quatro para os cinco anos de idade. O coeficiente
de correlação V de Cramer(V=.11; N=241; p=.7) corrobora os resultados obtidos
através do coeficiente Kappa, demonstrando a inexistência de uma associação
estaticamente significativa entre o estatuto sociométrico e a idade.
DISCUSSÃO
O primeiro objectivo deste trabalho foi verificar a coerência entre diferentes
medidas sociométricas, durante o pré-escolar, a partir de três técnicas
(medidas) frequentemente utilizadas na investigação sobre o desenvolvimento
social das crianças (e.g., Asher, 1985; Harrist et al., 1997; Kohlberg et al.,
1972; Roff et al., 1972), porém raramente avaliadas quanto à coerência
(consistência) das avaliações obtidas através de cada uma.
Nos poucos estudos publicados que trataram esta questão, (quase sempre de forma
secundária ou indirecta), os resultados obtidos sugerem que existe elevada
coerência entre diferentes medidas sociométricas, durante o período pré-escolar
(Wasik, 1987), contrariando a ideia de que, neste período de desenvolvimento,
as relações entre pares tendem a ser menos estáveis e mais casuais, quando
comparadas com as relações entre crianças em idade escolar.
No nosso estudo, os resultados obtidos são concordantes com os de Wasik (1987)
e indicam que, de um modo geral, à excepção da medida nomeações negativasque,
em algumas situações, apresenta valores de correlação não significativos, quer
na amostra global, quer nas sub-amostras referentes à idade e ao género, as
restantes medidas apresentam níveis de coerência (i.e. associação entre as
medidas) estatisticamente significativos mesmo entre as crianças de três anos.
Na globalidade, os resultados mostram que, para a amostra global, as
correlações entre as diferentes medidas são estatisticamente significativas
para todas as associações possíveis, excepto entre as medidas escala de
apreciação vs. nomeações negativas. Quanto às correlações em função da variável
idade (3 anos vs.4/5 anos), verifica-se um aumento dos valores das associações
entre todas as medidas, estatisticamente significativas, incluindo a associação
entre escala de apreciação vs. nomeações negativas(não significativa para o
grupo de crianças de três anos). Por fim, na análise em função da variável
género, verifica-se um padrão de correlações idêntico para os dois grupos,
onde, à excepção das correlações entre a medida nomeações negativas vs. escala
de apreciação, se observam correlações estatisticamente significativas entre
todas as medidas. Quer entre as raparigas, quer entre os rapazes, os resultados
indicam a existência de uma maior coerência entre as medidas nomeações
positivas vs. comparação entre pares (.49 e .51 para o sexo feminino e para o
sexo masculino, respectivamente).
Como se referiu anteriormente, comparativamente às crianças de três anos, os
dados para as crianças de 4/5 anos evidenciam, não apenas, correlações mais
fortes entre as medidas mas, também, estatisticamente significativas, em todas
as associações possíveis, com valores de rque variam entre .27 e .56. Este
aumento de coerência entre as medidas, à medida que a idade aumente (e em
amostras independentes), é congruente com algumas investigações sobre as
estruturas afiliativas, durante o pré-escolar (e.g., Santos, Vaughn, &
Bost, 2008; Strayer & Santos, 1996; Vaughn & Santos, 2008) que têm
vindo a sugerir uma progressiva consolidação destas estruturas de organização
social, à medida que a idade aumenta. De acordo com os seus resultados, as
crianças parecem tornam-se gradualmente mais precisas sobre quem são os seus
amigos e, embora o número de nomeações permaneça relativamente idêntico, o
número de escolhas recíprocas tende, de facto, a aumentar, o que significa que
as crianças atribuem progressivamente as suas escolhas aos pares que também as
nomearam nas suas primeiras três escolhas (Berndt & Hoyle, 1985).
Noutro estudo sobre a amizade (classificada a partir de escolhas sociométricas)
e a competência social, durante o pré-escolar, Vaughn e colaboradores (2000)
verificaram, de modo idêntico, que as crianças mais velhas, quer nas análises
transversais, quer nas longitudinais, tinham significativamente mais amizades
recíprocas que as crianças mais novas.
Os aumentos (a) do nível da coerência entre diferentes medidas sociais em
função da idade, (b) da precisão sobre das escolhas que a crianças faz, e (c)
da reciprocidade das suas relações de amizade, são consistente com as teorias
do desenvolvimento social e cognitivo, que sugerem um aumento gradual do mundo
social, particularmente do contexto do grupo de pares e, simultaneamente, por
avanços significativos, ao nível das competências cognitivas (Flavell, Flavell,
& Green, 1987; Flavell, & Miller, 1998; Flavell, Miller, & Miller,
1999).
Segundo Flavell e colaboradores (1999), quando adquirem uma compreensão mais
ampla acerca da mente, como o lugaronde ocorrem os desejos, as crenças, os
pensamentos e os sentimentos, as crianças têm também maiores possibilidades
para construir, elas próprias, conceitos acerca dos outros, particularmente,
sobre as suas características pessoais singulares, como os traços de
personalidade. À semelhança do que acontece com o conhecimento não social,
também no conhecimento social a compreensão da criança começa por ser
relativamente simples, evoluindo progressivamente, à medida que interage com os
objectos sociais e não sociais, para uma compreensão mais complexa e
estruturada (Flavell, 1996; Flavell et al., 1999). No caso das relações entre
os pares, permite, provavelmente, que as escolhas dos parceiros sociais, de
acordo com um dado critério, sejam elas próprias suportadas por regras mais
consistentes e menos voláteis.
Relativamente ao segundo objectivo deste trabalho - avaliar a frequência
e estabilidade das classificações sociométricas em função da idade - os
resultados obtidos mostram que o estatuto mais frequente, em todas as idades,
corresponde à classificação médio, um resultado positivo, do ponto do
desenvolvimento desta amostra de crianças, na medida em que, a este estatuto
social, se associam, geralmente, características e competências tidas como
indicadores de um crescimento social ajustado (Schaffer, 1996). Também por essa
razão, como se constata em diversas investigações, as crianças cujo estatuto
social é melhor caracterizado como médiosão frequentemente excluídas das
análises, quando se pretende estudar, por exemplo, a agressividade, o abandono/
insucesso escolar, etc. (Coie & Cillessen, 1998; Sandstrom & Coie,
1999).
Os testes estatísticos realizados (coeficiente Kappa de Cohene coeficiente de
correlação Vde Cramer) apontam para ausência de estabilidade nas classificações
sociométricas atribuídas às crianças, de ano para ano, nas três idades
consideradas e para a ausência de associação estatisticamente significativa
entre a variável idade e a variável estatuto sociométrico. Estes resultados são
contraditórios com a literatura vigente, que tem indicado que o estatuto
social, no grupo de pares, tende a ser relativamente estável ao longo do tempo
(e.g., Cillessen et al., 2000). Entre outros aspectos, os estudos que sugerem
estabilidade nas classificações sociométricas, mostram que, independentemente
do sistema de classificação utilizado, as crianças populares tendem a
permanecer populares, tal como as crianças rejeitadas tendem a manter-se
rejeitadas (e.g., Brendgen, Vitaro, Bukowski, Doyle, & Markiewicz, 2001).
Adicionalmente, as evidências disponíveis sugerem, também, que a classificação
do estatuto social (particularmente o de rejeição), não só tende a ser estável
num grupo em particular, como a ser consistente de forma transversal, ou seja,
de grupo para grupo (Bierman, 2004).
A estabilidade na aceitação e rejeição pelo grupo é um fenómeno pertinente para
alguns investigadores, por corroborar as suas perspectivas teóricas sobre o que
constitui a base para a formação de um dado estatuto social, designadamente, o
pressuposto de que o estatuto reflecte as competências da criança, em vez de
idiossincrasias ou artefactos inerentes aos grupos de que fazem parte (Parker,
Rubin, Erath, Wojslawowicz, & Buskirk, 2006). Tal como mostram
investigações recentes sobre o contexto social, a reputação e outros factores
grupais favoráveis à rejeição vs. aceitação pelo grupo de pares (e.g., Santos
& Wineger, 1999; Abrams, Rutland & Cameron, 2003; Santos, Vaughn &
Bost, 2008; Vaughn & Santos, 2008), é errado subestimar a importância que
os factores ao nível do grupo desempenham, quer na emergência do estatuto
social, quer na sua subsistência.