TEITOK@C-I   |   Corpora@C-I   |   CELGA-ILTEC   |   Contacto

EN | PT

Text view

EuPTHUHu0807-89672015000300007

National varietyEu
Year2015
SourceScielo

Javascript seems to be turned off, or there was a communication error. Turn on Javascript for more display options.

A arte poética de orfeu na dispersão, de Mário de Sá-Carneiro

Para a revista idealizada por Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa foram considerados títulos como Esfinge, Lusitânia e Europa, havendo de prevalecer para a publicação inaugural do Modernismo português a designação atribuída por Luís de Montalvor: Orpheu[1] (Silva, 2008, p. 566). Fátima Freitas Morna (2012, p. 169), reconhecendo tratar-se de um título perfeito visto que o seu nome é literatura (o mito grego do poeta cujo canto tinha poder sobre as forças da natureza), símbolo adequado a um texto que se pretende de intervenção directa na configuração mental do país”[2] , considera relevante a ausência de Orfeu ele próprio, a personagem do mito, das representações literárias contidas não apenas na revista a que o nome mas também nas que se lhe seguiram (Morna, 2012, p. 171). De facto, na literatura portuguesa deste período não se encontra um texto que assuma a revisitação, o desenvolvimento, a refuncionalização da personagem mítica dando-lhe o protagonismo de um título ou, pelo menos, de uma ampla e reconhecível presença”.[3] Não deixa de ser, no entanto, significativo que, sem haver qualquer referente concreto ou alusão àquele herói mítico na obra de Mário de Sá-Carneiro, Fernando Cabral Martins (1999, p. 277) admita existir, em Céu em Fogo, uma afirmação geral do movimento de exaltação, em acerto progressivo com a materialidade pulsional.

Pode ser lido como o resgate de Orfeu e Narciso do inferno da culpa. Uma inesperada eclosão de sentimentos fortes e felizes no sumptuoso negrume do mistério sem limite.

Igualmente relevante é o facto de, nos últimos anos, se terem publicado estudos [4] dedicados a uma obra como Dispersão[5] propondo afinidades entre este conjunto de poemas de Sá-Carneiro e alguns mitos gregos, mesmo que a sua presença textual seja menos evidente (Mourão-Ferreira, 1983, p. 134). Destes mitos, têm-se referido principalmente Narciso[6] e Ícaro[7], representando cada um deles uma faceta distinta da expressão de um sujeito lírico que declara amiúde a sua inquietação interior, digladiando-se tragicamente para encontrar uma totalidade inalcançável; do reconhecimento da impossibilidade de o conseguir, decorre uma suspensão da consciência e do tempo (Martins, 1994, pp.

190-202).

Na sua globalidade, esses ensaios demonstram que Dispersão constrói figurativamente a imagem de um sujeito-poeta insatisfeito, de interior fragmentado e, por isso, disperso, que apenas se poderá condensar quando revelar ou resgatar a poesia. Nesse sentido, apresenta-se neste estudo uma leitura de Dispersão[8]enquanto arte poética moderna, que se socorre de símbolos e mitos que espelham a ideia de literatura e dos seus temas, distanciando-se das poéticas clássica (fundada sobretudo na mimese e no respeito de modelos literários) e romântica (teoricamente alicerçada na crença da originalidade do poeta), sem delas se desligar por completo.[9] Por isso, o presente estudo sugere uma associação entre Orfeu e o poeta de Dispersão, fundamentando a ideia de Maria Helena da Rocha Pereira (2005, p. 11), que entende que, pelos símbolos implicados, um mito não pertence ao reino do inconsciente, mas ao da linguagem.

De facto, os poemas de Dispersão permitem algumas linhas de leitura que correspondem ao modelo do mito de Orfeu e Eurídice: o poeta enquanto vate de uma religião poética, o criador que persegue a luz a fim de a arrancar às trevas e finalmente o movimento no olhar, desviando-o do caminho da luz da superfície, que culminará na precipitação da poesia na bruma, ficando irremediavelmente perdida.

A primeira estrofe do poema Partida, sustentada na metáfora da água em movimento incessante, simboliza o tempo irrefreável da vida humana (assinale-se a hipálage escoar-se a vida humanamente). Perante semelhante cenário que lhe é, afinal, exterior , o sujeito poético assume o papel de observador: não é a vida dele que contempla, é a de outros. As águas que passam reificam, pois, o tempo evanescente, representando um movimento exterior ao eu. Este movimento, tal como na Clepsydra de Pessanha, encontrará uma polarização inversa, ou seja, um abrandamento do tempo e da consciência do sujeito, como se pode verificar pela semântica dos verbos usados: ver hesitar deter-se meditar.

Porque não consegue alcançar o que procura, a passagem do tempo, que é para outros poetas motivo de ansiedade, em Sá-Carneiro surge como algo positivo, pois poderá terminar o conflito interior: A vida corre sobre mim em guerra, / E nem sequer um arrepio de medo! (VII.11-12). Na última estrofe de Além- Tédio, admite:

E me resta hoje uma alegria: É que, de tão iguais e tão vazios, Os instantes me esvoam dia a dia Cada vez mais velozes, mais esguios (X.21-24)

Note-se, no entanto, que aquele estado de contemplação presente em Partida não é normal no sujeito, pelo que o poema se apresenta como síntese de uma percepção que não deixa de ser comum (por vezes), e que inquieta o eu, pois enquanto a vida observada é metaforicamente semantizada em águas certas, o seu interior identifica-se com torrente. Deste modo, é desde o início do poema e do livro que o eu poético de Dispersãose singulariza e se assume como um ser superior (semelhante posição é um verdadeiro tópos literário; cf. Morão, 2004, p. 232): além disso, se águas certas pode ser uma referência a uma normalidade comum na literatura burguesa, coisas geniais em que medito parecem sugerir que o eu é um poeta[10], cuja torrente (de versos) contrasta com as águas certas da poesia da época.

O pensamento a que se alude (coisas geniais em que medito) é, também ele, lento (e desligado da vida que ): meditar' implica uma realização interior, como aliás comprova a etimologia do verbo. Em latim, meditoré um verbo depoente, frequentativo de medeor (cuidar, tomar conta'), ou seja, a acção de meditar, reflectir, pensar' é feita em proveito do sujeito, tal como um outro movimento, o de fechamento do sujeito em si, demonstra.

A segunda estrofe continua a tematização da poesia, pois o triunfo do sujeito é conseguir evitar a fuga ao mistério que possui (que é meu) e que o fascina (me seduz), ainda que declare a sua vontade (breve, pois logo me triunfo) de evasão: Afronta-me um desejo de fugir (I.5). Referindo-se à luz do mistério, aquele declara que Não muitos que a saibam reflectir (I.8). A luz que se reflecte é uma emanação da poesia[11], ou seja, sugere-se que esta arte se encontra envolta em mistério (I.6 e 35) e bruma (I.15), no meio dos quais o artista deve procurar a beleza (I.16).

A poesia surge, assim, na obra de Mário de Sá-Carneiro como algo superior e divino que não é acessível a todos, como uma espécie de religião. A ela se associam imagens de luz (sol, ouro, estrela) e de altura[12], enquanto ao eu lírico não raro se ligam ideias de conquista, plasmadas em conceitos que participam do campo semântico da luta e do combate, ora ganho, ora perdido.[13] Como não se pode chegar à luz, poder reflecti-la é uma vitória. O reflexo da luz é uma metáfora da mimese clássica.[14] Em Estátua Falsa preenchem-se os elementos que configuram a poesia enquanto religião: o templo (que garante a ligação do mundano com o divino, assim como missas e bacanais, em XI.28, asseguram uma mistura entre o sagrado e o profano no interior do sujeito) e a Estátua falsa ainda erguida ao ar (VII.16) representam a suspensão interior (Martins, 1994, p. 218), traduzindo uma ideia de instabilidade e incerteza típicas de uma religião que exige devoção. Nesse sentido, evocam-se mistério (I, VII) e segredo (VII.9), fazem-se referências à esfinge (I.39, VII.2), insiste-se no irreal (I.22, X.8; quimera': I.22 e 51, X.15), no onírico (sonhar': 2.8), a par de outros símbolos religiosos (cruz: I.48, altar: VIII.18, : VIII.23) tais elementos concorrem para a sugestão de que esta entidade é divina e sublime. Deste modo, a poesia faz do poeta um vate, sacerdote das letras, que na sua arte poética encoraja o culto: E prostrados [devemos] rezar, em sonho, ao Deus / Que as nossas mãos de auréola douraram (I.19-20; cf. I.54, VII.15 e X.11).

De realçar, neste último excerto, que as mãos surgem como relíquia de uma elevação religiosa. É por meio delas que se forma à poesia: o vate é, assim, um faber (artífice') que constrói sentidos a partir da luz do mistério. São as mesmas mãos que, em Dispersão se encontram inactivas: Eu beijo as minhas mãos brancas / Sou amor e piedade / Em face dessas mãos brancas (VI.66-68).

As mãos vazias plasmam, paralelamente, o vazio deixado por Eurídice no mito de Orfeu testemunhado por Virgílio e por Ovídio, retomado em Sá-Carneiro.

Sublinhe-se, igualmente a propósito desta referência mitológica, que, ao longo dos doze poemas de Dispersão, são sugeridos vários movimentos de ascensão e queda, tradicionalmente associados ao mito de Ícaro (Mourão-Ferreira, 1990). No entanto, e apesar da unidade temática das poesias, não se pode ver apenas um movimento (a que chamaria vertical), mas tentativas repetidas de ascensão e sucessivas quedas. Além disso, a esta deslocação junta-se outra, horizontal: os olhos a volver-se (I.42), que a história de Ícaro não justifica. Se eles forem reanalisados de acordo com o mito órfico, entender-se-á que a dinâmica ascensão-queda e do olhar para trás harmonizam-se com as coordenadas fundamentais deste mito.

Deste modo, além de Ícaro ou Narciso, o eu de Dispersãopode bem ser um Orfeu em demanda de Eurídice. O caminho que percorre em direcção à luz não é apenas a subida às alturas de que resulta uma queda no mar é a descida aos infernos e uma subida que culmina na queda não do sonhador ou poeta no mar, mas o regresso de Eurídice (poesia) às trevas.

A história de Orfeu, nas suas versões canónicas fixadas por Virgílio nas Geórgicas e por Ovídio nas Metamorfoses[15] implica dois momentos de suspensão ou abrandamento temporal, alegoricamente figurados nos mitos simbólicos de eternidade ou contínuo cronológico. O primeiro ocorre durante o canto do herói, mediante o qual pede que os deuses infernais lhe restituam Eurídice, morta antes do tempo:

Enquanto tal dizia, acompanhando as palavras com o tanger das cordas, as almas exangues choravam. Tântalo não buscou apanhar a água fugidia, a roda de Ixíon imobilizou-se de pasmo, as aves pararam de debicar o fígado, as Bélides não cuidaram das vasilhas, e até tu, Sísifo, te sentaste sobre o teu pedregulho.

(Ovídio, Metamorfoses, 10.40-44[16])

As almas condenadas no Tártaro interrompem o cumprimento do seu castigo: o mesmo é dizer que a interrupção do fluxo temporal é também uma característica deste mito. Na versão das Geórgicas, também referência à roda de Ixíon, mas é na Eneida que Virgílio descreve o Tártaro e os seus habitantes: entre outros, se encontram Tício, a quem um abutre monstruoso, de bico adunco, debica o fígado que continuamente renascia e as vísceras fecundas para o castigo, os Lápidas, Ixíon e Pirítoo, sobre os quais impende uma pedra negra, mesmo prestes a deslizar, parecendo mesmo que vai cair. (...) Uns fazem rolar uma pedra enorme, outros estão suspensos estiraçados nos raios duma roda (Virgílio, Eneida, 6.595-603 e 615-616[17]).

O segundo momento de abrandamento temporal, na versão ovidiana, coincide com a segunda perda de Eurídice A segunda morte da esposa paralisou Orfeu de estupor (Metamorfoses, 10.64) , o que torna qualquer súplica: Em vão implorou e quis passar de novo, mas o barqueiro / impediu-lhe a travessia (vv.

72-73).

Em Dispersão, o eu tem consciência (trágica) da vanidade das suas acções, sem no entanto deixar de as tentar realizar. Pela recorrência da temática ascensão e queda, será legítimo ainda dizer que, uma vez perdida Eurídice, este Orfeu é condenado a procurá-la contínua e eternamente atormentado, assim como Sísifo ou Ixíon; o sujeito poético de Dispersãomaterializa, deste modo, a impossibilidade, que não deixa de tentar contrariar: insistindo, suspendendo- se, estagnando.[18] Trata-se de uma maldição eterna que se contrapõe a qualquer vontade de encontrar um dia completamente «novo» (Sáez Delgado, 2002, p. 130). Uma vez que, nos poemas de Sá-Carneiro, é comum a temática da suspensão do contínuo temporal, figurada de modos bastante diversificados, o sujeito declara-se estagnado no lodo ou em pauis (VII.7-8 e 15-16, IX.16 e 17; cf. Martins, 1994, p. 218; Sáez-Delgado, 2002, p. 132), afirmando:

Perdi a morte e a vida, E, louco, não enlouqueço A hora foge vivida, Eu sigo-a, mas permaneço (VI.85-88)

A morte e a vida perdidas são também formas de plasmar a perda da poesia, que o eu persegue, mas em vão. No fim da obra, reafirma a sua última tentativa. A Queda inicia-se, em tom de epílogo (conferido pela conjunção copulativa), com uma reclamação do poder que o sujeito detém sobre a sua matéria (E eu que sou rei de toda esta incoerência, XII.1). Surge depois a identificação da obra com o autor (textual)[19]: Eu próprio turbilhão (XII.2; cf. I.3). O poeta quer agarrar a incoerência, como Orfeu anseia fixar Eurídice: anseio por fixá-la (XII.2). Perde-a, porém, nos infernos: tudo me resvala / Em bruma e sonolência (XII.3-4).

Pode acontecer ficar com algum vestígio dessa poesia (pedaço d'ouro, XII.5), mas, como se trata apenas de uma centelha criadora', ela volve-se logo fals [a] (XII.6). Como Orfeu, sente-se morrer no momento em que desvendaria o tesouro (sítio onde se guardam preciosidades, cuja sonoridade evoca o ouro que se procura)[20], isto é, quando expusesse Eurídice à luz solar.

Recorde-se agora o passo das Metamorfoses em que Ovídio narra a segunda morte da amada, quando, depois de descer aos infernos, Orfeu fracassa por ter viol [ado] a proibição e ous[ado] olhar o invisível (Chevalier & Gheerbrant, 1994, p. 491):

pouco lhes faltava para a orla das regiões superiores, quando ele, receoso de ela não vir atrás e ansioso por vê-la, voltou o olhar, apaixonado. De súbito, ela desliza para trás.

Esticando os braços, lutando por agarrar-se e ser agarrada, a desgraçada nada apanhou, a não ser o ar fugidio.

(Metamorfoses, 10.55-59)

Como foi dito, é preciso ter em atenção o facto de haver um movimento horizontal no mito de Orfeu: foi quando, ansioso, olhou para trás que o herói provocou a queda, ou seja, a restituição de Eurídice aos infernos e, por consequência, à morte. Em Dispersão, encontramos os olhos a volver-se (I.42), a ânsia por vê-la e a luta por agarrar a poesia que desliza para trás.

Estes projectos são transtornados de forma trágica (por causa da húbris) e o resultado precipita o sujeito num estado de incompletude (ou de fim do que não foi): Mas a vitória fulva esvai-se logo / E cinzas, cinzas , em vez de fogo (II.9-10).

Eurídice esfuma-se, e é essa perda que traz ao eu sá-carneiriano o medo de não criar: Um disco de ouro surge a voltear / Fecho os meus olhos com pavor da bruma (IV.15-16). Amedronta-o a falta de poesia, receia ser vencido pelo vazio (a ausência de Arte ou o fim da inspiração), aterroriza-o a página em branco.

Como se percebeu, a evanescência da amada, na iminência de restituí-la à luz (que deixa vazias as mãos de Orfeu enquanto os seus braços apenas prendem a bruma: e nem um espasmo venço!... XII.10), provoca a segunda paralisia do correr do tempo. Em Mário de Sá-Carneiro, essa perda pode justificar a dispersão do sujeito. De facto, o poeta recorre a diversas figurações que dão forma a essa ideia. Nesse sentido, a nostalgia daquilo que não conhece, que cria um oximoro, surge plasmada em V.6 como saudades da morte (até porque morto Orfeu poderá reencontrar Eurídice: X.21-24), afirmando em VI.53-54 que As minhas grandes saudades / São do que nunca enlacei: com o verbo enlaçar' volta a insistir-se na ideia de agarrar Eurídice, que nunca conseguiu fazer o caminho até à superfície. Em IV.13-14, a perda implica movimento circular (sem chegar a um fim): Corro em volta de mim sem me encontrar / Tudo oscila e se abate como espuma No mesmo poema, pelo oximoro, o sujeito revela que olhou para trás, ofuscado pela luz: Manhã tão forte que me anoiteceu (IV.24). Sem ter conseguido trazer a poesia para junto de si, o eu evoca-a com saudades: a gentil companheira que saudosamente record[a] e A sua boca doirada, a boca de Eurídice, é agora um hálito perdido nas trevas infernais.

A alma perdida da poesia confunde-se com a do poeta: Desce-me a alma, sangram- me os sentidos (IV.8); Desceu-me n'alma o crepúsculo; / Eu fui alguém que passou (VI.77-78), mas agora Não vivo, durmo o crepúsculo (VI.80). Neste verso, dormir', usado transitivamente, empresta a semântica à representação de um modo de não-vida (Martins, 1994: 203), em hipálage, o que em Dispersão contrasta com a nostalgia do que poderia ter sido. O sujeito considera-se um emigrado doutro mundo (IX.19), fora de si. Na verdade, ao insistir em referências à alma ( em III e XI essa palavra não é citada, e em VI aparece quatro vezes), o poeta configura a separação entre o eu e o seu interior.

Sublinhe-se, porém, a ideia de que o poeta e poesia seriam idealmente uma realidade (Onde existo que não existo em mim?, II.11), pois é este pressuposto que permite entender que a alma do sujeito se identifica com aquela:

de ouro falso os meus olhos se douram; Sou esfinge sem mistério no poente A tristeza das coisas que não foram Na minh'alma desceu veladamente. (VII.1-4)

Nestes versos condensam-se as principais linhas de leitura que aqui se foram descrevendo: a falsidade criativa que afasta o eu do ideal poético, a nostalgia do que não viveu, apesar das expectativas e o movimento da alma em declínio.

Se é verdade que, no caso de Eurídice ter sido resgatada do inferno, Orfeu fora brasa e além (VIII.31, 32), restam-lhe Reminiscências de Aonde (III.3), lembranças de outro tempo (normalmente a infância, durante a qual se abism[ou] nas ânsias, VI.24, mas também medieval, I.23) e de outro lugar (longe, inacessível):

E sinto a minha morte Minha dispersão total Existe longe, no norte, Numa grande capital. (VI.57-60)

Poder-se-á questionar se este lugar que o sujeito não conhece, mas sente, não será a projecção ou reminiscência platónica da Arcádia mítica, uma Idade do Ouro, irremediavelmente perdida, símbolo da Altura, do proibido e do azul, que justifica a necessidade de elevação aos céus: a perfeição cesárica das cousas, impossível de voltar a alcançar.

Resta ao sujeito não desistir mas esmagar-se, terminando a obra ascend[endo] até ao fim (XII.16). Nesta posição, pode contemplar o desfecho, impulsionando outro movimento: ao gelo me arremesso (Ícaro caíra na água, este eu cai na água em estado sólido, remetendo para a ideia de desconforto, de frieza). Se ele não se pode condensar, o gelo compensa essa impossibilidade. A culminar a obra, confessa:

Tombei E fico esmagado sobre mim! (XII.19)

No entanto, para ele, Vencer às vezes é o mesmo que tombar (XII.14). O poeta, afinal, venceu, pois completou o caminho, concluiu a obra de que é rei. Não será por isso demais lembrar que o substantivo dispersão (disseminação' de sentidos) ascende ao nome latino rex (o que domina, rei'), que, por meio de associações lexicais e semânticas, se transforma em dispersio[21], que, em - Carneiro, leva à anulação do eu (dispersio, destruição'), em , capaz de se peneirar na sombra, mas não de se reagrupar, somatizar: em nada me condenso / Agonias de luz eu vibro ainda entanto (XII.11-12).

Todas as acções descritas são, evidentemente, metáforas do itinerário interior (Sáez Delgado, 2002, p. 130) do sujeito de Dispersão, identificado com Orfeu, por vezes confundido com Eurídice, como se a poesia existisse num inferno tenebroso de onde o herói fosse condenado a resgatá-la para a luz iluminadora dos seus versos. Neste ensaio procurou-se demonstrar o carácter multímodo e complexo que estrutura um eu em demanda de um ideal que somente consegue atingir em sonhos, pela loucura, na alucinação do álcool[22], ou então apenas de forma muito fragmentária (leitura para que concorre um abundante campo semântico do indício ou vestígio). Por isso, são diversos os mitos gregos com que o poeta da dispersão se pode identificar: Ícaro, Narciso, Orfeu, Eurídice, até mesmo Sísifo. Destes, o de Orfeu, epónimo de revista e alegoria da própria poesia, é aquele que mais sugestivamente parece sintetizar a demanda que anima o poeta.


Download text