Sobre as origens de [u] átono no Português europeu contemporâneo: variação,
mudança e dimensões sociocognitivas
In Memoriam José G. Herculano de Carvalho
A razão pela qual podemos acreditar nessa descontinuidade e lentidão é-nos dada
pela anarquia que parece reinar na expansão do vocabulário português:
neologismos com dezenas de anos, como “telefone”, “televisão”, “automóvel” ou
“aspirina” têm redução das átonas pretónicas, mas outros mais recentes, como
“teletexto”, “telemóvel”, “autoestrada” ou “aspegic” não incorporam o processo
(…) (Marquilhas 2003: 6-7).
The distribution of metaphony in Iberia (the North and the West) suggests that
it is ancient and was once more widespread (Penny 2009: 123).
0. Introdução: status quæstionis e considerações preliminares[2]
Como é sabido, o PE contemporâneo tende a fechar em [u] o /o/ átono, quer este
se encontre em posição interior ou em final de palavra.[3] Este fechamento e
redução traduzem-se em algumas dificuldades reveladas por um falante/ouvinte
estrangeiro quando aprende a variedade europeia do Português. De facto, no
Português padrão do Brasil bem como no galego, manteve-se a realização [o] em
posição átona medial, o que torna a perceção vocálica bastante mais fácil. Já
em posição final, enquanto o galego e alguns dialetos brasileiros (nomeadamente
o caipira de S. Paulo) mantêm a realização [o], o português europeu e o
Português padrão do Brasil conhecem a realização [u].
Para avaliar o valor de o em posição pretónica não inicial absoluta no século
XVI, parece ser em vão recorrer aos gramáticos. Afirma, a este propósito,
Thomas Hart:
Fernão de Oliveira, it is true, does say that “there is such great
similarity between u and small [i.e., close] o that we tend to
confuse them, some people saying somir and others sumir, and
similarly with dormir and durmir, bolirand bulir, and many other
words”. This, however, tells us very little, since we cannot be
perfectly sure whether he is talking about pronunciation or about
spelling (Hart 1955: 409).
Por outro lado, se atentarmos no testemunho de um observador setecentista como
Luís Caetano de Lima, deparamo-nos com o mesmo tipo de problema, para o qual
nos adverte I. S. Révah, dois anos mais tarde: «(...) mais il ne faut pas se
dissimuler le fait que L. Caetano de Lima est plus préoccupé d'orthographe que
de prononciation réelle: son témoignage exige d'être confirmé par d'autres
données» (Révah 1959: 282). E, um pouco mais adiante, complexifica a questão do
valor de o pretónico:
En réalité, la tendance de la langue était bien de faire passer
Oprétonique à U: cette tendance a fini par vaincre dans presque tous
les cas dans l'actuel portugais commun. Mais, tout au long des
siècles, au Portugal comme au Brésil, cette tendance a été contrariée
par des réactions en sens inverse: (...) une réaction savante qui
rétablissait le O étymologique ou orthographique. On sait, par
ailleurs, que dans la prononciation scolaire du latin, tout E et tout
O étaient ouverts: cette prononciation scolaire du latin a également
agi sur le portugais. En 1736, Luís Caetano de Lima qualifie de O
fermés tous les O prétoniques. Il peut s'agir d'une prononciation
réelle, pédante ou plus soignée que celle du parler populaire. Mais
on peut soutenir également qu'il s'agit d'une simple erreur d'un
théoricien de l'écriture qui confond orthographe et prononciation
(idem, ibidem: 290).[4]
Admitindo a hipótese proposta por Révah, sublinha Herculano de Carvalho:
Le phénomène bien connu du portugais moderne, la tendance à la chute
et à l'assourdissement des voyelles atones, parait remonter, dans ses
origines, à une époque bien plus ancienne qu'on ne serait porté à
croire. Si cette tendance n'a pas tout à fait abouti, cela se doit
très certainement à l'action de la norme linguistique cultivée qui,
n'ayant pas réussi à l'empêcher tout à fait, a du moins pu retarder
considérablement un procès, lequel, en suivant librement son cours,
aurait transformé profondément le système phonologique portugais
(Carvalho 1962a: 11).[5]
Defende este Autor que «quanto às outras posições (em morar, dever, árvore,
áspero), teremos que supor, até nova prova, que e o correspondessem
efectivamente a [e o] fechados, e não ainda a [ë u]» (idem 1962b: 15). Recorda
seguidamente os exemplos dados por Fernão de Oliveira, que lhe permitem
sustentar a sua argumentação:
De modo algum se pode concluir que fosse geral a tendência a fechar
em u todo o o pretónico. Ora, se examinarmos bem as formas citadas
por F. de Oliveira e as compararmos com as restantes formas
quatrocentistas e quinhentistas com u pretónico em vez de o,
verificamos que elas têm todas de comum a presença de um u ou ina
sílaba imediatamente posterior (em geral a tónica) àquela em que o se
fechou em u. Quer dizer que este cerramento constitui um fenómeno de
assimilação estritamente condicionado à natureza da vogal da sílaba
imediata (Carvalho 1962b: 16).
E, baseado no testemunho das variedades modernas do português, conclui:
Não há dúvida que nalgumas formas brasileiras, como corpinho e
folhinha com [o] átono, diminutivos de côrpo e fôlha respectivamente
(ao lado de corpinho ‘peça de vestuário' e folhinha ‘calendário', com
u átono), o o fechado se deve à consciência etimológica da derivação,
mas não parece nada provável que tanto nestas como sobretudo na
multidão de outras formas em que a realização [o] na pretónica é
constante, esta se deva a uma restauração, muito menos a uma
restauração “savante”. Tal hipótese, por outra parte, torna-se
inteiramente inadmissível relativamente às vogais pretónicas dos
falares crioulos (idem, ibidem: 17-18).
Paul Teyssier, por outro lado, afirma que no português do século XVI a
realização dessas vogais era [o] e [e], como ainda hoje permanece em galego. O
que terá acontecido é que os falantes lusófonos, durante muito tempo, não
tiveram consciência da deriva, e foi necessário esperar pela primeira metade do
século XVIII para que certos observadores notassem que se pronunciava [u] e [i]
(Teyssier 1980: 75). Caberá perguntar, como Ana Maria Martins, «em que momento
entre o século XVI e os primeiros testemunhos dos gramáticos se terá produzido
a elevação?» (Martins 2003-‑2006: 300, n. 7).
A contribuição mais recente para esta questão, e que constitui,
inquestionavelmente, uma observação inovadora que adensa o enredo deste
problema tão obscuro e pertinente, parece ter sido de Rita Marquilhas: «em
compostos com radicais neoclássicos há pr[ɔ]tagonista e pr[u]tagonista, digl
[ɔ]ssia e digl[u]ssia, em nomes próprios formados por acronímia há S[ɔ]n[ɐ]sol
e S[u]n[a]sol» (Marquilhas 2003: 3).
Paralelamente à questão dos neologismos, podemos observar o fenómeno de
aquisição linguística. Quem for minimamente sensível à forma como as crianças
portuguesas aprendem os sons da língua materna, apercebe-se que desde muito
cedo, mesmo antes de entrarem para escola, desenvolvem mecanismos de
“ultracorreção” (que pode ser variável de criança para criança),[6] tendentes a
recuperar a realização [o] em contextos em que, instintivamente, já “sabem” que
se pronuncia [u]. Assim, é muito comum uma criança de 5 anos pronunciar
[koʹmiɣu] em vez de [kuʹmiɣu], ‘comigo' ou [koʹmer] por [kuʹmer],por exemplo,
atestando, eventualmente (e instintivamente) alguma consciência da malsonância
desta combinação fonemática. Por outro lado, numa fase posterior, e ao nível
gráfico, é extremamente comum a confusão entre <o> e <u> em crianças do 1º
Ciclo do Ensino Básico, já que, tendo aprendido, aos 6 anos, que à mesma imagem
sonora poderão corresponder dois tipos de grafia, não encontram qualquer regra
prosódica ou lexical para o uso de uma ou de outra. Já em contexto final,
parece não haver, ao nível fónico, qualquer tipo de variação. Contudo, são
também muito frequentes as hesitações gráficas em crianças do ensino básico, na
fixação escrita do som final, particularmente nas formas verbais de 3ª pessoa
de verbos da 3ª conjugação, onde confluem as duas vogais mais altas do espetro
vocálico: *rio(por riu), *partio(por partiu), *fugio(porfugiu), por exemplo,
são erros frequentíssimos em crianças de 7/8 anos de idade.[7] Este fenómeno de
alteração, designado de “generalização de regras”, revela a existência de
certos procedimentos de generalização nem sempre aplicados de maneira
apropriada. O facto de uma criança escrever a palavra fingiu como *fingio, pode
revelar a compreensão de que em certas situações o som [u] que se pronuncia nas
palavras pode transformar-se no grafema <o>. Assim, ao pronunciar uma palavra
como carro, a criança reconhece que o som final está escrito com o grafema <o>,
sendo esta a razão pela qual a criança realiza uma generalização (não
convencional) de tal procedimento para outras palavras. As mesmas crianças
sabem, no entanto(como os escribas medievais já o saberiam), que, em posição
final, [u] é apenas a imagem sonora.[8]
Infelizmente, os estudos sobre aquisição linguística e aprendizagem da
ortografia em Portugal nada têm beneficiado das aportações que os estudos sobre
a mudança linguística poderão proporcionar, nomeadamente no diagnóstico e
prevenção dos erros ortográficos. Ora, este tipo de erro ortográfico, se
entendido à luz da evidência histórica (documental) e enquadrado no âmbito de
uma perspetiva consistente sobre a mudança linguística, aponta para a
necessidade de integração da investigação histórica nos estudos de Linguística
Cognitiva.
Na secção seguinte, daremos conta dos testemunhos documentais da evolução do
fenómeno de fechamento desta vogal átona, interpretando a variação gráfica,
sempre que possível e oportuno.
1. Análise do corpus
O corpus que iremos analisar é constituído por 153 documentos notariais
originais (sécs.XIII-XVI), por nós transcrito (Carvalho 2006: 33-287), oriundo
dos fundos do mosteiro cisterciense de Alcobaça, um importante centro na
cultura portuguesa medieval (situado entre Coimbra e Lisboa). Os documentos
situam-se num período compreendido entre 1289 e 1565, e são redigidos não
apenas no mosteiro mas também nas áreas periféricas sob sua jurisdição, os
chamados “coutos”. Escolhemos como amostra um corpus único, seriado
cronologicamente, pois cremos que é comparando textos do mesmo género ao longo
dos tempos que chegamos ao que Kabatek designou de variação diacrónica
“autêntica” (Kabatek 2001: 97). O universo do discurso é a linguagem jurídica
usada nos contratos relativos à propriedade: documentos de compra e venda, de
arrendamento, de troca, recibos e testamentos, por exemplo. É sobre esta dupla
base de campo de estudo – geográfica e temática – que podemos observar a
evolução contínua dos textos e, por isso, em paralelo, da língua.
A ferramenta metodológica que usamos neste artigo é, naturalmente, de base
estatística, embora saibamos que o valor das percentagens das unidades lexicais
que exibem <u> em sílaba átona seja baixo, dada a opacidade com que se tinge o
relacionamento língua escrita/língua oral. De um modo geral, cada unidade
apresenta a sua evolução particular, pelo que foi calculada a frequência de <u>
em cada uma dessas unidades, tendo em conta o total de abonações do corpus.
Sempre que se julgou oportuno, foi delimitada uma etapa epocal como universo a
considerar. Tal acontece, por exemplo, quando há uma ocorrência totalmente
isolada ou extemporânea, que não se integra de todo na tendência evolutiva
observada. Por vezes, deteta-se variação de tipo idioletal, verificando-se o
uso de <u> no documento de um único tabelião; casos há, ainda, afetando apenas
uma unidade lexical, o que leva a considerar apenas documentos isolados, para
fins estatísticos. Em raros casos, como veremos, é possível visualizar
nitidamente tendências evolutivas.
Na nossa análise, ilustraremos alguns condicionamentos vocálicos que podem ter
motivado o «cerramento (…) condicionado à natureza da vogal da sílaba
imediata», como refere Herculano de Carvalho (1962b: 16), evidenciando um outro
tipo de contexto assimilatório – em nosso entender, bastante mais importante –
que é o contexto consonântico. Analisaremos, igualmente, os casos em que
poderão ter atuado os dois tipos de contexto.
Faremos, finalmente, coincidir o início do processo da mudança com aquele em
que surge <o> em contextos onde, de acordo com a origem e a natureza da
palavra, seria mais natural surgir <u>, normalmente em palavras de origem
árabe, em palavras derivadas (criações lexicais), empréstimos e cultismos. Ou
seja, o início do processo de mudança ter-se-á dado quando se deu o fenómeno
cognitivo da consciência linguística dessa mudança.
1.1. Posição átona não final (inicial absoluta e em interior de palavra)
Analisemos, de seguida, o que foi possível registar na posição inicial
absoluta. Pode observar-se nos textos mais antigos a existência do ditongo ou
nesta posição: ourijnte (< ŏrĭente-) (1300 Alj 8),[9] denunciando uma
realização [ow] para /o/ em início de palavra, tendência que existiu no antigo
galego-português e que se manifesta ainda atualmente no mirandês, no asturiano
ocidental e nos falares transmontanos da fronteira oriental. Revela-se
interessante constatar que excecionalmente surge, num texto tardio, a forma
Utubrro (< *octobriu-) (1505 MA 139), cujo ditongo ou deve ter passado por uma
fase intermédia de monotongação em [o], que tendeu, posteriormente, para o
fechamento. O caráter isolado da forma impede-nos de extraír conclusões
seguras, mas leva-nos a crer que poderá ter havido uma tendência tardia para a
elevação dessa vogal átona em posição inicial.[10] Destes dados apenas é
possível admitir que durante o período estudado existiam as realizações [ow],
[o] e (eventualmente) [u] em início de palavra, tudo levando a crer que, neste
último caso, [u] refletisse uma tendência mais recente.
De referir ainda que a forma historicamente representante de hospitāle surge
sempre com mudança de grafema em posição inicial (ou com aférese do mesmo), por
um processo assimilatório: eſpital(1412 Ped 74, 2 v.; 1429 MA 88, 2 v.),
eſpitall(1453 MA 107) eſpital(1423 MA 83).
1.1.1. Mudanças condicionadas pelo contexto vocálico
Vejamos agora as mudanças observadas em posição átona interior de palavra. Em
primeiro lugar, trataremos as mudanças condicionadas pelo contexto vocálico. A
análise dos dados do nosso corpus permite-nos, de facto, reabilitar a hipótese
de I. S. Révah e de Herculano de Carvalho relativamente à tendência antiga para
o fechamento em [u] de todo o o átono não final, que foi, efetivamente (e desde
cedo), travada por uma reação ou restauração “savante”. Os exemplos colhidos no
nosso corpus poderão dividir-se em duas tipologias: aqueles em que se verifica
a assimilação exercida por i ou u da sílaba tónica, e os que exibem fechamento
condicionado pela situação de hiato com a vogal seguinte. Quanto ao primeiro
caso, recorde-se que as variantes medievais representantes da atual forma
composta bemfeitoria(< *benefactoria) começam a deixar transparecer <u> gráfico
pretónico a partir da primeira década do século XV. Registam-se apenas 9
ocorrências, o que perfaz uma percentagem de 15,4%, ao longo do corpus:
benffecturias (1409 MA 72, 2 v.; 1410 MA 73), benffecturjas(1410 MA 73),
benfecturja (1410 MA 73), bem feiturias (1416 MA 78, 1429 MA 88; 1438 Ped 95) e
bem ffeyturias (1489 MA 130).
Do antropónimo Soeiro (<*Soariu-), a única forma a apresentar fechamento da
vogal átona data de 1375: ſueiro(1375 MA 48), representando apenas 25%, num
total de 4 ocorrências: Soeyro (1289 MA 1 e 1306 Cós 12) e ſoeiro(1409 MA 72).
Por outro lado, as formas patronímicas ſoariz e ſuariz convivem no mesmo
documento (1304 Alc 10), mas este patronímico surge um pouco posteriormente na
variante ſoarez (1329 Evo 22). Também em hiato com a vogal seguinte, encontra-
se a vogal posterior na forma piſſueiro(1478 MA 123), única nesta coleção.
Sabemos que um tabelião de Aljubarrota emprega, no mesmo documento, as formas
reſtetujr (< restĭtǔĕre) (1491 Alj 132) e rreſtetoydos (1491 Alj 132),
constituindo aquela variante uma percentagem de 86% do total de ocorrências
(incluindo todas as formas derivadas) ao longo do corpus.
Saliente-se que o fenómeno de desaparecimento de o postónico em formas
inicialmente proparoxítonas, e em contexto de vizinhança de fonema fricativo ou
velar (com propriedades articulatórias mais próximas de [u]) já estava em curso
no primeiro quartel do século XV: Paſca[11](<Paschoa) (1423 MA 83) e poua (<
pŏpŭla-) (1477 MA 121) são alguns exemplos que provam a eminência de formação
de um ditongo crescente e, portanto, de fechamento de vogal postónica.
1.1.2. Mudanças condicionadas pelo contexto consonântico
Argumentaremos neste parágrafo que o contexto consonântico parece ter sido
bastante mais importante que o contexto vocálico referido por Herculano de
Carvalho, pelo que a mudança agora em estudo foi uma mudança intralinguística,
que se verificou gradualmente.
O fechamento da vogal átona por condicionamento assimilatório de tipo
consonântico é antigo e deve ter tido uma difusão considerável no interior da
língua, a partir de certo momento do tempo, como nos provam diversos
documentos. É certo que em alguns casos essa difusão foi desde cedo travada por
uma reacção conservadora, mas outros houve em que as consoantes contíguas
exerceram uma pressão demasiado forte, que se sobrepôs a qualquer reacção
“savante”.
O primeiro texto a apresentar u em contexto átono data de 1300 e foi redigido
em Aljubarrota: dubrada[12] (< dŭplāta-) (1300 Alj 8); um outro é oriundo de
Cós, do “mosteiro das Donas”:Cuſtãça (< constantĭa) (1343 Cós 32, 3 v.) e cu
[n]hado (1343 Cós 32, 2 v.), tratando-se, neste último caso, da variante que a
norma viria a consagrar,[13] não obstante o étimo (< cognatu-).
A tendência no desenvolvimento histórico do étimo pōmare, por exemplo, foi
também a elevação de vogal da sílaba átona pretónica: Pumar (1289 MA 1, 2 v.) e
pumares (1321 Alc 17). O <o> etimológico continuaria a verificar-se lado a lado
com <u> no mesmo contexto: pomares (1304 Alc 10; 1342 Alf 30), pomar(1397 MA
63, 8 v.; 1426 MA 85, 7 v.; 1459 MA 111; 1460 MA 112, 4 v.) e pumar (1465 MA
116; 1500 MA 136, 2 v.; 1529 MA 148).
O mesmo aconteceu com a forma ſocceſſores (formada com o prefixo proveniente de
sŭb latino)[14] e variantes, ao longo do período abrangido pelo presente
estudo. As formas com u átono representam apenas 7% do total, e são as
seguintes: ſuſeyçoreſ(1291 Alc 2),ſuſeçores(1291 Alc 2) eſucceſſores(1304 Alc
10, 6 v.); a forma ſoceſſoreſ(1291 Alc3)começa, porém, a rivalizar coma
variante inovadora desde finais do século XIII. Curiosamente, num documento de
1391 prevalece a variante com <u>, mas deverá tratar-se de uma tendência
idioletal, pois esta vogalnão se vislumbrará nestas formas a partir dessa data.
São as seguintes as variantes em convívio: ſubceſores(1391MA 59),ſuceſores
(1391MA 59),ſucceſores(1391MA 59, 3 v.) eſocceſores(1391 MA 59), o que
significa que nesse documento a variante com u representa 83%. Também a forma
ſtrumẽto(< instrŭmĕntu-)(1307 Alp 13, 3v.) domina um texto de inícios do século
XIV, mas trata-se de um testemunho completamente isolado neste corpus.
Já na forma historicamente representante de fŏcācea, a tendência para o
fechamento da vogal fez-se sentir até ao início do último quartel do século XIV
(<u> representa, nesta unidade lexical, e ao longo do corpus, 31%), muito
provavelmente devido à pressão exercida pelas consoantes lábio-dental e velar
contíguas à vogal átona: fugaça (1291 Alc 2; 1321 Alc 17; 1337 Alc 27; 1375 MA
48).
Relativamente à forma historicamente representante de mŭlĭere-, sabemos que, na
sílaba átona, exibe <u> num documento do último quartel do século XV, sendo aí
exclusivo o seu uso: mulher(1477 MA 121, 5 v.), mas trata-se de um testemunho
documental único.
Na forma historicamente representante de lugar (< lŏcāle-), até 1396 só se
documentam as variantes com <o> em sílaba átona ((l)logar(es), loguar(es),
etc.); entre essa data e 1425, registam-se duas variantes com <u>; no segundo
quartel do século XV, cerca de 72% das ocorrências apresentam o resultado
gráfico da elevação da vogal,[15] e a partir de 1460 a grafia é em 95% dos
casos semelhante à atual.
Revela-se interessante constatar que o documento 1383 Alj 53, para além de
apresentar 5 ocorrências da forma toponímica Purtugal(< portucale-)[16] e
respetiva forma gentílica, evidencia igualmente <u> em outras formas onde não
existe condicionamento vocálico assimilatório: Alcubaça (* alc-oba + -aça)
(1383 Alj 53, 2 v.), por exemplo. Estas duas ocorrências representam uma
percentagem ínfima de 0,8% ao longo da coleção, mas é extremamente importante o
facto de ocorrerem de forma exclusiva num documento de 1383, escrito numa
região periférica ao mosteiro. Para além disso, este documento exibe,
igualmente, aprufeitardes[17] (de profectare), onde a elevação da vogal poderá
eventualmente ter sido simultaneamente motivada por dois contextos: a
existência de uma semivogal anterior na sílaba seguinte e a contiguidade de um
fonema labial. O mesmo tipo de condicionamento surge num documento do início da
quinta década do século XV, que apresenta uma forma onde, para além de o ter
dado lugar a u se desenvolveu igualmente uma semivogal: mujſtejro (<
monĭsteriu-)(1442 MA 98) (moeſteiro→mooſteiro→moſteiro→muſteiro → mujſteiro).
[18]
Os exemplos expostos são suficientes para provar que, não obstante as baixas
percentagens de ocorrências de <u> átono em algumas das formas, poderia já
corresponder a [u] a realização de /o/ em sílaba átona, em muitos contextos,
pelo menos a partir do último quartel do século XIV. Selecionámos dois casos
que julgamos paradigmáticos no esclarecimento da tão obscura questão do valor
de /o/ átono no português medieval. No primeiro exemplo, a norma gráfica veio a
excluir o grafema <u> e no segundo caso veio a consagrá-lo. Observemos, no
gráfico seguinte, as cronologias das formas pumar(es) e lug(u)ar(es):
No primeiro caso, vemos como o grafema vocálico <u> volta a superar <o> na
forma pomar, a partir de 1460. Em lugar, a presença de uma consoante velar
acelerou o ritmo evolutivo de o, que, a partir de 1460, parece dar lugar,
irreversivelmente a u, sobrepondo-se a qualquer uso gráfico em vigor.
1.1.3. Mudanças condicionadas simultaneamente por contexto vocálico +
consonântico
A forma historicamente representante de*cō(n)suētūmǐne (e seus derivados) é a
que se encontra mais abundantemente representada nos documentos. Num leque
cronológico compreendido entre 1291 e 1529 foi possível encontrar 71 abonações,
89% apresentando o resultado da assimilação da vogal da sílaba pretónica ou da
sílaba inicial (conforme se trate de cuſtumeou de seus derivados) ao timbre da
vogal da sílaba seguinte, geralmente a tónica: cuſtume(s), cuſtumara, cuſtumou,
cuſtumarẽ, cuſtumarõ, cuſtumarã, acuſtumado/as, etc.
É interessante salientar que a reação “savante” (apenas ao nível gráfico,
obviamente) de que fala I. S. Révah parece ter-se verificado desde a fase mais
antiga da língua até ao século XVI, a avaliar pelas escassas ocorrências
(representam apenas 11%) que a grafia deixa transparecer. Em pleno século XVI,
encontramos, todavia, no mesmo documento acoſtumadoe cuſtume (1528 MA 148),
provando que a consciência etimológica era maior nas formas derivadas. Neste
caso concreto, parece que essa reação restauradora só iria conseguir vingar
após o período medieval.
A forma medieval furtujto (< fortuĭtu-) (1383 Alj 53) exibe igualmente o
grafema <u> na sílaba pretónica, mas depois de 1383 todas as formas recuperam o
<o> etimológico na grafia, constituindo tal ocorrência uma percentagem de
apenas 12,5%. Sabemos que, por essa altura, que coincidiu com a ascensão ao
trono de D. João I, começaria o governo de Frei João Dornelas no mosteiro de
Alcobaça, a cuja empresa se deve o esforço de standardização gráfica.[19] Do
mesmo modo se explica a forma mũturo (de monte-) (1484 MA 126), cuja vogal
nasal também sofreu influência de u da sílaba tónica, mas trata-se de um
exemplo completamente isolado no nosso corpus.
Um outro exemplo é a forma puſtumeiro(1350 AM 36), que apresenta igualmente a
tendência para o fechamento de o na sílaba inicial, já em meados do século XIV,
mas cuja difusão foi desde cedo refreada, muito provavelmente devido à
consciência etimológica da derivação (formado a partir de pŏstrēmu-). Trata-se,
de facto, de uma abonação completamente isolada que representa apenas 3,8% do
total de ocorrências. Também isolado se apresenta o advérbio cumunalmẽte (<
communāle) (1372 MA 47), embora, no século anterior, o adjetivo de que deriva
não revele esse fechamento da vogal em causa: comunal (1291 Alc 2).
Quanto à influência de consoante e de vogal anterior, a primeira abonação que
possuímos é rrecuciliaua (de reconcilĭāre) (1402 MA 67), tratando-se de uma
forma totalmente isolada, o que nos impede de extraír qualquer conclusão. No
final da terceira década do século XV surge a forma [cõ]puſyçõ (< cŏmpositĭōne-
) (1438 Ped 95), representando apenas 8% do total das variantes, ao longo do
corpus. É sensivelmente a mesma percentagem (9%) que encontramos em ſub p[r]ior
(1465 MA 116), ſub prior(1528 MA 147)[20] e suprior (1565 Alc 153), com prefixo
historicamente resultante de sŭb.A forma ſubfiçient[e] (1472 TC 120), que é a
primeira de todas as variantes a evidenciar o fechamento da vogal, é também a
única que revela a elevação da vogal átona da sílaba inicial, representando
agora uma percentagem de 14%. Regista-se ainda a forma ſubr[e] d[i]ctos (1416
MA 78), estatisticamente insignificante num conjunto considerável de
ocorrências, mas cuja cronologia não deixa de ser pertinente.
Diferente é a situação da forma medieval correspondente ao atual topónimo
Portugal, bem como à forma gentílica correspondente, uma vez que <u> em posição
átona representa aqui 100%, em toda a coleção: Purtugal (1383 Alj 53, 2 v.),
Purtugall (1421 Evo 80; 1526 Ped 145), Purtugual (1451 MA 105) e purtugueſes
(1405 MA 70).
Um tabelião de Aljubarrota (aliás, o mesmo que emprega as formas reſtetujr e
rreſtetoydos), emprega num documento a forma futuro (fǔtūro) (1491 Alj 132) e
em outro do mesmo ano a variante ffoturo (1491 Alj 133), mas possuímos apenas
esses exemplos, que são escassos para se poder concluir com segurança.
Importa concluir, atendendo aos exemplos apresentados, que a contiguidade de um
fonema velar (/k/ e /g/) ou labial (/m/, /f/, /p/ e /b/) é um contexto que
favorece o fechamento de [o], uma vez que propicia o recuo na articulação, o
arredondamento e a labialização da vogal. Assim, nos casos em que não se
verifica qualquer condicionamento vocálico assimilatório, todas as formas
apresentadas que apresentam (em maior ou menor grau) o fechamento da vogal
átona (100% das formas, portanto) evidenciam o contexto consonântico
apresentado: Alcubaça,Cuſtãça, fugaça,lugar,mulher,pumar,ſtrumẽtoeſubceſores.
Por outro lado, a quase totalidade das formas com <u> que apresentam
condicionamento vocálico assimilatório (ocasionalmente, o elemento fónico
condicionador é uma semivogal) exibe igualmente um desses fonemas em
contiguidade com a vogal em causa: cõpuſyçõ,cumunalmẽte, cuſtume,furtujto,
futuro,mũturo,Purtugal(e purtugueſes), puſtumeiro,
rrecuciliaua,ſubprior,ſubfiçienteeſubre dictos.[21]
Finalmente, encontram-se nos documentos desta região, tal como nos da primitiva
área galego-portuguesa, algumas formas em que, por dissimilação, ose transforma
em outra vogal: B[er]tolameu (1328 Alj 21; 1346 SC 34; 1355 Cel 40, 2 v.; 1362
MA 44; 1377 Alv 50, 3 v.; 1386 MA 56; 1396 Ped 62; 1402 Ped 68; 1505 MA 138;
1509 Ped 140, 2 v.), p[er]ſuam (1485 MA 128), p[er]ſſujrom(1448 Alj
103),peſtumeira (1479 MA 124), peſuã (1502 MA 137) e peſuyram (1459 MA 110).
[22]
Em outros casos, regista-se um fenómeno de tipo assimilatório: rreſſio(1388 MA
58) erreſſyo (1453 MA 107, 2 v.). Nestas formas, verificou-se uma tendência,
relativamente tardia, para a harmonização vocálica: rrjſjo(1532 Tur 149) e
rryſſyo (1453 MA 107).
1.1.4. O fenómeno de hipercorreção: a formação da consciência linguística
Um fenómeno que, em nosso entender, é diferente da “restauração savante” a que
alude I. S. Révah (e que causou alguma estranheza a Herculano de Carvalho)
verificou-se em palavras onde não seria de esperar a existência de o, como em
almoxa[rife] (1363 MA 45), almoinha (1482 MA 125, 2 v.), etc. É, na nossa
opinião, quando se dá este tipo de reação em palavras que deveriam, de acordo
com o étimo, manter <u> gráfico, ou seja, quando se toma esta consciência, que
se pode falar do início do processo da mudança. Esta tomada de consciência
deverá datar-se muito antes do século XVIII, como observou Paul Teyssier (1980:
75), e constitui uma atitude escribal de sobreutilização do <o>, da mesma forma
que hoje as crianças de 7/8 anos fazem ao escrever faboloso, coriosidade,
sobterrâneo ou poloição.
Esta tendência estava em incubação em formas de uso corrente onde existia um
hiato, no primeiro quartel do século XIV, tendo ressurgido no século seguinte:
cõtinoadamẽte (de continuu- ) (1321 Alc 17) e cõtinuadamẽte(1324 Alc 18);
cõtynoar(1414 Alv 76), cõtjnoadamẽte (1430 Cós 89) e cõthynuada mẽte (1434 SC
91). Sobre estas “modalidades” exprimira-se deste modo Herculano de Carvalho, a
propósito do que nos diz Fernão de Oliveira: «(…) sendo o o pequeno de qoando,
língoa, (…), continoar (como F. de Oliveira desejaria se escrevesse em vez de
quando, etc.) um u ‘líquido', identificável com uma variedade mais fechada de o
pequeno, mas tão próxima de u que muitos com ele a confundem». E explicita em
nota: «Por letras ou vozes líquidas entende F. de Oliveira em última análise
aquelas que, constituindo o que chamaríamos fonemas assilábicos, formam grupo
com consoante anterior, como u em quando (…)». (Carvalho 1962b: 9 e n. 1).
Posteriormente, pela regra de propagação analógica generalizada, esta
ultracorreção veio a estabelecer-se em numerosos contextos, nomeadamente
aqueles em que não existe qualquer fonema vocálico. Assim, um documento de 1372
exibe <o> num contexto em que seria de supor aparecer <u>(ou seja, quando uma
consoante velar sonora precede uma vogal anterior). Ora, o que se verifica é
que os notários transpunham por vezes o grafema <o>, que eventualmente
corresponderia a uma imagem sonora [u], para um outro contexto em que <u> era
um grafema vazio, sem qualquer equivalência fonológica. Trata-se, portanto, de
um processo psicológico que decorre da associação imagem gráfica/imagem sonora,
tendo precedência (hierárquica ou axiológica) a imagem gráfica, escrita, sobra
a imagem sonora, falada (Carvalho 1962b: 4). Os exemplos extraídos desse
documento são os seguintes: ſegojnte, agojſadamẽteepagoe(1372 MA 47). No mesmo
documento surge o em contexto assilábico, ou seja, como semivogal, o que não
deixa dúvidas quanto ao valor fónico de <o> gráfico em sílaba átona: cincoẽta,
goardar, engoas e augoas. A partir desta altura, <o> surge frequentemente para
representar /w/ nos grupos kw e gw, tal como acontece nos documentos da
primitiva região galego-portuguesa (Maia 1997: 426 e 641). Assim, o mesmo <o>
gráfico volta a surgir com valor fónico de semivogal na década seguinte e
durante a 1ª metade do século XV:[23] çjnqoenta (1383 Alj 53, 2 v.), cĩcoẽta
(1415 Ped 77), cjncoẽta(1416 MA 78, 3 v.),cjncoeta(1429 MA 88),çyncoẽta(1433
Ped 90, 2 v.) e porcoãto (1448 Ped 102).
Mas as hesitações na fixação gráfica da semivogal nos ditongos crescentes
tornam-se mais acentuadas a partir do 3º quartel do século XV: Agoas (1502 MA
137), augoa(1541 Sal 152), auguoa (1541 Sal 152, 2 v.), cynqoenta (1505 MA
138),[24] çimqoẽta (1529 MA 148), goarda (1529 MA 148), mỹgoa (1519 MA 142),
quoaeσ(1467 Mai 117) equoatroçẽtoσ (1462 Mai 114 e 1467 Mai 117, 2 v.).
Para além deste contexto de hiato, os vocábulos de origem árabe foram aqueles
que, de forma nítida, sofreram essa adoção de o na sílaba átona. No primeiro
documento da coleção em que ocorre a forma historicamente representante de al-
muxrif (e derivados), esta surge sempre com <u>, de acordo com o étimo:
almuxariffe (1352 Ped 38, 2 v.), almuxariffado(1352 Ped 38) e almuixariffe
(1352 Ped 38). A partir de 1363, apenas 4 ocorrências evidenciam o <u>, em
conformidade com a sua origem: almuxiliffe (1409 MA 72), almux[a]r[i]ffe(1409
MA 72, 2 v.) e almuxa[r]iffes (1430 Cós 89), o que representa cerca de 17%, a
partir desta data; todas as restantes evidenciam <o> gráfico: almoxa[rife]
(1363 MA 45; 1515 SM 141, 2 v.), almox[arif]e (1515 SM 141, 7 v.), almoxa[r]ife
(1396 Ped 62, 3 v.; 1402 Ped 68), almoxaryffado (1419 MA 79), almoxaryffe (1433
Ped 90), almoxharjfe (1428 Alj 86, 2 v.), almoxharjffado (1428 Alj 86) e
almoxharjffe (1428 Alj 86). É importante salientar que nunca se regista
variação, no mesmo item lexical, no interior do mesmo documento, aspeto que se
revela extremamente pertinente para inferirmos o grau de consciencialização dos
tabeliães.
É ao entrarmos no segundo quartel do século XV que encontramos a forma
almxharjffe (1428 Alj 86), com perda da vogal, ou seja, no mesmo documento onde
se regista almoxharjffado. Ora, a perda da vogal átona é um testemunho de que
este fechamento se tinha efetuado.
Quanto à atual forma almuinha(al-munīa) ‘herdade', a partir do século XV <u>
cedeu definitivamente lugar a <o>,durante o periodo abrangido pelo presente
estudo. São as seguintes as formas que seguem a etimologia: almuyã (1289 MA 1),
almuỹa (1289 MA 1), almunha (1304 Alc 10, 2 v.; 1321 Alc 17), almuynha (1356 MA
41). Um documento de 1409 apresenta já 83% das ocorrências com <o>,
curiosamente o mesmo que evidenciaalmuxiliffe e almux[a]r[i]ffe: almoinha(1409
MA 72, 10 v.), sendo as outras variantes almuinha e almujnha.O último documento
a revelar este lexema é de 1482 e apresenta todas as variantes com <o> gráfico:
almoinha (1482 MA 125, 2 v.) e almojnha(1482 MA 125, 6 v.).
Curiosamente, também na forma de origem árabe Mafra (< ár. mahfra), regista-se
o fenómeno de epêntese de o, demonstrando a sua sobreutilização, e provando que
[u] em posição átona existia no inventário dos sons ouvidos pelos escribas:
Mafora (1465 MA 116). A forma toponímica Mafraseria captada cognitivamente como
uma forma à qual desapareceu um som, que urgia restabelecer. Nesta fase de
“hipercorreção”, <o> seria a solução, na grafia; deveria corresponder,
naturalmente, a [u] na oralidade, por tudo quanto já ficou exposto.[25]
Também no empréstimo çedolla (1536 SC 150, 7 v.)/cedolla (1536 SC 150) surge a
variante com <o>numa fase tardia. A variante mais antiga nesta coleção aparece
com <u>, tal como no francês (cedulle), por via do qual terá entrado na nossa
língua: cedula (1355 Cel 40).
Um facto extremamente interessante e que apenas corrobora a teoria da difusão
lexical já apresentada, é o que acontece com as formas derivadas. Assim, as
formas verbais derivadas de publico, -a(< pǔblĭcu-), palavra de origem erudita
(poblicare respetivas variantes flexionais), que são extremamente frequentes
neste tipo textual, surgem sempre (sem exceção) com <o> gráfico ao longo do
leque cronológico abrangido pelo presente estudo, o que significa que [u] átono
sempre existiu bem como a consciência dessa existência, manifestada neste tipo
de fenómenos de ultracorreção: pobricou, pobricada, proujcara, etc.
Em outras formas derivadas que, por vicissitudes linguísticas várias,
apresentam um desvio vocálico relativamente ao étimo, também se testemunha o
uso de <o>, a partir de finais do século XIV: Uma forma historicamente derivada
de possĭdere[26] apresenta, pela primeira vez, <o> em sílaba átona pretónica
num documento do último quartel do século XIV: poſſoidor(1388 MA 57);
posteriormente a essa data, um documento lavrado em Cós apresenta, de modo
exclusivo, <o> nesse contexto: poſſojr, poſſoyra(2 v.) epoſſoyſſe,(1430 Cós
89). No total, as formas com <o> átono derivadas de possĭdere representam 40%,
no período abrangido pelo presente estudo. Sob a pena do mesmo tabelião,
encontram-se as formas poſtomeira (1452 MA 106 e 1453 MA 107) e poſtomeiro(1453
MA 107), que voltam a aparecer cerca de meio século depois:poſtomeyro(1502 MA
137, 2 v.), o que permite constatar que depois de 1450 o uso de <o> por <u>
nesta unidade lexical e neste contexto representa 45%. Em 1452 MA 106 encontra-
se poſtmeiro (< postrēmu-, ‘último'), com desaparecimento de vogal átona
pretónica.
Como podemos verificar, a partir do terceiro quartel do século XIV, em formas
de origem árabe (com consoante bilabial na vizinhança da vogal em causa), os
tabeliães sentiram a necessidade de grafar com <o>, formas que, segundo a sua
origem, deveriam pronunciar-se e grafar-se com <u>. Foi assim que a forma
almoxarife, por “generalização de uma regra” (fenómeno de natureza
cognitiva),chegou até nós, ao contrário do que seria expetável graficamente.
Curiosamente, o mesmo não ocorreu em almuinha, que, ao evidenciar a vogal em
hiato com outra vogal alta, veio a recuperar o <u> original. É, portanto, nesse
momento de cognição social convencionalizada (mais acentuada, ao que parece,
com palavras “não autóctones” ou derivadas) que se pode falar da tomada de
consciência linguística.[27] Num derivado como postumeiro,o contexto
consonântico (a existência de uma consoante labializada) parece ter ativado o
fechamento da vogal, que foi “compensada” com o uso de <o>.
Deverá ser, assim, a mesma ordem de fatores que justifica a existência de
timbres diferentes nas formas neológicas compostas aut[u]móvel e aut[ↄ]estrada,
a que já aludiu Rita Marquilhas. No entanto, também já ouvimos (ainda que de
modo isolado) a forma aut[u]strada, eventualmente por analogia com aut[u]móvel,
podendo considerar-se um fenómeno de ultracorreção.
A partir de meados do século XV parece ter-se iniciado a “deriva” (linguística
ou apenas gráfica), que afetaria os textos de um mesmo tabelião: até 1451
registam-se 33 ocorrências da forma clauſula (< clausǔla) e variantes, mas a
partir dessa data começa a aparecer a variante gráfica clauſo(l)la(s),
ocupando, entre 1452 e 1541 uma percentagem de 30%. A mesma cronologia é
possível estabelecer para a forma Reſſurreiçom (< resurrectĭōne) e variantes
gráficas: registam-se 6 ocorrências da unidade lexical ao longo desta coleção,
num período compreendido entre 1386 e 1459, mas a última forma, datada de 1459,
exibe <o> gráfico: Reſorreiçom(1459 MA 111), correspondendo a uma percentagem
de 16,6%. Num documento de 1490 é possível observar a variação <u> ~ <o> em
sílaba átona: jſtipulant[e] e jſtipolante (de stipulāri) convivem no texto do
mesmo tabelião, que apresenta igualmente jſtipulaçam/ eſtipulaçam (1490 MA
131).
O atual antropónimo Manuel(eventualmente, de origem castelhana) só aparece com
<u> na primeira ocorrência registada, que se encontra num documento de 1519:
Manuell (1519 MA 142); todas as restantes, que ocupam 75%, exibem <o>: Manoees
(1529 MA 148), Manoel (1521 Ped 143) e Manoell (1532 Tur 149).
Estes exemplos vêm provar que entre a pressão exercida pelo sistema
linguístico, a pressão do que soa bem ao ouvido e que é bem aceite pela norma
(considerado mais próximo do standard), e os fatores individuais (por vezes de
natureza analógica) existiu sempre alguma tensão, pelo que a dimensão
linguística não pode separar-se da sociocognitiva. Inventariar o léxico de
forma a averiguar o peso relativo de cada um dos fatores em cada subsistema
seria uma ferramenta extremamente importante a construir para aplicar nas
Escolas do Ensino Básico de forma a proporcionar aos professores e às crianças
algumas regularidades ortográficas. Trata-se de aceder através de meios de
análise científica, de modo consciente, àquilo a que a criança acede de forma
mais ou menos inconsciente no momento da aprendizagem da ortografia da sua
língua materna.
1.2. Posição átona final
Invocando os exemplos apresentados pelo manuscrito de Toledo do Testamento de
D. Afonso II para sustentar a antiguidade da elevação da vogal átona final, Ana
Maria Martins refere que se torna «necessário alargar a pesquisa a outros
textos do século XIII, tanto para confirmar a realização de /o/ como [u] nas
formas do plural (…) como para determinar a localização e extensão geográfica
das realizações acima referidas» (Martins 2003-2006: 312).
Ora, uma particularidade dos textos mais antigos da nossa coleção é a de
apresentarem formas com <u> átono final: ſu, forma apocopada de ſuſo(1297 Alc
5),du(1321 Alc 17), por exemplo. Estão, igualmente, nesse caso, formas com
vogal nasal elevada: cũ (1291 Alc 3;[28] 1298 Alc 6, 3 v.; 1300 Alj 8, 2 v.;
1304 Alc 10, 2 v.; [29] 1315 Alj 15, 2 v.[30]), cum (1298 Alc 6),e formas
verbais de 6ª pessoa do pretérito perfeito: derũ(1298 Alc 6),furũ(1289 MA 1) e
uſarũ(1289 MA 1), não ultrapassando, em nenhum dos casos, o primeiro quartel do
século XIV. Na nossa opinião, deverão constituir latinismos gráficos, atendendo
à proximidade e familiarização dos notários com os modelos latinos, numa época
em que a língua carecia de uma tradição a nível da fixação escrita. Essas
formas são semelhantes às que já foram encontradas por Maia (1997: 392-395) e,
na nossa opinião, não deverão servir de pretexto para se prever a eventualidade
de uma evolução de tipo -[ǔ] > [u] > [o] > [u].
Já desde o século XIII, mas sobretudo a partir do segundo quartel do século XV,
registam-se nos documentos formas que, em vez de <e>, apresentam <y> e <j> em
sílaba tónica. O fechamento do timbre da vogal da sílaba tónica deve-se à
influência assimilatória de -u final sobre /e/ ou /o/ (< ĭ; ō), fenómeno que
habitualmente se designa de metafonia. Ao contrário do que aconteceu no
espanhol, a metafonia em Português (europeu e brasileiro) veio a tornar-se uma
característica da língua standard, como é sabido.
Os exemplos que a seguir apresentamos correspondem a formas historicamente
representantes dos pronomes demonstrativos neutros latinos (< ĭstŭ- e ĭpsŭ-).
Na zona que nos ocupa essas variantes surgem no século XIII, começando a
difundir-se apenas a partir do segundo quartel do século XV,[31] com a
frequência média de uma abonação por década. São, de facto, esporádicas essas
ocorrências e, na nossa opinião, denunciariam algum laxismo no respeito pela
relação inquestionavelmente opaca entre língua escrita e língua oral, por parte
de quem as deixava aflorar. Pensamos, portanto, que a forma yſto, que surge num
documento de 1291[32] a uma grande distância temporal da que se lhe segue, já
corresponderia a uma forma linguística viva na zona Centro do país, mas a
grafia tenderia a ocultar durante quase dois séculos o que era a realidade
linguística. Vejamos, esquematicamente, a cronologia das abonações registadas:
Uma outra forma a revelar o fechamento do timbre da vogal da sílaba tónica é,
já desde os finais do século XIV, a forma tudo, historicamente proveniente da
forma do neutro latino (< tōtu-). São raríssimas as abonações encontradas,[33]
como se verifica na tabela seguinte:
[34]
Por outro lado, a análise dos documentos agora em estudo prova que uma
tendência para fechar o átono final emerge em várias etapas da língua, e é
normalmente oriunda de focos geográficos periféricos ao mosteiro, rivalizando
com a coerção gráfica em voga no seu scriptorium. Quanto à primitiva área
galego-portuguesa, exprime-se deste modo Clarinda Maia:
Não deixa de ser surpreendente que os textos portugueses não nos
ofereçam formas em -u. É natural que desempenhe uma certa importância
o facto de os textos portugueses inseridos no presente estudo serem
algumas dezenas de anos mais tardios do que os documentos galegos,
correspondendo, portanto, já a um período de maior experiência na
fixação escrita em galego-português. Mas, apesar disso, na Galiza, há
ainda exemplos de grafias em -u no séc. XIV, (…). E nessa época já
não parece muito aceitável explicá-los apenas como latinismos
gráficos, devidos à rotina ortográfica dos copistas. Neste como
noutros aspectos, os copistas portugueses não só dão a impressão de
estarem mais experimentados na fixação em língua vulgar do que os
copistas galegos, como, por outro lado, parecem usar uma grafia mais
normalizada e uniforme que aqueles (Maia 1997: 410).
Conclui, deste modo:
Das considerações acima expostas, parece não poder invocar-se o
aparecimento do grafema -u para justificar que a pronúncia era [u].
Tal grafia resulta da influência da grafia latina e aparece mesmo em
zonas peninsulares onde não há a menor dúvida de que existia uma
pronúncia do tipo [o] (Maia 19972: 411).
A provar essa tensão que as duas forças (linguística e gráfica) provocavam na
mente dos tabeliães, no corpus agora em estudo, encontram-se dois tipos de
formas com <u> final, que apresentaremos nas secções seguintes:
1.2.1. <u> final em substantivos e adjectivos (< -ǔ )
É sob a mão de um tabelião oriundo de uma zona periférica ao mosteiro
(Pederneira), e no segundo quartel do século XV, que <u> gráfico final aflora
neste tipo de formas: juſtu, cunhu e pp[ubli]cu (1433 Ped 90). No mesmo
documento, encontra-se também o advérbio ſuſu.[35] A partir do último quartel
do século XV, aparece nos documentos, de modo exclusivo, a forma p[er]petuu
(1478 MA 122; 1478 MA 123; 1479 MA 124; 1491 Alj 133), perpetuu (1482 MA 125)
e, revelando crase, perpetu(1526 Ped 145).
1.2.2. <u> final na 3ª pessoa do pretérito perfeito dos verbos da 2ª e 3ª
conjugações (< -ǔĭt )
Algumas formas de pretérito de verbos da conjugação em -er(excecionalmente, em-
ar) prolongaram até tarde o <u> gráfico final, pois só a partir de 1383 o <o>
se impõe quase definitivamente, como “hipercorreção” perante a tomada de
consciência de uma mudança em curso. O <u> gráfico final só volta a aflorar em
documentos de meados do século XV, sob a pena de um mesmo escrivão (que as usa
de modo exclusivo), e, excecionalmente, no século XVI.[36] De qualquer forma,
mesmo dominando quase todo o século XIV, o <u> não ultrapassa a percentagem de
32% ao longo do corpus:[37]
acaeceu(1315 Alj 15), acaeçeu (1375 MA 48), deu (1372 MA 47, 2 v.;
1402 Ped 68; 1442 MA 98, 2 v.; 1444 Alv 100, 2 v.; 1451 MA 105; 1487
PP 129, 2 v.; 1491 Alj 33; 1515 SM 141), pareçeu[38] (1451 MA 105, 3
v.; 1460 MA 113, 3 v.), perdeu (1340 Ped 29), prometeu (1315 Alj 15);
rrecebeu(1350 AM 36), rreçebeu(1536 SC 150) e rrequereu(1460 MA 113).
As formas de pretérito deste tipo de verbos com <o> em posição átona final
recolhidas no nosso corpus são as seguintes:
ẽtendeo(1437 Ped 94), lleo (1541 Sal 152), meteeo(1491 Alj 133),
meteo(1541 Sal 152, 7 v.), moreo(1541 Sal 152, 2 v.), ofereçeo (1565
Alc 153), parçeo (1505 MA 138), pareceo(1422 MA 81; 1487 PP 129),
pareçeo(1383 Alj 53; 1396 Ped 62; 1412 Ped 74; 1415 Ped 77; 1421 Evo
80; 1442 SM 97; 1444 Alv 100; 1452 MA 106; 1491 Alj 133; 1496 Sal
135; 1515 SM 141; 1521 Ped 143; 1526 Ped 145; 1536 SC 150; 1565 Alc
153), perdeo(1491 Alj 133), pertençeo (1453 MA 107), pormeteo(1415
Ped 77; 1459 MA 110), prometeo(1460 MA 112), rreçbeo (1426 MA 85),
rrecebeo (1532 Tur 149), rreçebeo(1430 Cós 89; 1453 MA 107; 1455 MA
108; 1459 MA 110; 1460 MA 112; 1515 SM 141), rrecolheo(1515 SM 141),
rrequereo(1415 Ped 77; 1487 PP 129; 1496 Sal 135, 2 v.), rrequerreo
(1536 SC 151), tangeo(1526 Ped 145), uẽdeo (1448 Ped 102) e vendeo
(1521 Ped 143).
Importa salientar que o <u> final da terceira pessoa do singular dos pretéritos
perfeitos de verbos da 3ª conjugação (servir, partir, pedir, etc.) encontra-se
apenas num documento de 1326: pediu (1326 MA 19), só voltando a aparecer no 3º
quartel do século XV: pidyu(1460 MA 113), representando estas duas ocorrências
a insignificante percentagem de 6%. São as seguintes as formas com <o> final
extraídas do corpus:
abryo (1536 SC 151), cajo(1456 MA 109), cõprio(1334 Alf 25), partyo
(1415 Ped 77), pedhio(1436 Alf 93), pedio(1336 Alj 26; 1346 SC 34;
1437 Ped 94; 1444 Alv 100; 1472 TC 120; 1526 Ped 145; 1565 Alc 153),
pedjo(1402 MA 67; 1448 Alj 103), pedyo(1412 Ped 74; 1415 Ped 77, 2
v.; 1496 Sal 135, 4 v.; 1541 Sal 152), pidio(1442 SM 97; 1515 SM
141), pidjo (1392 MA 60; 1393 Alj 61), pydjo(1491 Alj 133), sayo
(1515 SM 141), ſayo(1515 SM 141), ſ[er]ujo(1402 MA 67), veo(1505 MA
138; 1507 MA 139), veoo(1505 MA 138) e veyo(1491 Alj 133).
A grafia <io>, como se vê, foi adotada desde os começos da fixação escrita,
eventualmente como forma de, na realização, evitar a convergência de duas
vogais altas e fechadas. Por outro lado, foram registadas formas de 3ª pessoa
de verbos da 3ª conjugação com cruzamento das duas grafias em três documentos
de meados do século XIV, sob a pena do tabelião «Ffernã Domjngiz»,
eventualmente com reduzida formação cultural: pidyou(1350 AM 36; 1351 Alv 37, 2
v.) e ſayou (1353 Vid 39). Curiosamente, no segundo quartel do século XV, um
tabelião em Aljubarrota escrevia pidjuo(1435 Alj 92), também resultante do
cruzamento das duas grafias. Esta flutuação, que leva ao uso simultâneo de <o>
e <u>,não é mais do que uma tentativa de adaptar a grafia ao som que o tabelião
eventualmente já pronunciava.
Estes dados cronológicos relativamente à terceira pessoa do singular do
pretérito perfeito vêm, mais uma vez, confirmar que <o>final correspondeu a um
gosto gráfico homogeneizador no sentido da standardização, apesar de a
realização [u] ter existido desde cedo. Assim, os dados parecem confirmar a
observação de Edwin B. Williams, para quem «the change was merely an
orthographic imitation of the -eo of veo» (1950: 61).[39]
Um argumento a favor da realização [u] para a vogal posterior em posição final,
a partir de finais do século XIII, é a existência de uma forma como yſtonum
documento de 1291, a que já aludimos. Ou seja, se a vogal tónica é realizada
[i] e não [e], esse fenómeno só se pode justificar por assimilação provocada
por [u] final. Os exemplos a apresentar o resultado da metafonia só voltarão a
aparecer a partir de 1444, o que mostra quão vão se torna, por vezes,
interrogar as grafias para averiguar a dinâmica linguística.
É interessante referir que por volta de meados do século XV as assimilações de
o final ([u]) à vogal inicial da palavra seguinte começam a aparecer refletidas
nas grafias.[40] É esse fenómeno de fonética sintática que revelam os exemplos,
com elisão de vogal final ou assimilação desta pela vogal inicial da palavra
seguinte: «Mẽd'Afomſo»/«MẽdaAfomſo», 2 v.‘Mendo Afonso' (1448 Alj 103),
«Fernãda Afonſo» ‘Fernando Afonso' (1456 MA 109), «Fernãd'Afomſo»/«Fernãda
Afomſo» ‘Fernando Afonso'(1462 Mai 114), etc.
2. Conclusões e pistas para investigações futuras
A tensão entre as tentativas de standardização e as tendências individuais
ativadas pela pressão intralinguística são uma dimensão extremamente importante
na consideração da evolução do vocalismo átono português, particularmente no
fenómeno que agora nos ocupa.
Os dados analisados neste artigo revelam que durante o período abrangido pelo
presente estudo (sécs. XIII-XVI) existiam para /o/ átono inicial as realizações
[ow], [o], [u] e [ø]. Na elevação da vogal átona em posição interior, são
escassas as abonações que ilustram a ação exclusiva do contexto vocálico
assimilatório referido por Herculano de Carvalho. Por vezes, a situação de
hiato também favoreceu o fechamento e a redução vocálicas.
O fechamento da vogal átona em posição interior por condicionamento
assimilatório de tipo consonântico é bastante mais importante na consideração
deste fenómeno, e é bastante antigo, tendo-se difundido a partir de finais do
século XIV, como mostra a evolução lŏcāle> lugar e pōmar > *pumar. De facto, a
contiguidade de um fonema velar (/k/ e /g/) ou labial (/m/, /f/, /p/ e /b/) é
um contexto que favorece o fechamento de [o], uma vez que propicia o recuo na
articulação, o arredondamento e a labialização da vogal. Assim, nos casos em
que não se verifica qualquer condicionamento vocálico assimilatório (referido
por Herculano de Carvalho), todas as formas apresentadas com fechamento de
vogal átona evidenciam o contexto consonântico apresentado: Alcubaça,
Cuſtãça,fugaça, lugar,mulher,pumar, ſtrumẽto e ſubceſores.Por outro lado, a
quase totalidade das formas que apresentam condicionamento vocálico
assimilatório (ocasionalmente, o elemento fónico condicionador é uma semivogal)
exibe, igualmente, um desses fonemas em contiguidade com a vogal em causa:
cõpuſyçõ,cumunalmẽte, cuſtume,furtujto,futuro,mũturo,Purtugal(epurtugueſes),
puſtumeiro, rrecuciliaua, ſubprior, ſubfiçienteeſubre dictos. Somos de opinião
que, mesmo neste contexto, a ação consonântica é bastante mais forte do que o
condicionamento vocálico.
O fenómeno que, na nossa opinião, corresponde à tomada de consciência da
mudança corresponde ao que designamos de “hipercorreção” e que consiste em
grafar com <o> palavras em que seria mais natural, de acordo com a sua origem,
manter <u>gráfico. Esta tomada de consciência surgiu em finais do século XIV
[41] e afetou, sobretudo, palavras com contexto de hiato (continoar, por
exemplo) ou com <u> como grafema vazio, palavras de origem árabe, empréstimos e
palavras derivadas (almoxarife, *almoinha, *cedola, *postomeiro, etc.) Este
tipo de hipercorreção é um fenómeno distinto da “réaction savante” a que alude
I. S. Révah, mas deverá ter-se generalizado analogicamente de forma tão intensa
que, em certos casos (como em almoxarife <al-muxrif) veio a integrar a norma.
Deverá ser a mesma ordem de fatores que justifica a existência de timbres
diferentes nas formas neológicas compostas aut[u]móvel e aut[ɔ]estrada, a que
já aludiu Rita Marquilhas.
É ao entrarmos no segundo quartel do século XV que encontramos as primeiras
formas com desaparecimento de vogal átona, sempre no contexto consonântico
mencionado: Paſca(1423) e almxhariffe (1428); já na segunda metade do século,
regista-se poua (1477) e Mafora (1465), esta última com epêntese de o. Nas
formas derivadas, o primeiro testemunho que possuímos de redução e
desaparecimento é de 1452: poſtmeiro.
Quanto à justificação para a realização [o] átono no Português do Brasil,
pensamos que deverá ser de natureza simultaneamente cognitiva e social. Um
colonizador que nascesse por volta de 1480 conheceria certamente a realização
[u] em voga, mas:
(i) ou porque, à medida que entravam novos vocábulos na língua (com os novos
horizontes socioculturais soprados pelos ventos dos Descobrimentos e do
Humanismo italiano), a difusão demoraria a atingir todo o léxico;
(ii) ou por ter sido adiada a convencionalização social desta pronúncia, devido
aos fenómenos de hipercorreção que se propagaram analogicamente;
(iii) ou porque a realização fechada seria apenas conhecida na franja Centro-
litoral portuguesa (onde se viria a constituir a norma) ou atualizada por
certos estratos sociais, que não participaram na onda colonizadora inicial;
(iv) ou porque no Brasil (e nos falares crioulos) o fenómeno teve novo recuo em
contato com os falares indígenas;
a verdade é que a realização [u] átona não se enraizou na consciência coletiva
do povo colonizador. Se pensarmos que no Brasil existem folhinha e fôlhinha bem
como corpinho e côrpinho, com realizações e significados diferentes, tenderemos
a reabilitar a proposta de Marquilhas: é que «cada nova palavra criada em
português ainda hoje resiste nas suas pretónicas à submissão sistemática a essa
regra porque ela terá sido originalmente desenhada para outro tipo de vogais
átonas» (2003: 18). Também não se deverá negligenciar a perspetiva
sociolinguística já abordada por Naro:
There is also an independent social factor to be considered in the
case of Brazil. Contrary to the situation found in other languages
exported to the new world, in Portuguese the European pronunciation
(as opposed to syntax or other parts of grammar) seems never to have
constituted a prestige standard (Naro 1971: 638).
A existência de formas como yſto (1291), já encontradas por Maia na primitiva
área galego-portuguesa, não deixam margem para dúvidas sobre a antiguidade de
uma realização [u], em final de palavra. Da forma pronominal tudo, única
documentada que conhecemos, a primeira abonação que possuímos é de 1375. Não
podemos descurar o facto de a grafia em <o>ser a grafia convencional, tendente
à standardizaçãoortográfica, e ter ocultado durante séculos a realidade
linguística. É sob a mão de um tabelião oriundo de uma zona periférica ao
mosteiro (Pederneira), e no segundo quartel do século XV (1433), que <u>
gráfico final aflora nos nomes e adjetivos: juſtu, cunhu e pp[ubli]cu. Também
alguns casos de fonética sintática em nomes próprios revelam sensivelmente a
mesma cronologia para o fechamento (neste caso, supressão) de [o]: Mẽd'Afomſoou
MẽdaAfomſo, 2 v.(1448).
O <u> gráfico dos verbos da 2ª conjugação parece ter sido o único a ser adotado
desde o início pelos escribas, mas apenas se manteria nos textos até aos finais
do século XIV; quanto ao da 3º conjugação, surgiria apenas excecionalmente ou
provocaria algumas hesitações em notários menos experientes.
O estudo empírico levado a cabo tem implicações teóricas relevantes, no âmbito
das teorias cognitivas sobre a aprendizagem do sistema ortográfico do
Português, como língua materna. Conhecemos as dificuldades que as crianças do
ensino básico têm ao grafar [u], que tanto pode corresponder a <o> como a <u>,
mas revelam-se insuficientes todas as tentativas de diagnóstico e prevenção do
erro. Na nossa opinião, uma das razões para essa insuficiência poderá ser a
ausência total de estudos sobre este fenómeno, a partir de evidência histórica.
De facto, aprender a ortografia implica compreender a relação entre sons e
grafemas, ou seja, dominar a forma convencional de escrita das palavras. Neste
sentido, o erro ortográfico tem sido um facto preocupante e pouco compreendido
no contexto da aprendizagem da escrita. Ora, os mecanismos cognitivos acionados
na fixação escrita dos sons da linguagem por uma criança, e a variação e
flutuação daí decorrentes parecem ter sido os mesmos que operaram na produção
notarial, no processo de fixação escrita do novo romance (galego)-português.
Este tipo de estudo, ao fomentar a relação entre cognição e mudança poderá
conduzir a uma nova dimensão nos estudos de Linguística Cognitiva, extremamente
útil ao professor de Português. Uma reflexão sobre qual a dimensão que
historicamente foi precedente (o social e a norma) ou o individual (e
cognitivo) bem como a inventariação lexical associada às combinações
fonemáticas (já que é a combinação fonemática dentro do Léxico que gera a
mudança que acabámos de estudar) poderão ajudar a formular regras (e,
eventualmente, a elaborar programas informáticos de natureza lúdica) para
combater o erro ortográfico <o>/<u> nas Escolas do Ensino Básico.
De facto, os mesmos problemas que se colocaram aos escribas medievais na
fixação escrita do português são os que se colocam às crianças na aprendizagem
da ortografia da sua língua materna, pois são de todos os tempos os problemas
de aprendizagem de uma língua, na sua intrincada relação oral/escrito.