O que resta da Revolução dos Cravos
40 ANOS DE ABRIL
O que resta da Revolução dos Cravos
Antonio Tabucchi (1943-2012)[1]
Ao reviver o filme da memória, a primeira imagem da "Revolução dos Cravos" que
me vem à cabeça é a do meu amigo Alexandre O’Neill, grande poeta do verso
trocista cuja vida antissalazarista foi marcada por detenções, perseguições,
pela apreensão do passaporte, fugas limitadas. Estamos em minha casa em Itália,
a 26 de abril de 1974; no dia anterior os militares entraram em Lisboa,
prenderam o Presidente do Conselho Marcelo Caetano, o seu guarda-costas e todos
os agentes da polícia política, ocuparam a televisão e encerraram os
aeroportos. O Alexandre encontrava-se em Genebra e devia voltar a Portugal.
Apanhou um comboio e veio para minha casa. Estamos sentados à frente da
televisão, o Alexandre de vez em quando salta a pés juntos e abraça as pessoas
que aparecem no ecrã. A RAI está a retransmitir as imagens da televisão
portuguesa, as pessoas que o Alexandre abraça estão a sair da prisão de Caxias,
uma fortaleza perto de Lisboa para onde Salazar mandava "de férias" os
opositores do regime. Os prisioneiros do regime tinham um ar perdido e quase
incrédulo, enquanto a multidão os acolhia lançando-lhes flores. Muitos são
intelectuais, escritores, artistas, ativistas políticos das várias correntes
democráticas. Alguns também eu os conheço, tive o prazer de os encontrar nos
meus dez anos de conhecimento de Portugal. O Alexandre chama-os pelo nome,
chora, ri, dança. Eu também danço. É bom celebrar com os amigos que regressam
"das férias", ainda que apenas pela televisão. Logo que possível fomos festejar
com eles pessoalmente. Quando tinha chegado a Portugal, dez anos antes, tinha-
me deparado com um país com um sistema político que Salazar havia copiado tal e
qual do Estado Corporativo de Mussolini. Um país fascista dotado de uma polícia
extremamente eficiente (a PIDE, Polícia Internacional de Defesa do Estado) que
nos anos trinta Salazar tinha organizado a partir do nazismo; uma censura
preventiva implacável que incluía responsabilidades de alto risco para os
diretores e jornalistas da imprensa, dos quais se excluíam apenas os
tipógrafos, chamados à corresponsabilidade em 1969 pelo delfim de Salazar, em
plena guerra colonial; e as prisões apinhadas de presos políticos. Os campos de
concentração, para não incomodar os poucos turistas, situavam-se nas colónias
africanas, por exemplo o Tarrafal, em Cabo Verde, zona deserta e de quarenta
graus à sombra, onde um dos maiores escritores da língua portuguesa, Luandino
Vieira, passou quinze anos de "férias", e que agora vive em Portugal porque a
sua Angola "livre" está nas mãos dos sátrapas assustadores e muito bem vistos
no Ocidente democrático. Também Mário Soares, secretário do Partido Socialista
clandestino, a quem Portugal deve a ordem democrática do pós-revolução e a
entrada na Comunidade Europeia, passou umas longas "férias" num campo de
concentração em S. Tomé, antes de conseguir refugiar-se em França. Se Portugal
se tinha esquecido da Europa, também a Europa se tinha esquecido de Portugal.
Quanto aos americanos, naquele tempo não tinham a pressa que têm hoje de abater
os tiranos, aliás, Franco e Salazar eram dois aliados preciosos e aos
presidentes dos Estados Unidos de então nunca lhes viria à cabeça a ideia de
"libertar" Lisboa ou Madrid. Os portugueses libertaram-se sozinhos. O 25 de
abril de 1974, que ficou na história como "Revolução dos Cravos", foi na
realidade um golpe de estado em sentido inverso, ao contrário de todos aqueles
conhecidos: as Forças Armadas insurgiram-se contra um regime totalitário para
restabelecer a democracia, e esta foi a verdadeira revolução, politicamente
falando. Seguiu-se também uma revolução popular, mas essa foi sobretudo uma
adesão entusiasta, uma explosão de alegria coletiva, uma espécie de embriaguez
de liberdade por um povo que tinha estado oprimido durante quarenta e oito anos
(o fascismo português detém o recorde de duração na Europa). A euforia desta
revolução propagou-se rapidamente, era contagiosa, e a partir de Lisboa
alcançou, num abrir e fechar de olhos, todo o país. Porque a opressão que
Portugal tinha sofrido não foi só política: fora social, cultural,
antropológica, e tinha reduzido os portugueses a um povo triste e deprimido,
deformando a natureza de um povo espontaneamente alegre e afável. E agora esta
alegria que lhes fora negada explodia numa festa coletiva. Mas era também a
festa pelo final de uma longa guerra colonial que havia ensanguentado o
Portugal do Ultramar (assim eram definidos Moçambique, Angola e Guiné), que
tinha dizimado quase uma geração de portugueses (a nascida nos anos 40), que
arrasara um país reduzindo-o ao luto e miséria pelo interesse dos poucos que do
Ultramar recolhiam/retiravam fortunas. E dada a consciência de serem carne para
canhão, e a sucessiva aquisição de uma consciência antifascista, e por fim a
ideia de uma revolta contra o regime que surgiu exatamente entre os militares
enviados para as colónias, pode-se dizer que paradoxalmente foi a África ainda
colonial a "libertar" o país que a colonizava. A descolonização foi o primeiro
problema que a Junta Militar Provisória teve de enfrentar depois destes
primeiros dias de celebração popular. E outros problemas gravíssimos, de
natureza social e cultural que depois da festa se apresentaram com toda a sua
intensidade dramática. Sobretudo a arriscada passagem de uma gestão militar
improvisada para eleições livres e uma democracia parlamentar. E, de facto, na
delicada fase de transição para a democracia não faltaram momentos em que essa
correu alguns perigos. Inicialmente, com a tentativa de restauração do general
Spínola, refugiado com alguns partidários na Espanha ainda fascista; mais
tarde, com as manobras de uma esquerda antidemocrática e sovietizante que
ambicionava um golpe de estado como o de Praga (em 1948) ou remava em direção a
aventurosos terceiro-mundismos cubanos. Os militares democráticos do 25 de
abril souberam impedir ambas as tentativas: a segunda, talvez a mais
traiçoeira, foi impedida com uma capacidade política extraordinária, sem
recorrer à força, devido a um manifesto, chamado "Documento dos 9", porque foi
assinado por nove oficiais democráticos, que desencorajou a tentativa
aventureira dos estalinistas e dos revolucionários improvisados. Concebeu-o o
coronel Ernesto Melo Antunes, um oficial leal para com o seu país, um
intelectual admirável que foi o garante da democracia portuguesa e um dos
autores da "Revolução dos Cravos". Gosto de o recordar nesta minha breve
evocação desta época. Foi um grande e caro amigo meu e Portugal deve-lhe muito.
Mas penso que todos nós devemos algo a quem viveu para tornar melhor a nossa
Europa. O que resta dum facto histórico determinante para um povo é a
capacidade deste permanecer na sua memória.
[Tradução submetida em 15 de junho de 2014 e aceite para publicação em 3 de
setembro de 2014.]
Notas
[1]Artigo originalmente publicado no diário italiano La Repubblica, em 21 de
abril de 2004, com o título "Quel che resta della rivoluzione dei garofani".
Traduzido do italiano por Bárbara Filipa Gomes Pinho (Aluna do 3º ano da
licenciatura em Línguas Aplicadas, Universidade do Minho), sob a supervisão do
docente Emanuele Ducrocchi.
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