Geração Europa? Um Estudo sobre a Jovem Emigração Qualificada para França
RECENSÃO
LOPES, João Teixeira
Geração Europa? Um Estudo sobre a Jovem Emigração Qualificada para França,
Mundo Sociais, 2014, 107 pp.
ISBN 9789898536396
Victor Pereira*
*Université de Pau et des Pays de l'Adour, Département d'Histoire, Domaine
Universitaire, Avenue du Doyen Poplawski 64000 Pau. E-mail:
victor.pereira@univ-pau.fr
Apesar de nunca ter desaparecido, a emigração foi, durante os anos 1990,
ocultada nos campos mediático e político. A entrada na Comunidade Económica
Europeia, o crescimento económico e a instalação de imigrantes em Portugal
pareciam fechar o longo ciclo emigratório do país, sinónimo, para muitos, de
atraso. Os emigrantes, regularmente descritos de forma depreciativa, eram
símbolos de um Portugal arcaico que desaparecia rapidamente e
irreversivelmente. Assim, cientistas sociais que se tinham debruçado sobre a
emigração nos anos 1970 e 1980 passaram a estudar a imigração a partir dos anos
1990. A vontade, legítima, de mudar de tema de pesquisa, a novidade que
constituía a vinda maciça de trabalhadores estrangeiros para Portugal, a
inserção em redes internacionais de investigação, o financiamento pelos poderes
públicos de estudos sobre os imigrantes, explicam o desenvolvimento dos estudos
sobre a imigração enquanto a emigração já não atraía grande interesse.
No fim dos anos 2000, o volume da emigração aumentou e a saída de jovens
licenciados tornou-se um tema mediático e político. A incapacidade de reter no
país a população inseriu-se, de novo, na argumentação política, à semelhança do
que Oliveira Martins (1956)já notava no fim do século XIX, apresentado a
emigração como o barómetro da vida nacional, marcando nas suas oscilações a
pressão do bem-estar metropolitano (Martins, 1956, p. 207). O regresso das
saídas maciças quebrou a retórica, partilhada pela maioria dos atores
políticos, segundo a qual Portugal era doravante um país europeu ' i.e. rico
e desenvolvido ' como os do Norte dos Pirenéus. A focalização sobre os jovens
licenciados qualificados demonstrava que as estruturas económicas portuguesas
eram incapazes de absorver, ao contrário dos outros países europeus, uma mão-
de-obra qualificada. A emigração questionava vários anos de discursos políticos
sobre a modernização do país.
É neste contexto que surge o livro de João Teixeira Lopes, resultado de uma
encomenda da Direção-Geral das Comunidades Portuguesas e dos Assuntos
Consulares. O autor esclarece, logo na introdução, que a emigração considerada
como não qualificada é ainda maioritária nos fluxos para a França. A emigração
qualificada dirige-se principalmente para a Inglaterra, a Alemanha, o Brasil e
a Suécia. O autor justifica o estudo destes jovens emigrantes (com menos de 35
anos e possuindo uma licenciatura), porque são invisíveis; sem registo pelos
aparelhos estatísticos nacionais ( ), sem rasto nas autoridades francesas e
portuguesas, que raramente contactam (p. 2). Esta justificação é pouco
convincente, porque esta invisibilidade não distingue os emigrantes
qualificados dos não-qualificados: também não se pode quantificar com
precisão os trabalhadores não qualificados que poucas relações tecem com as
autoridades. E estes últimos são bem mais invisíveis no espaço público que os
primeiros, aos quais foram dedicados vários debates, artigos e programas
televisivos.
Para realizar este estudo e entrar em contacto com jovens qualificados
portugueses, além do uso das redes sociais (facebook, linkedin), Teixeira Lopes
apoiou-se nas várias instituições portuguesas em França (embaixada,
consulados, bancos, jornais) e em alguns dirigentes associativos portugueses
ou de origem portuguesa durante as suas quatro estadias em França. No final,
Teixeira Lopes recolheu 113 questionários (muito deles preenchidos na internet)
e 14 entrevistas. A apresentação dos dados quantitativos e a restituição dos
percursos de vida dos entrevistados constituem a grande maioria do texto,
formando uma pertinente fonte e permitindo conhecer as maneiras de ver dos
próprios emigrantes, fora de qualquer mediação. O próprio autor qualifica o seu
estudo de exploratório (p. 87) e admite que a sua amostra não é de todo
representativa dos portugueses, de 20 a 35 anos de idade, que emigraram para
França depois de 2008.
Dos questionários e dos 13 retratos sociológicos (uma das entrevistas não
forneceu dados suficientes para compor um retrato) ressalta, como era de
prever, que a maioria dos jovens emigrou porque não tinha emprego, ou porque
carecia de emprego estável e bem remunerado, em Portugal. A emigração surge
como uma oportunidade para obter um melhor salário, fugir à precariedade e ver
as suas qualificações profissionais reconhecidas. João Teixeira Lopes considera
que a emigração permite a muitos destes migrantes entrar sociologicamente na
idade adulta (p. 88), escapando à precariedade e à instabilidade salarial.
Esta última hipótese, que não é comprovada nas entrevistas (quase nenhum
entrevistado menciona esta dimensão), deixa crer que antes das fundações dos
Estados-providências e das regulações dos mercados do trabalho, um passado
pouco distante em Portugal, quando a insegurança e a precariedade eram mais
agudas, a passagem à idade adulta era impossível.
Sendo exploratório, o estudo é principalmente descritivo e oferece poucas
análises sociológicas sobre os dados obtidos. Em muitos pontos, a investigação
parece presa à encomenda que lhe deu origem, caindo num certo nacionalismo
metodológico: focando-se sobretudo na relação dos jovens emigrantes com a
sociedade portuguesa (os motivos da saída, as relações com as entidades
portuguesas, os contactos com outros portugueses, o eventual regresso a
Portugal), a investigação não estuda em pormenor os campos profissionais nos
quais estão inseridos estes trabalhadores. Por exemplo, 40% dos inquiridos e 7
dos 13 entrevistados, tiraram uma licenciatura em fisioterapia ou em
enfermagem. Apesar destes dados, não há nenhuma análise aprofundada sobre os
campos da saúde, e mais particularmente da enfermagem, tanto em Portugal como
em França. Ora, no campo dos estudos sobre migrações internacionais, existem
trabalhos sobre as migrações femininas especializadas na saúde e no care.
Estas investigações teriam enriquecido a problemática do estudo e permitido
compreender a oferta de trabalho em França para jovens portuguesas no campo da
saúde. Na esteira dos trabalhos sobre as migrações das enfermeiras filipinas
para os Estados Unidos (Le Espiritu, 2005), seria útil perceber se
representações étnicas e de género não podem explicar a procura no sistema de
saúde francês de enfermeiras portuguesas, na sua maioria brancas, oriundas de
um pais católico, consideradas como culturalmente próximas e, por consequência,
aptas a entrar na intimidade dos doentes. Como os contactos que teceu João
Teixeira Lopes com instituições em França se restringiram às instituições
portuguesas, o papel de certos atores fundamentais nesta migração fica na
obscuridade. É o caso das empresas de recrutamento, que permitiram a vários
entrevistados encontrar trabalho em França.
Mais geralmente, o estudo carece de dados sobre o campo da imigração em França.
O contexto económico, social e demográfico francês não é apresentado. A
bibliografia apenas contém dois livros ' de síntese ' sobre a imigração em
França. Os principais autores deste campo ' Albano Cordeiro, Mirna Safi,
Abdelmalek Sayad, Patrick Simon ou Catherine Withol de Wenden, por exemplo '
estão totalmente ausentes. Estudos portugueses também foram esquecidos, como os
de Maria Ioannis Baganha sobre a emigração. Os trabalhos desta autora teriam
permitido a João Teixeira Lopes desconfiar dos dados dos Instituto Nacional de
Estatísticas que, para as saídas dos anos 1960-1974, são totalmente errados (v.
o quadro da página 9).
O estudo, sendo o fruto de uma encomenda oficial, acaba com três
recomendações : um mais forte investimento dos poderes públicos na internet
(uma diplomacia ativa online (p. 90), um estreitamento das relações entre os
novos emigrantes e as anteriores vagas de emigração (p. 90), e, finalmente,
uma aproximação entre luso-descendentes e novos emigrantes para criar uma
comunidade imaginada, ainda por fazer, traduzida imperfeitamente pela ideia de
uma geração Europa, aquela que se move à vontade na diversidade (p. 91).
Estas recomendações não deixam de surpreender. Em primeiro lugar, o uso dos
conceitos de comunidade e de geração' muito criticados nas ciências sociais
pelas suas instrumentalizações políticas ' parecem pouco oportunos. Como se
pode provar que a geração atual é mais europeia que a(s) precedente(s)? O que é
que isto significa?
Em segundo lugar, João Teixeira Lopes apenas se refere às relações baseadas na
nacionalidade ou na origem (no caso dos franceses de origem portuguesa) e nunca
nos laços da cidadania. A representação política destes cidadãos nunca é
referida. Ora a participação política dos Portugueses no estrangeiro é muito
reduzida (em agosto de 2015 apenas 78 253 Portugueses residentes num país
europeu se tinham inscrito para participar nas eleições legislativas e nas
eleições para o Conselho das Comunidades em Setembro 2015, apenas 651
portugueses votaram em França1) e poderiam ser propostas várias recomendações
para o seu incremento .
Apesar destas insuficiências, esta chamada de atenção para as experiências e
para o percurso de emigrantes não deixa de ser útil e merece prolongamentos
futuros, num quadro metodológico menos preso ao contexto estritamente
português.